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sábado, 7 de julho de 2018

Olívia


Projectava visitar-te no verão. É vero.  Não sou de juras, promessas são para cumprir  e pronto (se as não cumpro, é que não posso mesmo). Habituaste-me a esta amizade-laço com mais fita deste lado. Tens de reconhecer, dás-me uma pontinha breve, mal dá para nos atar.
Nunca quis mudar-te (bom, quis um bocadinho). Aceitei ser sempre eu a visitar-te. Por meus passos e iniciativa, vês-me uma vez ao ano. Contudo, aceitei a prioridade da prima de Lisboa que vês muito mais vezes e em eternidades de tempo. Aceitei os natais sem um cartão, o aniversário sem lembrança, os dias enfiados em coisa nenhuma. Que, até via telefone, sou eu quem te procura. Por amizade a um tempo que nos juntou e dizes lembrar. Sem gesto ou palavra que me alcance. Por te compreender melhor do que julgas apesar de sempre te retorquir sobre a religião, sobre a forma de vida que escolheste e que, ainda assim, podia ser-te mais prazenteira. Aceitei que não sei mudar-me ou mudar os outros, sobretudo no peso da idade. Tens de concordar, somos senhoras maduríssimas. Achei natural acompanhar-te nessa doença familiar, sem me impôr. Entretanto, conversa atrás de conversa, deixas cair que  fazes aqui uma refeição quando segues a caminho de Lisboa com os primos. Ou os tios. Ou quem seja. Um ritual de paragem.
Doeu, caramba. A dor situa-nos. Contudo, bastava um, estou na tua terra, vem ver-me, e saía desabalada. Repara  que nem sequer peço que desvies caminho (qualquer amigo normal o faria).  Mas não te ocorre ver-me. Por que carga de água faço eu mais de 150 km para expressamente te visitar...é coisa que não explico. E portanto. Se ligo, não te conto que a anca não me tem deixado sentar, que já o faço sem dificuldade por períodos curtos, que estar quieta no cinema ainda me deixa a barafustar no assento, que escrevo devagar e não tenho conseguido senão umas frases soltas porque o incómodo não me deixa pensar, que vejo filmes deitada com o écran do portátil na lateral. Que a vida sem escrita me amargura. E impede. Tudo coisas sem interesse. No teu entendimento sou incólume e vivo de alegria. E podes crer que faço quanto posso para ser verdade.
Não vale a pena somar impossíveis. Sou tua amiga sempre e não há mais conversa. É ponto assente. Portanto, quem sabe se para o ano a mágoa se me esbate e me ponho a caminho de S. Pedro. Sempre em frente. Até à brancura de um ninho de casas.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Olívia


Tenho saudade a ser Primavera e ir Alentejo fora.  Não apenas de ti. Do caminho. De eu numa recta quase deserta, a penetrar no interior sem invadir, mansamente, como quem entra em sua casa após o dia de trabalho.  Saudade de rodear aquela igreja de barras  tão nossas, onde em dia soalhento me acoitei a descansar da torreira que esparramava sem dó pelo Largo, o ar numa tremura. E não parar. Continuar rodando, sabendo que me esperas. Não com o mesmo anelo. Nem semelhante. Quem sabe se isenta dele, forçada à minha presença. Quem sabe.
Nunca me visitaste. Não escrevias ou sequer respondeste alguma vez às minhas cartas compridas. Se ligo, raro me atendes. Ofereço-me para uma visita e logo prorrogas, adias, empurras. E eu mato-te por fora, que amizade assim é desvalor. E interno-me em penas e lamentos. A falta que tu me fazes! Claro que tenho mais duas ou três amigas, senhoras de sua casa e seus narizes, mulheres a sério. Claro que conheço outras pessoas. Mas não são tu. Não viveram comigo dois anos de sonhos a fio, um dia atrás do outro comendo na mesma mesa, estudando na mesma sala, dormindo no mesmo quarto. Entre nós duas a afinidade combatia a solidão que já então rondava a porta de cada uma.  A gente que vou conhecendo é outra gente. Mais expedita. Mas também mais distante. Gente cheia de “amigos” e trechos de conversa dispensável,  encontros que não são a sério e onde não acerto bem com o papel, mas deve ser de ouvinte. Gasto horas do meu tempo a ouvir dissertações e interesses centrados. Conversa solipsista, sem um raminho estendido, assunto que nos una. Perguntarás porquê. Porque sou carola, porque tenho esperança em sintonias que ou não existem ou desistem. Porque os outros não são gerânios à minha janela. Enchemos a boca com o valor da amizade; dizemo-la deep e ficamos na superfície. Que pena! 
Fazes-me falta. Mesmo sem cartas. Sem visitas. Sem corpo. És uma ideia em mim. Mas qualquer dia é Primavera, arrebanho-me por inteiro, pego no carro e meto pés ao caminho. A ver se abraço a minha ideia de ti antes que toda se(me) desmanche. Porque te preciso, queres o quê?! Pode ser que não queiras ver-me. Mas juro que finges na perfeição e pareces sempre contente de mim. Por favor, repete; torna mais uma vez. E hei-de sustentar a tua crença de que eu sim, sou feliz. 
Mas primeiro tens que atender o telefone. E depois tenho de te convencer à minha presença.

