sábado, 6 de dezembro de 2014

Cartas a Olívia

Olívia

Não gostei. Não gostei mesmo nada da tua voz ao telefone. A descartar-me. E não tive coragem para te dar o meu grito de alma de isso não se faz. Não te enganes, rejeitei a tua recusa. É sem regresso, Olívia. Nunca mais. Oh, sim, vou escrever-te daqui, onde o teu ser físico não me lerá. Conheço-o. Nem sequer sabe mexer no Pc. Aqui, existes-me no imaginário e é dele que te levantas. És, portanto, a destinatária e companheira certa.
Não sei se mais me desiludo contigo se de mim. Como é possível que, depois de tanto ano, apenas recordes o tempo de Évora, como se a seguir, o nada… e eu na certeza de que sobre Évora pus tanto de nós (tens razão, fui só eu a acrescentar), a supor que seríamos outras mas ainda inteiras na amizade, apostando que mesmo mais crescidas nela (terei em ti a imagem feliz que não te deste ao trabalho de desfazer, sou um embrulho). Aceitei as tuas recusas, os teus silêncios esquecidos, as tuas não respostas…a religião atarefada a preencher-te o vazio dos dias. Fiz mal, alimentei a ilusão. Que, olhando com mais objectividade, sempre te apressaste a desfazer. Mas eu contínua, a lançar-te sobre os ombros o fatalismo alentejano. A tapar-nos com ele. Desculpa o ocaso da decisão. O que crescia era o meu abcesso de ti, tu eras o corpo estranho a debater-se dentro do meu.
Mas em amizade as coisas são ou não são. E nós não somos. Dois dias a purgar deve ser suficiente.
Vou enviar-te o que tricotei para ti. Com amor, pois. Com a amizade toda que te tive ao longo de décadas, entretecida em cada ponto. Espero que gostes e uses. Tu hás-de, então, ligar a agradecer o inesperado. E vou rir-me, porque já me morreste mas falo ainda contigo. E na tua estrada comprida de planície, para ti, não piso mais.
Não sei se hoje nasce a minha Olívia ou se só ela me existia se pensava em ti. Surges intacta nesta correspondência de um só sentido que afinal foi sempre o nosso. Quatro dezenas de anos. Repara na burrice. A verdade é que apesar da promessa, um dia arranjo um tempinho e mando-te uma carta, desististe também das palavras. Desculpa a tua realidade ter-me escapado, mas é que não me serve, não consigo viver com ela.
A cada um sua loucura. O Eugénio ia com as aves, eu fico com a escrita.

