quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cartas para Olívia


Olívia


Esta semana são as festas de Natal. Provavelmente também tens as tuas. Na catequese. A representar presépios. Escrevo-te sobre isto porque hoje assisti a uma. Tão linda! Que tem o dom magnífico de ser a única. Tal como o meu jantar de Natal será um e grandemente feito por mim.
Pois, fui ver o natal de um Jardim de Infância. Como eu gostei de ver aqueles miúdos, alguns tão pequeninos, um deles, literalmente de palmo e meio. E tão ou mais bonitos que eles, os pais e os avós. Na minha frente, uma avó babada, a acenar à neta sem descanso, aflita de que a garota a não visse – e não a viu porque, como bem sabes, do palco iluminado para o meio da plateia escura, nada se distingue. Porém, quando chegou o momento da neta cantar a “Estrelinha cintilante” – uma cantora perfeita - , os garotos cheios de brilhos por detrás a fazer coro, a avó levantou-se apressada e foi sentar-se - não sei como, os lugares até me pareciam todos ocupados - na primeira fila. A fazer com a neta todos os gestos. Do outro lado, a educadora, mais moderada, ia lembrando cada parte. Mas, cá de trás, era impossível desgrudar das costas entusiastas e dançarinas da avó, braços no ar a lançar deixas que perturbavam a visão de quem estava logo por detrás. Nem sei do que mais gostei  naquela canção. Temo que da avó.
Se tu visses…O Jardim está a desenvolver um projecto para conhecimento da história local. E lá veio uma canção com o rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia. A rainha, fantástica no seu orgulho de um colar de quatro voltas ao pescoço e coroa na cabeça, junto ao pretenso iate com o seu nome. E D. Carlos pintando o seu quadro, uns extensos bigodes que teimavam em cair-lhe e que ele segurava de vez em quando, já farto de tanta escorregadela, com o pincel – o elástico que corria atrás da cabeça devia estar largo.
Como tudo que é natural pode ser comovente. 
E houve quem viesse confidenciar-me depois, “a educadora é muito boa no que faz, é genético”. Caiu-me tão bem. Não devíamos precisar, mas ouvir dizer bem de nós faz-nos falta. E falta muito nas pessoas a capacidade de reconhecimento do outro.


PS: andas benzinho? Não adoeças, tem cuidado contigo que este gelo que se agarrou ao astro traz muito perigo. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Para Lá do Mar

Quando a mana mergulhou na parte sombria por detrás da tenda, deixámos de vê-la e o nosso coração minguou até ao tamanho de uma noz (o meu, seguramente). E logo ela reapareceu sorridente, um rapaz pela mão. Vestia um pólo amarelo e, à luz da fogueira, não o reconhecemos. A minha irmã sentando-se a meu lado muito composta a apontá-lo, ele estava ali atrás da tenda. O intruso de pé, a olhar-nos, Boa noite a todos, andava por aqui a passear e lembrei-me de vos visitar. A minha amiga de mau humor, ah… e para o lado, toda secura, bela hora. E a minha irmã a pôr água na fervura e desfazendo o enigma, eu conheci-lhe a blusa amarela é a mesma que tinha esta tarde na praia. Eu ainda estupefacta daquele homem ali, deviam ser mais de vinte e duas horas, vivia em Palmela (tinha-nos dito à tarde) o que é que ele podia procurar entre os pinheiros da Caldeira. No entanto, limitei-me à apresentação, é um colega que fez exame na mesma sala que eu e encontrámos hoje na praia.
Depois, ele sentou-se sem pedir licença mas as suas conversas eram recebidas com frases curtas ou monossílabos a contrastar com o calor do fogo, e breve nos deixou. Quando ele sumiu no escuro, a minha amiga para mim, olha lá, mas tu conheces o homem daonde, tens a certeza que ele fez mesmo exame, que entrou na sala e isso… é que o homem parece que é maluco. Tu já viste bem, aparecer aqui às dez da noite (e prolongava-se nas reticências) De certeza veio atrás de vocês quando saíram da praia, o parvo – inquisitiva, para a minha irmã -, tu não deste por isso? À tua irmã nem pergunto que ela nunca vê nada. E garantia severa, o homem é maluco, tão não viram que é parvo, esteve aqui só um bocadinho e já nos convidou às duas para irmos a casa dele a Palmela (parava um bocadinho para pensar e continuava) Ainda por cima disse que os pais não estavam lá, o estúpido - visando-me directamente -.  E tu, feita parva (e imitava-me), "a gente não costuma ir a essas festas" e a dizeres onde vamos. Tu queres que o homem nos apareça em todo o lado, queres? Não tás mesmo a ver que ele anda atrás de ti, o paspalhão. E olha que não é com boas intenções. Uma pessoa bem intencionada não aparece às dez da noite como se fosse um ladrão. – e voltava a apostrofar determinada, o estúpido. E regressando-lhe a memória do convite que a ofendia, para que nos quer aquele emplastro  lá em casa quando os pais lá não estão. Parvalhão. E o que é que ele estava a fazer atrás da tenda…Depois, ponderando prós e contras, olhem vocês não se esqueçam é de trancar a tenda por dentro. E se ele aparecer gritam com força que é para acordar toda a gente.
        A minha amiga tocou a rebate e “o amarelinho”, nome que generalizámos a partir da minha irmã, não voltou a aparecer. E sim, aquele rapaz não as batia todas. Sim, parece que queria alguma coisa comigo – na altura do campismo  pareceu-me exagero e malevolência da garota sobre as boas intenções de quem só estava a ser simpático e deixar-nos à vontade contando que os pais não estavam –. Ocorreu-me tal hipótese, passados meses, depois de me surgir no local de trabalho a contar-me que escrevia letras para canções. Achei imensamente parva a confidência. Andava com a universidade a tiracolo, morta de sono e cansaço, e disse-lhe que tinha pouco tempo para o ouvir  - era verdade, gastava o tempo a apanhar comboios e barcos - e não me interessava nem um pouco por letras de canções (por acaso hoje, algumas, até me interessam). Aconselhei-o a encontrar uma profissão e colocar as letras de canções num lado mais alternativo, porque, confidenciei, não me parecia que alguém pudesse viver disso.