domingo, 19 de novembro de 2017

Olívia

Estamos a um mês do Natal e vou, como sempre, comprar-te uma prendinha que tu agradeces com um telefonema que só fazes por essa mesma razão. Sem prenda, não te lembras de me ligar. Há gente escrava de causalidades necessárias. És como és, sou como sou.
Quando os achaques me percorrem o corpo e parece que tudo em mim sossobra, penso em ti. Também por seres mais velha. Como te darás com a velhice, que órgãos te ameaçam de dentes arreganhados, dores como cães de má fila. Quem te socorre. Talvez a prima te mime na doença. E chego mesmo a julgar-te mais acompanhada que eu, o que nem é difícil. Nas famílias há uma inadvertida distribuição de papéis e no meu a doença pouco conta. Na verdade nem tenho ideia do que conte. Será talvez a certeza da disponibilidade, coube-me aplanar o caminho de todos. Cada vez mais sou uma árvore. E olha, nem sei onde encontrar forças para mais um Natal. Não faças caso, é apenas a doença a falar. Quem sabe em Dezembro estou boa e tudo se faz e passa como sempre. Que não é bem.
Como sabes, a morte não é estado que tema por aí além (aquele momento da passagem, sim, deve ser difícil). Como Sócrates, julgo que seja um apagar definitivo. Um nítido nulo sem ponto de nitidez. Que me agrada, viver cansou-me demais. O eterno nada parece-me seguro. E não julgues por isso que o desejo. Não. Estou disponível para ele quando queira vir. É só.
Não tenho forças para mais mudanças na minha vida. Não que ela me seja fácil ou agradável, mas é a que me pertence. Já vivi a desejar um emprego, alguma coisa que me tirasse do buraco, me desse uma hipótese de pensar em mim de outra forma; a desejar uma casa em qualquer lugar do mundo. Mas hoje tudo que pretendo é continuar a sobreviver sem depender de ninguém. Não pesar. Se possível, ser leve até na morte.
Sei, não estou natalícia. Mas hei-de. E oxalá te sintas bem, que o bem estar dos que amamos ajuda a compor o mundo.

Um beijinho doce

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sopro

Olívia

            Bem sei que hoje não tens tempo e és bebé. Que os mais próximos, pelo menos esses, te vão abraçar e dar parabéns. E nem sabes quanto desejo que assim seja.
            Quem me dera poder fazer-te um bolo com velas. Um bolo suave, a destoar daquele em que a mana se enganou na receita e ficou dulcíssimo, as senhoras todas finas e mundanas (outro mundo, outro mundo) elogiando por bem parecer, pires xpto na mão. E eu sabendo que não, mas fingindo também. Far-te-ia (ó estranheza de conjugação) um bolo comum, sem extraordinários. Só por gosto de fazê-lo. Contente de ti que gostarias ao menos da ideia. Porque és pré diabética e o fígado, e mais mil e um motivos que encontras para te furtares aos doces que nem aprecias; e também por teres um bocadinho a mania das doenças, sua hipocondríaca disfarçada:). Ainda bem que não te perdes a googlar a lista completa de maleitas com mais os adereços. Endoidavas de vez.
Mas repara, a ideia de haver em alguém uma alegria de que somos causa, é prazer semelhante a quando sobes com dificuldade uma rua e lá no cimo verificas que o resto do caminho é descendente. Suspiras de alívio e satisfação. Hoje, és a minha rua a descer.
Olha, também podia fazer-te uma diáfana massinha de peixe (mas tinha menos piada e deslocava). Ou, quem sabe, não preferias a sopa de peixe à alentejana, um caldo de peixe com tomate e sopas migadas no prato. Com o teu amor pelo pão eras bem capaz de preferir o último. E escusas de negar, bem sei que nos restaurantes usas de contenção para não o atacares com vigor. Há pormenores que fixo sem querer, queres o quê?!. Mas pronto, deixemos o cardápio em paz. Fica só o bolo sobre a mesa e pronto. E depois apagas as velas com as crianças. É um dever teres crianças por perto; não há bolo de anos que valha a pena sem crianças. Que é para acenderes as velas n vezes. E elas apagam à vez, agora sou eu, agora eu, tu já foste, chega-te para lá se faz favor, eu é que fico aqui em frente do bolo. Portanto, minha doce amiga, junta vizinhos, primitos pequenos de terceira ou quarta geração, não importa quem, mas crianças.  Porque a vista dos bolos de aniversário insufla-lhes as bochechas e cantam que se desunham. Nada a fazer, são exuberância necessária ao teu dia.  
E parabéns por mais um ano. Aproveito o momento e saio enquanto o coro deles entoa e só as velas brilham no escuro. Na verdade,  mercê das circunstâncias e de nós duas, não chego a fazer-te falta.  No entanto, como outros que te rodeiam, estou sem estar.

