Na
semana anterior à sua sessão fui verificar a obra que escolhera e gostei: “A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector.
Que eu lera do princípio ao fim sem preferir. E o meu amor a D. Clarice é dos
que não debotam. Depois, a professora acrescentou que Tolentino fora o único
orador a escolheu a obra (aos restantes foi ela que impôs). Tolentino iniciou
com a mostra parcial daquela entrevista maravilhosa que anda pela net sem ser
vista o quanto merece e que me deslumbrou pela primeira vez na Gulbenkian aquando
da exposição “A hora da Estrela”. E
depois andou à volta da barata morta para dizer que, em última instância a
paixão é isso, um tornar seu o que é estranho (daí o comer da barata); tornar seu
é incorrecção minha por ser expressão que admite ainda haver alguma coisa que
não sou eu e me é exterior mas que me
pertence – e que não me parece ser a paixão segundo Tolentino. Ora, o que julgo
que Tolentino quis dizer foi que o amor/paixão elimina a transcendência, o
estar fora.
Bom.
A maioria das pessoas ficou siderada com D. Clarice na entrevista que foi a
última que deu. E com a vida da
escritora que Tolentino fez questão de contar. E muita gente vai comprar a
biografia que Benjamim Moser deu à estampa. De certeza.
Ora
bolas, já me perdi. Eu tinha começado a escrever para contar que nesse dia
cheguei tarde e para abreviar caminho e não incomodar me sentei lá atrás na
última fila. Não sei o que estava a fazer. Talvez coisa nenhuma. Esperava. Ou
sei lá. De súbito, no meio daquela igreja a abarrotar de gente, muitas pessoas
de pé e sem lugar, havia um homem a olhar-me. Tinha o corpo virado para a
frente e, para me olhar, virara a cabeça.
Não me olhava distraído, olhar errante. Fixava-me. Pensei que talvez me
conhecesse e investiguei-o. Ao invés do que costuma suceder, não me pareceu que
já o tivesse visto. Pensei que, provavelmente, eu apenas respondera à chamada dos
seus olhos. Não era um olhar curioso,
mas era, sem margem a dúvida, todo para mim. Poderia estar a confundir-me com
alguém conhecido. E fiquei na minha. E
daí a nada, o Tolentino estava ao micro. Era ele o sujeito que parecia
conhecer-me. E por ali se quedou a abismar uma capela inteira com D. Clarice e
o seu dissolvente de transcendências. Beleza
de mulher, estranha senhora de tão boa e incomum prosa.
Eu
trouxe o teu olhar simples e meio terno, Tolentino. Parece-me bom para ter à
mão. E as palavras que queiras dar ao prelo, também as farei minhas. Porque o
resto, meu caro, são contas do teu rosário.