quarta-feira, 15 de julho de 2015

Casa de Serralves

Gosto  de casas. Dá-me prazer observar como respiram, concentradas em seu jeito natural. Por isso, foi quase um milagre poder desfrutar das casas Milà e  Batló, em Barcelona. Achei-as de esplêndida finura, cinzeladas a arabesco de conto de fadas, terna nuvem de desenho animado antigo, mesclada de maravilhoso. A sua natureza é o mundo de faz-de-conta que nos habita, respiram fantasia e transpiram ilusão. Contudo, são casas que cumprem, foram habitadas. Guardam desgostos e canseiras, grandes problemas e alegrias da existência, e nas  camas dormiram-lhe mulheres de elegância cetinosa e depilada, sobrancelha em arco e olhar às vezes gelado e não fadas benfazejas de asinha transparente. Os homens chegavam-lhes embrulhados em cachemira, a sobraçar pastas leves; talvez também uma bengala solene, castão engastado, a compor o quadro. E o omnipresente chauffeur perfilado, recto e servil, a conduzi-los a penates. Algures no tempo, alguém lhes chamou lar e nelas houve “nãos” retumbantes que evolaram de chaminés singulares e “sins” inaudíveis, rastilho de fogos incendiários.
Ora, na Casa de Serralves nada disto é possível. Toda a sua sugestão se expressa na arquitectura. O mesmo é dizer, não há sugestão: há linhas e formas e volumes que se conjugam na luz e seu jogo. Mais nada. E isto é real e palpável.
Se recuarmos à sua história compreendemos-lhe a emancipação. Porque é uma casa emancipada. Senão vejamos: foi herdada em 1925 pelo segundo conde de Vizela, Carlos Alberto Cabral. Era o tempo das fortunas burguesas a buscarem estatuto. Carlos Alberto, burguês afortunado e com fortuna, herdou a propriedade e a casa de sua avó. É possível que  alguma coisa na quinta lhe lembrasse as casas e a panorâmica dos jardins franceses que frequentava. Ou seria apenas o sonho da posse. Quiçá a vaidade  a misturar os dados. O certo é que pensou em modificá-la de acordo com os canônes franceses e para o efeito se rodeou de um bom arquitecto do Porto, José Marques da Silva, e de decoradores e arquitectos franceses de renome. O resultado final de acertos e composição foi feliz: uma casa leve, em art déco, ditame de moda francesa. Inédita e a assombrar o Porto. Pelo meio ficaram obras e mais obras, tentativas de acertar o edifício antigo com a parte nova em crescimento contínuo, mercê de basta correspondência com os franceses. Marcas da insatisfação do proprietário que geria o excesso opinativo dos contratados, cada um ignorando o trabalho e sugestões dos outros. Em 1935, depois de quatro anos em remodelações e acrescentos, o arquitecto francês Portneuve vem ao Porto e visita a obra. De seguida, exige  a demolição da casa original e a mudança das escadas de acesso ao piso superior. Dir-se-ia que não pactuou com o mau gosto,  contributo que foi decisivo  na unidade harmoniosa do imóvel. Portneuve tornou-a uma melodia. Talvez devido à guerra, este novo projecto só deu entrada na Câmara Municipal em 1943. Mas ela aí está, graciosa e desejada em seus tons rosados, poesia de pedra ao fundo do jardim.
Em 1925, o proprietário tinha trinta anos. Portanto, a construção da casa durou cerca de duas décadas. Ora, não há caprichos tão longos e muito menos na maturidade. A Casa de Serralves foi antes um objectivo porfiado. Enquanto a gente comum sonha educar os filhos, dar-lhes um curso, Carlos Alberto Cabral, casado e sem descendência, sonhou uma casa “último grito” e, como qualquer pai, vigiou-a nos mais ínfimos pormenores da modernidade. Uma obra para o futuro. Com o seu aval. Como e quanto a gostou não podemos saber.  Sabemos que preferiu vendê-la a quem a conservasse  inalterada – condição para efectuar a venda -, a deixá-la a sobrinhos perdulários. Pai que acautela o futuro dos filhos não faria melhor.