Um beijinho doce e algum génio para mais um ano difícil

domingo, 25 de junho de 2017

Olívia 

Pensei que este ano ia ver-te e correr aquela estrada de planície sem fim. A esmo, desde a berma, flores e pastos arrepiando um bom dia na deslocação do ar, montados do sem fim a arregalar para o carro, aqui e ali, uma vara de focinho no chão a catar bolota. De outras vezes, bovinos pachorrentos, sem pressa de nenhum lugar, alguns apenas um vulto semi deitado, que nem se sabe de que descansa gado tão pouco dado a pressas. E a terra plana, a desenrolar em cada linha de horizonte, vizinha de céu tão baixo.  Lá ao fundo, sem escadote, azinheiras tocam o azul ao alcance da mão. Depois, sempre a fazer-me próxima de ti, contornar a igreja de barras certas que guarda a largura de árvores em quadrado seguro e chão escaldado a soalheiras. Ali, pesa a desocupação dos homens, olhos piscos em fresta, a seguir o movimento à revessa de bonés e chapéus. E seguir em frente, em frente. Passar o sítio onde os namoros se deslocam e atiram pedras a adivinhar longevidades. Como se uma pedrinha no cimo de um esfíngico pedregulho faça diferença ao sentimento. Mas o chão solado. Serão bastantes, os amores passageiros. Ou o par segue consolado da sua perenidade e logo o vento atira um punhado de pedrisco ao chão.  E fica a gente sem saber onde a razão, se no vento que as tomba, se na pontaria que as equilibra. Que, na vida, como em tudo, a pontaria faz muita falta. Pergunto-me se algum dia, tu. Se uma hora, tu. Se o teu coração ansiou ou quis experimentar. Mas falta-me coragem para te desvendar os votos lançados acima daquela enormidade de rocha que guarda a suposta eternidade amorosa. Ou talvez seja apenas bom senso, o teu passado vem ter comigo.  Ou não. Para nós duas, é de pouco interesse.  
No ano transacto, decidira, finalmente, que não me valias o caminho. Por qualquer ninharia me preterias; o peso que tínhamos uma na outra não se equivalia, éramos(somos) dois pratos desiguais na mesma balança. Um desgosto, Olívia. Coisa de memória a repensar.
Porém, inesperada, voltaste por teu pé, isenta das minhas aguilhoadas. E fiquei tão contente como o pai do filho pródigo. Festejei. De imediato, pensei na visita deste ano. Que parece não acontecer. Porque te repetes. Ligo-te e impedes-me a visita porque obras, pinturas, catequeses em términus de festa, ninharias palermas a que o meu coração não dá bola. Foi nefasto, acredita. Afinal, continuamos dois pratos em demasia desigual. Ficaste de ligar. Depois. Quando. E nem sei se.  Neste repensar do que somos e que a ti não incomoda, talvez eu tenha de alinhar contigo, alijar peso, tornar-me leveza de superfície. Viver uma amizade de raiz à flor da terra, se é que tal coisa exista e eu a consiga. Digerir, definitivamente, o facto de não seres quem te pensei.

Um dia hás-de ligar-me. Ou não. E fica a memória de Évora, as ruas de pedras a subir e a descer, os arcos da Praça do Giraldo, O café Arcada onde só estivemos uma vez submersas na vozearia de gente em rigor de capotes e chapéus alentejanos, a rua do Convento Novo agora fechado, a Porta na muralha de que já nem lembro o nome, os moinhos de S. Bento onde nunca fomos. Então,  havia os testes, as notas, o estágio que tanto nos preocupava. É lá que estamos e somos incólumes.