E depois, só voltei a vê-lo de longe, fingindo sempre que não o estava vendo. O que até era fácil porque como sou míope ainda hoje não sei se o viJ) até porque,  à época, desconhecia a miopia que me habitava; logo, via mesmo muito mal ao longe ah, ah, ah….

Para Lá do Mar

Optámos por domar com alguma inteligência a anomalia crepuscular. Comprámos repelente e, conhecedores do horário dos insectos – tinham hora de jantar, eram disciplinados - , ou nos fechávamos nas tendas ou, preferencialmente, procurávamos andar por outros lados como seja, tomar banho num jacto que corria para o exterior, em cascata, proveniente de um depósito enorme,  talvez pertença do parque de campismo. A falta que nos fazia na quinta aquela água desperdiçada. E como ficaria bem a preencher o fundo minguado do nosso poço. O olhar fatalista do meu pai nas laranjeiras que desmaiavam pelas folhas, caldeira empoeirada de secura, as árvores estão a precisar de outra rega, mas ainda não há água no poço. E ali, jorrava horas a fio para coisa nenhuma. Pronto, nós tomávamos banho de cascata o que, na verdade, pelo menos a mim, não voltou a acontecer. Sempre que na TV surgem as cachoeiras do Brasil, verdejantes e de água azul, planta-se-me o cinza daquele paredão de blocos de cimento, e o jorro encorpado da água que se escapava lá de cima e tão bem nos sabia, sem necessidade de fechar ou abrir torneira. Eram uns banhos de frio revigorante  e saíamos desencardidos e frescos.

E assim nos corriam os dias. Numa das noites em que estávamos todos circundando a nossa lareira ao ar livre, como de hábito em barulho de risos e conversas, soou-me uma cautela de passos. Em seguida, soou parecido a mais gente. Calámo-nos em escuta. Nesse momento pensei que o nosso amigo nos fazia falta, muita falta. Estávamos num pinhal, algo distantes de outros campistas (queríamos o nosso espaço), sem qualquer defesa (nem corta unhas tínhamos). Mas tudo que ouvimos foi crepitação da lenha e concluímos o que desejávamos, era apenas rebate de temor e má audição. Por isso, volvemos ao estado de riso e conversa, com meio ouvido alerta. De súbito, mais nítido, o restolhar da caruma a partir. Eu a pensar alto, anda aí alguém. E o conjunto  em silêncio expectante - o alguém também expectante, não se ouvia um som -, todos receosos de investigar atrás da tenda, onde parecia morar o cerne da desconfiança, o meu irmão a chegar-se a mim. Repentinamente, a minha irmã, à época uma medrosa maior, disse fixando a escuridão, está ali uma cara maluca, em seguida levantou-se do meu lado e caminhou decidida e sem solicitar ajuda, para a traseira da tenda. Eu, transida da sua audácia absolutamente inesperada. Se por um lado desconhecia o que ela ia encontrar, por outro, estava segura de haver ali algo móvel. Mas, sobretudo, perguntava-me como é que alguém tão medroso ia assim afoitar-se no escuro, exactamente o seu maior temor.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Para Lá do Mar

Tróia do meu sonho, ninfa da minha realidade mais íntima….