Tanto cuidado com a casa e tão pouco nela viveu! Será que chegou a ser um lar?!

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Descobertas

      A noite que tudo envolve cinge-nos por vezes à sequência estagnada das horas, o pensamento a assistir-lhe, lúcido e meio morto. Porém, a dada altura, o relógio como que sincroniza a desejo, a roda do tempo desemperra e as horas deslizam. 
      A contragosto da cerração de cortinados, a janela desenhava um quadrado de vaga claridade quando  o relógio me  fez a vontade e deixou entrar as sete. Saí pé ante pé, a mana ainda adormecida. Na sala de refeições, sentei-me habitual, a entremear alimento do espírito e do corpo, enquanto as meninas de serviço, uma elegância que só visto, me tiravam pratos atrás de pratos, num vaivém que cansava só de olhar. Mal me levantava a ir buscar um pãozinho, um doce, uma fruta, mais leite, mais café…lá me voavam prato e talheres com guardanapo e tudo. Mas não sou mulher de desanimar à mesa, arrematava nova dose e fazia de conta que não era nada. Quando entendi, fui ler no terraço e espreguiçar os olhos na paisagem. 
      Pouco depois, saímos contentes de tanta hora por abrir. Havia um tempo de tudo só para nós e, à parte as peripécias com os bilhetes de metro que não validámos, e eu ter embicado direitinha a um fiscal que por acaso até nos ensinou e não multou nem nada, o dia valeu a pena. Ele para mim, tem que validar o cartão na entrada do metro. E eu em estúpido solilóquio, mas a carruagem não tinha nada por fora onde validar isto…. Insisti, tem a certeza que é lá fora, é que não vi nada quando entrei. E a pedir testemunho à minha mana, tu viste. Ela a acabar com o quid pro quo, não vi, mas também não procurámos, deve lá estar. E eu desejando sair para olhar a carruagem com mais atenção. Mas quando na gare, não havia nada junto às portas (o senhor assegurara, “à entrada”) e desanimei para o lado, mas afinal onde é que isso está. E a mana toda dextra, sem me avaliar a extensão da venda, vamos ver lá em cima, ele disse na entrada. Eu para dentro, bolas, que parva. E assim chegámos à claridade dos Aliados onde, finalmente, andei num autocarro panorâmico indicado pelo funcionário do posto de turismo. Foi bom ouvi-lo em início de conversa num inglês comercial e alinhado e, mal nós, "portuguesas", logo ali, caídinha e a rigor, a pronúncia do norte, carago. 
