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domingo, 21 de outubro de 2018

Bem Aventuranças


Eram as sete de uma tarde quente. E eu sabia a ondulação copada das árvores atrás do coro, o vôo dos pássaros, o recorte de azul que desmaiava na tardinha. Sabia da vida lá fora; do silêncio ruidoso de semáforos; do trânsito logo ali, em pressas de fim de semana; de gente que buscava ninho. Sabia da vida dentro de mim. Mas não havia o tempo. Não havia mais que a música a encorpar, expandir-se, encher todos os espaços até à saturação. Não havia senão acordes e vozes celestiais em doce e unívoco corpo a corpo. E decerto lá estive porque ouvi e porque sei do rosto e gestos do maestro levitando energia sobre a orquestra. Terei pensado, respirado, o sangue atravessou-me o corpo igual a sempre. Presentes na memória, só música e maestro.
O intervalo chegou ainda mal me sentara. Julguei engano. Mas já o maestro saía abafado em aplausos, adornado de “bravôs”. Voltei-me. O lugar dela, vago. Imaginei-a lá fora, a aliviar o excesso de maravilha. Ou, quem sabe, apenas o olhar distraído na vária gente.
Na segunda parte, o espectáculo retomou sem o coro. E sem ela. O seu lugar uma falha na dentição. Foi quando pensei na sorte das árvores que rodeiam a sala e ouvem tudo pelas raízes. Placidamente musicadas, entretinham-se lá atrás em iluminado ninar de folhas. E nem um pássaro. Mas a música varreu tudo de novo. Sem paisagem, vencida pela vibração, morando na entrega do maestro. E breve a plateia de pé e um maestro grato, mão sobre o coração. De novo lhe regressaram os pés, a magreza alongada das pernas, os tombados anéis de cabelo. E o lugar vazio que quase não se notava, mas eu sabia.
À saída, mesmo por detrás de mim, alguém comentava, “fantástico, viste os pés dele, parece um bailarino, dança todo o concerto”. E fiquei com pena dos meus olhos que não sei por onde se perdem. É que do maestro lembro uma transfiguração de adamastor benfazejo que não aterroriza e antes guarda o palco e lhe dá vida. Facto que, desconfio bem, não está à vista.
Entretanto, ó surpresa, no exterior, placidamente, ela sacudia um grão de pó na malinha. Depois misturou-se à multidão e deixei de vê-la. Talvez seja entediante dama. Ou exasperada solitária. Prefiro pensá-la lá fora, a desfrutar do anoitecer por entre as árvores enquanto a música, no interior, fazia casa.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Bem Aventuranças


O ser humano está preso ao hábito. Nota-se no descansado olhar que pousa em objectos de uso, no mastro seguro dos afectos, na fixa placidez horária em que o corpo evolve. E mesmo nos agrados de cada um. Hábito provável das duas, encontro-a amiúde em concertos. Presumo que à minha pressa esbaforida impõe a sua unívoca calma e, porque chega cedo, talvez se sente um nadinha na entrada a degustar a novidade, enquanto eu relanceio ponteiros aflitos no corre-corre  afeito à traição da calçada lisboeta. Imagino-a a deambular por entre os livros, a avaliar uma porcelana, comprando uma recordação. Não precisa pente e as pregas da saia rodeiam-lhe o corpo em macia elegância, é pessoa de tudo no lugar. Ao piscar das luzes, entro açodada.  E já ela impera estratégica, sentada a meio da sala. No ar, o leve romurejo de pássaros que se aquietam  no folhedo. A colmeia humana preenche seus alvéolos enquanto caminho até ao meu viés junto ao palco. Tudo que era movimento se faz expectação, apenas uma ou outra mão alisa cabelos, uma tosse seca, o braço que muda de posição, um relâmpago de curiosidade que faísca. E ela. Esfíngica receptividade, abóbada pronta ao som. O palco anima e converge. Vestidos a rigor, os músicos aprumam respeitos e aproximam-se dos lugares. Nas suas mãos, os instrumentos refulgem e são activa probidade, antecipação ingente das melodias que guardam. Sentam-se, colocam-nos em posição, debruçam-se sobre a partitura. E juntam-se ao público: aguardam em silêncio. Eis o primeiro violinista, o violino como primeira figura. E logo um coro de violinos responde ao seu experimento. E emudecem. A sala espera o maestro. Quando a porta se abre já as palmas estão prontas e se acende o entusiasmo na plateia. A figura que se aproxima em passo elástico é leve e jovem. Inclina-se profundamente e noto-lhe as ondas do cabelo negro e fúlgidos sapatos.  Breve a sua figura esguia nos dá as costas e a música começa. O tempo colapsa. E logo tudo esvai e o divino se instaura.
(cont)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Marca D'Água


Cirandando nos conteúdos de pen antigas encontrei o escrito que se segue. Oxalá fosse meu. Mas não, sou incapaz de tal depuração escrita, ainda que algumas expressões e frases comunguem da minha brisa. É tão bonito que resolvi postá-lo. Assim, posso voltar a lê-lo. Sempre. Beleza incógnita que terei copiado de algum blogue ou comentário.  Se acaso a autora por aqui passe, os meus parabéns e obrigada sincero. Também a desculpa pelo atrevimento.

“A marca de água é uma atração do papel, o súbito de uma frescura que me sabe ao rasto da seda rente à linha dos dedos, frágil suavidade debruçada nos movimentos. Na verdade, não sei o que seja a marca de água. Mas as palavras me traçam imagens pedintes, numa cegueira de pés  que sentem sem ver, mister que lhes não pertence. E assim caminham.
E me surgiste não sei como e me rodeaste inteira, e os meus pés cegos, porque todos os pés assim,  palmilharam as sílabas do nosso desencontro. Contigo. Fora de tu seres tu.  E a tua representação – que não sei – uma borracha de apagar dúvidas. Tens razão, usei o que não tinha, as aparências iludem, como tanta vez repetiste sem que eu um vislumbre sequer. Era o meu ópio  de ir sem medo. Oferecias-me canções e riso e a minha mente sem olhos corria-lhes música e letra a procurar um qualquer tu nos intervalos de tudo o que fruía, leve inconsciência de usar o que pertencia a outrem, podendo dispor; a afastar-me por momentos de mim mesma. Julgava eu. Como se alguém pudesse nascer das palavras e ser essa a sua verdade. E houvesse romances que corporizam na atmosfera. Mas romances são folhas e folhas de letras a dizerem sentimentos que conhecemos com a violência de quem os diz sentindo-os sempre na realidade depurada que é o mesmo que dizer, não ela, outra coisa. E, por excesso ou defeito, assim se vai semeando um eu condicional e pretérito e se marca a distância entre livro  e leitor.”

sábado, 25 de novembro de 2017

Da Memória...