No ano seguinte, decidimos não repetir a Zambujeira do Mar. Queríamos mudar de ares.
Primeiro, acampámos um fim-de-semana em Troia, a fim de lhe conhecermos pormenores. E, pura palermice, conhecemos mal. O nosso amigo ingressara como voluntário na tropa e não podia acompanhar-nos e montar as tendas. E eu levei o Pedro para o efeito. O meu primo encontrava-se em Portugal e presumo que nos tenha vindo visitar nos feriados e tratar de alguns documentos, quem sabe se mesmo os do serviço militar (nessa altura o Pedro já não nos acompanhava; a minha tia tinha, finalmente, a sua casa, e uma Blanca madrilena retinha-o lestamente). Sei que aproveitámos também uma ponte entre feriados, talvez no 10 de Junho. Éramos quatro, eu, a minha amiga, uma amiga dela e o Pedro. E acampámos logo ali na linha dos barcos, junto ao rio e perto do cais, onde o barulho e o gasóleo andam de mão dada. O local não foi o melhor, mas verificámos a existência de supermercado, farmácia, cafés. Concluímos ser bom lugar para campistas. E Troia campeava nas preferências. Nesse tempo, vivíamos ambas em Setúbal, ela hospedada numa moradia central, com vista para o Sado e eu no Bairro do Peixe Frito, em casa de um amigo do meu pai cuja família, ela mesma, seria digna de descrição. Por vezes, íamos à praia juntas, mas nesse ano e no seguinte a minha amiga bateu-me aos pontos no seu novo hábito de banhos ao entardecer. Na maioria do tempo, limitava-me a olhar Troia de longe, às vezes junto ao cais dos barcos, hábito em que persevero se tenho (ou crio) tempo livre em Setúbal.
Entretanto, ela descobrira um lugar onde podíamos acampar (havia um pinhal que servia de abrigo às tendas), com banho e água potável perto. Era tudo grátis e parecia-nos o melhor dos mundos. Ficava em Troia, numa enseada do rio, reentrância bojuda conhecida como “a caldeira” onde a água era mais quente que em qualquer lugar. Um paraíso. O nosso amigo continuava na tropa, mas de imediato nos garantiu os fins-de-semana e logo lhe aproveitámos os braços. Foram as nossas primeiras férias sem homens a tempo inteiro (ainda não conhecíamos o Jorge). Chegámos matinais, armámos as tendas debaixo dos pinheiros, fomos às compras e tudo foram maravilhas até ao entardecer.  
Porém, ao cair da tarde, uma nuvem de mosquitos, saída não se sabe de onde, estragou-nos o éden. É que não havia lugar do corpo onde não chegassem. A minha amiga e seu pendura, arrasados, resolveram ir para a água, onde a bicheza não ousaria. Mas a nuvem escurecia rente à água e foram obrigados a sair. O inveterado optimismo do nosso tropa, com a cabeça debaixo de água até se está bem - e instruindo o pessoal -;  vens à tona, respiras rápido e mergulhas de novo; afogas logo uma data deles. Ela indiferente a conselhos com piada incluída, uma coceira no corpo todo, a choramingar, ai a minha mãezinha que não sabe o que a filha está aqui a sofrer. Ou então, minha rica casinha sem um mosquito e eu aqui toda picada para onde quer que me vire. Não aguento quinze dias, vou-me embora antes, se calhar amanhã.
A sua imagem de mulher forte e segura, vergada por compacta nuvem de mosquitos, tinha alguma graça. Jamais a ouvira chamar pela mãe ou pela casa paterna e ainda hoje creio ter restringido tais lamentos a esse impasse de frenesim mosquiteiro em que a pele nos gritava por dedos que não tínhamos, inchando solene a cada picada. A léguas da deserção, nós quatro, também aflitos com a mosquitagem mas habituados ao bera da vida, só ríamos dos solilóquios deles.
Quando o agastamento estava no zénite – todos picados -, os mosquitos desapareceram.

