segunda-feira, 11 de abril de 2016

"No Tempo da Escola"

 No dia seguinte, apesar da pouca atenção que dávamos a bebés, enchemos Lídia de perguntas sobre a sobrinha. Queríamos desviá-la, reter-lhe o entusiasmo na criança fazendo-a esquecer que não podia acompanhar-nos. Em mudo acordo, temendo zanga ou tristeza, eu e Luís não aflorámos o assunto e empenhámo-nos em dar guita à novidade familiar. Mas a dada altura, olhou-nos de alto e resmungou, não me dizem nada, se calhar pensam que eu não sei que vão os dois com a professora. Depois alteou o seu nariz de embirrância e atirou, parvos, pensam que vão fazer o quê, vão é trabalhar; não me importo, quero lá saber, fico a tomar conta da menina, que é muito melhor. E adiantou caminho. Como se nós escravos e ela senhora.
Depois, faltou à escola por uns dias e poupou-nos  a mais embaraço. Em mim, a certeza da sua inveja engasgava, era pedra a pesar. Mas, apesar do sentimento que remoía, eu conhecia a sequência, sabia que Lídia havia de negá-lo até ao infinito. A mãe dizia dela, teimosa que nem uma mula, capaz de fazer das tripas coração só para levar a sua avante. E eu, debaixo dos seus olhos de insolência e por dentro da insurrecta teimosia, esforçava-me para não a magoar. Porque a gostava. Mas também porque a admirava e reconhecia; ou porque as relações amistosas me eram mais agradáveis e temia as suas incursões bélicas que fertilizavam por mim adentro  e abriam em invariável ferida. Era como se, a cada discussão, ela entrasse de faca em punho e eu só desconhecesse o lugar onde desferia o golpe. Por vezes, Lídia acendia-me os alertas e sabia pôr-me em estado de sítio.

Mas na véspera da subida a concelho, frente ao enorme carro da tropa parado à beira da escola, tudo se nos varreu. Em casa, as mulheres que não trabalhavam ao campo respingavam de preparativos e agradeceram o dia sem horário escolar. Aproveitaram para arejar e passar camisas e fatos, engraxar sapatos, preparar gravatas e chapéus de homem, banhar os garotos e fazer a barrela. E nós, os oito escolhidos, prostrados na admiração simpática dos tropas que só víamos diariamente a correr em formatura, estrada abaixo e acima, suados e exaustos, a mando de um chefe mal disposto  que lhes gritava impropérios. Seguiam em passo de corrida que atroava no alcatrão, as velhas na beira de estrada a benzerem-se condoídas, coitadinhos, olha como eles estão. E depois olhavam-lhes as botas que largavam lama a cada passo, vêm todos sujos, aquele coiro deve-os ter obrigado a entrar nalguma vala cheia de águas podres. E envolvendo o corno branco que traziam atado ao pescoço, rogavam-lhe vingativas pragas. Se as crianças davam costas, elas com mão de sinaleiro, esperem, ainda faltam os do atraso. Os mais inábeis chegavam depois, sem garbo e a passo descomposto, moídos de desalento.  Nos olhos, boiava-lhes a tragédia solitária de quilómetros por andar que o deus-dará da arma sublinhava. Seguiam mudos, passeio fora, a confrontar-se com a teimosia de alça insegura, o peso da arma caindo da  lassidão do ombro para o braço esmorecido. Mas eram os preferidos, a desgraça sempre se irmana; havia nas mulheres um desejo de ajudar que as contentava e era degrau, situava-as acima da miséria deles. Diziam aos netos, vai lá buscar um copo de água, traz a carcaça que está dentro do saco do pão. Certa vez, um soldado coxeava de tal modo que se sentou no valado à beira da estrada, poisou a arma e, com dificuldade, descalçou as botas. Aqui e ali, o sangue abria rosetas na brancura dos pés. As tias velhas curaram-no misturando exclamações piedosas e mercúrio passado nas feridas com uma pena de galinha, enquanto a  força do imaginário infantil trabalhava na pele tocada por tal suavidade, ignorando dor e carne viva. De seguida, entraparam-no com pedaços limpos de rodilha. Para a carne viva não bater nas botas, diziam. Mas quando o pobre tentou calçar-se, não lhe cabia nas botas o inchaço dos pés pensados. E as velhas desfizeram o curativo. Então, o Luís ajudou-o a calçar e a levantar-se, enquanto as tias desviavam olhos lastimosos e sopravam para dentro, fsfsfsfssss.... . O meu amigo carregou-lhe a arma e foram-se afastando devagar.  Cá atrás, as velhas choravam-no longamente, amaldiçoando a tropa e rezando por cura rápida e castigo suave. Junto à curva, pararam os dois e o soldado esvaneceu, enquanto o Luís ficava maior, maior, até ser ele e estar junto de nós a ofegar. E ainda as tias num murmúrio, a limpar lágrimas à ponta do lenço de cabeça, coitadinho, mal sabe ele o castigo que o espera. E depois voltavam,  como é que vai chegar ao quartel, tem os pés que nem os do crucificado (e repetiam o sinal da cruz). E o Luís ao meu ouvido, não digas a ninguém, mas ele ia a chorar que eu vi.

