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sábado, 14 de julho de 2018

Caminhos da Cal


Portugal está cheio de vivendas e podemos determinar as datas de construção pelo modismo de cada uma. No tempo de construção  da casa, imperava o azulejo. Meu pai, que fez nascer um monte onde antes era espessura de mato, sobreiro e répteis a eito, olhava a cal que resplendia a invejar, “O Zé Custódio é que teve juízo, a casa é toda forrada a azulejo, nunca precisa caiança”. A esta afirmação, nascia-me a imagem de uma casa guarda-jóias, onde as pessoas mal respiravam, o azulejo a tolhê-las falho de porosidade.  Mau grado o trabalho, rezava afincadamente para que o azulejo fosse caro, jeito infalível  de não chegar às nossas paredes.
Por vias que o destino e as modas engendraram, o nosso monte, erguido em  claridade e  barras azul-turquesa, respira hoje a densidade da cor em azul-real. Se nele me fixo, logo me vêm à memória os anos setenta e a odisseia de verão que nos deixava exaustos e felizes após a conclusão. Prontos para o campismo, ironicamente, sempre na praia.
Acontece que, se o trabalho braçal aperta, logo em reflexo de mola me salta zanga e mau modo. É uma falta de paciência de tudo, muito desinspiradora. Encrespo, devenho ouriço. Na verdade éramos apenas seis braços de trabalho: eu, minha irmã sete anos mais nova e meu primo que passava férias. Dos meus irmãos pequenos queríamos distância. Depois do pequeno almoço, ordenava que fossem brincar longe e por lá ficassem até à hora de almoço. E, disfarçados de pedintes miseráveis (vestíamos andrajos que havia no sótão e depois atirávamos fora), embrenhávamos o pincel nas paredes, numa linguagem de tu por cima e eu por baixo, e esquecíamos o horário no desejo de “dar a primeira demão” antes de almoço. Mas o verão. Mas a sede.  Mas a água escondida no bojo das bilhas de barro içadas no poial. Meu pai sabe Deus onde, e eles a uma insistente janela aberta, ó mana temos sede. Ou, ó mana estamos cheios de fome. Ou ainda, ó mana caí ali nas pedras, anda lá pôr-me água oxigenada e mercúrio que isto está-me a doer muito. E eu impaciente, pincel acima e abaixo, a descer e subir de um escadote toda afogueada para não haver atrasos com o pincel do baixio, ó gaiatos de um raio, saiam daqui, já não os posso ver – e num desabafo -, aguentem mais um bocado, poças. Eu que tinha o almoço por fazer e, de vez em quando, me adiantava para poder ir até à cozinha dar mais um avanço na refeição, a tempo de voltar antes de atraso irremediável que a secura das paredes era saudade urgente, sugava a cal ao toque. Meu primo sorrindo, regador em punho a dissolver pingas e a esfregá-las, impedindo agarrações de cola ao cimento do poial, que o ar seco e quente tem sua inclemência.
Numa manhã particular, os dois garotos mais endiabrados ou eu mais retorcida do humor, visitas e queixas choviam em intermitência. Depois de muita impaciência latejante, de gritos a enxotá-los, meu primo antecipou-se-me. Largou o regador e o esfregão e, mão esquerda aberta sobre a totalidade do rosto, pegou o garoto por um braço e pô-lo a distância peremptória, sai daqui que já não te posso ver – e abria muito os olhos risonhos por detrás dos dedos reiterando -,  não vês que não te posso ver?!
E nós duas rimos e largámos os pincéis. Eu para a estupefacção do garoto, afinal queres o quê. E ele tolhido de inesperado, fixo ao chão, em voz temerosa, podias-me dar só a água. Eu, palavras de abrir cancela, vai lá para cozinha, não precisas ficar aí especado.  
Gesto e palavras autonomizaram e permanecem, sai daqui que já não te posso ver.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril


Quando o 25 de Abril de 1974 aconteceu – dia de memorável  acontecer – tinha dezanove anos de ignorância garantida.  De política pouco sabia, não ia além do temor à polícia política, que podia morar em qualquer um, e do cuidado em não falar mal de Salazar, coisa que nem eu calculava por que haveria de fazer. Era o nosso Presidente do Conselho e, logo, boníssima pessoa. Foi assim que cresci, imersa num mundo que não existia e onde as pessoas honravam os cargos com a sua excelência pessoal ungida de santidade. De outro modo, não seriam escolhidas. Falar ou pensar mal de Salazar jamais me ocorreria e conjecturava com os meus botões que só o mau feitio de meu pai era capaz do estado odiento que lhe sobrevinha a desoras na amargura dos dias, “pendurado de cabeça para baixo e o cabelo corto à pedrada, ainda era pouco”. E outras afirmações do género que minha mãe tentava abafar,  olhos arregalados numa inquietação desconhecida, “homem fala mais baixo, não digas heresias, olha que alguém te ouve; lembra-te dos filhos”. E meu pai sem lhe fazer caso, a  altear a revolta e disparando perdigotos, “havia de o deixar lá a morrer à míngua, o sangue a pingar gota a gota; ele e mais a corja toda, o Tomás e os outros”; e abarcava com um gesto largo da mão todo um mundo de malfeitores. E eu que não podia calá-lo sem levar um sopapo que me deitasse por terra, julgava-o um ser sem coração e tinha até vergonha de tamanha crueldade dirigida a gente tão imaculada e que, com denodo imparável,  lutava pelo nosso bem estar.
E em Abril de setenta e quatro fez-se luz na minha alma de trevas. País velho e com alma juvenil, crepitante. Ou terei sido eu mesma que nasci para a compreensão extensa da liberdade do povo. Finalmente, entendi meu pai.
Sem a saber ou sequer lhe conhecer a obra, era com Sophia que estava (as almas são deste quilate, ficam gémeas sem pedir licença).  E é ainda na permanência dos seus versos de cabeça erguida que se sustém o Abril do povo português. O, “ Abril, Sempre!”

“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitámos a substância do tempo”.

domingo, 16 de julho de 2017

Amizade

Tenho, como toda a gente, algumas amigas. Umas são companheiras de juventude; outra, de adultícia. Não me fecho a novas amizades, mas já pouco me interessam companhias esporádicas (nunca me interessaram). Não estou para isso. No entanto, só com uma discuto pormenores quotidianos. Também falamos da profissão mesmo se, sérias como num juramento,  prometemos antes não o fazer. Conto-lhe filmes e livros, desgraças com graça que sempre me acontecem e a fazem rir. Ela discorre sobre as questões da existência que na sua boca devêm assunto fácil e interessante.  Não sei que possa ensinar-lhe, mas sei o que, naturalmente, me ensina. É uma opinativa muito razoável, aquela menina.
São poucas, as minhas amigas. Deixam vazios nos dedos de uma mão. Contudo, depois de cerca de 25 anos perdida noutro planeta, achei uma. Melhor, re-encontrei-a. Assim. Do pé para a mão. Se a amizade é séria, a gente retoma como se fora ontem. Ou na semana passada. Quanta água passou sobre nós! Boa. E má. Rotineira, chuvinha de molha tolos. E diabruras climáticas de todo o feitio. Cada uma conheceu um mundo de gente outra, subiu na profissão, casou, teve filhos, arranjou e arranjaram-lhe alegrias e dissabores que desconhecia, sofreu desgostos dos grandes, daqueles que mudam corpo e alma e no impacto nos atarantam de tanto nos exigirem quem não somos. E nós a adaptarmo-nos como podemos, sou capaz, sou capaz, consigo, já consegui de outras vezes. Mas, depois disto tudo que não contámos uma à outra porque o tempo de estarmos juntas é pouco mas é hoje e o passado vem quando calhar se calhar, é um prazer tão grande rirmos juntas! Tal qual como dantes.  Não que sejamos felizes, mas rir a par sempre nos foi hábito e terapia, desoprime, torna-nos mais compatíveis com a estranheza de viver. Que nos exaure. A vida consegue ser mais caprichosa e birrenta que eu em criança.
Tenho apenas um remorso muito ligeiro acerca dela: era amiga da minha irmã e tornou-se minha amiga. Não houve troca, foi mais uma extensão. E até me parece que sintonizamos melhor passados 25 anos.
Foi nesta sintonia que ligou uma noite já pelo escuro, vamos amanhã à praia? E é claro que sendo eu a que fui, sem mais pensar, sim. E ela que saía cedo (a nossa praia é longe de mim e mais longe dela), e eu que a ia esperar porque desconhece onde páro e 25 anos depois a praia e os lugares, como dizia o filósofo, são outros sendo os mesmos. E claro que convidei a mana, havia um reencontro por fazer. Acordei com os galos. Ou antes. E deitei-me à roupa. Tudo preparado. Liguei e ela há dez minutos na paragem do autocarro, ainda tão longe. Comecei a ficar contente. Cada uma de seu lado, pusemo-nos a caminho.

