quarta-feira, 30 de julho de 2014

Impressões sobre Machado de Assis

CAPÍTULO de CHAPÉUS

A literatura brasileira interessa-me. Tem a sua prosa específica, seus requebros de mulata dolente, seus enredos de filosel. Mas nunca tinha lido nada de Machado de Assis. Pelo nome, pareceu-me escritor português pouco conhecido. Como não investiguei, depois da leitura de “Capítulo de chapéus”, concluo que é brasileiro e dos bons. Bastante conhecido, portanto. Et…pardon.
A história desenrola o quotidiano de um advogado – Conrado - e sua esposa – Mariana -  e mete um chapéu pelo meio. O Chapéu. E pareceria uma simplicidade: haver um advogado com extrema dedicação ao chapéu de todos os dias – um chapéu leve e baixo – que o faz parte da indumentária, que não o dispensa nunca nos seis anos de casamento. E, supõe até o leitor, seja conhecido pelo chapéu que usa. Ora, certo dia, o sogro resolve instar a filha sobre o apego do doutor a seu chapéu, convencendo-a que não é adereço digno de um homem da sua posição. Cabe a ela resolver a questão levando-o a mudar para uma cartola, um chapéu alto, mais consentâneo com o estatuto de causídico. E a história vai-se desenvolvendo numa quase linearidade onde a caracterização das personagens emerge e surpreende.
Aprecio escritores que enfatizam a caracterização das mulheres e se prolongam na descrição, porque assim no-las trazem à mente mais fortes e seguras de quem são. O que mais me agrada em Machado de Assis é essa segurança na personagem. Não se entenda por isto que o escritor construa personagens seguras de si. Não. Ele faz mais. Descreve-as de tal forma que elas não nos surgem dentro dos seus defeitos, mas imersas na personalidade que lhes pertence e de que não abdicam. Vivas. Vejamos por exemplo Mariana, a mulher em cujos traços se demora. Mariana é a iaiá do marido –  pensamos de imediato numa menina mimada -, alguém que detesta sair de casa e é a monotonia feita pessoa. Contudo, Machado de Assis, tal como lhe retrata o carácter amante de hábitos, abrir sempre a mesma janela, manter a desordem de livros sempre igual, ler sempre as mesmas três obras…constrói a personagem sobre eles, fá-la real. Mariana não tem filhos e apresta-se em cortinados e franzidos, pormenores caseiros de quem detesta surpresas e inesperados. Mariana cria dentro de casa o seu mundo de felicidade. Poderia até ser como nenhuma mulher, mas é entendível como pessoa e torna-se, ao longo da história, aprazível, facto mediatizado pelos acontecimentos que a vão definir. E é por esta compreensão de Mariana que o resto da leitura e da história tem sentido. Senão vejamos: Mariana tem uma amiga que é o seu oposto – é natural que ao seu quieto comedimento agrade a expressividade um pouco amoral de Sofia –. Procura-a depois que o marido lhe nega a mudança de chapéu, e, um pouco chocarreiro, afirma ser tal adereço um prolongamento da cabeça existindo entre ambos uma exigência de ordem metafísica e mútua conveniência que não pode desmanchar-se. Conrado, que até aqui era para o leitor um simpático advogado, devém-nos agreste, desleal, quando, para confundir a mulher, enrola a sua opinião em ideias e conceitos que ela não domina. E é como se o leitor fique de pé atrás com o doutor.
E Machado de Assis pontua ao reduzir os homens que as duas amigas encontram durante o passeio aos chapéus que usam, o problema de Mariana constante, ao leme do episódio.
Se alguém pensou que Mariana, aborrecida com o marido e seguindo as pisadas de Sofia, vai flirtar com o antigo namorado que encontra de chapéu alto e lhe estende a oportunidade, desengane-se. Não é questão de honrar princípios, de amar o marido, de não parecer bem. É, mais uma vez, o carácter a determinar-lhe o ânimo. Mariana aborrece-se de morte fora da pacatez de sua casa. Encontra a conversa do ex-namorado falha de interesse, não o vê como hipótese de diversão sua, antes um empecilho. Na rua, deseja o manso estar das coisas caseiras, o sossego do espírito no gineceu em vez do corrupio de gente a que assiste. Quer no dentista quer na Câmara dos deputados, sente-se pouco à vontade e começa mesmo a arrepender-se da zanga causada por um chapéu, interroga-se sobre o seu ter razão, a princípio tão evidente. Descrê das opiniões da amiga que antes pensava sábias, autênticas receitas de como domar um homem.
Finalmente em casa, minada de incertezas, resolve aceitar o chapéu de sempre, não voltar a teimar na mudança. Porém, Conrado entra-lhe em casa com um chapéu alto.

