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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Dançar com a Morte


Não se sabe por que tanto pesa o que sempre nos pesa apesar dos momentos em que parece mais leve. Mas pertence ao viver que cada hora seja uma e nada se saiba da próxima ou de quando a última nos visita. Em tempos, li num livro de Savater que o autor criou consciência da sua própria morte aos nove anos. Pois fartou-se a minha infância de observar monótonos funerais a subir a ladeira e a morte continuou-me do lado de lá. Jamais a julguei minha ou dos meus, a família era eterna. Na catequese, o padre assegurava outra vida, um céu para a gente boa e que me surgia completamente desnecessário. Se nenhum de nós morria, tal mundo não me beliscava, era-me arredio. Resumindo, mantive-me eterna até meio da adolescência, época em que a mortalidade foi espinho que enterrou. Afinal, o meu mundo pequeno comungava da duração limitada.  E veio toda esta conversa a propósito de meu pai e da sua provecta idade: oitenta e cinco anos. Se o visito, não falamos da morte – da sua –, mas pergunto-me muita vez como será que a entende. Acreditar na imortalidade é crença que descarto, nunca foi religioso ou  quimérico. Está pois ciente de ser coisa próxima. E, quanto mais envelhece, mais se enche de projectos e compras. Não o visito sem haver algo novo e por estrear. Compras feitas aos pares e à meia dúzia. Não há armários onde guardar tanta roupa, abafos, sapatos, bonés, meias que saltitam como embalagens de ovos, em quantidade. Por ora, virou-se para os utensílios domésticos que exibe com a grandeza de um magnata perdulário. Ele são novos tachos e panelas, uma pá supersónica, um par de vassouras, uma altura de panos de cozinha. E depois vem-lhe aquele entusiasmo genuíno por uma frigideira, assim como quem apresenta as qualidades do seu novo Mercedes. Que nada se lhe pega – e passa um dedo pelo fundo anti aderente -, que se lava enquanto o diabo esfrega um olho e não mascarra. Guarda o melhor para o final: que, ao contrário das nossas compras – nós, os filhos, nunca soubemos comprar - foi muito mais  barata do que as que aparecem nos anúncios da TV. E volta a alojá-la no armário como guarda-jóias carregadinho de valores.
Qualquer desistente da vida devia visitar meu pai. Para ler o jornal, desloca-se até ao café diariamente, na bicicleta de senhora que adquiriu para esse fim, dado já quase não conseguir a marcha. Diverte-se a fazer compras no super e mostra-me com orgulho os bons artigos que trouxe para casa. Repete, diário, a sua ginástica matinal e garante que, sem ela, já os músculos teriam petrificado. Sente enorme prazer a confeccionar as refeições, destiná-las, saboreá-las. E tudo de acordo com os conselhos médicos. Nos domingos, empapoila-se e almoça fora. Sozinho. Jamais convida filhos ou netos e apenas nos visita por obrigações de doença nossa. A sua maior glória é a suada independência do  dia a dia.

sábado, 9 de junho de 2018

Chico Buarque


Rever Chico Buarque depois de mais de uma década. Embevecer no superior carinho português, uma desmesurada ovação a envolvê-lo mal  pisa o palco. Ser o ar lançado nos assobios, o ímpeto das mãos, a garganta presa de vê-lo contente e comovido de e com o público. O espectáculo inteiro foi reencontro carinhoso, um esvanecer de saudade desvanecida. Homenagem do Chico ao povo português e a recíproca e apoteótica rendição expressa em aplausos, bravos e inesgotável estridência de assobios a repetir e repetir em cada canção, em cada frase e pequeno  aparte. Não posso saber como foi no Porto, ou mesmo em Lisboa nos dias que se seguiram. Mas tenho certeza absoluta que, em qualquer parte do mundo, Chico não terá melhor público. Tudo ou quase tudo foi cantado a meias e assobiado e aplaudido mal as canções eram identificadas. E o carinho português é o de quem o viu crescer na música e na vida, lhe acompanhou juventude e madureza e se prolonga na velhice. Esse carinho particular é a supervitamina que o sustenta e faz portugueses como eu esquecer o preço de duas horas de  encanto. Deixámos de ser eternos. Agora, cada vez é única e pode ser a última. Li algures que existem as noivas de Chico Buarque. Jamais me senti noiva do Chico. Estou com todos os que não lhe conhecem apenas a figura magra e quase estilizada, a unicidade dos olhos, o rosto vivido de eterno menino tímido e bem comportado. Mais além, brilha a sua inteireza e convicções, a ternura familiar que sugere sem exibir, o jeito terno e quase plano de sempre cantar o amor, a humanidade rasa das histórias que escreve e canta. Este não me pareceu o seu melhor álbum. Voz e figura ganharam uma nota melancólica, espécie de fatalismo que quase nos entristece, como se a poesia voe tão perto do chão que possa sumir-se nele. E, contudo, sou-lhe grata pelos versos da primeira canção que foi também a última,"Vem esquecer tua tristeza / Mentindo à natureza / Sorrindo à tua dor." Era para isso que estávamos ali, para enganar a natureza. Com ele, conseguimos. Depois, moveu-me canção mais intimista, abrindo portas ao que, de outro modo, não descerra, “deve haver um confuso casarão onde os sonhos serão reais/ e a vida não/uma espécie de bazar/ onde os sonhos extraviados vão parar”. O sonho extraviado que permanece nesse tão nosso e confuso casarão e que ainda assim nos alumia.  E depois houve Todo o sentimento e nele, “o tempo da delicadeza”, um desligar para voltar a ligar que se assemelha demais ao sentir que perpassa em Tua cantiga, qualquer coisa de irracional que acorre a um suspiro, ao aceno de um lenço caído, a um nome com cheiro de perfume; canção que parece tão súbtil e leve, mas tanto apela a uma força desordeira. Tudo banhado em simplicidade. Como sempre. E houve Tua cantiga, feita para amores supremos e só não entende isto quem sofre de séria parvoíce. Há quem escreva que Chico simboliza o amante delicado e ideal. É verdade, ele também canta o amor, sim. Ao longo da vida, sempre guardou o lugar de cantá-lo. Digo eu que tem vindo a desenhá-lo nos vários estados, sólido, líquido e gasoso.  
Obrigada, Chico.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Contornos de Maresia

A minha praia tem um recorte de serra a namorá-la.  Sei-a plantada por detrás da neblina quando há, a revelar-se num conta-gotas de horas, afogueada de sol, em redondos de ombros e calcanhares. Ao longe, emerge um reclinado e  lânguido corpo de rocha,  uma curva de anca vagarosa que a mão desenha e logo descai à cintura em debrum de sépia contra o azul. Nos pés, dança-nos um areal de finas partículas, causa de cócegas e afundamento, colchão de maciez natural que, por tonteria, não agradecemos. E há dunas breves, arremedos de colinas, leveza de paisagem a arredondar. Ali medram flores de sal e maresia, plantas de chão móvel e secura que se seguram e crescem milagrosas em rocha dispersa: cardos verde-violeta na sua beleza rasa e picotada a requebrar; pequenos tufos de flores roxas, azuis, amarelas, rosa, brancas; a leveza de vestes das flores brancas que noivam como açucenas e nos surpreendem  a florescer de planta sem arte ao rés da areia. E elas um véu a esvoaçar, tão lindas. E, lá na frente, a majestade serena da água. O mar feito mansidão e ondas batidas em castelo suave. A água viva e fresca onde renasço. Que tudo gosto nela e é em mim sem defeito. A minha praia é o mais perfeito refrigério, a mais suave massagem, o alisamento mais cabal da minha alma enrugada. E eu que sei do sol e da areia, das dunas e dos nudistas lá à frente de mama ao léu e pendurezas a céu aberto, que sei de conchas e búzios, tesouros vindos do deus dará e largados na areia depois das marés vivas, sei também que só a sua água me devolve. Alijo mágoas e desalentos e sou eu de novo. E é como se os banhos de mar me dispam de toda a opressão e haja de novo em mim a pessoa que sempre fui e tanto enroupo, disfarço, maltrato.

