segunda-feira, 11 de agosto de 2014

bê à bá

Toda a gente sabe que a vida não para. Contudo, há momentos em que parece abrandar, como se uma hesitação do tempo antes de retomar a marcha. Acontece com o impressivo de alegria a desbordar, nos infinitos da tristeza e da ternura, nos faits divers empurrados por emoções e sentimentos. E hoje assisti a esse ínfimo da vida em vagaroso passo.
Seguia por uma rua de paralelos distraídos, o rodar dos pneus em música de fundo, quando notei um animal meio enrolado na estrada, desinteressado do perigo. E o pé a intuir o travão, olhos pregados no bicho, a constatar que mexia. Vivo, portanto. Apitei e ele nem buliu, embrenhado que estava, focinho no chão. Parecia-me um gato que tentava deslocar alguma coisa. Resolvi contorná-lo e quase lhe parei ao lado.
Era uma gata. Uma mãe gata que tentava reanimar o filho morto. Ou, quem sabe, assim o chorava. Sobrava nela certa tenacidade quase violenta, lambia-o instante, abocanhava-o pelo dorso para o ajudar a andar. E ele pendia, inerte, as patitas a enrolarem sob o corpo. Então a mãe voltava a pousá-lo no empedrado, a lambê-lo, virava-o e experimentava de novo pô-lo a andar… E tanto me lembrou sem palavras ou lágrimas algumas mães humanas, gente a quem a dor devora o juízo e que não entendem elas mesmas como conseguiram regressar. Mas só da morte não há regresso, engatei o carro e segui. Quase no fim da rua, olhei o retrovisor e lá ao fundo, a gata atravessava o empedrado, um embrulhinho pequeno no meio da estrada.
A vida retomava o seu curso.

Com as pessoas é também assim. Entra-lhes uma tristeza fina, uma poeira de deserto invasivo e assolante que infiltra todos os poros. Tristeza é doença: incuba, consome. E passa com receita específica. Que não se copia. Como doença curável – e até crónica -, não é inexplicável. Inexplicável é o milagre vital que a repele.  

