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sábado, 30 de junho de 2018

O Rasto da Água


Já escrevi de tudo sobre a água e a nossa relação. Mas escrevo de novo. Para repetir o prazer de falar dela. Da água. Amor sem tempo ou idade, isento de quebra ou tracejado.
Infância
Como em todas as relações de crescer, começámos com certa cerimónia. Do meu lado, respeito. Olhava-a de olhos baixos, um fascínio medroso e incrédulo a interrogar o breu espelhado do fundo dos poços, se eu caísse deixavas-me morrer. Por resposta, só o eco atordoado dos meus gritos. Depois havia a água bebível, carregada à cabeça em bilhas de barro içadas a pulso, e usada em economia de gastos. O agrado de saciar a sede deu-lhe primazia, ainda é a minha bebida preferida. E a água do banho, aquecida a lume de chão, duas panelas de ferro a borbulhar. Sempre o mesmo cuidado, água é líquido digno de valor e estima. E a praia que mal vi e logo o mar apagou tudo naquela excursão de garotos cuja finalidade era outra. Eternidade na solene meia hora de fascínio estival. É possível que a lembre mais e melhor que os intervenientes directos. Depois, havia a água encanada a regar as laranjeiras e que, se desencanava, era botão a desatar a histeria possessa e asneirenta de meu pai, bem mais precioso que topázios jorrando lapidados da abertura do cano. No tanque comum de lavar roupa, preocupava-me assistir à transmutação da água que passava de líquido fresco e transparente onde as mãos apeteciam e as peças boiavam, a uma espessa e inexplicável camada cinzenta que guardava no fundo não se sabe o quê, e causava repelência. Os outros garotos a apararem a nata cinzenta, mexe!, e eu a recuar, mãos fugindo para as costas. E havia a chuva forte que batia no barro das telhas a respingar-nos, minha mãe correndo a proteger as camas com um plástico e eu temerosa do desastre, e se as parte.
 Desconhecia lagos e represas, rios, regatos, barragens. Fustigava-me a curiosidade uma fonte humilde que gorgolejava baixinho no meio de pinheiros, em doloroso desperdício que enterrava no pó castanho por entre carumas aprendizas de natação. Brotava do quadrado escuro de pequena cisterna a que chamávamos a nascente, e onde as cobras de água da nossa crença eram mais largas e compridas que braço de adulto. Puro terror jamais vislumbrado no embevecido caminho do cabelito de água a empoçar.  Por mim, era habitada por fadas, local de encontro de príncipes e princesas, assistente nocturna de maquinações diabólicas de lobisomens, talvez as cobras metidas ao barulho.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Teclas Sem Rumo Certo

O mundo não anda bem, evidência que se apercebe sem arte ou complexidade. Está. O mal do mundo implantou e vive um pouco como aqueles mamarrachos que estragam a paisagem e só vistos de longe causam menor dano; próximos, são puro mau gosto. Estão. Isto porque, em bom português, o que está nem sempre é. Pode ser. Ou não. Muito embora, em alguns idiomas, o verbo ser tenha dupla face e seja também verbo estar. Dois em um. Para nós, portugueses,  uma coisa é uma coisa e ela apenas. Ponto final. 
Contudo, será possível ser sem estar e estar sem ser?! Vamos por partes. Se eu for um sujeito dado à experiência e ligado ao que é físico e mensurável, se chamo ser ao que posso agarrar, puxar, empurrar de alguma sorte, direi que tudo que está, também é; e que é impossível estar e não ser (quem uniu os dois verbos linguísticamente, era decerto experimentalista).  Mas então para que foram os portugueses – e decerto outros povos – cindir o ser do estar. Seremos povo muito dado à meditação e filosofice. Pois, nem por isso. Percorra-se uma história da filosofia. Não há um único filósofo português (cuidado para não se inferir que não reflectimos e somos uns cabeças de vento; não é isso). É um bocadinho triste não termos um nome a soar na história do pensamento filosófico. Mas pronto, somos pobres, temos de trabalhar, damos uma no cravo e outra na ferradura e a reflexão é exigente e descompadece destas misérias. Que, não esquecer, a filosofia  nasceu do ócio. É isso mesmo que estão pensando, é filha do papo para o ar, do trabalho escravo, da subsistência assegurada. E, com o tanto que aquela gente escreveu e pensou, e de forma elaborada se propôs a entender o mundo – difícil e impenetrável a muita gente –, ainda por cima fazendo sentido, o que é deveras admirável e original, pois, dizia eu, não foi decerto a aplanar tábuas de navio ou a passar fome e a morrer embarcados a intervalos sem marcação, que filosofaram. Meus senhores, estes portugueses não tinham tempo nem requisitos para tal função. Se nem sabiam ler. Dir-me-ão que houve um filósofo que nada escreveu. Ora, não escreveu, mas sabia fazê-lo; além disso, tinha um secretário de qualidade visto que tanto sabemos do seu pensamento e da forma como discorria e ele mesmo nem uma letra redonda deixou. Podem redarguir, ah, e os letrados, a finura dos nossos gentis homens?! Desculpem, desculpem. Já sei, houve um rei poeta logo na primeira dinastia. Casado com uma santa. Tenho para mim que fez versos por isso, as santas podem ser maçadoras como esposas, uns madrigais sempre amenizam a aura de santidade e desvinculam da catequese; além disso, regaços de rosas, é ponto assente, avivam a poiésis. E cantigas de amigo, e isso. Ó meus amigos (sem cantiga), a poesia não é o espírito filosófico. São distintas formas de entender o mundo. E poetas, ó senhores, poetas nós somos quase desde o berço da nacionalidade como mostra a história do rei lavrador cujo, decerto, nunca pegou na enxada. E só não foi logo de berço porque não consta que D. Afonso Henriques tecesse madrigais à moirama ou a D. Mafalda que muitos dizem ser Matilde e até prefiro; aquilo era um mancebo que se enfurecia de tudo e nada e muito dado à matança de castelhanos e infiéis (se lhe batesse a bolha até os fiéis marchavam). É ponto assente, apesar dele, somos poetas sem evasiva. No mais humilde português saltitam versos e rimas (excepto no meu pai e noutros seres masculinos e femininos que saem ao primeiro Afonso da História). E portanto. Hoje há pretensões a filósofo de nome próprio, com carteira montada. Pois há. Mas, desculpem, José Gil, Eduardo Lourenço, Manuel Antunes e mais uns sábios que não recordo. Ainda não me convenceram que o século XX empurrou os portugueses para a congeminação filosófica. São pensadores, sim. Professores e estudiosos de filosofia, também. Filósofos, da mesma natureza dos alguns que conheço de outros tempos, isso não são. 
Pergunto-me se terá sido por materialismo puro que distinguimos os dois verbos, ser e estar. Ou se antes somos muito do talvez e da simultaneidade de ser e não ser. Ora, sei lá. Eu vim aqui para falar da República e do dia 5 de Outubro tão bem renascido que parece flor desabrochada (lá está a minha veia de poeta de meia tigela a fazer das suas). Vinha contar que estive a observar um panfleto daquele tempo em que a República-mulher aparece desnuda e forte, um autêntico colosso (diria que meia masculina apesar das  fêmeas evidências). Por estas razões, e por outras que não digo, se vê que só pode ter sido um homem a conceber tal figura.  Pois. Era mesmo sobre a República que vinha postar. Mas os meus dedos alienados por gorda pausa, agora fogem às ideias, encaracolam palavras acima e deitam o assunto às urtigas. Ébrios, é o que é. Escrevem sozinhos, pois.  Pobre de mim que não sou nem parente afastada de Lobo Antunes, aquele cuja mão escreve sozinha e de forma tão única dela, que para mim dava-lhe já a imortalidade (à mão) – consta que ele passeia enquanto ela trabalha; na volta, ainda se torna ocioso e põe-se para aí a filosofar. 
E portanto, olha, saem-me só parvidades.