Após o jantar, fizemos, enfim, a famosa fogueira que nos crepitava há anos no imaginário. Ela contente e já a esquecer propósitos de regresso, aquilo dos mosquitos é só uma hora, depois passa, digam lá se não é bom estarmos aqui à fogueira, a deitar achas no lume como nos filmes. - e mexia no fogo com um pauzito satisfeitíssima, a chegar-lhe mais uma pinha a que nós chamávamos cascabulho, afirmando num leve acento de prevaricação - é pá, gosto mesmo de fazer isto. E o nosso tropa ria bonacheirão, esta noite fazes chichi na cama. Ai deixa, vê lá se te viras para o outro lado que não quero acordar todo ensopadinho.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cartas a Olívia

Olívia

Escrevo-te por me apetecer. Sempre e apenas porque sim. É certo, vou aproveitar para me inteirar sobre o que pensas dos homens. Não casaste. Houve um rapaz que te gostou e de quem, talvez, tenhas ameaçado gostar. Porém, as saias da mãe muito compridas; as tuas irmãs com mãos demasiadas, todas estendidas para ti; a casa de teus pais a necessitar-te a carteira. Imagino que tenha sido assim. Mas, quem sabe, foi diferente. Quem sabe, não arriscaste provar braços masculinos, um beijo, um ardor compartilhado. Fizeste mal. Não to digo na cara, face a face, seria muito mau porque já não emendas nada, és já outra depois de tanto ano. Nem eu torço por torturas gratuitas, remorso, dor a mais.
Acredito que, mais tarde ou mais cedo, te chegaram os  anseios de toda a gente. Sim, porque eras normal (ainda deves ser, apesar de abolido o assunto) e a qualquer mulher chegam os anseios da paixão. Os do amor não sei. Amor é sentimento que exige presença e só cresce com ela. Não precisa ser física, mas tem que existir. Ou será mera fantasia, cuja serve também na mesa da paixão. Em amor, se venha só, a fantasia esboroa, não se aguenta de pé.
Imagino-te a vida sintética: tratas da tua roupa e da casa sempre limpa, pouco cozinhas porque não gostas e nem sabes, as manas poupavam-te sempre, temes o silêncio nocturno do lar e foges a dormir num quarto que não é teu (não entendo esta parte, palavra). Sempre só. Sorris por fora das graças dos outros, a ouvir-lhes contar a lufa-lufa dos dias.
E tanto que não sabes. Desconheces o calor de uma companhia mais íntima, não imaginas a que cheira a pele lavada de um homem jovem, os teus dedos não se cruzaram com a elasticidade firme dos braços, não os descalçaste qual gueixa a palpar-lhe a incomensurabilidade dos passos no músculos da perna, não tiveste o ensejo de ser grata à vida por um corpo junto ao teu, a mimá-lo. E isto, Olívia, sempre lamentarei em ti. Sempre. Não. Não é não teres casado. Não é estares sozinha. Estamos todos sozinhos, Olívia. Num momento ou noutro. Ou até talvez sempre.
Não vês? Faltam-te memórias felizes. Memórias de corpo e alma. Que te pertençam por inteiro e guardes como tesouro que ninguém pode retirar de ti. Foi sempre essa a razão que me fazia desculpar, imaginando que te compreendia.
Mas isto sou eu a pensar-te. Quem sabe, és feliz na igreja (com a comunidade,  como dizes), e no trabalho que desenvolves em prol de reuniões que só são absurdas para mim.
Mas, realmente, penso agora, que sabes tu dos homens para além do corriqueiro das mulheres, que é dizerem-te mal deles e me desinteressa...Sobre o género masculino não és senão de escutar. E não me apetecem momentos confessionais. Dou-tos e a teus padres.
E no entanto, passaram-me na vida alguns excepcionais. Não porque fossem santos, ou mesmo bons. Somente porque o amor é sempre uma excepção. Se queiras, para ti que vives imersa em água benta, um acto sagrado.
Porta-te bem e não mastigues a hóstia que é sacrilégio J
PS: desculpa, mas um bocadinho de humor ficava-te bem. Falta-te à piedade:))