Bendita seja a minha praia. Para sempre, bendita seja.

sábado, 3 de junho de 2017

Almada Negreiros (1893-1970) – uma maneira de ser Moderno

Até 5 de Junho, o museu Gulbenkian expõe a obra de Almada Negreiros, dos primeiros aos últimos trabalhos de pintura e desenho, percorrendo todas as fases da sua criatividade. E é exposição que não envergonha ninguém e pode mesmo emparceirar com outras que andam pelo mundo ou se visitam em museus estrangeiros.  A Gulbenkian está, mais uma vez, de parabéns.
Convém saber que Almada Negreiros era cheio de nervosismo criativo e não foi apenas um pintor modernista. Este homem de sete ofícios foi poeta, dramaturgo, escritor de boa prosa, conferencista e até bailarino (pelo menos durante um ano integrou o grupo de bailado  de Helena de Castelo Melhor). Um Artista enorme e  polifacetado. Há quem o considere genial.
É na qualidade de pintor-vitralista que  o Alentejo dele tem obra. Falamos do vitral da Capela de S. Gabriel no lugar de Marconi em Vendas Novas. Foi em 1951 que concebeu e desenhou, no seu traço inconfundível, o vitral que representa a Anunciação, encontro da Virgem com o arcanjo S. Gabriel - que deu nome à capela - a anunciar-lhe que ia ser mãe. E o vitral é lindo em todas as horas, mas o amanhecer e a tardinha arredondam-lhe a beleza  por efeito dos raios solares que, segundo consta, Almada veio estudar in loco. Uma formusura, o nosso vitral. E é como se um pedacinho de Almada nos pertença, que somos os únicos alentejanos a ter o vôo breve das suas mãos, um soslaio da sua mente.
Mas não é apenas por razões deste calibre que se  deve visitar a exposição da Gulbenkian ( e, se possível, a capela alentejana tão ao abandono). Mas também porque é preciso cultivar os olhos, atentar nas coisas belas que o homem cria e tanto desconhecemos. Um povo sem arte é um povo menor, falta-lhe dimensão. Apreciemos os artistas, a sua obra mostra o melhor do espírito português.
Podem começar pelo exterior, que a Gulbenkian é uma fundação envolta em jardins que são cetim a rodear a bela. E tudo isto no meio de Lisboa.  Vá, digam lá que não apetece tirar um par de horas e dar um passeio nos jardins da Gulbenkian, encanto natural projectado por Gonçalo Ribeiro Telles. Há por lá tanta árvore abençoada, tanto recanto acolhedor, e um tal cheiro a natureza viva que deambulamos prazenteiros... e o mais descobre cada um, que o efeito surpresa tem muita força. E eu vinha falar da exposição do Almada. Ah, pois. Há que voltar ao Almada.
Almada Negreiros é muito conhecido no mundo das letras pelo Manifesto anti Dantas (morra o Dantas, morra! Pim!), mas hoje não há tempo para falar da mordacidade ímpar do Almada e da quezília com Júlio Dantas. Hoje, brilha o pintor. Deixem-se ir, entrem no Museu da Gulbenkian, comprem o bilhete que nem é caro e disponham de mais uma hora ou duas só para apreciar o Almada, a alma dele (e a nossa) no papel, ali à mão, no que desenhou e pintou. Vão. Vale a pena percorrer espaços iluminados por tanto quadro e desenho. Aquele homem tinha asas nos dedos e a sua obra põe-nos a nós de bem com os artistas. É certo, era um protegido do regime. Mas não é com olhos políticos que se olha a obra de um pintor. Usam-se os olhos de gostar de arte e ser português, os  olhos de ver a eternidade que mora em cada homem. Que essa, podem crer, está em toda a mostra da exposição. Ali brilham quadros soberbos a par de cartazes de revista, desenhos que fez para alfaiatarias de renome, murais destinados a hotéis. E, em tudo que pôs a mão, a beleza irradia.
Lá está, ocupando toda uma parede, o extraordinário “retrato” que Almada pintou de Fernando Pessoa. Aquela enorme e hipnótica geometria de tons quentes a alternar com os sombrios e negros. E, no centro, o Pessoa tímido, o Pessoa anguloso e recatado e como que surpreendido a meio da escrita, olhos míopes por detrás das lentes, pássaros medrosos prontos à fuga. A um canto da mesa, a revista Orpheu. E juro que a alma fraqueja e ajoelha perante aquele quadro que é Grande e não apenas em centímetros. E, calculem vocês, Almada Negreiros veio a morrer no hospital e no quarto onde Fernando Pessoa se finou. E depois ainda dizem que não há coincidências!

Vá, vão ver  o Almada. Façam esse favor aos olhos e ao espírito (se quiserem, alimentam também o corpo que têm lá por onde). O Almada, assim posto na Gulbenkian, faz bem a tudo.

domingo, 24 de abril de 2016

Humanas Verdades

      Envelhecemos devagar e assim ganhamos o hábito de sermos outros. Um cabelo branco aqui e ali e, no curso dos dias e das horas, chegamos à massificação. E do grisalho passamos a neve invernosa e a rugas flácidas, sinais de vida bem assente. Neles, pulsa o passado. Tanto desgosto, tanto sonho inconfessado, alguma alegria inesperada e acontecimentos de coração cheio, tanto mau estar funesto. No corpo, muda-se-nos o ritmo vital e a figura, a saúde fragiliza, dá de si, castiga.
A alma – ou o que for, espírito, mente, um daimon qualquer -, ao invés, como que dilata. Alarga-se pelos dias, serena e deleitada como antes não sabia ser. Agradece os minutos e horas que corriam sem anelo. Vai-se calando a queixas, lamentos, cegarregas de insatisfação que perdem sentido. O alfinete dos projectos  espeta nas proximidades sem que ainda se percam desejos insondáveis e longínquos, cujos talvez nem já concretizemos. E é como se o futuro seja eternidade presente, enfeitada a novos pormenores. As mudanças radicais tiveram o seu tempo. Agora, assustam-nos corpo e mente. O quotidiano começa a bastar-nos, até por nos exigir maior atenção e energia (tudo cansa). O nosso mundo torna-se vagaroso enquanto o restante evolve em doideira.
            O meu pai é este ser assim. Que envelhece aos poucos e obstaculiza saídas,  recusa deixar o seu canto e não se move nem para visitar o filho preferido. Vislumbro-o numa densidade de sinais propedêuticos ou de velhice instalada, alguns deles em comunhão comigo. Se regresso a sua casa e à nossa terra – aquela sim, é a minha terra – entra-me uma alegria esperançosa. Olho-lhe o casario, as ervas e flores silvestres a esmo, e desejo nunca ter saído, sento-me na mágoa incompreensível de ter sido enxotada. Ignoro por que quis, tão empenhadamente, afastar-me. A verdade é que, por um ramalhete de razões, ali passei os melhores seis anos da minha vida adulta. Mas meu pai é assim. Ou era. 
             Não sei onde quero morrer, a morte chega sempre no lugar que lhe apraz; para ir embora, qualquer lugar serve. Mas, caso dure mais do que uma década, é-me agradável a ideia de voltar a viver ali. A memória vedando-me lembranças, a escurecer-me em silêncios cada vez mais fundos, e eu a abrir janelas para o mundo que ajudei a erguer, onde as minhas mãos se afadigaram e fatigaram um imenso e a minha alma se escudou de amargura e revolta, mas também de ternura e mansidão. Onde me habituei a não sonhar e me ocupei a desejar sobreviver, um dia atrás do outro, que só assim se aguenta o longo prazo.  