Um beijinho

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Para Lá do Mar

De entre os itinerantes do grupo, salienta-se o episódio da Marianita. A Marianita era a minha doce vizinha do lado, na época em que me hospedei na casa mais vazia de tudo que conheci e onde gostei imenso de viver enquanto cursei filosofia (tenho queda por coisas que não prestam). Era uma garotinha de olhos verdes e carita redonda, com boquinha de bebé, acabadinha de fazer o décimo segundo ano e a quem o revisor perguntou muito à vontade, e tu, queres meio bilhete para aonde? A Marianita avermelhou até ao cabelo nesse momento tapado com um chapeuzinho branco muito beto que então se usava, empertigou o busto que era a única coisa bem saliente que possuía e o senhor atrapalhou: desculpe, quer bilhete para onde? E nós todos na risota, o vermelhão da Mariana a dispersar. Pois a Mariana acampou connosco durante dois anos, mais precisamente, até namorar. No seu ano de estreia foram os pais que a levaram até nós. Ora, nesse ano, tivemos uma sorte incrível: encontrámos um lugar mesmo à conta para nós, debaixo das árvores, num bosquezito hoje inexistente em Porto Covo e que era o nosso sonho anual, mas onde nunca conseguíramos lugar. Carregámos a bagagem toda, montámos as tendas, escolhemos sítio para a cozinha improvisada…e, encantados da vida, começámos a gozar as férias.
Os nossos vizinhos mais próximos, ausentes o dia todo, acordavam tão tarde que durante a manhã os deixávamos dormindo em rancho, grande parte na rua. Eram uma miscelânia de portugueses e estrangeiros e faziam grandes fogueiras nocturnas, para que cortesmente nos convidaram na primeira noite, convite que declinámos.
No dia aprazado para a chegada da Marianita considerei que, entre tanta dispersão de tendas, ela não nos encontraria por si mesma e fiquei a esperá-la enquanto os outros seguiam para a praia. Só que estava calor e cansei-me de olhar o caminho. Então, eu e a Gina – minha companhia solidária - resolvemos colocar setas a indicar o nosso sítio. Com o meu nome, está visto. Pedimos caixas de cartão na mercearia, rasgámo-las em rectângulos, e fomos pondo setas encimadas com o meu nome, gina, gina, gina, do largo até às tendas. No final, contemplámos a obra com orgulho achando-nos o máximo da eficiencia, e seguimos para a praia a encontrar os outros. Já não me lembro se pertencia ou não ao grupo que saía mais cedo da praia, mas sei que ao chegarmos às tendas, em vez da Marianita estavam dois guardas republicanos com um ar muitíssimo intrigado a olhar o desenho da nossa última seta, por acaso apoiada nos arbustos que rodeavam as tendas. Passei por eles e nem liguei. Mas vieram atrás de nós com a seta e perguntaram, quem é a gina. Por acaso as duas correspondíamos, mas como estavam com o cartão na mão, assumi, sou eu. Eles ficaram a olhar-me em seriedade e alguma confusão e, a menina não pode andar por aí a pôr setas com o seu nome. Eu, porquê? E eles em vez de me responderem, outra pergunta, então estas setas eram para quê? Expliquei-lhes que estava à espera de uma amiga, mas queria ir à praia e que me lembrara de montar aquele esquema para que ela pudesse encontrar-me se eu não estivesse visível. E eles dubitativos, vocês não andavam a vender nada?!- e peremptórios - De toda a maneira, isto é proíbido. Eu a antever multas e dinheiros que não tinha, mas eu só queria que ela soubesse onde nós estávamos. E ele a estender-me o cartão, não me interessa, tem de tirar isto, os outros já nós retirámos. Depois, fixando melhor o grupo que entretanto chegara da praia, vocês não acham melhor mudarem de lugar? E nós todos muito depressa, não, não, gostamos muito deste sítio, tem sombras, é sossegado e está perto de tudo. Os dois guardas meio indecisos, vocês é que sabem, mas se calhar era melhor mudarem. E afastaram-se. Nós uns para os outros, mudar.. Deus nos livre, eles não avaliam o trabalho que dá montar este estaminé todo; além disso, nunca ficámos num lugar tão bom.
Mas quando a Marianita chegou os guardas ainda insistiam passaricando na estrada junto às tendas, a olhar-nos uma vez e outra. E nós para eles, a exibi-la como prova de verdade, esta é a nossa amiga, já chegou. E o Guarda teimoso, deviam mudar de lugar. E nós uns para os outros, baixinho, o homem é parvo, não façam caso.

Mas o tempo havia de mostrar-nos a visão dos guardas.