 A minha amiga é sempre ela, a mesma. Gosta de andar, de ver, de explorar. Chegou antes. E não parou quieta. Como é parecida comigo em muita coisa e também nesta, nas encruzilhadas virou sempre para o lado errado. E vivam os telemóveis que nós chegadas e nada dela nem daquela menina adorável, com certo porte de deusa, que lhe chama ternamente mammy. Quando enfim descodificámos por onde andava, fui rolando devagar, olhos de  raio x. E vi-as assim, cheias de sol, marchando na ciclovia, do lado oposto. Apitei. Acenei. O traço contínuo a impedir outras proximidades. E as palermas, vai ali alguém a apitar, deve ser um homem; uma olha e, é um homem (não lhe perdoo, eu sei que estou a perder a feminilidade, mas escusavam o exagêro). De modos que, quando voltei atrás tinham sumido de novo. Parei numa aberta do stand de vendas e toda a gente que saía ou entrava do resort olhava para nós com a certeza de não podermos comprar uma garagem sequer. E nós olhávamos para eles na admiração de ver como é a gente que pode comprar tudo ou quase. E delas,  nada (ó raio de garotas). A mana, enganaste-te, não eram elas. Ligámos. Já estavam de novo a afastar-se, não nos tinham visto. E a mãe, que é tão como eu, qual é a marca do teu carro? Eu esquecida que o carro é velho mas não chega - ainda -  aos 25 anos, tu sabes a marca, tenho o mesmo carro. Dei referências do  irrefutável lugar e embrulhei a promessa, não saímos daqui. Pespegámo-nos as duas a mirar os magnatas que passavam em brutos carros, e, em boa verdade, me pareceram olhar de alto e com óculos de marca (sim, sim, mesmo por detrás dos óculos deles e meus, vi muito bem que era olhar de alto). À parte isso, a estirpe não difere assim tanto do vulgo. E diz a mana meio ansiosa, vou esperá-las. Fico a aguardar (até por estar mal estacionada) e vejo-as de longe. Desviam-se brevemente da mana, depois param e há aquele abraço de tanto ano. E beijos. E tal. A minha amiga não reconheceu a mana e desviou-se dizendo para o lado, esta gente está toda a passear logo de manhã, deixa passar esta senhora tão fina. De modo que chegaram as três numa galhofa. E lá seguimos para a nossa praia. Cantando e rindo. O resto conto amanhã. Logo. Ou. Há que encompridar os curtos bons momentos.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Aniversário

29 de Maio de 2017

Aniversário de meu pai. E ele com o pigarro antigo, economia da sua comoção, gratamente rodeado do que aprecia: mimos, conversa, atenção. À mesa, pois. Portugueses que somos. Enternece vê-lo ainda a experimentar ser o de antes, aquele que lhe surge em lampejos de raiva, aos gritos, a esbracejar com dinheiros e custos, autoritário porque sim. Mas hoje, em atenção às visitas, usa o aparelho auditivo com que não ouve na mesma. E é ouvi-lo a reclamar aos gritos – horas  numa salganhada de vozes estrídulas -, eu oiço bem, só que não percebo. Dá-lhe gosto e demora-se a contar sobre nomes e famílias que desconhecemos,  gente velha quando ele novo. Chega a parecer que a velhice nos aproxima. Ele para mim, tu deves lembrar-te. E depois caindo em si, ah, não, nem eras nascida, eu era gaiato. O meu pai que vive entusiasmado com o projecto de uma casa de banho reformada, toda outra de chão a tecto, para melhor lhe servir a idade. Que a deseja pronta antes que o caçula e filho do coração lhe apareça portas adentro para o abraço dos abraços, lugar onde emudece, o pigarro dobrado que nem bicho de conta, desta vez não entro. E fala de sanitas, torneiras e pulibã que a banheira vai fora, tenho pena mas é perigosa, afirma convicto enquanto os dentes decifram o esqueleto de uma asa de frango. De repente entusiasma com o Aquilino e nós sem entendermos o que faz numa casa de banho toda à peça, um Aquilino vindo do nada.  Do meio da poeira imaginária de azulejos escavacados, chão aos cacos, canalizações mortas de todo e um pedreiro João, aparece  um Aquilino. E nós intrigadas, qual Aquilino, pai?, eu a rememorar nomes e com a certeza de que os Aquilinos não gostam da nossa terra, nunca conheci nenhum por cá. Se entrou, veio mudo e partiu calado.  Que eu mesma só conheço um e de que gosto bastante, mas está mortíssimo; quero dizer que vive nas folhas dos livros que escreveu, mas apenas nessas ou na mente de quem lhe quis bem; e decerto não será ele que meu pai quer na sua casa de banho. Seria forte desaforo a escritor que tanto prezo. E tu desculpa Aquilino, mas desde o Malhadinhas que me tens rendida e nem por sombras te quereria misturado nestas andanças de meu pai. Portanto, ficamos em que eu, ó pai, mas qual Aquilino?, e ele de língua sem despacho, feita taranta, não é Aquilino, digam lá como é que se chama aquilo de fechar os pulibãs. E alguém aventou, o acrílico?, ele, isso, isso.
É assim meu pai, projecta, discute e não se atrapalha com termos que ignora. E conta, conta, conta. Traz dos confins da memória mulheres que refere em displicência, coitadita, está muito escangalhada; ou aquelas que lhe parece terem remoçado, aos quarenta era um farrapo e agora está boa, uma mulheraça. Sorrimos. Perfilha a máxima, gordura é formosura. E ainda lembrando certa de pele de bebé que o deixou pasmado, não tem uma ruga e é da minha idade; e depois conclui, mas parece que foi soprada, uma cadeira não lhe chega para sentar. Por vezes, no afã de contar, a língua desacerta e ouço-o dizer, “ele quando morreu foi para casa da irmã”. E salta a mais nova, quando morreu?!...só se foi cremado e lhe levaram as cinzas...e ele dando conta, nada, foi antes de morrer pois claro, antes de morrer é que foi para casa da irmã. E diz minha tia do seu canto de sabedoria, “deixou tudo que tinha a uma instutoção”.

Quando se fez hora de voltar para o seu mundo e nos agradeceu, voltou-lhe o pigarro. E nós na alegria de tê-lo, para o ano há mais, não é pai?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Menino Jesus fora do Presépio

Anualmente, escrevo um post que no meu íntimo, bem o sei,  é a minha árvore de Natal. À medida que enfeito e preparo o Natal de verdade para muita gente, dou-me conta que, cada vez mais, vou recuando no tempo. Chegou-me a velhice. Não que me demore em avaliações, a sopesar bens de outros tempos. Apenas aquele tempo se me impõe. Nostálgico, sim. E não foi um bom tempo. Mas, dele, todos recolhemos coisas boas que nos alisam o carácter e dão algumas ferramentas de viver. Hoje, precisamente há uns minutos, pensando nos presentes que preparo e no crédito de horas que me falta (e não me parece que baste que a minha vida não é só prendas, também tem outras coisas mais aborrecidas), ocorreu-me a imagem de minha mãe como ela mesma ma descreveu e permanece até que a memória deslace: teria eu uns esgalgueirados treze anos, corria a segunda metade dos anos sessenta, em dia tão frio e triste como este, deslocou-se à vila - de certeza por necessidade premente que a carreira era paga e meu pai um sovina -  e visitou o cemitério, então cena isolada a uma ponta da urbe.  No regresso fazia caminho contra o vento, o frio a querer despir-lhe o casaquinho leve. Seguia cabisbaixa e enregelada, em labuta com o vendaval, a remoer a tristura de não poder comprar-nos as sombrinhas de chocolate que nos encantavam. Porém,  antes das bombas da gasolina que inda existem, veio-lhe de encontro aos pés uma nota de quinhentos escudos. Ela parou, olhos arregalados, o coração num baque. Nesse ano, minha mãe não tinha que dar-nos, meu pai, um ali babá que não abria mão da gruta, surdo de todo ao seu pedido de menino jesus para nós. A minha incrédula mãe  e  a nota. Uma nota empurrada pela ventania e parada no bico do sapato, a contorná-lo, as pontas agitando-se como asas. Não se baixou a apanhá-la, antes olhou receosa para todos os lados. Mas, no meio do frio, ninguém. O largo das bombas, deserto. Uma oficina próxima laborando, barulho de maçaricos, o cheiro do metal em fusão, faúlhas azuis a chispar em estrela, fatos-macaco debruçados, atentos. Minha mãe indecisa, não é meu. A pensar, Deus queira que não seja dinheiro de pobre, que seja de um rico que encheu o depósito de gasolina e ao pagar deixou cair esta nota que veio vindo com o vento e ele nem dá pela falta; a convencer-se, foi ajuda do céu, as minhas filhas podem ter Natal. Baixou-se e, numa alegria decidida, apanhou a nota e colocou-a dentro do saco de quadradinhos verdes e pretos que era saco de ir à vila. Minha mãe sem dinheiro e que nunca teve carteira a estugar o passo, ainda tenho de ir às lojas antes da hora da carreira. A destinar: cem para aqui, cem para ali, no gozo celeste e maternal de nos comprazer.  
Não houve Natal assim. A cada uma couberam três ou quatro embrulhos além das sombrinhas que desta vez vinham com gatinhos também de chocolate, os mesmos que invejávamos de nariz colado à montra da pastelaria. Manhã de alegria retumbante e ruidosa, gargalhadas, exclamações de surpresa em surpresa. Mas o que pensei mesmo à bocadinho não foi isto que até já contei noutros lados, quem sabe até melhor. Foi assim: com aquele dinheiro, minha mãe não comprou um alfinete para ela. Nada. Gastou tudo connosco. Contudo, nunca teve uma prenda de Natal. De ninguém. Mas plantou em nós a ilusão e alimentava-a contínua, sempre tivemos   alguma prendinha no sapato.
Eu sei, a vida não é justa. Mas, tanta vez, é injusta demais.

