sábado, 28 de março de 2015

Inscrição

A  luz do dia é mais clara se dormimos. O sono comanda-nos os dias e só há mesmo manhã, se acordamos. Nenhuma claridade nasce da insónia.
Um destes dias bateu-me a saudade e fui ver o meu pai. E nessa tarde de um dia destes, pela primeira vez, notei-lhe a velhice. Ou ela se me quis mostrar. Entrou-me pelos olhos dentro o peso dos anos esparramado pelo corpo num à vontade abusivo. Será do meu olhar, mas está diferente o meu pai. Tinha um ar afilado que lhe fugiu, abolachou. Como se já não necessite viajar e a pose de quilha lhe seja inútil. 
Estava sentada a seu lado a ouvir-lhe as histórias e a pensar  na viagem que encurta, a última estação já a distinguir-se. A pensar que, sem esta raiz, nos teremos de reinventar. E que todos os momentos com ele – enquanto ainda é dono de si - se tornam a cada dia mais preciosos.
Mas a verdade é que a morte não liga muito a cronologias.

Como a vida é efémera!

sexta-feira, 20 de março de 2015

“Fazes-me falta” Inês Pedrosa

E caracterizei as personagens e li trechos de cada uma; e projectei a Inês em alguns alegretes daquela mulher – é um canteiro de flores a garota. O estado actuante de paixão salvadora de que a personagem feminina se reveste parece quadrar com Inês Pedrosa pelas causas em que se envolve e a forma algo arrebatada e muito existencial de se exprimir em entrevistas e programas que vi e ouvi.
E revesti de ternura acalorada aquele homem tão mais velho que a poupava a observações mais contundentes, a protegia quase paternal, gostava dos seus deslizes e apropriações, se orgulhava das ideias que ela lhe roubava, no sem distância tão do amor que também é amigo (olha, olha, que amigo faria isso, Inês). E discorri sobre uma amizade que não existe nem pode, de romance. Sem corpo de desejo, mas com o corpo. As coisas que a gente lê e gosta sabendo-lhe a verdade apenas imaginária. É indubitável, os ideais continuam bastante apetecíveis.
Inês Pedrosa afirmou em algumas entrevistas que escreveu sobre a morte porque vivera a experiência  de perda com a morte do pai e foi a forma de pacificar a dor, exorcizá-la. Além disso, considera a amizade um sentimento de rara pureza, a forma de amor mais despojada de interesse. Daí o ter imaginado um universo relacional que não inclui o amor sexuado e onde o prazer se situa apenas ao nível de afinidades e sentimentos tornados cúmplices pela proximidade entre os dois personagens. Ainda que a personagem feminina afirme, “nós nunca fomos cúmplices, éramos promíscuos. Dedicávamo-nos a combater o pensamento um do outro até chegar à névoa humana.”, verifica-se ao longo da obra que em muitos aspectos da vida existem os dois em contraposição justaposta, numa oposição tão simétrica como acontece nas afinidades. E a verdade é que viam um no outro o que escapava aos demais “ninguém sabe falar de como tu fumavas, com o cigarro entre o terceiro e o quarto dedo da mão esquerda. Ninguém é capaz de descrever a curva dos teus dedos em movimento de marioneta”. E essas memórias, diacrónicas ou em uníssono, fazem o universo significante de todo o livro. Ainda que Inês o tenha querido rematar com a ética, dar-lhe um sentido, sabemos que não é isso que une aqueles dois. Quase parece que Inês Pedrosa tentou exorcizar um amor que não o do pai, que se apresentou ou não quis ir além de (quiçá, até por vontade de ambos os intervenientes). Asseguro: não é possível escrever tal romance de cor. É minha opinião que Inês Pedrosa não tem livro mais marcante (ainda desconheço o último). É certo que amadureceu conhecimentos – é quase especialista no Padre António Vieira, por exemplo -, conserva a depuração de linguagem, burila melhor o seu cristal, mas não voltou a conseguir a proximidade quente, confessional, de Fazes-me falta. Admito: será preconceito. Concedo, nem todos os romances beneficiam com o pendor  de “Fazes-me falta”. Mas, dentro do género, tem força. Quem sabe, hoje, agarrei alguma daquelas garotas com ele.

Porque será que a Inês se queixa tanto da falta de importância dada aos escritores da sua geração?! As oportunidades de emprego e de trabalho como escritora  – não está em causa o mérito –, a diversidade das suas publicações e os prémios recebidos, desmentem…. 