Para Lá do Mar

O núcleo duro de campistas manteve-se inalterável ao longo dos anos e, apesar de alguns ameaços, nenhum de nós escolheu namorados dentro do grupo, o que foi bom. Porém, houve algumas adições: temporárias e definitivas. Por várias razões, o Pedro deixou de nos visitar nas férias grandes e foi substituído pela Gina Antunes, amiga da minha irmã, que se tornou membro efectivo e passou a integrar a minha tenda, fazer parte do meu grupo de trabalho e de espera nas estações rodoviárias, melhorando a qualidade de tudo. Por norma, almoçávamos em Sines onde mudávamos de autocarro. Como só havia tempo para o outro grupo almoçar, nós comíamos as sandes que nos enviavam – um deles vinha trazê-las -  misturadas com o cheiro pouco apetecível do gasóleo e encostados à pira da bagagem. Creio que foi ali que eu e a Gina começámos uma amizade de anos, entremeando canções, dado que tínhamos frequentado as irmãs salesianas e, ainda que em lugares diferentes, o reportório era, em parte, comum. Agarrámos o vício de cantar juntas e, bem mais tarde, ainda ela me passava letras de canções que a rádio divulgava e eu preferia, como Amazing Grace, Yesterday e assim, que cantarolávamos em qualquer lugar. Além disso, não havia como ela para guardar os restos do jantar. Dizia certa noite a fechar dois tuperwares com sardinhas assadas e arroz branco, eu guardo e amanhã como ao pequeno-almoço. E ao nosso riso respondia convicta, sim, sim, ponho leite e açúcar no arroz e faço arroz doce e podem apetecer-me sardinhas assadas. É claro que nunca comeu o que fosse do que guardou e que nós atirávamos fora sem mais conversa, mas a sua convicção nocturna era supremo bem, um bombom que nos servia de bandeja. A Gina foi talvez a nossa melhor aquisição - uma amiga que nunca esqueci. Como a nossa amizade cresceu, deu flor e também fruto, desenfreávamos como potros cantantes em incursões de veraneio nos barcos para Troia, encantadas da vida e com ela.
Mas houve mais gente: alguém que convidei certa vez e apareceu mesmo. Lembro-me que gostava imenso das nossas refeições – almoço e jantar  com sopa, segundo prato e fruta - , achava tudo uma maravilha e rematava as frases com uma invariável palavra que nunca deixou de me ferir os tímpanos; porra. Eu perguntava, está bom, e ele respondia, tão não tá, porra. Nesse ano, éramos nove pessoas a acampar e ninguém teve coragem para lhe pedir que evitasse o termo, pensando – creio que bem – que podíamos retirar-lhe a naturalidade e que talvez começasse a sentir-se mal no meio de nós. Quando falava desse período, a mãe costumava dizer que chegara encantado e lhe apontava olho crítico à monotonia do cardápio, elas não repetiram uma refeição em quinze dias.
Outra aquisição que passou a definitiva foi o Jorge. O Jorge era convidado do nosso amigo e seu companheiro dilecto de tropa e arredores. E um menino de sua mãe. Da primeira vez que o vimos reluzia sapatinho de verniz preto e meia branca a fazer pendant com o alvo de uma Lacoste. Acrescente-se que surgia bronzeado em seus ray-ban. Franzimos o sobrolho. Tinha uma mochila óptima, marca não sei quê, enfiada num saco de protecção e sem uso, entalada entre a tenda e o sobretecto. E preferia transportar nuns sacos compridos da tropa todos os seus bens. O Jorge era tão diferente de nós que alguns atritos iniciais se tornaram de obrigação, um ponto de honra. Levara tenda própria e todas as manhãs acordávamos com ele a escovar-lhe o pó. O ruído da escova no nylon era, para os mais dorminhocos, deveras irritante.  Porém, no final da quinzena, estava adaptado e tínhamo-lo adoptado. Atirou fora a protecção da mochila que pôs a uso directo, comprou umas alpercatas e arrumou os sapatos de verniz que não davam jeito nenhum quando jogávamos à apanhada no largo da igreja de Porto Covo (escorregou algumas vezes, as solas na calçada não dão bom resultado) e guardou as peúgas brancas dentro dos tupperwares, prova definitiva que estava pronto para continuar a acampar connosco. Supõe-se que a mãe se tenha desgostado ao desfazer a mochila do rebento, lamentando, quem sabe, a ciganagem com que andava metido. Bom, a senhora devia era agradecer-nos, além de lhe termos ensinado a lavar as meiinhas brancas no lavadouro público, o filho aprendeu, na prática, o nosso slogan para a lavagem da loiça, “o bravo não se mete dentro de água” (o bravo, para quem não saiba, é um esfregão de lã de aço embebido em sabão, muito útil para lavar tachos - ainda existe - e que, empapado,  rapidamente deteriora).

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Desconcerto

Os dias em geral correm-me bem. Mas hoje não. Nunca corre bem o dia em que dizemos a uma amiga aposentada e sedentária qb, vou ver-te para a semana, que dia escolhes? E ela não tem nenhum porque uns primos não sei quê e vêm de Lisboa. Numa semana inteira uma aposentada não tem um bocadinho para eu.

Desejava dar-lhe a prenda que lhe andei fazendo. Com amor, sim. E algum esforço. E de que ela não sabe nem sonha.

Certo, há o correio, chega lá na mesma.