Pronto. Eis a  árvore. Tem luzes, brilhos, estrela e tudo.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

As Incógnitas Flores de Abril

Há quarenta e dois anos atrás eu tinha dezanove anos, cursava o último ano da Escola Normal do Magistério Primário em Évora e desconhecia tudo sobre regimes políticos. Cria na bondade  do nosso, pensava que a vida era toda igual mundo afora, e os chefes de Estado eram pequenos deuses bondosos (a escassez divina vinha-lhes da inacessível  eternidade); defendiam o país com unhas e dentes, amavam o povo a mais não poder e nunca por nunca o prejudicariam. Politicamente, eu era um zero à esquerda. Jamais ouvira uma palavra sobre presos políticos ou mesmo o uso do termo política. Quando meu pai desabafava nos seus costumados excessos contra Salazar e, por vezes, Américo Tomaz (a quem pouco ligava), e se alongava em gritos de “pendurava-os de cabeça para baixo e o cabelo corto à pedrada” e “punha-os a morrer à míngua”, logo minha mãe na sua voz de brisa cautelosa, “ó homem cala-te, não digas heresias, olha que ainda te levam”. E o meu pai que pouco caso lhe fazia, ria escarninho, alongava os decibéis e mantinha os castigados de cabeça para baixo dias a fio, posição que devia achar o máximo do sofrimento, todos nus, açoitados, apedrejados, cuspidos. Até à morte. Enfim. Uma data de coisas que a meus olhos o tornavam um energúmeno, porque eles, inocentes, não nos faziam senão bem. 
Dado que o carácter do meu progenitor o incluía no número de portugueses exaltados e pouco risonhos, daqueles a quem tudo irrita e faz prurido e que tratamos com luvas para ver se não levanta ondas que nos deixam submersos, nunca entendi o alcance dos receios de minha mãe versando a sua estereofonia ruminativa sobre os nossos governantes. Tomei-a por consequência da sua habitual má disposição que, no que à economia dizia respeito, atirava perdigotos esganiçados obstaculizando a intrepidez de palavras lançadas à velocidade de foguetão ascensional, em promessas de estripar, esventrar, acabar com a raça daqueles que, eventualmente, pudessem enganá-lo, e aproveitava para nos injuriar do que se lembrasse (o paroxismo da ira retirava-lhe vocabulário e tornava-o repetitivo). Aplicava a receita a qualquer compra, venda, troca, e a tudo que envolvesse uma verba por mais curta que fosse. Ou, na sua ausência, um valor. Habituados ao estardalhaço,  não distinguíamos entre razão e desrazão, tudo convertido na rasoura do destempero.

Em setenta e quatro, Salgueiro Maia e os capitães de Abril, hoje meus heróis, pouco me disseram. Não tinha televisão nem energia eléctrica em casa e no colégio onde estava tinhamos sido expulsas do telejornal por mau comportamento. Só entendi a necessidade do golpe de estado de que toda a gente falava quando, uns dias depois, chegaram os presos políticos. Foi nessa altura que comecei a entrever o muito que ninguém me contara, o silêncio imposto, o medo de falar, o asco silencioso à pide. Fui vê-los passar em caravana lenta, quase a passo. E não esqueço a alegria  serena e confiante nos semblantes, os sorrisos tão de infância crente. Creio que é ainda por eles que trato de que não se apaguem realidades tão sofridas e redentoras. Que a memória só vale se for veículo de transmissão. Eles são o chão da nossa democracia. Bem Hajam!

sábado, 23 de janeiro de 2016

CAM - O Círculo Delauney e Outras Coisas

Pergunto-me vezes sem conta quem sou. Não que esqueça os dados identitários, ainda não frequento esse autocarro. Mas o multifacetado de mim incomoda  a cada aparição. Nos momentos de transição,  sou a dona de casa que, fora do avental e das panelas,  se estranha no espelho, não se acreditando na imagem, sou aquela?! É que outra de mim irrompe sem peias, toda sensações e sentimentos, a chamar por quem não está como se estivera, dando costas à versão caseira. Baralhante. Verdadinha.
É assim que deambulo por museus, oriento os olhos para a paisagem, vejo filmes e leio alguns livros. Outra de mim. Mas a falta que me faz ser aquela. A outra. Ou talvez a mesma, a que surge a espaços. E cada vez é única e primeira. Porém, há um lado de não ser assim: reapareço-me idêntica na força de sentir, empurrando todos os aventais do mundo para um esconso qualquer que me deixa a latejar por olhos e ouvidos, a realidade um excesso e eu lá no meio, sem fala, sendo mais ela que eu (não entendo a razão do v não escrever neste portátil que até é novo, tal não tá a moenga, ham?! Quem é que sabe depois o que são aentais e outras palaras). Tenho plena consciência de que petrifico sectorizada, incapaz da totalidade no seu aparecer.  Enfim, problemas de antena curta.
No CAM, gosto particularmente do quadro de Pessoa, obra de Almada Negreiros. Pessoa não está um espanto no retrato. É o todo do quadro que transtorna e fortalece de alma. Portanto, detesto pagar um bilhete e ele fora do seu lugar. Detesto mesmo (já paguei só para ir olhá-lo). Mas “O círculo Delauney” tinha de incluir Amadeo e também o prefiro. E lá fui. Em manhã de chuva atreita a continuidades de molha-parvos. Verifiquei que Pessoa estava fora de órbita. Faltou-me. Um tiro no porta aviões. Para colmatar, espreitei a exposição sobre os trabalhos de pintura e escultura de Hein Semke, um alemão que gostava de Lisboa. Não me transtornaram como aquele Pessoa bicudo em chão de dominó e fundo vermelho a emoldurar-lhe o pessimismo. Pe-ssi-mis-mo, sim. É o que nos dizem os olhos do Poeta (talvez sejam os do homem) e os olhos não mentem. Portanto, um submarino ao fundo e mais o resto do porta aviões, está claro. Andei em frente e para os lados a experimentar os Delauneys que conhecera via Amadeo. E descobri o aparente Amadeo e a mulher, Lucie. Um par dos antigos. Completo e au point. Deduzo que a imaginação me enganou uma vez mais, Amadeo seria de boas famílias, parece rapaz de recursos (onde é que eu tinha a cabeça, sabia que vivera em França; se calha, pensei que era filho de emigrantes), um Banderas lusitano e sensual, com sotaque de Amarante, que a gripe espanhola levou de enfiada. Mas tudo isto faz parte do jogo de aparências, o que me interessa em Amadeo veio-lhe da arte, simbiose transfiguradora de  mãos e mente. Há no pintor um vigor pictórico quase anestesiante, que cola o olhar às obras. Podemos desconhecer as correntes que seguiu, não destrinçar onde predomina uma ou outra, atermo-nos apenas ao que entendemos sem detectar inovações, pedaços de guitarra, letras, colagens, elementos de folclore. Mas gostamos. Não temos fuga face à interpelação vivaz de Amadeo. Com algumas semelhanças de estilo, os Delauneys são outra coisa. Mais moderados, afirmam-se em predominância de linhas circulares e a cor não grita nos quadros, a  exigir, vê-me. Os Delauney propõem-se, Amadeo impõe-se. No traço, na cor, no imaginário.
Voltando sobre os passos, observei a vida lá fora. A janela panorâmica oferecia-nos uma mistura de verdes lustrosos e, logo à frente do vidro, pássaros pretos com bico de sol, almoçavam sôfregas  bagas vermelhas no arbusto que bordeja a galeria. Alucinei nos repentes vorazes do bico-pinça, a retalhar, despedaçar e deglutir. Bocadinhos de vermelho, sobras em ameaço de queda, engolidos num ápice, a um tique de pescoço. Sem querer, tinha deparado com a cantina da passarada. Imaginei aquelas pinças amarelas a arrancarem-me bocadinhos de braço para o almoço. Mas eles adivinharam a minha presença. Ou, o que é mais provável, o bando saciou. E uma revolução de leques pretos perdeu-se no arvoredo. Fim. Um tiro nos submarinos que faltavam.
Entenda-se, foi o meu fim com eles. Ainda assim,  embasbaquei na sua  perversão afiada e nada dócil, lembrando certa cabine telefónica de Hitchcock. Por que razão me confrangem as várias realidades de mim se até  os pássaros  participam de serem mutáveis, ora são; ora não são, por serem outra coisa que é na mesma. Mau Maria...
E depois sim, para afundar um barco de três à Fundação, e o resto da batalha naval que espere assim como assim sou perdedora a valer, preenchi um impresso a apontar o erro ortográfico num placard da exposição. Porque sim. E para ajudar os senhores da Gulbenkian que são pobrezinhos, não têm funcionários suficientes para supervisão da língua  portuguesa, e os curadores têm mais que fazer. 