Meus senhores, fica a imagem. Aquela. A da República sonhada: invencível e aguerrida. Por vezes, penso que se ausenta e não está. Mas sonho que é.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

À Descoberta

Não sei se as coisas mudam de acordo com os espaços que ocupam, mas talvez  a mudança nos dê a mão a nós e sejamos uns aqui e outros acoli. Nada de apôr ao mundo o poder que não tem. Coisas são coisas. Estão. E a beleza do quotidiano depende de um sujeito para existir, ele é a possível variação. Quase pueril, o belo vive-nos num raio de sol, na pena que a brisa levanta, na poeira nebulosa que o vento arrasta em remoinho, na pressa que agita braços e tranborda do corpo, evitando o passo dos velhos que hesita vagares e palpa chão.
            Contudo, há males que vêm por bem. São males convertidos ao outro lado, uma espécie de cristãos novos do nosso sentir. Foi assim no dia em que resolvi visitar o, para mim incógnito, Palácio da Ajuda. Que, com a minha pontaria e falta de tudo (não apenas falta de sorte), estava encerrado. E portanto. Visitei, quase em frente,  o Jardim Botânico, o mais antigo jardim de Lisboa. Data do tempo em que D. José, depois do terramoto, por ali mandou edificar, em madeira, a Real Tenda. E para lá se mudou, duvidoso de edifícios em alvenaria. É pois um jardim lindo e velho. Cheinho de artroses apesar da reabilitação. Onde os nossos reis e rainhas passearam devaneios e inquietações e olharam o Tejo sabe Deus com que olhos. Que acrescentaram de espécies exóticas e Junot saqueou sem dó. Que, provavelmente, os lisboetas olvidam, na febre de natas de Belém e Jerónimos e Torre de Descobrimentos e demais história de peso. E não apenas eles. Que o encontrei quase sozinho ainda que o curso de agronomia por ali faça das suas. Deambulei entre árvores centenárias de temíveis raízes egocêntricas, raízes fantásticas e denodadas que partem bancos de pedra e não se sabe se sustentam troncos e copa, se lutam contra eles. Em tudo, o mesmo se repete: com a idade, as raízes crescem, invadem, e o seu vigor ameaça a realidade aérea. Observei os efeitos do tempo em troncos esventrados, que sobrevivem com auxílio, bengalas de metal a endireitá-los, que a coluna vertebral das árvores também sofre. São árvores em fim de ciclo. E a gente passa com respeito por tão longa vida. Continuam como sempre: quietas, paradas, sujeitas às estações. A algumas o tempo esgarnou hastes e tronco, a outras encaneceu. Mas olham ainda a paisagem, contemplam de alto a beleza do Tejo, embebem nos barcos de brincar que ali vogam. Descanso num banco inundado por retalhos de luz que espreita em intervalos de folhedo. E creio que sou feliz. Sou feliz pelos braços soalhentos e olhos fixos no longínquo azul a colar no céu, pelo quase silêncio e por nada me ser exigido, imersa no consentimento de me deixar tomar pelo agora, levada por doce insinuação de sol e claridade. Flutuo. Olho por dentro as orquídeas das estufas que espreitei lá atrás. Lindas e únicas. Espécies vivazes, mas circunscritas. Vizinhas umas das outras.  Perguntei, achas que são felizes?, e ela, não sei. Pergunta retórica, sei a resposta. Nenhuma flor é feliz em cativeiro, sem o alimento dos olhos de outrém a catalogar. A indefinida existência de flor  é vaguidão.

Não sei o que pensaram D. José ou o senhor Marquês de Pombal ao construir este jardim. Mas sei, de certeza, o que sinto a passear dentro dele, a desvendá-lo em princípio de tarde clara, a inscrevê-lo e inscrever-me por surpresa e maravilha. Nas estufas reais e gradeadas, as orquídeas. Sem visitas. Flores lindas e máximas. Preferência de D. Luís. Fixas em retintas cores. Carnudas e arqueadas. Reunidas. Jamais vi flores de tal tristura.