            Passo pelas quintinhas e daria qualquer coisa para viver numa delas: uma qualquer coisa imaginária, que todas são habitadas. Por vezes, passeio por um subúrbio com estrada de terra. No virar da curva, uma casita pequena e remodelada espreita o piso. Pintaram-lhe barras azuis e tem janelas, portas e telhado novos. Ali, espera. Em explosão de vazio. Pede que a encham e lhe criem rotinas de portas e janelas, cheiros de gente. Quase em frente, senta-se o encontro diário de duas velhotas com hora marcada. E imagino-me benévola, a espreitá-las por detrás das cortinas. Ou, quem sabe, um dia, eu me sento assim à porta do monte de meu pai, que, então, é minha. E finalmente regresso. Antes do fim definitivo. Talvez me exista ainda essa liberdade indefinida. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

29 de Maio de 2015

Todos temos as nossas pequenas manias de família, pormenores que são laços a segurar as relações e onde descansamos. Não são fundantes, mas colaboram na tonalidade própria de cada célula, são a sua clave de sol. Por vezes, ocorre-me que sou parte dessa clave no meu núcleo familiar. As minhas manas pedem-me ideias e esperam propostas de refeições, doces e surpresas com o jeito repousado de doente que confia no médico. Pouco discutem o que avento e cumprem a sua parte de boa mente. E este ano, repetiu-se o ritual no aniversário de meu pai. Combinámos um jantar surpresa com os netos e avisámos os visados para que guardassem lugar na agenda – é malta muito preenchida.
            Mas a vida – sendo mais justa, as pessoas – surpreende. Se o mundo físico se enche de imprevistos, os homens são, felizmente, as criaturas menos sujeitas à fixidez do hábito. O mesmo é dizer, esperamos neles uma coisa e sai-nos outra. Foi o que sucedeu. Quando liguei de véspera a tentar saber a que horas começávamos a limpar a casa de meu pai, a minha irmã, uma pitada de alegria na voz, o pai já limpou a sala; entrei lá e até cheirava a lixívia, podes ficar descansada. Desligou e fiquei parvamente a olhar o bocal meditando na atitude de meu pai. Ele bem sabia que eu não deixaria passar a data. Calculo que, conhecedor da minha vida, tenha querido ajudar. E gostei tanto. Prefiro pensar que foi este o motivo, serve-me melhor. E acredito que sim, que talvez o meu pai tenha adivinhado.
 O jantar foi-me quase penoso e não consegui o meu normal. Mas estávamos juntos e é uma alegria e um orgulho olhar os nossos filhos e sentir que cresceram e têm um querer independente, cada um na sua forma de estar. E o avô contente deles, os olhos de um a outro, a contar histórias de um tempo que, felizmente, não conheceram.

            O meu pai. Há anos que reitero o meu gosto por ele. Engasga. Atrapalha. Fica com o pigarro preso e os olhos húmidos. Mas um dia destes respondeu-me. Talvez não repita nunca mais. Ouvi-o pela primeiríssima vez a murmurar, também eu filha, também eu gosto muito de ti. Calculo os valados que pulou, cabeços sem fim lá por dentro a rangerem, mas conseguiu. E aconteceu numa hora tão certa e exacta como não há outra.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Conversa Doce com o Meu Avô

Avô, se tu soubesses! Ao contrário da maioria das crianças não me lembro de querer crescer, crescer não teve sequer grande piada, mas estavas ali, a entalar-me uma notinha pequena nos bolsos, toda a ternura derramada no teu sorriso;  e era verdade que a nota não me fazia falta, que apanhava a carreira contigo no pensamento e me custava menos a partida se surgias inexplicável. Tanto te custava andar e nunca te senti aproximar da paragem. Por vezes penso se os outros netos terão de ti igual lembrança, se lhes guardavas o mesmo amor. Eras um coração grande, todos te gostávamos. Te gostamos. És um coração grande. Pergunto-me agora, numa quase certeza, era desculpa, não ias a nenhum outro lugar, ias propositado para ver-me partir, mansamente, no teu esforço de tudo, apoiado na bengala de tanto ano. No tempo de teres casa tua, chegavas do trabalho e deixavas o cajado à entrada da porta; ou eu to tirava e ia lá pô-lo sem arte, que caía de imediato. Corrigias-lhe o encosto com um pé calçado e outro descalço, a rir para mim, o avô ajuda. Era um pau grosso e leve, polido de uso, alguns nós salientes. Se perguntava a minha mãe, é um pau de quê, ela, não sei foi o avô que o arranjou; eu a recordar um santinho de S. José também com um pau na mão que floria lá em cima – era um bordão, mas eu não sabia - e a mãe na sua paciência, ou talvez para me calar, é um gamão, então eu segura, o cajado do avô é um gamão, não é?   A minha mãe, sim, chata. Eu, e porque é que não tem a flor? O avô cortou-a, não foi? E passeava contente a descoberta de o meu avô um cajado igual ao do santo. Não passeava só, contava a todas as minhas vizinhas de escola, o que me apunha logo uma certa aura de glória. Tinha imenso respeito pelo teu bordão mesmo que não florido e ofendia-me que a avó, aí não se mexe, como se eu fosse capaz de estragar alguma coisa tua por querer. Desculpa não dar pelas tuas pernas a pararem, a juventude pouco vê e inda hoje as coisas me passam. Mas nunca te faltou o infinito da minha alegria ao ver-te, a saudade que me levava onde estivesses, as balholhices que sempre te disse e gostavas de ouvir quando rias baixinho a sussurrar, esta neta, esta neta, e ficavas por ali. E tanto me dizia quem tão pouco falava.
Oh, mas comecei esta conversa para te contar que hoje comi a minha primeira filhós de Natal. Comemos nós dois. Pois foi. Grossa e polvilhada com muito açúcar como gostavas, lembras-te? Tive de sacudir o açúcar, mas tu tiravas torrões do açucareiro às escondidas da avó e sempre preferiste o doce, a diabetes a milhas, portanto, adoraste. Quando eu sabia fazer filhós, deixava um pouco de massa no alguidar para tender as tuas: mais grossas e com mais açúcar e canela. Depois levava-tas onde estivesses a desejar que as provasses logo para me confirmares o gosto. E fazias-me a vontade, a mastiga-las contente. Bem sei que a princípio eram meio desenxabidas, a boa vontade não faz tudo, e em coisas de filhós não é sequer o meio caminho andado, só a prática nos faz a mão (agora também já a perdi, vê tu). Mas tu comias uma e depois ficavas a partir bocadinhos pequenos e a dizer, assim é que é, não gosto daquelas filhós que as tuas tias fazem e parecem papel, a partirem-se todas nas mãos…e eu a inchar de contentamento.
Fazia-te bolos e depois só pudins, já que pouco mastigavas. Tens de me desculpar aquele pudim de ovos. A intenção era que gostasses demais. E para que ficasse melhor, em vez de uma casca de limão pus a casca do limão inteiro - ó santa inexperiência - e fui levar-to contente. Na verdade fomos nós quatro, a imaginar um pudim de sabor incrível. Sentei-me um bocadinho contigo, mas havia o jantar, e as galinhas e mais não sei quantos animais à espera antes de ser noite. Deixei ficar os meus irmãos para o lanche e rumei ao destino. Chegaram à noitinha e perguntei a uma das garotas, provaram o pudim? E elas, não, mas o avô e a tia comeram. Eu ansiosa, o que disseram? E a mais velha, a tia disse, hum… é bom é, sabe a cachola de porco. Eu a abismar da conversa, o quê?! A que é que sabe a cachola de porco?! E como é que a tia comparou um pudim que é doce com carne de porco.  Virei-me para ela, queres ver que o pudim estava estragado… E salta o meu irmão, o teu pudim sabia mal, até amargava, não gostei nada e olha quase ninguém comeu. A mais nova contristada, olhos no chão, eu provei um bocadinho e não prestava, mas não te queria dizer, ias tão contente com o pudim e estava tão bonito. Pois é avô, nem sempre é verdade que a intenção…
E olha, já que estou em maré de sinceridade, aquele bolo de bolacha de que gostavas muito, era barrado com a manteiga que tu não comias. A gente não te disse para não te envergonhar. Mas agora já podes saber.. Não acredito que nunca notaste o gosto da manteiga. Vá…admite, sabias, mas fingias que não e pronto. Eu para ti, avô mais uma fatia, e os teus olhos, pode ser. Ou quando era mais nova a minha mãe, amanhã o avô vem cá almoçar, eu, vou fazer o bolo de bolacha.
Por vezes carpinteiravas de lápis atrás da orelha e eu cirandava a teu lado que nem carraça a copiar-te o que podia. Mal te ajoelhavas numa medida mais exacta, tirava-te o lápis e tentava uma imitação, mas o pobre do lápis acabava-me dentro do ouvido, único lugar onde conseguia equilibrá-lo. Envaidecia no gesto, avô olhe, eu sei, não sei? E tu tiravas-mo com um beijo, dá cá, agora o lápis faz falta ao avô.  Nunca me disseste que não sabia, que estava mal, não te assustavas como a avó, tira lá o lápis à gaiata senão ainda acontece uma desgraça, tão parvo é o avô como a neta.
Olha, estás além do espelho e não te vejo; apenas te sei a presença, mas espero que estejam os dois, tu e a avó. Se tanta vida não vos separou, é assim que tem de ser na morte.

