domingo, 9 de novembro de 2014

Diletâncias

As pessoas são todas iguais?!  São todas iguais o tanas. A primeira vez que frequentei a estância termal alojei-me no hotel das termas em cinco dias resumidos, que o bom tratamento tem custos. Desse tempo, guardo a distinta ideia de pessoas discretas, educadas e bem-falantes, inscritas em programas mistos de massagens de relaxamento e tratamentos específicos. Algumas crianças estavam com os avós enquanto os pais se passeavam pelo estrangeiro ou gozavam o seu tempo a dois. Eram famílias como toda a gente conhece, notava-se-lhes a naturalidade dos laços, os garotos portavam-se normalmente à mesa e obedeciam aos avós, julgo que por amor e respeito; lembro-me de uma garotinha que sempre vi de mão dada com o avô pelos jardins e ruelas, naqueles pulinhos felizes que só as crianças sabem. O hotel tem várias salas e recantos onde nos juntávamos por vezes. Falava-se baixo e pouco. Não tenho memória de apartes intimistas, relatos de doenças ou coscuvilhice, as relações entre os hóspedes pautavam-se pela discrição. Parecia haver um acordo tácito, estavam para esquecer o ano de trabalho e melhorar a saúde sem aflições desnecessárias. No ar, um meio espírito de festa que o hotel instigava a partir de novidades elegantes, repartidas por passeios e refeições. É verdade que ninguém me pareceu seriamente doente, mas dir-se-ia que esse era um domínio privado e que o hotel cumpria sobretudo o papel de uma estância de férias.
E este ano voltei. Para a mesma estância e noutro hotel. Mas não é o espaço que me confrange. É o espírito das pessoas. Não que tenham propósitos diversos. Vêm também para retemperar forças enquanto se tratam. E não é porque o salão é menos acolhedor que fugimos de estar. São pessoas que tudo contam e tudo perguntam. Que não supõem nem por um momento que são indiscretas ou aborrecidas. Os temas de conversa são as casas e os naperons e as toalhas de bainhas abertas que aprendem na universidade senior que parece ser a coisa melhor do mundo. Depois, enfileiram sem aviso pela moradia ou andar que possuem e passam tudo que lhes merece consideração a pente fino, contam o desenho da sala, os tapetes e candeeiros e descambam para as peles e cabedais que vestem. E tudo isto com preços, lugares, lojas e considerações infindas de amizades em todo o lugar. Em seguida, tomam balanço e descrevem o roteiro das viagens: conhecem Portugal de lés-a-lés e passearam mundo fora. Meus deuses! Não há um extâse, um enlevo a prendê-las, não se lhes para o pensamento numa recordação de beleza. Correm países no afã de marcar uma cruz, este já está; gabam restaurantes, pratos típicos e não há uma referência a um arco, uma rua, um museu, uma paisagem, um palácio, salvo para o mortífero, também lá estive. Lêem livros em fotocópia, que publicitam e emprestam, sobre os benefícios do vinagre e as técnicas brasileiras para melhorar a saúde. E massacram os interlocutores com doenças exaustivas e tantas que nem se sabe como ainda continuam vivas. Se por educação ainda resistimos calados, há as perguntas de filhos e marido e lugares e profissão e tudo que lhes importa ou passa a importar no momento, não se sabe para quê.

Eis uma doença portuguesa: provincianismo exacerbado. E, depois de tanto parafuso fora de sítio, pergunta-se a gente se isto terá remédio.