Sexta feira, vinte e quatro de Novembro do ano de dois mil e dezassete. Madruguei. Passava das cinco quando tudo que a seguir conto se me fez presente. Seria alguém  talvez ligado à memória vívida que me despertou. Anseio que seja um chamado, transmissão da força do pensamento, desejo puro de um tempo em que fomos “for ever young”. Que não um sinal de perigo, urgência a que não posso nem sei atender, apelo instante em situação limite. Porque claramente distingo o chamamento da simples lembrança. É outra intensidade e outra natureza. A segunda, é apenas memória afectiva e morna que sucede em consciência. O primeiro, acorda-me em clareza e precisão, numa supraconsciência inexplicável que se particulariza em qualidade e grau; supraconsciência que é portadora de natureza própria e para que não encontro palavras. Temo chamamentos. Se é verdade que os separo da lembrança, também é verdade que não sei destrinçar o desejo instante de presença, da necessidade que se expressa no apelo irredutível e último em urgência vital. Os chamamentos são gritos na noite. Gritos que só eu oiço, sem lhes conhecer proveniência. Mente que me chama com força inusitada e única e que, milagrosamente, chega até mim. Nem sei se de mortos, se de vivos. Que os mortos também nos chamam e falam e têm força.
Quem sabe não eram senão eles, os mortos,  a lembrar-me esse período difícil da vida em que fui bafejada pela sorte de um projecto comum tão salutar quanto contrariado pelo poder. O volume de trabalho e escolhos a ultrapassar. Primeiro, a escrita da peça de teatro (que já perdi); de seguida, a leitura para escolha de actores, todos a escolher todos; e logo, os ensaios. Sem sala, ensaiávamos nos átrios de corredores, no intervalo entre aulas diurnas e nocturnas, perturbados por aspiradores e vozes de empregadas. Ou em casa de um ou outro. No final, eu a carregá-los para os autocarros. Gente que se levantava às cinco e ainda assim entusiasmava com os extras; Do meu lado, nem verba, nem horas disponíveis. Era a nossa carolice sempre rechaçada. A pior turma em comportamento. Mas, no dia, enchemos a casa. O temor, tanta gente (era quarta à tarde, não havia aulas, o auditório à cunha, gente sentada pela coxia), e se não gostam, e se...E eles, mais de trinta, já metamorfoseados, o do acordeon a puxar-lhe as alças para o ombro, vai correr bem. Um lá em baixo, amarfanhado junto às casas de banho, mãos na barriga, não consigo, não consigo. Eu a levantá-lo do chão, consegue pois, entra e esquece-se de tudo, vai ver. E ele, tenho de ir vomitar, eu não devia ter vindo para isto, foi só por andar atrás daquela miúda loira que está a apresentar. E eu, deixe-se de paranóias, você é um actor, quando pisar o palco passa-lhe tudo. E ele a olhar-me em dúvida culposa, e se eu me fosse embora agora... Eu séria, olhos de ácido sulfúrico, deixe-se de parvoíces, vá lá vomitar que eu espero aqui e vamos os dois para cima, ouviu? E lá em cima o do pano de cena, tenho que ir a casa num instantinho, eu não me demoro; - e a dar-me palmadinhas no ombro - mas olhe que o bombeiro ainda não chegou, ligou-me e vem a caminho, teve que acompanhar um doente a setúbal. Eu aflita, e agora? Ele, agora começamos que entretanto chega, diz que já ligaram a sirene e vêm a toda a mecha, como não tem que se vestir...Eu, ai valha-me Deus, temos a casa cheia e falta-me uma pessoa. E daí a pouco o funcionário do auditório, temos de começar que eu não saio daqui depois da hora; ok, ok, onde é que está o nosso homem do pano de cena? Alguém a medo, ainda não voltou. Mas não voltou como? Então, foi a casa e ainda não veio. Com franqueza, mas o que é que aquele rapaz tem em casa de tão urgente? Ora,  então não sabe, é a namorada. Eu a desmoralizar, esta gente é toda maluca. Merecia era umas porradas, aquele irresponsável. E as garotas vampirescas, capa e lábios pretos, a estenderem um lençol de compreensão, é só mais um bocadinho, eles vêm todos. Na régie, o funcionário de braço no ar, um dedo todo nervos a apontar-me o relógio. E eu que não ouvia o barulho, a imaginar a unha a bater no vidro, tic, tic, tic. E entretanto o bombeiro-actor, acabadinho de chegar, agarra o namoradeiro logo na entrada, és maluco ó quê, pá. Desato a rir e empurro-o para a régie, se se engana nas aberturas do pano dou-lhe uma surra. E começamos.
Gostam. Temos de parar várias vezes porque riem e batem palmas a meio. E no bocadinho de jogo do benfica em que gravámos um golo, a plateia levanta-se em peso como se no estádio, a gritar gooolooo!!! E o goooolooo!!! do nosso actor fica elidido. Mas também nós gostamos.
À noite, na sessão para encarregados de educação, os filhos bisaram e a sala à cunha. Lembro-me da voz da Gisela numa canção da Ala dos Namorados e de toda a gente a bater palmas; de as danças serem um primor; do meu actor das dores de barriga se ter transformado em palco; e a Rita tão miúda e pacata, tímida, a crescer desmesurada declamando o Cântico Negro num lampejo de eternidade que electrizou a plateia e arrepiou gente. E de estarmos tão contentes e nos abraçarmos uns aos outros no fim de cada número. E lembro-me dela a declamar no ensaio geral e de um garoto que por ali andava ter mofado da ênfase. E logo o Carlos que tinha fama de ser (e era) arruaceiro, o levou para um canto a avisar, eu até nem gosto de poesia, mas aquilo é qualidade, ouviste. vê lá se respeitas o trabalho da miúda, porque se te ris outra vez levas um ensaio de murros. Chaparro!, chasquinou; e deu-lhe as costas displicente, andar desengonçado, o boné com a pala para trás, satisfeito consigo e sem ideia de que eu o ouvira. Apeteceu-me abraçá-lo. 
E depois as pessoas a saírem agradadas, imbuídas no espírito dos Alphaville, “Forever young”. Música tão bonita, alegre e jovem. Que eu desconhecia. Escolha do colega e ex aluno, também professor da turma, que nos ajudou  nos finalmente. Ensaiámos algumas vezes em sua casa, sugeriu a música e propôs fim mais realista e menos happy end. Há pessoas extraordinárias e extraordinariamente humanas. Insubstituíveis.
Fomos um grupo. Na memória, ainda somos. E seremos. E os Alphaville cantam-nos  a nós eternamente. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Mundo ao Contrário

