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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Tolentino e Eu


Na semana anterior à sua sessão fui verificar a obra que escolhera e  gostei: “A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector. Que eu lera do princípio ao fim sem preferir. E o meu amor a D. Clarice é dos que não debotam. Depois, a professora acrescentou que Tolentino fora o único orador a escolheu a obra (aos restantes foi ela que impôs). Tolentino iniciou com a mostra parcial daquela entrevista maravilhosa que anda pela net sem ser vista o quanto merece e que me deslumbrou pela primeira vez na Gulbenkian aquando da exposição  “A hora da Estrela”. E depois andou à volta da barata morta para dizer que, em última instância a paixão é isso, um tornar seu o que é estranho (daí o comer da barata); tornar seu é incorrecção minha por ser expressão que admite ainda haver alguma coisa que não sou eu e me é exterior  mas que me pertence – e que não me parece ser a paixão segundo Tolentino. Ora, o que julgo que Tolentino quis dizer foi que o amor/paixão elimina a transcendência, o estar fora.
Bom. A maioria das pessoas ficou siderada com D. Clarice na entrevista que foi a última que deu.  E com a vida da escritora que Tolentino fez questão de contar. E muita gente vai comprar a biografia que Benjamim Moser deu à estampa. De certeza.
Ora bolas, já me perdi. Eu tinha começado a escrever para contar que nesse dia cheguei tarde e para abreviar caminho e não incomodar me sentei lá atrás na última fila. Não sei o que estava a fazer. Talvez coisa nenhuma. Esperava. Ou sei lá. De súbito, no meio daquela igreja a abarrotar de gente, muitas pessoas de pé e sem lugar, havia um homem a olhar-me. Tinha o corpo virado para a frente e, para me olhar, virara a cabeça.  Não me olhava distraído, olhar errante. Fixava-me. Pensei que talvez me conhecesse e investiguei-o. Ao invés do que costuma suceder, não me pareceu que já o tivesse visto. Pensei que, provavelmente, eu apenas respondera à chamada dos seus olhos.  Não era um olhar curioso, mas era, sem margem a dúvida, todo para mim. Poderia estar a confundir-me com alguém conhecido.  E fiquei na minha. E daí a nada, o Tolentino estava ao micro. Era ele o sujeito que parecia conhecer-me. E por ali se quedou a abismar uma capela inteira com D. Clarice e o seu dissolvente de transcendências.  Beleza de mulher, estranha senhora de tão boa e incomum prosa.
Eu trouxe o teu olhar simples e meio terno, Tolentino. Parece-me bom para ter à mão. E as palavras que queiras dar ao prelo, também as farei minhas. Porque o resto, meu caro, são contas do teu rosário.


Tolentino e Eu


Leio Tolentino Mendonça há anos. Tenho  alguns dos seus livros.  Os primeiros chegaram-me via amigos, um agrado carinhoso de quem me quer bem.  Depois, por gosto e sabor, comprei mais um ou dois.  Já li vários poemas  seus, puro bom gosto de quem os mostrou na net. Em consonância, sempre que posso,   leio as crónicas que escreve para jornais e revistas. É uma escrita sempre empenhada na vocação. Acredito de pés juntos que tem vocação para se dar aos outros, que o facto de ser padre pouco me importa, embora reconheça: é talvez a melhor maneira de ele se (e a) cumprir.
Toda a gente sabe que nos media as crónicas são encimadas pelo rosto do cronista. Acontece que sou um bocado desligada da imagem, confundo os meus amigos com outras pessoas, levo o tempo a reconhecer pessoas na tv com quem é impossível ter tido algum contacto. E outros desconchavos. Portanto, o Tolentino, como a maior parte da gente que leio, não precisa ter rosto ou figura. É o Tolentino da escrita. Logo, passo pela foto como cão por vinha vindimada e atarracho nas palavras. Facto que não belisca o meu apego. Porém,  tenho funda crença que a minha preferência literária e humana naquilo que ele mostra na escrita, lhe são benefício. A forma não sei mas, existindo uma sintonia desinteressada com alguém, creio eu que o alvo do bem querer robustece.
E como me alegrou ler (na Visão) a conversa entre ele e Lobo Antunes, dois dos meus escritores de eleição. Não a vi. Li-a. Pode que esteja na net (estará), mas dispenso a imagem. No caso daqueles dois, a palavra sacia o desejo. E digo até mais, a imagem é fonte de distracção e talvez que, inadvertidamente, deixemos cair alguma preciosidade. Ora, no caso desta reunião feliz, nada se pode perder. Tão bonito terem entrado os dois de mão dada – mas isto, desculpem, é Lobo Antunes chapadíssimo. Tenho dito.
Pois este ano frequentei – com mais umas duzentas e tal pessoas – uma espécie de curso livre na Capela do Rato, onde Tolentino é pároco. E lá estava o Padre Tolentino na primeira sessão a dar o pontapé de saída ao lado de uma professora que conheço e que onde mete o bedelho sai obra apurada. Confesso que nesse dia não lhe liguei grandemente e nem me lembro do que disse. Foi dos melhores cursos que frequentei. Em todas as sessões, as paroquianas se referiam ao Tolentino num corre corre de novidades que me lembrava os ingleses e a sua relação próxima à família real. Que estava em Roma a fazer o retiro pascal ao papa Francisco e mais àqueles bispos todos e doutores da religião. E que na net assim. E que na net assado. E passavam umas às outras o endereço digital onde, suponho, ele colocava a via sacra do retiro (não seria a via sacra, mas talvez um resumo da orientação espiritual que punha em prática). Não me interessou. E depois havia aquela gente que babava com as suas homilias. Que as suas missas são únicas e as homilias um espantoso espanto. Confesso que desejava ardentemente que o Tolentino voltasse a ver se sossegavam o espírito. Aquietaram.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Eu. E um nico de Jorge de Sena.