O melhor é irmos todos deleitar-nos com a prosa caligráfica de Machado de Assis. O homem merece.

domingo, 27 de julho de 2014

Fundação Oriente (2012)

Quando o calendário nos não ensina, há factos ressuscitados. Assim me sobressalta a exposição de pintura a tinta-da-china que visitámos na Fundação Oriente. Era uma tarde solitária e antevíamos um desenho de recorte negro, perdidas em recordações de tira-linhas, canetas de tinta-da-china e borrões desajeitados. Mas surgiram-nos bucolismos singulares em ressaltos de cor, minúcia chinesa a esquartejar o real. No papel, sublinhado e assentido, lemos que o artista chinês deve “encarar a natureza como seu mestre e incorporar os seus sentimentos na sua criação”. Num espanto de viés, quase de ofensa, deambulámos a demorar-nos nos quadros. Dir-se-ia que, neles, a pintura oriental se fez ternamente picuinhas, a quebrar-se em traços pequenos que acompanham o esmaecer de pétalas e sugerem a doce fundura do lar. Abstractas, notámos estas diferenças do espírito a suspirar por Cézanne e Degas, Magritte e Van Gogh. Não é um estilo diverso, mas uma alma outra, os mil pormenores dos traços a lembrar o cheiro a poeira nos livros antigos ou a sugestão de dedos calosos e pacientes em vagares de amostra rendada, a nossa estranheza contínua, a bater o pé por fugitivos códigos de leitura. Então, ainda não despíramos o espírito do hábito, dedos de espanto na textura do papel de arroz.
Em seguida, atentámos nas denominações dos quadros, “A beleza permanece graças à brisa aromática” ou “Quem deixou florescer as montanhas e florestas?”. E ainda, “edifícios de Terra na Hakka numa manhã tranquila”. E perante estes títulos fica a gente indefesa, incerta…será um princípio de romance ou uma questão religiosa e filosófica?! A  designação das nossas pinturas diverge. Lemos por exemplo, “Rapariga com livro”, “Guernika”, “Mulher sentada”, “Rapaz com cachimbo”, etc. Ao laconismo do resto do mundo os chineses opõem um pensamento completo e palavroso, que sugestiona com cheiros, sentimentos, e um ambiente teluricamente pacífico. Enquanto assim andámos a comparar, pouco vimos. O conhecimento carece da nudez indefesa de quem conhece, é preciso estar nu de espírito, em ingenuidade primeva e receptiva, atenção bíblica que nos faz terra fértil à boa semente.
Mau grado tudo isto, acometeu-nos um desconcerto de riso parecido ao que nos agarrava quando víamos telejornais (não me lembro de nada, coisa nenhuma mesmo) na travessa de Santo André, onde tudo nos gargalhava. Até sermos expulsas da sala, bem entendido. Frequentávamos o Magistério Primário e teríamos entre 17 a 19 anos e, felizmente, tão pouco juízo!!! Ali, numa fundação toda chinesa, as nossas freirinhas presentes, imagina! Compenetradas do estatuto, sérias no hábito preto de andorinha – sempre me pareceram andorinhas, queres o quê; as meninas da Casa Pia numa raiva desabrida, corujas! Morcegos! E depois, não sabendo como alvejá-las melhor, uma intermitência final, à queima-roupa, há um túnel que parte da dispensa para o convento da Cartuxa…Mas não me buliam os dichotes das meninas, via-as andorinhas eternas, voavam. Sentávamo-nos junto delas e os olhos da irmã Beta a pedir contenção; as restantes, imóveis, lábios rectos, um ricto de semi desaprovação a enrugar nos cantos, olhos fixos, num estranho desejo de notícias - é evidente que só assistíamos o telejornal porque não nos deixavam ver outra coisa. Começávamos compenetradas, a prometer uma à outra, hoje é que é, não nos rimos. Porém, mal o locutor cumprimentava, logo umas fungadelas. Em seguida, e ainda animadas de bons propósitos, havia um período de acalmia em que, cabeça baixa, nos dedicávamos  controlar o riso sem ouvir ou ver o que fosse. E, por qualquer razão que até suponho inventássemos, terminávamos numa oscilação de costas, todas dobradas para a frente, os olhos a chorarem enquanto as mãos se inutilizavam a esconder o rosto. E a irmã Beta, italiana de gema, a única a olhar-nos com um meio sorriso e olhos garotos; se haja céu, ela há-de lá estar, na sua paciência infinita, divina beleza sardenta, as azeitonas dos olhos em brilhos de ternura liquefeita. A saudade que lhe tenho aos olhos! Pergunto-me muitas vezes se te ficou aquele olhar de abraço que nos fazia ser melhores, ou pelo menos desejá-lo. Uma vez, um desconhecido olhou-me assim, como quem não tem outro mundo. De dentro da minha admiração,sorri-lhe agradecida. Quem sabe, lembrei-lhe alguém. Fora uma boa manhã de trabalho, comemorávamos num restaurante e fiquei com a ideia de que teria ouvido qualquer coisa da nossa algaraviada. E não se explica, mas era o mesmo olhar da irmã Beta. O mesmíssimo: azeitonas pretas a boiar em ternura. Para mim.
Mas voltemos às sessões de televisão: a directora Assunção, uma severidade pálida a comandar cortante, lá para baixo, se faz favor. E nós a ressoarmos patudamente na escada, até perdermos os passos no quarto - os pés regressados à condição, com planta e tudo que lhe competia, oh, já não sou pata - , o riso rebolado sobre as camas num à vontade que, por sê-lo, logo parava e perdia graça. A saudade que tenho de ser aquelazinha. Nunca to disse, mas o teu desvelo comovia-me. À noite levavas-me leite ao quarto e subias a escada muita vez para uma conversa. Nessa altura, controlavas-me o peso, chegavas-me a medicação, afligia-te o meu ar bacento. Nem um dia te senti receosa da doença, do contágio, da brisa forte que me varreu amigos, família, conhecidos. Chegaste a acompanhar-me a consultas. Por vezes, o teu cuidado descascava-me a fruta à refeição. No resto, éramos apenas jovens. O que mais admiro em ti, sabes, é a ternura que te corre solta. E se mantém.  Sinto-a quando nos encontramos e verifico-a em tua casa. És assim. Não para esta ou aquela pessoa. Não. És fonte de água fresca. Gostas dos outros. Sou-te infinitamente grata por isso. Tenho uma parte em ti. E tu em mim.
Quanto me desviei do nosso passeio…Depois dos quadros, vimos uma exposição de fotos e objectos, toda ela muito chinesa. Recordo uma família – talvez um cônsul português de Macau – de que havia várias fotografias e adereços: a primeira foto intrigou-me sobremaneira, a mãe aparentava ser uma garota ligeiramente mais velha que os três filhos, enquanto o chefe de família, com um ar muito chefe, era um senhor de meia idade. Não consegui esmiuçar o fundo dos olhos dela, mas parecia infeliz, supremamente disposta a brincar com os dois garotos mais velhos. Comentei, será que isto não foi pedofilia, e tu riste baixinho, encantada com a originalidade de um berço que teria pertencido às mesmas crianças. E depois viemos rindo e conversando até ao Campo Grande, lugar onde cada uma tomou posse do outro eu.

