quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Um Agosto em Itália

E a história é assaz suspeitosa, conta que quem os entregou foi o arrependido e ex-pérfido soldado romano, natural de Mântua, que lancetou Cristo no lado (para quem não recorde, saiu sangue e água supõe-se que por conta do tétano que os cravos provocaram). E depois da história nem nos mostram os torrões; dão-nos umas fotos ranhosas para a mão e pronto, passa para cá dois euros e não digas que vais daqui. Ora esta! Bom, como eu ia dizendo, estava fartinha das manigâncias italianas que têm sempre saída, assisti a uns fulanos da América do Sul a pegar nas tais fotos como se fossem o próprio Menino Jesus bebé. Homens feitos e barbados nesta figura, não é brincadeira, a fé por vezes é muito semelhante à crença ignorante dos prisioneiros da caverna platónica. Mas enfim. Avante. Ia eu ler qualquer coisa que me estava intrigando na igreja e vem a Lina. A minha prosápia de escândalo aproveita o momento e atira, olhos de ponteiro, já viste que esta gente faz de tudo uma relíquia?! Os de Mântua guardam a terra e estes um bocadinho do bordão do santo, uma cana, quero dizer. E ela de olhos muito abertos a receber a novidade, ai é um bocadinho de cana?! Pensava que era uma tíbia. E eu, anda cá ver. Adjudicando, não vês ali os nós por onde cortaram, diz que ele ia de viagem, devia levá-la para apoio…a garota intrigada, a requerer provas não circunstanciais, leste nalgum lado? É que ali atrás diz que o relicário tem a tíbia do santo. E eu com o filme de pantanas, ai diz?! É que não li tudo. Mas repara, parece mesmo uma cana. E a Lina, não sei, a mim parece-me uma tíbia, isto é um osso. Eu defendendo a minha baliza, tá bem, mas a tíbia é tão pequenina…parece-me um pedacinho de cana. Mas ainda bem que nos encontrámos, que eu já tinha a história toda montada. E depois a Lina apontou-me uma prece junto às velas e pusemo-nos os três a lê-la. Tão bonitinha! E eu decidida: vou copiá-la e acendo uma vela; e eles, nós também. E, pítias compenetradas, cumprimos o ritual.
E depois fomos ao Teodorico ausente. E as nossas velas ainda lá estão a arder, a arder…

Eis um bocadinho da prece que tornámos nossa:

He aceso um cero
Nella Basilica
Di San Giovanni Evangelista
Nella Basilica piu antica di Ravenna,
Una delle chièse
Piu antiche del mondo
(construita da Gala Placídia,
Imperatrice, nell’anno de 425)