Palermas! 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Suave e Murmurado

(continuação)
O sol do Alentejo invade todos os escaninhos, espreita todas as frestas. Desimportado, interpõe-se no abraço a deslaçar e mostra-nos uma à outra. Sorrimos ao espelho. Oito anos. A mudança dos cinquenta para os sessenta. E tanta, santo Deus. A partir dos sessenta é irrecusável, a pele cansa-se de ser jovem e cria um amolentado que se tacteia com agrado – a minha mão mapa de tempo a descer-te o rosto e a recordar a vitalidade de um rabo de cavalo –,  espécie de papel fino que ganha sinais do que viveste. A polpa dos dedos alisa o cansaço dos esforços em que te suplantaste, o pragmatismo de que lançaste mão para sair dos buracos negros que te couberam, os amigos que te recusaram ou tu afastaste, os teus pequenos-grandes vícios, as noites de insónia, os amores que perdeste porque na altura não os julgaste importantes, outros viriam.  Tudo fica cruzado na pele, finamente, por vezes em arabescos tão repetidos que quase constitui um padrão. Porém, mais nos delatam os olhos. Porque, se não foi fortuito, dizem do bem que te quiseram. Está-te nos olhos se o fruíste e usufruíste. Ganhas uma doçura resistente, profunda. Que te contém a infância e adolescência e as vai semeando pela vida – tua e dos outros.  Observo-te, estás um pouco alegre. Talvez saudosa.  Dou-te as flores que vais pôr em água e entro em casa com a tralha. E tu ajudas pressurosa,  restinhos da garota de Évora a evaporar na claridade.  
A casa recebe-nos no sossego que conheço. A mesma. Tudo no sítio. Menos a tua irmã. Não falamos dela. Contudo, o lugar vago alastra,  borrão de tinta em água. Afloro o nome recordando a última visita. Não o tocas. Pomos a mesa a meias e aceito pratos e talheres de plástico – se soubera teria trazido os meus –, mas faço questão num cálice de vidro. Tinha pensado que iríamos brindar ao próximo encontro, mas, à vista da garrafa do vinho, vais avisando um padecimento de vesícula e de uma penada o suprimes e às entradas. Em oito anos, muito acontecer calaste! Sirvo-te e sirvo-me.  Almoçamos, tu, medrosa da doença, a comentares o picante dos camarões. Comeste pouco e não repetiste. Também não brindámos. Mas pareceu-me que gostaste do pão-de-ló que  leva ovos e, incompreensivelmente, comeste e até repetiste.
 Depois do almoço, pratos e talheres descartáveis, arrumo as minhas coisas e ajudo-te na mesa. Em seguida, entramos de conversar. Sugiro-te o computador, pode ajudar-te as noites e será melhor que a prisão da TV; que posso enviar-te algumas coisas interessantes. Mostras-me um computador virgem, a reluzir saudade de dedos. Tento convencer-te a visitar uma casa de informática para a instalação de alguns programas, mas receio que quando volte a tua casa, ele numa queixa, exaurido de saudade, morro se não me tocam. Então, abro o meu pc e mostro-te o que posso – não tens acesso à internet – fotos de família que gostas de ver, coisas palermas que escrevi e acho bem dispostas…encantas nas minhas fotos da Bélgica e no relato pormenorizado a apontar, a apontar. Lamento não ter trazido as da Toscana. Na próxima vez. Prometo. Assim eu possa guiar-te os olhos por campos casados em veludo verde e amarelo, colunas de ciprestes e tanto mais. Não há verdes como os da Toscana. Como hás-de notar.
São já as dezassete. Para terminar, passeio contigo.  Vamos até à barragem da Amieira (ou será a marina?). Não há como conduzir no Alentejo. Olho-te o perfil contente. Tão maluca quanto eu, perplexas neste enlevo colorido. As nossas almas agradecidas flutuam gémeas na paisagem. Lindos estes teus campos e recantos. Colinas de tons quentes, íman dos olhos, tinta entornada que não ouso fotografar.
Chegadas à marina da Amieira, tiramos uma foto as duas e eu aproveito a paisagem. Bebo uma água que tu pagas e sentamo-nos na esplanada. Duas burguesas de meia-idade à sombra quente do Alentejo. No meio de outra gente encalorada, possivelmente com um barco na marina, que nos mira em jeito de quem conhece o território, a estranhar-nos, estas duas de onde saíram, o que querem. Desabafo para os barcos, aqui, só a sombra interior das casas é fresca. E eles a oscilarem um tudo-nada, sim, sim.
Acode-me à memória o Verão na minha aldeia pequena, cegonhas estáticas, asas escancaradas no inferno azul do ar. Olho em volta e nem um passarito pequeno. Afogueada, levanto a cabeça para a sombra alva do toldo. Como as sombras alentejanas são quentes, sufocadiças! Ficam a doer-nos na alma enquanto o suor empapa o corpo. Oh, castigadora ardência que infinitamente nos dobras, vincas, amarfanhas. Até neste dia de corolas invulgares, a espreitarem-nos de todo o sítio. Ai de nós, insidiosa Primavera.
Regressamos lentamente, olhos de esponja; eu, já a equilibrar tempo e quilómetros. Levo-te a casa, recolho o material e abraço-te com força porque gosto de ti e a gente nunca sabe.  Fica-me a insuficiência de sempre, o tempo que passamos juntas estreita demais, falta. E lanço-te o eterno apelo de um quarto independente com casa de banho privada que ninguém usa, vem a minha casa. Mas não virás. Sei.
Volto na tardinha, a tua mão no retrovisor a acenar-me. Olho-a a pensar nas mãos que me acenaram sem regresso. E fecho o pensamento  porque eu sei que se me concentrar nela, vou ter a certeza de regressar. Ou não. Em força de distracção, olho o jardim público, e aspiro golfadas de crepúsculo a arredar certezas, não vou mais deixá-las entrar. Não posso permitir que o tempo se me adiante.  Dobro uma esquina e desapareces. Vou andando, andando. Perco-me em Reguengos – acho que lhe dei uma volta completa antes de sair, além disso não passei na igreja matriz e devia. Volto a perder-me em Évora. Mas chego a casa. Outro mundo.

Tomo banho. Suor e poeira do dia escorregam em fios múltiplos enquanto arquivo na memória pormenores irrisórios, coisas pequenas e navegantes. Oh, o infinito espaço da memória. Mais tarde, alinhavo algumas ideias, combinámos um escrito sobre. Ainda releio, quem sabe altero, acrescento, elimino. Vou ter cuidados de ponto cruz quando junte tudo para ti. Prometo.
E Obrigada por me receberes em tua casa:).

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Suave e Murmurado

(continuação)
Ontem à noite telefonaste inesperada, que podia ser hoje, podia ir ver-te. Apesar dos protestos, imediatamente te disse que sim e desculpei a tua lonjura de anos e falta de iniciativa, o teu silêncio sem motivo (não ligaste, como prometido, no dia seguinte à minha proposta de visita; encerraste em torre incomunicável, as pontes de voz içadas). Só a ideia de te visitar já me é grata. Verdade. Porém, a falta do sol deslaça-me. Apanhaste pois o imprestável de mim, as minhas vírgulas sem palavras, séries de dois pontos parágrafo na outra linha travessão e nenhuma letra, reticências inúmeras a invadirem-me as certezas diurnas. Enfim, durante a noite sou um acérrimo de pontuação sem o que lhe dá sentido, o discurso. Imagino que, porque me vou calando, ela tenha o seu recreio e ande livre por mim fora. Dos meus dedos soltam-se às vezes pontos em interrogação persistente, tão incómodos como a chuvinha de Maio, e já dei por uma exclamação a entupir-me um ouvido. Portanto, não me ligues no tarde da noite que tenho a criação à solta (quem dera fosse a criatividade) e não sei de mim. Limitei-me, pois,  a uma rasura de solilóquio, amanhã levanto-me cedo e penso no almoço. E adormeci.
Acordei já ligada à tomada. Sem tempo para compras, cingi-me ao que tinha em stoque, esperançada no teu gosto, bacalhau. Mas desejava-nos uma refeição inteira, um bordado com cercadura à volta, diria a minha avó. Portanto, enquanto tratava do peixe – quando era garota o bacalhau ocupava-me uma categoria intermédia entre a carne e o peixe; a minha mãe teve de discursar longamente acerca de variedades de peixe para me convencer -  descasquei as tubras/túberas, fritei-as e mexi-as com ovos. Imaginei um bacalhau em bechamel com batata, espinafres, camarão e cebola; fiz salada, pus um vinho branco e uma seven up  a refrescar, ( tenho de estragar o vinho para bebê-lo). E fiz o bolo mais simples que sei, pão-de-ló baixinho e húmido de que toda a gente gosta. E as horas voaram. Como já te disse atrás, estivemos as duas cirandando pela cozinha (nós). Embrulhei as refeições quentes em jornais, tirei o vinho, a salada e a fruta a arrumei no saco térmico, colhi-te rosas do meu jardim. Carreguei o bolo, a cesta, o saco térmico e as flores para o carro. E fui andando. Contente por irmos almoçar juntas em tua casa, na tua camilha. Esqueci-me de me pentear, mas és como eu, não reparas em pormenores.
Na Primavera, o Alentejo apetece. Chama por nós num canto seráfico dobrado de verde e azul. Fora do cansaço do Verão, a copa dos sobreiros pregada no céu, penteada, a vicejar frescuras que não existem, arredada de manso por uma brisa de algodão, inclina cortesias a quem passa; as árvores primaveris ainda não desgrenharam a sua angústia de sol e a cortiça protege-lhes a palidez confrangida da pele. As cegonhas, ocupadas em ser domésticas, são mães pernaltas, em atenção bicuda a ovos e ninho; quando o verão chegar, a sua silhueta airosa, imóvel, há-de recortar-se no azul, lá bem no alto, a perscrutar horizontes. As cegonhas de pose delicada são as bailarinas do Verão. Hoje, a terra soalheira reverdece. Renasceu, talvez – sejamos infantis, egocêntricas – para nós. A mesma terra que vai gretar à míngua, no rigor do estio, é agora una, compacta, um manto de vegetação rasteira a colar-se-lhe à pele dos grãos ainda castanhos e férteis. O Alentejo, apesar do nome masculino, é fêmea e lembra a Primavera de Botticelli, aquela adolescente grávida, todo o corpo a abrir em flor, que admirei, perdida de mim, na Galeria dos Ofícios. E que a mão humana consiga, antes de 1500, uma tal precisa e preciosa beleza, é espantoso.
Vou cortando a Primavera ao natural, quilómetro a quilómetro, contente da visão remoçada, colinas de cor em pincelada curta. Cada flor, um ponto. Fofo colorido onde apetece rebolar. Penso, se parasse o carro, fosse até lá e me atirasse sem olhar?! Apenas. Mas logo imagino as florinhas esmagadas, ui que dor tão forte, bati com a cabeça numa pedra; ou, corolas rente ao chão, não consigo respirar, tenho a boca cheia de terra; ou ainda, as mais abespinhadas, isto aleija, já tenho um botão escangalhado e partiram-me um braço, ora esta. Desisto, as marcas dos passos e do corpo na colina fariam muito estrago. Sem contar que existem animais que me enojam, lagartos, cobras e outros bichos que se arrastem. Podia atirar-me e eles ali; garanto que não gostaria de os sentir a mexer, incomodados.
A estrada é uma recta infindável, que se acrescenta e acrescenta. Ideal à gratidão dos olhos. Que sorte haver as estações do ano sem quebras, o tempo a fluir. Abençoado Deus ou Propósito de repetir a natureza em continuum. Façam os homens o que façam, ela repete o ciclo. Alheia a dores e alegrias, asperezas ou suavidades. Indiferente aos humanos. Perpetua-se. Somos nós, os seres mais mutáveis do universo conhecido, a desejar a permanência, a constância, a eternidade de que nada sabemos e pode mesmo ser um conceito vazio. Oh, a tragédia de existir a pensar noutra coisa!
Depois, de Évora até Reguengos, nova estrada plana, a perder de vista na linha de horizonte, tão rasa que mais parecemos imergir no azul. E Reguengos, em sua pacatez lírica de província. Um magote de casas na planície, que vai ficando maior e maior, e depois já tem ruas e semáforos e gente. Sigo até à igreja magnificente e com barras, frescura de silêncio onde um dia descansei calores e balbúrdia de alunos. Ladeio-a na pressa que trago de ti. Bom, também do nosso almoço. Breve me surge a placa, S. Pedro do Corval. Sigo o último trilho. Já na aldeia, paro numa olaria e confirmo o endereço. Todos te conhecem.