E às vezes, juro, aqueles olhos de papel, serenamente desditosos, perseguem-me. Vê tu para o que me havia de dar.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Joana Carneiro na Gulbenkian

Por um fortuito acaso comprei bilhete para o último concerto da temporada na Gulbenkian. Desconhecendo que era último. Movida a súbita saudade, abri o pc e achei um bom preço num horário inesperado por inabitual, ainda por cima com a maestrina que todo o ano desejei ver: Joana Carneiro – não sei o exacto porquê, mas ser portuguesa e mulher, num lugar cativo de homens, contribuíu. Quase tudo vendido, escolhi o lugar 1 da fila 28 e só muito depois me deitei a pensar que devia ser longíssimo do palco. Tinha comprado. Nada a fazer. Para não desanimar, e porque me pareceu um bom castigo à imparável distracção que acompanha o eu de mim, nem espreitei a planta da sala que, aliás, tinha visto sem ver, quando escolhera o lugar.  
Cheguei cedo e flanei pela secção de compras, onde aproveitei para perder os óculos de sol de que mais gostei até hoje. Sou assim, não perco tempo com bagatelas, se é de perder, que seja de valor. Ainda desatendida do rombo, sentei-me rodeada de meus vagares, na grata surpresa de estar mesmo junto ao palco e, graças ao enviesado do lugar, poder admirar a maestrina. A tal que, em vão, quisera assistir. Felizmente não esquecera os óculos normais e a perda manteve-se incógnita. O meu céu, azul e sem nuvens.
Agora que já me habituei, sei que chega primeiro a orquestra e só depois de tudo pronto e no lugar, o maestro. Os elementos galvanizam pela fatiota. Se não fora o instrumento que trazem na mão e lhes dá o metier, pareciam convidados de um casamento chique e nós, os sentados, transeuntes boquiabertos a bisbilhotar roupagem e penteado. É verdade que os velhos são sábios e existem, mas, da entrada à cadeira de cada um, a aura é dos mais jovens, os restantes a passear, distinta e em passo certo, a sua discrição. Ficou-me uma mulher de braços sinuosos e decotados que se sentou num sussurro de sedas a deslizar, ajeitando o violino em materna comoção de dedos, o mate da pele a resplandecer contornos juvenis, toda debruçada de cuidados com porcelana chinesa. Ou a de dedos de fuso e pulso fino que trazia aos ombros uma nuvem de tule e permaneceu alheada dos fios do tecido a ranger constrangimentos, ai, não aguento esta dobra, vou ficar esmagado dentro da prega, a mirar o brilho da flauta, desligada do rumor das fibras a esticar no busto, garridas vaidades insufladas, somos as maiores; mais tarde, o seu solo de deusa chamada à Terra havia de transportar-nos a florestas verdes de ar rarefeito e pastoril, onde a pureza do oxigénio nos entontecia a cabeça. Lindas, as duas. No entanto, mal a maestrina pisou o palco, eu soube de algo maior. Joana Carneiro, rosto sem pintura, em negro conservador: sobre saia comprida, casaco de malha fina, manga justa até ao pulso, sem réstia de enfeite ou alinhavo de cor. O cabelo a descer, liso e solto, com um ganchinho infantil sobre o lado, a amparar a visão. E, como em todos os concertos de domingo, explicou a música. Trouxe os instrumentos ao seu significado na peça, identificou-os com os momentos e contou a história de cada trecho. Ouvi-la, foi sentir uma janela a rasgar cá dentro. E foi assim, cheios de claridade, que a vimos crescer no palco. Aconteceu-me o de sempre, ouvia a música mas esqueci completamente a orquestra. A minha atenção foi sugada por uma feiticeira encantatória que, em grandes gestos, cozinhava à nossa frente os prodígios da sua arte de feitiçaria. Doce e terna feiticeira que se deixa levar pela música e participa da sua tristeza, o desalento do cabelo a oscilar próximo ao pesar dos olhos! Que, numa súbita viragem da sua varinha de condão, toda se empolga e vibra, e se faz força de viver e riso desabrido, torrente que, qual flauta de Hamelin, arrasta toda a orquestra.
E logo ela se despediu. Parecia que só uns minutos, mas um concerto inteiro.