           Achei o máximo passear à torrina do sol, em autocarro esbraseado, os turistas a bufar, leque na mão, rosto de pimento vermelho a escorrer aflições. Fora de brisas e ares frescos. Para não perdermos o hábito, o bom Deus brindou-nos com a continuidade climática. E nós duas a ganhar bronze de camionista. Fomos até Serralves que a mana conheceu e eu a afogar saudades em pázadas de verde. Não sei dizer quanto gosto daquela alameda de árvores, sombra de abraços copados. Já vi muita árvore e mais bonitas que aquelas, mas é a elas que prefiro, arreigada na sensação de já ter por ali andado que tempos a gostá-las. Só pode ter acontecido noutra encarnação, porque no inteiro desta vida perfiz quatro visitas. Quem sabe fui jardineira ou varredora de folhas mortas para aqueles lados. Desta vez, apenas assomei à Casa de Chá para mostrá-la, mas as glicínias, sem um assomo de flor, trepavam muito recolhidas em seu verde circunspecto. Pareciam penitentes guardadas em recato trepador; e, do meio do calor e da luz a entornar na clareira, pensei em igrejas frescas e escuras confissões.
Contudo, a surpresa mais agradável veio da Casa de Serralves onde entrei pela primeira vez, a atravessar-lhe a história de raspão. É só uma casa vazia, dirão. Mas muito interessante, acrescento. Li depois que o proprietário, Carlos Alberto Cabral, a herdou e que a traça era diversa. Dei uma olhadela à casa primitiva e tinha outro ser, era menos mundana e decerto não servia os mesmos intentos. Que ele a foi melhorando, fazendo-desmanchando, fazendo-desmanchando, fazendo-desmanchando, ao longo do tempo, é história indiscutível. Que essa transfiguração, apesar do empenho sustentado do arquitecto português José Marques da Silva a assegurar-lhe a uniformidade dentro da mudança e decerto acudindo a muito capricho, passou por decoradores e arquitectos franceses de renome, também é factual.
Só podia ser endinheirado, aquele senhor sortudo e gastador. Quis no exterior um parente anão dos jardins franceses. E está lá. Podem desdenhar, ah é um arremedo, e assim e assado. Não me interessa nada. É lindo e pronto. E visto daquela sala ampla, toda vidro de janela, no cenário de árvores a misturar verdes, a sua geometria intensifica. E eu patética (de quatro; sim, de patas, isso mesmo), a olhá-lo. Tenho porém de reconhecer, esta casa deixa-me um bocadinho de mal comigo que embirro solenemente com gente que anda por aí a copiar as magnitudes parisienses só para armar em importante. Bem que penso isto, mas não é que gosto dela na mesma?! Que martírio, não ser convencida pelos factos. Dizem-me, é novo riquismo, é kitsh e tal. E eu mudo-me de armas e bagagens para a crença e peremptória, NÃO A-CRE-DITO.