Enfim, chego. Ainda encosto o carro e já tu, no de sempre, assomas ao quintal. Alentejanamente. E upaaaa! Um abraço sem roda. Não há coisa mais bonita. Não há.

sábado, 3 de maio de 2014

Suave e Murmurado

Lembras-te? Foi há mais de quarenta anos e Évora parece ainda tão próxima. As muralhas, o jardim frente à Rodoviária e onde não passeámos, as ruas de paralelos difíceis, que tanto custavam a subir. Solitárias, íamos da antiga estação de camionagem até à outra ponta da cidade, ajoujadas sob a mala carregada de sucata, coração num susto de saudade. E a praça do Giraldo que não tinha fim, arcos sobre arcos, nós a marcar paragens em solilóquio, aguento até ali sem descansar, e agora tem de ser até ali. E os arcos inesgotáveis, em catadupa de pesadelo; nós desesperadas, a suster a vontade de abrir a mala e atirar fora metade do conteúdo que todo nos era necessário. Nessas noites de domingo, tardava-nos o longitudinal da rua onde vivíamos e que, mal lhe púnhamos o pé, se mudava em desesperante elástico; até hoje, e acredita que já andei bastante, nenhuma rua se me encompridou assim. Lá bem ao fundo, frente ao Jardim das Canas, e junto a uma das portas da cidade, alvejava o Convento Novo, destino de mole compacta e bruta, cortada pelo grotesco breve de janelas gradeadas rasando o tecto.
Por vezes, a porteira, menina Bia de sua graça, descia à rua e ajudava a carregar as malas escada acima até à soleira da portinha pequena, entreaberta na enormidade da porta principal que só ressuscitava ao domingo para a missa das onze ou por visita importante. Depois, tomava balanço e levava-as claustros fora, até à escada para o primeiro andar, “dizem que, depois da meia-noite, a irmã morta aparece aqui no primeiro patamar”. Não era verdade. Uma vez faltou a luz e eu estudava ainda no nosso quartinho junto à clausura. Tinha um ponto de Psicologia e gostava – toda a gente – do Serpa Branco a quem tratávamos carinhosamente por, “o Serpinha”. E resolvi descer a escada na hipótese de poder estudar ao luar, no claustro. Já passava da meia-noite e não encontrei um mero suspiro, uma luzinha a alumiar o imponente tenebroso da escadaria. Nada. Tão pouco consegui ler à luz da lua.
 Na Casa Pia éramos quatro aspirantes a professoras. Mas foi contigo que mais sintonizei. Ainda sintonizo. Não tínhamos história semelhante, mas éramos similares na nudez da pobreza. Quem não lhe vestiu o ser não nos entende; nem compreende a nossa estranha aliança. Toda a gente era pobre nesse tempo? Falso. A pobreza toma-nos, não há modo de apagá-la. É um sistema de vida, e tudo que se ganha e transforma é lenha insuficiente para consumi-lo. Transpor uma condição social. Se acontece, fica-nos o estigma às ferroadas na alma. A condicionar escolhas e momentos de escolher. Não. Os pobres nunca foram mais livres. Quem é subordinado à obediência por criação pode até revoltar-se, mas continua a obedecer. Quem sabe se não descendemos as duas desses escravos que assolaram Portugal depois dos descobrimentos. Ou dos servos da gleba que se vendiam adstritos à terra, propriedade de outros homens. Até o orgulho é em nós uma revolta a desfavor.
Contudo, hoje, nós umas matronas. Falta-nos a magreza ágil de animal alentejano comido de gorduras, só alimentado a sonho de futuro ainda sem idade. Mas conservámos alma e olhos de infinito. E que o tempo tarde a engolir tais benesses! Lembro a nitidez recortada do teu perfil moreno, o jeito de levantares a cabeça se nos olhavas; a tua boca de Amália onde um pincel de mestre se deitou a desenhar o lábio superior, lábio inferior cheio e ligeiramente amassado no centro; os olhos de planície entre a tristeza natural e a subtileza irónica; o nariz grego a fazer pendant com a linha estreita do queixo; a discrição do rabo-de-cavalo que amarravas na nuca. Quase não tenho memória do teu cabelo solto, talvez na bênção das pastas. Seguramente, na fotografia que me deste e guardo num álbum. Assentavam-te esbeltas blusas escuras de gola alta e jamais te vi pintada ou enfeitada garridamente. E, sobre todas as coisas, a tua voz. Reinando. Diurna. A arrastar-se em requebros maviosos de Alentejo profundo.  
E podes até já nem ser esta, mas é ela que eu procuro e encontro. E é assim que te vejo sempre e me existes. Foi contigo que estive três voadoras horas ao fogão. A querer levar-me. Amizade. É só o que vou contar.

(continua)

sábado, 26 de abril de 2014

A Liberdade Passou Por Aqui

Hoje, acordei para ti. Hoje és a minha liberdade livre, o meu reencontro com alguém de mim que dorme tempo demais. Hoje sou o cesto vazio que vais encher de flores pelo dia. Pegas nos meus gestos pelo caule, delicadeza que me estremece; e sei que há-de haver um momento em que a tua voz modula umas notas só para mim e o corpo ondulado do som cheira a acenos de malmequer. Mas hoje somos mais. Talvez. Eu mais quieta e extasiada do que sempre, tu no piano, ouve esta. As minhas mãos paradas no tricot e o que deve ser um eu escondido, a ajoelhar em gratidão pura. Tão bonito o teu canto do século XIX! Tão bonita a voz em difíceis torneados de mobília, a espraiar queixas de romantismos funestos, estranguladas tristezas de amor, súbitas decisões de eternidade... nesse infinito momento, perdemos o pé da realidade e habitamos a originária perfeição do tempo, sem onde ou como.
Quem sabe, errámos o século de nascer.
Depois, pões o canto de Pedro na Paixão, arrependimento que me fascina doentiamente; e descobres que sintonizamos naquele tenor espanhol, Carlos Mena, que afinal coleccionas. Há qualquer tragédia no híbrido da voz que toda me move por dentro, uma amplidão de sentimento condensado a atravessar-me como lança. E desamparo sem densidade, vaga de mim.
 Então,  a tua elegância nota - como se o não notasse - o meu estar de precipício e traz outro gosto nosso: António Zambujo e a sua mescla particular na dolência alentejana, uma espécie de desejo triste e quente que lhe cresce e fica a pairar no vagar das sílabas. Deixamo-nos ir no calor parado da planície, sereno fatalismo da solidão. Enfim, recomeçamos. Quotidianas e diurnas, que o tempo comum nos foge e cada encontro é breve fósforo de alegria.

O que eu gosto de tu haveres, Luisinha!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Dia do Pai