domingo, 4 de junho de 2017

Olívia

Há quanto tempo não nos encontramos? Já nem sei. Primeiro, aborreceu-me de morte a estranheza da tua torre solipsista que teimo em escalar: a constância do teu silêncio  feito de tempo, que interrompes em raros telefonemas; depois, chateou-me que não me atendas se ligo, tenhas sempre  telemóvel desligado (não sei porque o compraste), possuas  um computador  virgem ( e este, para que o queres?). Pasmo da tua solidão de sobro alentejano,  cortiça, musgo e líquenes a toda a volta; da tua orfandade sem palavras e que te marca os gestos; dos teus passos em eco pela casa, sempre mais que eles, o andar leve dos mortos que trazes contigo numa afeição que é demasia e grita do teu rosto para o meu, estamos aqui, não fomos a enterrar, acode-nos. Da tua expressão macerada que enfeitas de religião e companhia que não é. Da tua displicência alentejana que me preteriu por uma prima de Lisboa quando nenhuma de nós impedia a outra e mais me pareceu evitação propositada. E tudo isso, amiga, me afastou.  
Mas, à vista do meu silêncio definido e firmado em propósito de caminho encerrado, ligaste. Apresentaste desculpas. Desfizeste nós. Terás amigas comunitárias, gente boa e que só arreda pé de S. Pedro para ir ao médico, em excursão a Espanha, ou peregrinar  a Fátima. Mas nenhuma é eu. Nenhuma. Sou o teu lado perdido, um elo à vida que foste, alguém que - supões tu – vive no mundo que, em tempos, quiseste teu. E talvez por isso me aproximas e repeles. Quero fazer-te bem, mas quem sabe se também te deixo um travo no presente, se cravo um espinho pequeno que fica a incomodar quando te deixo. Num ai, a tua saudade afirmativa caiu sobre mim e desfiz o muro erguido entre nós. O definitivo passou a transitório. Um dia destes, o meu carro reaprende caminho e rola por esse Alentejo fora, sempre em frente, Évora, Reguengos de Monsaraz, S. Pedro. Aqui e ali, a claridade da cal a pontilhar a planície ainda enlaivada de verdes. Redondos suaves pegam uns nos outros, aqui uma anca, além o torneado de um braço, acolá um seio que se entrega. Alentejo é esta terra que o sol aclara  e martiriza, desmedida entrega a exalar num silêncio de mundo; é este pedido de mãos e dedos aflitos, a erguer-se de cada sobreiro desgrenhado; esta sublime resignação na humildade que consagra a pacatez de cada azinheira. E eu sou eles; e corro sentada na hipnótica fita negra que me seduz, escada em caracol a desembocar na tua rua murada de cal. Eu, que te tenho uma saudade feita de horas ensacadas, vou derramando bem querença por esta terra alentejana. Prescindo de procurar-lhe belezas ímpares, maravilhas, recantos, jardins de respiração florida. Gosto-a assim, em cheiros suados, carcomidos de calor; sinto a aspereza dos cardos nas pastagens, os pontiagudos do restolho nos pés, a comichão dos fenos por todo o corpo, a repelência disfarçada da vara no montado. Estremeço-a tanto na canícula que treme nos olhos, corpo a alagar, como nos invernos que paralisam o viço nos caules e chamam as artroses pelo nome.  O meu amor não obscurece às agruras estivais ou invernosas; não esmorece no confronto com a altura das serras e amenidade dos rios; não menoriza à vista de baías e enseadas, de praias vestidas de areia clara ou mares em fúria no encrespado da rocha. E nada é mais natural. O resto do mundo vejo-o sendo-lhe exterior; no Alentejo, a identidade é intrínseca e em alta voz. Grito-me.

E quando chego em tua casa vou assim, alentejanamente repleta. E o nosso amplexo é o abraço da terra que a si mesma se devolve. Um compasso de descanso. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Para a minha amiga que voltou sem me ter abandonado

Viemos de longe como da porta ao lado e tudo em ti continua familiar. O estar desliza-nos no gosto com a subtileza de água corrente, leve e natural, quase sem peso. Maravilha-me o ser humano. Não apenas nós duas reencontradas. Extasio à sinfonia de anos, ao enlace de almas, à comunhão que se não perde. Hummm...bem sei, o efémero. A incapacidade de retermos a água nos nossos dedos. O que bate forte e passa. Ou só bate e passa. Que devém recordação de bom tempo, qual lembrança de dia hospitaleiro que aproveitámos para fazer um piquenique inolvidável.  O que me deslumbra não é, contudo, esse tipo de efeméride que reconheço e também partilho. Esse, nós o sabemos, é o trivial de qualquer sentimento de raiz curta ou que nasce com defeito: por mais que faças o mal expande, o sentimento adoece, definha, morre. Por vezes, é tão lento o progresso do veneno que sobrevive a poder de artifícios vários, fertilizantes, regas, insecticidas.  Está, como diz o povo, ligado à máquina. E a máquina, minha amiga, sendo humana, arrasa e prende. Estas são as coisas que não digo, as que, muito possivelmente, rascunho em mim. Mas a alegria que nos junta é tão genuína que isola e inibe bafios compassivos. Os escafende. A verdade é que o quotidiano perde profundidade para o encanto de estarmos duas. E não creio que mais nos interesse do que reavermo-nos. Naturalmente. Porque sim.