No meu mundo pequeno as pessoas lêem devagar, não lêem muitos livros de uma assentada e não há disponibilidade para fazerem diferente. Nunca seremos leitores compulsivos. A alguns de nós a vida sempre atalhou o gosto atirando-nos motivos sem explanação, ordens impreteríveis. Penso por vezes que esta contingência nos salva. Não acredito que livros em catadupa sejam tão apreciados como aqueles que compramos a desejo, com data prevista de início de leitura. É certo, saberemos menos, muito assunto não afloramos, gente que se distingue nas letras e não chegaremos lá. Ou nem sabemos que existe. Acontece que dou por mim num pensamento recorrente: será isso importante? Para a vida que vivemos faria toda a diferença? Não sei.  Leio com um único motivo, prazer. Um gosto de estar atenta a um mundo outro e em que me perco decidida a perder-me. Ficarei mais culta? Não me interessa muito, o que pretendo mesmo é dar o salto, entrar na esfera do livro e entreter-me a fazê-la minha. O resto, é conversa. Ou como se usa na minha terra, “um verbo de encher”. É verdade que os livros nos fazem a cabeça. No seu conjunto, acredito que sim. Mas também entendo quem afirma que um único livro bastaria para uma vida. Suponho que interesse mais pensar sobre as coisas que procurar afanosamente a diversidade do objecto de pensamento. Ler é como viajar, não se alcança a totalidade (sempre inalcançável). E haverá decerto quem pouco viaje e desenvolva mais o espírito nessas curtas incursões que tanta e tão diversa gente preocupada em conhecer os quatro cantos do mundo.  O segredo, julgo, está na atitude. Só um ser desamarrado é receptivo e deixa a vida fluir. Capta o essencial sem, contudo, pretender captá-lo. E quase tinha razão Saint-Exupéry, o essencial não pode ver-se apenas com os olhos e nem depende sobretudo deles (o escritor afirmava que é invisível aos olhos, o que também não é inteiramente verdade).

Depois deste monólogo que não é do vaqueiro – nem da vaqueiro – mas podia ser, que sou capaz de monologar sobre quase tudo que conheço, mesmo que seja só de vista, entro, finalmente, no assunto: a leitura que andei fazendo ao diário de Jorge de Sena. Fazendo. Isso mesmo. A meu jeito, durante muitos e enormérrimos dias. E eu a ler Jorge de Sena só quando me apetecia que era também quando podia (a malta como eu muitas vezes não pode, tem muita coisa extra e palerma a impedir e nem pensa no que lhe apetece). Como só lera os Diários de Torga, para mim escrita reflexiva de alta qualidade aqui e ali semeada de poemas, a princípio não atinei com a indumentária do livro. Mas é que é um diário na mesma. Jorge de Sena fez muita coisa na vida. Gastou-se em trabalho intelectual: foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário. É natural a sua preocupação em espartilhar o tempo pelas actividades. O seu diário é uma resenha dos dias. Com horas, lugares, pessoas concretas, preocupações relacionadas com a economia doméstica, um desdobrar extremo de trabalho escrito eivado de deves e haveres, exercícios de equilibrismo para comprar novos livros, muita música clássica, muito filme, muito teatro a entremear aflições de trabalho e doença e esforços de noites longas para manter prazos com editoras e jornais. E a Mécia. E as cartas para a Mécia (Mécia é a mulher, nada de ideias patuscas). Pena que faltem ali os poemas. Porque são bons e de sobriedade trocista, quase trágica. Sim que Jorge de Sena teve essa coragem diletante de dizer a consumição e os males portugueses. E, tal como os nus são agradáveis à vista se jovens, assim os poemas. Se amadurecem sobre o povo que se ama deveras e do qual se tem saudade, aparecem-nos o dente cariado, as rugas que arrepanham a boca a descair, o cabelo ralo, os nódulos ósseos, os defeitos de carácter que, por gostá-lo como a um filho, não queríamos que tivesse. E isto, meus senhores, não tem graça assim à primeira vista. Graças a Deus, Jorge de Sena nunca foi um poeta engraçado.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Mataram a Cotovia