sábado, 8 de novembro de 2014

Depois da Chuva

Apesar do arroz doce sobre a mesa é o cheiro a maçãs assadas que ciranda no ar. Imagino que se alguém lá fora – mas claro que ninguém lá fora, talvez eu sozinha neste andar, bem noto ao escurecer que as luzes acesas em todos os andares excepto aqui –, a pituitária agradada, atardemo-nos, cheira a maçãs. É um bom aroma o cheiro a maçãs assadas; as minhas desculpas ao paladar, mas é o cheiro do fruto que impressiona. Vou à varanda e a cadela que não distingo se cadela se cão, espera-me em baixo, paciente. Os bichos solitários conhecem-se uns aos outros, atraem. Saio e logo ela avança contente, na alegria de abrir presentes de Natal, ou, sendo mais canina, roer um osso recheio de carne. E nada disso. Seguimos pelo passeio até à ponte. A cadelita avança na frente, a parar árvore sim árvore não – deve ter um problema na bexiga maior que o meu – e a apanhar-me de seguida. De repente para, orelhas fitas para o outro lado do rio onde três ou quatro pessoas varejam oliveiras, azeitonas pretas a cair em pés de lã, meio zonzas e desasadas no trambolhão, upss, aleijei a cabeça, devo ter batido num tronco, ou, oh, que violência é esta a desprender, logo agora que estava a conversar com a comadre. Golpes de vara atiram-nas sobre panais azuis onde depois as mãos se fazem galinhas bicando milho pressuroso. Aproximo-me da atenção do animal, chamo-o. Entrega-se em contentamento, deixa-se afagar. O que todos os seres gostam de festas, as árvores a rir se uma mão lhes passeia o tronco, as couves galegas que reverdecem a um toque dedos, as flores a imporem-se em nitidez se as acarinhamos com os olhos. E mais. O mundo precisa desse modo relativo para rolar no seu eixo.  
Mal eu, vamos, logo me precede  em passinhos certos. Chegamos e pára num olho cúmplice. Aproximo-me a meio da amurada sobre a água a ajuizar, diz-se amurada numa ponte ou não. Ela, púdica e educada, atravessa para o outro lado. Fico a sós com o fascínio aterrador e escuro da água. Medito, se eu caída lá em baixo, chegaria a sentir o choque frio ou desmanchava-me toda antes do mergulho final. Decerto me desmancharia sem graça, as vértebras do pescoço a dar de si, desistimos. Não o meu corpo em parábola, gracioso, mas uma rodilha de roupas e limos comigo que já não era mim no interior. Sem cor, que os afogados vêm lavados à tona, a água sabe o que faz. Mais que lavados, desbotados. Lívidos, lábios roxos, pernas hirtas, uma aspereza de corda desfiada nos cabelos, as miudezas todas à mostra, até que alguém um casaco, um cobertor, como nos filmes. Volto-me e espio a cadela. Observa-me expectante, nos olhos um pedido, agora tens de ir ver do outro lado. Corre na minha direcção e adianta, nem tudo é negro, vai, anda mais um bocadinho. Obedeço-lhe e a espuma que se eleva da queda da água antes aprisionada, encanta. Lembra antigas lavadeiras a baterem lençóis na pedra, remoinhos de barco no mar, liberdade de brancura em tardes abertas e soalheiras.
Contudo, não faz sol e um vento frio encana sobre o rio a varrer folhas, cheira às árvores depois da chuva e nem um grão de poeira no ar. Não sei se há Deus. Mas estou aqui, leve, no meio desta nitidez deserta de gente. Eu. E todos os meus sentidos intensos e puros, a percepção numa agudeza que comove.

Subimos de novo e serpenteamos junto à estrada; passamos ao largo dos restos da Casa Maial sobre que ainda hei-de escrever para firmar este desgosto ainda etéreo, que as palavras vão fotografar à luz que me coube. Olho os longes da serra. Escuto-lhe o silêncio, o ruído das motosserras ausente.  O sábado poupou-me a visão confrangedora das árvores a cair em rapidez, uns anõezinhos maléficos a correr de um lado a outro. Os socalcos estão sozinhos. Oiço-lhes a conversa silenciosa. Enfim, repousam. Só o esporádico de um ou outro automóvel que circula na preguiça do dia interrompe o descanso natural. Imagino que os bichos campestres, num fuge-fuge de chuva, se refugiaram em casa. Quem sabe bebem chá por cálices de flor, sentados em sofás de folha. Perdi entretanto a minha companheira. Regresso por humidades incógnitas e benfazejas, casa fechadas que o rio rodeia em quedas de água pequeninas. Olho-lhes as pálpebras cerradas, como será viver com a água por companhia? Estugo o passo que ressoa, marquei encontro com um bule e uma chávena, não quero pô-los em espera:) 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pesos Insustentáveis