Depois…bom, depois foi a busca insana e inútil pelos óculos. E ainda assim não se me apagou a gratidão por mais este acaso de sorte.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ó Cristo, a Julieta caiu

A realidade entretece e enreda-nos sem atentar a estados de alma, ponderou enquanto descalçava uma bota com a outra, o bico do pé a forçar no calcanhar. Há quanto tempo comprara o bilhete para o bailado…abria a gaveta e ele a garantir um bom serão, ali, desdobrado, o nome, a fila e o número do lugar a negrito. Posto num sossego de fazer inveja.
Porém, à medida que o dia se aproximava, as perspectivas foram esboroando. Porque os planos são sempre e apenas planos. E, à data, os afazeres e aborrecimentos na linha da frente, a destacar. Então, reuniu-se toda em esforço, a mente a verdejar, à noite esqueço, eclipso. E cumpriu-se em metódicos ademanes de quotidiano.
 Até ser noite, minutos e horas num atropelo, o projecto, hoje visto-me cheia de tempo, subterrou. Quanta coisa a irromper em teimosia imprevista! Quando, enfim, olhou o relógio, já o redondo do tempo evaporara deixando uma nesga de minutos apressados, passinho curto, a segredar-lhe, larga o resto e vai. Assisado conselho. Vestiu o casaco, alisou a franja, alçou a mala e saiu. Depois dos engasgos do elevador a sacudir preguiças de ferrugem, a rua. A recebê-la em hostilidade friorenta, prédios-concha, persianas corridas, átrios desertos. As árvores disfarçadas de guarda-costas gigantesco, a reluzir alturas por entre candeeiros envergonhados que lhes davam pela cintura, as folhas a desmaiar num desassossego de luz, queremos dormir. Só o tráfego automóvel deslizava diáfano. Autocarros sombrios resfolegavam moíções de dia inteiro, o interior esventrado por claridades de lâmpada que anoiteciam bancos vazios e vincavam preocupações habituadas em olhos mortiços de seis da manhã, que vou fazer para o jantar ;  num cansaço arfante, encostado à bengala, um idoso a encher-se de sem futuro, olhos de lago ressequido.
 Lisboa pacata em noite de fim-de-semana. No Metro, alguns sinais, garotas de festa, rapazes com gel e perfume enjoativo, um ou outro trabalhador retardatário, o corpo a entregar-se aos solavancos, olhos fechados, desmaiadas mãos sobre o vazio balofo do saco do almoço. Ela, o que serei para eles. 
Saiu numa rua repleta de noctívagos vagarosos e encontrou a sala de espectáculos meio vazia, os lugares na forma tradicional, um corredor ao meio e dois laterais. Acomodou-se. De imediato, duas filas à frente, nos dois primeiros lugares à direita do corredor central, um parzinho abraçado a fotografar-se com telemóvel, ela a chegá-lo para si, dedos longos a virar-lhe o pescoço. Desviou o olhar a impedir a devassa, o amor é coisa de dois. Daí a pouco, arriscou um soslaio. Siamês perseverante, o par continuava em pose ao telemóvel, ela uma mão sobre o ombro dele, a outra, subreptícia, atrás da cabeça num exercício de dedos assaz suspeito. Sorriu. Talvez que ele também, mas não lhes descortinava o rosto. Que namorada estranha, pensou. Imersos no seu mundo biunívoco, conversavam; amiúde, ela encostava-se mais a ele e movia as mãos em gestos gráceis, movimentos alados que apetecia prolongar ad eternum. Intrigada, tentou vê-la melhor, mas só pernas e pés descaiam do assento. Do seu ângulo, a jovem reduzia-se a um par de pernas inesperadas, tornozelo grosso em flagrante assimetria com a delicadeza de pulsos e mãos.  Descortinava ainda o remate do tornozelo imerso nas sabrinas brilhantes e o esotérico caudal de cabelo escuro. Vista assim, parecia equilibrista de circo. Observou o homem. Andaria entre os trinta e os quarenta, t-shirt preta, calça de ganga, moreno de tez, os músculos a esticar a t-shirt. De certeza, uma tatuagem algures. Havia nele a ambiguidade contrafeita de alguém fora do apetite. Rodeou o espaço a avaliar se o estranho par merecia reparo de outra gente. Ninguém os notava. Mas ela presa ao inédito magnetismo dos tornozelos de varina. Porém, a jovem destacava-se pela postura, costas certas com o espaldar, cabeça erguida. Ninguém na fila detinha a mesma graça perfilada. Que estúpida, por que razão pensei em pernas de peixeira, é bailarina, concluiu. Avaliou-a de novo. E reconheceu-lhe uma vivacidade entusiasta com brilhos de alegria intensa.
Subitamente, ela riu; atirou a cabeça para trás e o cabelo, em roda livre, envolveu todo o espaldar da cadeira e ficou a ondular, acima-abaixo, acima-abaixo, ao ritmo das gargalhadas. Magia inconsciente de si. Voltou-lhe a surpresa, que bailarina tão sui generis. Reparou-lhe os calcanhares acima das sabrinas dardejantes. Sorriu de novo, bailarinas são pessoas únicas, pensou, têm pés irrequietos. Mas, tal como rira, eis que se levanta num rompante do vestidinho laranja, uma fina tira preta a circundar a brevidade da cintura. Inexacta ninfa, cabelos pela cintura e pernas de bailarina a desdizer. Teria entre dez e treze anos e o moreno seria o pai. Embeveceu. O espectáculo ainda em suspenso e já o mais belo da noite acontecera.
Quando o pano subiu, a garota rígida, em hipnose. Mas a ela o bailado Romeu e Julieta não convencia. O Ballet Russo confirmava a desilusão inicial, em versão bafienta e muito teatral. No ar, um vago de impreparação. Talvez fosse uma companhia decadente e com falta de verba, ou tivesse apostado forte em gente muito jovem, insuficiente na exigência. Ou ambas. Porém, a ninfeta de olhos no palco. Alheada. Dissolvida. O moreno às voltas no assento, pernas e braços a cruzar e descruzar.