domingo, 10 de abril de 2016

"No Tempo da Escola"

No dia seguinte, pusémos entre parentesis preocupações quotidianas. Ninguém abordou o estudo de lições, os trabalhos de casa, as tabuadas por saber. Esquecemos mesmo os jogos habituais, o sádico rodado de piões suseranos e em gume que, por entre apupos e incentivos  galavam os mais fracos marcando-os em aleijões de perversão, cada um transferido para o brinquedo, a levar e a dar, a sofrer na pele os dichotes e a infligi-los até à morte por inércia natural ou provocada. Não jogámos o elástico surripiado às cestas de costura maternas e ficámos em grupinhos a antever o futuro, os elásticos em admiração ao desusado, a fazer beicinho, não nos querem. Olvidámos sovas e dissabores caseiros que mostrávamos uns aos outros como feridas de batalha, olha o que me fez, apalpa aqui, qualquer dia ainda me cega e depois vai preso.
O raciocínio apossara-se de nós, tomara conta da esperança engalanada no dia anterior e dissolvia-a em realidade adversa, retirava-lhe as cores uma a uma. A razão, que umas vezes repele e outras atrai, enviesava-nos as ideias. Ensimesmados no caminho que esperava os eleitos por um ditado metódico, antevíamos o pesadelo de vários quilómetros a carregar tanta flor de papel. Os mais inventivos atreviam-se a propor técnicas que passavam de grupo em grupo adendadas de sugestão e não serviam a ninguém. O excesso vergava-nos, a certeza de tarefa incomportável mantinha-nos cabisbaixos. E, enquanto eu desistia mentalmente, sem saber como  dizê-lo à professora, a maioria das crianças arrefecia na aspiração. Quando o automóvel se aproximou da escola, mais temíamos do que desejávamos ouvir pronunciar o nosso nome, desejávamos um erro inadvertido a eliminar-nos. E eu acendia a ténue esperança de ser derrotada pela caligrafia.
            Na azáfama de nos tornarmos viáveis no transporte das flores, nem dera pela ausência de Lídia. Quando a professora fez a chamada, Luís respondeu sério, minha senhora ela hoje falta, vai ver a sobrinha ao hospital. Voltei-me inquisitiva e os olhos dele um lago: correu tudo bem. Subiu-me um fundo de remorso por tê-la esquecido, mas abafei-o na ansiedade de saber que a professora ia chamar-me para carregar um ror de flores estrada acima. Disse para mim que tinha coisas importantes a tratar, que ela estava bem, que também não ia lembrar-me naquele dia de diferença que incluía um hospital, uma sobrinha, quem sabe, médicos de verdade. Mas o meu fundo não se calava, é tua amiga, como é que a esqueceste. E enquanto embebia