quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Por vezes, mesmo durante o sono, a sensibilidade mantém uma atenção de relógio interior, antena captando pensamentos longínquos que a estremecem. Dentro da sonolência nocturna, os pensamentos são raios rasgando rios de silêncio.
E não há voz com admiração bastante para afirmar o milagre.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Azar


Todas as coisas têm a sua vez primeira. Por algumas esperamos anos a fio, esvaídos em cansaço que rodeamos de imprecações danosas, cacos de vidro a inibir a esperança. Não foi o caso. A primeira ópera aconteceu-lhe. Ou, completamente expurgada de casualidade, foi mera consequência do seu carácter: escolheu-a ao acaso e sem lhe saber o género, não buscou informação do que fosse e arrumou-a logo que o concreto da vida se impôs repleto de factos, e pessoas, e horas, e pormenores ínfimos batendo-se por um espaço. Sem razão, fixou um horário que não era e apôs-lhe a súmula: é trabalho de orquestra, há um maestro e tem momentos de canto, deve ser isso.

E hoje é o dia. Logo, imprime o bilhete, verifica o engano e parte em companhia, a calcular a demora da viagem, avaliando tarefas que deixou inacabadas e esquecimentos inevitáveis. O telemóvel. Por exemplo. Chega e logo as suas mãos circunscritas ao fogão, a preparar um agrado de paladar, gosto para si insalubre por  apressado. Parte de novo. Só. À descoberta. Muito pouco sabe de Mozart e também por isso o escolheu.

Como de hábito, chega sobre a hora. Senta-se esbaforida meditando naquele ansiado hiato de espera, o campo de hipóteses uma vastidão ainda em aberto. Ilumina-se o palco e surgem os elementos da orquestra. É um campo incrível o que as mãos transportam e treinaram na morosidade das horas, harmonia conquistada ao esforço, grácil suavidade com morada inscrita na persistência. Em tons de Inverno, acintosa face ao “casual” da plateia, a elegância das mulheres destaca. Usam traje longo, braços sombreados por ligeireza de véus que os homens acompanham de fraque, em rigor de pés que refulgem verniz. A entrada dos músicos esparge uma beleza vagarosa que a reanima. Caminham  sem pressas, o instrumento na sua frente, mãos em cuidados de flor a que a brisa insuspeita pode roubar pétalas. E vão tomando posse do lugar que habitarão em plenitude. Movem-se como se em vez do palco pisem nuvens e seja ali o Olimpo. A plateia não lhes existe. No lugar da muita gente erguem uma parede, concentram-se, isolados na função. Ela anota que se vão entretendo, murmúrios surdinados de um a outro, gestos de endireitar pautas e brevidade de acordes soltos, aqui e ali um sorriso para alguém do outro lado do maestro, ainda ausente. Pensa, estão a reconhecer-se como parte de um todo, a imbuir no papel.

A plateia olha-os expectante. Quem sabe, curiosa. Ou apenas distraída, aquietando-se. No ar, o som morno de vaga vai subsumindo na proporção directa dos pés em descanso. Se olharmos, pensa ela, estamos todos a existir entre a cabeça e a cintura; os mais baixos, talvez só a partir do peito. Porém, o maestro interrompe-lhe o delírio. Faz uma entrada sob palmas, cumprimenta, as luzes baixam incompreensíveis e o silêncio condensa, qual matéria. A um sinal seu, a música cresce e caminha sobre ele, avança alcançando as pessoas, a rodeá-las. Forte. Concêntrica. E ela revive o tamanho da saudade, sente-lhe o princípio de morte no prazer da harmonia que irradia.

Pensa no Mozart de Amadeus de que só viu o início e entende-o ali, em afirmação furiosa de vida, trocista, talvez até um pouco ingénuo. Ainda tudo é possível, não sabe que é uma ópera, ignora-lhe a história, desconhece o francês que a escreveu.

Mas não a move como a música sozinha. No belcanto ouve estridências que não são e lhe repugnam. Terá má vontade. Preconceito. Está armada contra ele. Contudo, salva-lhe o canto mais saudoso. Ou o mais infeliz, talvez. São ambos suaves. Que os agudos doem por dentro, esgatanham-lhe a cabeça até à dor física que não pára.