De repente, ardis do destino, num tempo de bailado a par, a Julieta desamparou e caiu sem ruído, qual pássaro que perde o vôo. E a ninfa de lábios redondos, um oh que não se ouviu. Ela certa no seu lugar, a olhar as duas, compungida da bailarina que se levantara num relâmpago, a perguntar-se, como é que consegue continuar, falhou ou terá caído porque o Romeu não lhe assistiu no tempo certo. E, enquanto Julieta ondulava inseguranças assistidas palco adentro, um silêncio de pés audíveis, dramático, expectante, sobrepunha-se à música.  Ela em desequilíbrio, a  apetecer-lhe segredar aos vizinhos do lado, “Ó Cristo, o coxinho caiu”. Mas os vizinhos estavam pelos cabelos com o mastodonte que se lhes sentara na frente, não tinham idade para entender a graça e era possível que a olhassem meio espantados, os olhos, é maluca. Que mau gosto, admitiu em desolamento. E dedicou-se a admirar os efeitos musicais nos pés da ninfa que, soltos sobre os sapatos, ensaiavam passos involuntários. Ela sim – concluiu -, é linda.
Colocou as botas lado a lado. Simétricas e mortas. A vida era aquela garota, sapatilhas brilhantes  aflorando a humidade do empedrado, mãos mágicas e palavrosas, o pai num sorriso liquefeito, entre a ternura e o alívio.  E os dois a perderem-se numa esquina, como quem sabe onde vai e tem pressa de chegar.