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Um Agosto em Itália


Em tudo há golpes de sorte e azar. O nosso ventinho benfazejo aconteceu em Ravena que, à nossa revelia, é, no ano da graça de dois mil e quinze, capital italiana da cultura. E que, para além de uma programação cultural que se estende para o futuro (seis anos), anunciava de junho a setembro, ininterruptos e nocturnos eventos culturais. A pouco assistimos na semana em que “ravenámos”, tal o estado de miserável cansaço a esmagar-nos depois do crepúsculo. Porém, por duas vezes nos arrastámos até praças repletas de atento público. E logo a performance dos artistas eclipsou cansaços do corpo e nos tomou a alma.
Mas todos os dias pode haver manhã. Ainda que nos levantemos à uma da tarde. Assim, na vez em que fomos à igreja de S. João Evangelista, cuja nem estava, nem deixava de estar no roteiro, abriu-se-nos uma claridade matinal avessa a ponteiros de relógio, teimosos nas três da tarde. A verdade é que saíramos em hora de difícil calor a colectar sombras no caminho para um gelado,  intentando em seguida o Mausoléu de Teodorico.  O bendito acaso fez-nos passar naquela rua comprida de outras vezes e alertou-nos, graça divina, para um maviosíssimo som de órgão que só a nós moveu (será que fomos os únicos a ouvi-lo?! Ó agradável ego!). Assim mesmo. Quais ratinhos de Hamelin fomos em busca da melodia. Enfeitiçados. Dobrámos esquinas, chegámos à porta da igreja e entrámos. Por mim, não sabia onde estava nem tal me importou (quase nunca sei, é um desvario). Havia alguém a tocar uma peça (estivemos quase uma hora e ficou tocando); talvez treinasse um concerto ou fosse desfastio de dedos em férias. A primeira visão que me varou foi o frade. Vestido à maneira, a acertar o castanho do burel com o cordão branco  da cinta. Devidamente encapuçado. No meio do incorpóreo recital e da beleza da igreja, quadrou. E logo me acudiram aqueles desejos saudosos de ser monja, a voz em voos gregorianos a quebrar o voto de silêncio. Bom, gosto de acreditar na reencarnação e, havendo, decerto fui monja. É que tenho saudade à condição, por muito que não pareça.
            Aproximámo-nos do órgão (só um poucochinho) e pudemos ver a organista. Sentámo-nos. Tenho certeza que no silêncio da minha alma ajoelhada houve um daqueles momentos de humildade recôndita de “não sou digna”, crescendo em escorrimentos de beatitude e espontânea gratidão. E entrámos naquele diálogo sem hora, entre a ressonância e o espírito, coisa de deleite. Habitámos o “lugar onde corre leite e mel”, que não é deste mundo, mas nele acontece. Que sobrevoa o humano mas só nas pessoas é vivido. Um gozo de alma. Portanto.
             Mas Teodorico esperava-nos no seu sarcófago vandalizado e vazio. Entretanto, para me arrancar ao torpor místico, levantei-me a passear o templo todo em volta, olhando-o devagar: a reocupar-me de cabeça tronco e membros. Foi quando reparei na estátua do santo, enorme, com um bordão de respeito e que sei chamar-se báculo. Um santo bispo. Comecei a ler-lhe a sinopse da vida e, ainda a descer da nuvem musical, consegui entender que o santo morrera na viagem para Roma onde teria sido chamado pelo papa. Um pouco mais à frente, encontrava-se o relicário com o que me pareceu um pedaço de cana todo entretecido de fios e flores em ouro. Estes italianos são assim, pensei, devia ser a cana de peregrino com que o santo morreu na última viagem para Roma. Fui observar e, na verdade, estava cortada pelos dois nós, ligeiramente mais grossa a cada ponta. Perguntei para mim em quantas igrejas haveria bocados de cana recamados a ouro. Abanei a cabeça, os italianos com a mania de guardar coisas santas, são do pior. Em Mântua até existem dois bocadinhos de terra guardados; diz-se que neles escorreu o sangue de Cristo crucificado. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Um Agosto em Itália

Cumprindo roteiros de gosto, certa manhã de sol rumámos a San Marino, o estado mais antigo do mundo, informação à incipiência da minha geografia paleolítica. De caminho, namorámos Sant’Apollinare in Classe, basílica situada, como o nome sugere, em Classe (lê-se de e aberto), uma povoação  a cinco quilómetros de Ravena. O templo é dedicado ao santo que lhe deu nome e se passeia pusilânime e cordato na ábside central pastoreando ovelhitas num mosaico de verdes que debruam verdes, uma paisagem naif, em infantil desenho, árvores e arbustos cândidos, todos de igual tamanho, semeados pelo semicírculo da abóbada, as ovelhas bordejando a cena, em doçura. E é assim que damos por nós a invejar pastoreio e  serranias ventosas batidas de sol, nos imaginamos cabelo ao vento e cajado na mão subindo montes pedregosos em esforço, com aqueles novelinhos de lã atrás, mééé…méééé…seguindo-nos a musiquinha simples da flauta, um ou dois cães em rebuliço a encaminhar o rebanho  – Sant’Apollinare não tem flauta mas devia. Entretanto, tive de guardar no bolso o sonho profissional e o cabelo a esvoaçar  que a abside toda desmente, assim transformada em campo de concórdia e pacificação. Aquelas ovelhas são branquinhas, não têm carramiços de pauzinhos e plantas aqui e ali a empastar a lã malcheirosa (o cheiro a ovelhum é péssimo), não deixam caganitas por onde passam – o chão é todo verdinho claro -  e os olhos são potes de mel a escorrer; ora, toda a gente sabe que as ovelhas são animais sem tacto nenhum, que só não têm um olhar bovino por serem ovinos. E portanto. Já se percebeu que Sant’Apollinare in Classe nos sofreu o efeito de olhos habituados à contemplação de belos templos. Peço-te humildemente desculpa, Apollinare, mas o humano pensamento é assim, foge, foge, foge. Mas reconheço, estás lindo e digno, ergues-te a meio da abside sem subterfúgios e ocas vaidades. Podes crer. Fica descansado com a imagem.
Do dito, não se infira que a beleza da basílica, que data do século VI, seja menor. Todavia, apreciado San Vitale, todo o seguinte nos pareceu de valor encolhido. Em Classe,  os olhos prendem-se na extensa nave principal, o tecto suportado por vigas de madeira que se cruzam  com arte, a puxar por entusiasmos viajantes.
Uma característica de Itália é o facto das suas torres de igreja estarem quase todas inclinadas. E também a de Sant’Apollinare in Classe. Curiosamente, fala-se em inclinação e logo nos surge a torre de Pisa, mas ela é apenas “a de maior inclinação”. Que todas as outras, desde que bem antigas, pendem e pendem; os olhos desconfiados da paisagem, na interrogação originária, a torre está torta ou vejo mal. E depois,  rodámos até San Marino.