domingo, 3 de setembro de 2017

Parque Eduardo VII e Eu

Defendo, acima de tudo, o prazer das pequenas coisas. Em primeiro lugar porque as grandes não me fazem parte do caminho. Em segundo, tenho em pouco apreço infelicidade e desamor sistemáticos. Claro que na viagem me surgem buracos negros, poços de ar, tempestades, o diabo a sete que, por vezes, me parece setenta.  E não, não julgo que sejam todos produto do acaso. Sei bem que muito contratempo vem de mim e por mim. Bom,  que é como quem diz, pior. Nesta linha, as minhas fantasias nada têm de extraordinário. Não são, infeliz e felizmente, de natureza erótico-sexual. Digo infelizmente porque a sua satisfação ia dar-me um prazer inédito e lupanar; e felizmente porque tal me exigia outra pessoa que, neste ambíguo, os prazeres solitários não são bem a minha praia; ora tudo que exige outros, acresce em dificuldade. E, portanto, nem sei se é pela razão de felizmente, se só porque sim, são fantasias  bem comezinhas. Mas não faço por menos: tomo-as por vitórias. Para que seja isto coisa entendível, conto  uma desde a origem.
Na casa dos vinte, eu não era nem um pouco inédita (ainda não sou). Como tanta gente apressada que enchia comboios e barcos, vivia na margem sul e estudava em Lisboa. À ida, os barcos atulhavam e sentia-se no ar um burburinho de vida retemperada pela noite; no sentido inverso, traziam conversas ciciadas e silêncios, bocejos, cansaço sem rédea e olhos baços sumidos em covas e papos. Os próprios pareciam extenuados, chiavam em queixa demorada e havia um desmazelo poluente que se espalhava pelos bancos adormentados e engolia o oxigénio do ar.  Por mais que arenguem os noctívagos, a noite existe, sobretudo, para o descanso do mundo. Não apenas das pessoas. De tudo que existe.
Nesse tempo, uma das minhas dilectas amigas estudava e vivia de empréstimo em casa de uma madrinha, em rua que não sei, muito perto do Parque Eduardo VII. Aos fins de semana, seguíamos ambas para a outra margem. O meu conhecimento com este parque de Lisboa remonta a essa época. Jantávamos na cantina da faculdade onde não se pediam cartões e rumávamos ao destino, com passagem por casa da madrinha para arrotearmos o saco de fim de semana. A atalhar caminho, atravessávamos pelo meio do Parque e estávamos no Marquês em três tempos. Suponho que, uma vez ou outra o tenha visto antes. Talvez por alturas de greve no metro, mas passei sem lhe ligar meia, toda afadigada com as horas, o meu tempo controladíssimo, a greve a arruinar-me o esquema. Ainda hoje não consigo saber as ruas que o percorrem, mas, pitosga e desorientada quanto baste, nocturnamente, deixava-me guiar pela amizade. Seguia ao sabor da sua sabedoria. Via umas sombras por lá e lembro-me de pensar que, com ruas tão iluminadas e bonitas logo ali abaixo, não se percebia para que andavam as pessoas a passear no escuro (não seguiam como nós, às pressas). Aquilo era mesmo um bocado sombrio, ouvia resmalhar atrás das moitas, mas pensava que fossem coelhos ou passarada. Passava o tempo a levantar os pés temerosa de covas e cabeços que nem havia e ríamos ambas feitas tontas. Havia gente que nos seguia, mas sempre pensei que o caminho não era só nosso e portanto até me sentia acompanhada. Até que certa vez um senhor que se demorava por ali, nos interpelou ao escuro e eu como sempre a pensar que queria informações, atrapalhada, agora pergunta por uma rua e eu não sei qual é. Quis saber o que andávamos a fazer àquela hora no parque. E eu, ela mora ali num prédio daquele lado e o caminho fica mais perto assim. Ele, isto é muito perigoso para duas meninas como vocês. É melhor descerem a rua por ali ou por ali - o braço a apontar as duas ruas paralelas -, não passem mais por aqui. E nós agradecemos muito, eu para a minha amiga, tu achas que há aqui ladrões ou assim? Mas a gente não tem dinheiro, o que é que nos podiam roubar, de certeza não queriam o passe... Mas não voltámos a passar por lá.

Um dia, fomos as duas à Feira do Livro. Eu e ela. Diurnas, diáfanas e sem tostão. Gostei do Parque até mais não poder que livros só vê-los. E nasceu a minha fantasia: deitar-me naquela relva. Todos os anos a olhava a pensar, “é este ano”. Olhava e havia lá gente solitária e acompanhada, deitada, sentada, a descansar,  conversar, namorar, ler. Pensava, “é só ir para lá, ninguém me nota”. Mas não conseguia. Anos e anos disto. Muitos. Muitíssimos. Dezenas. Passava de autocarro ou de carro e um enlevo no relvado, tenho de me deitar ali, tenho de lá estar nem que seja só uns momentos. Chegava outra Feira do Livro, tanta gente a flanar, ambiente propício, era só aproveitar. E nada. Saía a constatar num desalento, “ainda não foi desta”, os jacarandás, “aselha! Que é que custa ires lá para dentro e deitares-te, hoje é que era”. Até que houve um dia em que, hélas!, consegui. Entrei, andei lá por dentro como quem caminha sobre nuvens, deitei-me na relva, o volume de poesia de Ruy Belo sob a cabeça. E nunca o céu me pareceu tão azul nem o cheiro de relva tão seráfico. Não se descreve a frescura da terra sob o corpo um friozinho agradável a entranhar roupa dentro, a chegar-me à pele antes desapercebida; e o cheiro, a sensação do azul sobre mim, a coragem de estar ali. Foi um momento supremo. Coisa irrepetível. 

domingo, 11 de junho de 2017

Regressar de Gosto

A primeira ida à praia é, em cada ano, memorável. Sei, repito-me anualmente, post atrás de post, na tentativa de erguê-la das origens mais fundas do que em mim permanece de seu. Não que a procure cá dentro como um resíduo. Nada. Fica-me a pulsar nos sentidos e palpita na mente, é aroma disseminado no meu cheiro natural de velhice em combustões lentíssimas, células e sangue avulso. Em excesso. A escrita é a rasoira que esbarronda sobras, que não se pode viver entornando restos de maré pelos dias, salgada ao minuto, com búzios hipnóticos em sugestão de líquidas viagens multiriscos. Ninguém aguenta. E portanto. Resta-me verter esta paixão em palavras. Que há pior (ou será melhor). Lembro um amigo a contar de um amor que o arrasava; nascia-lhe à presença amada uma inquietação do corpo todo, o suor a nascer-lhe em gotas sobre o nariz, coração desengalgado. E era coisa que o preocupava, olhava-nos a inquirir, acho que morro, não sobrevivo à sua presença constante, os nossos encontros exaurem-me, aquela mulher espapaça-me a vontade. E nós, vida de amores comuns, invejávamos e falávamos em novidade e no hábito que aplaca corpo e espírito. Mas ele que não,  era exagero subtraído ao tempo e já abarbatava anos de constância; sentia-se insolvente, temeroso de futuro tão amorosamente desmedido. Não sabemos o que terá acontecido a esse amor invejado. Para nós, seu pequeno círculo de confidências, mora intacto na bainha interna do tempo, não desfaz. Mas o meu amor pela água salgada é outro,  não se diz em cataclismo. É bem-estar em crescendo desbordado e que conto, segura de que qualquer sensação tem com o sinal que a representa, a relação da foto com o original: são ordens qualitativamente diversas.
Amo a praia dos dias primeiros, a areia enrugada aos altinhos, lavrada de vento como deserto, sem peso de gente; aqui e ali, sinais da última maré. Traço-lhe uma vereda de passos e estamos quase a sós, sem ruído humano, gargalhadas, telemóveis, gasóleos de motor que abandalham  riscando ondas e ouvidos. E assim a apercebo melhor no seu natural de água que desmaia na areia e grácil se repete em risos pequeninos.Ondas são abraços espremidos de violência impactada por emoção e sentimento. Apenas abraços que não fartam, toma um, toma dois, toma três. E mais um,  e outro e outro. Não têm futuro? Têm sim, o porvir mora no abraço seguinte em tudo novo e semelhante ao anterior. E eu, corpo a adormentar na areia banhada de sol, atendo a esta voz sonora de ondas que nascem sabe Deus onde. Embalo em venturosas horas. Recarrego. 
Ao fundo, recorte de escura nitidez,  a serra deleita preguiçosa, estou aqui, moro nos cheiros agrestes e nas veredas, nas subidas a esfalfar, no esboroado em carne viva que os homens abriram. E dou flor e reverdeço em cada primavera. Ainda sobe por mim gente interessada. Ainda espero na reflorestação. Ainda sou eu à beira mar de pés na água. Não deixem perder as minhas espécies num fogo qualquer ou por alguma ninharia empreendedora. Acudam a quem, ano atrás de ano, vos guarda e protege.