sábado, 2 de agosto de 2014

Madressilva

Cresci no campo, onde se diz que o ar é mais puro e a paz mais larga. Como se a paz pudesse depender apenas ou sobretudo dos lugares. Ora, na vida campestre, nem tudo é bucólico. Ali, aprendi um mundo que julgava rodeado de silvados herméticos e raivosos que em sonhos me rasgavam a pele. O meu campo transpirava fúria ervaçal e prosperidade silvar. Silvas a desmedir extremavam propriedades, zonas de ninguém - agora que penso nisso deviam ser de alguém –, ardilosas beiras de estrada a que os cantoneiros não davam fim, veredas que se cortavam sobre a sua exuberância e só atravessadas em companhia. Silvados eram lugares de temor nocturno onde nem os mais afoitos se atreviam. O entusiasmo das silvas elevava-se a sepultar qualquer homem e, se alguém fosse apanhado a meio de um silvado, não havia escapatória; em veredas que esventrassem silvados, só se fazia caminho com sol; e, de cada vez que nelas se entrava, havia que agarrar as silvas com jeito, cuidados de mãos a domá-las, o resto do corpo a escapulir na tentativa de passar incólume. Junto à estrada nacional, no fim da descida, havia um silvado célebre e denso, enovelado no escuro, onde em noites de lua nova apareciam lobisomens e desapareciam carteiras. Era uma zona lúgubre, mal falada. A falta de iluminação eléctrica e um canavial do outro lado da estrada rematavam o quadro e propiciavam maus encontros. Passei ali em algumas noites de breu, a pedalar furiosamente, sem luz, fugindo mais a multas que a maus encontros, desapercebida do perigo de invisibilidade circulante.
Nessa época de vegetação bravia, a imaginação sobrava e estendia-se como um manto sobre a mente das crianças, a suprir o pouco de tudo. Brincavam juntas na admiração das pequenas riquezas de cada um, um botão em forma de flor, um arame menos ferrugento, o pião que um pai mais artista tinha esculpido aos poucos e que nicava como nenhum, um centímetro de renda que a costureira deixara cair e uma garota abria na palma da mão suja, não é bonita, tem aqui um bocadinho de um passarinho, achas que ela fez um vestido ou uma combinação com esta renda.
Então, os brinquedos eram artesanais e quase todos unissexo. Eles mesmos os trabalhavam em ajuda de seis e mais mãos. E as conversas fluíam. As brincadeiras eram de curta duração, que o tempo se consumia a construir o brinquedo, a aceitar ou rejeitar sugestões de uns e de outros, a experimentar. Talvez as conversas compridas firmassem os sentimentos. Talvez elas fossem uma espécie de estacaria veneziana, a sustentá-los a eles sobre a miséria. E é certo que também se aprendia a consistência do tempo. Nada aparecia feito. Mas era na alegria esforçada de conjuntamente fazer surgir alguma coisa, que o entusiasmo crescia: carros feitos de caixas que logo deixavam cair as rodas de ferro que desengonçavam aos esses num cabo de madeira atado à caixa por arames ferrugentos que breve se espartiçavam; assobios de cana que se talhavam com mil cuidados para não romper a membrana de apitar que sucumbia aos primeiros sopros, mau grado o cuidado de lábios e a ligeireza no soprar; bonecos de trapo que devinham manetas e sorriam incertas linhas vermelhas, estranhas caraças de olhos desnivelados e desiguais que as garotas cosiam e apertavam ao peito embrulhadas em trapos encardidos; colares de flores cosidos com agulhas que os garotos talhavam à navalha num tronco fino, “vai lá buscar a faca da tua avó sem ela ver”, a pele dos ramos das árvores desfiada compridamente a fazer de linha.
Tenho-os na memória, um grupo variado que atravessava todas as idades da infância. Sabiam brincar e tinham orgulho na sua arte. Sujos e quase descalços, esguedelhados sempre, algumas garotas com os mais novos, eternos constipados, traçados na cinta que ainda não tinham, a embalá-los mal abriam o choro. Eles, colares de azedas a escorrer no peito magro e quase nu; elas, grinaldas semi murchas em cabelo emaranhado; as crianças de colo, chupeta sarnenta a escorrer baba, a cara com uma estrada de ranho seco e escurecido de pó, que as mãos estendiam em aflição nasal até ao cimo de cada bochecha, o nariz um labirinto pegajoso e esverdeado; ninguém a dizer-lhes desvanecido, que bebé tão bonito; ninguém a pensar, estes garotos inocentes. Ao contrário. Havia neles uma fome inesgotável que lhes raiava o olhar zombeteiro, trocista, por vezes mau, que envinagrava à vista dos meninos de peúgas e sapato de verniz que não sabiam tocar o arco para a frente com uma varinha; das garotas que exibiam bonecas de porcelana a que eles, para entender o mecanismo de abrir e fechar, retiravam os olhos que caíam nos interiores ocos da boneca mal lhes cortavam o elástico. Ficavam atónitos face ao desastre, os dedos escuros a interrogarem-se em gancho nos buracos das órbitas, então e os olhos de abrir e fechar, enquanto a proprietária da boneca desatava num desgosto de berros.

Também eles devem ter memória dos silvados e das amoras a negrejar no calor. Dos braços estendidos sobre os espinhos para agarrar as mais madurinhas, das artimanhas de varas com arames na ponta a fim de recolher as mais negras, onde o braço não alcança. Porque o impossível é que é bom e a amora mergulhada em sol tem uma doçura diferente. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Impressões sobre Machado de Assis