Eu é que hei-de ser outra. Só que hoje ainda não sou capaz

Para Lá do Mar

Posto que me sinto incapaz de contar cada um dos nossos períodos de campismo ao longo dos nove anos – todos selvagens pois claro, que não havia carteira que chegasse à diária num parque – cinjo-me ao espírito que então nos possuía, justapondo alguns episódios que a memória, fiel depositária do passado, guardou em local seco e arejado.
Antes da série episódica, relembro que continuámos a manter o ponto de encontro: Setúbal; o hábito de eu e os meus irmãos mais novos ficarmos a guardar o montão de bagagem onde quer que fosse; o ritual propedêutico da família Pinto, em vésperas de partida: carregar a bagagem no carro de mão do meu pai, com excepção da malita ou saco de cada um com roupa e artigos de higiene. Abençoados vizinhos próximos da paragem que deixavam ficar no alpendre o nosso amontoado de fruta, batatas e outros legumes de cultivo, o candeeiro, a tenda os sacos camas e as mantas dos meus irmãozitos. Por norma, fazíamos três carros de mão a abarrotar, o vizinho alentejanamente sentado em seu alpendre, um olho expedito nas coisas, é pá…vocês levam muita coisa; atão a panela de pressão é para quê. Eu armada em mãe, para fazer a sopa. E ele, sim senhora, quer dizer que comem sopa na praia. ..e ficava a remoer a ideia enquanto com a lâmina do canivete de algibeira partia bocados a uma maçã e os levava à boca. Entretanto, nós girávamos de volta, eu um bocado intimidada com a confiança da lâmina a entrar-lhe boca dentro, imaginando sei lá que desgraças cheias de sangue e a roda do carro de mão numa chiadeira maluca, a minha irmã do meio, temos de pôr azeite nisto antes da próxima carrada.
Nessa noite, deitávamo-nos teoricamente mais cedo para madrugarmos no dia seguinte. Eu e a Maria Adélia chamávamos os manos mais novos e tratávamos que a casa ficasse limpa, (camas feitas, louça do pequeno almoço lavada, etc). Saíamos de casa ainda o dia deitado, a rua quieta, o luar de Agosto em absoluta beleza a pratear-nos as folhas das laranjeiras, todo derramado no espelho liso da água do tanque. As árvores acenavam-nos  num leve estremecer de folhas e ficavam a mirar-nos imponentes, esticando o tronco o mais que podiam, no despique de umas a outras, ainda os estou a ver, ainda os vejo, e agora já são só uma manchinha no caminho. Até que desaparecíamos na estrada e elas descansavam daquele bicos de pés, o vulto a relaxar apequenando, ufa, já me doíam as raízes. E nós como soldados imbuídos na missão, sobraçando saco ou mala, apressados para chegar ao alpendre do vizinho, sem outro medo que atrasarmo-nos e não termos tempo de carregar tudo até à paragem, dessa vez sem carro de mão. Seguíamos na carreira das seis e vinte e jamais alguém refilou com a hora, antes desejávamos de todo o coração que chegasse. Íamos contentes, contentes. 
Quando o autocarro parava, o revisor saía carrancudo de tanto volume, a perguntar enquanto abria o porta-bagagens entre as rodas do carro, mas vocês vão aonde, como se nos quisesse esconjurar para os confins da terra, ou, ainda melhor, pulverizar-nos. Enquanto isso, os meus irmãos mais novos, obedientes a ordens de idade e poiso, escapuliam para o interior e nós duas ficávamos a passar-lhe a bagagem. Depois, enquanto ele fechava portas, nós subíamos e só então respirávamos fundo e descansávamos, sentadinhas lado a lado, num autocarro semi vazio, a salientarmo-nos, vivazes, de rostos ensonados e corpos atirados ao assento ainda em restos de cama. E, depois de verificarmos se os manos estavam bem sentados - se não, fazíamo-los mudar de lugar – ficávamos à conversa nós duas, primeiro em dúvidas de certificação, fechaste a porta, viste as camas deles, trazes o bolo partido em fatias, puseste as maçãs junto com as cebolas e os alhos, tiraste algumas para a viagem. E depois, mergulhávamos no futuro, em antevisão, achas que a Isabel leva o quê, um doce ou um salgado, quantos minutos é que a gente espera por eles. E o entusiasmo encurtava-nos o caminho para um nada de tempo.