Portanto, quem quiser factos vai a Serralves e visita a Casa. Conta-lhe as banheiras e os espelhos, as colunas e o mais. Depois, avalia isso em euros e faz uma estimativa assisada. Por mim, tudo bem. Que, desobrigada de tais apetrechos, vou passear-me por ela – ou pela memória que deixou - como me aprouver. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

D. Maria de Jesus Barroso

Bem sei que já toda a gente lhe escreveu. Que recebeu uma quantidade assinalável de elogios merecidos. Que lhe reconheceram, publicamente e sem mentir, as maiores qualidades. Que, de figuras públicas a meros figurantes, todo cão e gato lhe desenhou um enfeite. Em alguns foi mais rebuscado, noutros mais modesto, muitos a falar-nos ao coração. O certo é que a senhora acolchoou em carinho português. Tem que concordar, para um povo que não escreve, foram bastos textos. Mérito seu, portanto.
E agora que já arruma a correspondência, chego eu. Mas é que…bom, li textos de amigos e familiares, de poetas e jornalistas, de antigos alunos, de governantes e ex governantes. Peço imensa desculpa, mas falta o meu. É possível que alguém tenha escrito do mesmo lugar – a bancada do povo comporta muita gente – mas não terá iguais lembranças.   
É inegável que a senhora, Dona Maria de Jesus, fez bem a muita gente e de muito modo, a sua humanidade foi sempre do melhor quilate. Quero apenas expor a parte que me tocou. Cumpre-me esclarecer que só nos dissemos boa tarde duas ou três vezes por semana ao longo de dois anos. Não sei já como se chama a rua do Colégio Moderno, mas era ali que eu a ultrapassava, a senhora saindo de sua casa e em visita ao colégio e eu numa pressa esgalgada para as aulas. E não foi aquele cumprimento banal de olha desolha e boa tarde, que me cativou. Foi o seu jeitinho singelo de portuguesa comum, vestida de escuro, sapatos vulgares; nas tardes mais crespas, o tricotado de um xailinho a agasalhar. Usava o cabelo preso com ganchos baratos – na altura chamávamos-lhe molas - puxado logo acima das orelhas. A primeira vez que a ultrapassei – nessa época as aulas da Faculdade de Letras começavam em Novembro - colei ao penteado enquanto a senhora, sem identidade, uma mão a ajustar o xaile ao corpo, entrava num portão  de onde saiam muitas vozes infantis e, de relance, vi bibes e pernas e pés que correram a rodeá-la. E eu que antes vinha em modo papa-léguas, estaquei a olhar para trás. Mas já só estava o portão. E eu varada de surpresa e recordação. Quanto tempo sem ver alguém pentear-se assim… e logo as tuas mãos emergiram a segurar cabelo e pente, a desembaraçá-lo mecha a mecha, e depois a retirar a mola que prendias na boca ou descansava sobre a mesinha, a abri-la e atravessá-la com mestria no cabelo que assim te descobria a cara. A sério que me subiu uma vontade de ir bater no portão fechado e lhe agradecer, D. Maria de Jesus. Mas logo caí em mim e no ridículo de ser uma desconhecida fixada em duas molas de cabelo. Depois, gastava o caminho a desejar encontrá-la e ao seu penteado de risca ao lado e molas compridas agarrando cabelos, tão igual às mulheres da minha aldeia no dia do avio. Entretanto, aprendi os dias em que nos cumpimentávamos e aqueles em que não. Não imagina o bem que me vinha de olhá-la. Pensava-a uma avó que ia buscar os netos, e, como nunca a vi sair, a hipótese sustentou-se.
Já o ano escolar iria a meio, quando, por falta de um professor, parte da turma desce para o Borges a beber cerveja. No fim de tarde a amarelar, cruzámo-nos consigo. Deu-me a boa tarde de sempre e olhou-me com os olhos bons que são seus, desta vez frontais, no meio sorriso do reconhecimento. Antes que eu pensasse, o que é que esta senhora anda aqui a fazer, um colega a meia voz, é a mulher do Mário Soares, vai para o Colégio Moderno que é deles. Bom. Só então entendi que o tal portão era parte de um colégio. E fiquei a admirá-la de coração, pela simplicidade afável da figura.
Antes de terminar: acho muito bem que reinvindique o seu lugar ao lado do doutor Mário Soares. Na Terra, ou onde for. Atrás de um grande homem?!!! Ora essa. Apoio-a a 100%. Quero ainda agradecer a sua voz a quebrar quando falou da netinha de oito anos, “A avozinha vai ficar sempre no meu coração”. Garanto, não ficou só no coração da garota.
Por fim, o interesse da jornalista, de que tem saudade. E a senhora, olhos brilhantes e voz levíssima, da minha família, os meus pais, os meus irmãos.. nós éramos muito unidos. Como eu a entendo D. Maria de Jesus! Quem sabe eles não se comoveram também….  
D. Maria de Jesus Barroso, a senhora é uma esteta, fez a sua vida tão bonita!

Um beijinho e Muito Obrigada

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Intervalo na História da Viagem ao Porto