No fim de uma estrada a descer em caracol, plantado a meio de um terreiro de árvores, sua majestade o hotel a impor-nos a  brancura elegante e discreta dos seus dois pisos austeros. Tem uma traça de recantos que lembra coroas e grandes senhores, olhos empertigados e  longilíneos a toda a volta, sublinhados de pequenos frisos e gradeamentos verdes. Se o olhamos com atenção, as linhas puras em traço recto  dominam o conjunto e apenas em algumas janelas uma ogiva pequena. Guardou tropas na época das invasões francesas e é compreensível o rigor despojado e militar da sua traça arquitectónica. Diferente de tudo o resto, mas enquadrado na paisagem. Puro acontecer de si, ergue a sua linhagem sem ostentação. No interior (será ainda o mesmo?), uma certa velhice camuflada, aqui e ali ainda o brilho da qualidade. O bom gosto. Contudo, o chão dos quartos em linóleo a apoquentar-nos os pés, canalizações gorgolejando desditas paredes fora a impedir-nos o recreio do pensamento, casas de banho só parcialmente remodeladas. E nem sempre é possível escutar o silêncio que a noite traz no ventre.
Este ano não resisti a espreitá-lo. Na aparência o mesmo. Igual. Como se os anos não signifiquem na cal e no vidro e o granito de portas e janelas uma santa Bárbara das intempéries. Não me reconheceu. Eu a rodeá-lo a toda a volta e ele, não sei quem é, são passos novos. Entrou-me um  desgosto fininho, um frio de alma, pois tu não recordas as horas paradas na janela a olhar a copa das árvores; não tiveste saudade dos meus olhos líquidos a escorrer-te paredes abaixo, nem da tristeza que me cavalga por vezes sem licença quando toda me pergunto sem me saber, este braço serve para quê, eu para que sirvo e quem é isto a que chamo eu e não existe, caramba. E ele num sopro de vento nos áceres das traseiras, que os da frente estão ocupados em não deixar cair folhas outoniças sobre automóveis de estirpe, desculpe mas não sei quem é. E num remoque, a desviar conversa, deve estar a fazer confusão, não aceitamos quem não sabe quem é. Já viu a frota automóvel dos hóspedes? Ponha ali os olhos. E isolou. Embrulhou-se num manto de outono a despedir folhas lanceoladas a amarelar por tudo quanto era sítio, acendeu luzes exteriores e interiores que é como quem diz, despediu-me, porta aberta, faz favor, passe bem.
Doem-me estas coisas das casas a despedirem-me sem mais. Mas acontece, nem todas me recebem. Ainda julguei ser um amuo. Quem sabe ouvira das árvores que este ano mudei de poiso. Que as árvores têm longas conversas sussurradas e sabem tudo de nós, a largura dos troncos nasce do esforço para aguentar o tanto que guardam. A alegria mais leve, sim, mas também conta no peso. A dor humana pesa arrobas e o desgosto que se arrasta molemente na seiva, peganhento, viscoso, mói mais que uma enxadada à raiz. Só elas sabem o mistério da dor que devém folhas, flores e frutos. Esta é a verdadeira história das árvores que a noite em silêncio disfarça de susto e habitação de duendes que silvam desgraças de vento. Mas não. É tão somente a nossa voz calada, enraizada de anos e estações a perpassar. A Voz de todos os homens. Sem tempo ou diferença.  Enquanto a noite vela sobre o mundo, as árvores relampejam o eterno. E nelas te hei-de encontrar sempre.