Gostei de ler “Mataram a Cotovia”. É uma história bonita, boa de ler e, claramente, um livro bom. Desta vez o meu feeling foi certeiro e não me arrependo do volume que preteri em vez deste. É certo, fiquei a desconhecê-lo, mas sei que não podia agradar-me mais. Contada pela voz de uma criança, esta obra dá-nos o mundo e a ambiência de princípio do século XX, no tom meio encantado da infância. Com seus porquês e medos, suas recusas instintivas e adesões inatas, seus maravilhamentos pegados às pequenas coisas... e um ninho de confiança e carinho onde se pode crescer à vontade. Ali se sente muito amor. Curiosamente, o trio principal teria tudo para gerar problemas entre si. Mas sucede o contrário. A morte da mãe, que a narradora nem lembra, une o clã para a vida e para a morte, como se os filhos, mesmo que indistintamente, sejam uma extensão do pai e sintam quando periga (ainda que ele o esconda) ou os necessita. E, como em todas as histórias de infância, há uma casa misteriosa, com uma personagem única, que ninguém vê mas todos sabem que existe no seu interior. E, na medida do crescimento, há a evolução do medo infantil acerca dela, suspenso até ao inesperado final.
Devo dizer que uma noite de venturoso acaso vi o filme baseado neste livro e que em português terá um nome bastante diferente que nem sei qual seja. Apanhei-o já tinha começado e só fiquei a olhar porque a imagem que vi primeiro foi a de uma garota de cabeça para baixo, pendurada numa árvore pelos pés, com as saias à cabeça. Exactamente  como eu me pendurava na nossa figueira, a concorrer com os meus primos para ver quem aguentava mais tempo; quando nos largávamos – por vezes, sem tempo para içar as mãos e fazer uma aterragem disciplinada, não aguentávamos e caíamos redondos no chão -  estávamos vermelhos como um tomate porque, dizíamos cheios de orgulho palerma, o sangue nos subia à cabeça. Para maior identidade, a fulana que no filme saia de casa e repreendia a garota parecia tão zangada como a minha mãe de cada vez que me apanhava naquele despropósito (a Calpúrnia elevava mais a voz, nunca ouvi a minha mãe gritar). Portanto, simpatizei de imediato. E depois sentei-me porque o filme era contado e não tenho armas para resistir a quem me conte o que for. No cinema ou na vida. Serei um sultão de Xerazade no feminino, mas a verdade é que não sei lutar contra uma boa história. E foi assim que vi o filme até ao fim e gostei qb.
Porém, o livro é outra coisa. Sem a possibilidade de vê-las, as personagens tornam-se poderosas. Oh! Não pela qualidade do meu imaginário, não é isso. Mas porque quem escreve tem de emprestar densidade ao personagem, personificá-lo de tal modo que se torne em realidade o que é apenas letra e papel. E creio que a autora, que só escreveu esta obra e logo ganhou um pulitzer com ela, fez um pleno. Sente-se a gente naquela cidadezinha, num determinado bairro, a descobrir as idiossincrasias de cada morador. E creio que todos acabamos simpáticos com aquele pai exemplar e sem defeito que se note, mas apontado um pouco como louco pela maioria (é apenas assisado e honesto, um bom educador). E gostamos de Calpúrnia a empregada preta (sei, agora não se diz preto porque é supostamente racista, diz-se de cor) e o preconceito é ali tratado primorosamente. E receio bem que de forma realista. Aliás, o enredo do livro pára nele para mostrar o quanto abunda dentro de cada um de nós. Ou seja, há mesmo uma personagem má, vingativa, um “não presta” carregadinho de defeitos. 
Sendo contado por uma garota, o livro é de uma profundidade simples que não aligeira fundura por isso. Antes se torna mais tocante a forma como Scout (a garota) vai descobrindo as coisas e consegue que nós leitores entremos nelas. Porque é ela quem, naturalmente, resolve algumas das situações mais embaraçosas – e até de perigo – que surgem.
E depois há aquele amor que se respira: do pai pelos filhos e o inverso. E entre os dois irmãos que são corda e caldeiro. E dos três por Calpúrnia. E parece-me isto fundamental para os olhos e mente  que têm: vêem e agem diferente dos demais.

É evidente que poderia continuar a desdobrar o livro e suas personagens (falta muita gente). Mas nada é comparável a ler:). E não se pode estragar a surpresa que salta das páginas.

sexta-feira, 20 de março de 2015

“Fazes-me falta” Inês Pedrosa

E caracterizei as personagens e li trechos de cada uma; e projectei a Inês em alguns alegretes daquela mulher – é um canteiro de flores a garota. O estado actuante de paixão salvadora de que a personagem feminina se reveste parece quadrar com Inês Pedrosa pelas causas em que se envolve e a forma algo arrebatada e muito existencial de se exprimir em entrevistas e programas que vi e ouvi.
E revesti de ternura acalorada aquele homem tão mais velho que a poupava a observações mais contundentes, a protegia quase paternal, gostava dos seus deslizes e apropriações, se orgulhava das ideias que ela lhe roubava, no sem distância tão do amor que também é amigo (olha, olha, que amigo faria isso, Inês). E discorri sobre uma amizade que não existe nem pode, de romance. Sem corpo de desejo, mas com o corpo. As coisas que a gente lê e gosta sabendo-lhe a verdade apenas imaginária. É indubitável, os ideais continuam bastante apetecíveis.
Inês Pedrosa afirmou em algumas entrevistas que escreveu sobre a morte porque vivera a experiência  de perda com a morte do pai e foi a forma de pacificar a dor, exorcizá-la. Além disso, considera a amizade um sentimento de rara pureza, a forma de amor mais despojada de interesse. Daí o ter imaginado um universo relacional que não inclui o amor sexuado e onde o prazer se situa apenas ao nível de afinidades e sentimentos tornados cúmplices pela proximidade entre os dois personagens. Ainda que a personagem feminina afirme, “nós nunca fomos cúmplices, éramos promíscuos. Dedicávamo-nos a combater o pensamento um do outro até chegar à névoa humana.”, verifica-se ao longo da obra que em muitos aspectos da vida existem os dois em contraposição justaposta, numa oposição tão simétrica como acontece nas afinidades. E a verdade é que viam um no outro o que escapava aos demais “ninguém sabe falar de como tu fumavas, com o cigarro entre o terceiro e o quarto dedo da mão esquerda. Ninguém é capaz de descrever a curva dos teus dedos em movimento de marioneta”. E essas memórias, diacrónicas ou em uníssono, fazem o universo significante de todo o livro. Ainda que Inês o tenha querido rematar com a ética, dar-lhe um sentido, sabemos que não é isso que une aqueles dois. Quase parece que Inês Pedrosa tentou exorcizar um amor que não o do pai, que se apresentou ou não quis ir além de (quiçá, até por vontade de ambos os intervenientes). Asseguro: não é possível escrever tal romance de cor. É minha opinião que Inês Pedrosa não tem livro mais marcante (ainda desconheço o último). É certo que amadureceu conhecimentos – é quase especialista no Padre António Vieira, por exemplo -, conserva a depuração de linguagem, burila melhor o seu cristal, mas não voltou a conseguir a proximidade quente, confessional, de Fazes-me falta. Admito: será preconceito. Concedo, nem todos os romances beneficiam com o pendor  de “Fazes-me falta”. Mas, dentro do género, tem força. Quem sabe, hoje, agarrei alguma daquelas garotas com ele.