neste conciliábulo de mim comigo, a professora começou a divulgar os seus acompanhantes e disse-me o nome. Maria Laura acotovelou-me e ciciou com uma pontinha de inveja, foste tu que ganhaste mais o Luís. Alquebrei de imediato, sabendo-me incapaz de tanto carrego e sem coragem de me chegar à secretária para a verdade ou uma mentira que fosse. Pensei no Luís e em Lídia, tudo os fazia mais fortes e ousados que eu. Luís era cheio de expedientes e boas ideias. No dia em que, por castigo,  a professora mandara fazer cinquenta cópias de uma página cada, com abecedários data e nome, ele deitara-se ao trabalho, o despertador à frente do caderno e do livro. e foi o único a cumprir tão selvático castigo, a salvo da fervura da régua. Não animei a estes pensamentos. Eu não era Luís nem Lídia. Cogitei que poderia faltar à escola nesse dia. Mas havia um contra: tinha uma pena enorme de não aproveitar o passeio, balançava entre o carrego impossível e a minha vontade de participar naquela alegria de novidade. Fiquei a matutar sem conclusão segura até ao intervalo, enquanto a professora bla, bla, bla, desfazia dúvidas e clareava ideias acerca da manhã em que a maioria ficava em casa e alguns iam de visita especial à vila.
Em todas as idades os homens constroem os seus equilíbrios temporais, os períodos de descanso a contrabalançar e regular o trabalho. O mesmo acontece com as crianças: as tarefas escolares equilibram com os intervalos. Facto que só entendi quando entrei na escola. Antes, quedava-me esbugalhada face à barulheira de cada intervalo, garotos em ondas de braços e pernas e as tias velhas num meio sorriso, parecem touros desembolados. Talvez hoje não seja igual, já não exista a evasão alegre e barulhenta da  liberdade, mas quero crer que os intervalos são o espaço vital onde a infância busca a força que falta. A verdade é que saíamos da escola em dois tempos distintos. Até à porta, éramos  pausados e ordeiros; mal púnhamos o pé no pátio, desatávamos a ser outros, mordia-nos não sei que bicho e deitávamos a correr como se fossemos salvar vidas. Esse movimento espontâneo reintroduzia-nos na infância, reapossámo-nos nele, era o nosso modo de cavar distância entre intervalos e períodos de trabalho. Um movimento salvífico. Nessa manhã, Luís, em vez de se dirigir para o pátio dos rapazes, veio andando, calmo, na minha direcção e perguntou, já andaste num carro da tropa?. Olhei-o sem compreender, o quê? E ele, nunca andaste, pois não, eu também não, mas estou desejando. E afastou-se em corrida desabalada.

