quinta-feira, 11 de setembro de 2014

História com Camas

Após muitas peripécias e várias camas a que não me liguei, à média de uma por ano lectivo, aterrei na Baixa da Banheira, lugar que não passa pela mente de ninguém que exista, antes parecendo nome inventado por autor sul americano muito dado à gargalhada. Mas acontece que é real.
         Trabalhei e quase arrisco dizer que fui feliz nesse lugar atípico onde as ruas têm um número em vez de nome, as raças convivem numa mistura intrincada de desaguisados que metem revolver ou protestos de pôr interiores à mostra, as navalhas de ponta e mola sem evasivas. Ao fundo da rua treze, o emblema de marca: junto a um prédio cabisbaixo, arrependido da vida até às fundações, porta entreaberta, a cigana, sombra negra e larga  a avultar, atroava aos gritos por um filho, um marido, um qualquer coisa que lhe faltava.
           Então, o frenesim dos graffitis enchia grosseiramente paredes e muros, facto que me intrigava. Admirava-me que um desenho sem graça aparecesse tão repetido e mesmo sobreposto a negro ou vermelho em alguns murais espectaculares, a desfigurá-los. Havia um constante de gente barulhenta e diurna na rua e eu imaginava que, se pudesse sobrevoar a localidade, captaria um zunzum de vozes misturadas. Porém, no túnel do apeadeiro, a coberto da escuridão, quando os comboios já rareavam e os carris desiludiam de abandono, juntava-se uma chusma de encapuçados, de ar pouco abonatório e que nunca me molestaram, passando eu tanta vez entre eles, que se arredondavam estratégicos na única saída, talvez para me avaliarem o ímpeto. Habituámo-nos uns aos outros e ao passar, cumprimentava-os sem resposta. À meia noite, o apeadeiro deserto, não fora a sua presença e só o relógio da igreja me acompanharia. Porém, mal avistava o fim dos degraus, eles ali, apinhados e soturnos, a segredar o que eu imaginava serem códigos e podia ser outra coisa. 
          Seis anos a habitar uma casa tão despida de tudo que não se entende a permanência. Só pode ter sido um caso de amor bicudo.
A verdade é que foi o lugar onde mais gostei de viver. Sem esquentador, frigorífico, aspirador…nada. Pela segunda vez, dormia num divã que eu mesma adquiri. Agradava-me a simpatia da proprietária e o facto de pouco frequentar o que era seu. De imediato, senti a casa como minha e sacrifiquei tudo o resto a essa ligação independente. No entanto, a cama de que tenho mais saudade é contemporânea do tempo em que levei comigo a mana  caçula e adormecia num colchão que transitava todas as noites para o chão de alcatifa, ela a dormir no divã. Nesse lugar onde caía semi morta de cansaço, arranjei uma rinite matinal e persistente que me fazia chegar ao trabalho com uma copiosa constipação que só desencostava perto do almoço, após a derrota de dois maços de lenços.
Foi um tempo de magros períodos de sono. Ainda assim, sonhava histórias cheias de voltas, sempre a cores e com muito pormenor. Lamento não as ter descrito. Além de um enredo gracioso, eram bem-humoradas e “acabavam bem”, coisa que hoje já não consigo; quando dou por mim estou a enterrar os personagens, a trucidá-los sem mais nem quê, sinal de que tenho de parar a escrita ou ainda monto uma agência funerária. Nessa altura, acordar era uma curiosidade feliz. Todas as manhãs, pesadelos adormecidos ou a desgostar da pernoita na alcatifa, era surpreendida pela memória de sonhos que me predispunham para o dia.
Seja como for, algumas camas depois, tenho saudade àquela independência e leveza de dormir e acordar. Que não tem volta, bem o sei. Porque o seu nome é juventude e não outro. No céu onde decerto está, a minha boa e idosa hospedeira deve rir-se ainda do tresloucado de afirmar que só em sua casa dormi a contento. Tive o cuidado de lho dizer em vida. Reitero agora na morte. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