Sai zonza e apalermada para a noite, a respirar golfadas de poluição que lhe surge purificada, o barulho do trânsito numa toada agradável. Lisboa fecha-se em casa e recebe-a deserta de gente. Nos automóveis, pessoas ajeitadas em conforto, a enxotar o frio da noite que a si apraz. Sorri ao passar junto a uma casa apalaçada, a brancura translúcida de cortinas a resguardar indiscrições. Como será o espírito de quem vive imerso nesta beleza quotidiana, que preocupações escarafuncham a mente de tais pessoas. Pára um momento, admira-lhe a harmonia de linhas, o bom gosto da arquitectura de pormenor, o seu ser acabado e airoso de solar em serventia. Apetece-lhe atravessar a rua de novo, aproximar o rosto das grades, ficar ali a espreitar-lhe um jeito familiar esquecido, um sinal de humanidade que se lhe escape do hermetismo e garanta que não se plantou ali por magia, caída do nada, a espantar quem a descubra. Ah! Poder investigar-lhe o sinal inequívoco de não ser a casa encantada da floresta de betão que se esvai pela manhã. Mas, em vez disso, mergulhou na boca escancarada do metro.

 Dirá mais tarde das bodas de Fígaro, “Gostei; já vi uma ópera”. Contudo, bem o sabe, é diacronia a não repetir.  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Princípios fora do Verbo

A senhora Natividade levantava-se ainda a noite colava ao vulto das coisas, insinuada por dentro de arbustos e arvoredo, a cravejá-los de susto. Nessas horas roubadas ao sono, cirandava pela cozinha numa azáfama de lumes, pequenos-almoços de faca e garfo e lancheiras do dia todo. Ali se cruzavam cheiros e, se alguém  batesse, ficaria com a ideia de um restaurante a girar na sua órbita. Mas ninguém batia tão cedo e Natividade desencardia a manhã ao ritmo do corpo, puxava-a de dentro da noite até a claridade ser tanta que não houvesse volta atrás.
Talvez que por vezes o marido se demorasse a olhá-la em combinação admirando-lhe os redondos de ser mulher. Talvez uma rendinha singela no decote sobre a brancura da pele virgem de sol. Mas custava pensá-la feminina, coquete. Natividade nascera composta e generala, o avental escuro sobre o pardacento da saia comprida, cabelo esticado no carrapito que dois ganchos de tartaruga repuxavam. Imaginá-la remelosa ou despenteada desfazia-lhe o rigor da figura acutângula, e a voz de gritar sentido não desmaiava ternuras por filhos e netos. E menos se desfaria por outras condições.
Quando batiam as nove e a escola começava, Natividade já não tinha ninguém em casa, as camas estavam feitas e a loiça lavada, os animais tratados e o grão ou o feijão do almoço da cantina já fervia no caldeirão. A professora vinha receosa do cheiro a fumo, estendia as mãos ao calor e deixava-se ficar quieta, a distância do crepitar. Entretanto, uma Natividade afogueada e de braços ao léu até ao cotovelo, reinava: mexia o caldo e acrescentava-o a entornar água fervente de uma panela auxiliar; de seguida, rodava em volta do fogo a alimentá-lo daqui e dali e a pô-lo por igual. Por vezes, a professora deitava para o caldeiro as suas desditas de mulher de família aperreada e Natividade mexia tudo junto, um braço sobre os olhos a proteger-se do quente que lhe humedecia o rosto vermelho, a colher de pau numa fona. Nesses dias,  as crianças diziam que o almoço sabia melhor. Ela olhava a professora miúda nos saltos altos e pensava que o desgosto fervera e apurara sobre o brasido. A professora em voz baixa, ainda bem que conversámos Natividade, estou mais aliviada; e ela para si, mas eu nem abri a boca. Natividade desconhecia o prazer de ser escutada, não se dava conta do bem que fazia à professora. Mas a mestra saia aliviada. Possuída de alma nova, desaparecia no interior da escola e  enchia o quadro de gatafunhos que Natividade não entendia. E as horas fugiam enquanto os gaiatos aprendiam a ler, escrever e contar e ela labutava no almoço.
Mas, quando o caldeiro ronronava em lume mortiço, a refeição a ganhar sabor em demoras de brasas a esmorecer, Natividade permitia-se um enlevo antes do pôr das mesas. Pousava a colher, ajeitava o braseiro sob a panela e saía a visitar as suas flores. Dava-lhe os bons dias, media o crescimento e os rebentos novos, verificava eficácias na rega da véspera, endireitava um tronco que arrumara a um brinco de princesa. Nessa hora, os olhos deixavam cair a lixa e eram mel, ternuras debruçadas e explosivas até para os malmequeres de palha e a sua inteira aspereza de pétalas. E quem passasse na estrada e se atardasse invisível, que ela não apreciava que lhe palpassem as fraquezas, assistia-lhe a doçura das mãos a tactear como cegas retintas a corola das bocas de lobo, a maciez dos veludos, ou o nácar das rosas de santa Teresinha.
Passou pela figueira carregada e atentou nalguns figos, um pingo de mel a coalhar dependurado. Pensou que, finalmente, estavam no ponto, bons para a apanha. Parou no muro verde de arbustos e estava passando a mão na verdura a desculpar-se pela garotada que lhe chupava os rapazinhos, quando uma mulher gorda, saia muito  ampla e redonda, parou a olhá-la, uma garotita enfezada pela mão, lembra-se de mim? – e sem transição – Moro na Caseta Roubada – apontando a miúda – esta é a minha mais nova, chama-se Luisilda. E uns olhinhos vivaços e azuis, uma boquinha de riso aberto, o nariz ranhoso. Natividade olhou-a e, não queres uns figos? Os olhitos azuis reanimados. A mãe às cotoveladas, vai lá buscar, vá… E Natividade a colher os primeiros frutos, mão estendida à fome, anda cá, come aqui sentadinha enquanto eu converso com a tua mãe. E enquanto a garota os devorava, ela fiel ao seu ser natural, um olho na velocidade da mastigação, pois é…pois é…

