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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Ler na Escola

Li há tempos – no jornal Expresso do dia 8 de Dezembro de 2017 – que, em mais uma avaliação internacional em educação, os alunos portugueses do 4º ano de escolaridade desceram na capacidade de compreensão de leitura.  Ou seja, lêem mas não sabem bem o que lêem porque não o compreendem.  Mas, refere o mesmo estudo, as nossas crianças do 4º ano são as que mais gostam de ler. E em seguida o artigo do expresso expunha considerações e críticas de um a outro governo. Deste ao antigo porque o estudo data de 2016 e, sendo assim, os quatro anos de escolaridade a que se reporta dizem respeito à reforma do então ministro, Nuno Crato, que propunha  - ainda segundo o artigo – um sem número de conteúdos em lugar de definir competências e que privilegiava a leitura escorreita à compreensão. Do antigo governo e dos autores da dita reforma que se defendiam aduzindo que a obrigação de leitura corrente no quarto ano é fundamental e não pode nenhum programa prescindir dela, a bem do ensino democrático. E bla bla bla dos dois lados da barricada.
            Ora bem. A primeira coisa que me soe dizer sobre isto é que, ao contrário das expectativas elevadas dos inquiridos no artigo, que partem do princípio que as nossas crianças foram sinceras e gostam muito de ler, e portanto basta pegar-lhes no gosto e andar para a frente, eu desconfio amplamente da resposta das crianças do quarto ano que afirmaram gostar muito de ler (em cinquenta países inquiridos, estamos em primeiro lugar, gente. As nossas crianças são, a nível internacional, - 50 países! -  as que mais gostam de ler). Eu, se fosse esses senhores tão sábios e cheios de estudos, não faria muito caso de tais gostos infantis. Toda a gente sabe que as crianças – e até os adultos – mentem para agradar; basta-lhes pensar que fica bem dizer que gostam muito de ler e logo todos fazem ali a cruzinha. Ó gente, é que dizer que não gostam de ler é defeito, uma espécie de nódoa, fica mal, rara é a criança que o afirma num inquérito; isso é coisa dita lá em casa, se a obrigam a estudar a lição. Não sei mesmo por que razão os tais espíritos iluminados não desconfiaram de nada. É que fui reparar melhor e os países que estão em segundo e terceiro lugares – os que nos acompanham a ler mais - são o Cazaquistão e o Irão (calculem vocês). Portugal ocupa o trigésimo lugar na compreensão do que foi lido, não sei por onde andam o Cazaquistão e o Irão, mas dos dez primeiros não constam. Para mim é limpo, os garotos mentiram. Ou, como agora se diz, faltaram à verdade e assinalaram o que pensavam que lhes beneficiava a imagem. E os do Irão e Cazaquistão? Pois, não sei, mas devem ter tido um pensamento semelhante que as características do pensamento infantil não divergem assim tanto de cultura para cultura..
            Mas há outra incongruência. Porque, senhores pedagogos do “se o gosto existe, vamos trabalhar para que se transforme em resultados melhores” (Teresa Calçada do PNL).  Então as nossas crianças não compreendem bem o que lêem, mas ainda assim gostam muito de ler... gostarão de papaguear?! Não conheço uma única pessoa que sinta prazer  na leitura de algo que não entende completamente, a quem, quiçá, escapa o sentido do que leu. Mais me parece que seja isso razão para desgostar de ler. O que a experiência nos ensina é que quem gosta de ler compreende muito melhor qualquer assunto escrito e sabe, mesmo oralmente e por comparação com quem lê pouco, esclarecer melhor as suas opiniões.  Portanto, mais uma razão para duvidar do gosto deles. Mas quem será a alma que inventa inquéritos sobre gostos infantis desta natureza?! E as que os valorizam?!

Qual será o remédio para este mal de ler sem compreender?! A educação, no seu aspecto informal e formal não tem receita única. Mas sempre vou dizendo que escolher um livro para ser lido em aula, resulta. Instituir uma pausa para leitura que se continua dia a dia, resulta. Os alunos gostam de ouvir a professora ler uma história, esperam mesmo por esse bocadinho de tempo. Mas uma história longa, que os agarre e não seja da carochinha. Que eles já têm muita coisa a distraí-los, não precisam acrescentos. 

sábado, 25 de novembro de 2017

De Pequenino....