Deu um pontapé nas botas a desfazer-lhes a simetria. Tão triste ser coisa!

sábado, 7 de junho de 2014

Aniversário e Outras Coisas

Fizeste anos. No desconchavo dos dias, o teu aniversário apetecia-me. E tudo se renovou. Um Dia do Pai paralelo. E tu, contente. Porém, a tristeza misturou-se-me com a noite. Demito-me de porquês, desisto de presságios, tenho raiva a pressentimentos, não estou nem aí para sentidos que acenam sem existência. Por isso, descansa, guardei-te contente, feliz na tua eternidade grata.
Quando os pais se ausentam, há uma solidão agoniada, a estrangular. Por vezes penso como será quando não estejas de corpo, não haja uma casa tua que foi nossa e mores definitivo no lugar que alindaste a gosto. Não sei de outro sítio que me receba, onde consiga espairecer de mim. Nós dois somos tagarelas, mas não nos perdemos em confidências mútuas, alienamos queixas disto ou daquilo, mas ainda assim fazemo-nos companhia a contar palermices. E penso em Lobo Antunes a garantir que as conversas com o irmão João são silêncios. Conversam sem lábios, pálato, dentes, língua, bochechas... Um junto do outro, comunicação das almas em proximidade neuronal, corpo do mesmo corpo, mente da mesma mente. Não é assim connosco, temos uma geração de permeio, espumantes zaragatas com decibéis insanos de travo odiento. E outros intentos. A verdade é em ti interior e secreta, os medos perpassam-te na força dos pesadelos e cresceste num mundo de trabalho. Não aprendeste o sonho acordado. Sei tão pouco de ti…e nem tu te saberás o suficiente. Não pensas nessas bagatelas.
Porém, nestas horas em que o sumo roxo das violetas me escorre lassamente, vê tu, apetece-me contar o engraçado de ti. Apetecem-me os teus involuntários: erros de gramática, hábitos que não questionaste nunca, distracções hilariantes. São antídoto caseiro contra o lado venenoso de viver, pedras de um colar de leveza. Uma espécie de amuleto que acorre ao chamado da memória. Sempre lhes resisti como pude. Talvez pudor sentimental ou respeito. Mas a memória, como tudo que em nós existe, é incerta. E, em nós dois, o efémero acelera; em qualquer mínimo momento pode devir efeméride.
Lembras-te? A luz eléctrica chegou a Bombel já eu tinha 26 anos; era professora primária há seis e frequentava o 3º ano do Curso de Filosofia. Ora, no terceiro ano de trabalho, hospedei-me em Setúbal em casa de um amigo teu. E comprei uma televisão pequena, ainda a bateria, para ter no quarto e ver as aulas do primeiro ano do curso propedêutico, na mira de a poder levar para casa, lugar onde morreu. Nas férias, carregava a televisão e a bateria  para Bombel - não me lembro como podia com aquilo tudo – e víamos televisão na cozinha pequena que eu mobilara com uma camilha e a toda a largura um sofá castanho de napa chiadora que fazia o nosso encanto, oferta de uma prima enfastiada de ruídos. Dormias cedo. Madrugavas para regar, semear, tratar das coisas da quinta. E nós poupávamos a bateria quanto podíamos porque tínhamos de a pôr a carregar na oficina do Chico – nessa noite não víamos televisão - viajando no nosso carro de mão que forrávamos com as sacas do cimento ou das batatas para não estragar o apetrecho. Numa dessas noites, televisão ligada e já sentados à espera provavelmente de um filme, a Maria Adélia deslocava a antena para eliminar a chuva do écran enquanto nós três íamos orientando, “tá pior, tá pior” ou “ parece que desse lado tá melhor, levanta mais” e outras indicações. Entretanto, de tanta mexida, havia posições em que a antena já não se sustinha de pé e caía em vôo picado com baque surdo, “ploc”. E nessa noite foi assim. A Maria Adélia estava a pôr “coisas” atrás da televisão para fazer uma muleta à dita e nós calados e atentos, ainda assim a palerma da antena não descaísse um nadinha e nos privasse de novo da nitidez da imagem. Tu já estavas no quarto. Atentos à antena e a temer que começasse o filme antes da operação terminada, ouvíamos-te despir em ruído de fundo. Sons habituais que não desmanchavam a nossa atenção primeira, o barulho das botas a despedir no chão uma a uma e tu descalço a pô-las no corredor; o ranger breve da cama, sinal de que te sentavas; o tilintar que agitava as maçanetas quando penduravas as calças  na grade. De súbito, parou tudo. A tua voz, claramente articulada, um fundo de queixa a tracejá-la “eh, poças! este sutiã tá-me apertado.”
Esquecemos as orientações, o filme, a Maria Adélia parou a operação e a antena caiu de imediato e nós quatro em silêncio de riso, escancarados à gargalhada, olhos esbugalhados. E antes que um mar de gargalhadas nos invadisse parvamente, um de nós, “o sutiã, pai?!” e logo tu a frisar a emenda, “Oh, o sutiã! Maluqueira! As cuecas.”, e a repetir por via de dúvidas que subsistissem, “As cuecas tão apertadas”. E aí nós quatro rimos até não poder mais, chorámos de tanto rir, eu, como sempre, engasgada de tosse. Foi um alarido até tu, já deitado e com o lapso digerido, “vejam lá mas é se se calam que quero dormir.”