Poucas vezes durmo até ser manhã. A maior parte das noites acordo com os teus pés descalços a arrastarem pelo chão no meio do silêncio entrecortado por estalidos de móveis, um cão a ladrar ao fundo da rua. E antes que chegues à porta do quarto, o meu corpo automático já te alcançou. Ainda o sono não descolou da mente e já os meus braços de mola disparada te seguram. Que a gente muda mais que as estações. Ainda não descobri para onde me fugiu o sono pesado com que brincavas, és uma pedra a dormir;  que nuvem extrema me roubou os sonhos em jeito de história; que buraco negro extinguiu os contos fugazes e amenos que esquecia ao acordar e me faziam sorrir dia aberto, se um pormenor os trazia à memória.  Tu divertida, conta lá o que sonhaste hoje. E, se me lembrava, eu a escalar montanhas a pique, a alcançar  castelos escancarados como janelas de par em par; eu com botas de sete léguas em episódios cheios de portas que nasciam não se sabe de quê, que antes não estavam lá, e se abriam para aventuras inocentes. Olhavas-me meia decepcionada, não sonhas comigo, nem te perdes de amores por ninguém?! Eu quase envergonhado de te excluir e dos enredos de amor ausentes, não, nunca sonhei contigo ou com alguém que conheça, nos meus sonhos eu sou outro qualquer num mundo de gente que só neles existe. Demoravas-te  pensativa, uma mão maquinal a acamar madeixas atrás da orelha e que uma vez  libertas se quedavam em arco gracioso rente à bochecha. E eu gostava de te ver assim, suspensa. Se inquiria, o que estás a fazer, quedavas-te indecisa, não sei, se calhar pensava. As saudades que tenho de ti e dos teus pensamentos!
Hoje durmo pouco e sempre contigo na mente. Quando os meus braços de mola te agarram a meio do quarto, naquele instante breve em que és memória e o meu sono não te deixa ainda ser inteiro presente, volto atrás. Desprendes o mesmo aconchego a lençois e edredon, abandonas-te – parece-me que te abandonas – ao meu corpo no jeito antigo. Demoro-me a sentir os teus cabelos sobre o externo. E tu murmuras, Pai, e quebras o encanto. Levo-te à cama, desvio as cobertas, sento-te e encaminho-te as pernas. Depois, aconchego-te as roupas, dou-te um beijo e repetes, Pai. Fico a teu lado até que os olhos se te cerram de novo. Fecho a luz. Mudo de quarto. Deito-me. As saudades que eu tenho de ti! E rememoro a tua forma de dormir agora tão outra. A tua mãe para mim, não dormes na mesma cama? E eu, não tenho coragem. E não tenho. Dou-te banho, passo-te a esponja com o gel perfumado que preferias, lavo-te a cabeça com champô de maçã e revejo-te o rosto contente, cabelo molhado debaixo do meu pescoço, cheira lá e dá-me uma dentada pequenina. E eu, mãos à bolina no cabelo húmido, renasces em cada vez que sais da água. E agora alheias, páras os olhos em qualquer fundo que desconheço e deixas-te manobrar, confias. Seco-te em cuidados de toalha materna, com a ternura desembrulhada de desejo, um carinho protector na felpa de algodão. Seco-te a pobreza das pernas, do sexo, do ânus, e tu, ausente de ti. Sem o teu cheiro. A tua pele mudou e já não mistura com o perfume. Cheiras ao frasco aberto em cima da cómoda e que escondo para não partires ao pegar. Viraste menina a perder a palavra, o tino e o mais. Deixaste de saber vestir-te, não comes sozinha, já não consegues fugir de casa. Fizeste-te dócil ao babete e à sopa passada e o médico antecipa seringas nas crises, diz que engolir é um acto reflexo, que, com sopa líquida, a seringa resolve. Que, breve, te confinas à cama. Em tempos, se a filha nos visitava, tu de olhar desinteressado, não conheço esta menina. E para ela, quem é a menina? A filha dizia-te o nome que repetias em mero serviço mecânico. Não a reconhecias.

Perdi quem eras para um fundo de vidros partidos. Foste caindo. A esfacelar. Quem sabe, melhor se também eu lá dentro. Contigo. Sem o algoz da consciência. Soldadinho e bailarina.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Eu e o Meu Pai