CAPÍTULO de CHAPÉUS

A literatura brasileira interessa-me. Tem a sua prosa específica, seus requebros de mulata dolente, seus enredos de filosel. Mas nunca tinha lido nada de Machado de Assis. Pelo nome, pareceu-me escritor português pouco conhecido. Como não investiguei, depois da leitura de “Capítulo de chapéus”, concluo que é brasileiro e dos bons. Bastante conhecido, portanto. Et…pardon.
A história desenrola o quotidiano de um advogado – Conrado - e sua esposa – Mariana -  e mete um chapéu pelo meio. O Chapéu. E pareceria uma simplicidade: haver um advogado com extrema dedicação ao chapéu de todos os dias – um chapéu leve e baixo – que o faz parte da indumentária, que não o dispensa nunca nos seis anos de casamento. E, supõe até o leitor, seja conhecido pelo chapéu que usa. Ora, certo dia, o sogro resolve instar a filha sobre o apego do doutor a seu chapéu, convencendo-a que não é adereço digno de um homem da sua posição. Cabe a ela resolver a questão levando-o a mudar para uma cartola, um chapéu alto, mais consentâneo com o estatuto de causídico. E a história vai-se desenvolvendo numa quase linearidade onde a caracterização das personagens emerge e surpreende.
Aprecio escritores que enfatizam a caracterização das mulheres e se prolongam na descrição, porque assim no-las trazem à mente mais fortes e seguras de quem são. O que mais me agrada em Machado de Assis é essa segurança na personagem. Não se entenda por isto que o escritor construa personagens seguras de si. Não. Ele faz mais. Descreve-as de tal forma que elas não nos surgem dentro dos seus defeitos, mas imersas na personalidade que lhes pertence e de que não abdicam. Vivas. Vejamos por exemplo Mariana, a mulher em cujos traços se demora. Mariana é a iaiá do marido –  pensamos de imediato numa menina mimada -, alguém que detesta sair de casa e é a monotonia feita pessoa. Contudo, Machado de Assis, tal como lhe retrata o carácter amante de hábitos, abrir sempre a mesma janela, manter a desordem de livros sempre igual, ler sempre as mesmas três obras…constrói a personagem sobre eles, fá-la real. Mariana não tem filhos e apresta-se em cortinados e franzidos, pormenores caseiros de quem detesta surpresas e inesperados. Mariana cria dentro de casa o seu mundo de felicidade. Poderia até ser como nenhuma mulher, mas é entendível como pessoa e torna-se, ao longo da história, aprazível, facto mediatizado pelos acontecimentos que a vão definir. E é por esta compreensão de Mariana que o resto da leitura e da história tem sentido. Senão vejamos: Mariana tem uma amiga que é o seu oposto – é natural que ao seu quieto comedimento agrade a expressividade um pouco amoral de Sofia –. Procura-a depois que o marido lhe nega a mudança de chapéu, e, um pouco chocarreiro, afirma ser tal adereço um prolongamento da cabeça existindo entre ambos uma exigência de ordem metafísica e mútua conveniência que não pode desmanchar-se. Conrado, que até aqui era para o leitor um simpático advogado, devém-nos agreste, desleal, quando, para confundir a mulher, enrola a sua opinião em ideias e conceitos que ela não domina. E é como se o leitor fique de pé atrás com o doutor.
E Machado de Assis pontua ao reduzir os homens que as duas amigas encontram durante o passeio aos chapéus que usam, o problema de Mariana constante, ao leme do episódio.
Se alguém pensou que Mariana, aborrecida com o marido e seguindo as pisadas de Sofia, vai flirtar com o antigo namorado que encontra de chapéu alto e lhe estende a oportunidade, desengane-se. Não é questão de honrar princípios, de amar o marido, de não parecer bem. É, mais uma vez, o carácter a determinar-lhe o ânimo. Mariana aborrece-se de morte fora da pacatez de sua casa. Encontra a conversa do ex-namorado falha de interesse, não o vê como hipótese de diversão sua, antes um empecilho. Na rua, deseja o manso estar das coisas caseiras, o sossego do espírito no gineceu em vez do corrupio de gente a que assiste. Quer no dentista quer na Câmara dos deputados, sente-se pouco à vontade e começa mesmo a arrepender-se da zanga causada por um chapéu, interroga-se sobre o seu ter razão, a princípio tão evidente. Descrê das opiniões da amiga que antes pensava sábias, autênticas receitas de como domar um homem.
Finalmente em casa, minada de incertezas, resolve aceitar o chapéu de sempre, não voltar a teimar na mudança. Porém, Conrado entra-lhe em casa com um chapéu alto.

O melhor é irmos todos deleitar-nos com a prosa caligráfica de Machado de Assis. O homem merece.

domingo, 27 de julho de 2014

Fundação Oriente (2012)