(continuação)
É claro que, por gosto e vaidade, lhe prolonguei a atrapalhação a repetir, gosto muito de si, pai; e um simultâneo beijo na bochecha. Os olhos da vizinha a estranharem-me num fundo de rugas, de onde saiu esta alma. Abri a porta do carro. Ela, vou de abalada. E zarpou. A outra vizinha, minha distinta tia, foi-se eternizando como quem não quer nada, um olhinho a seguir-me os movimentos e depois, enquanto eu entrava e saía, ziguezagueou, bem devagar, até casa. Uma discreta pessoa.
Carreguei tudo até à cozinha e fui tentar abrir as janelas da sala. Ora, o meu progenitor tem vocação de morcego e vive semicerrado ou em escuridão alumiada por filamentos eléctricos que em regra não funcionam, posto o que o Menino Jesus, garoto simpático e assisado, lhe deu um candeeiro de pé (e lhe sou grata para todo o sempre, deixei de tricotar a tacto). Portanto, entre o cortinado e a janela, havia uma rede de teias de aranha que antecipou o resto da função. Depois, dedos de esforço na ferrugem, consegui abrir as duas janelas e logo entendi que nenhuma das visitas ia chegar tarde. Podiam reunir, atrasar o expediente, sair e ir dar um passeio: chegariam sempre antes de eu terminar.
O meu pai à claridade, no meio da sala, a medir o descalabro e a desculpar-se armado no tio Patinhas que é, podia mandar cá vir a rapariga, mas depois quando o teu irmão chegar está outra vez tudo sujo. Eu a encher um alguidar de água com detergente, ó paiiii!…O pai mora aqui, não pode limpar para o meu irmão, tem de limpar para si. Mergulhei um pano e passei pelo sofá. Olhei: preto retinto. O meu pai, convencido de que eu era mulher para o que havia a fazer, foi para a rua do monte, na maior. Impante. Suponho que, na sua idade, um filho a limpar-lhe a casa seja o máximo. Resmas de amor filial. Comecei a arrepender-me da limpeza. Mas pensei no lanche. E Portanto. Continuei. O pó da lareira e o outro tinham obra acabada. Entrou-me uma filoxera e lavei tudo, até as fotografias dos inglesinhos.
Nos evangelhos, depois de muito instado, sempre a fazer-se difícil, Cristo mudou a água em vinho. Eu, em café; sem outra instância que os meus braços e mãos e a vontade de que nos sentássemos a uma mesa limpa. Porém, um deus faz a diferença: o meu resultado cingia-se à cor e limitava-se a escorrer pelo valado da frente num rego escuro que deixava um fundo preto nos baldes e alguidares a esvaziar. Má ideia, ter esquecido as luvas de latex.
Entretanto, a minha tia terá vindo espreitar a barrela – não dei por nada – e começou a ajudar resmungando com o irmão, que…que…que. Desconversei em silêncio desapetecido. Como não parasse, ó tia, agora não vale a pena, temos é de limpar isto tudo para lancharmos. E notei que ficou contente de a incluir no grupo. Espreitei a rua. O meu radiante pai estava fazendo nada, inchado de orgulho, tonto e antiquado: inflava, a empatar conversa com o vizinho do lado, como se o que se passa em casa não importe, mas no desejo de que o outro saiba que está a passar-se. Um disfarçadão. Pus a cabeça fora da janela e, ó pai, vá lá apanhar as laranjas para o sumo, se faz favor. 
Sobre a máquina de costura de minha mãe, as nossas fotos no casamento do meu irmão. Lindas. É que não tenho memória de ser aquela pessoa. Mas, de cada vez que entro na sala, fico grata a meu pai; quem chegue e não me conheça, julga-me uma estampa. Pareço uma senhora fina. Ainda hoje não sei como me arranjei, deve ter sido o ar de Inglaterra, levei o vestido a mais dois casamentos e não consegui o mesmo aspecto. De toda a maneira, vale. Não me canso de repetir, pai nunca tire daqui estas fotos, ouviu? Pronto, é verdade que o meu irmão casou num dia de Maio soalheiro e que os ingleses iam todos em tons pastel ou primaveris. E nós três de preto. Aí valentes! Da cabeça aos pés. Parecíamos as viúvas da Nazaré. Mas em bonito. Uma espécie de corvos sorridentes e sem pio. Consigo achar-me mais extraordinária naquelas fotos que na do meu próprio casamento que ombreia com elas - eu e o meu pai estamos a sair de casa, de braço dado -; de branco vestida e bastante aceitável para quem não foi à cabeleireira, não se pintou, se esqueceu das luvas e do saiote de baixo. Agarrei uma das fotos e comentei para a minha tia, estávamos tão bonitinhas, não estávamos tia? A minha tia a olhar-se, ai, doíam-me tanto os pés! – afinando a pontaria dos olhos - até se vê aqui, tenho os pés inchados, olha lá para isto – garanto que não se nota - . A minha Natinha é que me emprestou esta mala tão bonita. Olhei a mala, uma assombrosa pega dourada em forma de coração a destacar. Coloquei a foto junto às outras e, Vou acabar de lavar o chão e ver dos talheres e dos pratos; e a tia vai descansar um bocadinho que já não tem idade para isto.
Entretanto, o meu pai pousou um balde de laranjas na cozinha e pedi ao único marido da família – o meu - que fosse buscar a minha irmã na saída do emprego. Depois, tomei embalagem na esfregona e passei da sala ao corredor e à entrada exterior.
Depois a minha irmã fez o sumo enquanto eu ultimava limpezas de pormenor. Foi um agrado olhar a mesa já pronta. Chegou a mana da reunião e lanchámos. Gostei que a minha tia e o meu pai se sentassem  à cabeceira. Comemos e rimo-nos como fazemos sempre que nos juntamos. E o meu pai, muito loquaz, falou de gente que nunca conhecemos e dos tempos em que tinha nove anos e veio sozinho trabalhar numa casa de bicicletas que pertencia a um primo.
Quando as travessas quase vazias e a ninguém apetecia mais bolo eu disse muito depressa: desculpem mas tenho que me ir deitar, encostar as costas nas almofadas, já não aguento mais. Rapidamente a sala voltou a ser ela, a cal das paredes num suspiro liberto, "ainda bem, estávamos numa ansiedade tal que ainda ficávamos verdes". E as cadeiras a gemer preguiças, "estou cansadíssima, caiu-me um peso em cima e o corpo não está habituado a esta vida". No centro da parede, o pesar do relógio repassava-nos: a pureza da memória ainda a retinir cristais e o pêndulo, qual olho cego, colado à brancura do mostrador por onde o inerte dos ponteiros nos esgarçava o passado. Despedimo-nos em harmonia, a minha tia no meio do escuro a acenar para o carro, então quando é que vens outra vez?

Fiz a viagem com a minha irmã mais nova, contámos peripécias, viemos rindo o caminho inteiro. Porém, quando aterrei na cama, amálgama de gente,  soçobrei em cima das almofadas. Em satisfeito e constipado cansaço. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Nós e a Cidade II

Por dificuldade em andar no escuro, no cinema cumpro o horário. Se entro tarde, insiste-me fulgurante a ideia de quão bom seria que alguém me levasse, pela mão, ao lugar. Como nenhuma mão se me apresta, levanto muito as pernas e os pés, a imaginar degraus em todo o lado e a desconfiar das fiadas de lâmpadas no solo; olho-as com cuidado para as não pisar, no receio de vidro fino a partir e descargas de impiedosos filamentos  que me abocanhem os pés. Depois, a ideia de incomodar pessoas já sentadas, é-me funesta. Ora, naquele lusco-fusco, as letras que assinalam as filas e os números dos lugares emigram ou tornam-se indistinguíveis. Tudo razões mais que suficientes para entrar com luz. Ou seja, com aquela média luz que não chega a ser. Não basta o ar de catacumbas de que ora sofrem os cinemas, nem quando o filme intervala, começa ou acaba, a luminosidade é decente. Quase parece que, em vez de ir assistir a um filme, estamos prestes a envolver-nos numa actividade subversiva. E depois querem clientela! Tanto ouvi falar de se namorar na última fila… e agora é um deserto. E sobre este despovoamento se poderiam escrever livros compridos. Mas não tive a felicidade de frequentar a última fila, portanto…
Entrámos um quarto de hora mais cedo para ver “12 anos escravo”. Por saturação de saldos e cansaço de corpo e mente. Tínhamos tempo e escolhemos o lugar com requinte: mais atrás do que à frente e mais ou menos a meio da sala. Mal nos sentámos, os nossos pés em coro, muito obrigado. E bem ouvi o meu esqueleto a aliviar num suspiro, ufa! 
Entretanto, desceu-nos uma paz feita de penumbra e cheiro a mofo acompanhada de música ambiente. Procurei os óculos e lancei-os ao lugar a fim de evitar mais episódios - umas vezes não os levo e não consigo ler as legendas; outras, engano-me e tenho de ver o filme de óculos de sol; algumas, não utilizo os óculos 3D; e uma vez soltou-se uma haste –  culpa do parafuso que se desenfiou - e levei o tempo a levar a mão à haste que não havia e apanhar os óculos do chão. 
Ambas tínhamos visto a apresentação do filme na TV e, ainda a fita dava os primeiros passos, avisámo-nos mutuamente de que algumas cenas eram fortes. Logo de seguida, deixei de ter amiga e fiquei sozinha num frente a frente com  o filme (suponho que à minha amiga tenha sucedido o mesmo). Pela minha parte, desatei a sofrer desalmadamente que é a única forma que sei de reagir – reagir, pois, é puramente animal – ao sofrimento injusto. Um negro que é livre e ainda assim o raptam e fazem escravo. À mercê de todos e de qualquer um. Quanto vale a vida humana sendo escrava? Nada. Quanto vale a força e o poder branco sobre um homem justo mas negro? Tudo. No entanto, ia preparada para essa relação desigual senhor-escravo, para o preconceito que se baseia na diferença de cor. Mas a vida não me apetrechou para as brechas que o filme abre, as secções que cria, as grades da alma humana que mostra. Fugi a escrevê-lo porque me ficou em amálgama e me obriga a voltar e isolar do meio da trama esses sinais de naufrágio. Mas tenho de o fazer: pôr etiquetas, catalogar. Que, mais além, não consigo.
Curiosamente, as personagens que me retalharam foram desempenhadas por Lupita Nyong’o e Michael Fassbender. Ou, a escrava negra por quem Fassebender – um dono de plantação prepotente e esclavagista - nutre estranha e alucinada paixão. E o que é para muitos a história de um negro livre raptado e feito escravo durante 12 anos, foi para mim a história das mulheres do mesmo tempo e de outros, num mundo de poder. Masculino. Onde não contam. Ou onde, por inadvertidamente contarem demais, descontam. É o que acontece à personagem de Lupita. A jovem escrava nasce para nós dentro da plantação. Adolescente ímpar. A melhor apanhadora de algodão, a superar os homens. Sofre os efeitos da paixão desenfreada do patrão, casado com uma menina branca. Paixão patética, absurda, contra ele mesmo e a sua moral racista. E por isso gostei de Michael Fassebender. Porque soube imprimir ao seu master não só a selvajaria sem escrúpulos da época como a raiva contra si mesmo, o ardor viral de uma paixão apodrecida de desejos de presença e domínio, que não suporta as breves ausências da escrava, que exige vê-la sempre, escravizado ele pela posse de um "objecto" que em tudo(?) lhe pertence e não consegue capturar. Simultaneamente, sentimos no fazendeiro uma espécie de asco de si mesmo que se descontrola na presença da garota e como que se vinga nela de si; que bebe à exaustão porque o álcool tem seus poderes sobre a memória e ajuda a embrutecer. 
Desacredito que volte a este filme. Vai arder-me até que o tempo, que tudo apaga, me consuma. É verdade, o poder baseado na força e na instituição do preconceito faz-se desmesura e catástrofe. E a escrava era uma semi criança a desmaiar no sexo furioso que a violava, que era chicoteada sem dó pelo fazendeiro enfeitiçado (com uma predilecção-tara por meninas púberes), que sofria dele o que a ele pertencia e também o que era nele o ciúme da patroa. E queria morrer. Assim, natural como a sede ou a fome. A morte também é libertação. 
Quase no final do filme, quando, enfim, o amigo é reconhecido como homem livre, é a imagem dela a correr atrás da carroça que nos atinge. A imagem desesperada de quem perde para nunca o seu esteio. E a mim me pareceu que ali estavam, rojadas e impotentes, todas as mulheres. 