História com Camas

O período em que menos valorizei a cama correspondeu à necessidade de a habitar em permanência no infecto-contagioso. Ficou-me a ideia de poder levantar a cabeceira com uma rodinha e o desconforto de um resguardo de oleado sob o lençol. Na convicção de que morreria de tristeza no local, fiz petições e o mais que consegui para mudarmos de residência (a doença e eu) e fui parar a um sanatório. Esse tempo de internamento prima pela variedade, há os episódios patuscos, tristes, românticos, ternos e até um com veia policial. Digamos que a minha experiência foi a sério. A viver ao centímetro.
 Ora, para além da cama tradicional e normalíssima num quarto que partilhava com duas senhoras, havia uma outra que me pertencia e onde passava bastas horas – umas por obrigação e outras num exercício de voluntariado que muito me atraía. Era uma cadeira de repouso, com um colchão, almofadas e uma manta de viagem só para mim. Todos os quartos tinham uma porta-janela sempre aberta, em absoluta indiferença às rotações e translações da terra. Atravessando-a, cada doente acedia à sua cadeira no alpendre que prolongava o quarto. A minha, foi bem amada. Considerava-a um luxo e abençoava a ideia de constituir parte obrigatória da terapia diária, que cumpria escrupulosamente – durante duas horas ficava ali sentadinha, só a respirar. Era proibida qualquer actividade e a constância vigilante das enfermeiras não abdicava do rigor. O repouso da manhã e da tarde eram lei, mas a gestão do tempo restante dependia de cada um. O rádio do meu avô acompanhava-me o descanso mudamente, a fazer paciências sobre a mesinha ao lado da cadeira. Logo que as colegas se levantavam, ligava um botão urgente que lhe abria a voz, puxava das almofadas e recomeçava a ler um livro  ou a escrever as minhas longas cartas, decerto para castigo das poucas pessoas que as recebiam. Nessa cama de rua com certo ar de garridice bisbilhoteira, iniciei o bordado em ponto cruz numa toalha de mesa do sanatório que, a despeito de ter ensinado a um ror de gente, ninguém se propôs continuar; conversei longamente com colegas e enfermeiras; porfiei em ensinar a ler uma colega que breve me enjoou porque aprender dava trabalho e ler era muito aborrecido; escrevi aerogramas diários em nome dessa jovem que não queria aprender, a inventar uma relação que não existia e o resultado foi bastante imprevisto; ouvi muito desabafo de enfermeiras, muita queixa de amor, algumas lágrimas inevitáveis, dei por muita vida em espera, dentro e fora daquele casarão. As enfermeiras comentavam que os passantes olhavam a minha cadeira e gostavam de se chegar, a conversar um bocadinho. Então, o regulamento não autorizava os homens a parar nas nossas varandas; passavam vários, todos num olá breve. 
Sinto profunda ternura pela gente boa que ali encontrei, que me fez bem e acarinhou, o sector masculino a abrir alas para entrarmos primeiro no refeitório, deixem passar a nossa menina. 
A verdade é que o sanatório foi um bálsamo na minha vida. Ele inteiro foi a minha cadeira de repouso. E tanto a necessitava depois de tão funda guerra.