Tens razão, a amizade suaviza e ajuda-nos a viver.
OBRIGADA 

terça-feira, 31 de maio de 2016

Olívia

Quanto tempo!  Penso-te a vaguear nessas ruas sem poeira. Ou talvez nem haja ruas e tenhas perdido a alma vagabunda, tingida agora no ópio da indiferença. Tanto mundo de permeio entre vida e morte. A vida compraz-se no acontecer de que a morte se guarda. Uma é ebulição efervescente e faz-se pública; a outra concentra-se em frieza jacente que incomoda e desinteressa à euforia das horas.  
Mas deixemos as minhas reflexões sempre a chinelar que não foi o que me trouxe. Conheces-me. Sabes que não aprecio grupos grandes, que gosto ou já me habituei a estar só, que o silêncio me faz bem à cabeça e lhe dou hoje outro quilate. E também sabes que se o tempo passa e me deixo ficar quietamente, começa aí um período de urgência de escrita e voz. Que ainda não chegou. Mas quem sabe se aproxima. À tua sombra.
Por vezes penso em ti – muitas vezes. Não em ti morta e amorfa. Em ti a olhares-me, interessada no que digo. Ou entusiasta, contando as tuas idas e vindas, os desaires, as pequenas alegrias da profissão. Os teus desconcertos que são desconcertos de toda a gente, mas só em ti têm halo de verdade intransponível. Se fosses objecto, por certo serias lâmina de arado. Revejo as tuas revoltas de corpo inteiro, uma força de ânimo que é lâmina onde os torrões são manteiga. E ainda assim a morte te levou e quando te escrevo é comigo que falo. Escrevo de mim para mim em monólogo interminável. Tão estúpido. Mas não aguento pensar que é inútil.
Talvez tu não me existas. Talvez só eu me exista. Mas existo por nós duas. Podes crer.

Fica bem. E guarda-me. Guarda-me sempre.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Querido Deus

Bem sabes que as minhas dúvidas são perenes e que as minhas diminutas certezas abrangem um nico de ideias, e ainda menos de pessoas. Faz o favor de não te irritares, não sou céptica em relação à humanidade, mas, reconhece, deixaste-nos incompletos em demasia. Pensando melhor: sou céptica em relação aos homens género masculino e às amizades sem género. Por mim, já sabes, não aposto em nenhumas destas categorias. E quero mas é que se lixem (gostei de escrever isto, calha bem). Vou rever-lhes as posições.
            Bom, e posto que para Ti há só eternidade, esta coisa de Ano Novo e Boas Entradas, não te serve.  Mas olha lá, como é que se pode – no mundo dos homens, claro -  desejar bom ano a alguém. De forma honesta, quero dizer.  Fora de fórmula e sem protocolo. Experimento escrever a frase e noto-a dissonante, um barulho de lata no meio da música. Leio alto e não conjuga. Não dá para acreditar em desejos de bom ano se forem de ano inteiro.  Nunca dá. Um ano é tanto tempo! (dantes os anos passavam sem dar conta e agora cruzam-me tão devagar que não os entendo). Pode não parecer, mas nesse interim de centos de dias,  acontece TUDO. São doze meses, cada um com 30 dias – pronto, há um com menos, mas sete têm mais um. Ora, 365 dias, a 24 horas cada, é uma conta bicuda. E por aí fora até aos milionésimos de segundo. Contudo, é de experiência, num átomo se nos esvai saúde, dinheiro, amores e outros imprescindíveis; ou nos esvaímos nós. Resultado: um ano é um amontoado de oportunidades para. Portanto, cautela com ele.
            Assim, é com pinças que entreabro as primeiras folhas  a cada ano de calendário: devagar,  com cuidado para não atrair as desgraças que estão por ali em revoltinhos, ensalganhadas com as coisas boas que, já se sabe, são frugais. E depois, podem pensar, se elas lá estão, vão sempre acontecer. Não, não. Os anos nascem com a prerrogativa da vida, são um bouquet de possibilidades que puxamos à existência. Aceito, abundam contingências e necessidades provenientes do acumular de vida onde o corpo se gastou (tudo nos marca),  genes que nos afundam, a barbárie de alguns erros... são as condições gargalo de garrafa. Se a vida é mais longa ou menos ágil o pólo da sorte, o possível afunila. Quem sabe esteja aí a causa do tempo a preguiçar, horas compridas inchadas de minutos que lagartam.
            Deus, eu só queria que 2016 fosse menos comprido.
            E a paz no mundo e isso?! Ora, há mais de mil anos que assobias para o lado queres o quê?! Deixei de acreditar.


PS: se não conseguires cortar no ano, podes cortar-me a mim. Estás à vontade.