E de repente, uma gaivota tão perto. E outra. Olho o dia a deslembrar. É hora. Levanta-se uma brisa. A água em espelho de sol encrespa de leve, as ondas deslaçam mais devagar e a serra postou-se em guarda sombria. Se eu tivesse uma casa nas dunas ficava até ao cansaço do sol a desaparecer talvez em raios rosados; ficava até que a brisa me derrotasse; ficava até que a noitinha estendesse o manto a empurrar-me, vai, queremos ouvir-nos uns aos outros sem testemunhas. Mas não vivo nas dunas. Dou-lhe as costas devagar. Despeço-me em promessas a que é já indiferente. Concentra-se. Começa-lhe a hora de ser para si mesma.

sábado, 10 de junho de 2017

Uma Obscura Árvore em Claro Sol

Há um prenúncio de calor na frescura da manhã que amarela soalhenta. Lá fora, o contentamento solto dos pássaros anda a esvoaçar na brisa bebé e infiltra pela janela semiaberta.  Sem gente, a minha árvore desinibe e entretém-se a sugerir,  ramos estendidos em insidioso convite de verdes, aqui e ali um eriçado de tronos barrocos que amarelam e, a seu tempo, tombam e morrem a golpes de vassoura, devêm lixo. Mas hoje são garridice vegetal, chamariz de células, laço de fita em pele arbórea. Que chama a algaraviada dos pássaros. Esta árvore, piano de sala que não tenho, é deus de zelo, sinaliza e guarda a casa em amplexo mavioso. Alberga melros, rolas, pardais e um  sem fim de ignotas espécies. Mansamente, centímetro a centímetro, tem-se aproximado e quase se debruça na minha janela onde a cloaca dos pássaros deixa restos que somem em  higiénica sacudidela. Perfilada, o corpo denuncia-lhe o esmero no lado campestre e a saudade de estar entre iguais. A minha árvore é um pequeno deus que não quer ser deus. Mas continua a crescer e elevar-se acima das outras, alegria sinfónica  dos habitantes alados. E minha. Se penso nela, logo a alma se enternece e me traz, vá-se lá saber porquê, o mar estival que sei de cor. O mar feito praia lisa e  que toda se oferece em movimentos suaves e lisonjeiros. Que beija os artelhos a convidar o resto do corpo, que vai subindo em frescura, mais acima, mais acima, mais um pouco. Até à plenitude liberta e inteira da osmose, a dissolução navegante de quem sobrevoa os males de viver e se dissolve no elemento aquoso. Que é  isto nadar: a profunda comunhão com a água, um enlevo suprarracional. A gente caminha pela estrada da razão, mas enleva no que dela  transcende. E que essa transcendência se firme e afirme por via também dos sentidos é a contradição mais bendita e benquista do ser humano. E nisto estou na Feira do Livro bordejada de lilás, os jacarandás num sorriso a escurecer, vieste. E eu perdida na sinuosa contorção dos ramos, anos e anos a ganharem a forma que me abisma em cada olhar, perplexa do mistério imerso na miríade florida e encaixada em nuvem, presa ao violeta intenso de um mais afoito, corpo de poesia declarada, vejam-me. E depois arranco-me e deambulo naquele jardim da alma que gosto de percorrer com vagar, a ler títulos, antevendo o que possa tornar meu. E nenhum momento é tão grande como esse em que desejo sem ainda ter (ah, o poeta, como ele sabe dizer isto). Por vezes, surgem-me pessoas da capa dos livros. Inexplicáveis. Porque sim. Agudamente. São sinais.  Livros que pedem, compra-me. Ou gente que quer ser vista. A relembrar-se. Porque não vejo o que lá está, escritores a olhar-nos do fundo da sua  seriedade, queixo apoiado na mão. Vejo sorrisos rasgados que troçam brandamente da minha pessoa. Comovem-me estas visões, querem o quê?!  

terça-feira, 30 de maio de 2017

Lavando Pincéis

Andar de bicicleta sabe-me bem. E ando pouco, qualquer nada me compromete os pedais: o frio, o vento, o calor em demasia, a pobreza das minhas forças nas subidas íngremes. Enfim, com tamanha esquisitice, é claro que estreito a prática. Nadar é outro prazer. E, ainda que não sejam comparáveis entre si, assemelho-os.  Aprecio o silvo da roda da frente no alcatrão de mistura com cheiros campestres que evolam, meninos que o sol levanta da cama. E esta sensação de surpreender o dia ainda em pijama e a bocejar, lembra-me o deslizar em água tépida que nos faz pertença do elemento aquoso: liberdades adventícias que venero sem templo, mas com rotunda pompa interna. E, porém. A satisfação que nelas o corpo pede, não depende em exclusivo de mim e, quem sabe por isso, seja maior a paixoneta. Se a bicicleta tem as suas leis, nadar exige-me inscrição em piscina, respeito horário e outras normas. Portanto, apesar do bento regaço da Rainha, nem tudo são rosas.
De acesso menos comedido há os livros, os filmes, algumas músicas. E a leitura e escrita bloguística. Que é sobre a blogosfera que hoje pesponto. Descobri os blogues casualmente, há um ror de tempo. E é verdade, dão a ilusão de conversa: há alguém do outro lado, não necessariamente em simultâneo, alguém que existe de facto e é assim como uma presença-ausência que está não estando. E o inverso. Sem os incómodos e interrogações que um eu além do nosso suscita, estou penteada, tenho uma roupa decente. Saltito de um blogue a outro e  posso acumular actividades sem ser chamada de mal educada. Posso comer, beber, cantar baixinho, assobiar, etc. Blogar transfere o interesse da mente para a ponta dos dedos. É, digamos, um meio cómodo para quem não quer chatices de gente à volta e deseja no fundo estar sozinho.   São os tempos modernos, a companhia virtual possível. Pronto, na verdade ainda não descobri se há companhia. Mas há alguma coisa. E, para quem não tem amigos ou os tem longe demais, ajuda, ensina, diverte, entristece. Mas não muito a sério.  Neste mar de palavras e opiniões escritas há, por vezes, diferendos.
Dizem-me que existem muitos mais motivos para frequentar blogues e escrever sobre qualquer tema numa espécie de intercâmbio com quem se desconhece. Pois existem. Mas só estou a falar sobre. Não tenho por objectivo esgotar o assunto. O essencial parece-me ser um certo desejo de não matar o tempo sozinho, embora seja também isso que acontece.
Sou má bloguer, descreio um bocadinho no modelo. Mas nunca esse pé atrás me fez desrespeitar quem está do outro lado. Se entro na casa de alguém, sou visita; portanto, posso até brincar desajeitada, sair de fininho e para sempre, mas não pretendo magoar.  Em cada “casa” apenas sei do exíguo de palavras mais belas ou diferentes das minhas, com outros saberes e plurais nuances. Porém, não os invejo. Aquilo a que chamo por vezes “inveja boa”, é antes o meu bater palmas, clap, clap, clap, por existir quem domine tal arte, sem pretender escrever como eles (seria incapaz, ninguém escreve como outra pessoa). Uns de nós – poucos – são escritores. Outros, como eu, são escrevinhadores. Sou outro eu, e é com este eu que sou que escrevinho. Nem poderia ser de outra maneira.