À tardinha, na hora da rega, o ti João admirado, então os figos? E ela num desprendimento, passou aí aquela da Caseta Roubada com a miúda cheia de fome e olha, dei-lhos. Aquilo é uma desgraça pegada. Mas por que é que estas mulheres têm filhos?! Mal se segurava nas pernas, aquele corno, Deus me perdoe. Levou a miúda à vila e nem assim. A desgraçada só cheirava a aguardente e não dizia coisa com coisa. Malvado vinho.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Fenómenos

Ainda hoje, se leio uma notícia do Entroncamento, vem-me a nostalgia dos fenómenos que dantes se narravam, ocorrências inéditas a que eu dava a competente imagem. O Entroncamento acompanhou-me a meninice, cresceu-me no imaginário e fê-lo crescer. As minhas tia-avós e avós propriamente ditas contribuíam para o aparato acrescentando sem cessar a lista, num diz-que-diz em que eu cria piamente, duvidando apenas do espaço para tanta desnatura e construindo mentalmente um lugar de conto horrível onde a cada esquina espreitava um portento único e disforme. Por muito insignificante que a localidade seja, a meus olhos há-de ter uma beleza toda outra da desproporção que criei baseada no linguajar das velhas que me fizeram a infância.
Pareceria fatal, mas nunca sonhei com o Entroncamento. Ali nasciam pessoas com duas cabeças; homens com quatro braços e que para mim nunca tinham sido crianças; gigantes que não cabiam nas casas e era uma maçada para a família acomodá-los, a subir paredes e telhado à medida que iam crescendo; maçãs do tamanho de melancias. E um nunca acabar de outros seres descomunais vindos do reino vegetal, que me faziam desconfiar do solo. Não contentes com as desgraças que contavam – os fenómenos humanos eram todos deformidade –, elas, a voz a apequenar-se, compraziam-se em comentários de pena e dor d'alma, dirigidos sobretudo às coitadinhas das mães e empregavam num ai todos os aleijões. Era assim, sem qualquer intenção, que as mulheres resolviam o problema da falta de espaço no Entroncamento: o circo levava-os. Para mim, estavam encerrados nos carros e roulotes, proibidos de espreitar às janelinhas para não assustar as pessoas. E inventava uma história de escravatura à medida da enormidade de tendas, palco e bancadas, de inspiração Enid Blyton, “Os cinco e o circo”, onde havia um homem  mau carácter.
Mas o que verdadeiramente me desapontava era o aziago dos fenómenos a embicarem, universais, para o epicentro. O Entroncamento, segundo as minhas fontes bisborreicas, saía sempre no jornal e o nosso lugarejo reduzido a um “nunca por nunca ser”. Não me soava justo. Resmunguei esta queixa para os outros garotos, mas não lhe pegaram e quando pedi que se lembrassem de alguma coisa anómala remataram e deram nó, “vamos jogar às escondidas, ficas tu a contar”. Em função do desinteresse e ingratidão  geral, desisti de encontrar fenómenos e trazer à ribalta a nossa terrinha pequena.