sábado, 21 de novembro de 2015

Olívia

Olha garota, tu desculpa, mas é que tenho pavor a descobrir que morreste mesmo. À séria. Assim uma coisa de não estares em casa nunca mais e haver outras pessoas a morar no lugar que foi teu; de eu te procurar na rua de sempre que a minha baralhação não alcança; de os  alentejanos à beira do carro, a coçarem a cabeça por cima da boina, embatucados na resposta, uma fixidez mórbida aguardando reacção, morreu já vai para um ano.
E depois chego ao teu portão que dá sinais de sim e de não. Para que duram as coisas mais que nós, se depois levam que tempos a despir-se de hábitos, a despegar de cheiros, a entretecer a realidade. E pode que não. Sabes tu, na casa da minha avó, morta há que séculos, ainda uma flor ou outra plantada por sua mão. Palavra. Bom, as flores não são objecto de comparação, fazem o que querem. E aquelas, pelo visto, querem florir, renascer a cada primavera. Passo lá e os pés abrandam nos pedais, o guiador feito parvo a querer virar, dar a volta à casa e encostar no pilar do alpendre; e tenho de contrariar a minha vontade de anuir - até porque alguém a murou. Por entre o folhedo das árvores, espreito a selha onde lavava os pés, vestido e combinação a escorrer. E o meu avô, juro, está lá, virado ao gargalo do poço, todo mãos no golpe do balde. Às vezes, penso que devia fazer o mesmo contigo, regressar ao que deixaste. Metia gasolina e partia como dantes, Alentejo adentro. Depois de muito quilómetro, numa recta sem fim, passava a placa indicativa da Caridade noivando ao longe, e subia-me uma ternura só de olhá-la assim, aldeia tão pequenina e perdida na planície, à mercê sabe Deus de que maldades. E logo, logo, circundava a igreja matriz de rectas barras azuis, tão alentejano o deus que lá mora, anos a fio virado ao vagar da praça, a sofrer o áspero do vento que encana a esguedelhar árvores ou sufocando, lento e esbraseado como qualquer mortal, quando nem uma aragem corre e um inferno de calor assenta na terra desfalecida e semimorta. Mas isto saberás melhor que eu, Reguengos é a tua cidade.
Como fazer tal viagem, diz-me tu, amiga. Vá, ensina-me a tua ausência. Preparo o quê, para quem. Em quem penso no caminho. O que faria à beira daquele portãozinho pequeno a que já aprendi os truques. Desculpa, não sou capaz. Emendo, não tenho de ser capaz.
Aí tens, Olívia. É isso. Prefiro eternizar-te no lugar onde te visitei menos vezes do que devia. Mas as coisas boas são sempre a menos. Calha assim.
E afinal, a eternidade é essa coisa vaporosa e de nuvem, ou simplesmente não existe?  Bom. Se não existe, estou falando sozinha. Pra nada. Pra ninguém.   De novo. Portanto, mais uma vez jogo nas preferências: Em mim, existes sempre. Queres lugar melhor, Olívia? Não comes, não bebes, não dispendes. Ora muito bem. Sim senhor.
Pronto, tá bem, cansei-te. Vai lá apanhar solinho recostada numa nuvem. Ok, sim, guarda-me lugar que a vida é um rufo.

E porta-te, que não quero cá queixinhas dos santos

domingo, 1 de novembro de 2015

Olívia


O tempo levou-nos na correnteza. Submersas em tentáculos quotidianos, persistimos viradas ao umbigo e suas extensões. Vivo enleada em palavras enquanto tu persistes nas obras comunitárias que te organizam as horas, manifesto da tua agenda. Não entendo como te deixas seduzir por catequeses, missas e velhos sem destino ou direcção; mas a ti  “faz-te espécie” que eu perca horas a ajeitar letras sem préstimo, que ninguém lê e eu mesma esqueço (a mim também me faz espécie, mas é um ritual e agrada-me). Como as pessoas diferem sendo tão parecidas! Preciso de um exercício de bom senso para aceitar que uma vida – a tua – tenha tal conteúdo e daí lhe venham os toques de alegria que te animam. Imagino que eu te provoque algo semelhante.

Lá fora, a política enlouquece a fingir acordos que não duram, o país depaupera e hordas de refugiados morrem e sofrem às portas da Europa. A frágil e fingida Europa. Que oferece roupas e agasalhos, e brinquedos e livros e o diabo a sete, mas receia.  Que deixa passar – se deixa –, mas não acolhe. Armada em obtuso Pôncio Pilatos. Pergunto-me como pode ser levada a bom termo a inclusão dos refugiados se não beneficia de acção concertada por parte dos Estados. Não se criam infraestruturas, não se pensa que são milhares e milhares de pessoas em fuga e  sem um haver. Que vêm para ficar. Oh, Olívia, não me julgues ingrata, uma mal agradecida a tanto particular que se moveu. É tudo necessário, os camiões TIR com víveres e roupas e livros e bonecos e tanta coisa. Porém, tudo isso pertence a outra ordem e é quase irrelevante na solução do problema e na sua premência. Queiramos ou não, é agora um problema nosso. Nosso, enquanto Europa. Nosso, enquanto países envolvidos no acolhimento. Vai afectar-nos presente e futuro e reduzir o problema à sua dimensão moral e humanitária é simplismo. É também um problema social, económico e político. E tem de ser assumido na sua qualidade. Mesmo não aplicando o discurso – verdadeiro -  sobre a tradição humanista da Europa, é errado ignorar e dar as costas.

            Quem sabe, esperas resposta do Deus de bondade e paciência. Que te acalma e promete.  Ao invés, os meus deuses  são inclementes,  viram-me o bico da seta  e não fazem promessas. Privo-lhes com a veia poético-estóica, que apregoa o esforço porfiado e convicto: “vai...mesmo que sejam vãos os passos”. Olívia, essa bondade inalienável não me existe, apaguei-a ao nascer. Ficou-me o reduto breve da poesia. E  os passos.

            Eu acho que hoje o meu coração ensopou, está de portas abertas e à chuva. E é por isso.