E não tem isto mistério .

sábado, 7 de janeiro de 2017

Nevoeiro

Subi a persiana e a fita enrolou a cumprir o calvário dos dias, em esforço e má vontade. Mas acordá-la assim cedo é dar-lhe direito de irritação. Convenhamos,  não é apenas acordar, ela sabe que vai ficar suspensa o dia inteiro. E estar assim representa, numa persiana, esforço de bailarina em pontas. Bem sei, não é graciosa, mas dançar em pontas não quadra com persianas. Emendo, dançar não é para todos. Creio que a persiana ficou com os orifícios em bico ao abri-los para o dia. Que eu olho em frente abismada, a realidade a tardar-me.  O largo voga dentro da névoa.  Maravilha-me esta espessura do ar, gotas minúsculas sem intervalo ou malha caída. A prenderem na roupa. Pesam nas pestanas e sobrancelhas e agarram-se desvalidas aos cabelos que encontram. E por ali ficam. Fiadas de colar de uma menina gnomo. Edifícios e pessoas encerrados, fechados dentro da neblina, e a cidade goza esta barreira de ziliões de gotas e aproveita para afirmar o seu ser secreto, comedido. A nuvem densa formou-se durante a noite. Agora está feita um volume de formas arredondadas que se espreita de qualquer avião a perder altura. As gentes a extasiar, oh, nuvens tão bonitas e baixas. E apontam o pescoço de girafa curiosa nas torres que espreitam o sol, bom dia! De súbito, a nave mergulha na névoa e o vidro da janela parece baço. Flocos correndo de mão dada a uma velocidade louca; ou os viajantes a atravessá-los num turbilhão veloz. Agora também o avião se queixa, estou sozinho. Mas lá à frente, destaca-se a linha luminosa da pista, halo atrás de halo, irrealidade nebulosa que cola na terra. Há algo de fantasmático numa aterragem feita com nevoeiro. Atracção de temor. Também.
Mas eu estou apenas à janela de casa, na tentativa de encontrar as copas das árvores, imaginando a idiotice dos automóveis lá em baixo, isolados pela névoa. Próximos, mas ignorantes uns dos outros. Murmuram desconsolados, estava ao amparo de um vizinho mais gordo que me segurava as correntes de ar e agora estou para aqui sozinho e a tiritar de gotas. E arrepiam-se a sentir o friozinho que escorre em listas pela carroçaria e faz poça no chão, uma covinha de nada que apara as gotas que deslizam, meninas ordenadas em obediência que não se desvia do caminho. Todos sozinhos, os automóveis. Imagino os passageiros dentro do avião que ronca perto. Antevejo-lhes o receio, e se chocamos, se o piloto não vê o sinal e enfia no espaço de um avião que sai?!  Mas também há gente mal acordada, de costas para a névoa. E gente que apenas quer chegar ao aconchego do lar, de um lugar quente, seco, terrestre.
Saio maldizendo a falta de pontaria, gavetas cheias de gorros, chapéus, bonés e nem um no carro. Mergulho no nevoeiro agora menos denso, a paisagem por detrás da cortina de gotículas, em silhueta graciosa. Que é tudo bonito se mal se vê, à luz da  possibilidade, quando ainda pode ser outra coisa. Passam as horas, mas não a névoa.  Perto do rio, a humidade condensa e revigora. Não sei bem como, descubro sem procurar uma loja de roupa usada. Tudo a três euros (saldos, saldos). De casacos a cachecóis. Deve ter estado sempre no mesmo lugar, a menina simpática do balcão disse que tem anos ali, mas foi o nevoeiro que ma trouxe. Sou-lhe grata e faço-me cliente. Ser roupa de outra gente, é-me indiferente. Precisava um agrado, sentir que algum trapo me assenta e posso comprá-lo. Saio com um casaco de ganga fora de moda, mas tão queridinho, duas saias, uma pacata, rodada e escura; a outra de garota de desenho animado, tão rocambolesca que me admiro  de mim metida numa mescla de castanhos, amarelos e roxos vivaços, mas tenho um lado meio louco que não abafo de todo e nem pretendo. Olho-a melhor, é uma saia de tendeira de mau gosto. Duvido. E compro. Apesar de a preferir noutra cor, eu sei que vou vesti-la, presa de amores por um lacinho quase invisível a meio da perna e por quem desprezo as cores de holofote ambulante. Viva! Contente, ganho a rua  sobraçando o meu saco plástico de haveres. Tomara que chegue a primavera para luzir o meu casaquinho fora de tom que vai ser moda em mim. Eu. Je. A luzir-me nem que seja no tanque da roupa (no tanque não, que dá pouco jeito, é bem capaz de a ganga me prender os braços). E ainda ganhei um vale de três euros para a nova colecção, que é como quem diz, a nova leva de roupa usada que chega dia 16. Isto é que é sorte de mulher.

E à medida que as horas correm no relógio, a névoa, que mal pôs um pé fora de casa, regressa em força. Às dezoito afoba-se em bancos de nevoeiro atrasados para um encontro, agarrando-se uns aos outros para se puxarem melhor e sussurrando sugestões,  anda, olha ali aquele espaço, aninha-te que é lugar de recato. E os automóveis num vagar de sonho, viajantes em câmara lenta. Caminhos inteiros pejados de veículos sem ninguém que se veja, que por dentro do nevoeiro as pessoas apenas se adivinham. Cartesianos, podemos pensar, não há vivalma, hoje são as máquinas a guiar-se descansadas, livres de ordens ou irritadiço disfarce de pontapé calcando pedais. Na ponte, seguimos o halo das luzes dispostas no céu para nós, espécie de estrelas fixamente aristotélicas que desdenham da iluminação normal, cuja, nesta noite de atmosfera saturada, sumiu de todo. E eu queria uma ponte infinita. E eu nela. A ir. Só a ir. No possível e impossível.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Pensamento Musical