Regressei devagar ao meu sítio, tentando não desmanchar a canção das folhas a rolar sobre si e a terra. Tão bonito surpreender o outono desgovernado! Deitei um olhar displicente ao parque automóvel do hotel. E as folhas numa queixa, quem me dera um vento de liberdade, mandava os cadillacs logo a um sítio. Olhei os meus pés solados e sorri: a vida não é igual par todos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Para Lá do Mar

Hoje, uma revista de bom papel e má qualidade foi taxativa no signo: “o rosa torna-la-á mais bondosa e amável”. Devastei! Como não tenho nada rosa - não é cor que sobre para saldo -, vou continuar igual. Penso, será que a minha bolsa rosa choc serve?! Agora preocupei com isto de uma cor conferir qualidades, como é que nunca tinha colocado a mim mesma esta hipótese. Ó Pá…eu podia neste momento ser um poço de qualidades. Sem fundo. E não. Que coisa! Qual aperfeiçoamento, qual quê. Cores e pronto. Já está!
Bom, mas esta é a história de um amor marítimo e não dos atrofios de uma revista que – juro que não li o nome de quem ali trabalha – se destina a ser lida por mulheres de outro sector. Aquelas que eu duvido sempre que existam – acho que são inventadas e não respiram, nem lavam loiça, nem passam a ferro, nem fazem contas para esticar o ordenado para as coisas essenciais. Sim, que as mulheres normais, hoje, não se podem dar ao luxo do supérfluo, suas dondocas (se é que existem). Bolas, já escrevi mais um parágrafo à conta da bodega da revista (e não, não a comprei)
 Ora, o meu amor à maresia foi nascendo. Aconteceu-me o que acontece num campo agrícola: há a semente, a rega o adubo; das sementes vão brotar plantas que se deixam crescer e amadurar e só depois se colhem no vagar do tempo certo. E a nossa relação aquífera muito deve à minha amiga de juventude. Ela, que hoje quase não o frequenta, tinha-o na mira e sempre tratou da vida por objectivos. Pragmática. O que é tão bom como mau. Na altura, eu detinha profunda admiração pelo seu pragmatismo, fortemente direcionado para a nossa diversão. Foi, pois, um amor que me chegou por interposta pessoa.

A primeira coisa que ela decidiu foi que tínhamos de comprar uma tenda para podermos acampar na praia, expressão contraditória em si mesma.  Era bem mais espevitada que eu e falava de adormecer a ouvir as ondas como se fora o jardim das delícias no Éden. Eu ignorante, e como fazemos, pedimos uma aos ciganos? Na minha cabeça as tendas eram dos ciganos ou do circo e as do circo pareciam-me altamente improváveis pela enormidade do tamanho; além disso tinham aqueles baloiços dos equilibristas que deviam dar pesadelos, pendurados lá tão em cima. Porém, as tendas dos ciganos eram sujas de não se lhes saber a cor e deviam cheirar mal. Ora não sou em nada esquisita salvo com maus cheiros. Como diz o meu pai, “toloro” tudo menos cheiros de sujidade; os alentejanos são isto, comem carne de porco mas não “toloram” porcaria. Estava eu achando que a empreitada era maior que nós, quando ela a rir, não é nada disso, compramos uma tenda cada uma. Eu com as minhas admirações parvas, compram-se?! Onde? Ainda nunca vi nenhuma (grande coisa, ainda hoje que já estou quase à morte vi pouco, que faria naquela altura). Ela paciente, olha, se tu quiseres, no sábado vamos as duas com o meu amigo ver umas a Lisboa; já andei a ver algumas e são bem bonitinhas. Mas levamos o meu amigo para nos aconselhar, ele deve saber melhor que nós. E eu a estranhar, mas ele não tem só quinze anos? Ela indiscutível,tem, mas os rapazes sabem dessas coisas; além disso ele é amigo de um cigano, tem prática de tendas. Apresentados em pano cru à minha ignorância, tais argumentos convenceram-me. Marcámos o sábado e lá fomos os três para um armazém que o fogo do Chiado havia de levar. Achei o máximo haver tendas. Palavra! Vim tão entusiasmada que fui logo ver onde poderia poupar mensalmente para comprar uma no princípio do Verão e ainda a experimentarmos antes. Foi uma tarde muito produtiva. O amigo da minha amiga tornou-se de imediato meu amigo e andou também ele muito entusiasmado por ter quinze anos e estar a dar conselhos a duas brasas na casa dos vinte. Esclareço que a nossa trempe também era sui géneris, ele era muito alto e magrinho – o meu pai achava-o parecido com uma louva-a-deus, epíteto que muito me ofendia –, a minha amiga bastante bonita, alta e gorda e eu baixa, muito magra e mal encarada, com um cabelão rebelde que quase me engolia, mas me servia de muro protector. Um espanto. Mas passámos a andar todos como corda e caldeiro e aquela velha sabedoria grega de que o triângulo não sei quê e que o número três em grupos não deve…faliu. Ele, um mosqueteiro autêntico. Enquanto eu olhava para as cores do sobretecto e do interior a minha amiga via coisas como quantas pessoas caberiam, onde colocávamos os sacos cama. O nosso amigo – passou a ser “nosso” logo que se interessou pelas espias cujas eu olhei com muita atenção a tentar comparar com a Mata Hari, mas nada – interessava-se pela facilidade ou dificuldade da montagem, que, está visto, o acto de levantar a casa era com ele; pela fortaleza das lonas e dos suportes, pelo peso das tendas, tínhamos que as carregar em braços até ao lugar onde acampássemos e outros pormenores que a mim jamais ocorreriam. Claro que tudo nos levava para tendas simples e só de uma divisão. Escolhemos duas iguais com o interior em laranja e o sobretecto azul. Lindas, lindas, lindas. O nosso medo maior era que as vendessem antes de conseguirmos juntar o dinheiro. Já não me lembro bem, mas é possível que a minha amiga me tenha adiantado algum para a compra. Porque a febre era intensa e a carteira dela mais espaçosa. No dia em que fomos os três buscá-las  eu vinha tão contente que só pensava que tinha de estreá-la com os meus irmãos a quem contara da novidade e que estavam empolgados a mais não poder. Entretanto já levara a minha amiga a casa várias vezes e ela gostava dos meus irmãos (graças a deus, graças a deus). Ia tudo correr bem.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Para Lá do Mar