Um bjo

sexta-feira, 10 de julho de 2015

D. Maria de Jesus Barroso

Bem sei que já toda a gente lhe escreveu. Que recebeu uma quantidade assinalável de elogios merecidos. Que lhe reconheceram, publicamente e sem mentir, as maiores qualidades. Que, de figuras públicas a meros figurantes, todo cão e gato lhe desenhou um enfeite. Em alguns foi mais rebuscado, noutros mais modesto, muitos a falar-nos ao coração. O certo é que a senhora acolchoou em carinho português. Tem que concordar, para um povo que não escreve, foram bastos textos. Mérito seu, portanto.
E agora que já arruma a correspondência, chego eu. Mas é que…bom, li textos de amigos e familiares, de poetas e jornalistas, de antigos alunos, de governantes e ex governantes. Peço imensa desculpa, mas falta o meu. É possível que alguém tenha escrito do mesmo lugar – a bancada do povo comporta muita gente – mas não terá iguais lembranças.   
É inegável que a senhora, Dona Maria de Jesus, fez bem a muita gente e de muito modo, a sua humanidade foi sempre do melhor quilate. Quero apenas expor a parte que me tocou. Cumpre-me esclarecer que só nos dissemos boa tarde duas ou três vezes por semana ao longo de dois anos. Não sei já como se chama a rua do Colégio Moderno, mas era ali que eu a ultrapassava, a senhora saindo de sua casa e em visita ao colégio e eu numa pressa esgalgada para as aulas. E não foi aquele cumprimento banal de olha desolha e boa tarde, que me cativou. Foi o seu jeitinho singelo de portuguesa comum, vestida de escuro, sapatos vulgares; nas tardes mais crespas, o tricotado de um xailinho a agasalhar. Usava o cabelo preso com ganchos baratos – na altura chamávamos-lhe molas - puxado logo acima das orelhas. A primeira vez que a ultrapassei – nessa época as aulas da Faculdade de Letras começavam em Novembro - colei ao penteado enquanto a senhora, sem identidade, uma mão a ajustar o xaile ao corpo, entrava num portão  de onde saiam muitas vozes infantis e, de relance, vi bibes e pernas e pés que correram a rodeá-la. E eu que antes vinha em modo papa-léguas, estaquei a olhar para trás. Mas já só estava o portão. E eu varada de surpresa e recordação. Quanto tempo sem ver alguém pentear-se assim… e logo as tuas mãos emergiram a segurar cabelo e pente, a desembaraçá-lo mecha a mecha, e depois a retirar a mola que prendias na boca ou descansava sobre a mesinha, a abri-la e atravessá-la com mestria no cabelo que assim te descobria a cara. A sério que me subiu uma vontade de ir bater no portão fechado e lhe agradecer, D. Maria de Jesus. Mas logo caí em mim e no ridículo de ser uma desconhecida fixada em duas molas de cabelo. Depois, gastava o caminho a desejar encontrá-la e ao seu penteado de risca ao lado e molas compridas agarrando cabelos, tão igual às mulheres da minha aldeia no dia do avio. Entretanto, aprendi os dias em que nos cumpimentávamos e aqueles em que não. Não imagina o bem que me vinha de olhá-la. Pensava-a uma avó que ia buscar os netos, e, como nunca a vi sair, a hipótese sustentou-se.
Já o ano escolar iria a meio, quando, por falta de um professor, parte da turma desce para o Borges a beber cerveja. No fim de tarde a amarelar, cruzámo-nos consigo. Deu-me a boa tarde de sempre e olhou-me com os olhos bons que são seus, desta vez frontais, no meio sorriso do reconhecimento. Antes que eu pensasse, o que é que esta senhora anda aqui a fazer, um colega a meia voz, é a mulher do Mário Soares, vai para o Colégio Moderno que é deles. Bom. Só então entendi que o tal portão era parte de um colégio. E fiquei a admirá-la de coração, pela simplicidade afável da figura.
Antes de terminar: acho muito bem que reinvindique o seu lugar ao lado do doutor Mário Soares. Na Terra, ou onde for. Atrás de um grande homem?!!! Ora essa. Apoio-a a 100%. Quero ainda agradecer a sua voz a quebrar quando falou da netinha de oito anos, “A avozinha vai ficar sempre no meu coração”. Garanto, não ficou só no coração da garota.
Por fim, o interesse da jornalista, de que tem saudade. E a senhora, olhos brilhantes e voz levíssima, da minha família, os meus pais, os meus irmãos.. nós éramos muito unidos. Como eu a entendo D. Maria de Jesus! Quem sabe eles não se comoveram também….  
D. Maria de Jesus Barroso, a senhora é uma esteta, fez a sua vida tão bonita!