Foi numa tarde sem história. Em volta das laranjeiras, meu pai dava prática à enxada, imerso no mar da surdez, a lâmina conquistando ervas a golpe, a levá-las de vencida em estocadas mortais. Parei no ritual de abrir o portão, passar, fechá-lo. E ele alheio, atenção debruçada à terra, o cabo da enxada em vaivém, atrás e à frente, atrás e à frente, movimentos que o saber fez naturais. Subi devagar até à casa e fui cumprimentá-lo. Não me sentiu. Parei de encanto. Do chão subia um cheiro a terra e ervas que me autenticou. As mãos calejadas faziam da enxada uma extensão dos braços, a imprimir-lhe  um ritmo mecânico, o cabo avançando e recuando vivaz, descobrindo a terra húmida e despida, fertilidade escura sob o ervaçal.
Tanto ano sozinho. Um comboio interminável de dias solitários. E agora a opaca parede da surdez. Que pensa meu pai em tanta hora em que não lê, não escreve, não passeia (as pernas titubeiam, prendem-se-lhe, aprendeu a temer distâncias que não vence) . Dei-lhe umas palmadinhas nas costas. E ele surpreso, a endireitar um contentamento disfarçado, “filha”. E resumiu-me. Fiquei de tranças, magrinha, só cabelos e ossos gratos. Usou aquele tom que agora tempera “mal a vez”, com um pingo de ternura. Depois encostou no cabo da enxada a perguntar pelos netos e a olhar-me. Talvez a olhar-me. Ou a ver a garota desajeitada que errava os canos da rega e a quem gritava todos os nomes que também o atingiam, ó filha de um..., numa zanga com o mundo que eu pensava comigo.  Agora, a seu lado, eu  a querer ser terna, mas aos gritos para que ouvisse, o pai já não pode fazer isso; e por que é que o pai não paga a alguém para fazer as caldeiras das laranjeiras. Ele num encolher de ombros fatalista (os alentejanos têm esta queda para a fatalidade, talvez por tanto a temerem, levam o tempo debruçados, ganham corcova na alma), a quem? Os velhos como eu já não podem, e os novos não sabem nem querem aprender – e a mirar-me, sem transição  -.  Olha, apanha aí umas laranjas, mas usa o escadote e o ancinho que estão altas e só há por dentro das laranjeiras. E retomou as caldeiras, a enxada pressurosa, toda respeitos em volta das árvores, a lâmina aos requebros, a ajeitar muros e protecções, afastando ervas, como se elas magnas rainhas na parada, a quem tudo se deve, Vª Exª; se faz favo; minha senhora rainha o que ordena; quer esta ervinha para ali, concerteza; quer a terra deste lado, pois faça-se segundo a vossa vontade. Deixei meu pai a rezar à terra, fui buscar o saco da fruta e lancei-me à função. De poleiro no cimo do escadote, ensaiei-me a ganfar laranjas a dente de ancinho e elas a despedir na terra mole e enterrar um tudo nada, ploc, ploc, ploc. A dada altura, quase nos juntámos; andávamos em laranjeiras contíguas e o meu pai sem olhar, empenhado em não desapontar sua excelência a D. laranjeira, mas calculando-me o lugar pelo embrulhado de folhas a resmalhar, ou pelas laranjas  insistindo no ritmo, ploc, ploc,  olha que o Chico outro dia caiu do escadote que isso tá tudo podre, ele já nem quis apanhar mais laranjas, foi-se logo embora. E eu lá de cima aos gritos, tapada de folhedo seguro, sem ideia de quem será o Chico, isto não se parte, pai, é ferro. E o meu pai que continua aquela pessoa optimista, é ferro é... pergunta ao Chico. A tua irmã deixa isso aqui à chuva, tá tudo ferrugento; parte-se em menos de nada, cais um trambolhão que só visto e ficas mal de certeza. Isto dito de olhos na enxada, os braços para cá e para lá, uma pelada de terra castanha a toda a volta da laranjeira, que as majestades querem distância da plebe e o povoléu herbáceo que se aguente por outras paragens. E eu contente de nós dois ali, irmanados pela terra, mergulhados no seu cheiro a verdade simples. Eu abraçada de ramos, enleada em seiva e flor cheirosa, a desejar ser laranjeira e ficar ali, de pé, raízes fincadas até à morte. Mas nasci pessoa. Portanto, submeti-me a descer, pousar o ancinho no lugar, levar o escadote de mau augúrio, arrumar a vida.

Quando convidei para o lanche veio vindo alquebrado do esforço. Sentou devagar a moíção dos ossos e logo se habilitou a perorar contra todos os governantes que existem e já existiram, chamando nomes a este e àquela, tal qual sempre o conheci. Se não fosse meu pai, acho mesmo que os excessos me ofendiam. Mas é meu pai. O seu eriçado é-me agradável, uma sobra do homem que foi. Não ousei contrariar as blasfémias e deixei-o partir contente de si, ainda chefe de família. Seguiu em linha recta para o pomar, no desejo de fazer nascer mais umas caldeiras, as majestades em espera empertigada, aguardando mordomias manuais e tagatés de enxada. Muito espertas, elas.

sábado, 2 de abril de 2016

As Flores do Meu Jardim

Todas as manhãs olhamos o dia a nascer – eu olho – e da sua luz clara nos vem ânimo e movimento. É o mundo a acordar-nos dentro dos olhos e fora deles, a mover-nos a luz e calor.
Movemo-nos por dentro, ao encontro cálido dos outros que nos existem e são apenas memória ou também realidade. Pelo menos, nesse desejo. Na vida, o álgido é morte e não-aspiração. Movemo-nos por fora, em ambientes que urgem sem pertença e que não dominamos. E, diários, nos reservamos o direito ao ninho. Dormir, ler... estar um par de horas a chocar. Mesmo em contrapé, sou forçada a admitir, somos galinhentos: chocamos. Chocamos o dia seguinte desde o anterior, os maus momentos nos bons, a ressurreição pascal nas pausas da cruzada diária. Psicólogos, filósofos e literatos em geral desdenhariam do termo considerando-o amorfo, ligado ao puro animal de nós. Mas o choco, mesmo o das galinhas, não é senão uma transmissão de calor adequada e pertinaz sem a qual a eclosão da vida não ocorre. E assim a nossa animalidade específica. Não a besta. Chocamos de forma própria: enquanto as galinhas expelem o seu calor para o ovo, nós absorvemos calor dos outros - directamente ou por interposto objecto – que assimilamos e guardamos para catalisarmos no meio  osmótico em que vamos existindo. As galinhas cingem-se ao choco de pintos numa operação abnegada mas simples, mas a nós cabe-nos chocar e distribuir calor. Ou corremos o risco de nada nos ser verdadeiro, que o traço de pertença são as combustões que entregamos. E as chocadeiras eléctricas restringem-se aos galináceos.
Por vezes - poucas vezes - acontecem verdadeiros encontros. Tenho uma amiga com quem sei que me encontro mesmo que não me encontre. Portanto, se acaso – nada tem de acaso – nos encontramos, vale a pena. Vale em sua casa, vale na minha, vale entre elas, vale no fim do mundo se lá chegarmos. Vale por nos gostarmos mutuamente e nos interessar vermo-nos, falarmos, andarmos juntas um bocadinho. Se nos juntamos, não nos abundam as grandes conversas existenciais, não procuramos assunto e nunca ficamos sem ele. Nada temos de confidentes extraordinárias, mas sabemos  que a família dura até à morte e que somos duas irmãs; por acaso, nascidas  fora da família. Comparo-nos a Lobo Antunes com os irmãos, “falamos pouco uns com os outros”. Quando a gente vê pouco uma pessoa de que gosta muito o que apetece não é desenrolar o estendal das queixas, é viver um bocadinho de quotidiano com ela, partilhar momentos em que olha as mesmas coisas, saborear os mesmos ingredientes, afinar o passo com o seu, conversar sem querer salvar o planeta. E são momentos assim felizes e de choco que nos aquecem a corrente distribuidora.
Vivi um deles há pouco tempo. Se combinamos encontrar-nos, para mim é já uma festa. Mas não esperava tanto carinho e atenção. A gente cresce e até se esquece do que gosta; na voragem do tempo, desabitua-se de pequenos mimos. E foi mesmo uma surpresa aquele almoço em família, com o doce que ela faz tão bem e nem quero aprender a fazer porque em mim tem o sabor de sua casa, do seu ambiente. Sabe-me a ela mesma na totalidade. E fez-me bem ouvi-la dizer “meu querido” para o filho e chamar o marido com aquele tom terno que usa,  umas notas famintas pelo meio e que quase não se dá por estarem mas estão, ditas assim em humanidade que conjuga.  Tratamo-nos com diminutivos que o carinho acrescenta e só aumentam o nome. Se calha, são kitsch, mas também originários, sabem-nos a eles ditos por cada uma de nós.
            E sei-lhe o cansaço. Sei-lhe o desalento que às vezes desarvora. Sei-lhe o peso da vida cheia de gente para cá e para lá, de amores diversos e quase sempre urgentes, de tanta complexidade que o tempo traz a algumas pessoas. Mas Também lhe conheço a âncora. E é segura.
E é isto. Cruzámo-nos há tanto ano e jamais me esqueço de agradecer a sua incursão no Alentejo. E por aqui andamos e andaremos.