As manhãs são o meu leit motiv, a beleza do meu quotidiano. Desafogo na claridade que devém luz, nas casas a acordar pelo lado de dentro, o exterior da cal em semi morte, ainda pasmado no sono. E depois há todos os sons que as anunciam, chinelos a bocejar pela casa, torneiras imunes à preguiça, lestos chuveiros. Lá fora, pássaros apressados a sair do ninho como se precisem ir para a fila no Centro de Saúde quando o mais certo é pousarem em árvore próxima ou numa parede de trepadeira, a saudar o sol. Pela manhã, qualquer lugar tem sua panóplia de cheiros com horário; se clareia, sobreposto à dormência dos cheiros animais a que falta calor difusivo, reina o cheiro natural dos lugares, a terra e asfalto, ou à relva regada de véspera. São ainda cheiros frescos, o próprio asfalto emana um odor suave. Mas o sol traz odores com sabor dentro, enquanto o asfalto se enche de vapores  de gasóleo apressado, nas cozinhas cheira a pão torrado e a café; e há uns laivos que perpassam, restos de banho que vão e voltam, frescura de unguentos de lavagem que se misturam ao cheiro de cabelo molhado e corpo a colar na roupa. 
Dependendo do amor que temos às matinas, há a pressa ou o vagar. E porque todo o novo dia me é caro, sou nelas vagarosa. Como compete à linguagem do prazer. Amo o verão descalço nos meus pés, e haver neles o refresco do granito. Corto o pão a lembrar-me de outros tempos, num quotidiano que, quem sabe, recrio diária e solene. Memória de nós duas acordadas  na casa com cheiro a cama. Nós duas e um ritual com lume de chão:  espetavas a fatia de pão com um garfo, afastavas a cinza e punha-la a corar de um lado e depois do outro. Entretanto, ias batendo uma gemada que misturavas na cevada que assentara na chaleira de barro desviada do lume, tu a resmungar porque ela se babava e um rego de café escorrendo lento, numa hesitação repetida até à cinza, a fervê-la brevemente, fcheeee. Eu olhava-o vaga, empenhada em decorar nomes. Por fim, barravas a torrada e servias-me o pequeno-almoço, enquanto eu estudava história e ia mastigando, entretida a ler pormenores que não saiam em teste mas tanto me chamavam das suas letrinhas pequenas, em notas de rodapé onde, uma vez por outra, alastravam nódoas engorduradas. Desse formigueiro de palavras a que colegas e professoras não faziam caso, ficaram-me nomes como, os ilotas, hábitos bons de Dario rei dos Persas, a Mesopotâmia de nome atractivo, a lei de Talião que aprendia com estupor, os cartagineses povo comerciante e para mim idêntico ao merceeiro da aldeia, lápis atrás da orelha, que, para se distrair de perigos marítimos e riqueza acumulada (para mim comércio era sinal de boa fortuna) tinha parado a ensinar-nos a numeração e as contas. E os hunos, maus como as cobras e porcos em demasia, que deitavam sobre a sela os bifes que iriam comer crus e moídos após a viagem (devo ter lido isto nas tais notas de rodapé, o certo é que, ainda hoje não os suporto; deviam ser bastante javardos, cheirar só a sangue azedo e andar sujos até dizer chega. Ainda por cima, cultivavam o hábito de decapitar gente a torto e a direito). Espero não me cruzar com o descendente de um huno, ou serei obrigada a mudar de passeio. Quando te contava estas raridades, não comentavas, nunca saberei se acreditaste em alguma. Para mim, eram verdades seguras. Que não se duvida do que vem nos livros.
            Com tais memórias, como é que posso dormir uma manhã na cama? Não posso. Não sei como é. Não consigo. No Porto ou em qualquer lugar, levanto-me cedo. Estou à coca do relógio, aguardo as sete. Incrivelmente, mesas cheias de iguarias e ainda nada me soube como a margarina nas tuas torradas com travo de fumo. Mas todos os dias experimento. Será por me faltarem os livros de história e mais o que contavam sobre os ilotas e os penates que eram deuses caseiros, coisa que não entendi nos romanos, tão espertos tão espertos e tinham deuses que não saiam à rua.

            Achas tu que eu devia estudar história de novo…hummm 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Cerda de que Somos Feitos