                 Muito se fala sobre a igualdade entre os sexos e o fim da discriminação feminina. De, como quase toda a gente aceita  - ainda há quem viva na idade da pedra e faça gala na prepotência -, homens e mulheres serem iguais em direitos e deveres, embora diferentes na sua anatomia e particularidades de género. Mas afirmar a aceitação não é igual a proceder em conformidade. Quer isto dizer que muito há a fazer. De vez em quando, soa um gongo nos jornais: as actrizes de Hollywood queixam-se de que os homens recebem um cachet muito superior ao seu. E nós pasmamos, então até nos USA o costume se mantém?! Ou, como há pouco tempo, vêm queixar-se de produtores sem escrúpulos que as assediaram e exigiram favores sexuais em troca de papeis e pedacinhos de fama. E nós todos a condená-los, a julgá-los uns imorais. Congratulo-me por mulheres conhecidas em todo o mundo terem tido a coragem de os apontar e revelar a peçonha que escondem. Mas pergunto-me por que esperaram tanto ano. Têm razão, pois claro. Mas a queixa e a condenação perde força quando soa assim ao retardador. À época, eram jovens desconhecidas e sem tarimba, não o conseguiam fazer: por vergonha, por necessidade, porque ninguém as ouviria, por medo de represálias. Mas precisavam esperar tanto ano?! Além disso, sou forçada a reconhecer: escândalos deste teor não mudam mentalidades. Escandalizam. São notícia. Maldiz-se o indivíduo em causa. Ostraciza-se. Fazem-se cair do pedestal alguns homens. Concretizam-se vinganças. O mundo digital explode, somos todos pela moral e igualdade de género se não dá trabalho e é só dizer ámem. E tudo passa.
Acontece que a desigualdade começa na forma como somos educados. E, desculpem-me todos os ministros de Portugal e mais todos os secretários e secretárias da educação, mas nenhum fez a coisa como deveria. Supõe-se que a teoria leva à prática. O que não é verdade. Como atrás referi, há um fosso aberto entre dizer e fazer. Portanto, meus senhores, estes preconceitos só têm uma forma para desaparecer, agir sobre eles. É o que fazem as sociedades nórdicas, muito mais avançadas que nós na igualdade de género. Aprende-se em família? Sim, também. Mas está institucionalizada nas escolas, faz parte da educação dos jovens.
Na Suécia, por exemplo, em vez das teorias da batata que pululam por aí e não levam a lado nenhum, todos os jovens entre os onze e os dezassete anos têm aulas de, digamos, economia doméstica, que contam para avaliação e incluem trabalho de casa e tudo (os tais TPC com que muita gente não concorda, mas eles fazem). Aprendem a organizar-se em casa. Por exemplo, têm aulas práticas de culinária e confeccionam refeições, aprendem o valor calórico dos alimentos e a sua gestão económica – o que é mais caro e mais barato e os componentes nutricionais. E depois almoçam ou lancham o que confeccionam.  Mas não se pense que ficam por aqui. Nestas aulas, aprendem a funcionar com os electrodomésticos: máquinas de loiça, de roupa, aspiradores e o mais. Aprendem ainda a lavar a loiça manualmente e quais os detergentes e formas de lavar cada peça, das mais às menos sujas. Aprendem rudimentos de carpintaria, a coser botões e fazer bainhas, a passar a ferro e tricotar. E isto, meus senhores, não é o antigo Curso de Formação Feminina, é uma disciplina com avaliação e comum a todos os alunos, escalonada por graus de dificuldade em cada ano. Portanto, à beira dos dezoito, não há jovem que não saiba como fazer as tarefas domésticas. E a nenhum passa pela cabeça, suponho eu, dizer como é tão vezeiro em Portugal, isso é trabalho de mulheres.

