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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As Mulheres que Eu Conheço


E se é necessário poupar? Bom, aí, ela passa no supermercado com a obediente lista de géneros e preços, a tentar abrir  folga no orçamento.  Ele concede, deixa de almoçar no restaurante, ela cozinha e prepara-lhe a marmita do almoço – diferente do jantar por ser aborrecido ele estar sempre às sobras. Em época de poupança, se existe,  corta-se nas horas da empregada e ela “dá um jeito” para que tudo continue a rolar como antes; acabam-se as esporádicas refeições em restaurante, ela cozinha sempre; ela corta no vestuário – no dela que tem muito que vestir, os garotos estão a crescer e ele precisa estar bem trajado, o fato sem brilho. O marido dela é um senhor. Ela arca com todos os trabalhos e limpezas antes que ele goze férias porque um ano inteiro de trabalho é coisa cansativa para ele.
Em épocas de aperto, não há férias para ninguém. Mas, enquanto ele lamenta ficar por casa, a ela tanto se lhe dá. Evita rumar a lugar diverso e, numa casa que não é sua e onde algum utensílio indispensável está em falta, fazer o de sempre: passar, lavar, providenciar as refeições. E tudo isto acrescido do fazer e desfazer  das malas, de acautelar a rega das flores e alimentação dos animais deixados para trás, de ambas as casas ficarem em ordem. Nos aniversários e festinhas dos garotos ela poupa fazendo os bolos e o mais; ele, leva ou trata do vinho.
Se ela adoece, ele leva-a ao médico num desamparo aflito porque a casa, porque as compras e as roupas, porque tudo. Mas depois da receita médica que em pressas pressurosas vai aviar, ela cura-se e melhora de imediato e não se fala mais nisso. Seja o que for que teve, já não tem. A vida volta ao de antes. Mas se ele adoece, ai que está tão doente e não pode fazer isto e nem aquilo. Na verdade não pode fazer coisa nenhuma das poucas que antes fazia e ela arca com mais uma criança em casa, cheia de queixas, aí não que me dói e vê lá se não estou com febre, a testa fresquíssima e o termómetro a marcar 36,5. E que me dói aqui e esfrega lá, e é que ali também tenho dor, e nunca estive tão mal. Enfim, a doença dos homens é o purgatório das mulheres.
Que diabo acontece às mulheres que eu conheço para aturarem tais espécimes. Contudo, as separações vingam  por motivos mais esporádicos como haver um terceiro elemento metido ao barulho ou os adorados cônjuges jogarem o ordenado em noitadas de tudo a que ele chega por junto. Quanto ao primeiro motivo, a existência de um terceiro elemento poderia até ser útil, constituir alívio, sempre é menos uma função, ficam mais folgadas. Mas em vez disso, ofendem e arrufam se outra lhes disputa o macho. Não se ofendem do disfarce de escravatura acostumada por anos e anos.  Ah, pois, o amor. O ciúme que só  quem ama sente. O ódio que tudo seca e não permite em redor uma erva verde. E mais todos os sentimentos e emoções que entretêm os homens.
As mulheres que eu conheço são estúpidas. A sociedade estupidificou-as desde sempre. Algumas – não assim tantas como isso -, com conhecimento próprio e, portanto, ainda mais esparvecidas.  
Temos de esperar nos vindouros. Que sejam outros. Ou não há remédio. Fósseis são fósseis. Ignoro é se a educação que lhes damos não está ela também fossilizada.

domingo, 12 de agosto de 2018

As Mulheres que Eu Conheço


O mundo das mulheres que conheço é herança de pobreza encardida e séculos de canga. Nele, os homens, apesar do incontestado  poder e domínio, são erráticos e relativos e não permanecem substancialmente. Ajudam na procriação; carregam, a meias ou sozinhos, um ou outro objecto mais pesado; vão ao café e demoram-se em conversas de amigos; fazem um recado caseiro só por desfastio e fama de ajudar e, por vezes, são  encarregados de educação dos filhos para assinatura ou mostra em reuniões escolares. Em amor, os mais cordatos fazem uso de ternuras avulsas que são caminho de urgência amorosa e um “não” desperta asperezas e amuos de duração indeterminada. Os mais, ou tomam de apetite o que consideram que o casamento fez seu, sem discussão, ou, mais raro, contrariam a ancestralidade e em tudo agem por amor. É verdade que eles trabalham fora de casa, mas elas também. Como é verdade que são elas quem faz a gestão caseira incluindo determinar, comprar e confeccionar as refeições. Os homens chegam fartos e cansados do trabalho que, vá-se lá saber porquê, é sempre pior que o delas. Elas não, elas chegam e enfiam uns trapos. Em seguida, vão para a cozinha preparar jantares e almoços, tratam dos filhos e vigiam-lhes os estudos, lavam-nos e preparam roupas e lancheiras do dia seguinte. Jantam à pressa porque ainda falta isto e aquilo, não vêem TV, não se sentam na sala, não sabem de outro mundo. A sala é o reino dos homens que, sendo bons maridos, não saem à noite, vêem TV. Os homens deitam-se cedo porque o seu trabalho exige e precisam descansar. Elas ficam a remendar o fato de treino do mais novo, a regar as flores que estão quase mortas de secura, a fazer aquele bolo que a do meio pediu para a quermesse da escola. Quando elas se deitam, eles ressonam. Elas caem num coma que o despertador interrompe. É outro dia. (cont.)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pruridos e Comichões