Um abracinho 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Pégaso

Pégaso. Gosto deste cavalo desde os treze anos, quando a professora de história me falou dele. D. Maria do Céu usava óculos redondos e chamávamos-lhe “a biotex”. Ninguém gostava daquela professora que gastava parte das aulas a mandar sublinhar os livros. Ninguém excepto eu que também era alguém. Ela para mim, a propósito da continuação dos estudos, “dá Deus nozes a quem não tem dentes” e eu sem entender que era um provérbio, nem se eu tinha as nozes ou tinha os dentes ou se aquilo não tinha nada a ver comigo. Pedi-lhe que repetisse e ela fez-me o agrado a bater as pestanas encompridadas com rímel e um traço negro sobre os olhos que tento imitar mas fica sem jeito nenhum, que pelo menos num olho está sempre torto e a vontade de hoje lhe perguntar, D. Maria do Céu como é que se acerta um olho com o outro.
No entanto, alguém me disse que a senhora deixou o marido, descasou do ex senhor presidente da Câmara da minha terra. De modos que a D. Maria do Céu hoje só Maria do Céu porque o nome do marido também o jogou fora, quero lá saber do teu nome para alguma coisa, pensas que és importante só por seres presidente duma vila simplória onde detestei viver, tanta hora, tanto minuto naquele lugarejo, santo Deus como o tempo pode ser lento. De modos que vive sozinha num andar em Lisboa, o filho já casado. Quem sabe se ela com as mãos a tremer da idade e os olhos sem riscos nem pálpebras azuis claras que faziam a inveja de toda a gente, mesmo das senhoras da igreja que usavam banana e pintavam os lábios ao domingo para a missa, e se desagradavam publicamente do cabelo à Malvina num tempo em que a Malvina de cueiros. Elas num esgar para a franjinha que lhe bordava os olhos ou escorria um nadinha para as lentes redondinhas que nem Ós maiúsculos, tché! Olha bem para aquilo, não tem mesmo gracinha nenhuma.
            Mas, quanto mais desfeiteavam a D. Maria do Céu, mais eu gostava dela. É que amava tudo que os outros desgostavam. Assim mesmo. O meu pai se a via no jornal – vinha sempre em todos os jornais que o senhor  presidente era careca e mais baixo que ela e gostava de mostrar a mulher - , tem umas pernas piores que as da nossa mesa da cozinha, mas o meu pai era suspeito, porque dizia que uma mulher sem cabelos nas pernas não tinha encanto, e por isso sempre desconfiei dos seus critérios de beleza. Eu ouvia aquela obscenidade a soar-me a grossa asneira e ficava possessa, mas fui educada a não contradizer o chefe de família, coisa que parece que até aprendi muito mal porque na juventude me passei dos carretos vezes sem conta e lhe gritei as revoltas todas da infância, os deslargue-me do Lobo Antunes tinha-os eu todos atravessados e alguns disparei-os com tanto ânimo que abriram buraco na porta da cozinha. Ainda lá estão as marcas, quem quiser pode ir confirmar.
Pronto, mas eu vinha para falar de Pégaso o cavalo alado que fez o meu imaginário a partir dos treze. Não que tenha visto algum desenho do animal, alguma pintura, nada. A professora apenas disse que era um cavalo com asas. Achei magnificente. Pégaso. Palavra mais bonita! Foi bem mais tarde que descobri a mitologia grega e rejubilei, lá estava Pégaso o cavalo alado. E a comparação ao imaginário. Mas eu o gostara por ter asas sendo apenas e só um cavalo, eu a perguntar à professora, existiu mesmo? E ela, que é que tu achas, eu a dilatar numa certeza absurda, acho que pode ter existido. E ela a rir – a turma a rir -, não há cavalos com asas. E eu para dentro, quero lá saber, para mim há e pronto. Pégaso é o único cavalo que monto, que sou doente das costas e não me dou com solavancos. Mas Pégaso voa e é com ele que ainda hoje venço os caminhos. Os ínvios caminhos do Senhor. Pronto, já custo um bocado a subir, mas se consigo, damos umas voltinhas bem boas. O que gosto deste cavalo não tem nome nem palavra.
Certa vez, num dos tais caminhos ínvios com que o Senhor nos presenteia, por sinal um dos bons, uma via larga onde perdi a bagagem, mas isso não conta, pois ali, no alto esquinado de um edifício público, um museu, vá, o meu Pégaso e eu novinha e de folha a alimentá-lo, um rabo de cavalo às três pancadas e as saias compridas que tanto me agradavam na época do tal rabo de cavalo. Parei parvamente no meio do caminho e logo as gentes me tropeçaram na figura porque eu de nariz na esquina, hipnotizada. Eles a desculparem-se em linguagem desconhecida, julgo que a desculparem-se mas pode ter sido a chamar-me nomes feios que escuso de estar aqui a alvitrar, isto é um texto para ser lido por pessoas com mais de seis anos de idade e não é com menos porque a malta abaixo não costuma saber ler. Sorri-lhes num intervalo da contemplação e arredei-me para o lado a pensar que   não levara a máquina fotográfica porque se pagava mais e às vezes sou um bocadinho parva com preços, mas recusei entrar no museu antes da foto tirada. Fui buscar um amigo que gosta de fotografar e andava a surpreender instantâneos por ali, eu a apontar no rebordo do telhado as figurinhas airosas, por favor, fotografa-mos, please, please. Ele olhou-me como quem não entende a importância, disse, aquele é o Pégaso, e clic, fez-me a vontade.  Delirei de contente, mas só do lado do forro, por fora normalzinha.

Não sei se Pégaso tem segundo nome. Estou capaz de usar o apelido do Pégaso e infringir a minha regra: nunca usarei o nome de um homem. Ah! Cabeça a minha, não infrinjo nada, não me proibi de usar o apelido de um cavalo!:)) Tá feito e não mexe mais.

domingo, 25 de maio de 2014

"O Enigma"

19 de Setembro de 2012

Vieira da Silva no Museu da EDP, Porto. A exposição  inicia com fotos que lhe traçam o curso do corpo, e onde ela surge sucessiva, o olhar de pássaro a alargar no inexplicável. Fica-nos o espanto em que os olhos flutuam, como se a realidade uma coisa grande demais para a pintora. Entre tanta fotografia, fixei uma do casal. Arpad e Vieira da Silva estão juntos no sofá, o ângulo recto das pernas em paralelo perfeito. Dois velhos quotidianos, se não fora serem eles. E nos corpos sentados uma sintonia de abraço imaterial, estar de dois que são um. Olho-os melhor. A Harmonia entre aqueles dois seres é acerto que transpira sem efusão. Lado a lado, os quatro pés denotam uma paz ainda amorosa.
Pouco entendo da pintura de Vieira da Silva e nunca tinha apreciado “O Enigma”. É um quadro que me fascina, todo construído em quadrados brancos e pretos, que joga tudo na cor e tamanho das formas geométricas. Observado a alguma distância, emerge-lhe uma ave de asa aberta e, contudo, nada nela é de voar, de todos os lados cadeias a seguram, como se lágrimas cristalizadas lhe tolham o vôo e impeçam que se destaque por inteiro. O quadro vive de uma falta de distância entre espaços, origem da imprecisão das imagens e que acorda no observador a radicalidade do insolúvel. Enigma é um nome que lhe assenta.

Desconheço motivos para ter  circunscrito as notas a uma foto e uma pintura. Mas foi assim que encontrei o rascunho, nas costas de um bilhete de comboio, as palavras a esvoaçar em volta dos pequenos círculos que  assinalavam a passagem do revisor.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Forças de Acaso