Porque será que a Inês se queixa tanto da falta de importância dada aos escritores da sua geração?! As oportunidades de emprego e de trabalho como escritora  – não está em causa o mérito –, a diversidade das suas publicações e os prémios recebidos, desmentem…. 

"Fazes-me Falta" Inês Pedrosa

Voltei ao “Fazes-me falta” de Inês Pedrosa. Por preguiça e ametodismo sistemático. Não me lembrei que ontem era um obrigatório dia de mãos na cozinha. Mãos e o corpo todo, que não faço por menos. Ou bem que estou, ou bem que não estou. E os princípios da física – e também da lógica – traçaram o resto, não posso ser simultânea em dois lugares. Consequentemente, não podia preparar o tema da Semana da Leitura e mergulhar na culinária. Há quem consiga, mas sou, em algumas poucas coisas, uma mulher atípica: não faço muito ao mesmo tempo. Em primeiro lugar porque não me apetece cansar-me em demasia. Em segundo porque estou sempre a fazer duas coisas, a actividade que me destino e o meu monólogo sobre ela – bem digo que converso com a gata, tretas, converso comigo, a gata é mesmo só para enfeitar, aquele olho de vidro azul transparente percebe lá alguma coisa. Em terceiro, porque não é estimulante para a terceira idade – na qual entrei precocemente e contrafeita – andar a apagar muitos fogos. Não é a idade da serenidade? Pois então. Portanto, optei por culinar. À noite, vim terminar a releitura do romance e fui dormir sobre. Voltar-me na cama. Hoje escrevi drasticamente um esquema apressado, pensei no como da apresentação e faltei ao compromisso que tenho com a água.
Li as críticas ao romance e são do melhor. Tinha-me entusiasmado na primeira leitura. Julgo que seja um bom romance para uma turma de humanidades. E lá fui explicar o feminismo e as suas lutas, contrariar o meu ex-slogan – completamente parvo, diga-se de passagem – “Sou feminina , não sou feminista”, mostrar que uma coisa sem a outra não existe – é tudo ou nada -; lembrar que as leis são um caminho para uma realidade diferente mas só a mudança das mentalidades – homens e mulheres – modifica o quotidiano. E as mentalidades são lentas. E lentas. E lentas. Falar do direito ao próprio corpo de que tanto abdicamos e da qualidade que pode haver numa relação entre iguais. E mais coisas que não me lembro.
E depois veio a Inês a reboque e mais as suas lutas que ela não deixa por menos e as assume na vida e no papel. E o “Fazes-me falta”, romance de que gosto por haver nele vibração de verdade (e quero lá saber das críticas que li e se concordam ou não comigo. Eu concordo comigo e parece-me suficiente. Por agora), escrito num estilo que considero diarístico e poético a escorrer (na segunda leitura as metáforas emperraram-me um tanto o pensamento, pareceram-me por vezes em catadupa e outras surgiram-me repetidas). Mas é aquela veemência que nos convence. E, sendo sobre a morte, não é um livro  triste.

Porém, todos os livros são sobre a morte. Foi o que tentei provar e não sei se consegui. Os homens escrevem por temporalidade, o mundo divino prescinde da escrita, o seu eterno presente enche-se com o ser redondo que é, sem memória ou palavra, incha de si e basta, “Deus é aquele que é”. Não há mudança sem morte, não pode haver o novo sem a extinção do velho (Anaximandro, Anaximandro). Seja isso o que seja. Morramos pois. Diários e diáfanos. Até ao ponto sem sentido que, desde o nascimento, dá sentido à nossa linha pequena. Oh certeza fatídica que sem ti não saberíamos nem como experimentar viver. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Impressões sobre Machado de Assis