Só no intervalo do almoço perguntei  como é que se ia arranjar para andar num carro da tropa. Ele olhou-me meio trocista e, bem me parecia que não estavas a ouvir nada; a professora disse que um carro da tropa vem buscar as flores e a gente. 
Pasmei de contentamento.  

terça-feira, 5 de abril de 2016

"No Tempo da Escola"

Entrámos na sala e o armário das flores abarrotava, as portas de vidro incapazes de segurar aquele jardim sem precedentes. Luís seguiu-nos a admiração e bichanou quando passámos, estive a contá-las, já ali estão mais de mil. Escancarei os olhos, então mil flores era aquilo. Como é que mil flores cabiam ali, na minha cabeça mil era uma quantidade de coisas a perder de vista, tinha imaginado a aldeia submersa em flores e afinal, acamadas umas sobre as outras, cabiam no armário grande. Lembrando a dúvida, parei e  perguntei-lhe, o que é subir a concelho? E ele, não sei muito bem, deve ser uma coisa, o meu pai disse que o concelho estava na outra vila e agora vem para aqui, é porque é uma coisa. Mas a professora interrompeu-nos a lógica, deixem-se de conversas. Maria Aurora, para o lugar se faz favor. Desandei sem entender a razão da professora me chamar Maria Aurora e não Bia, como toda a gente. Revi Lídia a imitar-lhe os movimentos de lábios quando fazia de professora, Maria Aurora, cuidado com a acentuação.  Mal me sentei, a mestra bateu a régua na mesa,  pediu que até final da semana entregássemos as flores que faltavam e avisou que, na semana seguinte, escolhia dois alunos de cada classe para irem com ela entregar e pendurar as flores no recinto da festa. Em poucos segundos, a escola pejou de cochichos, vozes ciciadas e pouco originais que desejavam, Deus queira que me escolha a mim, Deus queira que me escolha a mim.
            Os dias passaram devagar para a nossa expectativa. Primeiro o armário extravasou de flores; depois, foi a vez da chaminé parecer um vaso primaveril; por último, o canto esquerdo da sala de entrada onde pendurávamos lanches e casacos, mudou-se em canteiro garrido. Passou o fim de semana, e a professora sem escolher. Na segunda feira todos esperávamos o anúncio, mas ela silenciou. E na terça, a sentença: ia fazer um ditado a cada classe e escolhia os dois alunos com ditado melhor; Avaliava  erros e caligrafia. Não houve, nem antes nem depois daquele dia, atenção mais extrema ao fazer do ditado. À vez, vi alunos arregaçarem mangas em dobras atentas, como se os esperasse um trabalho pesado mas minucioso; observei os garotos da primeira e segunda classes, que ainda faziam ditados a lápis, em trabalhos de afiador concentrado e borracha pronta; reparei nos da terceira e da quarta em balanços de tinta,  experimentando canetas e verificando aparos; as raparigas de cabelo comprido verificavam ganchos e elásticos e, as que não o tinham apanhado em trança ou rabo de cavalo, davam-lhe um nó para não incomodar; as que usavam cabelo curto, apressavam-se a lançar atrás da orelha uma ou outra mecha mais rebelde. Quase todos tínhamos as mãos suadas e quem usava um trapinho ou lenço de assoar limpo puxava-o à lide, limpava-se e emprestava-o a quem quisesse. Os parceiros desejavam-se mutuamente sorte enquanto organizavam a carteira com o método de um general em campo de batalha. Eu e Lídia rememorávamos o acento circunflexo e o grave, em segredo de estado, por meio de papelinhos dobrados que passávamos uma à outra. Em redor, todos bichanavam dificuldades e consultavam o livro a confirmar grafias a que eram mais avessos. A regra era clara: em todas as classes o livro era aberto ao acaso e só havia conhecimento da lição escolhida quando a professora ditasse o título. Cada um fazia o exercício em folha própria que a professora colectava para levar consigo e corrigir em casa. De tão grande aplicação resultou uma sala soterrada em esforço e cansaço que se desprendiam do amplo conjunto de bochechas a avermelhar e que expandiu, no final do ditado, em audível suspiro de alívio.
Mais tarde, a caminho de casa, abrimos o livro para a verificação e parámos na berma da nacional em grupinhos pequenos,  o dono do livro a seguir as palavras com o dedo e meia dúzia de cabeças debruçadas para as letras, enquanto um ou outro ia balbuciando tristezas de erros e acentos. Algumas crianças auto excluíam-se de imediato, abandonavam o grupo de cabeça baixa, a mala esmorecida a bater-lhe nas pernas e saía-lhes o desalento, já não vou. Lídia era um conjunto à parte. Silenciosa, desinteressara da verificação de erros e estugava o passo,  desejando chegar e saber da irmã. Eu e Luís acenámos-lhe e continuámos cá atrás, em passinho tagarela,  a fazer planos para o desconhecido, íman que o imaginário infantil  não se cansa de agradecer.  