Voltámos à antena e ao filme. Mas toda a noite rimos. Ainda hoje. 

domingo, 25 de maio de 2014

"O Enigma"

19 de Setembro de 2012

Vieira da Silva no Museu da EDP, Porto. A exposição  inicia com fotos que lhe traçam o curso do corpo, e onde ela surge sucessiva, o olhar de pássaro a alargar no inexplicável. Fica-nos o espanto em que os olhos flutuam, como se a realidade uma coisa grande demais para a pintora. Entre tanta fotografia, fixei uma do casal. Arpad e Vieira da Silva estão juntos no sofá, o ângulo recto das pernas em paralelo perfeito. Dois velhos quotidianos, se não fora serem eles. E nos corpos sentados uma sintonia de abraço imaterial, estar de dois que são um. Olho-os melhor. A Harmonia entre aqueles dois seres é acerto que transpira sem efusão. Lado a lado, os quatro pés denotam uma paz ainda amorosa.
Pouco entendo da pintura de Vieira da Silva e nunca tinha apreciado “O Enigma”. É um quadro que me fascina, todo construído em quadrados brancos e pretos, que joga tudo na cor e tamanho das formas geométricas. Observado a alguma distância, emerge-lhe uma ave de asa aberta e, contudo, nada nela é de voar, de todos os lados cadeias a seguram, como se lágrimas cristalizadas lhe tolham o vôo e impeçam que se destaque por inteiro. O quadro vive de uma falta de distância entre espaços, origem da imprecisão das imagens e que acorda no observador a radicalidade do insolúvel. Enigma é um nome que lhe assenta.

Desconheço motivos para ter  circunscrito as notas a uma foto e uma pintura. Mas foi assim que encontrei o rascunho, nas costas de um bilhete de comboio, as palavras a esvoaçar em volta dos pequenos círculos que  assinalavam a passagem do revisor.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Solilóquio