O homem põe e Deus dispõe. Ainda que não seja bem assim, as expectativas que goram deixam um amargo que não desfaz com caramelos. Na Casa da Música não aconteceu o que esperávamos: o concerto para violino de um qualquer autor polaco feriu-nos (me) os tímpanos. A spalla da orquestra a despedir-se dela com a interpretação como solista num concerto difícil e exigente, originário do seu país. A opção pareceu-me bem. Mas os violinos têm aquela particularidade de me bulir com os nervos se encarniçam. E o concerto foi feroz: em crescendo, um frenesim enlouquecido do arco sobre as cordas que fez com que ela e o spalla substituto – ocupava o seu lugar na orquestra – a dada altura, tivessem de aparar as cerdas desprendidas do arco (não consegui evitar a comparação com a situação em que a espada se parte na luta). Sou uma desentendida musical, mas parece-me que a dificuldade da peça – admito que também o seu ser, já reparei que os povos de leste criam música que raia as vibrantes noites de trovoada e primam por um aparato sonoro sem insinuações, estridência quase dolorosa – terá levado a mestria a suplantar a sensibilidade musical. Ora, já me foi dado escutar solos de violino divinais. Bom. A senhora, muito ovacionada, saiu banhada em flores.  O reconhecimento  foi bonito, a dignificar público, artista e orquestra. União de plausível última vez. A coincidência  agradou-me. Manda a verdade que se diga, nos concertos a que antes assisti, jamais alguém se acercara dos executantes a oferecer flores. Mas é merecido gesto a quem nos levou tão longe e sem peso, usando essa mistura de tempo, esforço e génio que é a arte.
E afinal nem gostei assim tanto da sala, nem entendi o propósito de uma primeira fila quase siamesa com o palco. Nós, na terceira correnteza de lugares, ficámos um bocadinho incomodadas de pescoço (é claro que a confiança da mana em mim levou a que nos sentássemos em lugares errados, mas pronto, ninguém reclamou). Dizia uma portuense expedita e da casa, “as melhores filas são a G e H”. Guardámos o conselho na gaveta do “a haver” e sorrimos à sua simpatia; foi ela que nos informou do adeus da spalla e nos fez breve resenha da sua vida pessoal e profissional (as cidades são aldeias maiores).
A primeira surpresa adveio do comportamento informal dos músicos. Chegámos cedo e vários se encontravam já sentados, a conversar e a rir. Habituada a um ritual de entrada conjunta e silenciosa, um estar sentado muito direito com conversas apenas sussurradas e essenciais, olhos de preocupação quase terna com o instrumento que tocam, pareceu-me aquilo um despudor, transparência perniciosa. Podem pensar, e que é que tem que entre cada um a seu gosto e de sua vez, é mais democrático assim. Respondo, é uma questão estética. Há uma mise em scène que falha na Casa da Música e que é necessária no apontar da raridade. Os sentimentos que a música provoca são solenes. Como a religião, ela abre dentro de nós, em cada vez, um tempo novo e originário. Ora o espírito tem de preparar-se para esta irrupção ou corre o risco de não haver transcendência e se banalizar o momento. E não há melhor preparação que esse acto de respeito com raiz dentro da orquestra e transmissível ao público. A Casa da Música ignora o princípio do élan. Ponto.
Saímos um pouco defraudadas. Para colmatar lacunas, a mana ofereceu-me um gelado e aproveitei para fazer olhinhos a uns éclairs com ar boníssimo, colando a promessa de não me escaparem no dia seguinte.

Voltámos à “nossa casinha” género dominó, decoração muito suprassumo e a que não ligámos meia. E lancei-me a mastigar encores antes de. Lá fora, no longe adivinhado, o mar chamava-nos do meio da escuridão. Mas, se não estivéssemos no décimo segundo andar, divisávamos apenas os prédios na nossa frente. Oh, prosaica e incansável  realidade!