Vendo bem, não há razão para tal desigualdade na distribuição de tarefas. Se no mundo exterior as mulheres trabalham como os homens, ganham o sustento como eles - algumas até mais que eles -, qual o motivo de, dentro de portas, ser ela a trabalhar, ou, em situação mais benévola, ele a “dar uma ajuda” como se lhe fizesse um favor?! Todos somos humanos, temos um corpo com dois braços e duas pernas, uma mente pensante e mais o que falta. Também não consta que as diferenças anatómicas entre os dois sexos tornem alguém menos apto para este tipo de tarefas (diria mesmo que elas nem contam). Haverá quem, devido a características pessoais, seja menos hábil a realizar uma ou outra, mas não podemos atribuir  “a culpa” ao género a que pertence. Conclusão: parece-me que, se os jovens forem institucionalmente educados no exercício prático das tarefas caseiras, não há como fugir à igualdade de género, pelo menos no campo da economia doméstica onde tanta mulher portuguesa vai morrendo à hora. Mas será que essa igualdade interessa?!

Da Memória...

Sexta feira, vinte e quatro de Novembro do ano de dois mil e dezassete. Madruguei. Passava das cinco quando tudo que a seguir conto se me fez presente. Seria alguém  talvez ligado à memória vívida que me despertou. Anseio que seja um chamado, transmissão da força do pensamento, desejo puro de um tempo em que fomos “for ever young”. Que não um sinal de perigo, urgência a que não posso nem sei atender, apelo instante em situação limite. Porque claramente distingo o chamamento da simples lembrança. É outra intensidade e outra natureza. A segunda, é apenas memória afectiva e morna que sucede em consciência. O primeiro, acorda-me em clareza e precisão, numa supraconsciência inexplicável que se particulariza em qualidade e grau; supraconsciência que é portadora de natureza própria e para que não encontro palavras. Temo chamamentos. Se é verdade que os separo da lembrança, também é verdade que não sei destrinçar o desejo instante de presença, da necessidade que se expressa no apelo irredutível e último em urgência vital. Os chamamentos são gritos na noite. Gritos que só eu oiço, sem lhes conhecer proveniência. Mente que me chama com força inusitada e única e que, milagrosamente, chega até mim. Nem sei se de mortos, se de vivos. Que os mortos também nos chamam e falam e têm força.
Quem sabe não eram senão eles, os mortos,  a lembrar-me esse período difícil da vida em que fui bafejada pela sorte de um projecto comum tão salutar quanto contrariado pelo poder. O volume de trabalho e escolhos a ultrapassar. Primeiro, a escrita da peça de teatro (que já perdi); de seguida, a leitura para escolha de actores, todos a escolher todos; e logo, os ensaios. Sem sala, ensaiávamos nos átrios de corredores, no intervalo entre aulas diurnas e nocturnas, perturbados por aspiradores e vozes de empregadas. Ou em casa de um ou outro. No final, eu a carregá-los para os autocarros. Gente que se levantava às cinco e ainda assim entusiasmava com os extras; Do meu lado, nem verba, nem horas disponíveis. Era a nossa carolice sempre rechaçada. A pior turma em comportamento. Mas, no dia, enchemos a casa. O temor, tanta gente (era quarta à tarde, não havia aulas, o auditório à cunha, gente sentada pela coxia), e se não gostam, e se...E eles, mais de trinta, já metamorfoseados, o do acordeon a puxar-lhe as alças para o ombro, vai correr bem. Um lá em baixo, amarfanhado junto às casas de banho, mãos na barriga, não consigo, não consigo. Eu a levantá-lo do chão, consegue pois, entra e esquece-se de tudo, vai ver. E ele, tenho de ir vomitar, eu