“O homem põe e Deus dispõe”. É atordoante. Como se uma entidade exterior – Deus - seja constante na mensagem de “não pode ser” ou “eu não quero o que tu queres” ou, em leitura mais realista, “o mundo não obedece à tua vontade”. E isto irrita quase tanto como unhas a riscar no vidro. Mas existe. Vamos até prescindir de um Deus que tudo pode e vê – como distorcer-nos o campo do agir e modificá-lo. Cinjamo-nos a esse emaranhado de relações interpessoais talhadas no imprevisto da imanência; atendamos aos acasos de existir. E compreendemos que projectar não é realizar; e que a antecipação do futuro pertence-nos bastante mais que ele. A inscrição do projecto no presente obriga-o a conformar-se à realidade. Foi o que me aconteceu no concerto de Páscoa.
Era ainda Natal quando comprei dois bilhetes e ofereci um deles. Depois, aproveitando uma série de coincidências nessa data, marquei um jantar com amigos. Mas o acaso, que às vezes nos persegue, truncou a refeição e também a companhia no concerto. Não desisti. Em cima da hora ofereci-me e ao bilhete para João Sebastião Bach, A Paixão segundo S. Mateus. E fomos aceites. Eliminado o jantar, limitei-me a propor uma visita prolongada a um sorriso bonito e suave que muito prezo - Maomé não podia ir à montanha.
No dia do concerto, perdi-me a escrever qualquer coisa, atrasei e cheguei esbaforida à Gulbenkian ainda os carros das televisões não tinham saído -  decorrera uma conferência sobre o 25 de Abril com gente de altas esferas, bem mais importante que um Cristo morto há tempo demais. A minha companhia aguardava-me na entrada. Amei aquele encontro, “quem sabe se não é melhor assim”. O auditório em completo silêncio mal os músicos e os coros entraram e o eu que é mim a encantar na paisagem do fundo. Na quietude clara da tarde, o jardim da Gulbenkian detinha uma aura de graça  japonesa: debruçava-se-nos. As árvores em arcos de flores semi abertas que abriam esboços de nuvem rosada e pontilista, a emergir do veludo verde da folhagem. Em grande plano, um arbusto oscilando exuberâncias de alva floração. E os pássaros. Em sua casa. A voarem-nos à frente. Dolentes e sinuosos, rémiges em leque. Dei uma olhada ao palco e, lá atrás, bem no meio, um coro infantil vestido de vermelho.
Depois a música cresceu e fui sendo levada. Deixei de sentir-me como ser individual, transportada a uma angústia do universo, como se conseguisse encarnar todo o sofrimento e toda a esperança do mundo. Ali, no meio da atenção de tanta gente, sou a voz dos que não puderam ouvir nem ver, dos que sofrem, dos mortos que vivem em mim o seu impossível. Oh, excessiva gente que reúno! Somos nós todos que choramos as lágrimas de Pedro e o seu arrependimento comovido; e, se cruzo os dedos no solo da flauta, não são apenas os meus dedos cruzados. As notas arrancadas aos instrumentos não nos levam ao colapso; tem de acrescer-lhes a força das vozes em uníssono, a destruir barreiras, corroer muros, evadir.

É sempre uma surpresa a interrupção, seja intervalo ou fim. Saio reabilitada, a interessar-me por quem me acompanhou e esteve afinal mergulhado no seu mundo paralelo. Saímos em passos indiferentes de caminho, a comparar percursos da alma que desvanece nas sendas do ser.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Brueghel e Rubens na Rua das Janelas Verdes

Decidi-me por esta exposição logo no início. Sugeri, convidei e acabei em planos solitários abortados uma vez e outra porque sim. Até acontecer. Que os museus vêem-se a sós. Mesmo em visita guiada. Mesmo rodeados de amigos. São lugares de pausa e respiração profunda, abrem em nós solilóquios de abismo que escorrem dos quadros se ousamos franquear-lhes a porta.
Pouco me liga à pintura dos séculos XVI e XVII; o museu de Arte Antiga não me percorre o sangue nem humedece os olhos. Mas apazigua a alma, oferece o fôlego de sombra fresca  no estio. Olho-o naif, a prescindir visitas guiadas sem desdenhar da aparência, a querer surpreender-lhe lampejos do que me alimenta o espírito.
Comecei pela pintura nórdica do século XVI. E siderou-me a imponência do céu em extensões de azul cordato, por vezes atravessado de nuvens pueris; amachucou-me a não importância de edifícios e homens colocados à boca da pintura, diminutos no vasto celestial. Que difícil ser humano neste tempo! Depois, aproveitei e revi os canais que atravessam cidades e aldeias e os efeitos da luz sobre a neve e o gelo. A vida é bonita para quem consegue vê-la. E quanto o viver pode travar a visão!
Por outro lado, no mesmo período, a pintura italiana expandia-se na paisagem ora a exacerbar dramatismos ora em estado lírico. As montanhas sobem nos quadros meias ser vivo, dramáticas e lancinantes; ou apresentam-se em quase sonho.  A tonalidade azul rosada de alguma pintura é um lirismo de devaneios irisados a sobrepor-se à realidade, as nuvens atravessadas  a projectar sombras de tinta. Nestas obras, para além da sugestão de densidade inamovível das montanhas, destaca-se a dimensão das árvores. É o caso de Simon de Viegler que as mostrou agitadas, sofredoras, empurrões de vento a inclinarem ramos; e elas descabeladas, esqueléticas, mil ímanes a prenderem a angústia de quem passa aos troncos feridos de fúria natural.
Por fim, Rubens e a eterna surpresa de cruzar luz e sombra; de um entardecer estar completo na cor de uma árvore, de assim haver a luz amarelo doente dos crepúsculos. Olho Rubens e compreendo porque se diz, “Em Itália pintam a luz”. É tão outra a luz de Rubens!
Entretanto, uma pintura de Adão e Eva acenou-me de um paraíso escuro e folhudo. A primeira mulher, uma desnuda leitosa e irradiante, a oferecer a displicente maçã ao parceiro de deslavado e contrafeito semblante. E não há como olhar o quadro sem a sensação de que está propositadamente todo errado. Pareceu-me até ouvir um riso escarninho a desprender. Uma brincadeira de artista.

Já no final, um outro quadro me alcançou: “A caça”.  Por entre aquele mundo androceu e de poder canino, uma mulher na sua montada. Por que razão um pintor do século XVII coloca uma mulher a apreciar o triste espectáculo que é perseguir uma lebre espavorida e semimorta?! Talvez um guia me esclarecesse. Mas o tempo. Então, guardei a tarde e regressei-me.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Um Amor Pequeno

Provavelmente não há o Deus que imaginamos a pôr alguma ordem no mundo. Um ser exterior que nos organize a vida e que, se bem pensarmos, se pauta pela paciência nas relações parentais, crianças asneirentas que somos. Apesar do atestado de menoridade que passamos à espécie, e ainda que Ele não exista, há-de haver um acaso inteligente – mesmo muito inteligente e até poderoso, que criou onde a mente humana soçobra.
Ora, num desses acasos do destino, não dos mais inteligentes – foi mais um acaso amoroso –, uma das primas recém-casadas veio a nossa casa passear a felicidade. E nós a olhá-la em meia desconfiança, à procura da garota que nos gastava mãos cheias de açúcar  a queimar sem sabedoria o melado dos pudins. Mal ele começava a granular, o açúcar está estragado, vai lá deitar fora, pomos outro. Prática, deitava novo açúcar na caçarola e logo que começava a granular, oh, este também está, deita fora. E gastaria quilos se nós os tivéssemos, ignorante de que o granulado de açúcar é o passo anterior ao formar do caramelo. Confesso que, nesse dia de visita, a olhava também a procurar sinais de casamento que não sabia quais fossem, sobretudo porque ela me pareceu a mesma loirinha bem-disposta e cheia de ideias malucas. Por outro lado, havia alguém que nos atraía mais: o marido. Mas também nele só encontrámos um rapaz alegre de melena comprida em ar de rock. Quando saíram, ficámos a olhar uns para os outros e eu, que te pareceram? A minha irmã, não parecem casados, pois não? Eu, pois é, parecem dois miúdos.
Posto que o casamento não se lhes notasse, o nosso jovem primo interessou-se pelo que fazíamos, como passávamos o tempo – lisboeta a preceito, devia estar contente por ter descido, sem querer, à pré história; e tudo inquiria -. E foi assim que contámos a nossa desgraça de nem rádio. E ele, eu arranjo rádios. Vão lá buscá-lo. Mas nós estarrecidos de esperança, abalholhados e a sorrir, de certeza um pensamento comum, "tu eras a única pessoa que a gente queria". A voz dele a sacudir-nos, vão lá, que quero vê-lo.  E logo alguém subiu ao sótão e o trouxe. Uma lástima empoeirada e cheia de cocó de pássaro.  Ele olhou e, que se ouvisse, não formulou juízos de valor. Quis limpar-lhe o pó, mas afastou-me a empurrar o aparelho para dentro de um saco plástico, desimportado de pormenores, deixa estar que eu limpo-o lá em casa. Vou ver o que posso fazer. E partiram os dois. Nós todos a acenar ao casamento de brincar e a desejar que o novo primo se lembrasse de rejuvenescer o rádio.
Passaram os meses e nada de rádio. Quando víamos o primo ele batia na testa com força e, ahnnn….bolas! Esqueci-me outra vez do rádio. Não entendíamos se tinha esquecido de o arranjar ou de o trazer. Vieram frios e calores, primaveras incipientes e bulbosas, outonos pelo chão a restolhar. Nasceu-lhes um filho. E comecei a preocupar na ideia de que o rádio do meu avô tivesse ido morrer tão longe. Já o preferia para ninho de pássaros, feito múmia no sótão. Parecia-me até que essa morte próxima era mais ao jeito do meu avô. Aos serões, falava nisso e o meu pai dava-me razão, ainda que não pelos mesmos motivos. E aproveitava para desdenhar do lisboeta e das suas capacidades com os transístores. Eu ofendia e saia da mesa arrependida de repuxar a conversa, mas, quando descia o degrau da cozinha pequena, ainda ouvia os finais, és mesmo anjinha, tu, acreditas em tudo.
Certa noite, os quatro sozinhos, bateram à porta da frente. Só podia ser visita. Munida de candeeiro e curiosidade, fui abrir. E a comitiva a espreitar atrás, o meu irmão bem no fim do cacho, um medo reticente em alarme de pernas e voz, a inventar delicadezas de larápio, e se forem ladrões. 
       Mas, destrancado o ferrolho, só o primo. Estranhámos. Ele sorriu e  entrou no carro. Retirou um embrulho, a porta do automóvel bateu enfastiada, num aborrecimento de deixa-me em paz e, num toque de sino, o rádio! E um sorriso lindo a envolver; que embelezou à expressão, o arranjo é grátis. Fomos todos, corredor fora, em procissão com vela e tudo, até à cozinha. E, quando poisou o aparelho sobre a mesa, pasmámos. Não parecia o mesmo. A bem falar, nunca o tínhamos visto assim. Estava novo. E ele a curar-nos do espanto, estava tão sujo que tive de pô-lo na lixívia, ficou quase uma semana de molho. Engoli em seco, um bocadinho envergonhada. Rodou o botão e ouviu-se uma música. Distinta. Clara. Nada de balbucios rudimentares. Aquela gente estava com a força toda. Já de saída, virou-se para nós e, pus-lhe pilhas novas. E desapareceu no escuro, os faróis a alumiar bocados de árvore, as laranjeiras enormes e sombrias, o meu irmão a impacientar-me a mão livre, vamos para dentro que estou a ver ali uma sombra a mexer e tenho medo. E, em peregrinação, regressámos à cozinha, a  matar a saudade do rádio.
No dia seguinte, mal o liguei, percebi que não sintonizava nos mesmos números, mas lá fomos procurando e encontrámos todos os postos excepto o Rádio Clube, já então mudado em Rádio Comercial.