O dia de terça-feira é-me extenuante. Extenuo com facilidade, o corpo sempre propenso ao cansaço. Começo dentro da piscina, braços e pernas leves, a cumprir ordens. Quarenta minutos de obediência tépida a orientar-me a cabeça de pântano; pressuponho que, enquanto atento aos movimentos do tronco e membros adjacentes, em silêncio, sub-reptícia, ela se rearranja: enrosca parafusos soltos, aperta porcas, oleia com ideias zonas perras e alagadiças.
Saio com a rinite actualizada, cão de água pingante. Vou às compras nesse estado miserável e rumo aos pequenos arranjos caseiros de quem vai sair e só regressa depois do jantar, tratando que nada falte a quem fica. Depois, faço um caminho comprido a pensar na vida e num eu que encontro no carro e que, provavelmente, é de ficar dobradinho até à próxima viagem (como no carrossel). São viagens muito acompanhadas, dou boleia a imensa gente, sentam-se-me pelos braços e pernas, penduram-se no meu pescoço, acachapam junto ao vidro da frente tão maravilhados quanto eu com o operar de maravilhas nos campos primaveris. Se me atraso a sair, amontoam em silêncio no banco de trás e apenas se manifestam nas ultrapassagens perigosas num sopro de susto, “ssss….”. Respeitam o mau humor. Ou temem-no. Se acaso viajo acompanhada, não entram; ficam no alpendre a fazer-me adeus, as pessoas a meu lado, estás a rir para onde, e eu, oh, nada, estava distraída. Porém, na maior parte das vezes somos só nós, e por isso não ligo o rádio. Conversamos de mil coisas, canto uma cantiga ou outra a pedido e vemos a paisagem em silêncio, palavras a subir ao imprescindível de mim e eles a fazerem espaço. Pacificados.
Chego a Lisboa no estado de espírito de começo de mundo. E começo nesse mundo outro. Faço o que tenho a fazer e sou outra. Mais tarde, dispo-a e deixo-a atrás da porta da dispensa junto com as roupas de trabalho. Retomo-me à hora do lanche, frente a uma chávena de chá. Então, sacudo melancolias que me assolam dos vapores e antevejo-me a ler numa parede um verso tão profundamente amado que nos sinto mais velhos que a idade dele, “Ah, se eu não morresse nunca e eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas”. E nem sei a razão de me fazer falta vê-lo. Ali. Naquela parede de azulejo. Humanidade mais exposta não existe. Depois, sigo para uma aula de Poesia onde pouco aprendo e mais me interessam outras coisas.
Ontem era terça-feira e chovia. Pensei, e se o professor faltar?! Mas avancei as botas para o contínuo das poças e mergulhei nos oblíquos riscos de chuva, as árvores a choramingar pelas folhas pejadas, quem foi o palerma que nos trocou o tempo? Já temos ninhos e flores, nasceram-nos milhares de folhas…e agora? Que é feito do nosso contrato de habitação com os pássaros? Dei de ombros, não havia tempo para pensar em questões arborícolas. E continuei. A ensopar.
À saída do Metro dei de caras com um renque de malmequeres a acenar-me do meio do temporal, loucura! Não continues, volta atrás, regressa. Parei um bocadinho a olhar-lhes a brancura a destruir, as pessoas dentro dos carros e os transeuntes abrigados na traseira da reitoria, a mulher é parva, parada no meio da rua e a chover desta maneira. E eu que gosto de malmequeres, a elidir o recado que sacudia as corolas, mesmo quebrados de vento e chuva, tão bonitinhos; parece até que estão de mãos dadas, e o guarda-chuva para mim, ou seguras com mais força ou vou-me embora que estou farto de poesia barata. E eu a agarrá-lo com força, oh! Mal-educado... E disse adeus aos malmequeres a convencer-me, armada em raposa de fábula, são flores, não sabem o que dizem.
Porém, não é lícito desatender palpites chuvosos de malmequer. Estavam certos. Sabiam. O professor faltou (que uma reunião, que, que, que). Mas a Alda teve o bom gosto de me convidar e fomos as duas ocupar tempo e assistir a uma conferência na CLEPUL sobre a vivência do pós 25 de Abril nas ex-colónias portuguesas. E desgostei. As nossas universidades são assim: livrescas, agarradas a papéis e escritos, museológicas. Aborrecentes, como disse a filha de Lobo Antunes depois da visita ao museu. Calhou-nos ouvir duas professoras universitárias a perorar sobre duas obras de escritores africanos (um cabo verdiano e outro que não recordo). Suprema pobreza! Se eu desse uma aula igual, os meus alunos não se seguravam na sala. Foi mais ou menos o que aconteceu: as pessoas foram saindo, saindo (sem a algazarra que, seguramente, os meus alunos fariam). Quando eu, emparceirada com o guarda-chuva, já quase dormia de desalento, terminou. Como terminam todas as coisas do género, a assistência cingida à mesa e a um ou outro resistente (nós duas, feitas valentes); ouvem-se uns aos outros, portanto. Oh santa incapacidade de nos enxergarmos como somos e não fazermos força para mudar (digo eu que pouco mudo na vida).
A terminar, visitámos uma exposição que era quase exclusivamente cobertura jornalística de época e toda a gente muito nova, um brilho nos olhos, uma força de acreditar que queria mover montanhas e esvaneceu em quarenta outonos desiludidos. Saímos pesarosas de tanta esperança rasgada, da perda de confiança, de termos deixado chegar à política uns filhos de Abril que são filhos de uma senhora que tem um nome que não se diz, até por ter menos culpa no cartório que eles.
E depois, a chuva. Furiosa e armada de vento. A paisagem a encharcar, árvores frenéticas desde a raiz, descompostas, a dobrarem ramos até ao impossível, se isto não para, dá-me uma coisinha má e quebro de vez; filas de automóveis a escorrer teimosias de céu cinzento, os limpa para-brisas em frenesim de nervos. As nossas pernas na ousadia do labirinto automóvel, a atrasar de vento. Nós ambíguas de passos,  a suster arremessos e empurrões ventosos, em busca de uma bússola no desconcerto do dia, que horas são?  Se não fora a Alda, perdia-me em pleno, num lugar que conheço e me surgia acidulado e hostil, a natureza a despedir-nos, vão-se embora, fora daqui, a querer chorar e arrepelar-se a sós. Guarda-chuvas no arame e caminhávamos como se nada fosse, a comentar a conferência e a nossa estranheza face a professoras universitárias que são estudiosas de um determinado autor e não conseguem elucidar-nos sem debitar, nem denotam um pingo de emoção interessada no estudado. Que diabo! Não queremos que tenham Abril no sangue, mas tanta frieza arrepia. Não pode ser bom sintoma. E lembrei Piaget, assimilação, acomodação, equilibração… à comunicação daquelas senhoras faltou alguma coisa que não apenas de ordem emotiva.
Entretanto, nós dentro do temporal, a rir do irrisório de tudo e a salvaguardar uma simpatia elegante e cordial, as músicas do Zeca que não ouvimos, uma canção cabo Verdiana, apelo à lentidão tropical balançada nas ancas a que o cabo da minha sombrinha foi sensível.  Na boca iluminada do Metro,  Cesário  recebe-nos eterno, num sorriso de azulejo a escorrer lágrimas de guarda-chuva, “Ah, se eu não morresse nunca e eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas”.

Despedimo-nos a confirmar percursos e seguimos para as nossas vidas. Domésticas e comedidas. Mas no fundo de mim, “Ah, se eu não morresse nunca…”. e pouco me importa a morte, que tanto mais eu queria, ininterrupta, buscar a perfeição das coisas. Buscar. Ainda que só o imperfeito. E dou-me conta que, volvidos 40 anos, talvez seja o mais necessário: que o espírito procure afadigadamente e sem tardança. Assim eu te procuro. Sempre.