Quando o calendário nos não ensina, há factos ressuscitados. Assim me sobressalta a exposição de pintura a tinta-da-china que visitámos na Fundação Oriente. Era uma tarde solitária e antevíamos um desenho de recorte negro, perdidas em recordações de tira-linhas, canetas de tinta-da-china e borrões desajeitados. Mas surgiram-nos bucolismos singulares em ressaltos de cor, minúcia chinesa a esquartejar o real. No papel, sublinhado e assentido, lemos que o artista chinês deve “encarar a natureza como seu mestre e incorporar os seus sentimentos na sua criação”. Num espanto de viés, quase de ofensa, deambulámos a demorar-nos nos quadros. Dir-se-ia que, neles, a pintura oriental se fez ternamente picuinhas, a quebrar-se em traços pequenos que acompanham o esmaecer de pétalas e sugerem a doce fundura do lar. Abstractas, notámos estas diferenças do espírito a suspirar por Cézanne e Degas, Magritte e Van Gogh. Não é um estilo diverso, mas uma alma outra, os mil pormenores dos traços a lembrar o cheiro a poeira nos livros antigos ou a sugestão de dedos calosos e pacientes em vagares de amostra rendada, a nossa estranheza contínua, a bater o pé por fugitivos códigos de leitura. Então, ainda não despíramos o espírito do hábito, dedos de espanto na textura do papel de arroz.
Em seguida, atentámos nas denominações dos quadros, “A beleza permanece graças à brisa aromática” ou “Quem deixou florescer as montanhas e florestas?”. E ainda, “edifícios de Terra na Hakka numa manhã tranquila”. E perante estes títulos fica a gente indefesa, incerta…será um princípio de romance ou uma questão religiosa e filosófica?! A  designação das nossas pinturas diverge. Lemos por exemplo, “Rapariga com livro”, “Guernika”, “Mulher sentada”, “Rapaz com cachimbo”, etc. Ao laconismo do resto do mundo os chineses opõem um pensamento completo e palavroso, que sugestiona com cheiros, sentimentos, e um ambiente teluricamente pacífico. Enquanto assim andámos a comparar, pouco vimos. O conhecimento carece da nudez indefesa de quem conhece, é preciso estar nu de espírito, em ingenuidade primeva e receptiva, atenção bíblica que nos faz terra fértil à boa semente.
Mau grado tudo isto, acometeu-nos um desconcerto de riso parecido ao que nos agarrava quando víamos telejornais (não me lembro de nada, coisa nenhuma mesmo) na travessa de Santo André, onde tudo nos gargalhava. Até sermos expulsas da sala, bem entendido. Frequentávamos o Magistério Primário e teríamos entre 17 a 19 anos e, felizmente, tão pouco juízo!!! Ali, numa fundação toda chinesa, as nossas freirinhas presentes, imagina! Compenetradas do estatuto, sérias no hábito preto de andorinha – sempre me pareceram andorinhas, queres o quê; as meninas da Casa Pia numa raiva desabrida, corujas! Morcegos! E depois, não sabendo como alvejá-las melhor, uma intermitência final, à queima-roupa, há um túnel que parte da dispensa para o convento da Cartuxa…Mas não me buliam os dichotes das meninas, via-as andorinhas eternas, voavam. Sentávamo-nos junto delas e os olhos da irmã Beta a pedir contenção; as restantes, imóveis, lábios rectos, um ricto de semi desaprovação a enrugar nos cantos, olhos fixos, num estranho desejo de notícias - é evidente que só assistíamos o telejornal porque não nos deixavam ver outra coisa. Começávamos compenetradas, a prometer uma à outra, hoje é que é, não nos rimos. Porém, mal o locutor cumprimentava, logo umas fungadelas. Em seguida, e ainda animadas de bons propósitos, havia um período de acalmia em que, cabeça baixa, nos dedicávamos  controlar o riso sem ouvir ou ver o que fosse. E, por qualquer razão que até suponho inventássemos, terminávamos numa oscilação de costas, todas dobradas para a frente, os olhos a chorarem enquanto as mãos se inutilizavam a esconder o rosto. E a irmã Beta, italiana de gema, a única a olhar-nos com um meio sorriso e olhos garotos; se haja céu, ela há-de lá estar, na sua paciência infinita, divina beleza sardenta, as azeitonas dos olhos em brilhos de ternura liquefeita. A saudade que lhe tenho aos olhos! Pergunto-me muitas vezes se te ficou aquele olhar de abraço que nos fazia ser melhores, ou pelo menos desejá-lo. Uma vez, um desconhecido olhou-me assim, como quem não tem outro mundo. De dentro da minha admiração,sorri-lhe agradecida. Quem sabe, lembrei-lhe alguém. Fora uma boa manhã de trabalho, comemorávamos num restaurante e fiquei com a ideia de que teria ouvido qualquer coisa da nossa algaraviada. E não se explica, mas era o mesmo olhar da irmã Beta. O mesmíssimo: azeitonas pretas a boiar em ternura. Para mim.
Mas voltemos às sessões de televisão: a directora Assunção, uma severidade pálida a comandar cortante, lá para baixo, se faz favor. E nós a ressoarmos patudamente na escada, até perdermos os passos no quarto - os pés regressados à condição, com planta e tudo que lhe competia, oh, já não sou pata - , o riso rebolado sobre as camas num à vontade que, por sê-lo, logo parava e perdia graça. A saudade que tenho de ser aquelazinha. Nunca to disse, mas o teu desvelo comovia-me. À noite levavas-me leite ao quarto e subias a escada muita vez para uma conversa. Nessa altura, controlavas-me o peso, chegavas-me a medicação, afligia-te o meu ar bacento. Nem um dia te senti receosa da doença, do contágio, da brisa forte que me varreu amigos, família, conhecidos. Chegaste a acompanhar-me a consultas. Por vezes, o teu cuidado descascava-me a fruta à refeição. No resto, éramos apenas jovens. O que mais admiro em ti, sabes, é a ternura que te corre solta. E se mantém.  Sinto-a quando nos encontramos e verifico-a em tua casa. És assim. Não para esta ou aquela pessoa. Não. És fonte de água fresca. Gostas dos outros. Sou-te infinitamente grata por isso. Tenho uma parte em ti. E tu em mim.
Quanto me desviei do nosso passeio…Depois dos quadros, vimos uma exposição de fotos e objectos, toda ela muito chinesa. Recordo uma família – talvez um cônsul português de Macau – de que havia várias fotografias e adereços: a primeira foto intrigou-me sobremaneira, a mãe aparentava ser uma garota ligeiramente mais velha que os três filhos, enquanto o chefe de família, com um ar muito chefe, era um senhor de meia idade. Não consegui esmiuçar o fundo dos olhos dela, mas parecia infeliz, supremamente disposta a brincar com os dois garotos mais velhos. Comentei, será que isto não foi pedofilia, e tu riste baixinho, encantada com a originalidade de um berço que teria pertencido às mesmas crianças. E depois viemos rindo e conversando até ao Campo Grande, lugar onde cada uma tomou posse do outro eu.