CAPÍTULO de CHAPÉUS

A literatura brasileira interessa-me. Tem a sua prosa específica, seus requebros de mulata dolente, seus enredos de filosel. Mas nunca tinha lido nada de Machado de Assis. Pelo nome, pareceu-me escritor português pouco conhecido. Como não investiguei, depois da leitura de “Capítulo de chapéus”, concluo que é brasileiro e dos bons. Bastante conhecido, portanto. Et…pardon.
A história desenrola o quotidiano de um advogado – Conrado - e sua esposa – Mariana -  e mete um chapéu pelo meio. O Chapéu. E pareceria uma simplicidade: haver um advogado com extrema dedicação ao chapéu de todos os dias – um chapéu leve e baixo – que o faz parte da indumentária, que não o dispensa nunca nos seis anos de casamento. E, supõe até o leitor, seja conhecido pelo chapéu que usa. Ora, certo dia, o sogro resolve instar a filha sobre o apego do doutor a seu chapéu, convencendo-a que não é adereço digno de um homem da sua posição. Cabe a ela resolver a questão levando-o a mudar para uma cartola, um chapéu alto, mais consentâneo com o estatuto de causídico. E a história vai-se desenvolvendo numa quase linearidade onde a caracterização das personagens emerge e surpreende.
Aprecio escritores que enfatizam a caracterização das mulheres e se prolongam na descrição, porque assim no-las trazem à mente mais fortes e seguras de quem são. O que mais me agrada em Machado de Assis é essa segurança na personagem. Não se entenda por isto que o escritor construa personagens seguras de si. Não. Ele faz mais. Descreve-as de tal forma que elas não nos surgem dentro dos seus defeitos, mas imersas na personalidade que lhes pertence e de que não abdicam. Vivas. Vejamos por exemplo Mariana, a mulher em cujos traços se demora. Mariana é a iaiá do marido –  pensamos de imediato numa menina mimada -, alguém que detesta sair de casa e é a monotonia feita pessoa. Contudo, Machado de Assis, tal como lhe retrata o carácter amante de hábitos, abrir sempre a mesma janela, manter a desordem de livros sempre igual, ler sempre as mesmas três obras…constrói a personagem sobre eles, fá-la real. Mariana não tem filhos e apresta-se em cortinados e franzidos, pormenores caseiros de quem detesta surpresas e inesperados. Mariana cria dentro de casa o seu mundo de felicidade. Poderia até ser como nenhuma mulher, mas é entendível como pessoa e torna-se, ao longo da história, aprazível, facto mediatizado pelos acontecimentos que a vão definir. E é por esta compreensão de Mariana que o resto da leitura e da história tem sentido. Senão vejamos: Mariana tem uma amiga que é o seu oposto – é natural que ao seu quieto comedimento agrade a expressividade um pouco amoral de Sofia –. Procura-a depois que o marido lhe nega a mudança de chapéu, e, um pouco chocarreiro, afirma ser tal adereço um prolongamento da cabeça existindo entre ambos uma exigência de ordem metafísica e mútua conveniência que não pode desmanchar-se. Conrado, que até aqui era para o leitor um simpático advogado, devém-nos agreste, desleal, quando, para confundir a mulher, enrola a sua opinião em ideias e conceitos que ela não domina. E é como se o leitor fique de pé atrás com o doutor.
E Machado de Assis pontua ao reduzir os homens que as duas amigas encontram durante o passeio aos chapéus que usam, o problema de Mariana constante, ao leme do episódio.
Se alguém pensou que Mariana, aborrecida com o marido e seguindo as pisadas de Sofia, vai flirtar com o antigo namorado que encontra de chapéu alto e lhe estende a oportunidade, desengane-se. Não é questão de honrar princípios, de amar o marido, de não parecer bem. É, mais uma vez, o carácter a determinar-lhe o ânimo. Mariana aborrece-se de morte fora da pacatez de sua casa. Encontra a conversa do ex-namorado falha de interesse, não o vê como hipótese de diversão sua, antes um empecilho. Na rua, deseja o manso estar das coisas caseiras, o sossego do espírito no gineceu em vez do corrupio de gente a que assiste. Quer no dentista quer na Câmara dos deputados, sente-se pouco à vontade e começa mesmo a arrepender-se da zanga causada por um chapéu, interroga-se sobre o seu ter razão, a princípio tão evidente. Descrê das opiniões da amiga que antes pensava sábias, autênticas receitas de como domar um homem.
Finalmente em casa, minada de incertezas, resolve aceitar o chapéu de sempre, não voltar a teimar na mudança. Porém, Conrado entra-lhe em casa com um chapéu alto.

O melhor é irmos todos deleitar-nos com a prosa caligráfica de Machado de Assis. O homem merece.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Dentro de Ti Ver o Mar