Nessa primeira manhã, o lanche metia sempre bolos que fazíamos para o efeito e o nosso encontro em Setúbal era de uma alegria tão exuberante que as pessoas paravam a olhar a trupe e o monte de bagagem em gestação acelerada, de cada vez que chegavam novos elementos. Nós inaugurávamos e abríamos a clareira aos vindouros, escolhendo lugar que não perturbasse passagem. E depois esperávamos ansiosamente, a pesquisar todas as janelas de autocarros que entravam na estação rodoviária, esperançados de que os nossos amigos nos fizessem um aceno. Porém, quase sempre eles surgiam inesperados e o reencontro ainda ficava mais bonito.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Para Lá do Mar

As nossas previsões mais catastróficas não ganharam o alcance daqueles quatro dias em que tudo falhou excepto nós. O frio foi bem maior do que supúnhamos, as refeições difíceis - as gentes andavam todas a comemorar a liberdade recém-nascida e não havia onde comprar -, não tínhamos qualquer prática em fogões de campismo a trabalhar dentro de tendas, fazia-nos falta uma casa de banho com chuveiro. E mais. No entanto, todos nos divertimos e guardámos como bom esse interregno. As noites tinham serões risonhos a correr devagar, cada um contando aquilo de que se lembrava. Dos dias, pouco mais lembro. Sei que não deu para um passeio à beira mar e nem experimentámos os fatos de banho.
            No último dia, levantámos tudo e quando olhei os meus irmãos mais novos para a distribuição do material a carregar, embatuquei. Não me lembrara de lhes dizer para trazerem outra muda de roupa – iam correr na praia em fato de banho de manhã à noite – e estavam tão sujos como os ciganitos que batiam na minha porta e a nossa mãe atendia desvelada. A minha irmã usava o vestidinho que chegara amarelo e quase não tinha cor depois de quatro dias no corpo, a frente asfixiada por um compacto de nódoas em camada que me intrigou, onde é que ela o tinha conseguido se quase não saíamos da tenda. Olhei os braços dos dois e eram uma mistura de escorrimentos de sumo e sujidade. Quanto a mim, apesar de a ter virado do avesso, enchera de borboto a blusa emprestada que nunca despira e suponho que devia estar esguedelhada, o que não era desábito. Cada um de nós desejava um banho, o pijama e a nossa cama com um colchão que, nessa noite, nos pareceu de penas. Não sei o que se passou com os meus irmãos que embarquei na camionagem rodoviária, mas eu e a minha amiga chegámos a casa um bocadinho descompostas e ganhámos duas nódoas negras nas ancas, que o chão não é algodão.
            Corolário da experiência, os acrescentos na nossa agenda: passou a constar vestuário para chuva, sacos-cama e mantimentos.
  Provámos ser um grupo com capacidade de singrar e gosto pela experiência; portanto, nos dias seguintes marcámos o campismo das férias grandes: quinze dias na Zambujeira do Mar. É claro que os meus amigos é que escolhiam, eu, no bê-à-bá marítimo, limitava-me a perguntar apalermada, isso é onde, perto de quê.
Na Zambujeira do Mar, para além dos meus irmãos, levei o meu primo Pedro que passava todas as férias connosco, vindo de Madrid. Todas as noites nós duas fazíamos contas aos gastos, a lista de compras para o dia seguinte e organizávamos os grupos de trabalho e compras. Em termos económicos a minha amiga pagava duas partes – a dela e a do nosso amigo ainda estudante – e eu o dobro; os meus dois irmãos mais novos valiam por uma pessoa e apenas lavavam e arrumavam a loiça do pequeno-almoço. Fizemos dois grupos de trabalho,- para o almoço e o jantar -  um comigo e outro com ela e em cada dia uma de nós ia às compras com um dos rapazes, ela com o amigo e eu com o Pedro. O grupo do almoço seguia para a praia imediatamente a seguir ao pequeno-almoço, mal arranjasse o lanche de todos - que lhe calhava carregar - voltando à tenda perto das onze; o do jantar procedia de forma idêntica. Em cada dia, um dos rapazes comprava o pão do pequeno-almoço enquanto o outro punha a mesa e aquecia o leite. Era bem agradável comer o pão morno com manteiga e pensar que tínhamos um dia todo nosso pela frente.

Não sei o que devo a esses dias livres, mas certa é a alegria se antevejo umas horas ou uns dias assim, de apetite. Entra-me um bem-estar meio estranho que torna vívida essa brevidade ainda futura onde cada minuto me vale por anos de relógio. Talvez viver seja assim, uma espera entre momentos de qualidade.