 (continua)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

História com Camas

Aos dezassete anos dormi pela primeira vez fora de casa. Em permanência. Quatro aspirantes a professoras dentro de uma instituição religiosa que acolhia crianças desamparadas. Aparentemente, não correspondíamos à condição – todas tínhamos família – pelo que dormíamos no fundo da camarata das médias, uma cortina a separar-nos. Tenho dessas camas uma matinal memória de luz, palmas e bons colchões. Sobrevivente de um colchão de esponja migada, os meus dedos correram com inusitado prazer um colchão a sério, que o corpo agradeceu deliciado. Depois de fins-de-semana complicados e insones, suponho que adormecia de imediato, mal o corpo derrubava sobre ele, num fundo de respirações de justo sono - as garotas adormeciam muito antes de nos deitarmos - que me sossegavam. Todas as manhãs um súbito de luz eléctrica e uma revoada de palmas nos feria sono e ouvidos. E, enquanto as médias ajoelhavam para rezar, nós acordávamos. Não tinha acesso à camarata – só podíamos entrar depois das vinte e uma horas –, a carga de preocupação era grande e, para lá da cortina, havia mais de vinte pessoas adormecidas. Por tais razões a cama servia  o propósito, propiciava-me o descanso. Como se a irmã das médias, que dormia com elas na camarata, me guardasse também o sono e isso o trouxesse calmamente, apagando tudo. E trazia. Convenço-me hoje que devo a esse tempo uns meses de resistência.  
Porém, aos dezoito, alguma coisa aconteceu na instituição. Mudou a directora e a equipa de professoras aspirantes dissolveu. Sozinha, fui integrada na camarata das meninas crescidas. Aprendi a rezar sentada na cama, a vestir-me e despir-me sem mostrar o corpo. E outras normas.
Nesse ano fiz serões maiores, preocupei-me e chorei mais, a doença e a tristeza foram fazendo ninho sem ninguém dar conta, eu a estranhar coisas parvas que nunca tinha sentido e não fazia ideia de onde vinham, os médicos a que ia, é gripe; Eu, mas não estou constipada.... Passavam-me uma receita para a mão, sorriam-me e despediam-me sem mais quê. Atribuíam a magreza ao fim do curso e natural excesso de trabalho. E a olhar-me a figura que nesse tempo até era airosa, receitei umas vitaminas.
Entretanto, a camarata perdera o efeito sedativo do ano anterior. Ouvia o respirar das outras; da minha irmã tão pequenina, a meu lado, o rostozinho a emergir da dobra do lençol que tanta vez lhe ajeitei no sono solto (a irmã responsável apiedara-se dela e juntou-a a mim na camarata, mesmo sem  idade para pertencer às crescidas); as idas e vindas da irmã das crescidas que, tal como eu, não dormia e tanta vez nos encontrámos as duas no deserto do corredor de dominó em ângulos rectos sobre o claustro, a sentinela difusa da luz de presença da camarata a vigiar o perfil dos armários. A irmã que, liberta do toucado, cabelo curto e castanho, tinha um ar gaiato e sonhador. Eu, enfiada num camisão informe. Sorríamos uma à outra e desejávamo-nos boa noite, a sua voz fina a acompanhar-me até à cama, na ternura que eu precisava imaginar, mas quem sabe era verdade. Porém, cada manhã apagava a noite. A irmã, toucada pelo véu quotidiano, renovava-se impermeável. Contudo, quando a febre me engolia hora a hora e eu resvalava calmamente para a morte, desimportada do mundo, a zeladora da mesa no refeitório, uma angolana da minha idade, irmã ela não come nem fala. A irmã arrastou-me escada acima, abriu a camarata, quase me deitou, a roupa a pegar-se-me ao corpo e às mãos desacertadas de fechos e botões. Pôs-me um termómetro preocupado que a tornou ainda mais alta. Em seguida, chamou o médico, hábito a roçagar corredor fora, os quadrados pretos e brancos uns para os outros, em alarme de lustro, onde é que ela vai que quase voa. E nessa hora vi-a de novo sem o véu, uma rapariga aflita. Ou foi da febre. Talvez.  
Depois, por entre peripécias de pouco jeito que me atrasaram por algum tempo, fui internada no pavilhão das infecto-contagiosas. Evidente, mudei de cama.

 (continua)