Ainda não descobri o que aconteceu à Rádio Comercial, qual o caminho que tomou, mas desapareceu de todo. Um descaminho. De início, deduzi que o meu primo a derretera com tanta lixívia, que seria alérgica e não se aguentou na barrela. Hoje gosto de pensar que o meu doce avô também preferia aquele posto emissor. Que arranjou modo de levá-lo e está no céu ouvindo a Rádio Comercial. Porque, como reconhece Pessoa, as tardes da eternidade são muito enfadonhas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Um Amor Pequeno

Os povos são todos diferentes, dizemos. Mas as pessoas tão iguais! A situação económica e a pertença de classe aproximam continentes distantes e emparelham comportamentos. Quando estive no Brasil, viajei de táxi - bem lentamente - entre o hotel e o aeroporto, os olhos a despedirem-se em tempo útil. E senti-me replantada na minha aldeia. O Táxi passava devagar pelos lugares e a mesma caterva de sombras e pobreza nos adereços, nas casas, nas pessoas. Escurecia. As portas escancaradas à brisa. No interior, os candeeiros de petróleo a bruxulear claridades, enxameados de insectos que circundavam a morte em sua dança cega; mulheres descalças ou a chinelar, entrevistas em lida caseira, sem a graça que as revistas e as actrizes emprestam ao feminino brasileiro, morenas, gordas, pesadas; talvez suadas. As tabernas vozeavam e o suor brilhante do álcool já acetinava braços, rostos graníticos riscados de vincos fundos, troncos meio dobrados para a frente, talvez sobre um copo, ou apenas sobre si mesmos, em fase introspectiva de bebedeira; Como num quadro, as pernas penumbravam informes mas, grande parte dos olhos encimava camisolas de alças, um viés para o canto onde uma televisão junto ao tecto. E, na maioria das aldeias, havia talvez um café, onde mulheres e crianças hipnotizavam, ordeiras, em bancos corridos a toda a largura da sala, a televisão ligada à bateria de um automóvel ou a um gerador que resfolegava canseiras no bafo escuro da noite. Podia ser a minha aldeia no quando dos inícios da TV. Que a minha mãe nunca viu e pouco me autorizou a participar. Daí que, lá em casa, nada destronasse o rádio.
Aos dezassete anos, fui estudar para a cidade, só regressada à quinzena. As viagens eram caras e o meu pai ditou lei. Por contingências alheias à vontade do clã, o meu avô, que começara por ficar com o meu primo em nossa casa, passou a andar em casa dos filhos. Mais tarde, adoeci e a determinada altura o médico internou-me. Felizmente alguém atendeu o meu pedido de transferência para um lugar onde pudesse estender a mão e tocar alguma visita que me chegasse, assistir o sol a nascer, usar a minha roupa, os meus sapatos, andar, correr, ver gente. Portanto, mudei de hospital. Na madrugada da mudança, o meu pai chegou preocupado e insone, um saco  colado à mão que só me passou na despedida, a voz a falhar-lhe, Toma, mandou o avô. Deu-me um beijo rápido e partiu em pressas embaraçadas de preocupação mal embrulhada na ternura triste que não sabia nem ousava mostrar mas sei que houve. A situação era tão nova que não abri o saco e fiquei embasbacada à porta, alguém a levar-me as malas, as costas do meu pai na ambulância a sumir além-portão. Quando, já noitinha, olhei o saco, o rádio refulgia lá dentro. Exultei e dei-lhe o uso que merecia.
Levei meses para regressar a casa. E quando cheguei e o meu avô uma visita, logo lhe ralhei. Ele, “tu gostas muito de ouvir música, o avô quer que fiques com ele e o leves lá para onde vais; é um gosto meu, neta. Já me tiraram tudo, só tenho a telefonia. É tua, minha neta”. E como era jovem e pateta, desatei a chorar e abracei-o, gosto muito de si, gosto muito de si, avô gosto tanto de si. E depois, avô e agora o que põe em cima da mesa-de-cabeceira? E ele, o teu retrato. - e num sorriso - Anda comigo na casa dos filhos. Vai lá ver. E lá estávamos os dois sobre a mesa-de-cabeceira eu de lenço na cabeça feita cigana e o meu avô de barrete de orelhas, cajado na mão, sentadinho na sua cadeira. Não me lembro do fotógrafo. Mais tarde, quando já não servia ninguém, os meus tios enviaram-ma ainda na moldura que lhe oferecera. E lá estamos nós dois a sumir, quase indistinguíveis na brancura amarelada daquela esquina de sol.
A “telefonia do avô” acompanhou-me a vida errante de professora primária agregada e efectiva. E todas as férias voltava à aldeia, ainda sem luz eléctrica. Nela aprendi as poucas canções que sei cantar.