A música não é apenas um arrebatamento de alma. Ela tem  efeito de chuva: lava e recupera fulgores de brilho originário, mata os mil seres nocivos e minúsculos que zanzam em volta de cada um e comicham o âmago. É nutriente essencial,  água que cai na terra a ensopar.
Somos barro que se reavê na música. Encarnado o verão áspero e seco, chegamo-nos a ela rotos e de fendas escancaradas. E a música invade docemente, toma-nos sem pedir licença, insinua-se como amada coleante. É bálsamo que apazigua os males de viver e  unifica os homens, a devolver-lhes plasticidade. A harmonia musical tem a suprema virtude de entranhar sem peso, dilatando o espaço. Quem sabe, somos apenas a amplitude onde paira.
Gosto dos concertos de domingo na Gulbenkian. Parecem-me mais caseiros, as crianças acompanham pais e avós e há um burburinho de vida no início e no fim. Os perfumes fortes estão mais atenuados (não sei que dá às velhas senhoras para usarem odores tão terríveis), as poupas de laca são menos poupas, as peles e jóias existem em comedimento recolhido, os “olhem quem ele é”, ausentes ou em pacatez de laços famíliares. Somos anónimos uns dos outros e só a música sobressalta, é esdrúxula.  Que, de ouvido, sou criança: não entendo nada e só gosto. Ora estes concertos para famílias são breves – cerca de sessenta minutos sem intervalo – e, no início, alguém explica às crianças (e a mim) o que vai acontecer – conta a história do que se vai ouvir -, identifica alguns instrumentos e ensina pelo menos uma particularidade da música clássica. É claro que escuto em esponja e as explicações me deleitam, é um admirável mundo estranho. Bom. Cabe-me divulgar outro factor agradável, são concertos mais baratos. Desta vez, a orquestra tocou três peças distintas, a primeira, de Mozart, sonoridades com ar travesso e saltitante a fazer lembrar o garoto irrequieto do filme Amadeus; A segunda, de Stravinsky, pareceu-me ainda com poucos traços russos, mas posso estar enganada que sou leiga; e a terceira de Mendelssohn, inspirada numa viagem a Itália cuja beleza o impressionado compositor musicou e é um esplendor soalheiro. E não sei qual prefira, em todas me senti ungida de divindade. Tinha um resumo de cada que já perdi e estou incerta quanto ao solo de violoncelo com o violoncelista de Matosinhos (Talvez em Stravinsky).  Amei. Se for para um céu, qualquer que ele seja, prescindo das harpas e da plangência dos violinos que sempre me parecem muito cheios de nuvem e sonho, duas belezas frágeis por contacto com a invariância tosca da matéria. Antes prefiro a afirmação melancólica e arrebatada dos violoncelos que mais me parece perdurar e a evocação campestre das flautas pastoris.

Que o meu céu é espaço aberto, respira-se. E ox-Alá.

sábado, 29 de outubro de 2016

Caramanchão

Nas traseiras da casa de meu pai há uma árvore copada e acolhedora, traçada para ser sombra. É o caso possessivo de uma criança que repousa agora em fundo adulto. Como não somos súbditos de sua majestade, o registo de posse aparece um pouco mais longo e sem apóstrofo, que os portugueses no registo de propriedade não elidem.
Neste Outono galhofeiro e de engano primaveril, é um prazer mirá-la abarcando a simpatia inalterada de mesas e bancos  fincados em chão que reverdeceu às primeiras chuvas. Acolhidos à meia penumbra da  sua sombra larga, rememoram risadas de verão, conversas de vai e vem e muita pausa em espapaçada escuta de si mais os barulhinhos campestres que entremeiam: desabafos de cortiça que estala ao calor do montado, latidos a passo de cão vagabundo, uma persiana que isola a sesta do brasido, o riso casado de crianças  brincalhonas, a ronda diabólica de moscas que padecem de inquietude.
A nossa arquitectura vegetal, clorofílica simetria de ramos em ternura curvada, alarga-se numa aura protectora. É lugar que insta a confidências e segredos em sussurro, enamoramentos do corpo e da alma, saudade batida de anos, mulheres que bordam lençóis de atenas, penélopes de variados nomes que anseiam em quotidianos sem esperança. Ou apenas gente que liberta os pés do aperto calçado e alça ao banco corrido o  latejar das pernas, em osmose propícia. Ou alguém que, pescoço curvado, se dilui no bendito hiato da leitura.
            Uma árvore que cresceu assim a chamar-nos, ramos estendidos, tão de conforto e beleza. Contudo, jamais eu ali pisara ou deixara repousar o pensamento. Na verdade, creio não a ter visto antes. Para mim, nasceu ontem. Só vemos o que nos permitimos ver. Vou a meu pai assoberbada em pressas de trabalho, desvarios de eliminar cheiros, preocupações de cortina fechada, a mente em clausura severa.
            Mas ontem foi o dia da minha maravilha contemplativa. E activa: Limpar mesas, bancos e acertá-los no chão (enterravam em declive perigoso), partir o bolo, trazer as canecas do chá que a tia gosta de servir - não há chá como o dela e mesmo que não seja verdade, é bombom bastante ela sabê-lo. Por companhia, a suavidade risonha e fresca de quem é jovem, o azeviche das sobrancelhas a chamar  um dedo maravilhado que há-de passar em delicadeza amorosa, olhos de tanta promessa que me receio de vê-los chorar e um sorriso que desvaira de inveja a mona lisa, cuja, para nosso bem e mal dela, nem sabia sorrir. A minha princesinha, de si inteira, é cada dia mais linda.
            Na calidez  da tarde, o meu pai a encostar a enxada ao tronco e estender mão de agrado para uma fatia, “eu nunca lancho”. E sentou-se a mastigar, olhos de infinitos longes, a contar dos invernos de geadões de tudo branco; e ele a corta mato, gaiato descalço correndo sobre,  que tinha de enregar ao nascer do sol, “passei tanta vez pela nossa cova toda branquinha, assim eu tivesse notas de mil euros” e quedou-se a pespontar tempos difíceis. Enquanto nós três bebíamos, também pela pituitária, o chá de erva príncipe. E foi um remanso.