ObrigadaJ)

sábado, 28 de março de 2015

Inscrição

A  luz do dia é mais clara se dormimos. O sono comanda-nos os dias e só há mesmo manhã, se acordamos. Nenhuma claridade nasce da insónia.
Um destes dias bateu-me a saudade e fui ver o meu pai. E nessa tarde de um dia destes, pela primeira vez, notei-lhe a velhice. Ou ela se me quis mostrar. Entrou-me pelos olhos dentro o peso dos anos esparramado pelo corpo num à vontade abusivo. Será do meu olhar, mas está diferente o meu pai. Tinha um ar afilado que lhe fugiu, abolachou. Como se já não necessite viajar e a pose de quilha lhe seja inútil. 
Estava sentada a seu lado a ouvir-lhe as histórias e a pensar  na viagem que encurta, a última estação já a distinguir-se. A pensar que, sem esta raiz, nos teremos de reinventar. E que todos os momentos com ele – enquanto ainda é dono de si - se tornam a cada dia mais preciosos.
Mas a verdade é que a morte não liga muito a cronologias.

Como a vida é efémera!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Por vezes, mesmo durante o sono, a sensibilidade mantém uma atenção de relógio interior, antena captando pensamentos longínquos que a estremecem. Dentro da sonolência nocturna, os pensamentos são raios rasgando rios de silêncio.
E não há voz com admiração bastante para afirmar o milagre.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Longe e a Distância

Chove. Uma cacimba miúda e sem vontade reina molemente no ar, o dia a lembrar-me as soluções saturadas da química que eu, sem qualquer tipo de experiência a reivindicá-las –  o colégio não tinha nem o arremedo de um laboratório –, julgava ser um excesso, uma fartura de alguma coisa dissolvida em água. E, por uma vez, estive certa. Penso na praia enquanto a palidez do dia amanhece, imagino-a quieta, gota com gota, um mundo de água solitária. Que será das gaivotas de triste piar, a linha da água nublada na maresia, o céu sem azul. Ou da liberdade de areia onde toalhas fizeram cama e passos cruzaram destinos leves. Imagino-a semeada de algas, lixo, restos que o mar devolve à terra que o desrespeita. Estão ali, inertes, dedo apontado ao mundo.
Nós somos longe, aflitos de saudade, ainda cálidos do sol que rumoreja na memória. Conheço-lhe o gesto bendito que enlanguesce, a aura de calor em ondas a desmaiar, o tempo em que os grãos soltos amaciam sob os pés. E tanto a gosto em suas partículas de luz, excesso de verões a rebentar diques de frieza, insidiosas insinuações que nos desmarcam, muros que derretem sob o sol.
            Jamais auscultei a praia de Inverno ou Outono. Desconheço-a. Mas tanto nela estou! E sei que não volto para buscar os momentos que não vivi junto do mar. Não. Sofro-lhes em constância a força agreste da ausência que tudo despe. Então, devaneio para mitigar danos. E recordo.
            A primeira vez que vi a praia teria perto de dez anos e por bondade do pároco a quem tanto devo, integrei uma excursão da catequese dos meninos da vila. Senti-me agulha em palheiro, só conhecia o prior. Desse princípio de relação, o que mais apreciei não pertencia à água: observei que se podia atravessar em braçadas de elegância subtil, pernas a ondular como sereias. Fascinei encolhida no meu vestidinho de nylon com florinhas, as tranças escuras a pendurar sobre os ombros, olhos pregados numa banhista que nascera súbita de dentro de uma saia larga com blusa a condizer, toda a gente a afirmar, “é tão feia, a mulher mais feia da terra” e eu a encontrá-la suprema no seu completo de natação que me era novidade. Grudei no moldado acintoso do fato de banho, o cabelo escondido em touca de borracha, óculos de natação. E quando avançou mar fora, soube-me a deusa aquosa, a cabeça a branquejar em espelho de água. Num rompante, uns calções empoleirados num barco e um corpo de infância em arco de parábola. Assustou-me o baque material, a nuvem de gotas em explosão de riso que me amiudou, o deixar de vê-lo. Pensei, afogou-se e agora; mas reapareceu a inexplicável distância, braços no ar. Respirei. O senhor padre, Manuel Tomás volta para a praia. E o garoto sempre em frente, já longe das bóias. O padre apreensivo, Tomáááás!... e ele um pontinho parado na distância esverdeada da água. Eu atónita com a velocidade das braçadas. O Manuel Tomás, que eu desconhecia, era um peixe veloz disfarçado de pessoa. Quando regressou, o prior puxou-lhe uma orelha e ele bem disposto, a secar-se com uma toalha grande, está a magoar-me senhor padre. O padre muito sério, vou contar aos teus pais. E ele, uma gargalhada feliz. Tinha uma vitalidade alegre, simpática, de onde os problemas se ausentavam. Há vidas breves que fulgem pletóricas e bebem o tempo às golfadas. Foi assim com o Manuel Tomás formado em medicina e que não mais reencontrei. Viveu aos borbotões até aos vinte e oito anos. Depois de uma tarde na praia com a família, subitamente, entrou em coma. Dez longos anos. Até que o deixaram partir.
            Aos dez e onze anos, ainda o apego ao mar vogava pelos longes de mim. Veio a benesse de duas colónias de férias em Sines e a vontade indómita e inútil das zeladoras em me alargar o estreito da figura. Então, os banhos eram uma parede de garotagem entusiasta, todos de mão dada; e, não raro, de roldão pela areia. 
              Aos treze ou catorze, em nova incursão excursionista, conheci a força assustadora do mar da Figueira que Maria Clara imortalizou em sua impoluta voz de onda a transparecer.
            Nada no nosso trajecto de brevidade fazia prever o élan que, tenaz, me prendeu. Que a natureza, imersa em si mesma, segue o seu rumo, alheia a derrames de coração, aflições de gente, aziagos desaires.