            San Marino é uma aldeia medieval toda metida em verduras e densidade de arbustos, elevada a umas boas centenas de metros. E o panorama que se avista do castelo é lindo. E verde. Com mar ao longe. Mas quanta gente encontrámos por lá. Quantas pessoas flanavam como nós, num calor de torrar, suando as estopinhas, descendo e subindo ruazinhas que compõem o centro e levam ao castelo e suas torres, uma pena no cimo de cada uma (não lhes conheço sentido, mas estão lá). E muitas, muitas lojas a comerciar. A vender. Tudo. Do típico ao atípico. Numa ciganice assaz italiana (usam idêntica técnica de engodo), isenta de impostos mas também sem benefício de promoções e preços baixos. Fartei-me desse lugar superlotado, muito dado a carteiras poderosas. O excesso de gente come-me o gosto, esfarripa-o como galinha a folha de couve. Ponderando: a haver um terço das pessoas, eu teria encontrado beleza a esmo, que estive um nico de tempo a descansar numa ruela e logo me apaixonei pela parede de hera que me ficava em frenteJ

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Um Agosto em Itália

Ravena é uma cidade calma, transpiração de séculos que o turista inspira de vontade. No centro, as ruas plantam-se em gestos de pedra secular que o quotidiano perpetua, vazio de exacerbadas vaidades. Ruas de Ravena são caminhos de lentidão viajante, que detêm e conduzem a interiores oníricos e perpétuas desilusões (os italianos são assim, fazem-se pagar por seus tesouros, mesmo se tesouros pobres). A urbe tem o toque dos lugares onde se vive e convive: acolhe e assimila. É ser de alma própria que o mundo estrangeiro não perturba e a ambiência cativa. Não que os ravenos sejam de extraordinária simpatia para com os turistas, mas amortizam o estranho de cada um. Longe das multidões de Florença, Veneza ou qualquer dos lugares à beira Garda, nada ali é invasivo. Há nela um provincianismo pacífico que alicia, feito apetite em botão para morar e fazer ninho. Quem sabe, seja efeito da enchente de luz a cair sobre o antigo das pedras; ou do afago dos gelados sobre o gosto; ou mesmo da cancela erguida sobre a passagem de nível da via férrea, a lembrar-nos tempos de Portugal. Quem sabe, Ana Garibaldi encoraja, nariz no ar e peito feito, desafiando a liberdade dos homens a mostrar-se pelos séculos. Ou será dos muitos africanos perdidos por seus jardins e avenidas, arrimados uns aos outros, irmandade de infortúnio calado. Telemóvel em punho, desmedem indecifráveis olhos que nos trespassam  e sem nos tocar, muito contam da não-vida que os persegue e, passivos, permitimos.
Em Ravena, vi as moças sentadas pelos bancos da noite à conversa, mãos passeando inconsciente garridice sobre os cabelos; estavam rindo, os  incisivos  mordendo segredos de cacarácá, frescas e inermes na sua candura teen. Olhei as filas nas paragens de autocarro e absorvi o ar cansado e terroso das mulheres perfiladas, traço distorcido e quase informe, mãos autónomas debruçadas de atenção sobre sacos de plástico e cadeiras de bebé; e, no emaranhado dos seus cabelos sem gesto, pensei a vez em que se sentaram à conversa e adolesceram desfiando secretos de nenhuma importância, pele lisa, boca de romã, agilidade de corça; sonhadoras de mãos libertas, a mente dava-lhes o futuro que nunca é. Eu vi um casamento de uma qualquer convicção religiosa, a noiva a desprender  eslavo pelos franzidos do tule, um nada de convidados em dia da semana que para eles é certo que foi domingo. E voltei a encontrar aquele móbil de brancura esvoaçante, na verdura de um jardim que beirava o mausoléu de Teodorico, o noivo em passada reticente sobre o relvado, um laço afogadiço no pescoço, corpo entretelado em rectas costuras; pensei-os passados dez anos: serão outros. Mas, quem sabe, têm ainda a mesma alegria. Quem sabe…
Num lugar bem aprazível de Ravena procurámos – mapeados, é certo – o Mausoléu de Teodorico. Paga a entrada, constatámos que, apesar da localização favorável, o edifício alberga tão só um resto de sarcófago. Também o Palazzo di Teodorico é uma ruína  próxima de Sant’ Apollinare Nuovo, as pedras que restam esboroando conversas antigas. 
Vagueámos ainda a nossa moleza embevecida pela Cappella di Sant’ Andrea com planta ordenada em cruz e o único monumento de natureza ortodoxa que se iniciou sob as ordens de Teodorico. Ali repetimos o embaraço das palavras perante a maravilha dos mosaicos: sentámo-nos em respeito e silêncio de contempladores estarrecidos.