"Fazes-me Falta" Inês Pedrosa

Voltei ao “Fazes-me falta” de Inês Pedrosa. Por preguiça e ametodismo sistemático. Não me lembrei que ontem era um obrigatório dia de mãos na cozinha. Mãos e o corpo todo, que não faço por menos. Ou bem que estou, ou bem que não estou. E os princípios da física – e também da lógica – traçaram o resto, não posso ser simultânea em dois lugares. Consequentemente, não podia preparar o tema da Semana da Leitura e mergulhar na culinária. Há quem consiga, mas sou, em algumas poucas coisas, uma mulher atípica: não faço muito ao mesmo tempo. Em primeiro lugar porque não me apetece cansar-me em demasia. Em segundo porque estou sempre a fazer duas coisas, a actividade que me destino e o meu monólogo sobre ela – bem digo que converso com a gata, tretas, converso comigo, a gata é mesmo só para enfeitar, aquele olho de vidro azul transparente percebe lá alguma coisa. Em terceiro, porque não é estimulante para a terceira idade – na qual entrei precocemente e contrafeita – andar a apagar muitos fogos. Não é a idade da serenidade? Pois então. Portanto, optei por culinar. À noite, vim terminar a releitura do romance e fui dormir sobre. Voltar-me na cama. Hoje escrevi drasticamente um esquema apressado, pensei no como da apresentação e faltei ao compromisso que tenho com a água.
Li as críticas ao romance e são do melhor. Tinha-me entusiasmado na primeira leitura. Julgo que seja um bom romance para uma turma de humanidades. E lá fui explicar o feminismo e as suas lutas, contrariar o meu ex-slogan – completamente parvo, diga-se de passagem – “Sou feminina , não sou feminista”, mostrar que uma coisa sem a outra não existe – é tudo ou nada -; lembrar que as leis são um caminho para uma realidade diferente mas só a mudança das mentalidades – homens e mulheres – modifica o quotidiano. E as mentalidades são lentas. E lentas. E lentas. Falar do direito ao próprio corpo de que tanto abdicamos e da qualidade que pode haver numa relação entre iguais. E mais coisas que não me lembro.
E depois veio a Inês a reboque e mais as suas lutas que ela não deixa por menos e as assume na vida e no papel. E o “Fazes-me falta”, romance de que gosto por haver nele vibração de verdade (e quero lá saber das críticas que li e se concordam ou não comigo. Eu concordo comigo e parece-me suficiente. Por agora), escrito num estilo que considero diarístico e poético a escorrer (na segunda leitura as metáforas emperraram-me um tanto o pensamento, pareceram-me por vezes em catadupa e outras surgiram-me repetidas). Mas é aquela veemência que nos convence. E, sendo sobre a morte, não é um livro  triste.

Porém, todos os livros são sobre a morte. Foi o que tentei provar e não sei se consegui. Os homens escrevem por temporalidade, o mundo divino prescinde da escrita, o seu eterno presente enche-se com o ser redondo que é, sem memória ou palavra, incha de si e basta, “Deus é aquele que é”. Não há mudança sem morte, não pode haver o novo sem a extinção do velho (Anaximandro, Anaximandro). Seja isso o que seja. Morramos pois. Diários e diáfanos. Até ao ponto sem sentido que, desde o nascimento, dá sentido à nossa linha pequena. Oh certeza fatídica que sem ti não saberíamos nem como experimentar viver. 