              Ainda há pessoas que não lêem?
            Em Portugal haverá poucas. A leitura deveio, em grande parte, digital. Não restrita a livros. Nem sobretudo. Mesmo a cusquice da net é escrita ou tem algumas palavras. E não é crível que, apesar da crise, haja assim tantos lares sem acesso à internet. Ou pelo menos sem um Pc. Não me querendo tomar como medida do universo, a minha opinião vale o que vale, não conheço nenhum jovem sem computador. E conheço bastantes. Poderá ter sido da campanha do e.escola ou de um movimento natural da sociedade, mas a cultura tornou-se, em grande parte, digital. A maioria dos nossos jovens usa o computador e gasta nele muito do seu tempo livre. E também os menos jovens, os maduros, os velhos, os assim-assim. E, ainda que em menor quantidade, também se escreve. Postar, comentar, deixar bocas venenosas, jocosas ou estereotipadas, sem pensar muito nem gastar o  tempo julgado urgente para buscar a novidade e a notícia. Contudo, penso que cultivamos a não notícia. Não me cabe meditar aqui sobre o possível português-achinesado das conversas, as faltas de concordância e etc. Mas, e apesar das múltiplas funções do Pc, a verdade é que ele tem um teclado a permitir-nos a comunicação escrita e o contacto com os outros. E que podemos utilizar tripla linguagem, audiovisual e a simbologia dos caracteres escritos.
            Portanto, parece-me natural que estes dados integrem o quotidiano dos romances que decorrem no século XXI. Apesar da força imagética, todos têm de se ancorar na realidade. Já quase não existem cartas, existem mails. E vem esta arenga toda a propósito do último romance de Inês Pedrosa, escritora que aprecio e incluiu o correio digital no último romance. E alguém me fez o favor de uma prenda. Da Inês espero coisas depuradas, palavras luminosas, como um dia tive a oportunidade de lhe dizer. Li "Dentro de Ti Ver o Mar" em dois dias, velocidade muito invulgar no eu que é mim. E, só por isso, a minha vénia à autora.
Agora que terminei, estou meia penumbrosa, ainda fora de um claro sentir. Argumentam, ah, e então a racionalidade, o pensamento? Sorry, as minhas raízes de pastorícia caeiriana empurram-me para as impressões e é sobre elas que o pensamento se constrói;  talvez eu sofra de impressionismo mental, que é como quem diz, empirismo em banda larga.  Posto isto, verifiquei que Inês Pedrosa mantém o teor de escrita. Depurada. Luminosa. Mas não é a mesma. Mudou. Podem dizer, cresceu; amadureceu; aborda questões reais e de premência maior; deixou de ser lírica. E talvez seja isso. Também. Deixou de ser lírica. Mas não apenas. Há uma carga excessiva no livro. Uma carga de gente demasiado utópica a viver problemas quotidianos. Um desentendimento relacional tão profundo entre vários intervenientes que chega a não jogar com as atitudes. Ali se faz um retrato de época. Foi escrito em 2012 e situa-se entre 2003-2004. E o facto é que me põe em causa.
É descrita uma realidade citadina centrada na eterna questão amor-sexo e percorre a pé coxinho - não por ser coxa a prosa, mas porque percorre devagar a relação, a demorar-se no passo-a-passo -  a relação entre um homem casado e uma fadista com origens insólitas e a que só o livro dá resposta (pretensamente, um dos motores da obra é a busca de identidade da cantora, a sua necessidade de se demarcar como um eu absoluto no seu ser único e individual). Aflora de forma secundária o problema da violência psicológica sobre as mulheres, das mulheres em regime prisional, dos conflitos gerados em colégio interno, do complexo gata-borralheira, dos cleptomaníacos e outros sobre os quais a autora discorre em brevidade. É também um livro sobre mulheres e o poder da amizade feminina. Mas não se enternece. Como se a Inês tivesse querido escrevê-lo de pé, a olhar em frente. E eu gosto da Inês ajoelhada, rendida, os olhos a descerem até ao nível de quem está e não aguenta o erecto; foi essa que conheci em “Fazes-me falta” ou mesmo em, “Fica comigo esta noite”. Dentro de Ti  Ver o Mar é um romance onde, no amor, o aguilhão do corpo toma conta de tudo, as frases ternas masculinas são eternas capas de disfarce e o desejo físico assume no feminino profundidades ruinosas. Destrutivas, sem nada ruir. O homem que nos surge como engatatão e bom pai de família é afinal um pilha galinhas que,  insípido, morre de ataque cardíaco. A mulher, essa, é o ser que, escorado na amizade feminina, tem mil vidas. Morre tarde, tem vários homens, filhos… E não cabem remorsos por se dar um filho a criar, não há decisões difíceis nem problemas de consciência, é tudo rápido e efémero. Sem traumas.

Mas, quem sabe, o livro esteja certo com o tempo e seja eu quem está fora dele. Que todos somos efémeros, mas existe em cada decisão humana uma inteira eternidade. E isso não encontrei, Inês. Faltou-me. Mas pode que só a mim.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

"Os Olhos de Tirésias"