sábado, 6 de setembro de 2014

História com Camas

Aos onze anos, os meus pés a espreitarem por entre os ferros da bandeira da cama de ferro, ganhei um divã e inaugurei as minhas noites aerodinâmicas. Não sei se já tinha visto algum, mas ardia em curiosidade com um estrado todo em molas e um colchão completamente diferente, as camisas de milho substituídas por bocadinhos de espuma parecidos com a esponja do banho. Extraordinário. Dormir num colchão multicolor, com bocadinhos de esponja do banho, era de certeza bom. Da primeira vez tive mesmo alguma dificuldade em subir. Um colchão de esponja partida sobre um divã de molas muito flexíveis era um desábito e um nunca acabar de balanços. Mas todas as mulheres da aldeia fugiam dos carolos das camisas de milho, do restolhar ao mínimo movimento, das comichões que alastravam pelo braço ao meter a mão no colchão e mexer as palhas. Os novos colchões inflavam de qualidades, surgiam medicinais, tão fofinhos, tão quentinhos, a gente deita-se e a esponja ajeita-se ao corpo, macia que só visto. E não faltavam citações: os pais velhotes dormiam muito melhor, sentiam menos as dores, e etc, etc.
Longe de mim deitar culpas para o colchão de esponja que me acompanhou no quarto do fundo, ao longo de toda a adolescência. Mas a verdade é que nunca me habituei convenientemente ao baloiço e logo que uma das minhas irmãs cresceu, passei o divã. Também é certo que por mais que sonhasse que caía de muito alto, não voltei ao tapete que não havia, a cova em que dormia guardava-me de tais arroubos. Se calhava de sonhar com o Silveira maneta a perseguir-me escarninho, a esponja também me defendia; na câmara lenta de apanhar-me, os dedos dele chegavam-me sempre primeiro às costas e acordava em aflição, mas logo sentia os flocos da esponja junto à coluna, a proteger-me onde a mão dele preferia. E não foram poucas as noites em que ajeitei a esponja para impedir aquele braço diabólico. No entanto, também foi útil de motu próprio: o estrado de molas que vergava sem destino escondia os livros que eu entendesse e cabia sempre mais um; e depois podia acender uma pilha e ler sob os lençóis. Esclareço, não eram livros proibidos, eram apenas livros. É claro que a minha mãe os descobria porque era ela quem me fazia a cama e esquecia-me de os retirar. Mas nunca uma palavra, um olhar ou ralhete sobre.
Quando me emprestaram os primeiros livros proibidos, fui a correr lê-los. Decepção. “O crime do Padre Amaro” e “O Primo Basílio” pareceram-me romances normalíssimos e muito bem escritos. O meu pai apregoava, com exemplificação prática e geográfica, que os padres tinham as amantes que queriam e estavam cheios de filhos por todo o lado; ora, o Padre Amaro só tinha uma, Amélia, o que me parecia até um acto de amor maior; Por outro lado, Luísa de O Primo Basílio era a minha heroína, loira, branquinha, com cabelo fino e bonito; de certeza, bem penteado, que Eça de Queirós gastava folhas a falar das qualidades de um delicado fio esquecido na almofada e do que por ele se podia adivinhar da dama. E depois, sentia peninha dela, tinha ganas de a proteger, escravizada pela malvadíssima serva. Tudo isto só por gostar de dormir com o primo, sendo casada; como se o marido lá na caça ou no lugar para onde foi não tivesse os mesmos intentos. A minha aldeia tinha vários casos destes, resolvidos em bem (é verdade que ninguém tinha criadas, saiotes engomados e outros avios) e a morte da minha heroína foi-me surpresa triste. Não perdoei ao Eça. Anos de rancor. A prender o burro pela Luisinha. Só mais tarde, já muito adulta no BI, entendi que os dois livros estavam no índex do colégio, mas eram, afinal, literatura normal. Fiquei mais descansada.


