Dizemos e pensamos que a
vida nos prende a ela por muito fio. Mas a verdade é que fomos feitos para
viver. E gostá-la é uma inevitabilidade natural. Salvo excepções doentias ou
mesmo insanas, compete-nos gostar de viver. E, quem sabe, a razão de nos ligarmos
a umas pessoas e não a outras provém também da natureza, dado que se aceita existir uma química a puxar-nos, em jeito de íman. Contudo, a relação que se constrói no tempo parece
não encaixar nesses inevitáveis.
Conheci o Luís certa
manhã de um Janeiro qualquer em que me calhou uma substituição no Sétimo A.
Nesse tempo, não havia planos de aula; os professores substituíam-se uns aos
outros e pronto. Eu tinha uma ideia vaga do currículo de sétimo. Entrei na sala
e cerca de trinta alunos olhavam-me na expectativa de lhes permitir fazer o
quisessem, olhos meio receosos, “deixa ver o que ela faz”. Então, lembrei-me
que em Fevereiro havia o S. Valentim e comecei por contar a história do
santo e do dia. Em seguida, expliquei – era o primeiro ano deles na nossa
escola que antes não tinha terceiro ciclo – o que fazíamos na escola para o
comemorar. Falei-lhes da importância de saber escrever e, sobretudo, de sabermos
dizer às pessoas de quem gostamos, que gostamos delas. Por escrito. Como uma marca de vida de que nós e elas podemos precisar um dia; espécie de bóia salvadora. Conversámos
um bocado sobre isso e todos reconheceram esquecimentos comuns: gostavam das
mães mas esqueciam-se de lho dizer, tinham amigos preferidos sem nunca lhes
terem dito que os preferiam, etc. Vimos também que é normal não andar a dizer
que se gosta e que o gosto se nota em muito mais que nas palavras; todas as
mães sabiam que eles as gostavam. Quando contei que no Dia de S. Valentim
entregávamos as cartas que aparecessem na caixa do correio, exultaram. E logo
se dispuseram à escrita. Certo foi que inauguraram uma liberdade que os mais
velhos, a cabeça cheia de romance, raramente usavam. Escreveram à professora da
primária, à catequista, a uma prima de outra escola, à madrinha, a um vizinho,…
sei lá. Enquanto passeava entre as filas, notei-lhes o empenho entusiasmado. E,
desde que entrei na sala, o Luís destacou-se. Atento, as
minhas palavras a ganharem lugar dentro dele, o rosto a crepitar interesses até
entender tudo. E então, vou escrever uma
carta. E já sei para quem escrevo. Pediu uma folha de papel e apressou-se. Quando
tocou, levei as cartas com a promessa de expor as mais bonitas na escola e de
lhes dar uma cópia se fosse o caso. Mas os professores funcionam aos toques. E
rapidamente mudam de uma coisa a outra. Nesse dia, não li as cartas; não soube
sequer dos destinatários.
Entretanto, o Luís passava por mim no corredor, “já viu a minha carta?” e eu, “ainda não”. E a cena repetiu-se dias e dias e dias. Passaram semanas. E as cartas continuaram no armário. Até que, a data de S. Valentim a aproximar, resolvi ver o resultado da minha aula improvisada. Havia cartas muito bonitas, mas a dele ainda hoje me deixa uma ternura nas mãos – fiz uma cópia para mim. Começa, “Meu querido ratinho”. E segue curta e comovente. No final, a assinatura, “o teu padrinho”. Quando me abordou de novo e respondi, sim, parou e fez um sorriso de orelha a orelha, gostou? E eu que sim. E ele, é que a minha irmã foi sua aluna e já tem uma bebé. E com uma ponta de orgulho na voz, sou o padrinho. A carta é para ela. Então, combinámos que eu fotocopiava a carta e, no dia de S. Valentim, a daria à irmã. Expliquei-lhe que, quem sabe, a afilhada gostasse de a ter quando já soubesse ler. Talvez a fosse olhar quando se lembrasse dele. No dia seguinte, dei-lhe a fotocópia e fechei o assunto.