não devia ter vindo para isto, foi só por andar atrás daquela miúda loira que está a apresentar. E eu, deixe-se de paranóias, você é um actor, quando pisar o palco passa-lhe tudo. E ele a olhar-me em dúvida culposa, e se eu me fosse embora agora... Eu séria, olhos de ácido sulfúrico, deixe-se de parvoíces, vá lá vomitar que eu espero aqui e vamos os dois para cima, ouviu? E lá em cima o do pano de cena, tenho que ir a casa num instantinho, eu não me demoro; - e a dar-me palmadinhas no ombro - mas olhe que o bombeiro ainda não chegou, ligou-me e vem a caminho, teve que acompanhar um doente a setúbal. Eu aflita, e agora? Ele, agora começamos que entretanto chega, diz que já ligaram a sirene e vêm a toda a mecha, como não tem que se vestir...Eu, ai valha-me Deus, temos a casa cheia e falta-me uma pessoa. E daí a pouco o funcionário do auditório, temos de começar que eu não saio daqui depois da hora; ok, ok, onde é que está o nosso homem do pano de cena? Alguém a medo, ainda não voltou. Mas não voltou como? Então, foi a casa e ainda não veio. Com franqueza, mas o que é que aquele rapaz tem em casa de tão urgente? Ora,  então não sabe, é a namorada. Eu a desmoralizar, esta gente é toda maluca. Merecia era umas porradas, aquele irresponsável. E as garotas vampirescas, capa e lábios pretos, a estenderem um lençol de compreensão, é só mais um bocadinho, eles vêm todos. Na régie, o funcionário de braço no ar, um dedo todo nervos a apontar-me o relógio. E eu que não ouvia o barulho, a imaginar a unha a bater no vidro, tic, tic, tic. E entretanto o bombeiro-actor, acabadinho de chegar, agarra o namoradeiro logo na entrada, és maluco ó quê, pá. Desato a rir e empurro-o para a régie, se se engana nas aberturas do pano dou-lhe uma surra. E começamos.
Gostam. Temos de parar várias vezes porque riem e batem palmas a meio. E no bocadinho de jogo do benfica em que gravámos um golo, a plateia levanta-se em peso como se no estádio, a gritar gooolooo!!! E o goooolooo!!! do nosso actor fica elidido. Mas também nós gostamos.
À noite, na sessão para encarregados de educação, os filhos bisaram e a sala à cunha. Lembro-me da voz da Gisela numa canção da Ala dos Namorados e de toda a gente a bater palmas; de as danças serem um primor; do meu actor das dores de barriga se ter transformado em palco; e a Rita tão miúda e pacata, tímida, a crescer desmesurada declamando o Cântico Negro num lampejo de eternidade que electrizou a plateia e arrepiou gente. E de estarmos tão contentes e nos abraçarmos uns aos outros no fim de cada número. E lembro-me dela a declamar no ensaio geral e de um garoto que por ali andava ter mofado da ênfase. E logo o Carlos que tinha fama de ser (e era) arruaceiro, o levou para um canto a avisar, eu até nem gosto de poesia, mas aquilo é qualidade, ouviste. vê lá se respeitas o trabalho da miúda, porque se te ris outra vez levas um ensaio de murros. Chaparro!, chasquinou; e deu-lhe as costas displicente, andar desengonçado, o boné com a pala para trás, satisfeito consigo e sem ideia de que eu o ouvira. Apeteceu-me abraçá-lo. 
E depois as pessoas a saírem agradadas, imbuídas no espírito dos Alphaville, “Forever young”. Música tão bonita, alegre e jovem. Que eu desconhecia. Escolha do colega e ex aluno, também professor da turma, que nos ajudou  nos finalmente. Ensaiámos algumas vezes em sua casa, sugeriu a música e propôs fim mais realista e menos happy end. Há pessoas extraordinárias e extraordinariamente humanas. Insubstituíveis.
Fomos um grupo. Na memória, ainda somos. E seremos. E os Alphaville cantam-nos  a nós eternamente. 