Logo que nos sentámos no  lugar e acabidámos as barbatanas abelhudas, o meu saquinho de compras perdido dentro da mala, a reclamar numa vozinha pequena, também quero ver, tirem-me se faz favor, e nós duas a fazermo-nos surdas, empenhadas em calendarizar a data do nosso Dia Um. Alheia ao esforço da locomotiva que transpirava nuvens de diesel, ela, como se minha mãe ou tutora, quando sou a mais velha das duas, a decidir, toda ponderação, vamos a x que é a primeira praia, mas só depois de almoço; se te sentires mal, estamos perto da cidade e levamos-te ao hospital. Não te preocupes, vai correr tudo bem; precisas do ar do mar, estás muito amarelinha.
Mal cheguei a casa, experimentei a compra e achei-me linda de biquíni: à parte o embaciado doentio da pele, a magreza que vestida me tirava graça, aparecia agora graciosa. Pensei que bem podíamos  passar a vida de biquíni. Mas logo emendei o desejo a lembrar-me que tropeço em tudo e passo a vida cheia de nódoas negras. Se sempre em biquíni, ia-me desgraçar em todo o ângulo agudo, estatelar-me ao comprido até nos ângulos rasos, e sabe-se lá que mais da geometria que não me convém.
 Na data aprazada, o mar decerto se riu de nós. De mim, seguramente. Éramos quatro, ela e um amigo mais jovem, eu e a mãe dela. A pé. Até x, que eu não sabia onde era. Iríamos a meio do caminho e a minha amiga cortante, ó mãe, tu trazes duas malas para quê? Só então notei a senhora, uma mala de mão em cada braço. A minha amiga a azedar, mas por que é que tu vens assim para a praia, para que queres tu duas malas?! Desconhecia-lhe o lado áspero e pareceu-me mal tanta erva azeda para cima da pobre senhora entretanto parada no caminho, as malas de súbito uns trambolhos. mas não acrescentei, receando aumentar-lhe o embaraço. Afinal, tínhamos acabado de nos conhecer e ela gaguejava justificações numa atrapalhação de dar dó, os óculos em escorrega para o nariz, olhos de pássaro sem ninho, mãos aflitas a titubear gestos, vim ao médico, uma mala tem os papéis do médico e a outra é a da carteira… Mas a juventude impiedosa, olha para ti, mãe. Já viste bem a tua figura, já? A senhora, ó filha, desculpa, mas agora tenho de carregar com elas, trouxe-as…. E virou-me a fatalidade por detrás das bifocais, a boca entretida a contar o que trazia numa e noutra. A minha amiga adiantou-se com o jovem e eu a atrasar o passo para lhe acompanhar a mãe que seguia em balanço de navio, a menina assim a menina assado, desditando-se. A claridade feria no calor da tarde e junto ao asfalto o calor  subia em ondas, encaracolava. E o grupo pesado, lento, eu a pensar, se voltasse para trás, a apontar o incómodo de cabeça, que ideia a dela, para que trouxe o amigo. O à vontade a sumir, eu para ele, então…, mas ele chauzinho, tens de te arranjar sem mim. E eu, mau…e agora?! E de repente a minha amiga a sorrir, olhem, é já aqui. E começou a descer para a calma do imenso azul rumorejante. Ou o que me parecia, porque efectivamente ficou-se pela areia. Seguimos atrás deles por uma vereda arenosa e estreita,  os pés da senhora assustadiços, não me aguento no plano inclinado, a areia escorrega demais, socorro. Então, a filha mostrou o lado que eu conhecia e veio ter connosco. Estendeu as mãos à mãe e amparou-a até ao fim da vereda indicando-lhe onde e como pousar os pés, eles gratos, ai muito obrigadinho, estava a ver que não éramos capazes de chegar cá abaixo. E já eles em fato de banho, barbatanas prontas a entrar em acção. Então, a mãe veio vindo devagar pelo areal e sentou a sua exaustão junto de nós. Depois, pousou as malas e deitou as meias abaixo para dar descanso à brancura de pernas siamesas enquanto limpava as lentes suadas. Aquele gesto de cansaço despretensioso chamou por mim. Enchi-me de coragem e despi-me como se fosse a coisa mais natural do mundo, apesar dos meus dedos enleados nos botões, das roupas a pegarem-se-me às mãos, eu a achar-lhes um volume desusado, o que é que faço a isto agora, enquanto, pronta para a cópia, observava pelo canto do olho os meus dois modelos.
Nem nas orais dos meus exames suei tanto como naquela tarde em que não me lembro se me virei na toalha. Mas aguentei-me. Foi um amor cigano: de princípio atribulado.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Para Lá do Mar