Entretanto, o Luís passava por mim no corredor, “já viu a minha carta?” e eu, “ainda não”. E a cena repetiu-se dias e dias e dias. Passaram semanas. E as cartas continuaram no armário. Até que, a data de S. Valentim a aproximar, resolvi ver o resultado da minha aula improvisada. Havia cartas muito bonitas, mas a dele ainda hoje me deixa uma ternura nas mãos – fiz uma cópia para mim. Começa, “Meu querido ratinho”. E segue curta e comovente. No final, a assinatura, “o teu padrinho”. Quando me abordou de novo e respondi, sim, parou e fez um sorriso de orelha a orelha, gostou? E eu que sim. E ele, é que a minha irmã foi sua aluna e já tem uma bebé. E com uma ponta de orgulho na voz, sou o padrinho. A carta é para ela. Então, combinámos que eu fotocopiava a carta e, no dia de S. Valentim, a daria à irmã. Expliquei-lhe que, quem sabe, a afilhada gostasse de a ter quando já soubesse ler. Talvez a fosse olhar quando se lembrasse dele. No dia seguinte, dei-lhe a fotocópia e fechei o assunto.
Já a Primavera ia em
meio, o Luís veio ter comigo, professora,
espere um bocadinho que quero-lhe dizer uma coisa. Treze anos altos e
inocentes. Treze anos tão bonitos como não pode haver mais. E na pureza que o
caracterizava, Olhe, é só para lhe dizer
que a minha irmã gostou tanto que mandou fazer um quadro com a carta e
pendurou-o no quarto da menina - e depois de um sorriso mútuo e silencioso - Ela até chorou. E separámo-nos porque um toque nos mandava em direcções opostas.
A carta do Luís, que nesse ano foi exposta no átrio da escola, serviu-nos depois para ler ao terceiro
ciclo; exemplificava o amor que não se dedica apenas a namoradas e afins.
Quando chegava a vez da turma dele, os colegas batiam-lhe palmas e subia-lhe ao
rosto uma timidez vermelha. O Luís, ao contrário da irmã, não era um bom aluno
e frequentou um curso profissional. Vivia não muito longe de mim e, por vezes,
enquanto a afilhada coube no carrinho de bebé, enveredava pela minha rua de propósito. A mostrar-ma. E ficávamos os dois a desfiar pormenores até a garota se insurgir porque o passeio parado.
Na escola, sempre nos
juntámos uns bocadinhos de nada para um bom dia ou boa tarde. E muita vez o seu
sorriso limpo me vestiu e deu lugar. O Luís era puro
de coração e mente.
No último ano via-o
amiúde, tinha-se empregado no talho do super. Atrás do balcão, o mesmo sorriso
a fazer-me esquecer nuvens e contratempos. Era feliz, creio. Com a sabedoria
dos puros de coração. Às vezes, abeirava-me só por ele. Fazia-me bem
olhá-lo, era um rio a correr mansamente, descansava-me o pensamento.
Na semana passada, foi
ver a moto 4 de um amigo. Na garagem. E a morte pegou-o ali mesmo. Num
repente de experimentar. Foi uma semana atabalhoada para mim. Muito cheia de tudo. Mas talvez Deus haja, que ainda deu para me despedir. É só um corpo. Sei que é só um corpo.
Mas era nele que eu encontrava o Luís. E era com ele que o sorriso existia. Um
sorriso tão bonito como não há.
E, contudo, o que ficou a doer mais foi o pedido rouco de uma mulher loura, abraçada numa caixa
de madeira, as mãos a desenharem afagos sobre o verniz, “só mais um bocadinho, por favor dêem-me só mais um bocadinho com
ele”. E a este pedido desligado da torrina de sol e que engoliu tudo, que foi baixo mas soou como um grito, a multidão fez-se sôfrega, contraiu em proximidade, enquanto eu, ao invés, recuava involuntária, saía. Desnorteada do tanto que se sofre sem que a morte nos tome consigo. Nos queira.
A ausência dos puros de
coração é um buraco grande demais.
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