sábado, 28 de outubro de 2017

Educar

Setembro surge-me anualmente como um começo. Uma espécie de Ano Novo antes de tempo. Talvez seja porque me passam à porta as crianças da escola antes dita primária. Já não usam malas castanhas de rebordo redondo, feitas em cartão grosso, uma pega a meio. Hoje, transportam nas costas mochilas alegres ou puxam-nas como um carrinho de compras. Não vestem bata e poucos têm risca ao lado. Mas os principiantes trazem nos olhos o mesmo incerto temor, um receio  antigo sobre ler e escrever. E os sorrisos de nervos disfarçam a inépcia de mãos e mente.  A escola há-de moldá-los formando e instruindo. A escola. A quem hoje tudo se pede. Que informe e forme. Que guarde e proteja. Que substitua o que é insubstituível: a família, primeira célula a que cada um pertence e cujos princípios têm de ser firmes e bondosos. Porque só na família se educa com o amor a sobrepôr ao dever, a protecção sobrevoando – e quantas vezes empatando – os voos de autonomia.
Desde cedo a educação dos jovens preocupou os homens. Veja-se o exemplo de Platão, pensador que viveu três séculos antes de Cristo e se dedicou em pormenor ao tema: que valor tem a educação na vida de um jovem, quem devia ser educado, quais os saberes (disciplinas) com importância e quais os dispensáveis, como se aprende e se alguma coisa pode ser ensinada. Não vale a pena falar aqui sobre as respostas que este filósofo encontrou. Mas vale a pena pensar que, até há poucos anos, saber alguma coisa exigia trabalho, luta pessoal contra a preguiça, pensamento próprio a sobrepor-se ao comodismo. E que tudo isto já Platão disse. Mas hoje, não. Hoje somos modernos e o ideal de saber é lúdico. Ou seja, pretende-se que o aluno escolar aprenda com prazer, a manusear alguma coisa, a descobrir concretamente. Que construa saberes individuais, jogando. E há o recurso às novas tecnologias, o uso e abuso delas. E surgem projectos  empreendedores. A escola centra-se no aluno concreto e na sua envolvência para lhe possibilitar o crescimento. Individual. Isso mesmo: o que importa é o indivíduo e a sua adaptação ao mundo concreto. Portanto, saberes fora dessa esfera, são banidos. Tudo interessa para algum fim concreto. Disciplinas sem aplicação directa a alguma coisa perdem importância e encurtam-se as horas lectivas. Ou saem do currículo. Assim estão as línguas, a história, a filosofia. As humanidades em geral. E aí vem mais uma reforma no ensino (já houve muitas). Não entendo reformas educativas que não privilegiam a cultura como saber universal, o particular entende-se melhor se integrado no todo a que pertence. Não entendo a promoção de uma cultura de superfície, individualista e empreendedora, assente na ideia errada de que tudo se aprende com o mínimo esforço, como num jogo. Não entendo que por exemplo o latim não seja ensinado nas escolas, somos uma língua latina e nada sabemos da nossa origem. Não sou contra concretizações do saber, trabalhos de projecto, uso das novas tecnologias. Mas sei que existem matérias fundamentais que nos estruturam a mente e não se aprendem num mundo de facilidades.

Em rigor, o pensamento concreto também existe noutros animais. O que sempre nos distinguiu deles foi o uso da palavra (e logo o raciocínio e a reflexão); e a conquente acção que, nos homens, pode ser moral. Ora, reduzirmo-nos a aprender a utilizar e explorar o mundo que se oferece ou a criar instrumentos para facilitar o seu uso, é redutor. E, já foi provado que os animais, desde que estejam em presença do problema, também são criativos, encontram soluções. O que eles não sabem é de moralidade. Mas nós, sim. Somos sujeitos morais porque sabemos o que fazemos e se com isso causamos dano ou bem a nós e aos outros.  Somos morais porque distinguimos o que é bem do que é mal. E isto ensina-se com o exemplo. Nas escolas e em todo o lado. E com as tais disciplinas que não têm utilidade  imediata, mas são estruturantes de uma mente que se quer humana.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Dia das Mentiras na Visão Júnior e a Polémica dos TPCs