Há muito que não lia tão rapidamente um livro. Esclareço: rapidamente, são quatro a cinco dias. Os anos retiraram-me a pressa de terminar leituras e puseram-me no regaço pequenos prazeres que antes desconhecia. O fim de um livro, que antes me era meta, deveio até pequeno desânimo. Hoje, curto a leitura no mesmo sentido em que a pele curtida é cheia de sinais de tempo que a protegem de maiores danos: experimento-a em vagares de cerimonioso silêncio.
A obra surgiu-me no horizonte através de um blogue, lugar onde os livros surgem à velocidade da luz. E, vá-se lá saber porquê, atraiu-me. Este. Apesar de críticas potentíssimas e assisadas a n livros, uns de estreantes, outros de majestades sonoras, outros de gente que escreverá muito bem e que, talvez burramente, ignoro. E tudo isto entre escrita nacional e internacional. Comprei-o a sentir que tinha de. Uma espécie de dever intuitivo, difícil de palavrar. Acrescente-se que não fazia qualquer ideia acerca da autora, Cristina Drios. Sabia apenas que era o seu primeiro romance. E só agora, já terminado, vi a foto bem humorada da contracapa.
Sei que gostei do romance por me sentir capaz de comprar outro da mesma autora. Não parece uma primeira obra, é uma escrita rica, não linear e com muita pulsação. Ensina-nos um pouco o ambiente dos soldados portugueses na 1ª Guerra, a de 1914/18 em terras de França; e, nessa medida, exigiu pesquisa para além da dose maciça de imaginação que se nos oferece aos olhos e à mente. O livro gira em volta de algumas personagens todas muito fait divers, que se tornam importantes umas às outras com o desenrolar do enredo. Os principais intervenientes são um avô que foi soldado e uma neta que o não conheceu e lhe escreve a história (do avô, ou seja, o livro). E anda a neta um pouco palermamente, a oscilar entre um marido que a não encanta sem que entendamos porquê, mas pode ser só porque sim; e um fulano que conhece em França durante o tempo de pesquisa e logo um élan porque um beijo de despedida na gare. Depois, regressada a Portugal, já parece que não, sentimos que o francês perde espessura à luz da memória. Porém, no finzinho do livro está já com a obra acabada e seus achaques de dúvidas quanto a capas e títulos; sozinhita e a achar muita piada. Mas, por outro lado, espera a chegada do segundo homem que agora já lhe parece que sim. Os encontros amorosos são referência e mantêm-se no indescrito, talvez na fuga ao cliché. Ou, propositadamente, não, não. Procuro outra coisa.
É provável que eu tenha achado o que ninguém acha. Mas é que existo também para estes despautérios.

PS: Quando pedi o livro na FNAC, as meninas uns olhos arregalados ao desconhecido; disse-lhes que era recém nascido. Procuraram-no. Que já tinham vendido dois não sei onde. E ficaram numa hesitação sem palavras, que traduzi por, vale a pena continuar? E eu convicta, veja se o pode encontrar. Uma delas, cheia de profissão, olhos no écran...temos vinte em qualquer lugar; tem capa branquinha. E logo a outra, corpo de ânfora grega e olhos de atenção, a deslizar por prateleiras como se em vez de pés, patins; eles contentes, escondidos sob as calças, dançamos. E, pelo visto, venderam-me o terceiro exemplar. Senti-me a atirar uma lança para África. Eu. Que nunca fui à guerra. E desoriento até nas prateleiras das livrarias

                Um dia a Cristina ganha um prémio Saramago ou assim e esborracha-as com o êxito.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Clarice Lispector


O que sei desta escritora que recusava sê-lo é quase nada. Li-lhe o nome pela primeira vez na FNAC. E admirei-lhe o exótico do rosto, a estranheza do olhar, a perfeita linha da boca. E mais me disse o nome que o resto. Porém, sou avessa a novidades. E tudo nela me pareceu misterioso. Deixei para quando.
Mas as ideias seguem, felizmente, uma linha indómita. Nós distraídos e elas a trabalhar-nos a vontade. Minam-nos. E nós em solilóquio, qual escritora? Já não me lembro, esqueci, não tem importância. E seguimos. Compramos outros livros. Vivemos…
 Uma tarde, um título a acenar-me da estante, um dedo de letras em riste, lê-me. Obedeci. Tem vezes que sou obediente; e não gosto de contrariar livros, acredito neles a pés juntos. Era “A maçã no escuro”. Imaginei uma maçã listada e vermelhinha e logo desfiz o imaginado; no escuro, nenhuma dessas características existe. No escuro, a maçã é maçã pelo cheiro, pelo gosto e pelo tacto. E o título passou a intrigar-me. Não era já a vulgar linguagem do desejo, mas o peso da escuridão no fruto. Li uma ou duas páginas e notei-lhe uma pureza e cuidado invulgares, espécie de amor respeitoso pelas palavras. Que me Convenceu.
Comprei aquele bocadinho de Clarice e andei com ele por vários lugares. A lê-la. E confirmei, é uma mulher enigmática, aforística, com uma realidade interna tão furacão que o mundo a que chamamos real desimporta, esvanece. O mundo dela é pouco igual ao de toda a gente e a sua hiper-realidade entra em osmose com ele e domina-o. Escreve em loucura mansa que me lembra a poesia. E também por isso a comprei. Nada sei dos estados de alma que a levavam à escrita. Mas, do que li, me parece possuída, embrenhada numa teia que tudo envolve. Entendo que os franceses não gostem de lê-la - há-de haver mais gente -, não creio que seja escritora de massas. Ainda hoje não terminei “A maçã no escuro”, cujo já supus chamar-se “O sabor da maçã”. Quando arrumei o livro pensei “que mulher com uma escrita tão boa e tão difícil”. E fui correndo no tempo. Que somos nós quem nele corre, a gastar-nos sempre; des-pensamos disso, mas vamo-nos rasgando pedaços, que não podemos retomar. Dizem os cientistas que a velhice é efeito da força da gravidade no nosso corpo perecível. Mas envelhecer é o cansaço vital. Pouco importa se fazemos bem ou mal, pouco ou muito, depressa ou devagar. É preciso compreender: não deixamos as marcas dos pés, deixamo-nos. E esta verdade é tão irrevogável como bela. De uma beleza irrestrita, comovente. Viva.
E um dia a minha irmã a olhar o rosto de Clarice, “Esta sou eu” e eu logo, toda óbvia, não não, é a Clarice Lispector. E ela no peremptório de si, quero lá saber, esta mulher é igual a mim, eu olho assim e tudo; portanto, sou eu. E Isabel Allende acendeu-se-me na memória, A minha família, depois de “A Casa dos Espíritos” ter passado a filme, substituiu o retrato do meu avô pelo de Jeremy Irons. Ele é muito mais bonito, fica melhor em cima do piano da sala. Olho melhor e noto. A minha irmã tem razão, são parecidas, têm o mesmo olhar estranho, em tristeza e desafio, as maçãs do rosto altas, um delineado semelhante dos lábios. Também por isso, comprei outro livro, “Laços de Família”, que bisa as primeiras impressões. E fui visita na exposição da Gulbenkian Clarice Lispector, A Hora Da Estrela.
Decepção. Não é admissível que haja uma exposição sobre um escritor – ela não queria, mas era escritora, sim –, sem livros. Livros verdadeiros. Capas. Folhas. Letra de forma. Lugares onde passemos os dedos e demoremos a mente. Está certo, a senhora era meio misteriosa, o nome de estrela quadra-lhe, mas é demasiada escuridão e tristeza pespegar apenas umas frases.
 Na exposição sobre Pessoa havia uma mesa enorme com livros que escreveu ou revistas em que participou e  uma sala com pormenores biográficos. Como é que se organiza uma exposição sobre Clarice e nem um artigo seu para os jornais? Os jornais onde estão que os não vi. Deveriam estar todos ou a maioria. Que é dos contos que publicava quando jovem? Quando é que esta gente se lembra que a música pode ser  hipótese… Onde as fotos familiares, os dados biográficos…A exposição vive do seu rosto de ucraniana jovem a lembrar uma actriz de Hollywood. E da repetição de algumas frases. Insinuantes. Escolhidas. E, na última sala, o vídeo da sua entrevista.
A ENTREVISTA, a única a que anuiu - não gostava de ser pública. E VALE. É de 1977 e tinha 57 anos. Lamento que lhe tenham retirado as perguntas. Mas de todo o modo, aprende-se nela. E conquista.
Poderei eu não ter visto a exposição toda?! Comigo, também isso é possível. E preferível.
Deu-me grande prazer aquele bocadinho em que estive a sós com Clarice Lispector ela mesma. É uma senhora.
“Quando não escrevo, estou morta, mas precisa um esvaziamento da cabeça para renascer.(…) Agora estou morta, não sei se vou renascer.” (um pedacinho da entrevista:)
Oh! D. Clarice! A senhora renasce de cada vez que alguém a Lê. Com o inteiro da alma. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Rapaz de Bronze