quarta-feira, 18 de março de 2015

Olívia



Morreste. Assim. Sem mas nem mais.
De alguma forma já tinhas morrido. Se habitas um Olimpo omnipotente, sabes quando. Se não, digo-te que foi no dia em que não me quiseste junto de ti, quando vali menos do que uma prima de Lisboa, lembras-te? A tua voz no telefone a escolhê-la a ela. Sei, não o disseste com o propósito de magoar, foste em absoluto sincera e sou-te grata por isso, situarmo-nos dentro das afeições e situá-las dentro de nós, é bem de primeira necessidade. E tu, a uma prima que ficaria contigo uma semana não podias roubar três ou mesmo quatro horas de um dia. Não tive em ti esse merecimento. Estúpida de mim! Quando o afirmaste, logo comecei a dizer que era engraçado conhecê-la. Cerceaste-me sem hesitação. Eu não te dava jeito. Tinhas razão, sabes? Nem para mim mesma sou uma pessoa jeitosa.
A morte é um domínio tão obscuro. Não sei se podes ver-me. Se me lês. Se agora, finalmente, me conheces a alma. Quero crer que sim. Que, nesse reino desconhecido dos homens, o teu pensamento exista e possas compreender-me. A mim. Que sou ainda esta amálgama de terra, sangue, nervos, ossos e o mais.
Quando alguém me ligou – quem sabe, a prima de Lisboa – a comunicar, não houve surpresa, que as más notícias do coração sempre se me fazem prévias (não nascem como os cogumelos). A verdade é que pedias para ver as minhas fotos de família, mas desconheço por exemplo a aparência dos teus pais; se há fotos deles, não mas mostraste. Porém, uns dias antes da tua morte, vi a tua mãe, imagina! Acordei na certeza de que ela a meu lado. Suponho que tenha sido um sonho. Só pode ter sido um sonho. Mas eu sei quando os sonhos me avisam embora quase nunca saiba de quê. Neste, nada aconteceu. Não houve história, cenário, voz, cores. Era apenas o rosto dela  - que na verdade desconheço e nem sei se seria aquele, mas acredito – em visitação, uma fotografia desmedida a olhar-me a preto e branco. E nem a sombra de um sorriso. Tão séria, a fixar-me. Acordou-me o assombro daquele olhar enigmático, intrigada com as ondas do basto cabelo grisalho, único factor que parecia real e mesmo desenquadrado.

E pronto. Quem sabe, ainda gostas de um abraço justinho e sem roda para os caminhos do eterno:)

terça-feira, 17 de março de 2015

Zita do Caco

Depressa deixei Zita para trás, o dia a rolar devagar, na atonia desinteressante das horas de expediente. Contudo, quando à tardinha me vi no convés a caminho de Setúbal, circunvaguei os olhos. Decididamente, ela não se encontrava na cabine ou no banco sob o mastro. Encolhi os ombros e esqueci-a mal abri o jornal adiado desde cedo. Mais ou menos a meio do rio amodorrei e senti que as folhas começavam a escorregar. Ensonado, apanhei-as do chão e dobrei-as depositando o diário no lugar vazio a meu lado. Era  hábito os jornais passarem de mão em mão entre as duas margens. Só na última viagem do dia, ficando algum ao desmazelo, o funcionário tratava de o recolher. Cruzei as mãos uma sobre a outra e adormeci.

Abri os olhos com esforço, inexplicável contundência dolorosa a fechar-mos. Sem ousar um movimento, verifiquei pelas figuras rectas do meu campo visual que não me encontrava no barco. Mirava parte de um tecto claro, um ar condicionado metálico e com barbas e a nudez alta de uma janela. Porém, acima da dor e da estranheza, mau grado lembrar-me que Zita não regressara comigo, palpável e saliente, percorria-me a sensação da sua companhia;  sentia-me envolto na nitidez debruçada do seu sorriso. Em esforço, perguntei, Zita, está aqui. Porém, julgo que apenas mexi os lábios. Ou terei balbuciado. No entanto, ouvi distintamente
- Doutor! Ele acordou.
Atónito, vi aproximar-se primeiro uma cabeça e em seguida distingui um tronco de bata branca, estetoscópio ao pescoço. Encontrava-me no hospital de S. Bernardo, deitado na maca, a inspirar a mistura morna e levemente repugnante do cheiro de doença e fármacos, acirrada pelo ar condicionado. O doutor aproximou-se e, ajudado por uma enfermeira - provavelmente a voz de, doutor ele acordou -, pôs-se a observar-me num ritual inspectivo, quase de peça a peça. Ela num sorrisinho cúmplice, a tapar e destapar minúcias, e páre de chamar a Zita, não há aqui nenhuma.
O médico, depois de me perguntar, nome, idade, residência… uma luzinha a apontar-me os olhos
- Essa confusão de cabeça já passa. Hoje é o seu dia de sorte. Se não tem tropeçado…. – e enfatizou as reticências -  quem vinha atrás de si não vê motivo ou explicação para o aparato da queda, mas o automóvel passou alucinado e ceifou a gente da passadeira. – e com bonomia, a dar-me uma palmadinha no ombro -. Salvo por um trambolhão, hein? Tem de comemorar.
Passada uma hora estava na rua, livre de dano maior que uns arranhões e a dor de cabeça entrada em processo de desinstalação muito cheio de hesitantes vagares. Intrigado e inconclusivo, segui a caminho de casa pesando o sucedido e suas coincidências e acasos.
Nos dias que se seguiram, inquiri a senhora do quiosque, a marinhagem, passageiros habituais. Ninguém guardava memória de Zita ou nos tinha visto à conversa. Em desespero de causa, lembrei-me do porteiro e fui procurá-lo confiante no saco que guardara. Que tinha tirado o dia para ir à terra a um funeral e desconhecia quem o substituíra. Corri chefias e gabinetes intermédios, falei com paquetes e coordenadores, ninguém me alumiou ou deu um nome. E eu que o  vira e com ele falara, na turvação, nem sequer dera pela troca. Então, convicto de que todas as coisas tendem naturalmente para o seu ser que é de todo imperfeito, encerrei o assunto.