Numa fuga ao oriente e seu traçado de beleza viciante, visitámos o Duomo, edifício de construção mais recente,  ancorado em suas linhas simples e claras, talvez de influência austríaca. Soube-nos bem este templo em simultâneo grácil e sumptuoso. Em mim, o Duomo estremece em encanto primaveril e virginal que  clama por um Deus-artista,  pousando na cruz em leveza. Sem cravos nem sangue, um sofrimento lamentoso e todo mental a ensombrar o rosto perfeito. Apetece consolá-lo, dar-lhe colo, ninar uma cantiga até que a fronte desenrugue, a boca desvinque e os olhos se lhe cerrem em desmaio de pétala. E, se mais não houvera, só por acordar em nós um jovem-deus que acena  ao Menino Jesus de Pessoa, o Duomo merece a atenção do passante. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Um Agosto em Itália

Mausoléu de Gala Placídia

A primeira coisa que intriga neste monumento é o facto de pertencer a uma mulher. Em Ravena, não encontrámos outro de igual condição (nem noutro lugar, diga-se). Para mais, os historiadores garantem que os restos mortais  da senhora não se detêm por ali. Mas, e ainda que com dimensão bem menor que San Vitale (fica-lhe nas traseiras), a beleza dos mosaicos que o forram é idêntica; há mesmo uns bocadinhos de céu azul abobadado e com astros, a confundir-nos as meninges. Morde-nos a curiosidade, que mulher é esta, erguida assim da profundeza dos séculos.  Que, no século IV, do feminismo não havia nem sombra de conceito. E as mulheres, como toda a gente adivinha, se tinham função política era por interposta pessoa. Não foi bem o caso. Repare-se só na fulgurância deste nome: Gala Placídia. Atendamos ao primeiro e logo, talvez eivados de preconceito capoeirento, determinamos que a dama tinha aspirações de chefia, mando. Em suma, presume-se que queria saber das coisas e orientá-las a contento. Não invento: galar alguém significa não apenas a textualidade que também significa, mas sobretudo estar a observá-lo, dominá-lo pelo saber do que nele se passa, como que um estar acordado para a possível malícia do outro. Por outras palavras, ser-lhe superior. Bom. Chegada a este istmo, fiquei curiosa e fui observar o rosto de Gala Placídia – no mausoléu desfigurou-se-me e não a encontrei, perdida que me fiz no azul abobadado e outras belezas a rigor. A net oferece-me a dama de colarzinho e verifico que rima, tal qual, com o nome. Não esqueçamos que tem dois, tão claros e distintos como as ideias cartesianas. Olá se são. Gala é esse ser cerebral e superior que lhe mora dentro. Porque Placídia é o seu lado de colarzinho, feminino, terno, sedutor (ai Deus me livre de errar que nada sei da terminologia romana e estarei inventando se outra coisa não for). Placídia não era uma formosa  Dalila (e não me digam que Dalila não é um nome estoira-vergas, que é), era uma mulher de sua casa e seus amores de extraordinária fundura. E a reunião das duas numa só pessoa não tem natureza divina – a tê-la, exigia-se o três em um – mas, pelo visto, foi claustrofobicamente apaixonante. Isso mesmo.  Paixão claustrofóbica era o que a D. Gala provocava nos corações e talvez também lhe fosse dado viver (não acredito muito). Se fora de outro modo, como explicar que tal pessoa fosse raptada e casasse com o raptor (ou quase ele), um rei ostrogodo que se converte e casa com ela seguindo preceitos cristãos, vestido de romano…bom, pode ser jogo político do rei sonhador de unficações, mas há ali muita Gala derramada. Para além disso, parece que Gala casou com ele por amor e foi feliz; o certo é que, entre os bárbaros, fez amizades para a vida e as manteve na sua guarda pessoal até ao fim. Tinham que ser fidelidades caninas, admiração e respeito dos antigos, género, sendo necessário, morro para que vivas. Ora, meus amigos, este tipo de ligação não nasce dentro de uma bolsa de patacas, antes irradia de uma personalidade envolvente e vamos lá, talvez um pouco tirânica; o amor é assim, de tiranias concêntricas. Por que refiro estes acontecimentos? Bom, porque ser muito amada por seus maridos – teve dois, um bárbaro e um romano – é peculiaridade natural, mas ser servida na corte romana por servos vindos da barbárie e só neles confiar, é deveras notável.