(continua)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Um Chá para Três

A vida reúne e parte, às vezes por milagre. Ou será um destino sem fatalidade, encontro de acaso. Foi assim que se viram reunidas e três. Frente a um bule de chá.
A tarde corria amena e nada prenunciava a noite que viria. Como a vida se faz bonita quando toda se arma de surpresa que tornamos boa! Sim, que a vida oferece sem a qualidade.
Um acaso de supermercado juntou duas. Anos e anos longe da vista; mas prestes o coração desmentiu distâncias. Atarefadas de compras e recados, pressentidos gelados a escorrer no carro, alfaces de folha à banda e sem viço, combinaram umas palavrinhas mais tarde, um encontro depois do jantar.
Foi assim que o cair da noite surpreendeu as três: a desfiar recordações. Então, o ar aligeirou e o tempo sem relógio aquietou-se no continuum de milhares de segundos incansáveis e cansativos e velou-as noite afora, os cães num sossego de respeito, a casa uma clareira só delas, protegida de escuridão. Lá fora, o vulto de um automóvel paciente. Dentro, o bule a irradiar sabores de fruta, chávenas que se enchiam e vasavam ao ritmo da memória; um arroz doce divino; um bolo ainda morno. E o riso que a vida tanto engasga e prende a desanuviar em surpresa, oh, afinal existo. A renovar-se, rir é tão bom. Os objectos estupefactos pela casa, isto é o quê? Uma casa tão sossegada e agora…A cadeirinha alentejana, toda florinhas miúdas a sussurrar a resposta numa concentração de sabedoria a crescer, estas três juntas são uma maravilha. O louceiro estremecendo, num dar de si de madeira, há quanto tempo não ouvia gargalhadas assim, só sabemos o tamanho da saudade quando enfim podemos matá-la. Vou aproveitar o ambiente e dormir em som de festa, boa noite, e deu mais uns estalidos antes de entrar no sono. O bule a avultar na mesa, a disfarçar encontrões a um bolo monumental, chega-te para lá se faz favor, senão apanhas um calor; depois, a olhá-las pelo sinuoso do bico e a filosofar das entranhas bojudas, que absurdo fado entristece o olhar e faz esquecer o essencial! Agora são felizes e estamos aqui, frente a frente. E enrubesceu. Elas, desatendidas de tais elucubrações, a pegarem-no pela asa, cuidado que queima.
A mais jovem, recém-saída da doença prolongada que tanto vitima, “acho que me ri mais esta noite que no mês passado todo”. Ali foram trazidos os mortos, os vivos, elas noutro tempo; se compararam timings, se fotografou a trempe; trocaram receitas, anedotas e brincadeiras inócuas, conselhos caseiros. E fugiram prontamente de momentos tristes, infiltrações de saudade a contragosto.
Quem sabe não voltem a encontrar-se. Resta a memória de um serão a ponto atrás, costurado à mão. Cúmplice e amigo. Feminino.
Que tudo seria outra coisa, se não fora a amizade a uni-las.

Bem Hajam 

domingo, 4 de maio de 2014

Dia da Mãe

Hoje é Dia da Mãe. Um dia que partilhamos. As duas. Vamos almoçar todos  e tu vens. A meu lado. Sorrindo. Sem cabelos brancos, com aquela trança comprida que levantavas ao alto e agora se usa de novo; está na moda o teu penteado, mãe. Trazes ao pescoço o fio de ouro com a fotografia do pai; nunca gostei dele, mas não o retiravas apesar dos meus instantes pedidos. Eu decretava que os homens faziam isso - dar um fio de ouro com a sua fotografia -  para demarcar território, o amor, alheio à oferta. Mas usaste-o sempre, desde o dia em que te foi dado, e nem sequer retorquias à minha revolta. Também não sei o que pensavas do assunto, nunca te manifestaste. E hoje, vê tu, não me faz dano que o uses.
Mandei-te pôr os dentes da frente no maxilar superior, encaixam com uns araminhos que mal se vêem e tu contente por poderes dar dentadas nas maçãs. Deve ter sido por isso que, finalmente, deixei de sonhar que me caem sem quê nem porquê, tão brancos e sem mácula e a cair, os palermas. Sabes, aquela tua ida ao dentista deixou marca, as coisas que nos ficam. As minhas, esqueço-as no imediato. Mas essa tua, impossível. Não falamos sobre isso, porém, estou certa que também a lembras. Nem sei o que mais me doeu, se a visão do sangue, se aquela mulher que te segurava a cabeça enquanto eu chorava desabalada, se a tua tristeza de lágrimas no regresso a casa. Não voltaste a ser a mesma. Nunca mais.
Fiz-te uma écharpe em tricot. Dei-ta logo pela manhã e tu puseste-a pelas costas sem te importares se rimava ou não com o vestido. E os teus olhos a brilhar, tão bonitos! A luz do amor é toda outra. Tão bonito o teu abraço. Tão bonito como o jeito que tu tens para usar écharpes que me caem desajeitadas para tudo quanto é lado. Em ti não, tu tens ombros e porte de écharpe. Não te contei, mas andei na net que tempos, a aprender esse tricot rendado para te fazer surpresa.
Estamos juntas para o que der e vier. Logo mais, os meus irmãos vão trazer-te outras prendas, mimar-te. Mas o nosso momento dorme eterno nas tuas mãos a abrir a écharpe e moldá-la aos ombros, o olhar de agrado a rodar o espelho.
Dormes assim no meu sonho, Mãe. De écharpe.