 (continua)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

História com Camas

Um pouco mais tarde, qual sombra na peugada do meu jovem tio, vivi o meu momento ecológico e de “faça você mesmo”: camas de ervas e ramos de árvore, postas em cabanas de cana.  
O meu tio cortava as canas todas do mesmo tamanho, deitava-as umas ao lado das outras, atava-as com arame ou corda e fazia duas paliçadas que erguia depois em A, uma contra a outra. Mal as punha de pé e as unia em cima, espetava no chão o afiado das canas e eu passava a brincar no seu interior enquanto ele fazia a parte mais difícil, os dois triângulos que iriam fechar a “nossa” cabana. Unidas as partes, num dos triângulos abria uma porta e uma janela e eu eufórica, a entrar e a sair e a experimentar o nosso fecho artesanal. Ou assomando à janela vezes inúmeras. Quando me armava em carochinha,nome que me usava frequente, o tio ria, dava-me beijos nas bochechas, fazia-me uma festa na franja e chamava-me miga. E repetíamos vezes sem conta enquanto cantávamos as canções que me ensinava. A construção destas cabanas levava-nos (a ele) dois dias, mas dormia em nossa casa, talvez na cozinha ou na vizinha que era nossa prima. Nesse tempo, o meu pai trabalhava longe, saía à segunda de madrugada e regressava sábado à noitinha. Eu ficava no céu: sem gritos e sustos, sem dedos de tábua a arredar-me ou a puxar-me e com o meu tio preferido por perto. Afirma-se que as crianças são felizes porque não sabem que são. Contudo, eu tinha consciência de ser feliz.
 Concluída a obra, o meu tio punha pés ao caminho e ia pernoitar a casa. Voltava na manhã seguinte, com um saco grande cheio de livros e de jogos que ganhava nos concursos literários e de canto do colégio salesiano. Carregava-o no carro de madeira que usava para irmos aos cascabulhos e me passear por covas e cabeços eu a fazer, âââââ..., aos soluços por causa das saliências de pedras e raízes sob as rodas do carro a que ele imprimia velocidade, os meus dedos a enclavinhar nas paredes laterais, agarra-te bem, agarra-te bem, avisos que me pareciam nascer das suas costas em esforço.  
Depois de tudo arrumado no nosso esconderijo, líamos sobre um colchão de época - eucalipto, rosmaninho, tremocilha - que tapávamos com uma saca a rescender. Ainda hoje não entendo a razão por que não gosto de jogos, tanto jogámos o dominó de animais, jogo da Glória e cartas do jogo do burro, sentados gravemente no meio das cabanas, eu mais interessada nos bonecos do dominó que no jogo. Havia no ar a tonalidade única e esverdeada das canas atravessadas de luz e até a minha mãe gostava de ir espreitar-nos e ficar a ler um bocadinho ou a jogar dominó connosco, as vizinhas  embasbacadas, a pararem a lida, o jeito que ele tem. E voltavam aos seus afazeres.
Entretanto, esquecidos do mundo, jogávamos e líamos dias inteiros, até nos doer a cabeça. Foi assim que li os livros do Fantasma e do Rip Kirby e abordei os romances da minha tia mais nova. Não entendia quase nada, mas o facto de juntar palavras e saber novos significados dava-me um fôlego imbatível, semeado de interrupções constantes às leituras do meu companheiro. Por vezes, ele enjoava-me e mentia-me sobre ir embora, entregando-me aos cuidados de minha mãe; e aproveitava para ficar a ler descansadamente. Estas idas e vindas súbitas intrigavam-me sobremaneira sem me instaurarem dúvida. Quando "chegava", logo o abraçava contente, a submergi-lo de estranheza: como tinha conseguido em tão pouco tempo, se tinha ido e vindo a correr, se chegado a meio voltara para trás, por que tinha regressado, etc. No final da semana, o meu tio partia e eu ficava meia atoleimada, entre desgosto e orgulho, a tomar conta da nossa cabana. Mal o meu pai chegava, contava-lhe os prodígios operados; ele enraivava no meu enlevo e espatifava tudo. Depois, queimava as canas a resmungar, se quer fazer coisas, trabalhe; há aí muita terra para cavar.
 Lá se ia o meu ambiente verde e o cheirinho de eucalipto que ainda hoje me chama. É claro que debulhava em lágrimas com soluços de corpo inteiro. Sem outro resultado que uns gritos bem lançados que faziam as vizinhas assomar à rede da porta da cozinha e me descompunham o todo, em fuga para lugar seguro.
Por vezes, se o meu tio voltava, chorávamos os dois. E ele, deixa, o tio nas próximas férias faz outra, agora vamos a um joguinho de dominó, tá bem?
 (continua)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