E às vezes, juro, aqueles olhos de papel, serenamente desditosos, perseguem-me. Vê tu para o que me havia de dar.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Joana Carneiro na Gulbenkian

Por um fortuito acaso comprei bilhete para o último concerto da temporada na Gulbenkian. Desconhecendo que era último. Movida a súbita saudade, abri o pc e achei um bom preço num horário inesperado por inabitual, ainda por cima com a maestrina que todo o ano desejei ver: Joana Carneiro – não sei o exacto porquê, mas ser portuguesa e mulher, num lugar cativo de homens, contribuíu. Quase tudo vendido, escolhi o lugar 1 da fila 28 e só muito depois me deitei a pensar que devia ser longíssimo do palco. Tinha comprado. Nada a fazer. Para não desanimar, e porque me pareceu um bom castigo à imparável distracção que acompanha o eu de mim, nem espreitei a planta da sala que, aliás, tinha visto sem ver, quando escolhera o lugar.  
Cheguei cedo e flanei pela secção de compras, onde aproveitei para perder os óculos de sol de que mais gostei até hoje. Sou assim, não perco tempo com bagatelas, se é de perder, que seja de valor. Ainda desatendida do rombo, sentei-me rodeada de meus vagares, na grata surpresa de estar mesmo junto ao palco e, graças ao enviesado do lugar, poder admirar a maestrina. A tal que, em vão, quisera assistir. Felizmente não esquecera os óculos normais e a perda manteve-se incógnita. O meu céu, azul e sem nuvens.
Agora que já me habituei, sei que chega primeiro a orquestra e só depois de tudo pronto e no lugar, o maestro. Os elementos galvanizam pela fatiota. Se não fora o instrumento que trazem na mão e lhes dá o metier, pareciam convidados de um casamento chique e nós, os sentados, transeuntes boquiabertos a bisbilhotar roupagem e penteado. É verdade que os velhos são sábios e existem, mas, da entrada à cadeira de cada um, a aura é dos mais jovens, os restantes a passear, distinta e em passo certo, a sua discrição. Ficou-me uma mulher de braços sinuosos e decotados que se sentou num sussurro de sedas a deslizar, ajeitando o violino em materna comoção de dedos, o mate da pele a resplandecer contornos juvenis, toda debruçada de cuidados com porcelana chinesa. Ou a de dedos de fuso e pulso fino que trazia aos ombros uma nuvem de tule e permaneceu alheada dos fios do tecido a ranger constrangimentos, ai, não aguento esta dobra, vou ficar esmagado dentro da prega, a mirar o brilho da flauta, desligada do rumor das fibras a esticar no busto, garridas vaidades insufladas, somos as maiores; mais tarde, o seu solo de deusa chamada à Terra havia de transportar-nos a florestas verdes de ar rarefeito e pastoril, onde a pureza do oxigénio nos entontecia a cabeça. Lindas, as duas. No entanto, mal a maestrina pisou o palco, eu soube de algo maior. Joana Carneiro, rosto sem pintura, em negro conservador: sobre saia comprida, casaco de malha fina, manga justa até ao pulso, sem réstia de enfeite ou alinhavo de cor. O cabelo a descer, liso e solto, com um ganchinho infantil sobre o lado, a amparar a visão. E, como em todos os concertos de domingo, explicou a música. Trouxe os instrumentos ao seu significado na peça, identificou-os com os momentos e contou a história de cada trecho. Ouvi-la, foi sentir uma janela a rasgar cá dentro. E foi assim, cheios de claridade, que a vimos crescer no palco. Aconteceu-me o de sempre, ouvia a música mas esqueci completamente a orquestra. A minha atenção foi sugada por uma feiticeira encantatória que, em grandes gestos, cozinhava à nossa frente os prodígios da sua arte de feitiçaria. Doce e terna feiticeira que se deixa levar pela música e participa da sua tristeza, o desalento do cabelo a oscilar próximo ao pesar dos olhos! Que, numa súbita viragem da sua varinha de condão, toda se empolga e vibra, e se faz força de viver e riso desabrido, torrente que, qual flauta de Hamelin, arrasta toda a orquestra.
E logo ela se despediu. Parecia que só uns minutos, mas um concerto inteiro.