            Isolada da malquerença do mundo, vieram-me à lembrança os caramanchões que lia nos romances de minhas tias e que a minha mãe esclarecia serem uma espécie de casas todas forradinhas de flores e verduras. Sonhava com tais casinhas que me pareciam muito boas para brincar e que as heroínas usavam apenas para pensar nos amados e em outras coisas tristes, escrever cartas de amor e namorar. Ali trocavam beijos que deviam saber a outra coisa já que nunca os esqueciam e ficavam a rememorar “aquela tarde no caramanchão”, “a noite no caramanchão”...daí a eu pensar que os caramanchões tinham propriedades específicas, foi um nada. Pois. Mas é que foi isso mesmo o que me aconteceu debaixo da nossa árvore.  Magia. Não estive por ali sozinha, não. Estive com quem me quer bem. Ainda que, pronto, eu não sou uma lady de romance (pronunciava ládi) e ainda menos uma milady (miladí nome que me apetecia bastante mas a minha mãe dizia que não podia pôr numa filha); também não conheço sujeitos que andam a cavalo por desporto, usam chicote e vestem a preceito, as botas a abarrotar de barro, presença dominadora que abomino. Portanto: mandei passear os caramanchões, a minha árvore que não é minha é que vale. Tem uma aura secreta que é linda e extravasa.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Coisas Pequenas

Os portugueses amam a boa mesa. Diz-se. Ora, os objectos de apreço surgem-nos quase sempre conjugados. E à mesa, para ser boa, cabe conjugá-la com companhia despretensiosa. Pode ter parentesco. Ou não. Ser amizade de longa data. Ou simples conhecimento. Mas quase arriscava que é fora dos tête-à-tête que vogamos à bolina, esquecidos do emaranhado da vida. Uma refeição em grupo é outra coisa. O grupo afasta maus olhados, auras negativas, negrumes de tristeza. E eu que não sou de fermentações alcoólicas, afirmo: o escudo do grupo é potente. E digo isto porque, na antevisão de um jantar, nos demos o braço e enfiámos no metro ainda meio tristonhas. Mas, cá fora, na Lisboa anoitecida, entrou-nos a alegria de nos revermos juntas no chuvisco miúdo. As mesmas e não as mesmas. Passou-me um lampejo do tempo em que pouco atentávamos na incógnita do futuro. Que sopro a nossa juvenil eternidade! Parámos, como então, a olhar montras, tu a dar sugestões sobre roupa, que agora és entendida. Vogámos sem pressa pela Baixa, eu, vê tu a parvoeira, quase comovida, a lembrar pressas nocturnas até ao barco, a pasta a bater-me nas pernas, o rio escurecido ao fundo da rua deserta, um ou outro automóvel vagaroso a avaliar-me e eu julgando-os turistas perdidos, quase com pena de quem rola a esmo por uma Lisboa desconhecida, quem sabe a procurar quarto. E por entre estes devaneios barbados, ficámos três. E logo seis. À mesa. Que o grupo esvai a vida individual, mas não elide o indivíduo.  Nele, cada um é si mesmo, expurgado da vida que lhe pertence. O teu grupo de uma vez por mês, minha amiga, é esse oásis. Um clique que nos desata. Fez-me sentir parte antiga quando era nova. E durante o agrado da janta, houve brinde “a nós e aos novos!”(eu, eu!); acrescentei, “e a todos os que não estão aqui e gostam de nós”. E depois o tempo correu sem darmos conta e surprendemo-nos uns com os outros, o grupo convida os lados menos triviais de cada um. E pasmei com algumas coisas que ouvi e nem sabia e nem pensava. Como as pessoas podem ser diversas - e mesmo perversas - nos interesses, nos gostos, nas aspirações. E depois da despedida, eles seguiram juntos e nós juntas viemos. Até que um comboio nos levou em separado.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Cartas, Cartões e o Mais que me lembre

E de repente chegaste. Disfarçada de presente. E foi Natal outra vez. Os dias recuaram ao presépio, os pastores voltaram sobre os passos e quedaram emudecidos à manjedoira salvadora, os reis magos ainda em casa à espera do sinal celeste. A não importância da estrela a empalidecer no alto da gruta.
Era a vez absorta do teu poder largo, passeante de veraneio nos caminhos de terra do meu presépio feliz.  Doce e inesperada surpresa de Natal atrasado, mas tão a tempo. E abri com mãos primeiras a tua carta de papel florentino buscado em Veneza loja a loja. Onde, escreves tu, a cercadura é bastante e a mão peca na adição de sinais. Mas que encheste de  amizade pura. Que agradeço. E assim a sei de tanto ano em que nos abraçámos sem abraço haver, misturando agudos de sonho em realidades obtusas, receitas, conselhos caseiros, opiniões de tudo e nada em que concordamos. És única a dar-me um nome pequeno que enches de naturais matizes como só tu sabes.
Então, fiz da tua escrita marco de leitura. E assim vagueias os meus livros página a página, de história em história. Escondida em envelope aberto  e endereçado ao que em mim és tu. Às vezes, nas noites em que as estrelas mais sérias, repito-te. Revejo a tremura leve da caneta hesitando em pernas de letras, a prosa corredia, científica e terna.  

E o resto, se é isto possível, acrescenta o que és: minha amiga dilecta. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Cartas, Cartões e O Mais que me lembre

Fora das prendas que dou e me são agradáveis, creio nos natais. E a experiência confirma, alguma coisa de bom me acontece durante a quadra.  Este ano bem espreitei o carteiro, mas já ninguém quer escrever duas linhas assinadas,  e breve as substitui (ou nem isso)  por sms ou telefonema, prestes e eficazes meios de comunicação que  não exigem sair de casa, comprar a carta ou o cartão e o envelope com ou sem selo (o correio azul prescinde), escrever e ir pôr no marco do correio (à antiga, pois). Ganha-se tempo. Mas que fazemos com esses bocados de vida? Ficamos frente ao écran horas esquecidas, conversamos mais ao telefone, de varanda a varanda, no café e etc. Ou trabalhamos mais. Permito-me duvidar que qualquer dessas actividades valha ou sequer impeça umas palavritas num papel com a nossa assinatura, tudo endereçado a quem gostamos. Mas tenho de reconhecer, perdemos o gosto ao rasto. Ora os sinais importam, são marcas de caminho. E aos homens não basta andá-lo, têm que se deixar nele. É bem certo que a precariedade governa o mundo, mas telefonemas, sms e outras mensagens virtuais perdem força logo na imediatez, não são de lembrar. E depois, acontecem em catadupa. Numa   constância banal. Cartas é outro ofício. A carta reserva-se uma intimidade púdica e atractiva e cada uma vale por si. Traz os desenhos personalizados do alfabeto e a forma subjectiva da sua organização, sempre  a remeter para. Diz, sem voz haver. No tempo que nos coube, a carta é um flagrante delicado. E nenhuma forma de comunicação  – das tantas que existem -  me surge mais impressiva e durável.  Bem restrito e sigiloso, quer ser aberta e lida, mas só pelo destinatário. Há uma certa beleza nisto de escrever com o próprio punho para alguém ler. Não um alguém qualquer, mas este homem, aquela mulher, a criança x ou y. Hoje, cartas e cartões são inestimável presente.
            Este Natal não tive correio, a caixa vazia. Que é como quem diz, amuada - a inchar -  de grossos alvoroços de propaganda. A amiga que se me enviava dentro de um envelope, voou para outra dimensão. Nunca mais alguém se comove de alegria por me ler (garantia-me que se portava assim a cada leitura e sei que é verdade, tremia-lhe a voz  a contar-me; guardo-lhe uma enorme dívida terna e uma amizade irreprimível). É assim mesmo, há dias e vezes em que a vida perde cor. E depois fica a faltar-nos humanidade.
             Mas o mundo ainda surpreende. Certa manhã próxima à natividade, enquanto comprava uma prenda, a garota da secção de embrulhos cresceu e fez-se pessoa de repente. Naquela maquinal monotonia de cada um a ocupar a sua posição numa livraria apinhada, pousou-me uns olhos alegres, abriu um sorriso limpo e desvanecido que estendeu à capa do livro que eu lhe tinha passado e num contentamento de amor extravasado, enquanto agilizava dobras de papel ao redor a aconchegá-lo, “eu também já comprei este livro para a minha mãe, ela vai adorar a prenda de Natal – e a descansar os meus receios, um dedo de fita cola a suspender o cartão de...para... -;  na minha opinião fez uma boa compra”.   Deixei-me abraçar por  aquele entusiasmo-relâmpago em gozo antecipado; era por certo uma estudante requisitada para os embrulhos, não usava farda e desenfiava do estigma profissional.