Por razões que não interessam à história, o meu primeiro emprego não oficioso aconteceu num lugar marítimo a borbulhar de gente, com praias de renome. Tudo diferente dos meus hábitos campestres e sonhos pequenos. Se saía à rua, vogava a apreciar os passantes e, por comparação, a sentir-me marciana. Tinha vinte anos e era o tempo da confiança. Portugal abria as portas e saia para a rua mal acreditando que a ditadura passara. Não me lembro de rostos tão contentes, nem de ouvir piropos tão bonitos, atravessados de uma fraternidade que esfumou. No primeiro de Maio de setenta e cinco fui abraçada por desconhecidos, chamada para entrar em casas pequenas de mesa posta, cantei com grupos de rua que terminavam aos abraços e palmadas nas costas.
Contudo, não fora uma amizade que enraizou e floresceu, não arriscaria um passo até à água de que, aliás, desconhecia caminhos. A essa amiga de tanto ano, corpo e alma de curiosidade indómita, devo as primeiras incursões sem tutela, por entre os baixios que a vida teima em semear. Acompanhámo-nos respeitando diferenças estruturais. Ela entendendo a limitação dos meus possíveis e salvaguardando-nos algumas descobertas como dupla. Encontrou sempre novas amizades – que não beliscavam a nossa – para voos conjuntos do que me era vedado. Alegravam-me as suas incursões estrangeiras, as passagens de ano exóticas, os dias no Algarve em grupos pequenos e jovens. Dava-me prazer ver-lhe as fotos, acompanhá-la no fazer das malas que nas mulheres mete sempre compras e roupa nova, saber após os passeios como eram as suas novas amizades, o que mais a divertira, refeições típicas e outras mesquinhices. Paciente, relatava-me com fidelidade e bom humor tudo que fosse contável.
Portanto, só voltámos a ver-nos – eu e o mar -  nos meus vinte anos. Em contramão. Um encontro proibido. O médico a olhar-me sério, nada de praia, ouviu? E a minha amiga recente, não vais fazer férias na praia, só respiras aquele ar umas horas, três ou quatro, vá, o médico é parvo, não faças caso. Eu indecisa na doença, achas? E ela, ó pá não te faz mal, pensas que os médicos sabem tudo?- e sem transição -  Vamos comprar um fato de banho para ti e umas barbatanas para mim. Ancorei de boamente naquela decisão a antever azul sem fim e sol quente. Corremos várias lojas e desaparecia nos fatos de banho. Ela expedita, por que é que não compras antes um biquíni, tem tamanhos mais pequenos…Saímos com um castíssimo biquíni castanho escuro. Eu a duvidar de tanta pele à vista, não achas escandaloso? Ela a varrer-me a castidade num ápice, tás parva ou quê, é do mais tapadinho que há. Depois, numa olhadela satisfeita ao negro das barbatanas que espreitava no saco, vamos apanhar o comboio e marcar o nosso primeiro dia de praia durante a viagem.