Não saberia dizer como, mas antes da professora ver os ditados e eu ver o livro, antes do Luís alvitrar, soube que ia acompanhar a professora.Talvez por palpite sem importância, premonição de cacarácá. Ainda assim,  uma certeza. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

"No Tempo da Escola"

Retorqui-lhe coisas palermas de que me lembrei e não faziam qualquer efeito como, tens que ter, sou madrinha dos teus filhos. Ou, já escolheste os nomes, não te lembras. E ela convicta, a abanar a cabeça em negação reiterada, por entre soluços e caça-rapazes espontâneos que lhe estremeciam na testa e junto à face num apego gracioso, não namoro... não me caso... não tenho filhos.... Estendi-lhe o trapo já molhado, olhou-o displicente e limpou-se na sujidade da manga, deixa, não é preciso. E tirou-me a mala da mão. Ainda sem compreender, tartamudeei, o que é que foi. E ela voltou-se como uma fera e apostrofou como se eu fosse a exclusiva  culpada e estivesse safa de complicações, foi que a minha irmã andou dois dias a gritar com dores e eram gritos de aflição. Fui lá e vi-a, não dormiu duas noites e dois dias inteiros, Bia. Parecia que ia morrer. Tu sabes que mijar não custa, mas olha que é pela passarinha que os bebés saem, já viste o que deve doer?. Disse-mo assim, de chofre. E pôs-se a olhar para mim feita pítia oracular, toda imbuída em estranheza e compenetração. E eu aparvalhada, a mente numa desfilada confusa, a tentar integrar os dados novos, imaginando horrorizada os interstícios daquela verdade. A novidade foi tão aguda que me trespassou e senti mirrar as carnes. Um calafrio percorreu-me o corpo e tive saudade ao tempo de bebés vindos de Paris, não me apetecia saber mais, as verdades adultas que esperassem. Mas não fiz um gesto. E nem Lídia esperava resposta.  Em parte porque a confidência lhe aliviava dor e estupefacção próprias, em parte por verificar que o poder das suas palavras sobre mim lhe dava supremacia, continuou,  a parteira velha não se entendeu com ela, cá para mim não sabe nada de nada.  Primeiro mandou-a andar “para desenvolver”, vê lá bem que andou dois dias inteirinhos “a desenvolver”. Depois, com o aperto das dores ela já não era capaz de andar e só gritava. Foi quando a deitou na cama e já não me deixaram ver mais nada. E olha, daí a umas horas  o sangue que havia nos lençóis era uma poça comprida e, de certeza, já estava o lençol todo molhado em volta dela que eu bem vi como a cama ficou. Aí a minha mãe assustou-se, deu um encontrão na velha e mandou o meu pai à loja do Telha para chamar a ambulância. A minha irmã estava branca como a cal das paredes, disse a minha mãe – e rematou com raiva e desgosto -. É uma merda ser mulher, Bia; o meu cunhado andava lá aflito, mas não lhe doía nada. Depois do desabafo sossegou um bocadinho e raciocinou, como é que a gente não pensou nisto Bia, somos mesmo muito parvas, então os filhos saíam cá de dentro e não doía?! Enquanto ela descarregava aquela tristeza enraizada – as tristezas e dissabores de Lídia eram assim, cheios de raiva e raízes fundas que eu não entendia – eu primeiro aterrorizei, os pêlos de pernas e braços num dramatismo erecto e involuntário. Mas de seguida me impus imaginar alternativas que nos extirpassem àquele calvário conservando as festas de baptizado, os nomes escolhidos, o parentesco que encontráramos para ser família uma da outra. Lancei-lhe, e se comprássemos um. Deve haver pessoas que vendem bebés...e ela já na passada habitual, a gente depois pensa as duas que é melhor. Depois voltou-se para mim e garantiu, digo-te uma coisa, Bia, juro que  ninguém me apanha atrás da tua barraca outra vez. E depois meio intrigada, tu achas que Deus me guardou?! E eu tão crédula como ela, se calhar foi o teu anjo da guarda. E entrámos na escola compenetradas da  invisível protecção, completamente esquecidas do que fossem as benesses ou a subida a concelho.