Um beijinho

quinta-feira, 20 de março de 2014

Elucubração

Escrevo aos solavancos. Contra mim. No esforço de quem abre uma concha. Ainda que o alívio de fazê-lo, a distracção da minha subjectividade a emparelhar palavras, a poda de “corta e substitui”, o interminável da função, tenham tudo para me levar à escrita. Porém, só escrevo quando “não pode deixar de ser”. Nem sempre foi assim. No tempo das cartas, quantas folhas enchi! Ultrapassando as sete folhas, antes de chegarem ao vermelho da caixa do correio, obrigava-as a pernoita sob o dicionário, para minguar volume. Nunca ninguém me respondeu verdadeiramente. As minhas amigas escreviam tanto menos e atrasavam a resposta; quem sabe, liam-me na diagonal, ou nem isso. Como se usa na net se passamos a dizer olá e marcar presença ou dar opinião sobre. E vale? Talvez. Porque também as minhas amigas respondiam a uma ou duas das minhas quarenta questões sobre a vida delas e não opinavam sobre o imenso que não era pergunta. Porém, eu, inabalável, a abrir-lhes as cartas com a mesma sofreguidão com que leio os mails em que raramente (nunca) se mostram. Se escrevem.
A vida é assim mesmo. Nasci demasiado tarde para esta vocação de monge copista em iluminuras de semana inteira. Por isso, tenho de me aguentar às palavras em computador e às cartas que são mails, pejados de pps a impar boas intenções e que pouco ou nada dizem do emissor. Descalça. Portanto.
Para que escrevo? Porque gosto. E para meu esclarecimento, a escrita elucida, ordena a cabeça. Mas também para não esquecer. Os portugueses têm o péssimo hábito de saltar os bons momentos. As agruras e nefastices ninguém olvida; mas, o que nos alegra o quotidiano, obliteramos. Razão para o trabalho de arrumação mental que, de tempos a tempos, plasmo na folha onde as palavras, tontas de tinta, pretextam a sua existência de papel. Mão dada linhas fora, descrevem o que foi e libertam-se da memória. Ela agradece a leveza. E eu. Que posso voltar. Oh! Extraordinário ímpeto de regresso!
Quem sabe, uso mal a escrita. Afinal, o passado é o que já foi e, de certa forma, inexiste. Mas é o meu como de saber fazer. É mais fácil descrever o que passou que inventar acontecimentos. Basta silenciar o presente e, logo se instaura desmedida, a diferença temporal dos rituais. Então, dobramos o imaginário à realidade. Conforma-se. Oh, sim. O imaginário é o que salva os escritores. Mas não é comum de todos. Ou é neles mais largo. Diferente.
 Ontem foi Dia do Pai. Bem sei que é consumismo, um nada no amor que lhes temos. Se, porém, retiramos prazer em presença, por que não festejar?
Amanheci palerma, no meio de uma gripe esfarrapada, nariz entupido, tosse, dor de cabeça. E nem me lembrei. Atirei os compromissos para trás das costas e zanzei pela casa com vontade de coisa nenhuma, possivelmente a desfiar mazelas de viva voz para ninguém, salvo a gata, num acto purgativo que me entretém e liberta. Já a manhã aquecia quando liguei o Pc. E isto de haver um Google tem utilidade, logo dei pelo esquecimento: era dia do Pai. Pedalei um pouco na Net, a meter o bedelho em aquis  e alis que prefiro, enquanto marcava números de trabalho. Ninguém. Deixei mensagem e comecei a equacionar mentalmente tarefas e horas: necessitava fazer compras, almoçar, culinar alguns pratos leves, um bolo…e ir mais cedo para limpar a sala de refeição. E fui às compras para um lanche a descair para jantar, munida de minuciosa lista. Que breve se fartou de mim, ainda hoje não sei o que lhe aconteceu. Há coisas assim, são como certas pessoas, torcidas, desaparecem à parva. Portanto, fiz grande parte das compras de cabeça, o mesmo é dizer esquecendo algumas. Uma das minhas convidadas ligou e que sim, que queria ir mas saia tarde e teria de recolhê-la. Tudo bem. Depois de almoço, e com outro sms no telemóvel, a segunda também ligou. E que sim, mas tinha reunião. Que fôssemos lanchando.
Tomei um comprimido para a gripe, pus o avental e fui para a cozinha. Duas horas e meia depois comecei a arrumar a tralha no carro. O lanche. E os apetrechos de limpeza. Fiz mais dois convites e meti-me no carro que tresandava a restaurante. Fiz nova paragem no super e abasteci as faltas da manhã. E depois rumei ao destino satisfeita da surpresa, o palerma do bolo a um lado e a outro em cada curva.
O meu pai encontrava-se na rua, à conversa com duas vizinhas e nem sabia que era Dia do Pai (como é que esta gente mais velha vê Tv ?). Saí do carro toda espevitada, a léguas da matrafona da manhã. E ele, então, o que vieste fazer? Nem avisaste…  e eu a abraçá-lo, vim vê-lo, lanchar consigo, mais daqui a pouco vêm os trabalhadores. Hoje é Dia do Pai. – e rematei a apertar-lhe a gordura da barriga - Gosto muito de si, Pai.
Juro que o meu pai se engasgou com aquele pigarro que tem quando se atrapalha e não sabe o que dizer e que os olhos piscaram até ficarem pequeninos. E aguaram.

(continua)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Minha Irmã Directora