Quem me leia pensará, e depois, era uma mulher educada, filha de um imperador, irmã de outro, mulher de outro e mãe de mais um. Pois. Mas não só. Quanto se lutou por Gala! O irmão – que era só meio irmão e imperador – conta-se que tinha paixão pela irmã (então, que é isso, as paixões não são só o comum rasga-a-roupa) e ela o aconselhou em bastas decisões. Quando Gala foi raptada, o mano moveu os seus homens para a libertação. E um dos seus generais, que parece sempre a amou (não sabemos desde quando, mas o amor é assim uma coisa meia parva que bate sem mais nem mas; portanto, vou assentar que era desde que ele a viu jovenzinha sábia e nada de se deitar fora), depois de se bater valentemente com suas tropas e conseguir trazê-la para o mano imperador (o primeiro marido, o rei ostrogodo, já tinha morrido), pediu-a em casamento. Donde resultaram dois filhos, uma rapariga bastante parecida a Gala e um rapaz. Quando o irmão de Gala morre, o marido sucede-lhe e ela devém, pelo casamento, imperatriz. Por morte do segundo marido (aí, mulher valente), Gala rege o império; o filho tinha, então, seis anos.
Muito haverá a dizer sobre a personalidade política desta senhora. Mas a única coisa que me intriga, vejam só, é ter lido que mandou matar o casal a quem a sua educação foi confiada.

Repousa em paz, intrigante Gala Placídia.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Um Agosto em Itália


Basilica di San Vitale

                No segundo dia a beber ares de Ravena, o meu espanto artístico chegou ao cume e por lá permaneceu em desorientação apalermada, que os caminhos da perfeição são uma espécie de murro na mente que atordoa o mais sensato. Bêbados de beleza, deviemos contemplativos originários na cirandância alentejana por Ravena e suas igrejas e batistérios. E, se não fora o calor a apoquentar-nos, pelo menos eu cuidaria que viajara no tempo e circundava – ou entrava mesmo – nos palácios das mil e uma noites. Bom, é verdade, sou empurrada por um olhar e uma mente adúlteros de nascença: se vejo lagos, lembram-me sonhos; se nas igrejas abundam pinturas, julgo-me num museu; se olho um túnel na rocha, estou num convento infindável. E o mais que não merece palavra.
Portanto, a riqueza analítica e o abundante colorido dos mosaicos, os pormenores de rico embelezamento nas colunas e capitéis, os minúsculos mosaicos dourados que iluminam as figuras e o pormenor com que elas foram reproduzidas, subtraem-nos ao quotidiano, são elevador repentino a projectar-nos  a outra dimensão.
Talvez Mircea Iliade esteja certo e nos aconteça a irrupção de um sagrado emergente por afirmação de beleza superior. Porém, ninguém pensa nEle ao observar o interior da Basilica di San Vitale. Mas são exclamativos os olhos que a contemplam. Escandidos. Arrisco mesmo que perjuros. Mais que à magnificência da cor e à profusão das representações – o horror ao vazio ainda era uma realidade -, fui sensível à traça: às linhas curvas, aos arcos que ligam as colunas e ao rendado das mesmas, às arcadas de janela no piso superior e ao octógono em que se dispõe o templo e o distribui em exotismo. Perpassa em San Vitale uma graça de palácio árabe e tem a leveza de construção aberta que nos faz esperar o perfil de uma princesa de véu esvoaçante sob as arcadas. E por mais que o Cristo se pareça com um jovem grego de alto lá, cheio de viço mesmo – nada daqueles cristos loiros com olhos de amor queixoso, que antevêem o que os espera; este é quase luxuriante; de íntimo impenetrável, suprema de todas as figuras em sua sequência ordenada, está para a eternidade –, ou também movidos por esse ser divino fugido ao conceito, esquecemos os rituais que o templo serve e serviu. Inermes contempladores. Apenas.
Ali revimos as fotos do livro de história, Justiniano e Teodora, cada um com seu séquito. Não recordo o ano em que os estudei nem o que deles aprendi, mas encontrei-lhes no rosto o mesmo ar raro que outrora me confundiu. Revi minha mãe a fazer-me torradas e gemada nas madrugadas que eram só nossas; eu a estudar história no meio do fumo da lareira, olhos a arder lendo, “o imperador foi coroado em Ravena”, legenda de uma foto onde se via uma igreja e um imperador de longo manto que me apressei a mostrar-lhe; não imagino que imperador seria, mas a “foto” era apenas uma pintura. Nessa manhã, do fundo dos meus treze ou catorze anos, determinei que Ravena era o nome da igreja onde estaria a coroa e que o imperador foi lá buscá-la com pompa e circunstância. E pronto. Longe de supor que um dia eu mesma descobria Ravena. Cidade. Sem coroa, é certo, mas não menos encantatória.