Depois…bom, depois foi a busca insana e inútil pelos óculos. E ainda assim não se me apagou a gratidão por mais este acaso de sorte.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ó Cristo, a Julieta caiu

A realidade entretece e enreda-nos sem atentar a estados de alma, ponderou enquanto descalçava uma bota com a outra, o bico do pé a forçar no calcanhar. Há quanto tempo comprara o bilhete para o bailado…abria a gaveta e ele a garantir um bom serão, ali, desdobrado, o nome, a fila e o número do lugar a negrito. Posto num sossego de fazer inveja.
Porém, à medida que o dia se aproximava, as perspectivas foram esboroando. Porque os planos são sempre e apenas planos. E, à data, os afazeres e aborrecimentos na linha da frente, a destacar. Então, reuniu-se toda em esforço, a mente a verdejar, à noite esqueço, eclipso. E cumpriu-se em metódicos ademanes de quotidiano.
 Até ser noite, minutos e horas num atropelo, o projecto, hoje visto-me cheia de tempo, subterrou. Quanta coisa a irromper em teimosia imprevista! Quando, enfim, olhou o relógio, já o redondo do tempo evaporara deixando uma nesga de minutos apressados, passinho curto, a segredar-lhe, larga o resto e vai. Assisado conselho. Vestiu o casaco, alisou a franja, alçou a mala e saiu. Depois dos engasgos do elevador a sacudir preguiças de ferrugem, a rua. A recebê-la em hostilidade friorenta, prédios-concha, persianas corridas, átrios desertos. As árvores disfarçadas de guarda-costas gigantesco, a reluzir alturas por entre candeeiros envergonhados que lhes davam pela cintura, as folhas a desmaiar num desassossego de luz, queremos dormir. Só o tráfego automóvel deslizava diáfano. Autocarros sombrios resfolegavam moíções de dia inteiro, o interior esventrado por claridades de lâmpada que anoiteciam bancos vazios e vincavam preocupações habituadas em olhos mortiços de seis da manhã, que vou fazer para o jantar ;  num cansaço arfante, encostado à bengala, um idoso a encher-se de sem futuro, olhos de lago ressequido.
 Lisboa pacata em noite de fim-de-semana. No Metro, alguns sinais, garotas de festa, rapazes com gel e perfume enjoativo, um ou outro trabalhador retardatário, o corpo a entregar-se aos solavancos, olhos fechados, desmaiadas mãos sobre o vazio balofo do saco do almoço. Ela, o que serei para eles. 
Saiu numa rua repleta de noctívagos vagarosos e encontrou a sala de espectáculos meio vazia, os lugares na forma tradicional, um corredor ao meio e dois laterais. Acomodou-se. De imediato, duas filas à frente, nos dois primeiros lugares à direita do corredor central, um parzinho abraçado a fotografar-se com telemóvel, ela a chegá-lo para si, dedos longos a virar-lhe o pescoço. Desviou o olhar a impedir a devassa, o amor é coisa de dois. Daí a pouco, arriscou um soslaio. Siamês perseverante, o par continuava em pose ao telemóvel, ela uma mão sobre o ombro dele, a outra, subreptícia, atrás da cabeça num exercício de dedos assaz suspeito. Sorriu. Talvez que ele também, mas não lhes descortinava o rosto. Que namorada estranha, pensou. Imersos no seu mundo biunívoco, conversavam; amiúde, ela encostava-se mais a ele e movia as mãos em gestos gráceis, movimentos alados que apetecia prolongar ad eternum. Intrigada, tentou vê-la melhor, mas só pernas e pés descaiam do assento. Do seu ângulo, a jovem reduzia-se a um par de pernas inesperadas, tornozelo grosso em flagrante assimetria com a delicadeza de pulsos e mãos.  Descortinava ainda o remate do tornozelo imerso nas sabrinas brilhantes e o esotérico caudal de cabelo escuro. Vista assim, parecia equilibrista de circo. Observou o homem. Andaria entre os trinta e os quarenta, t-shirt preta, calça de ganga, moreno de tez, os músculos a esticar a t-shirt. De certeza, uma tatuagem algures. Havia nele a ambiguidade contrafeita de alguém fora do apetite. Rodeou o espaço a avaliar se o estranho par merecia reparo de outra gente. Ninguém os notava. Mas ela presa ao inédito magnetismo dos tornozelos de varina. Porém, a jovem destacava-se pela postura, costas certas com o espaldar, cabeça erguida. Ninguém na fila detinha a mesma graça perfilada. Que estúpida, por que razão pensei em pernas de peixeira, é bailarina, concluiu. Avaliou-a de novo. E reconheceu-lhe uma vivacidade entusiasta com brilhos de alegria intensa.
Subitamente, ela riu; atirou a cabeça para trás e o cabelo, em roda livre, envolveu todo o espaldar da cadeira e ficou a ondular, acima-abaixo, acima-abaixo, ao ritmo das gargalhadas. Magia inconsciente de si. Voltou-lhe a surpresa, que bailarina tão sui generis. Reparou-lhe os calcanhares acima das sabrinas dardejantes. Sorriu de novo, bailarinas são pessoas únicas, pensou, têm pés irrequietos. Mas, tal como rira, eis que se levanta num rompante do vestidinho laranja, uma fina tira preta a circundar a brevidade da cintura. Inexacta ninfa, cabelos pela cintura e pernas de bailarina a desdizer. Teria entre dez e treze anos e o moreno seria o pai. Embeveceu. O espectáculo ainda em suspenso e já o mais belo da noite acontecera.
Quando o pano subiu, a garota rígida, em hipnose. Mas a ela o bailado Romeu e Julieta não convencia. O Ballet Russo confirmava a desilusão inicial, em versão bafienta e muito teatral. No ar, um vago de impreparação. Talvez fosse uma companhia decadente e com falta de verba, ou tivesse apostado forte em gente muito jovem, insuficiente na exigência. Ou ambas. Porém, a ninfeta de olhos no palco. Alheada. Dissolvida. O moreno às voltas no assento, pernas e braços a cruzar e descruzar.