terça-feira, 7 de julho de 2015

Damas e Alfinetes

As alcatifas dos hotéis guardam histórias de passos no meio das fibras. Rente ao chão, acamadas com o pó residual, as hesitações de pés e a secura displicente de couros de nariz empinado emparelham com o aflorar de dedos mínimos a ziguezaguear fora das sandálias em infância retardada, os pés a estacar numa admiração, fora da sua disposição natural, ora esta, e eu a pensar que passava dos trinta...  Prejuízo de asmáticos, as alcatifas recobrem chão tão probabilístico como o das pontes, que a indústria hoteleira gosta que nos deitemos armados no ar. Sob elas, bem agasalhadas no sintético do seu calor, cordas e cordas de pó em vinco escuro, bolas de cotão com séculos de existência. Contudo, é inegável que confortam pés e tornam leves os passos de corredor: retiram-lhes o tom, expurgam-nos de si, abafam-nos de todo; nelas, até o salto agulha soa a sapatilha de bailarina e qualquer ouvido apurado lhe escuta os lamentos sob a impiedade perfurante, socorro, estão-me pisando os cabelos, ai, ai, ai – e no gesto peculiar de compor-se, fibras dolorosas endireitando a poder de esforço -,  logo eu que sou tão arrepeladiça.  
Porém, a maioria de nós não se gasta nestes pormenores, apenas atenta em números e cartões com números – os hotéis são um mundo numérico -, de andar, de corredor, de porta do quarto, de telefone. E mais eteceteras. Quanto aos prolíficos cartões, desconfio que não sabemos viver sem eles.
Entramos no quarto como se uma gruta de Ali-Babá: às espreitadelas, a palpar camas, abrir torneiras, espiolhar o roupeiro, catrapiscar a paisagem. Não há como estes gestos simples para nos sentirmos em casa: alongamo-nos no leito (palavra mais bonita, leito)  como se ele nos soubesse curvas e contracurvas – mas não sabe e esta ignorância apadrinha muita reviravolta nocturna -  e entramos na casa de banho com a sensação única de que nos está a uso. Serve-nos (pode não parecer, mas o poder sobre as casas de banho, importa). E, hélas, não temos de a limpar. Esta certeza retumba-nos na mente e torna qualquer banho outra coisa: uma simples chuveirada devém hidromassagem. Banhamo-nos e, novinhas em folha (dentro da idade), vamos espiolhar os arredores, decidir onde jantar, antecipar receios na Casa da Música que sou bem aselha e já dei por mim numa sala de cinema a ouvir o filme sem lobrigar o écran (ainda estou para saber como é que consegui uma proeza destas). Ora, neste concerto não me convém ser pata-choca. Damos de caras com uma feira alapada na Rotunda do Bom Fim. Verdade que tínhamos viajado com uma equilibrista de circo, mas, ó bom Deus, uma feira com cheiros, pó e tudo?! Não precisávamos tanto.
Por causa das coisas, chegadas ao destino, como se fosse um labirinto grego ou mesmo egípcio, aprendemos o caminho da sala e deitámo-nos a mirar umas canecas com reprodução de azulejo português de não sei que século que tomei por pinturas de   Mondrian ou Paul Klee, no que fui sensatamente corrigida pela dama de serviço. Pensando que o nosso chá príncipe gostaria de reinar lá dentro, mas  desaguisadas com o espavento no preço da loiça, desistimos. Dissemos não. Há que saber resistir.
Depois, entrámos no Bom Sucesso com o nosso fino ar de habituées e comemos uma salganhada que metia rissóis e substituí por chamuças que também não correspondiam. E tudo isto  servido por uns portuenses imberbes e simpáticos. E para cumprir a tradição de ser mercado, comprei encores que, isso sim, eram mel. Ah! E namorei longamente os doces que encontrei de passagem.
De novo na “nossa casa”, pusemo-nos vaporosas e aproveitámos para crescer um tudo nada. E em seguida, muito compostinhas e altas, dispusemo-nos a estrear a Casa da Música na sua utilidade primeira.