Lamechice à Portuguesa

É isso, hoje escrevo sobre o sentido da lemechice à portuguesa:) Sim, porque uma coisa é o significado teórico das palavras e outra o sentido prático e quotidiano que lhes damos. E nós, portugueses, somos danados para inventar sentidos a vocábulos que já os têm. Em nenhum lugar do mundo uma riqueza vocabular é tão acrescentadamente galopante como em Portugal. E depois vêm para cá com acordos ortográficos e o camandro. Pois que venham que a gente logo lhes diz, levam uma bolachada que até andam de roda.
            Então é assim, no dicionário do Google – já utilizo menos o meu guerreiro de capa vermelha que bem me agradece a pausa -, o termo lamechas é sinónimo de dramático, mariquinhas, queixinhas, lamuriento. Tudo termos pouco lisonjeiros para o sujeito. Se formos pela definição do priberam encontramos coisas bem mais interessantes. Por exemplo, piegas e bajoujo, sendo que o último me era completamente alheio. Porém, a dicção de dois jotas na mesma palavra é deveras sugestiva. Ora experimentem: ba-jou-jo. E agora muito depressa, bajoujo. Mais duas vezes seguidas muito depressa e sem tomar folego, bajoujo bajoujo. É uma coisa assim de boca, como dar beijinhos pequenos, quase tudo com o lábio inferior, não é? Bonito. Pronto, tem o inconveniente de também parecer a pronúncia nortenha de qualquer vocábulo, mas que se há-de fazer?! A perfeição desexiste até nas palavras. Agora podia esgrimir o argumento da perfeição divina de Descartes, mas não me apetece, portanto ficam-se pela minha proficiente afirmação e chega. Ou seja, tudo é imperfeito porque eu o digo e isso basta a este texto palerma. Digamos que a minha omnipotência sobre o escrito é agradável. Se quem leia julga que a perfeição quadre melhor, também pode, desde que não venha chatear com isso. Ah, pois, e o que significa bajoujo?! Pois que dizer a quem se mostra muito apaixonado, senão que é/está bajoujo (não sei se é do ser se do estar). Tem um bocado ar de palerma o bajoujo dito assim, numa de amor perdido.  Indubitável: prefiro um apaixonado (acho que me caio todinha pelo ditongo e a consoante x soa-me a xeque-mate, coisa que em amor, condiz) a um bajoujo, porque o último corre o risco de babar e o ditongo é, ali, uma cinzentice. Outra coisa que me ocorre é se existirá o verbo bajoujar. Basta googlar: há; mas, de tanta coisa diferente, nenhuma é apaixonar. Pode ser por exemplo, bajular; ou acariciar; ou canonizar; ou deleitar-se e cortejar. Enfim, um nunca acabar de sentidos, sendo que em nenhum cabe o óbvio da nossa suposição.
            E piegas? Piegas é uma palavra com o seu quê de doçura entranhada, o primeiro ministro é que não conhece senão a sua voz, ou saberia que o povo só usa o termo piegas quando diz ternuras a quem gosta e sempre acompanhado de gestos a condizer. Ora como ele parece gostar de ninguém do povão, o termo não se adequou e o eterno réu sentiu-se ofendido. Só sou chamada de piegas por quem me gosta. Se outra pessoa utiliza o vocábulo, passa a descabido e ofensivo. Portanto, senhor primeiro ministro, fora com o piegas que nós não lhe demos autorização. Ponha-se no seu lugar se faz favor.
            É assim, as pieguices são meiguice, ternura que temos com quem gostamos. Por via oral ou em escritura. E são lamechas? Claro. Bastante. Não são literatura? Pois…não devem ser. O que as distingue da literatura é o ridículo e o sentimento na orla das palavras, despreocupado delas e do sentido que possam ter. Pieguice é mansidão de ternura aos gritinhos de estou aqui e isso leva a requebros e mesuras repetitivas e queridas que estragam a literatura. E é que neste discurso se levanta outra ordem e exigência que não a do sentido literário. No entanto, quem não gosta das cartas de amor de Fernando Pessoa à Ofelinha?! Vá, venha uma pessoa que diga, são uma bodega. Ou uma que afirme, não são lamechas.
            Pronto, ia falar do ridículo, mas já não merece.

Sejam Felizes. E bajoujos.