História com Camas

As histórias que eu sei! Umas por tê-las vivido, outras porque aconteceram dentro ou fora de mim. E ainda as que nunca foram história, mas consigo agora vê-las assim. Como por exemplo a história das camas. Das minhas camas. Ainda não consegui entender por que razão não existem mais histórias com camas. Esclareço: histórias de cama todos contam, à boca fechada ou às escâncaras, em doce penumbra ou penumbrosas, grosseiras ou made in heaven, realistas e técnicas ou românticas e mergulhadas em souplesse. Deixo-as a contadores profissionais, que, feitos corajosos, mergulham de cabeça no maior enredo da humanidade, não existe coisa mais simples nem de mais extensa e abrangente interpretação. Tenciono, portanto, perder-me em pormenores de interesse exclusivo que pressuponho dissemelhantes de apimentados amores, bem e mal resolvidos, a duas, uma ou mais vozes. Quem não queira ler desista já, porque me preenchi toda de palavras para chamar aqui o raro lugar onde corpo e alma se abandonam e abandonados se restituem: as camas
Quando eu nasci, morreu na minha aldeia uma mulher ainda jovem e foi convicção geral que lhe herdei a alma. Suspeito que acertaram, a minha alma é enrugada em demasia. Portanto, ou a reencarnação existe, ou nasci com defeito que não é o tal pecado original que nem pressentimos, cujo até não nos faz diferença nenhuma, já que ninguém fica a rir. No entanto, não terá sido a natureza da alma que me levou para um caixotinho de fruta forrado com uma almofada e uns lençóis de ocasião que a solicitude desembaraçada da minha avó aprestou, rasgando um lençol seu que me vestiu e tapou. Devo a minha primeira cama, entre outros múltiplos e menores factores, à condição de miséria que o grosso dos portugueses vivia. Uma pobreza funda e sem resgate a que os políticos da época condenaram este povo que desde sempre lhes sofre os desvarios. Hoje, bem gostaria de atirar o caixote da fruta à cabeça de Oliveira Salazar e Américo Tomaz, mas tal não é possível. Sobra-me a intenção tornada propósito: no que dependa de mim, tal situação de miséria não se repete.
Esse berço improvisado, onde as gentes só de olhar vaticinavam num sussurro, “morre de certeza; é pequena demais, não se aguenta”, não me existe na memória e soube dele por mãe e avó.
A lembrança mais antiga de um leito vem-me da “minha caminha”. A “minha caminha” era o meu único bem e soube-me sempre a colchões de nuvem: em ferro, estreita - à época era-me bem larga -, com florinhas em vez de maçanetas, pintada em cor-de-rosa pálido, hoje dito “um tom pastel”. Não conheci cama mais comprida e que mais me tenha agradado. Se acaso lhe experimentava o fim, chegava com a cabeça a meio do comprimento da cama e os meus pés por mais que os esticasse, não tocavam na grade posterior. Concluía portanto, e com propriedade, que era enorme. Nela vivi experiências inesquecíveis: à parte as vezes em que os pesadelos me faziam cair e a achava alta demais, era perfeita. O meu tio ensinou-me a fazer uma barraquinha com o lençol de cima sobre os espaldares, tirávamos as quatro flores – que desenroscavam – esticávamos o lençol e depois voltávamos a colocar as flores sobre ele. E pronto. Depois íamos os dois ler, deitados na cama transformada em tenda. A pouca idade circunscrevia-me aos bonecos do Fantasma e do detective Rip Kirby e sua secretária suprema, óculos mirabolantes, deveras apreciável. Uma mola da roupa a prender o lençol e eu ficava a espreitar por uma janelinha; levar brinquedos era proibido, sujavam os lençóis. O meu tio entretinha-se a ler o completo de uma tarde, mas eu pouco aguentava e breve lhe pedia que me vestisse e calçasse para ir à rua. 
             Não me lembro de gostar da cama dos meus pais, havia nela um cheiro estranho e o meu pai não me pegava como o meu tio ou o meu avô, tinha dedos muito duros que me magoavam braços e pernas e não me fazia cavalinhos como eles. O meu pai não aprendera o tempero da seda carinhosa que passava nos dois. Há amores difíceis.
(continua)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Quotidiano

A vida é instante a chamar-nos. Bom, chamará com mais força a uns que a outros, que há quem seja duro de ouvido. Aprecio-lhe sobretudo as pausas. São tempos livres, jardins abertos, talhados a golpes de coração. Que é tempo livre o que passamos com amigos ou a preparar-lhes a chegada. Nos evangelhos há uma história – chama-se parábola - do filho pródigo que regressa e a quem o pai recebe com uma festança a desbundar que rói de ciúme o irmão que jamais o abandonou. Mas a festa não carece de filho, nem que seja pródigo. Bastam uns laivos de amor, simpatia, agradabilidade, e todo o regresso é uma alegria. Salvo, claro, se fomos convidados a sair. Não podemos regressar onde não nos querem. Poder, podemos, mas não faz bem à pele e amarfanha um bocadinho a alma. Garanto que, nestes casos raros, até espreitar é invasão. Se acontece, sentimo-nos entre larápio e tapete, o que também, diga-se, não gratifica por aí além.
Salvamo-nos nesses amigos fiéis. Na verdade descansamos neles, estamos de chinelo enfiado; ali o mundo não cai e nem o vento é agreste. Os amigos ajudam a construir o quotidiano do coração. Oh! O resto do mundo pode ser urgente, inadiável, novidade intrínseca, se tivermos gente deste calibre, sobrevivemos.
 Por acaso tive um dia quotidiano.