domingo, 5 de julho de 2015

Quando a Mente "apanha" o Táxi

Para a maioria dos homens, o curso da vida depende do livre jogo entre vontades e acasos. Quer se ajuíze apenas acerca de vontades humanas, ou nos espraiemos por quereres sublimes e divinos tão abrangentes que mudam nome ao dito acaso. O certo é que a crença na vontade, teológica ou racional e sensível, subsiste; ora alargando, ora apertando a malha fina da liberdade. Portanto, nenhuma das teorias será universal e outras virão, a explorar até ao tutano a liberdade que temos, sinal da que nos falta. Entretanto, a vida descompadece destes humanos entreténs e vai rodando na mesma.
Ora o meu encontro com a cidade do Porto urdiu em vagar pontuado de apetites e acasos. Também de vontade de razão, vá. Porque a sedução é participar – querendo ou não -  da trama dos acontecimentos, ser fio, ponto, elo.
Sem pena nem paixão, fomos incógnitas durante mais de trinta anos. Até me ocorrer conhecê-la, talvez em breve respirar de férias ou fim-de-semana aprazado. Esse olhar originário e primeiro segurou-me à certeza de que não sermos estranhas, que tudo no Porto me soube – e ainda sabe -  a costume e uso. Uma sensação esquisita, como se o houvera habitado noutra encarnação. Salvaguardando as singularidades dessa virginal e desafectada visão, quase pura, pouco aprendi da invicta para além de um dejá vu que colou nas principais artérias e pontes. As pontes e seu sortilégio de chão que é e não é, altura a despedir sobre a fundura de água corrente; elas me precipitam no fascínio do medonho que a geometria concisa das casas a aproximar desvia mansamente. Nesse momento irrepetível, tão bonita a cidade  insinuada ao olhar, ainda isenta de relações de pertença. Ela apenas. De pé, na nossa frente. Mostra de casario impenetrável e sem brechas, que encavalita ordenado, num jeito repetido de ângulos rectos em mero aceno ao viajante. Um olhar a direito.
Observo-a hoje e, com a idade – minha e dela -, deveio um tudo-nada terna, o burilado de tempo a arredondar-lhe os ângulos. Que, no mais, não denoto exibição ou vaidade e nem se desfaz em simpatia e agrados. É como é. Sem subterfúgio ou artifício. Desconheço-a sob a chuva, fustigada de vento. Imagino-a agreste, posta em frigidez natural de arrepiar, o lado soturno abotoado de sopé a cume. E tudo isto me veio no interior do táxi, vidros descidos, o calor a corrê-lo, cabelos fugitivos em demanda do para além – a minha parva timidez em solilóquio interno, os táxis do Porto não terão ar condicionado. Enquanto a inquietude dos olhos procurava o taxímetro, a torre dos Clérigos afobada, a desprender exuberâncias de calor, saturada de turistas formiga, olhos de desânimo nas árvores ali tão perto, mas por que não hei-de eu ir até ali deitar na sombra a cabeça do relógio, que martírio esta vida no mesmo lugar, debaixo de sol ou chuva. Tanta sindicância para isto e aquilo, e ninguém a defender as pedras. E numa queixa que me perseguiu na aragem de velocidade, ai quanto me dói este ar pesado de, até cair, ser a mesma no mesmo lugar. Eu já aziaga dela e de um quarenta e cinco qualquer que tomei por preço, o quêêê…não me diga que já lhe devemos quarenta e cinco euros. O taxista, bigode bem-humorado, do meio do vendaval, ó minha senhora isso dava para irmos passear em Gaia de ponta a ponta e virmos. E eu quase tentada ao convite, o hotel que esperasse. E logo em recuo de instinto, não, não, revendo o cheiro a vinho das ruas ribeirinhas e escuras de Gaia, agoniada de caves e garrafas, e mais daquele ar de esforço imparável que ressalta  nas pedras da calçada e nos semblantes, massacre de uvas e alguns homens a alombar. Apetecia-me o hotel. Animal de hábitos, sabe-me bem revê-lo e ilude-me a simpatia comprada dos seus funcionários.
Afinal, o passeio dentro do mini ciclone não chegou a dez euros. Ora bem. E não sei porquê (mas pode ser porque tinha ligado a resmungar e um tanto alterada de voz) fizeram-nos um agrado especial e deram-nos um quarto xpto. Bué bom J.