Porém, quando tinha uns treze anos, fui, em visita de estudo, a Lagos. Pela primeira vez, observei um fenómeno da categoria dos que as velhotas contavam. No museu, completamente embebido em formol, branco de ácido e dentro de um frasco, um vitelinho com duas cabeças. Adiantei que seria do Entroncamento, mas as professoras e as minhas colegas apenas riram. Quando inquiri a professora de Ciências sobre as razões do formol ela retorquiu que quase sempre, nos casos de deformação profunda, os animais nascem mortos ou morrem logo após e conservam-nos assim durante anos e anos. O meu mundo fenoménico vacilou profundamente: fenómenos mortos nem eu sabia que existissem. O drama da realidade factual de qualquer fenómeno, desmontado sob o meu nariz, fez-me entender a sua violência física; uma violência que podia arrebatar a vida. Da violência psicológica, sabia nada. Mas nesse momento, abençoei o meu lugarejo vulgar, repleto de gente e factos comuns.

Então, “a mulher que voou” era imprevista. Mas todas as histórias começam pelo princípio. E o princípio é a infância. O da mulher voadora foi, indubitavelmente, esse.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A neve cai em estrela...ou será em flor?!

Chegou-me assim, enregelada dos frios, branca de cal. Olhei numa incompreensão os seus cabelos de arabesco, desalinhados na definição do rosto. Estendi a mão, toquei-a na vontade de um abraço protector, do alinhamento impossível dos fios transidos a escorrer-lhe a pele. Então, na ponta dos dedos, senti a retracção involuntária, o calor morno a esmaecer na lisura do seu toque macio. Moldei-lhe a face com a mão, lentamente, num gesto quase grato pela enigmática presença. Observei-a longamente, atento, buscando familiaridades, o coração sincopado, a desejá-la e repeli-la em cada batimento. Fechada em ignaro mutismo, ressumava uma frieza talvez desdenhosa. Mirei-lhe a altura dos saltos, a elegância de capa, a harmonia singela das linhas. Linda, sim. Mas tão unicamente frágil! Se eu quisesse destruía-te, pensei. De seguida, emendei o tempo da acção, se eu quiser amarfanho-te o ego; se me apetecer, elimino a tua clara distinção. E logo depois, a reparar-lhe o jeito cândido, de entrecortada novidade, não sou capaz, não consigo erguer muros altos entre nós; são paredes de palavras, desaparecem sem rasgão. A reconhecer o meu estatuto falso, a minha força fraca, se tu abres um sol, desmancho-me. Derreto.
Sentei-me na sensação de quem está no hall, em espera ansiosa, antevendo nada. Entretive-me a imaginar-lhe o fogo interno, qualquer lume que, sem queimar, lhe alimentasse as combustões e aquecesse o sangue. Persisti na imagem, tinha que ter sangue e órgãos internos e circulações e coração. A sua palidez escondia vísceras, sentimentos, pequenos tiques quotidianos. Nela cabiam palavras inóquas e sagazes, as ternuras da seda, mas também o risco da unha no vidro. Reparei-a mais uma vez e já me convidava, chegada, quem sabe, do seu lado familiar. Ou talvez eu lhe tivesse lançado uma ponte e assim a fizesse próxima. Talvez.
Então, numa angústia incerta, tomei-a a mãos ambas e perscrutei-lhe o rosto. Ficámos assim, frente a frente. Eu a buscar-lhe  a alma absolutamente impenetrável.  Ela, impassível e paciente, no mesmo desafio mudo da chegada e que agora me surgia diferente: toma-me, aceita-me. Eu meio débil, quase a capitular ao desconhecido. A saber que é em mim que a rasgarei. A despi-la da capa e procurar-lhe o incognoscível da presença adivinhada.