O filme termina com um regresso do ex escravo à família de origem, uma recepção calorosa; antevemos mesmo o futuro de luta daquele resistente a quem só a morte há-de imobilizar. Mas o que nos enche a alma é a lancinante perda, gritada, rouca, atrás do rodado do carro. E  o vazio apossa-se da paisagem e toma-nos por inteiro.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Nós e a Cidade I

As minhas fantasias são quereres simples. Ir a lugares com amigos, por exemplo. Viajar com eles. Corrijo, é mais com elas. E a quem retorquir, ah, mas isso não é uma fantasia, é um facto normalíssimo. Pois aí é que está, digo eu, não é. É um desejo que tem a aura da inconcretude, o que lhe outorga e mantém o fantástico. De pleno direito.
Existe uma série na TV que desgosto mas invejo. Abalizo-me a tais conclusões porque já vi uns dois ou três episódios e um filme sobre. E aquelas meninas-bem, armadas ao pingarelho e a fingir que são pessoas normais e medianas, sempre me bolem com seus probleminhas inóquos e mirabolantes preocupações de sexo que compartilham na boa. “O Sexo e a cidade” é uma série americana que se vê bem se estamos cheios de dor de cabeça, aborrecidos da vida e não nos apetece pensar. Olhamos e, a um clique, dos antípodas do nosso quotidiano, surgem as quatro vamps, qual delas a melhor, e mais a sua vida de caca; e é engraçado, chegamos a sorrir. Foi assim que passei os dois ou três episódios. E mesmo o filme. Contudo, as quatro eméritas têm uma coisa que invejo: saem juntas, almoçam, fazem compras, têm dias santos na semana, para reunir. Isto, digamos, alimenta-me a fantasia.
Não desisto de fantasiar. Todos os anos faço umas propostas de férias ou dias a passar em qualquer lado à amiga que me parece mais livre e próxima dos meus anseios. Puro engano! Até hoje, consegui que nos encontrássemos – na vida - umas cinco vezes fora de portas. O que, face ao tudo em família das outras, é uma enormidade de tempo. Nunca tínhamos ido ao cinema. Pensei no “12 anos escravo”. Marcámos hora, conferi tudo e lá fomos as duas depois de almoço para um Centro Comercial muito a armar, cheio de marcas, cheiros e pessoas que, por auto comparação, semelham marcianos.
Chegámos cedo e, depois do bilhete, sobreveio-nos a canseira da carestia nos saldos; a sensação de ser inútil o tempo que ali gastávamos, a nossa bolsa um gemido, não alcanço nem que me estique toda. Das minhas entranhas subia uma zanga surda-muda e acho que pus olhado a dois ou três casacos, fuzilei umas quantas blusas e derreti uma lingerie estapafúrdia que nem percebi para que serve (a bem dizer só a considero na sua utilidade mais evidente, que a qual a tal peça não devia ter, ou eu tapadinha de todo).
Antes que houvesse uma explosão, saímos e enfiámos noutra loja  - em saldo, pois. Ia-me dando uma coisinha má. Piorei. Mas a ritmo diverso. Saímos da classe média alta para um mergulho na média baixa. E logo eu, em vez de roupa, começo a ver dedinhos de criança a coser bolas de futebol, cortar peças, tricotar casacos e blusas a desoras, pregar fechos em calças – das coisas mais execráveis que existem na costura - dias sem noite, famílias inteiras à costura, a cumprir prazos por pagamentos de miséria. Que não é ordenado aquela exploração. Havia peças por todo o lado, entre 5 e 20 euros; caídas pelo chão, a escalavrar sobre cabides, atravessadas na rima de casacos, num aperto a amontoar em crescendo, em posições de dar dó, que se via mesmo que estavam perdidas da família. Quase me deitei a arrumar – ainda ajeitei algumas – enquanto supunha as coisas lindas submersas, a adivinhar-lhes a transpiração abafada.
Havia mulheres em todo o lugar, agarradas a peças ou a desprezar umas e agarrar outras sem quê, para se enfiarem no vestiário, saírem e recomeçar tudo de novo. Decidi-me pela companhia aos vestidos de alças que, fora da orgia consumista, dormitavam nos cabides. E fiquei ali a festejar-lhes rendas e leveza, descorajosa de os retirar da cama, quem sabe não me desciam, se agarravam aterrados ao meu pescoço, onde é que eu estou. Sem lhes precipitar o sono, saímos devagar e fomos – pensávamos nós - descansar o espírito para o cinema.

 É doentio assistir a isto. De saldos.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

As Horas do Natal

Primeiro foi uma noite em que adormeci a desoras, um comprimido a entrecortar com rangidos inquietos de vida a esgarnar a contragosto. E o corpo a deslembrar. As mãos, se calha, já nem as tinha (para onde emigra o corpo se dormimos, que deixa de pesar-nos), havia um ligeiro de pés no fundo muito ao fundo, de certeza a léguas de mim, o pescoço na almofada de mau estar, e mais nada. Imerso num certo torpor, o meu pensamento insistia naquele som cavo a tracejado, “tão doloroso, parece um tecido a rasgar contra vontade; deve ser impressão minha, melhor dormir”. E, no que me pareceu o momento seguinte, os comprimidos são assim, engolem a noite num ai, logo a vida impôs o seu estar matinal: agreste; a luz a atravessar-nos qual lâmpada progressiva, pessoas estremunhadas a ganhar velocidade e a recuperarem-se. Eu, contente de mim inteira, a verificar-me no global, ah, está cá tudo, as mãos, as pernas, o tronco. Da janela, a estrada ganhava acelerações de véspera de Natal, compradores de última hora em busca de presentes retardatários e pormenores em falta na ceia. Entretanto, o ramo tombou quase em silêncio, num amortecido de insuspeito desgosto. Na árvore, a chuva escorria ao longo do rasgão de nudez clara. E havia uma mole de verdura vicejante caída sem arte sobre a rua, a impedir-me o carro. E a chuva. E o vento. A árvore órfã de si, desatenta da ferida intestina e sem curativo, em cuidados com a pernada, e agora? Mas o ramo inerte, trambolho ainda em uso de cordão umbelical. A precisar ser retirado do caminho. A minha estupefacção quando, “mãe anda aqui ver uma coisa”, e o volume de metade da árvore no chão. E fizeram-me sentido os gemidos nocturnos.
            Depois veio o tempo dos doces em ponto, dos bolos fofos, das tartes vistosas e de apetite. Chegou a tarde. E, a mesa dos doces, repleta e esquecida, deu lugar a tempero de carnes e tratamentos de bacalhau e entradas. Horas de fogão. Ele exausto de calor e combustão, zonzo de aromas e sabores, enfadado de pingas, quando é que isto acaba. E a chuva lá fora. Pertinaz. Impeditiva. Eu ao fogão com a memória, as visitas sem chegar, à espera de uma aberta no temporal. Um aviso a minha mãe, cuidado não escorregue, o chão da cozinha está húmido; vá, sente-se aqui neste banquinho alto a fazer-me companhia,  converse um bocadinho comigo. E ela sentou-se de frente para a prateleira onde tenho o livro das receitas e, num suspiro desvanecido, ainda o tens. E eu só um sorriso para essa data presente. E rematou, não cheguei a escrever nada, filha. Eu concentrada, a acertar o lume da cabidela, pois foi, mãe, mas as duas o sabíamos; quando lho dei a mãe, fica para ti, filha; se a mãe puder, começa-o; passa-te uma receita ou duas - virei-me para ela -. E as duas sabíamos que isso não podia haver. A minha mãe meia triste, não te ensinei a cozinhar…Abracei-a, o mais difícil não foi isso, mãe. E ela numa fundura de olhos, eu sei filha, sei tudo.
E ficámos por ali conversando. De vez em quando, os amores perfeitos amarelos, fustigados por vento e chuva, temos a cabeça feita em água, estamos aqui estamos a desistir da floreira e partimos para destino incerto. E eu com a colher de pau na mão, não, não; não me façam isso, vocês são a minha alegria de subir a persiana. A minha mãe atrás de mim a repará-los, sais à tua avó, o que ela gostava de flores.
E quando a família chegou a minha mãe, vou ali. E ficou um cheirinho de violetas.
Então, eu para o fogão: pronto, acabámos; estás um bocadinho velhote, meio entupido, mas não te portaste mal de todo. –  desapertando o nó do avental -  Não te chateio mais.
E fui para a sala ser dona de casa e participar da consoada.
Tarde da noite, recebi um livrito de Herberto Helder porque os filhos me sabem mais ou menos. E ficámos os três à lareira, a falar de nada, até ser tão tarde que a dor de cabeça me insistiu e quebrou. Contudo, o pequeno almoço apanhou ainda a noite escura. Matutina, fui ler a Visão da semana passada de que o tricot me desviara. E alegrou-me que Lobo Antunes uma entrevista tão bonita como só ele.
Que me deu algum alento nesta escuridão de natal. Quando um escritor pensa como nós, não sei porquê, mas isso faz-nos sentir melhor. Vou guardá-la como a outras. Mesmo que daqui a uns anos não saiba onde. Ou já depois de amanhã.
Permito-me alguns reparos seus que só são seus porque ele os disse; eu e talvez tantos outros, comungamos-lhe o pensamento:
A gente escreve para gostarem de nós.
A amizade é como o amor, a gente encontra uma pessoa e fica amigo de infância.
A amizade que mais prezo nele, a de Cardoso Pires:
Cardoso Pires : “eu sei que sendo Pires não posso ser bom escritor mas tu és e gosto muito de ti.”
António Lobo Antunes: E foi assim que ficámos amigos de infância. É assim: instantâneo e absoluto como o amor. (…) o amor é tanto, que a gente fica sufocada de paixão e nem pensa em sexo, ficamos a olhar apenas, só o privilégio de poder estar a olhar…e existe aquela sensação de que se tocar vou estragar, porque posso fazer ali uma nódoa, um amolgão, qualquer coisa…Ultimamente acho que é uma honra tão grande estar vivo…E um acaso.