Ora, objecto como outro qualquer, não se subtraiu às leis do tempo e foi adoecendo. Começou a engripar, a tossir, abriu em intermitências vocais, soluçava que só visto; e o Rádio Graça empreendeu em rugidos de leão entusiasta que não desapareceram. Perante tanta birra, as férias eram menos alegres. E deu-nos cabo dos rituais: pintar paredes ao som de música era outra categoria; serões sem Telefone Toca, perdiam encanto; não conseguíamos acompanhar os jogos de hóquei e torcer pela selecção. Estávamos pelos cabelos com tanto impedimento. Por isso, sem coragem de a deitar fora ainda que sem préstimo, guardei-a no sótão. Sem me lembrar de a embrulhar. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um Amor Pequeno

Todos os homens preferem. E é na gradação das preferências que se instala o interesse de viver. Algumas preferências surgem naturalmente, outras são modificações do gosto. Mas aquilo que se prefere orienta-nos o agir mais livre. Uma das preferências do meu pai era encostar-se ao balcão da taberna e ir ficando. Algumas vezes, depois de muitos copos bebidos em rodada, um tendeiro ou caixeiro-viajante que tentasse a sorte, depois de muito moer, conseguia interessá-lo numa compra. Conhecendo o meu progenitor e o seu apego ao dinheiro, sei que devia arrepender-se mal estivesse nele, que podia não ser no dia seguinte nem no seguinte do seguinte, mas jamais lhe ouvi uma palavra sobre, um eco que fosse. Etilicamente, comprou um burro, duas cabras, um corte inteiro de tecido castanho que nos vestiu a todos e nunca mais acabava, um gabão e duas latas de quilo de atum Bom Petisco, de uma pureza que nunca tínhamos visto ou sentido e que nos deliciaram. Numa dessas noitadas, encontrou um pintor de azulejo e escaqueirou o velho sonho com auréola da minha mãe, o desejo de, sobre a porta, “Vivenda S. José”, em ferro forjado. Copo para cá e para lá com o pintor e mandou fazer o painel que ora existe e onde se lê Vivenda Pinto e um pinto escarrapachado, que o fulano era artista e tinha de deixar a marca. A minha mãe a observar sem palavras, numa tristura de dar dó, as pálpebras a engrossar; e o meu pai a defender-se, eu não mandei fazer o pinto, ele é que lá o pôs.
Teria eu uns doze anos, uma noite de copos pariu um rádio minúsculo. Apesar de pouco maior que uma caixa de fósforos, delirámos com a máquina. A princípio desiludi, queria um rádio como o dos meus avós. Mas depressa aprendemos a mexer na engenhoca e a perfilhámos. O nosso não era igual a nenhum, ninguém tinha coisa tão pequena. A minha irmã fazia gala no aparelho e exibia-o a todas as garotas que fossem lá a casa. Um sucesso. Entretanto, o sovina do meu pai proibia-nos de ouvir rádio durante o dia, para não gastarmos as pilhas. As sessões nocturnas começavam após o jantar com o meu chamado, mãe, olhe o romance. E ficávamos em roda do diamante que debitava frases interessantes e anormais para nós. Ouvimos vários folhetins, mas só recordo “A vida aventurosa de Wagner” e lembro-me de ter alguma má vontade ao compositor por tratar mal a mulher; e de adorar toda aquela música  muito alta e cheia de força que ainda hoje me sugere glórias militares. Também ouvíamos “Quando o telefone toca”, que nos servia de jogo, a adivinharmos o pedido seguinte; quem acertava mais vezes, ganhava. Todas as noites, mal começava a Melodia do Desespero, a minha mãe, mudem lá isso que o homem me faz impressão. É muita tristeza, o que será que ele diz? Até parece que chora. E eu ouvia hóquei em patins, vício que passei aos garotos e durou até eu mesma comprar um televisor e desinteressar do hóquei visual. De cada vez que precisávamos de pilhas novas o meu pai “fazia uma pregação”, é gaiatas desgraçadas! De certeza que deixam o botão ligado, gastam as pilhas em menos de nada.
Uma noite, talvez por excesso de uso, o rádio não tocou - o meu pai garantia amiúde, com alguns epítetos à mistura, que quem lho vendeu o tinha roubado; portanto, seria muito velho. Rodávamos o botão e uma rugida queixosa. E apenas. Somente. Trocámos as pilhas, abanámos, pusemos no máximo, no mínimo, mudámos de posto para posto, fomos ouvir na outra cozinha, nos quartos, na sala… Nada. Ficámos calados a engolir a vontade de chorar, a casa a admirar de silêncio, alumiada pelo candeeiro de petróleo que entristecia vapores amarelos. A minha mãe a olhar-nos, dêem-mo cá. Agarrou nele, abriu-o, palpou e,  oh, está tão frio, e colocou-o no chão, a centímetros da lareira. Então, começámos a ouvir vozes longínquas e progressivas, que em breve chegaram à tonalidade normal, mais pareciam pessoas que viessem a pé para nossa casa. A partir dessa noite, o rádio precisou sempre de cinco minutos de aquecimento que cresceram na proporção dos desmaios. Perdia vigor a cada noite, e, ao longo dos meses, as vozes a enfraquecer. Um dia, finou. Que é como quem diz, derreteu. O meu irmão aflito com o cheiro, os homens tão todos queimadinhos, mana.
Entretanto, o nosso rádio gozava a tempo certo, um mês de descanso. Sempre que o meu avô vinha para nossa casa, trazia o rádio dele e logo o punha sobre a mesa. Era uma alegria. O meu avô tinha uma reforma de miséria mas não queria saber se o usávamos dia ou noite, em sua casa o rádio ligado era quase permanente. Se as pilhas enfraqueciam, dava-nos dinheiro para outras. 
Foi por essa altura que comecei a passar a letra das canções que me agradavam mais. O meu avô ria baixo e gostava de me ouvir a experimentar o que tinha aprendido e se ia a correr de cada vez que dava a canção que queria copiar. Os meus irmãos solidarizavam e se não estava próxima, também gritavam, Beatriz, tá a dar aquela canção que andas a copiar. E a mais velha, queres que eu te passe um bocado? Onde é que tens o papel?

Por vezes, o meu avô com olhos de mel, o avô dá-te o rádio quando morrer. Eu a abraçá-lo, o avô não morre, tá bem? Ele, tá bem. E eu descansava.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pré História de um Amor

O tempo toca-nos em modo próprio. Modifica-nos o corpo, a alma, os gostos. À medida do desgaste, mata-nos os amigos, traz-nos rancores antes inconcebíveis, quotidianos fastidiosos, anseios nunca imaginados. Diz o povo que ele tudo traz e tudo leva. Neste ditado, palpita a viva fatalidade  de  Anaximandro “os seres pagam pena uns aos outros..” ou mesmo as palavras de Cristo, “A quem muito foi dado, muito será pedido”. Se pensamos nas três proposições, verificamos que não serão apenas sintoma de humano fatalismo. O sentido de posse é-lhes extrínseco, antes prefiguram o efémero vital que encarnamos – somos seres passantes. As virtudes de cada homem  pagam-se sabendo que uso servem e concretizando-lhe a utilidade. Por sua vez, a religião traz o tema ao campo do dever; exige, obriga, individualiza. Concluindo: nada nos pertence verdadeiramente, nem nós mesmos nos pertencemos. Assim se talhou a minha base educativa. Talvez que, nesse tempo, a da maioria dos portugueses. E, quem sabe, dos europeus.
Mas, enquanto a minha geração crescia com a rádio e assistia à eclosão e açambarcamento da TV, na minha família ela senhoreava. Teria uns quatro anos quando vi um gramofone e sua caixa de madeira. Dava-se a uma manivela e saia música. Fascinei. Vezes infinitas, pedi ao proprietário que repetisse a proeza e enquanto ele dava à manivela eu encarregava-me de espreitar por todos os lados da maquineta, sem atinar com o milagre. Era um homem penteado, barba feita, para o comum da aldeia, um senhor. Despedimo-nos com a promessa de voltar, mas, apesar de instantes pedidos, a minha mãe não me fez caso. Anos mais tarde, contou-me que era doente do Caramulo, tinha levado o gramofone e não voltara a casa. Pensei que o Caramulo fosse doença grave; lembrei o senhor a dar à manivela para mim, enquanto as mulheres à boca pequena, está tão bem encarado, mais gordo, estimadinho, olha a pele dele, nem parece que andou ao campo. Muitos anos depois, passei ao sanatório do Caramulo e pareceu-me ouvir o som do gramofone a sobrevoar o abandono do lugar. O senhor deve mas é ter-se curado e continua a dar música ao fresco das serras.
No meu período de escola primária, conhecia os rádios das duas tabernas e  tomava-os como enfeites, tal a algazarra masculina. O meu padrinho, que era homem de aproveitar tudo, a rir com seus dentinhos de coelho – os meus professores, aquele espaço na dentição chama-se barra ou diastema - varre lá aí a taberna ao padrinho. E deve ter rodado o botão do rádio. Parei logo com a poeira, dei um pulo e sentei-me na mesa do chinquilho a ouvir. Ele rápido, a salpicar gafanhotos para todo o lado com o nervoso, sai já daí, as marcas estão a giz, apagas isso tudo aos homens. Varre mas é a casa. E rodou de novo o botão. Fiquei a pensar que bem merecia a barra ou diastema dos coelhos.
E um domingo em que visitámos os meus avós, surpresa! Um rádio sobre a mesa. Cresci de alegria. O meu avô sentou-me no trôpego dos joelhos e ficou a girar um botão que fazia um pau fininho avançar e recuar numa janelinha com números. Quando saí, já memorizara o número de cada posto, os meus dedos pequenos sobre os dele a rodar o botão, avô eu sei, eu sei. E ele a rir baixo, uma poalha de ternura  no ar. Diziam-me, em que posto está, e eu ia ler e depois, Rádio Clube, Emissora Nacional, Emissora Dois, Rádio Graça.
Na minha mente, a cada um dos postos de rádio correspondia uma imagem. Assim, o Rádio Clube era uma coisa desportiva com meninas de sainha curta e raquete ao ombro a jogar ténis, que era um jogo que não sabia como se chamava, mas apareciam meninas assim nas fotonovelas a fazer propaganda ao modess; e eu lia naqueles balõezinhos com frases que elas iam ao clube com modess pétala macia, cujo também julgava ser um homem, por sinal com nome bem estranho, mas sendo brasileiro…porque não? E no boneco havia ainda os rapazes com camisolas brancas de risquinha no decote. Na minha leitura, esses eram os modess. O Rádio Clube era o meu posto preferido. Além disso, falavam do Omo que eu pensava que era uma pessoa porque lavava mais branco. Admirava-me era que fosse homem e não mulher, mas pronto. O mundo não pode ser todo igual. E nem eu sabia de máquinas de lavar.
Depois, havia a Emissora Nacional de que gostava menos, cantavam fado, ouvia-se o presidente de vez em quando e pensava que era um palácio enfadonho e aborrecido todo cheio de alcatifas onde as minhas pernas queriam avançar e não podiam. De vez em quando, sonhava-me perdida no meio das alcatifas que inventava, as pernas presas, dava um reviravolta na cama, enleava-me nos lençóis e caia estatelada no chão.
A emissora dois era uma entidade desconhecida cheia de músicas que não acabavam. Ninguém cantava. E isto enchia-me de insistências e dúvidas que aborreciam toda a gente. Foi a única rádio a que não dei imagem.
Finalmente, o Rádio Graça, onde eu julgava que tudo era grátis e supunha ser uma espécie de parodiantes de Lisboa, acerca de quem a minha avó, “têm graça; têm muita graça”. Imaginava um armazém muito grande com a música em fundo e onde toda a gente bem disposta e bem recebida, cada um a retirar o que entendesse. Mas quando pedi à minha avó para irmos até lá, ela olhou-me como se fosse maluca e, isso não pode ser, vai para a rua brincar e deixa-me trabalhar em paz.