Beijinho

Para Lá do Mar

 Como é linear o pensamento aos vinte anos! Apesar dos benditos vizinhos afirmarem ter-nos ouvido cantar, desligámos do assunto. Não baixámos o tom de voz, nem alterámos um ínfimo no comportamento. Para nós, a tenda era casa, lar que nos isolava. Vivíamos imersos na nossa visão irreal da realidade, mofando de verdades taxativas e desligados da vida quotidiana, linha tão longínqua que parecia não nos pertencer. Detentores de um tempo novo, sentíamo-nos bandeirantes da vida e inaugurávamos um sagrado só nosso. Por isso, continuámos rindo e cantando ao serão – o candeeiro era só um, por norma na outra tenda.
Certa noite, resolvemos parar a cantoria e a risota e fomos todos fazer chichi. Saímos cuidadosos, a dar voz ao ditado popular, “onde mija um português…”, os pés a palpar terreno que no escuro tudo são buracos, armadilhas, vidros que lá não estão de dia, pontiagudos de farpas em pedaços de madeira que a noite, numa maldade inomeada, arrasta para a boca das tendas. O céu era de estrelas e escuridão sem luar, e ainda assim eu coibida, vamos ali para trás da tenda que tenho vergonha, pode vir alguém (como se à frente da tenda uma rua iluminada cheia de transeuntes). E lá seguimos a tropeçar nas espias laterais, a minha amiga a abreviar, fazemos já aqui. Eu, mão a orientar a mana mais nova, não, temos que ir ali para trás que é mais seguro.
Depois, atrás da tenda, foi aquela torneira aberta. Já aliviada e de pé, a compor-me, vejo cinco ou seis pirilampos a distância escassa. Basbaque de estátua na maravilha, tão engraçado, meia dúzia de pirilampos aqui na areia da praia. Ela, um tudo-nada perplexa, pois é…. A minha irmã, onde? Onde? E eu a apontá-los e a reparar melhor, desvanecida com a natureza das coisas, a cutucar a amiga, já viste que estão todos alinhados à mesma distância uns dos outros e quase em linha recta. E ela como quem desvenda o segredo de um axioma, aquilo, não são pirilampos. Eu intrigada, não são?! Então são o quê? Ela, não sei bem, mas não são pirilampos, e virando-se para o meu irmão, vai lá espreitar mais perto.
O mano deu uns passinhos curtos e virou-se em surdina risonha, são os alemães, estão deitados ao lado uns dos outros nos sacos cama a fumar, ia-me deixando cair em cima de um. E nós o uníssono aspirado de um AAaaaaah!, a imaginar-lhes o sorriso que não ouvimos. Os alemães são assim, todos polimento (aqueles eram). Invertemos a marcha ainda cheia de bocas escancaradas em ás de aspiração contida e, mal entrámos na tenda, demos corda ao riso. Tanto prurido e afinal, quase lhes encharcáramos os saco cama.
Também, quem é que os mandou dormir na rua e atrás da nossa tenda?! A liberdade também é isto.
Ora, certa manhã em que estávamos toalhando a curtir o sol depois de mais um banho – havia nos nossos rituais um continuum de banhos -, olho em frente e vejo o meu namoradinho, tenda ao ombro, cigarro à Belmondo, camisa aberta,  descendo para a praia com suas grandes pernas molaflex, na companhia de um ou dois amigos. Não gostei da ideia e, embora ele tivesse feito uma meia promessa, talvez eu apareça por lá, era-me inesperado. Mas vê-lo fazia-me bem a tudo. É assim quando se gosta, a outra pessoa infiltra-se cá dentro e, se a vemos, espalha-se em nós uma paz onde apetece permanecer ad eternum, o nosso querer, não vás embora, fica. E somos conscientes que, nela, respiramos um ar liberto, desejado.

No entanto, seria ali o nosso princípio de fim. O meu adolescente, “Inglês” para os amigos, era-o em tudo. Porém, fora do capítulo amoroso, a sua adolescência era-me difícil. Essas férias iriam reforçá-la. Contudo, tenho absoluta certeza de que nos gostávamos um imenso. E nem precisava a mãe, em vésperas do seu casamento, a foto do meu filho mais velho na mão, olhando-me séria, sabe que foi o grande amor do Luís Alberto. Por ele e pela música que preferia de paixão e não é a minha, sinto funda ternura grata. E tanto de bom que me trouxe, obliteradas as divergências incontornáveis e desejando que no seu coração tenha ocorrido fenómeno idêntico. Anos e anos em que não o lembrei. E depois, uma semana inteira a memória a trazer-mo, estupidamente, um dia atrás do outro. Presentificando, como em filme, os momentos bons. E depois, com igual presteza, esvaneceu.