O que li, e pelo visto é sintoma geral, é que as crianças têm por força de levar os trabalhos feitos e certinhos. Ó minha gente, então?! Que é que andam a fazer aos vossos filhos? Isso não é ajuda, é colaboração (diria antes propósito) num embuste que pode agradar a todos os intervenientes, mas não serve o objectivo. De  duas uma: ou os pais se substituem aos professores e são bons nisso, ensinam o que o garoto ainda não aprendeu, dão-lhes uma aula e ele fica apto na matéria (e, por norma, farto deles até dizer chega); ou ficam todos equivocados, cada um fingindo para seu lado. O ponto é que daqui decorrem estados de espírito pouco salutares. O dos pais desata a fazer o que a revista expressa, estão fartos de horas dedicadas aos TPCs, querem sacudi-los de cima e não podem - ajudaram à mentira do aluno excepcional que faz tudo bem em casa. Então, bastas vezes, procuram e encontram um explicador ou uma ocupação de tempos livres que se encarregue da função. Os professores, que não são tontos, rapidamente compreendem que alguém “ajuda” os meninos que na escola erram sistemáticos e em casa acertam com o mesmo método. E os alunos? Os pobres dos alunos crescem neste imbróglio de serem bons ao menos nos TPCs (o resto os pais não conseguem controlar) e não os errarem. E não chegam a ganhar coragem para os fazer sem supervisão. Precisam do escrutínio. Como diz a revista, não gostam de errar. Como se aprender se faça sem erros!
E posto isto, que fazem os senhores eruditos? Pretendem “cortar o mal pela raiz”. Fora com os TPCs! Abaixo a preocupação que geram! Faça-se tudo na escola que lá é que se aprende e nós pais somos educadores não temos que dar a informação.
Mas ó santas gentes, então a colaboração com a escola é só ensinar regras de boa educação e levá-los lá? Será por isso que às vezes se esquecem de ir buscar os vossos filhos e ficam os professores que horas à espera de pais que se distraem. Oiço até falar num legislado aumento de horas de escola com ocupação de tempos livres, por via de pais e avós que trabalham, entram cedo e saem tarde. Porém, e a despeito do que todos os especialistas possam dizer, adianto-vos queridos pais: nada existe no mundo que seja melhor para a criança do que a brincadeira entre pares. A brincadeira livre, não vigiada (sim, sim, é melhor do que brincarem de vez em quando com os pais). Ah, dizem-me, mas agora há droga, há roubo de crianças, há perigos que antes não existiam, não se podem afastar de nós. É mesmo?! E noutro tempo não havia perigos destes. Pois não. Havia outros. As crianças caiam nos poços e lagos feitos de chuva e afogavam-se, morriam por açudes e ribeiras e até em casa, envenenadas com veneno dos ratos ou outro que engoliam curiosas, queimavam-se porque caíam em lumes solitários, eram atropeladas por automóveis em ciclone, sovadas por familiares até à exaustão (ainda acontece, vejam bem). Vejam só a ironia, mudaram as circunstâncias mas a que diz respeito às pessoas mantém-se.
Não queiram mal aos TPCs. Refilem se são excessivos, mas deixem-lhes espaço. Não o vosso espaço. O espaço que têm de ter na vida dos vossos filhos. Ficam à sua responsabilidade. O vosso papel? A princípio, incentivar a fazê-los com brio e honestidade. Se solicitados, dar uma ajuda. Pontual. E deixar seguir. Não é o ás da aula? Melhor, não sente o peso de “ter de ser bom”, o mundo não é composto de génios, mas de pessoas normais, com intelecto normal. Quando for necessário, podem crer, ele não sossobra. E vai ter média para entrar num curso. Será sempre o vosso filho e saber-lhe o carácter íntegro e firme é a melhor prenda. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Dia das Mentiras na Visão Júnior e a Polémica dos TPCs