Um beijinho e Muito Obrigada

quarta-feira, 18 de março de 2015

Olívia



Morreste. Assim. Sem mas nem mais.
De alguma forma já tinhas morrido. Se habitas um Olimpo omnipotente, sabes quando. Se não, digo-te que foi no dia em que não me quiseste junto de ti, quando vali menos do que uma prima de Lisboa, lembras-te? A tua voz no telefone a escolhê-la a ela. Sei, não o disseste com o propósito de magoar, foste em absoluto sincera e sou-te grata por isso, situarmo-nos dentro das afeições e situá-las dentro de nós, é bem de primeira necessidade. E tu, a uma prima que ficaria contigo uma semana não podias roubar três ou mesmo quatro horas de um dia. Não tive em ti esse merecimento. Estúpida de mim! Quando o afirmaste, logo comecei a dizer que era engraçado conhecê-la. Cerceaste-me sem hesitação. Eu não te dava jeito. Tinhas razão, sabes? Nem para mim mesma sou uma pessoa jeitosa.
A morte é um domínio tão obscuro. Não sei se podes ver-me. Se me lês. Se agora, finalmente, me conheces a alma. Quero crer que sim. Que, nesse reino desconhecido dos homens, o teu pensamento exista e possas compreender-me. A mim. Que sou ainda esta amálgama de terra, sangue, nervos, ossos e o mais.
Quando alguém me ligou – quem sabe, a prima de Lisboa – a comunicar, não houve surpresa, que as más notícias do coração sempre se me fazem prévias (não nascem como os cogumelos). A verdade é que pedias para ver as minhas fotos de família, mas desconheço por exemplo a aparência dos teus pais; se há fotos deles, não mas mostraste. Porém, uns dias antes da tua morte, vi a tua mãe, imagina! Acordei na certeza de que ela a meu lado. Suponho que tenha sido um sonho. Só pode ter sido um sonho. Mas eu sei quando os sonhos me avisam embora quase nunca saiba de quê. Neste, nada aconteceu. Não houve história, cenário, voz, cores. Era apenas o rosto dela  - que na verdade desconheço e nem sei se seria aquele, mas acredito – em visitação, uma fotografia desmedida a olhar-me a preto e branco. E nem a sombra de um sorriso. Tão séria, a fixar-me. Acordou-me o assombro daquele olhar enigmático, intrigada com as ondas do basto cabelo grisalho, único factor que parecia real e mesmo desenquadrado.

E pronto. Quem sabe, ainda gostas de um abraço justinho e sem roda para os caminhos do eterno:)

domingo, 8 de março de 2015

Querido Deus

Peço desculpa por te escrever no tarde da vida e espero que, ao fim de tanto ano, saibas ao menos quem eu sou. Para te falar com franqueza és mesmo o meu último endereço. Devias ser o primeiro, mas que queres, dá-me mais jeito escrever a quem é como eu, as cartas para um deus, por mais que se não queira, são sempre de baixo para cima, logo, pouco democráticas. Certo, oralmente já te pedi muita coisa. Mas adaptei-me ao teu ser de ter o mundo todo às costas e penso que lá terás as tuas razões para permitires ou enviares  o que bem entendes e nem sempre é o que desejo. Na certeza porém de que os teus desígnios são insondáveis, não é apenas burrice de je.
            Antes de pedir seja o que for – sim, sim, vou pedir qualquer coisa; se não queres nada comigo, para de ler - gostaria de rever algumas particularidades em que, certamente, puseste ou o prego ou a estopa. Senão vejamos: nasci com peso a menos; que morria, que morria e compus-me. Aos dois anos adoeci dos mamilos (achas algum jeito a uma doença destas em tenra idade, vá, diz lá) e parece que ia morrendo; fiquei com defeito, mas fui em frente. Aos dezoito arrasaste-me e convenci-me que não escapava, mas renovei. Aos cinquenta afundei em desencanto e a inanição apetecia-me, a morte era de somenos. E agora, aos sessenta, resolves massacrar-me com uma data de coisas que só acontecem, por norma, depois dos sessenta e cinco?! Ora bolas!, então eu que sou atrasada em quase tudo, só me adianto no avesso. Assim não vale. Cumpre as estatísticas, caraças. Morres aos trinta e três, sabes lá tu o que é ir prescindindo das coisas de que gostas ou te entretêm. Ok, foste crucificado que é bem pior. E tens razão, eu queria morrer toda gastinha e é o que está a acontecer. Por esse lado, não faz sentido reclamar. Mas faz por todos os outros.
            É em nome desses outros aspectos que te peço: deixa-me nadar mais uns tempos; arranja forma de eu voltar a fazer tricot, não me tires já a bicicleta, manda-me sff alguma alegria que estou precisada. Sobretudo, porta-te bem comigo nas férias: que a minha perna não arme em parva no calor do norte de África e o ombro não despenque.
            O resto a vida levou, tu levaste, eu desbaratei. Ou está cá a moer-me o juízo e o corpo.

Pronto, não me queixo mais. Podes ir atender outras criaturas. E não te esqueças de pensar no meu caso. Se precisares de ajuda já sabes, estás à vontade…
Um abraço e cumprimentos aí em casa


PS: e faz favor de me deixares gozar o Dia da Mulher cujo eu acho uma parvoíce pegada, mas vou aproveitar com a amiga que tu sabes. A comemorar nada, salvo a nossa amizade. Porque haver um dia da mulher já me ofende.