Jamais fui à Igrejinha confirmá-la. Não passei no Pinheiro da Cruz a verificar-lhe o filho. E continuo descrente. Contudo, em momentos cruciais, regressa-me aquele sorriso.

Zita do Caco

A quantidade de humores que transportamos conformados ao que supomos ser a nossa imagem! Conhecera-a há pouco mais de uma hora e tinha sucedido como naquelas jogos em que cada sobreposição da imagem sobre uma mesma figura inicial e rudimentar contribui para a nitidez e riqueza final. Fora assim connosco. A mulher que saíra da rodoviária era apenas esboço, faltava-lhe substância. Se me perguntassem por ela eu diria, ah, aquela mulher muito carregada, toda pendurada para um lado e que encontrei logo pela manhã. E a memória dela ficaria a adejar por uma hora ou até um pouco menos. A memória só desperta para a duração se colaboramos. Não sei se guarda por afinidades, mas pressinto que seja sensível e se deixe impressionar pela força com que vivemos pessoas, acontecimentos, situações.  Zita vivia nesse paralelo invulgar dos seres que se entregam à vida sem desvios protocolares; não era refinada ou bela; não tinha boa conversa. Mas entrava por nós dentro sem aviso, inconsciente da intrusão.
Pensava já no regresso, entregando-a àquela osmose benfazeja, quando lhe reparei os movimentos dos lábios. Julguei que cantava, tão suave era a expressão. Porém, ainda que não entendesse uma palavra, dei-me conta de que balbuciava a espaços, presa da massa líquida. Arrepiei caminho prenhe de embaraço, assaltado por um desvario de pudor como se a tivesse desnudado ou visto em combinação – estou crente que a usava –. Apressei-me na recolha do saco, convicto de ter presenciado dois momentos íntimos na vida daquela mulher. E, um tanto apreensivo com o teor dos meus pensamentos - pruridos e tagatés não combinam muito comigo -, plantei-me a esperá-la como se nada fosse, na maior discrição, também para fugir à curiosidade do pessoal no escritório.
Voltou renovada. Trazia um vagar novo de passos, uma leveza de gestos que suplantavam os sapatos empapados de água e areia, numa súplica de corpo todo, acudam, acudam que morremos, o cabelo húmido em revoada sem tino. Desanuviada, parecia mais jovem. Passei-lhe a encomenda e preparava-me para um adeus até outro dia, quando ela, mão direita solene a pousar-me  no antebraço
- Muito obrigada. O mar é a coisa mais bonita que já vi no mundo. Sem a sua ajuda não lhe punha a vista em cima. Se algum dia for à Igrejinha…
Então a pergunta veio-me de novo, saiu-me num rompante inadvertido
- Zita, com quem é que falava no barco?
Ela seriíssima, olhos nos olhos
- Com Deus. – e ao ver a minha expressão - Não acredita. Não vem mal ao mundo por isso, deixe lá. Olhe eu não sou de missas nem de igreja, nem sei se o Deus que me escuta é um Cristo, até acho, Deus me perdoe se digo mal, que não tem retrato. Mas é verdade que falo muito com ele, converso, quero dizer. O senhor sabe lá os mundos calados que uma mulher atravessa. É que não têm tamanho. Tanta gente a passar-nos à soleira sem um reparo ou olhar que seja. Não é tanto para pedidos que o requeiro, que não preciso. É para lhe contar, que sempre me ouve, tenho certeza. Sabe o senhor, desabafo com quem não entristece de ouvir. E aproveito para agradecer a gente boa que me tem posto na frente – abriu um sorriso tímido e confidenciou baixando a voz –. Ainda agorinha, ali rentinho à maré, o agradeci a si. E também pedi que lhe tomasse conta, que o senhor precisa.
- Mas eu não sou crente – rematei a sorrir
- Não carece. Deus é pai de todos, não anda cá a escolher este e aqueloutro. Por isso é que é Deus.  -  e como se já tivesse dito demais - Então até logo e obrigadinho por tudo – e desandou em direcção ao autocarro.