E é mesmo um feliz acaso estar vivo. Uma honra.

domingo, 5 de maio de 2013

Mães e Filhas


Hoje é Dia da Mãe e, supostamente crescida, sou isso também. Quotidiana, uso perto a foto em que uma ternura inomeada me abraça. Se a olho, – tanta vez a olho – sempre as palavras de Eugénio a corporizar desvelos de amor “como se tivesse medo que tropeçasses numa gota de água”; e agradeço a coincidência do sentir com o ser, naquele gesto fixado por feliz objetiva. Próximo, em fraterna amizade, um poema escrito na primária, que me é presença embevecida. Anjos a cuidar-me a existência. Que leio e contemplo se azedo com a vida, se ela me surpreende em negativos desinteressantes, se indeciso ou me engano a escolher, o mundo em escuridão no pleno do dia.
Contudo, mais me lembro hoje de ser filha. O coração dispõe-te mansamente ao alcance da saudade. Dentro dela. Não já a saudade ingente dos primeiros anos. Não aquela quase impossibilidade de vida. Não a mordaça de tristeza que desatava as lágrimas. O Tempo retirou espinhos; primeiro os mais agudos e depois, pouco a pouco, limpou a haste em que vicejas. E hoje, pego-te em confiança. Sem sangue. E retomo o hábito antigo de escrever-te. Não, mãe. Já não escondo as cartas na tua mala. A tua mala. Com o teu cheiro meio doce, os teus papéis, a marca dos teus dedos, pássaros aflitos a segurá-la. Que, imagino, estará ainda guardada no guarda-vestidos vazio do tudo que era teu. Onde continuam, fechadas, as minhas cartas. O pai conservou anos o teu vestido das cornucópias, eu a abrir a porta e mergulhar os dedos no macio. E imagino que lhe tenha sido companhia. Mas um dia abri o guarda-vestidos e só a mala. E não se descreve o desânimo incrédulo da minha mão no puxador, os dedos todos, e agora? Corri a perguntar à tia e ela, o teu pai não o queria, deu-mo, mas não fui capaz de o vestir. Dei-o a uma mulher que não era daqui, não aguento ver alguém com ele. Rodopiou e  foi à sua vida. Fiquei em silêncio. Ofendida. Sabia-me a traição e desamor que nem a pergunta, queres?
Tínhamos comprado o tecido juntas, ido as duas à primeira prova. Uma costureira jovem e solteira agachada a marcar-te a bainha com uma almofada de alfinetes no braço, um relógio que em vez de ponteiros um feixe de lanças enchapeladas, todas muito finas e senhoras do seu ângulo, os alfinetes a empertigar, olá como estão. Entretanto, as unhas ovaladas e compridas, gotas de sangue a rodar-te as pernas, num sorriso agradado, esta senhora tem um espírito tão jovem que me deixa admirada, é tão diferente das outras senhoras. E eu a inchar de orgulho. Mais tarde, na vila, escolhi e comprei os botões e fui entregá-los na costureira. E um dia fui de bicicleta buscar-te o vestido e pagar o feitio. E ficaste linda dentro dele.
Mas as gentes pensam apagar as pessoas fazendo desaparecer tudo delas. Queimam. Dão. Vendem.
Não ficou nada, Mãe. Só tu. Mesmo.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Primeiro de Maio


Em 1975 tive o privilégio de gozar o meu Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador, sabendo o concreto do seu significado. Houvera já um, imediatamente a seguir ao Dia Um da Nossa Liberdade, o  25 de Abril de 1974. Nesse tempo, interna numa instituição religiosa – não, não era um colégio –, pouco soube do que se passou nas ruas. A instituição funcionava num antigo convento, paredes com mais de meio metro de espessura que o ruído não atravessava, janelas muito altas e com grades. E a vida lá dentro era desligada de exterioridades políticas, sociais ou de outra natureza. Suponho que a origem do edifício e as ressonâncias do desprendido de mundo a que se votavam as monjas de outrora, inspirassem o nosso lidar intramuros. Então, eu frequentava o Magistério Primário. Mas, ao passar o descomunal pesadíssimo da porta – se, de serviço à portaria, custava-me empurrá-la -, enquanto atravessava a largueza da portaria, o meu eu atrofiava em frio e silêncio. E breve fenecia. No primeiro claustro, já eu replantada, o relógio certo com o novo meridiano. Outra. Ali, existiam “as meninas”, a que pertencia; e “as irmãs”, uma delas minha colega na turma e meu algoz em casa. Não se pense que era uma sofredora. Não. Desapercebida daquela espécie de inveja que me votava, convivemos normalmente e só há alguns anos soube das suas infundadas represálias.
Regra maestra da instituição: As meninas obedeciam; as irmãs ordenavam. E todas as horas eram cheias de tarefas, o ócio grego banido. A minha memória desse Primeiro de Maio é uma foto.
 As meninas só viam TV às tardes de fim-de-semana; ainda assim, se nos filmes acontecia um beijo, logo a irmã directora se apressava a levantar, atravessada na imagem, as garotas todas, oh!!! Pelo que, deixei de ir à sala da televisão. Como boa trabalhadora, terei passado esse provável dia em estudo e preparação do estágio.
Ora, no dia seguinte, fui à papelaria a compras e fiquei uns dez minutos embasbacada frente à montra lateral, numa foto do melhor fotógrafo da cidade. Havia uma profusão delas. Cirandei os olhos, mas aquela, em tamanho natural, era um extraordinário retrato a preto e branco. Representava um soldado com a farda de honra, completamente descomposto pela bebedeira. Estava todo entornado no papel, a arma de lado, também torta. Um cravo, enfiado no cano da arma, baloiçava na haste partida, cabeça para baixo,  súplica vermelha, quase afónica, tirem-me daqui que o sangue me sobe à cabeça. O rosto do soldado, imune a pedidos de cravos, fitava-nos desconjuntado, expressão de boçalidade etílica, a camisa fora das calças, botas sujas, um atacador a arrastar. Enchia a montra. Fiquei ali. A olhá-lo. Coração apertado. Em espanto e pena. A cogitar se ele saberia que o momento tinha sido fixado por uma objectiva e se encontrava exposto ao juízo da cidade. Intimamente, a avaliar se teria o fotógrafo o direito de fazer o que fez. Depois, um casal que parou também a olhar, viu-a de outro ângulo, o da liberdade de expressão, do aligeirar das normas, “se fosse antes do dia 25 de Abril este fulano já estava preso de certeza, ou nem teria tal atitude”. A foto tinha a data de 1 de Maio de 1974. Admito, a minha alma de clausura ficou indecisa sobre os efeitos da liberdade.
                Mas, em 75 eu gozava já de um estatuto diferente. Tacteava uma amizade que até hoje conservo, ainda que não com o mesmo ardor e intimidade, e com ela percorria ruas e praças. Na cidade, que se espreguiçava ao sol, todo o comércio encerrado. E as pessoas enchiam as ruas, a transbordar o calor que tinham dentro. Cumprimentavam-se. Desconhecidos, davam-se pequenos nadas. Em todas as praças, as canções, ditas “de intervenção”, sobrevoavam conversas de grupo e esgueiravam-se por ruas estreitas a entrar nas casas de janelas abertas e mesas postas para quem.
Muitos jovens, sentados em cacho nas escadas, rescendiam alegria e liberdade. Eles, barba e guitarra; elas, saias ciganas e longos cabelos. Todos com ar marítimo. Como se fossem búzios, conchas, cavalos-marinhos deixados em montículo na areia. Passeei a cidade inteira contente do ambiente, a invejar os rapazes e raparigas que nos degraus das igrejas estavam à conversa, como se mais nada houvera; pensei no que lhes daria essa aura descontraída de serem si mesmos e no dia livre que vivíamos todos. Ou se só a meus olhos eram assim. E ainda, se eu própria teria em quem passava o mesmo jeito de regato a ser tempo apaziguado. E nunca soube. Desconhecemos quem os outros vêem,  não sabemos quem parecemos. Com algum esforço, saberemos um pouco de quem somos. Tenho a certeza que, se me encontrasse na rua, desconhecia-me.
                E hoje, o Primeiro de Maio é nada do que foi. Que é triste o meu povo e tristes são as ruas do nosso desvelo. Desistimos do coração de Abril, deixámos talvez de treiná-lo. E está exangue. Que vândalos vilipendiaram Abril? Em que corpo de mentira ajustámos as dobras da verdade e a amarrámos?!
É urgente re-habitar Abril.