"No Tempo da Escola"

Depois, a professora distribuiu três moldes a cada fila e mandou desenhá-los e recortar, ensinando a economizar papel. Cumpridores entusiastas e em ânsias pelo seguimento do jogo, passámos os moldes uns aos outros. Por fim, trocámos entre nós as sobras dos recortes e cada um fez uma espécie de alfinete de cabecinha modelo XXL. E em seguida montámos uma flor farfalhuda atravessada bem a meio pelo nosso alfinete de cabeça gigante e atámos tudo com um fio transparente. E todas as flores ficaram lindas, até a minha. Nessa altura, a professora deu a sessão por terminada e arrumámos o material. Entregou uma extensão de fio a cada um e pediu cinquenta flores daquelas por aluno, feitas em casa, prometendo papel e fio quando necessários. Aconselhou os pais a  desmancharem as nossas flores para fazerem novos moldes e entenderem a técnica. E deu-nos duas semanas de prazo.
À tarde, saímos floridos e palavrosos e seguimos estrada fora numa auréola de satisfação nunca vista. Eu e Lídia combinámos fazer os nossos moldes em minha casa a partir de uma caixa cartonada que andava na barraca. E Luís resolveu inflectir para a mercearia a fim de convencer o ajudante de merceiro a dar-lhe duas caixas velhas de soquetes para fazer os seus. E foi um nunca acabar de flores. Inexplicavelmente, o mundo feminino mobilizou-se por inteiro, mães, tias avós, madrinhas, vizinhança chegada. E era ver as mulheres sentadas às portas pela tardinha, o moxo baixinho tapado de saias, atarefadas em corte e recorte, as sobras pequenas a pintalgar aventais, papeis de seda e frisados que esvoaçavam em volta mal um inaudível suspiro de brisa, um espirro, uma tosse inconveniente. As crianças riam e agarravam no ar aquelas penas coloridas com que faziam os alfinetes de cabeça a que as mulheres chamavam o olho da flor. Toda a gente queria ajudar a tornar mais bonita a festa do concelho. 
Talvez seja verdade o que então pensei sobre aquele frenesim florido que acometeu a aldeia: havia a esperança de mais benesses, mesmo que não soubéssemos quais e na altura o termo fosse marginal aos conteúdos e interesses infantis. Mas eu ouvira as tias velhas a esperançar, diz que é melhor para toda a gente, vamos lá a ver...Quando perguntei a Lídia, ela atirou-me um, sei lá!, tão desimportado que me admirou e quis saber o que tinha. Mas estava assaz longe de antever o que me aguardava.  Ela, a minha irmã foi esta noite para o hospital, estava com as dores. E desatou num choro convulso. Lídia nunca chorava. Como Luís, aparava as reguadas sem uma lágrima; caía e, à vista do sangue, franzia-se numa careta de dor, mas de olhos secos; se os progenitores a desancavam, desatava a berrar o que eu apelidava de “nomes feios”, que só aumentavam as porradas, e nenhuma humidade lhe assomava às pestanas. Quedei estupefacta, sem saber o que fazer, sem saber mesmo por que razão chorava. Andava contente com a ideia de um sobrinho e eu já tinha perguntado a minha mãe o que teria de fazer para ter também um. Mas, depois da explicação, concluíra que tinha de aceitar o inexorável de Lídia. A verdade é que me  passava sempre à frente, ganhava-me pontos em todos os aspectos da vida. Entretanto, tirei-lhe a mala da mão, assoa-te., e estendi-lhe o trapinho que minha mãe colocara no bolso da bata. Ela assoou-se, postou-se maquinal a olhar a camioneta da carreira que passava, e atirou em determinação e má vontade, eu não quero ter filhos. E pranteou-se toda, encheu-se de soluços fundos. 

domingo, 3 de abril de 2016

"No Tempo da Escola"