A compra do rádio guindou os meus avós à riqueza. Os meus avós. Que não sabiam ler, pagavam o rádio a prestações e tinham uma cozinha de chão de terra. Mas que me  interessavam tais pormenores? A minha mãe dizia-me que não comprávamos um por falta de dinheiro. E a lógica infantil fez o seu caminho. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pré-História de um Amor


Todas as pessoas se armam contra a solidão. Mesmo as que dizem que não se sentem sós. Também elas. Porque, ou mentem, ou não sabem ainda concretizá-la. Identificam-na, talvez, com uma falta de companhia. E não estão erradas. A solidão é um estado de alma que não depende necessariamente da presença de um ser físico, mas essencialmente da falta de um estado de companhia. O que as pessoas mais sós ignoram é que as companhias desse tal estado não se compram ou se trocam; não têm a ver com risos e gargalhadas, ainda que possam existir; viram costas a muita conversa e solicitude baratas. A companhia só existe se haja uma relação profunda entre o acompanhado e o acompanhante. Dizem-me, ah, e então as companhias de viagem, aqueles seres empáticos a quem contamos mundos e fundos que não abrimos para conhecidos? Respondo que a fugacidade desses encontros não chega até à solidão. Somos um compartimento desenhado a todo o comprimento e eles são lâmpada de entrada, não contam para a luz da sala. Ajudam sobretudo na visibilidade da porta. O estado de companhia forma-se em anos de sedimentação. Como as rochas. Existe com grandes amigos, grandes amores e outras pessoas sem as quais o núcleo nos surge incompleto, haja ou não laços de sangue. Mas também com os animais. E os objectos. Sim.
“Na adolescência é suposto começarmos os amores”, quando li isto num livro preocupei e fui informar-me sobre a duração da adolescência. E constatei ser meio anormal, durante tal período da vida não me passou pela cabeça gostar de nenhum rapaz (nesse tempo desimaginava que a homossexualidade existisse). Nem me lembrei que a amizade também é um amor. E que, além das minhas amigas, desenvolvera um certo amor por alguns objectos, alheada do mundo animal.
A minha história com os animais é um bocado vergonhosa. Temia-os e enojavam-me um tanto. E não me refiro à infância. Se a minha mãe me punha nas mãos a galinha que chocava, pegava-lhe nas asas com as pontas dos dedos a afastá-la do corpo quanto podia. O passo seguinte era a queda do galináceo, a mãe sem gritar, um tudo nada de acidez, como é que não seguras uma galinha choca que nem se mexe, apanha-a lá, vá. E, face à minha recusa e inépcia, não sou capaz, apanhava-a do chão onde estava engolfada em novelo e voltava a pôr-ma nas mãos, a apertar-me os dedos sobre as asas, Beatriz agarra bem a galinha senão ainda apanhas tu. E eu, olhos fechados, a fazer força nas penas e a sentir sob os dedos a carne morna e febril que me torcia os lábios, o veio grosso das penas como um pequeno tronco, mãe isto do meio das penas é madeira? A mãe, segura o animal Beatriz, estás a deixá-la cair. Está à vista que as galinhas não me serviam as ternuras.
 Do cão tinha pavor, um medo gigante se rebentava a corrente. Se acontecia ouvir-lhe os latidos fora de sítio e me encontrava na rua, estacava e mais ou menos a chorar, ó mãe! o cão tá à solta, Ele ouvia-me, desatava a correr na minha direcção, punha-me as patas nos ombros e derrubava-me de alegria. Eu ficava no chão a chorar e aos gritos de, ó mãe, tenho medo do cão, venha cá, mas sem me mexer, ainda assim ele não se renovasse nos cumprimentos. O pobre animal ficava um bocado a olhar-me e a abanar a cauda, as patas fincadas no chão a parecerem pés de mesa e as unhas que, não sei como, me lembravam garras de águia, ave nunca vista, a enormizarem. Entretanto, a minha mãe acorria em presteza silente e ele desabria para o lado oposto. E só aí começava a levantar-me cheia de pó, ranho e queixas. 
O restante séquito de quatro patas não ia mais longe. Os nossos gatos pretos, pequenos seres de rua que por vezes devinham selvagens à força de incursões solitárias pelo montado, desinteressavam-me. Do burro tinha um medo feroz e jamais me aproximei do coitado. Muito adolescente e mais palerma, à conta da gulodice de uma cabra levei umas chapadas bem dadas, uma sova. Foi a última vez que a minha mãe bateu num filho. Os meus irmãos, ai, ai, deixaste fugir a cabra; tira-a da oliveira, olha que a mãe bate-te. E eu a metros do animal, a abanar muito os braços, xô, cabra! Sai. sai. Mas a cabra fixada na oliveira. Com os dentes. A roer, a roer, a roer. A minha impotência queixosa, ela não sai. E a oliveirita a desaparecer nas beiças daquela imbecil mal mandada. Os meus irmãos com boquinha redonda, Ai deixa, a cabra comeu a oliveira toda! E a mãe já vem aqui a chegar. Agora apanhas. A minha mãe a subir penosamente com o burro, rosto impenetrável. A rumar ao estábulo e a minha mente, talvez não me bata. Espectáculo! Só a cabra é que gostou.
 Os porcos cheiravam muito mal para o meu gosto e, se pudesse, nem proximidades. Quanto aos coelhos, comiam demais. E cheiravam a coelho. A minha tia a olhá-los embevecida,  animaizinhos tão bonitos. E eu muito séria a ponderar a vida da coelheira, ó tia os olhos deles são palermas, olham tudo igual, a dar-lhes as costas num remate, Os coelhos são parvos.

Portanto, restavam-me os objectos. Deve ter sido assim que comecei a gostá-los. Fazia-me falta vê-los, tocar-lhes, usá-los. Eram companhia silenciosa e quieta, não tinham aquele cheiro de bicho e estavam sempre em algum lugar. O rádio foi o primeiro que me deveio próximo.