Este mundo de subalternidade feminina irrita-me. É isso, i-rri-ta-me. Não sei se já repararam, mas a fonia da palavra irritar é ela mesma uma provocação.  Descende do termo latino irritare e sintoniza com o estado de briga à flor da pele que invade o ser humano em algumas situações. Senão vejamos, a repetição da vogal i com dois erres a dar a mão a cada um (irri), é conjunto  pior que unha a riscar no vidro (e depois ainda dizem que a vogal i é uma vogal doce; é, é). Bendito seja quem assim a inventou para definir o temporário estado de deflagração iminente das nossas boas maneiras. E ontem as minhas vísceras ficaram nesse alvoroço de trovoada que me escureceu o humor. Vou contar.
            Razões pessoais levaram-me a requisitar um serviço numa unidade industrial da minha terra natal. Não era a primeira vez que tal acontecia, a gente do balcão atendeu-me com cortesia e chamou-me pelo primeiro nome antecedido de dona. Ali, sou a D. X; ou Y; ou Z.  Não tenho nada contra. Mas eis que, enquanto esperava a satisfação do pedido, surge um senhor  conhecido.  Que beneficiou de atendimento diverso. Ele não foi o senhor X; ou Y; ou Z. Ele foi  “o senhor professor”. Estava o meu desconcerto já a aquecer, mas ainda em lume brando, quando entra uma professora que toda a gente conhece, a solicitar serviços. E eis que a irritação desbordou. Não surgiu a mesma deferência, “a senhora professora”, antes, tal como eu, foi nivelada pelo nome. Ela foi a D. X; ou Y; ou Z. Mas porquê???! 
Entretanto, aventurei uma desculpa: há muito mais professoras que professores e fazem, por isso, a distinção. Mas então a diferença é numérica e sem relação ao respeito pela profissão exercida... acontece que todas as profissões são de igual respeito desde que bem desempenhadas. A matutar em todas estas questiúnculas,  já estava quase a preferir o costume do norte português que chama doutor a todos que tenham um canudo e acabou. Ora,  não pactuo com isto, sou contra doutores, professores e mais títulos de deferência cheios de “se faz favor” e “vou de recuas para não te dar as costas e de seguida varro o chão que piso”,  que lembra  os indianos da classe mais baixa, os ditos impuros e por isso designados  “intocáveis” (as outras classes sociais não podem  tocá-los sequer). As castas indianas, meus amigos, são uma maldição hereditária.
Mas o que é que queres afinal – pode um leitor mais desprevenido perguntar. Quero tratamento igual entre masculino e feminino e respeito pelos bons profissionais, tenham que sexo tiverem e sejam cavadores, torneiros, professores ou médicos.  Ou et cetera. Entre dois professores presentes, por que razão só o homem é chamado professor?! Por acaso algum professor trabalha mais ou melhor devido ao sexo que lhe coube?  Ou será que só a anteceder o nome masculino a profissão ganha chama?!  Mau, mau. A experiência com  os professores e professoras que tive ao longo de anos, ensinou-me que  a qualidade de ambos vem de outras paragens.
Afinal, ainda que sem prática em tanto caso, vivemos num país maioritariamente católico. Mas Cristo era do povo, tinha pai e mãe humildes, discípulos pescadores, amigos sem estirpe ou linhagem. Ao longo da curta  vida prometeu a todos os homens o mesmo e jamais afirmou ter vindo para salvar alguns.  Que me recorde, não há passagem dos evangelhos onde um sexo se superiorize ao outro. Portanto, nada de imputarmos o mal à religião, o erro é humano. Fomos nós, homens e mulheres, que o criámos e mantivemos por séculos (com a ajuda da instituição igreja, sim; dos homens que a constituíam, quero dizer). Hoje, dá pelo nome de preconceito e muita gente pensa que está erradicado. Colossal engano, as mentalidades resistem à mudança como os portugueses de antanho aos castelhanos. Todas as mulheres, de uma forma ou de outra, sentem e sofrem a lonjura da igualdade homem-mulher. E há ainda quem,  no século XXI, em Portugal, lhes crie um inferno na terra. A violência doméstica é abuso, causa muito dano que se não vê e só a própria avalia.  E mata. Pensem nisto, no primitivismo que ainda existe dentro da espécie.

Mas há situações em que as mulheres são, de hábito,  inadvertidas, elas mesmas sobrepõem os homens, os carregam no colo.  Como aconteceu ontem com o mulherio do balcão.
Oh, bem sei, não havia motivo para tal amargor. Mas apeteceu-me.