E quedámo-nos a babar silêncios nos mais lindos e antigos azulejos da tradição bizantina, antes de rumarmos ao mausoléu de Gala Placídia (oh extraordinário nome de mulher!). Abençoada seja Ravena.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Um Agosto em Itália


Ravena

Entramos em Ravena  exaustos do dia e da insónia de calor. E que bem nos caem cidade e casa: receptivas, calmas. Então, a materna noite aproxima-se sorrateira e deita-nos o exacerbado cansaço na frescura do ar condicionado que, relapso, elide qualquer resquício de castelo. Pétreos e comatosos, adormecemos ao anoitecer. 

Observo o dia seguinte da varanda, em seus passinhos de bebé que tenteia, pé ante pé, semeando claridade e ondas de calor. Sento-me ao fresco da sala e estudo lugares de tanta história. Mais tarde, decidimos palmilhar ruas e dar conta de alguns monumentos insuspeitos e não assinalados no guia. Em pesponto de surpresa, batemos de nariz no túmulo de Dante Allighieri que morreu em Ravena, acaso dele que em nós foi bom augúrio. Sem pressas, a percepção feita lente a ajustar em precioso trabalho de focagem, visitamos o Battistero degli Ariani, a Basilica di Sant’Apollinare Nuovo e a igreja de S. Francisco. A imaginação não alcança quanto sortilégio mora na cor e no traço da arte bizantina dos dois primeiros. Os mosaicos dos séculos V e VI dão às igrejas e outros monumentos a tonalidade meio oriental que nos atrai. Por mais que digam e contrariem, há nos europeus uma atracção pelo oriente que se agarra às colunas corínteas, ao verde dos mosaicos, ao dourado dos fundos, ao próprio dos rostos que emergem em arte de bizâncio, frontais, meio sérios, em calma consciência de quem está e é para a eternidade. São santos, reis e um Deus-homem – uma procissão de mártires bem compungidos  seguindo um santo; e um cortejo de tenras virgens de púdico olhar, atrás dos reis magos, na basílica de Santo Apolinário; no Batistério dos Arianos, Cristo e João baptista -  retratados como deuses: sem vaidade, naturalmente. Porque sim. Séculos a fio a observar-nos galhardamente, do seu centro de autoridade impávida: a ábside e as paredes laterais das igrejas. Há mil anos já eram assim, sem idade. Os mesmos. Rosto virado às multidões, pedrinhas minúsculas em mosaico de maiúscula paciência e arte, mostrando a admirável centelha de Bizâncio. No batistério, é bom verificar que não se oculta a nudez de Cristo. Quem sabe Bizâncio já detinha o germe da preocupação com o realismo anatómico na figura humana tão valorizada no renascimento. Ou não existiria neles a condenação do corpo que a igreja medieval propagava. Era um caminhar de artista, inocente sobre todas as coisas.