De repente, ardis do destino, num tempo de bailado a par, a Julieta desamparou e caiu sem ruído, qual pássaro que perde o vôo. E a ninfa de lábios redondos, um oh que não se ouviu. Ela certa no seu lugar, a olhar as duas, compungida da bailarina que se levantara num relâmpago, a perguntar-se, como é que consegue continuar, falhou ou terá caído porque o Romeu não lhe assistiu no tempo certo. E, enquanto Julieta ondulava inseguranças assistidas palco adentro, um silêncio de pés audíveis, dramático, expectante, sobrepunha-se à música.  Ela em desequilíbrio, a  apetecer-lhe segredar aos vizinhos do lado, “Ó Cristo, o coxinho caiu”. Mas os vizinhos estavam pelos cabelos com o mastodonte que se lhes sentara na frente, não tinham idade para entender a graça e era possível que a olhassem meio espantados, os olhos, é maluca. Que mau gosto, admitiu em desolamento. E dedicou-se a admirar os efeitos musicais nos pés da ninfa que, soltos sobre os sapatos, ensaiavam passos involuntários. Ela sim – concluiu -, é linda.
Colocou as botas lado a lado. Simétricas e mortas. A vida era aquela garota, sapatilhas brilhantes  aflorando a humidade do empedrado, mãos mágicas e palavrosas, o pai num sorriso liquefeito, entre a ternura e o alívio.  E os dois a perderem-se numa esquina, como quem sabe onde vai e tem pressa de chegar.

Deu um pontapé nas botas a desfazer-lhes a simetria. Tão triste ser coisa!