Passou o tempo e soube que morreu. Inútil perguntar quando. Há  incompreensíveis na memória. Do coração. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Para Lá do Mar

Era uma vez, na  Zambujeira do Mar…
O pós 25 de Abril era-nos um mundo sem crispação, tolerante. Talvez por isso, no início acampávamos na praia, bem ao fundo, para não impedir os banhistas. Logo ali. Saíamos da tenda e podíamos dar uns passos e mergulhar. Na Zambujeira do Mar, as nossas tendas ao fim da praia num tête-à-tête perpétuo e na encosta de rocha um chuveiro disponível a ajustar clientes em seu sinuoso de aço, vinde a mim.
Mas também ali o princípio levou marca. As tendas ainda ensanduichadas nos sacos, resolvemos lanchar na praia, a descansar de tanto carrego. Estávamos nós a mastigar, olhando sem objectivo para um grupo de homens e rapazes que jogavam futebol, quando a bola se escapou para a água e um deles, calça arregaçada, a foi buscar; deu-lhe um  xuto pequeno e ela aportou de novo ao grupo. O homem ficou-me de frente, costas dadas ao mar. E começou a regressar enquanto os outros continuavam o jogo interrompido. De súbito, os joelhos dele dobraram como se a vida os tenha abandonado repentina e logo caiu de lado, na areia. Os meus amigos, primo e irmãos, imersos na futebolada, e ele caído, a atravessar-me a retina. Pensei, morreu. Pus-me a repuxar a roupa de quem me estava mais próximo e disse alto: aquele senhor sentiu-se mal. Depois os do jogo viram-no também. Chamaram-no. Primeiro um tom jocoso, depois um alerta de preocupação na voz e a seguir uma aflição que já não cabia no nome, que enchia a praia e lhe sugava o ar. Num ápice, o acaso debruçado de um médico entre os banhistas a sentenciar, está morto. Impressionámos.
Mas a Zambujeira do Mar foi também o lugar onde desistimos de acampar no areal. Foi ali que repeti uma noite de angústia ao rubro quando uma maré viva entrou pela madrugada e nos ficou a meio metro das tendas. Aflita, senti a invasão da água metro a metro, a cruzar e descruzar a palidez de dedos sem figura, num tormento de alma. Rezei bastante a pedir ajuda que travasse a maré. E acredito que se a minha mãe em algum eterno lugar – e se haja, estou segura que sim -, terá intercedido. Ou, tivemos imensa sorte. Antevia, porque as sentia a roçar-nos, que uma onda nos levantava as espias e nós à deriva, sem distinguir lado de terra ou mar. E acudiam-me as rochas tão no seu lugar, densidade inofensiva onde o meu irmão brincava solar. E imaginava-nos a embater-lhes na escuridão. Duras. A esfrangalhar-nos as carnes. Pensava que ninguém nadava além do Pedro e do nosso amigo. Se fôssemos atirados ao breu da noite, éramos todos míopes sem óculos. E pesou-me ter tanta gente à minha conta, sabendo em cada articulação do meu corpo, que nós todos contra a força invisível do mar éramos nada.

Na praia da Zambujeira vivemos a primeira experiência séria de campismo. E ali cimentámos amizades que inda perduram. Eu convidara uma amiga para se juntar a nós e ela apareceu por lá, dado que se atrasou a vir da Guarda – não admira, aquilo é mesmo longe - e quando apareceu em minha casa já eu tinha saído com os meus irmãos há um dia e tal. Tínhamo-nos conhecido em Évora, cidade de portas muitas. Pois eu e essa minha amiga sabíamos várias canções em francês e inglês e quando cantávamos ia de enfiada o que nos viesse à lembrança. Perto das nossas estavam uns estrangeiros em tendas baixinhas - todos homens – que julgávamos suecos. Os nossos rapazes a erguerem o seu muro de lamentações, ainda se fossem suecas, agora cinco ou seis suecos...ou a rirem um com o outro por terem ido ver um filme pornográfico que nem sei como passou na Zambujeira do Mar e meias frases entredentes, viste… e riam reticentes. Nós a insistir, contem lá, pá… bolas contem à gente. E eles um para o outro, contamos? – risos – Ná. É melhor não. E nós, contem só os bocadinhos engraçados, vocês riem tanto…Eles rindo, não podemos. O Pedro com seu sotaque espanhol, si, si, no podemos mismo. E estavam nisto, a dar cotoveladas um no outro feitos tontos. Até hoje sabemos que havia um cigarro em qualquer lado estranho e a que os garotos achavam imensa piada. Quem dormia com eles na tenda sabe que passaram uma noite na risota.