(Cont.)

domingo, 2 de novembro de 2014

Escapadelas Sem Crime

Ai o supremo enleio das viagens de comboio! É a paisagem a mudar, o verde a fazer casa como se alguém teime na cor, bisnaga de aguarela entornada em verdura. Gosto do abrandamento na corrida, da chiadeira a fazer nascer passo vagaroso nas pontes sobre os vales,  céu de casinhas de brincar que são manchas pequenas a branquejar na distância desprotegida. E nós dubitativos, e se o verde as engole. Mas a alma imersa, de joelhos, em contemplação e certeza, a murmurar, é um presépio de natal ainda deserto, só o musgo, casas, caminhos… Porém, sou uma mulher também prática, retiro os óculos, folheio novidades(?) e rostos de revista com trinta dias de atraso. Atento nas fotos e nada de envelhecerem, mantêm a frescura dos sorrisos ou grandes tristezas e estão nisto há mais de um mês. Para mim são novos e são agora por ser o momento de vê-los, a primeira vez de os meus olhos derramados. Não obstante o continuum da pose, tolhe-me um pouco este meu espírito de devassa en retard, sobre vidas que desconheço e nem me interessam, se alguém me pergunte, o que leste, eu, não sei. Penso em tanto dia de permeio, quem sabe os amores de Verão já não duram, as tristezas eclipsaram por magia, as casas com interior de revista onde um casal ou uma dama em pose que eles pensam de felicidade mas apenas sorrisos, maquilhagem, cabeleireiros, pedicura, manicura e mais outras curas que não curam nada, só disfarçam. Cozinhas que não conhecem cheiros de comida, habituadas a perfume caro de passagem e com rasto, um avental nunca usado, as dobras de ferro e o duro da goma a protestar, tiraram-me do sítio para quê, já não sei para que sirvo. Uma linda de colher de pau na mão, a fingir que vai mexer uma panela reluzente sobre a placa que nem sabe acender porque as mulheres agora são profissionais como os homens, deram o grito do Ipiranga e a cozinha fica para quem. Soa a ininteligível, se deram o gritinho, por que diabo teimam em estar de colher de pau na mão, em função que abandonaram? Não se sabe. Ou sabe-se. Talvez seja porque às pernilongas – são todas pernilongas – envolvidas em matas de cabelo sedoso (não vou aqui esmiuçar se delas ou não, se lhes está na cabeça pertence-lhes e pronto), fica bem o avental. Pois imagino  essas casas varridas por um ciclone mal-educado que levou para longe as figurinhas de papel, as pernilongas a esticar braços pequenos, agarra-me, mas o papel a subir na brisa forte, elas a tremer num susto, tenho vertigens, ai de mim se caio num charco, antes a morte súbita. E os parceiros desemparceirados, num salve-se quem puder que as revistas não anunciam. O vento escancarou janelas, afastou cortinas, partiu e misturou descompondo a mise-en-scène, flores expulsas de jarras de cristal, a aguçar carpélios pelo chão depois de danças loucas de aqui e ali, ora numa parede ora noutra, onde todas se esfolaram, num atropelo de pétalas em carne-viva de flor, encharcadas, e agora? 