sábado, 7 de junho de 2014

Aniversário e Outras Coisas

Fizeste anos. No desconchavo dos dias, o teu aniversário apetecia-me. E tudo se renovou. Um Dia do Pai paralelo. E tu, contente. Porém, a tristeza misturou-se-me com a noite. Demito-me de porquês, desisto de presságios, tenho raiva a pressentimentos, não estou nem aí para sentidos que acenam sem existência. Por isso, descansa, guardei-te contente, feliz na tua eternidade grata.
Quando os pais se ausentam, há uma solidão agoniada, a estrangular. Por vezes penso como será quando não estejas de corpo, não haja uma casa tua que foi nossa e mores definitivo no lugar que alindaste a gosto. Não sei de outro sítio que me receba, onde consiga espairecer de mim. Nós dois somos tagarelas, mas não nos perdemos em confidências mútuas, alienamos queixas disto ou daquilo, mas ainda assim fazemo-nos companhia a contar palermices. E penso em Lobo Antunes a garantir que as conversas com o irmão João são silêncios. Conversam sem lábios, pálato, dentes, língua, bochechas... Um junto do outro, comunicação das almas em proximidade neuronal, corpo do mesmo corpo, mente da mesma mente. Não é assim connosco, temos uma geração de permeio, espumantes zaragatas com decibéis insanos de travo odiento. E outros intentos. A verdade é em ti interior e secreta, os medos perpassam-te na força dos pesadelos e cresceste num mundo de trabalho. Não aprendeste o sonho acordado. Sei tão pouco de ti…e nem tu te saberás o suficiente. Não pensas nessas bagatelas.
Porém, nestas horas em que o sumo roxo das violetas me escorre lassamente, vê tu, apetece-me contar o engraçado de ti. Apetecem-me os teus involuntários: erros de gramática, hábitos que não questionaste nunca, distracções hilariantes. São antídoto caseiro contra o lado venenoso de viver, pedras de um colar de leveza. Uma espécie de amuleto que acorre ao chamado da memória. Sempre lhes resisti como pude. Talvez pudor sentimental ou respeito. Mas a memória, como tudo que em nós existe, é incerta. E, em nós dois, o efémero acelera; em qualquer mínimo momento pode devir efeméride.
Lembras-te? A luz eléctrica chegou a Bombel já eu tinha 26 anos; era professora primária há seis e frequentava o 3º ano do Curso de Filosofia. Ora, no terceiro ano de trabalho, hospedei-me em Setúbal em casa de um amigo teu. E comprei uma televisão pequena, ainda a bateria, para ter no quarto e ver as aulas do primeiro ano do curso propedêutico, na mira de a poder levar para casa, lugar onde morreu. Nas férias, carregava a televisão e a bateria  para Bombel - não me lembro como podia com aquilo tudo – e víamos televisão na cozinha pequena que eu mobilara com uma camilha e a toda a largura um sofá castanho de napa chiadora que fazia o nosso encanto, oferta de uma prima enfastiada de ruídos. Dormias cedo. Madrugavas para regar, semear, tratar das coisas da quinta. E nós poupávamos a bateria quanto podíamos porque tínhamos de a pôr a carregar na oficina do Chico – nessa noite não víamos televisão - viajando no nosso carro de mão que forrávamos com as sacas do cimento ou das batatas para não estragar o apetrecho. Numa dessas noites, televisão ligada e já sentados à espera provavelmente de um filme, a Maria Adélia deslocava a antena para eliminar a chuva do écran enquanto nós três íamos orientando, “tá pior, tá pior” ou “ parece que desse lado tá melhor, levanta mais” e outras indicações. Entretanto, de tanta mexida, havia posições em que a antena já não se sustinha de pé e caía em vôo picado com baque surdo, “ploc”. E nessa noite foi assim. A Maria Adélia estava a pôr “coisas” atrás da televisão para fazer uma muleta à dita e nós calados e atentos, ainda assim a palerma da antena não descaísse um nadinha e nos privasse de novo da nitidez da imagem. Tu já estavas no quarto. Atentos à antena e a temer que começasse o filme antes da operação terminada, ouvíamos-te despir em ruído de fundo. Sons habituais que não desmanchavam a nossa atenção primeira, o barulho das botas a despedir no chão uma a uma e tu descalço a pô-las no corredor; o ranger breve da cama, sinal de que te sentavas; o tilintar que agitava as maçanetas quando penduravas as calças  na grade. De súbito, parou tudo. A tua voz, claramente articulada, um fundo de queixa a tracejá-la “eh, poças! este sutiã tá-me apertado.”
Esquecemos as orientações, o filme, a Maria Adélia parou a operação e a antena caiu de imediato e nós quatro em silêncio de riso, escancarados à gargalhada, olhos esbugalhados. E antes que um mar de gargalhadas nos invadisse parvamente, um de nós, “o sutiã, pai?!” e logo tu a frisar a emenda, “Oh, o sutiã! Maluqueira! As cuecas.”, e a repetir por via de dúvidas que subsistissem, “As cuecas tão apertadas”. E aí nós quatro rimos até não poder mais, chorámos de tanto rir, eu, como sempre, engasgada de tosse. Foi um alarido até tu, já deitado e com o lapso digerido, “vejam lá mas é se se calam que quero dormir.”

Voltámos à antena e ao filme. Mas toda a noite rimos. Ainda hoje.