 Aquele desabafo foi o meu sinal. Não sei bem de quê, mas foi. Reinstalou-me na humanidade. Deu-me confiança.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Efeitos Aghata Christie

O que mais me conquistava nos livros de Enid Blyton nem era o enredo, a aventura. Era a sensação de segurança e bem estar que se desprendia do seu todo. Uma segurança feita à medida do mundo em que viviam aqueles garotos, antípoda  do meu. Não só os pais eram óptimos, toda a  sua realidade o era. Se passavam numa quinta, ali havia mesa posta com um lanche, sumos, gelados, bolos, scones, etc; os seus rituais quotidianos, alimentares, de sono, de passeio e diversão, galvanizavam qualquer, eram ideais. Repare-se que, no subterrâneo mais negro, havia sempre uma lanterna; se estavam presos em algum lugar, encontravam paus de chocolate no bolso, bocados de cordel que eram suficientes para subir desde o fundo de um poço...como eu invejava aqueles bolsos. Enid Blyton foi o Aristóteles da aventura infantil, fez descer o maravilhoso do mundo dos duendes e fadas para a terra dos homens e seus apetites. Depois, os bons ganham sempre e os maus sofrem castigo; e, por norma, são feios, o mau carácter devidamente identificado.

Agatha Christie criou a sua versão dos cinco, mas para adultos. Menos linear. Bem posso desculpar-me afirmando que Poirot é uma série inglesa, fiel à época e aos detalhes, motivos da minha preferência; Midsummer murders também é, e não faz igual mossa. Sou obrigada a reconhecer o meu lado de piroseira: gosto daquele mundo meio feudal, talhado a damas e lordes irrepreensíveis, moradias (solares e castelos, há muito castelo habitado por aquelas bandas) a que não se apõe uma nota de rodapé, jardins a estourar beleza. Mundo de pessoas bonitas e inteligentes, distintas na maioria dos casos, servidas por meios de transporte expensive e empregados obedientes que não destoam da condição e se apagam na trama. É básico, a história recai sempre sobre quem está bem de vida. Como em Enid, há um mundo bonito e de alto nível, onde os acontecimentos se desenrolam; e os maus são castigados. Eis o maravilhoso de Ágatha Christie. A ler, ou a ver e ouvir, eles rodopiam em meu redor; contudo, permaneço invisível. Oh! Claro. Há o mistério que a escritora tão bem soube construir, mantendo-nos intrigados até final. E a figura bem cinzelada de Poirot. Ou Miss Marple. Ou a vivaça Tuppence e seu par. E há as mortes. Que importam tanto como os subterrâneos em que os cinco ficam prisioneiros: são acidentes de percurso, sem dano para o espectador ou leitor. As pessoas vão sendo assassinadas, mas todos tocam a sua vida; como nos cinco, a aventura tem de continuar, nada de paragens piegas no enredo. Acontece como nos contos, saltamos levemente sobre.
E quem não gosta de uma aventura que se torna enigma e onde o que é bom aparece requintado e o pior tem tal leveza que não é ele?! Que atire a primeira pedra. Mas só daqui a poucochinho que vou abrigar-me primeiro. Ou será antes preparar-me para ver novo episódio...

Efeitos Aghata Christie

No momento em que – oxalá – a esquerda portuguesa se faz à terra com o arado e a direita roga pragas à rabiça, pois neste precioso “momento interessante da política”, ainda com a aura de alguma esperança, apetece-me outra coisa. Por me apetecer.
Neste rumo de inconfidências, reconheço que banhar-me num episódio de Poirot antes do telejornal, desencarde (dois em um: solta-me as cardas ao mesmo tempo que lava).  Existem mil maneiras de nos contarmos. Por que não com os romances policiais? Os de Agatha Christie agarraram-me aos vinte anos e não descolam. À época, a dama inglesa conseguiu mesmo uma vitória sobre a praia. Em férias  – cinco brevíssimos dias -, após ler um dos seus livros, decidi levar de empreitada toda a colecção da dona da casa. Dias e noites a ler em maratona. Adormecia com uma senhora dor de cabeça ansiando a manhã em que, fresquíssima, me atirava à página assinalada de véspera, em anelante pressa de amante insaciada. Quando, com grande pena, terminou o breve período de lazer, ainda os meus propósitos estavam longe da metade, a pele amarelava como antes, e a praia, meu supremo enleio, era-me estranha (tentei juntar as duas modalidades mas desisti; portanto, 1-0, perdeu a praia). Perguntava-me como é que até à segunda década de vida vivi alheada do entusiasmo presente no romance policial, coisa tão idêntica ao ar que se respira. Mas a verdade é que desconhecia a sua existência. O mais parecido que tinha lido eram os livros dos cinco. Mas os amores levam-se até ao fim, esgotam-se sem se esgotar. Ágatha Christie foi a causa primeira da mania que me nasceu de coleccionar livros por autor. Durante anos, perseverei em coleccionar-lhe títulos, andava com a lista na carteira e tinha supremo prazer na compra, antevendo horas inefáveis. Durante uns anos, esta fixação facilitou as poucas prendas que recebi. Os títulos que ora me faltam, são os que li nas férias da nossa apresentação amorosa que logo me incendiou em paixão a perder de vista. Confesso que me desilude comprar livros que já li; portanto, é possível que a prateleira da estante mantenha essas faltas ad eternum. Entretanto, comprei livros policiais de outros autores. Mas nenhum destronou a dama inglesa. Aghata Christie é a minha queen.

Quando (me) surgiram os filmes baseados nas obras, não desiludi. Até hoje, perguntei-me que sorte de ingredientes detêm livros e filmes para despertarem  tal empatia. E só agora, nesta hora precisa – também não penso assim tanto no assunto –, descobri o que sempre esteve em frente dos meus olhos: estes livros e filmes são muito particulares. E, hélas!, chama-me neles (aos gritos) o exacto mesmo que me chamava nos livros dos cinco. Não têm nada em comum?! Ora essa, mas é que têm mesmo. Vejamos.