A fotografia é assim esta oposição entre o momento fixado e o seu devir imaginário que empurra para o movimento e tende a contrariar a inércia. Mas também nós. Por vezes, inertes fotografados. Que pode interessar se cristalizámos em sorriso?! A fotografia mortaliza-nos, reduz-nos ao momento da objectiva, é a sombra da caverna de cada um. Olhá-las afaga-nos a saudade sem lhe tocar a dimensão, mesmo que um afã de beijos nos suba à boca, mesmo que os olhos de papel nos recebam, vem, a gente para o papel, isso é o quê; e ele não tem resposta senão de papel. Como as pernilongas.
Ainda dentro de ser prática, enjoada de tanto papel, verifico a contracurva do meu interesse. Procuro na mala o tricot e lanço-me no mundo artesanal e concreto enquanto olho a paisagem de soslaio. A cimentar o propósito, digo para dentro, nada de pensares palermices, e começo a contar as malhas da trança, uma, duas, três…. Então um golpe de vento cola no vidro da carruagem uma pernilonga insistente, as pessoas, e esta quem é, donde saiu a boneca de papel que ainda há bocadinho o vidro estava limpo, e olham umas para as outras a tentar descobrir fraquezas, quem será que brinca ainda com estas bonecas? Alheia a pormenores, a minha veia maternal abre o vidro para lhe recolher as amolgadelas, a puxá-la pela saia ou por uma alça qualquer para junto de nós. Depois, compor-lhe a blusinha rasgada e animá-la  que já lhe basta uma casa desfeita e sem parceiro de sorrisos e outras coisas. Mas o comboio vira ligeiramente, o vento abandona-a e ela cai sobre as pedras levemente, em gritinhos abafados de papel que mal se ouvem, que, que, que…. Debruço-me para verificar se vive e noto-lhe o breve agitar das pernas cada vez mais pequenas, a parecer uma tesourinha de cortar as unhas dos pés. Respiro, está viva. Uma criança que se debruçou comigo, a mãe se cais rebento-te a cara, e ela para mim científica, olho clínico, aquilo pode ser o vento a bater-lhe nas pernas e ela estar morta. E depois, em morbidez infantil, deve é ter batido com a cabeça numa pedra e morreu logo. A mãe, anda cá que já te dou o arroz; sentenças tens tu muitas. O casal em frente já enjoado do assunto, os cabelos dela num vendaval desfigurado, pode fechar a janela se faz favor.
Fechei o vidro e sentei-me a enrolar o tricot que abandonado a si mesmo rolara sob o banco e dera uma voltinha no corredor, o novelo numa euforia, viva, estou livre das agulhas, vou dar uma curva. Entretanto, a mãe que não era era eu assoava o nariz ao filho resmungando entre dentes, sais ao teu pai, andas sempre todo ranhoso, mas que martírio o meu. E logo eu involuntária a topar um homem todo ranhoso e sem lenços de papel.
O garoto a piscar-me um olho matreiro por detrás da enormidade do lenço. A mãe numa pedrada macia, moncoso. Resolvi que era chegado o tempo da leitura e arrumei as agulhas. Elas em obediência canina, a escorregarem no entardecer do saco, mansamente, amanhã há mais. E adormeceram.


Nota: Que saudade dos comboios com vidros que desciam a hesitar perrices e nós cabeça de fora, a dar mãos e braços a quem ficava e nos seguia até sermos cabecinha de alfinete na distância.