Gosto de escrever cartas. Escrevo-as em número razoável, se contar com os mails. Sim. Os mails são cartas sem necessidade de selo ou porte. Invariavelmente, sem resposta. Minto. Há uma pessoa, uma única, que sempre me responde. Mais tarde ou mais cedo, responde. A uma missiva mais instante, os meus amigos urgem num telefonema. Ou enviam-me pps palermas que caem virgens no lixo do mail. As pessoas não têm tempo para cartas nem mails compridos; tenho por vezes a incómoda impressão de que impeço, aborreço. E nem sei o que pensam na hora em que os lêem, já que pareço ser a única pessoa a escrever-lhes. Por isso, é verdade, encolho a escrita. Começo e logo desanimo, só vou fazer perder tempo, não origino conversas; os meus amigos - que são poucos -  têm muito que fazer com os seus próprios estados de alma e de vida, que pelo visto não querem ou não precisam repartir comigo. Devo ser uma maçada de, lá vem ela com as charadas do costume. E desisto.
Sempre escrevi para os vivos. Porém, hoje, é oficial, inicio a correspondência para o além; um you have got mail da terra ao céu. O que quer que isso seja. Não vai haver grande diferença nas respostas. Se os garotos escrevem ao Pai Natal e endereçam à Lapónia ou ao Pólo Norte por inteiro, e ele lê, por que  estúpida razão, se eu coloque uma correspondência num blogue que até é meu, eles que tudo podem, não hão-de lê-la?! E se não? Bom, fica a intenção.
Para ti, minha irmã directora
 (minha sim, que não foste igual com ninguém mais, ou pensas que não sei?:)
Quando jovem inconciente - já a trabalhar -  marcava no calendário a data da visita. E aguardava os dias um a um, a descontar. Escrevia-te a perguntar se dava jeito. E, depois da confirmação, podiam chover picaretas que ia na mesma. Não sei se o céu não me protegia, se a protecção era excessiva, mas quase sempre chovia torrencialmente, lembras-te? Era uma chuva indiferente às estações. Eu ia para ti com coração de noivar. Isso mesmo. Fazia um caminho muito longo, desde a outra margem. E o enleio de alma, vá-se lá saber porquê, começava no comboio do Cais do Sodré, os olhos extasiados na paisagem com abertas de mar; ou preocupados a discernir na lonjura o Forte de Caxias tão sozinho no meio da água. Não sei se pelos prisioneiros se por ele só, mas impressionam-me aquelas pedras de chão sempre batido de ondas e não me lembro de ter desejado a solidão do farol. Mas ontem. No mesmo comboio ou noutro semelhante. Faltou o coração aos pulos. Levava prendas e nenhuma para ti. Por isso elas normais, agachadas dentro de embrulhos desvitalizados. As tuas prendas acicatavam-me desde a compra (quantas vezes as desembrulhava antes de dar-tas!). Gastava a viagem a palpá-las, no medo que desaparecessem, imaginando o cuidado dos teus dedos de fuso a desprender a fita-cola para não rasgar, o oval puro das unhas sempre arroxeado; e depois o teu sorriso desvanecido mesmo se te oferecia um sem préstimo – não tenho muito jeito para escolher prendas; desculpa as vezes de parvoíce feita de amor esquecido que eras freira com hábito. Quanta vez te disse que gostaria de tratar-te na doença, ter uma cama onde te deitasses em minha casa. Desculpa, o meu coração queria mesmo era fazer-te minha. E não podia. Eras tão fiel à tua causa - a congregação - e ao teu coração doente que não contaste nem quando sofreste as minhas acusações injustas. Engoliste em seco, disseste que não podias. E não parei de te acusar. Até chorei, lembras-te? Então puxaste do teu imaculado lencinho de cambraia com perfume de alfazema e secaste-me as lágrimas, não chores filha, eu não podia, acredita. E eu puxei dos meus lenços de papel e assoei-me com estrondo.  E rimo-nos de tanto ranho.
Quando ia para ti, a cada estação, o coração acelerava. Descia no Monte Estoril e tinha de ficar um bocadinho a olhar o mar sem saber o que via, que não aguentava o descompasso e não seria capaz da subida. Saía da estação deserta, desligada de por onde seguir. Subia ao acaso, cruzando com turistas de mochila e mãos nos bolsos que me desconcertavam ainda mais; eu suava em bica fosse verão ou inverno, o coração a querer saltar não sei para onde, e eles, que eram estrangeiros, passeavam-se em descontracção e hábito. O Monte tinha lojinhas pequenas, mercearias de aldeia repletas de iguarias desconhecidas; entrava numa e perguntava pela tua rua. E ia subindo numa agonia alegre, a antever o teu sorriso. Várias vezes trovejou, o vento a roubar-me o guarda chuva – há-de ter sido lindo eu a correr atrás dele. Mas, chovesse ou não, quando chegava à tua porta tinha de parar de novo. A acalmar. Depois tocava e vinhas tu a sorrir, num dia destes, só podias ser tu, outra pessoa desistia. E eu quase ofendia com a tua suposição de que pudesse falhar-te um encontro. Abraçavas-me, tentavas alguma ordem no desalinho dos cabelos e palpavas-me os braços a avaliar a molha. E isso me bastava para recompensar todos os meses em que te não via e pouco me escrevias. Então, levavas-me à casa de banho para me secar e pentear. Mas eu não uso pentes e ficava como no colégio a olhar-me e a pensar que estava normal (eu que nunca o fui). Em seguida, pegavas-me pelo cotovelo e íamos as duas para uma salinha onde me deixavas a olhar para madres de princípio de século, muito compostas no vertical das paredes. Regressavas com um tabuleiro de coisas boas que eu devorava entremeando tentativas de contar tudo em afogadilho. Entretanto, ralhavas-me com brandura: que não devia andar sempre de calças, um dia ia a uma exposição com o meu marido, não podia ir assim vestida…e eu perguntava de boca cheia, em estranheza, uma exposição?! De quê? E pensava pra mim que estavas fora do mundo, eu não iria nunca a uma exposição. Se fosse, levaria calças de certeza. Hoje, penso que me sonhavas coisas boas. Que nunca contaste.
Obrigada por me leres a tua vida toda. Por me receberes como se uma mãe – sei, sou tua filha de coração. Por escutares todo o meu arrazoado palavroso. Por ouvires as minhas queixas furiosas. Por teres achado bonito o meu vestido de noiva que fui mostrar-te sem aviso, num dia de tempestade e vendaval e levei dentro de um saco que nem era plástico; tu a correres-lhe a simplicidade, é o teu estilo. Obrigada por me deixares estudar grátis no teu colégio. Por me teres dado guarida em Santo André quando ninguém me queria em nenhum lugar. Por me teres cedido o teu quarto quando não conseguia dormir com as outras estudantes. Por me teres dado emprego quando o médico me recusou o atestado, este ano ainda não pode trabalhar. Por, logo a seguir a esta notícia triste, me teres levado contigo a Paranhos da Beira onde me deixaste em gozo de férias. Como, então, sendo já madre, me ajudaste!  Não tem fim o meu obrigada, tenho a certeza que me fizeste grandemente como sou hoje.
Em quem é um não há separação. Mas bolas, que dói na mesma.

PS: E olha, afinal enganei-me; já fui a n exposições; quase sempre de calças:)
E, por uma boa causa, ontem fiz o teu caminho verde que tinha prometido a mim mesma não repetir.  Não foi o mesmo caminho. Nem a casa era a mesma. Apenas estavam no mesmo sítio.


Quem me dera que sejas feliz na eternidade.