Tenho mania de coleccionar alguns poucos autores e raro deixo a livraria sem que um deles a balançar-me no braço, contente de sair da estante. Se me move a busca de um preciso livro, saio com dois. Ontem, divaguei olhos por títulos e fui andando a tomar gosto a capas. Tenho em relação aos livros a atitude de alguns homens em garrafeira: embevecidos pertinazes, são ensimesmados contentes de si, enquanto assim. Mas Sophya. E o irresistível Rapaz de Bronze. De que só conhecia o título. Não vale disfarçar, gosto mesmo dos contos dela, assentam-me na idade, sei lá porquê. Amo-lhe a suprema elegância de onírico maravilhoso. A delicadeza das palavras que tão bem descrevem um mundo de faz de conta que existe afinal dentro de nós. A linha depurada e fina a delinear a essência das personagens.
Os contos da Poeta não coabitam com maldade a valer e até nos defeitos, alguma graça. E, por isso, toda a história é descarregada de sombras. E o resto é a poesia a brincar com o imaginário em jeito infantil e verdadeiro,
E eu sou uma flor. Poiso a minha cabeça na doçura da noite e as minhas mãos são frescas e perfumadas.
                Cativa-nos a verdade transparente, aquele leve perpassar de sentimentos fundos em elevação simples e não transitória, mão dada ao imaginário. Que o convoca:
Florinda – disse o Rapaz de Bronze -, vou-te ensinar um grande segredo: quando tu vires uma coisa, acredita nela, mesmo que todos digam que não é verdade.
E este segredo surge da confidência de Florinda que assistia a nocturnas conversas e danças entre as folhas de tília à beira do quarto e em que ninguém acreditava salvo, como se lê, o rapaz de bronze. E, contudo, existiam. O livro é mesmo sobre o aspecto outro que tem a realidade, se nocturna. E conta a festa das flores que, pela noite, andam e falam e sentem como as pessoas. Vivem num jardim maravilhoso onde o rapaz de bronze é rei; embora, à luz do dia, apenas estátua. E não esquece a importância dos cheiros e aromas que têm algumas flores pequeninas como a flor do Muguet, com quem o Nardo dançou atraído pelo odor.
E desconhecia esta flor miúda que tão bem serve a Sophya. Um impossível estilizado.
Não gosto do Cristo da agonia, que dele só entendo o humano grito:
- Pai, se é possível afasta de mim este cálice!
Quem sabe, a flor do Muguet lhe perfumou os pés e o corpo quando as mulheres o prepararam já sendo nada. Quem sabe, se ao reviver ressumava ainda o desvelo perfumado dos unguentos. E apresentou a Tomé a ferida do lado, exposta em ausências de sangue. E, no ar coalhado de espanto, apenas um leve aroma a flor do Muguet.

Boa Páscoa