Fiquei um momento a observar-lhe a inclinação da silhueta até se perder no interior do veículo já a bufar impaciências de gasóleo. Em seguida, encaminhei-me  para o escritório. No elevador, rememorei a nossa conversa  e intriguei  no  “até logo” final. Talvez esperasse que nos encontrássemos no barco. Ou, avessa a despedidas, optasse pelo adeus mais suave. Sorri,  “até logo”, deixa a mesa posta ao reeencontro. 

sábado, 14 de março de 2015

Zita do Caco

Baixei os olhos enquanto as mãos dela, moiras de trabalho, regressavam às asas do saco que os balanços de acostagem sacolejavam, o silêncio a  encaixar no desalento do instante. E Zita erguida sobre a sorte, olhos secos, semblante desenhado à faca, boca guardada por vincos fundos, sentinelas da pele que eram gritos de sofrimento. Entretanto, o barco encostava suavidades a chapinhar no cais enquanto uma revoada de gaivotas em ziguezague enchia o ar com a sua algazarra belicosa na disputa de peixe  e pequenos lixos de porto. A mulher levantou-se prestes na cadência e ajudei-a com o peso, a ampará-la de cada vez que o casco embatia nos pneus do cais, a água a engordar nódoas irisadas de gasóleo. Acautelámo-nos dos veículos que zuniam como abelhas e guiei-a até ao passadiço de peões sugerindo
- Cada um pega numa asa. A senhora tem muito caminho pela frente com ele a pesar-lhe.
Zita assentiu com um aceno e, numa decisão da vontade, arrebitou um sorriso sacudindo escuridões.
- Pois claro, obrigada. Hoje é dia de festa, vou ver a luz dos meus olhos e isso é que vale. E conheci o Sado. Diz que há uma camioneta para o Pinheiro da Cruz, o senhor não se importa de me ver o horário quando desembarcarmos que eu não sei onde é?
Anuí a descansá-la e fizemos o percurso em silêncio, eu meio tolhido, a refrear uma pergunta debaixo da língua. Acomodei-a junto à gelataria, pedi-lhe que esperasse um pouco e dirigi-me ao quiosque. Quando regressei guardava a mesma postura, olhos a beber o rio. Depois de a informar do horário e do lugar do autocarro, suspirou aliviada. Adiantou o braço esquerdo, deu uma mirada no relógio de pulso antigo, vidro riscado e bracelete esfolada, e virou-me o pedido
- O senhor não é capaz de me tomar conta do saco enquanto eu vou ali àquele lado num instantinho ver o mar?
Consultei o relógio. Ainda faltava meia hora e trabalhava a dois passos. Agarrei o saco, desviei-me do caminho e indiquei-lhe a senda palafítica que leva à praia.
- Pode ir por ali e não se preocupe, só entro às nove e meia e trabalho naquele edifício, está a ver?
Ela certificou de soslaio as indicações e abriu-me um sorriso grato, quente, como só as mulheres sabem. Depois, deu meia volta e internou no passadiço.
Fiquei parado uns instantes, roído na curiosidade dos seus olhos primordiais a olhar o mar. Observá-la frente ao imenso azul-verde de Tróia. Convicto de que seria uma oportunidade única, levei o cesto até ao edifício em que trabalhava, deixei-o na portaria e meti pelo passadiço imediatamente à direita do que indicara a Zita. O frio húmido e os fiapos de névoa não predispunham, e a praia deserta reinava sobre o tempo, entregue a si mesma. Na maré baixa, a rebentação era suave e a areia cama desfeita. Aqui e ali, a esmo com a caligrafia das gaivotas, notações da noite de amor em vestígios de espuma, pequenas conchas de búzios, caracóis marinhos e outros atentos caprichos de amante. 

Zita não me apercebeu. De pé, sapatos enterrados na areia molhada, a rasar a rebentação, encantava na paisagem agitada de brisa e sal. Especada. Quieta. Cabelos e cachecol a esvoaçar para trás, olhos presos na fixidez repetida da ondulação, transfigurava. Imbuía no desusado ser magnético do mar e como que se envenenava dele, em indisfarçável feitiço de alma. Zita, criada na modorra dos estios e no sofrimento de agruras invernosas. Zita, sorvedouro em aguda atenção. Zita diluída no universo, órgão que pertence ao corpo na adequação mais funda de si. Ela e a sua raiz de limo à tona do olhar.