Depois, tapei-a brandamente, o envelope agasalhando pudores. E saí para o incrível do dia, a meditar na humanidade de S. Tomé, acredito se.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

"Andar à bossa e ao ganhoto"


As coisas que a gente encontra por este Alentejo de Deus! Bom, neste caso é apenas nos meus dossiers de memórias. Memórias de projectos tecidos em conjunto entusiasta. É bom relembrar verdades que não passam, onde estamos hoje como ontem. Inteiros.

Dantes, em todo o Portugal, mulheres e crianças “iam à lenha” No Alentejo, “ia-se à bossa e ao ganhoto”. “Andar ao ganhoto”, ao contrário do que o dicionário indica (rebento frágil de figueira, podado geralmente no inverno), ou, quem sabe, por causa disso, quer dizer “apanhar pequenos pedaços de lenha”. Talvez já não precisemos de “andar à bossa” (apanhar lenha miúda e pequenos ramos); talvez todo o calor, ou quase todo, seja hoje instantâneo e imediato, eléctrico, postiço, sem ter por dentro o esforço de procurar por pinhais e montados a lenha deixada para trás e que alimentava lumes caseiros. Porque não se acendia a lareira. Fazia-se o lume. E é verdade que fazer o lume não é acender a lareira. Há todo um trabalho concentrado na expressão “fazer o lume”, um tempo que é das mãos e do cuidado. Porque o lume não há. Faz-se. Valor da força artesanal que é também arte. Se todos sabemos acender uma lareira, nem todos sabemos “fazer lume”. Um lume exige ter andado à bossa com critério, ter trazido um feixe de lenha à cabeça e umas pinhas de braçado. E chegar exausto, mas feliz do calor que há-de ser e se trouxe para casa. Lume é lenha partida por nós, ganhoto a ganhoto, uma arte de misturar e dar a cada tronquinho pequeno o seu lugar. O lume só “pega” se for construído como se de casa se trate.

Haja quem procure os ganhotos de acender os lumes do nosso contentamento. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Cartas para Olívia

Olívia


            És tão, mas tão previsível!!! J)
            Ligaste a agradecer a prenda. Nem tanto para agradeceres, mais para auscultação de preferências. Queres pagar. Logo tu, que nunca me deste nada. E agora desejas retribuir. Mas pontos dados de coração não se retribuem senão com a mesma moeda. O caminho para ti já nem existia. Nunca existiu senão em mim mesma. Tu deixavas-te ir, embalavas na minha amizade.
            E não. Não quero um presépio. Disse-to. Um Menino Jesus de muito ano faz-me os natais da vida. Sorriu-me de uma montra, no Porto. E logo senti que sem ele não saberia o caminho de volta. É o meu tudo de presépio. Parece-me mal acrescentá-lo, queres o quê?! É um Menino autossuficiente na sua manjedoura de palhas penteadas e risca ao meio, o rostinho rosado a sorrir ternamente a quem chega – que o ponho logo na mesa de entrada.
Necessito apenas dessa figura etérea, mãozinhas de refego e manicura perfeita a entreabrir. Se tenho saudade de haver natal, desembrulho-o e desvaneço na sua perfeição de porcelana. Há nele uma infância delicada, um abandono confiado que comove e ajuda a continuar.

Que o Novo Ano te sorria.