Apesar do Luís me fazer caretas cómicas e dar conselhos, apesar de passar na minha carteira e bater com os nós dos dedos, apesar da coragem que revelava a rir para mim enquanto o espetavam, nada me demovia o borbotão de lágrimas. Maria Laura, coragem feita pessoa, animava-me, vais ver, hoje dói-te menos. E eu meia morta e toda ranhosa. Pressurosa, desabotoava-me o botão do punho esquerdo, vá, faz como eu, sobe a manga da bata e da blusa. E mostrava-me orgulhosa a brancura do braço são, roupa  alçada até à axila, consegui ajudar com o outro, viste. Lídia, ao contrário, procedia como se não me soubesse a tendência. Absorvia nos deveres escolares. E mesmo que a professora, já disse para pararem com o que estão a fazer, mantinha-se em actividade. Chegada a sua vez, aparecia ao estrado de manga arregaçada e olhos interessados. Fixava os frascos alinhados dentro  das caixas e parecia registar os movimentos da enfermeira na mistura do pó com o soro e depois na experiência de experimentar a destreza  do líquido a correr na agulha, como se fosse sua função aprendê-los e lhe coubesse aplicar a injecção seguinte. Ao invés, eu olhava-a desde que saía do lugar, na esperança de que me enviasse um sinal ou se igualasse um pouco a mim minorando o meu desgosto. Mas passava-me ao lado indiferente e não lhe saía um trejeito enquanto a vacinavam, era como se o corpo lhe fosse exterior, um espécime à sua responsabilidade.
À saída, caçoavam-me, foste-te abaixo outra vez, chorincas, eu tinha vergonha se chorasse nas vacinas...mas  estávamos os três ocupados a comparar o vermelhão nos braços que começavam a inchar e, passado o aperto do momento, não me ralavam os dichotes. Por vezes, Lídia olhava-me séria e dizia a ponderar o futuro, se eu fosse antes enfermeira?! Podia dar-te injecções quando estivesses doente. Eu recusava a ideia com vigor.  Abominava pensá-la de mistura com agulhas, sangue, dor. Além disso, parecia-me que Maria Laura ia ser uma enfermeira de categoria, era boa de coração e ajudava-me no desenho. No mais fundo de mim receava os momentos tresloucados de Lídia. Antevia-a em operações de vacinação e temia que nos atravessasse o braço de um lado a outro com a agulha. Não confiava inteiramente na minha amiga. Imaginava, e se ela se zanga e nos vacina, e se depois nos interna no hospital dos malucos, e se nos prende a uma cadeira de rodas e ficamos lá para sempre. E outras perspectivas cada uma mais macabra que a anterior. Tantos anos de amizade e não lhe contei os temores infantis. Talvez porque, a par do seu ar genioso, me foi apontando lugar. Não sempre, que o seu amor era como ela, um imprevisto. Mas, se me tomava de objecto, era seguro que lhe sentia a força. Da primeira vez, decidiu que eu teria de a acompanhar a dormir em casa da professora. Da segunda, veio embrulhado na festa que deslumbrou as nossas mentes e mobilizou a escola inteira, os festejos da  subida da vila a concelho.

Tudo começou quando a professora suspendeu o nosso quotidiano de cópias ditados e contas, pediu atenção e postando-se no estrado, bem a meio, contou em gestos a rebrilhar por via do sol que entrava pela janela e incidia na pulseira e relógio, que a vila ia subir a concelho e ela ia participar com os alunos.  E nós sem a coragem de perguntar o que era subir a concelho. Na minha mente logo se desenharam as malfadadas escadas e pensei de imediato em ficar doente nesse dia aziago, ninguém seria capaz de entender que as minhas pernas me desobedeciam e terminantes, recusavam degraus. Entretanto, já ela chamara pelo Luís e se abalançara ao armário, retirando ambos um ror de papel colorido enrolado em rolinhos pequenos com que enchiam os braços e que depositavam sobre a secretária. Quando a operação terminou, mandou limpar as carteiras, arrumar tudo dentro das malas, só tesoura, lápis e borracha à vista. Depois,  chamou um por um à secretária e deu a cada três rolos escolhidos por ela. E nós satisfazendo no desconhecido, contentes por termos três rolos de papel. Talvez mais contentes pela expectativa.