Vamos por partes, ou não nos entendemos. Assumo, o excesso de TPCs não resulta. Mas fazem falta. Contrario, logo no arranque, a teoria de que são os mais novos quem faz mais TPCs. Os mais novos fazem-nos mais lentamente, isso sim. Então, senhores entendidos, e as explicações, o que são e para que servem? E quantas horas gastam nelas os alunos, pelo menos depois do décimo ano (e tantos, tantos, bem antes). Ora, digo eu, os mais novos têm mais necessidade deles. Porque, meus amigos, o Estudo Autónomo em casa  é um TPC sem ordem de sê-lo, por auto recriação. E escrever ou ler aprende-se escrevendo e lendo, não há outra maneira (será por isso que se fazem cópias, ditados, palavras difíceis e se estuda a lição em casa). Certo, a criança pode, por si, de sua responsabilidade, fazê-lo. Mas, meus ilustres leitores inexistentes, não somos todos iguais. E aqueles a quem falta a vontade de ser responsável? Aqueles a quem é a obrigação que ensina a escrever e a ler? Acham porventura que mais tarde não vão agradecer o esforço? Vão. Vá, recordem lá a alegoria. A da caverna. O caminho para a luz não é um jogo. Não se faz a saltitar. Faz-se contrariando inércias acomodatícias. Mas vale a pena.
Bom. De caminho, desmistifiquemos a teoria constante na tese da investigadora do Porto (não lhe recordo o nome) de que não se aprende com os TPC e em forma lúdica sai tudo muito melhor. Mas quem é que disse a esta gente, quem foi o cérebro iluminado, quem lhes incrustou na cabecinha que aprender é fácil, que viver é uma alegre jogatana, que tudo se faz via jogos didácticos?! Mas que aberração. A cultura sai-nos do pêlo e a leitura e a escrita não são excepções. E, dê lá por onde der, em alguns momentos custa, é difícil, a mente parece recusar-se a compreender, o corpo quer retornar ao agradável que não sublima. Mais: toda a aquisição leva tempo a ser nossa, o mundo resiste-nos; por vezes, precisa de tentativa e erro até ser memorizada e o entendimento processar as novidades (ah, pois é,  os processos necessitam memorização e traquejo prático). Os equilíbrios cognitivos, malvada sorte, são morosos. Portanto, não é fácil aprender a copiar e papaguear, quanto mais a complexidade que vem depois.
Verdade, existem métodos que permitem ensinar e aprender de forma lúdica. Mas que raio! A vida não é um jogo. E se a atitude de jogador empenhado às vezes nos assenta, não assenta sempre. Nenhum método é bom em si mesmo. São os professores que, de adaptação em adaptação, constroem o que serve a cada turma e, por vezes, a cada aluno. Que ensinar e aprender podem não existir conjugados, muito se ensina sem que haja aprendizagem e o inverso. Mas é processo que alicia e está sempre  a começar. Há um inequívoco começo em cada vez. Dir-me-ão, estás a desviar-te. Pois estou, mas os métodos pedagógicos existem para serem conhecidos e aplicados se for o caso. Fazem uso de técnicas que nos servirão em alguns alunos – ou em todos, como é o caso do agrupamento de escolas referido – mas, na sua pureza, são, quase sempre, demasiado exigentes para poderem ser postos em prática, ipsis verbis, pelo universo dos professores. Quem distribui o jogo (investigadora, olhe para isto) tem o direito de o fazer como supõe que resulte melhor e sente ser mais fácil e eficaz para si e para os alunos, considerando o meio em que ocorre.  Conhecer métodos e escolas é enriquecimento, achega, utilidade que a formação de professores devia privilegiar. Ficar preso a um único pode constranger.
Postos os princípios gerais, voltemos ao específico. Retomemos a ideia de que os TPCS são em demasia nos mais novos. Criam hábitos de trabalho, sim. Habituam a cumprir mesmo o que não se prefere. E treinam a mão pouco habituada ao desenho de letras e números e de novos idiomas. Defendo que, mesmo que os professores os não escrutinem com sete olhos, se façam. Que se façam sempre e se crie o hábito de trabalho em casa – a vida quer muita prática e rotina bem feitas. A escola necessita desses hábitos, criá-los ajuda a  formar pessoas resistentes e que não atrofiam ao menor sintoma de dificuldade, que sabem por experiência que há coisas que não sabemos fazer e outras que nem entendemos, mas que mesmo assim vamos à luta. Os alunos que se batem aos TPCs aprendem que existem lados da vida onde conseguimos chegar e que, se alguns chamam pela criatividade, outros pedem tempo e paciência para serem entendidos. Não acredito que seja por dar uns erritos na cópia ou mesmo nas três palavras difíceis que o aluno vai passar a escrever pior. Há muitas mais que aprende e escreve bem. E em todas treina a mão e o carácter.
Julgo que os TPCs sofrem um erro de avaliação. Não são o que os pais pensam. E até os filhos, habituados no mesmo princípio. Os famigerados TPCs não têm como finalidade serem todos feitos e bem feitos. São para o aluno treinar aprendizagens, TÃO SOZINHO QUANTO POSSÍVEL. Fazer o que souber e deixar o que não sabe; eventualmente, perguntar aos amigos alguma coisa. São para o professor saber o que aprendeu a criança sobre um assunto, ou apenas para treino. Mas isto afinal é conversa que não posto hoje. Amanhã se verá.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