sábado, 2 de abril de 2016

As Flores do Meu Jardim

Todas as manhãs olhamos o dia a nascer – eu olho – e da sua luz clara nos vem ânimo e movimento. É o mundo a acordar-nos dentro dos olhos e fora deles, a mover-nos a luz e calor.
Movemo-nos por dentro, ao encontro cálido dos outros que nos existem e são apenas memória ou também realidade. Pelo menos, nesse desejo. Na vida, o álgido é morte e não-aspiração. Movemo-nos por fora, em ambientes que urgem sem pertença e que não dominamos. E, diários, nos reservamos o direito ao ninho. Dormir, ler... estar um par de horas a chocar. Mesmo em contrapé, sou forçada a admitir, somos galinhentos: chocamos. Chocamos o dia seguinte desde o anterior, os maus momentos nos bons, a ressurreição pascal nas pausas da cruzada diária. Psicólogos, filósofos e literatos em geral desdenhariam do termo considerando-o amorfo, ligado ao puro animal de nós. Mas o choco, mesmo o das galinhas, não é senão uma transmissão de calor adequada e pertinaz sem a qual a eclosão da vida não ocorre. E assim a nossa animalidade específica. Não a besta. Chocamos de forma própria: enquanto as galinhas expelem o seu calor para o ovo, nós absorvemos calor dos outros - directamente ou por interposto objecto – que assimilamos e guardamos para catalisarmos no meio  osmótico em que vamos existindo. As galinhas cingem-se ao choco de pintos numa operação abnegada mas simples, mas a nós cabe-nos chocar e distribuir calor. Ou corremos o risco de nada nos ser verdadeiro, que o traço de pertença são as combustões que entregamos. E as chocadeiras eléctricas restringem-se aos galináceos.
Por vezes - poucas vezes - acontecem verdadeiros encontros. Tenho uma amiga com quem sei que me encontro mesmo que não me encontre. Portanto, se acaso – nada tem de acaso – nos encontramos, vale a pena. Vale em sua casa, vale na minha, vale entre elas, vale no fim do mundo se lá chegarmos. Vale por nos gostarmos mutuamente e nos interessar vermo-nos, falarmos, andarmos juntas um bocadinho. Se nos juntamos, não nos abundam as grandes conversas existenciais, não procuramos assunto e nunca ficamos sem ele. Nada temos de confidentes extraordinárias, mas sabemos  que a família dura até à morte e que somos duas irmãs; por acaso, nascidas  fora da família. Comparo-nos a Lobo Antunes com os irmãos, “falamos pouco uns com os outros”. Quando a gente vê pouco uma pessoa de que gosta muito o que apetece não é desenrolar o estendal das queixas, é viver um bocadinho de quotidiano com ela, partilhar momentos em que olha as mesmas coisas, saborear os mesmos ingredientes, afinar o passo com o seu, conversar sem querer salvar o planeta. E são momentos assim felizes e de choco que nos aquecem a corrente distribuidora.
Vivi um deles há pouco tempo. Se combinamos encontrar-nos, para mim é já uma festa. Mas não esperava tanto carinho e atenção. A gente cresce e até se esquece do que gosta; na voragem do tempo, desabitua-se de pequenos mimos. E foi mesmo uma surpresa aquele almoço em família, com o doce que ela faz tão bem e nem quero aprender a fazer porque em mim tem o sabor de sua casa, do seu ambiente. Sabe-me a ela mesma na totalidade. E fez-me bem ouvi-la dizer “meu querido” para o filho e chamar o marido com aquele tom terno que usa,  umas notas famintas pelo meio e que quase não se dá por estarem mas estão, ditas assim em humanidade que conjuga.  Tratamo-nos com diminutivos que o carinho acrescenta e só aumentam o nome. Se calha, são kitsch, mas também originários, sabem-nos a eles ditos por cada uma de nós.
            E sei-lhe o cansaço. Sei-lhe o desalento que às vezes desarvora. Sei-lhe o peso da vida cheia de gente para cá e para lá, de amores diversos e quase sempre urgentes, de tanta complexidade que o tempo traz a algumas pessoas. Mas Também lhe conheço a âncora. E é segura.
E é isto. Cruzámo-nos há tanto ano e jamais me esqueço de agradecer a sua incursão no Alentejo. E por aqui andamos e andaremos.

ObrigadaJ)