O Dia das Mentiras na Visão Junior e a Polémicas dos TPCs


Agora que a educação está assim a modos que de rastos,  o mundo, que sempre precisa de um bode expiatório, virou-se contra os TPCs - os professores vistos de chofre  estão muitos gastos e é preciso mudar de táctica e atingi-los por via indirecta. Portanto, nada como ressaltar o bolor dos métodos utilizados. A Visão Júnior lançou a bomba no dia das mentiras, “O ministro tinha proíbido os TPCs”. Parecia uma mentirinha engraçada. Mas foi rastilho e, como era previsível, pegou. Incendiou as redes sociais e esta semana a Visão traz uma peça jornalística sobre o assunto (não acredito em premeditação, foi puro fluxo de acaso). Ali, tudo se confirma. Ele são especialistas como Eduardo Sá a recusá-los; um pediatra (Mário Cordeiro); um director de agrupamento de escolas (Adelino Calado) a aboli-los, decisão que consta, possivelmente, em acta de reunião pedagógica; estudos da OCDE e das nossas universidades (uma  investigadora da universidade do Porto diz mesmo que as crianças aprendem melhor e mais a jogar do que a fazer TPCs); pais que proclamam falta de tempo e muito cansaço dos filhos; e crianças que até são quem menos se queixa. E até parece que têm razão. Mas um monte de argumentos e de individualidades a esgrimi-los, se bem que queira dizer alguma coisa, não significa estar mais próximo da verdade. Nunca significou. Mesmo Hitler teve altas individualidades e intelectos muito fortes do seu lado, no seu tempo (espero bem que hoje, do seu lado, haja só uns quantos malucos esquizofrénicos do poder, mas não tenho certezas).
            Pois eu venho defender esses tais  inóspitos TPCs. Em primeiro lugar porque lhes fui sujeita desde cedo e a minha formação seria diferente se não fossem as longas horas que estive ocupada a fazê-los. Segundo, porque pertenço à tal classe desfavorecida, os meus pais sabiam ler e escrever, não havia livros em minha casa, jornais nem vê-los, era uma desgraceira pegada; a crer na revista e nos estudos, por via dos TPCs, a desigualdade social acentuou-se na minha pessoa (penso que revista e estudiosos do assunto sabem bastante mais que eu em alguns aspectos, mas noutros nem por isso). Terceiro, porque sou mãe que acompanhou medianamente os filhos e reparei que traziam TPCs para casa, portanto, falo com experiência – é pouca, mas que fazer, não posso ser mãe do mundo inteiro. Quarto, porque ensinei durante largos anos e passei por todos os níveis de ensino com excepção do universitário onde me limitei ao papel de aluna. Quinto - e julgo que último, mas nunca se sabe -, experimentei durante alguns anos o método da Escola Moderna, sem TPCs e com tempo de estudo autónomo  (não é apenas feito em casa como se sugere na peça) em horário escolar para, em autoaprendizagem, cimentar conhecimentos, colmatar dúvidas e dificuldades existentes; mas também para que o professor e alunos mais adiantados, possam, individualmente,  sentar-se com os alunos com mais dificuldades a entender onde moram os nós, ajudar a desfazê-los e a criança poder prosseguir.

            Posto isto, reafirmo: sou a favor dos TPCs. E amanhã volto cá para escrever porquê que agora não me apetece e tenho mais que fazer. Além disso ninguém me lê, portanto estou à vontade.