quinta-feira, 18 de julho de 2013

As Raparigas

Tanto que a velhice se esforça para viver. Tanto. Quem sabe se não paga a pena. Dei por mim nesta cegarrega do pensamento depois de ter vindo da rua, que eu não sou nada destas coisas. Cheguei das compras e o saco pesava-me a vida. O Afonsinho! O Afonsinho da dona Aldegundes! Um garoto miúdo, morenito, que eu e a Belmira víamos na loja, se encostava quase a nós e enchíamos de beijos de azougue. Que nos mirava calado, corpo de acólito em missa, a transbordar atenção.
A idade já me deslembra. A idade e o resto. O meu genro matreiro, está com a ti osguinha, não é? Vamos lá para a cama. E, em calhando, ontem, a ti osguinha visitou-me. Não. Eu é que a visito. Eu é que não sou capaz de passar sem ela.  
Quando, de exames na mão, a filha me renovou no médico, eu a lembrar os olhos dos doutores que mexiam nas máquinas; não sei o que tanto diziam a bichanar uns com os outros, mas davam-se ares de quem espreitava por aquelas traquitanas e me descobria a vida toda. Eu, olhos no chão, a contar quadradinhos pretos e brancos que me faziam doer a vista e o doutor da consulta a olhar os exames num quadrado com luz que os fazia clarinhos e o meu lado de dentro à mostra para quem quisesse, sem um trapinho a escondê-lo que nem a pele se enxerga. E ainda estou para saber como não escorregavam parede abaixo, que até parecia bruxedo segurarem-se sozinhitos. E quando já ia para aí no quadradinho trezentos preto, os brancos todos contados, fora os que estão debaixo dos móveis está bem de ver, que os das cadeiras não se safaram, ele para a filha, alheio de mim, a pensar que era surda ou estrangeira, ou sei lá, ela mata-se se continua assim. Tem que deixar de beber, o fígado aumentou-lhe para o dobro. E ando a matar-me. Não é que me queira matar, o que eu mato são os dias e as noites, que não os aguento a seco. A minha mãe já os matava. Um a um. E agora eu. Primeiro, a filha esvaziava-me as garrafas, mas com o tempo – o tempo que ensina muito e muito pesa -  desistiu. E vou adormecendo as horas e os minutos todos, até que se me acabem dentro do quarto. E fora o fígado que cresce e me dá que fazer e as garrafas que me estão na lembrança como um ar que se respire, sou normal. Como a minha mãe que Deus haja. Iguaizinhas, nós. Levanto-me morta de sede que não é de água. Depois de matá-la sou normal, faço a minha vidinha, ajudo em casa, vou à praça no cedinho,  todos ainda no sono.
 Hoje, entrei no mercado e tudo no lugar, ninguém diria que o passado me apanhasse assim à sorrelfa, pela fresca. Na entrada, empurrei as portas de vaivém, que nem sei porque lá estão, e um cheiro de fruta misturado com verduras deu-me logo volta ao estômago. As mesmas vendedoras com os mesmos jogos de sorte para venderem o de ontem e outros dias, como se de hoje. Dei um giro de reconhecimento e elas ainda na fase do um, dois, três experiência. Estremunhadas de pele, penas de almofada a ensarilhar pestanas, sorrisos mortos de sono em lábios de desábito a repuxar nos cantos. Esticavam um bocadinho o pescoço e  o pregão parecia um chiar de roldana com falta de óleo, dona Cidália olhe as verduras fresquinhas. E uma mão a passear fracamente pelo que julgo ser a cabeça das hortaliças mas não garanto, a experimentar gestos, deixa cá ver se este ainda funciona, ganhando confiança à medida do acerto, afinal está cá o jeito todo, não perdi nada de noite.  Numa ponta da banca, termos a fumegar café com leite e, na outra mão, bocados de pão embrulhados em guardanapos de papel; desligada da parceira que passeia sobre o verde, esta mão conduz-se sozinha e, sintonizada com a oferta, é servida, aponta-me, desconvencida, a pistola do pão dentado. Um dia aceito e quero ver com que cara ficam. 
 Decidi-me pela banca da Henriqueta. Por nada. Ou talvez porque ela, de boca cheia, dispensava fios de conversa. Enquanto apreçava um molho de espinafres a olhar-lhes a verdura, que isto de verdes engana tudo e às vezes são de há três quinze dias, com muita água benta. Dizia eu, que enquanto assim, se me abeirou um interesse antigo, a pedir recuos no tempo, a minha memória aos saltos para trás que nem um canguru, pim, pam, pum…. e antes que chegasse a algum lugar, é a menina Cidália, não é? E eu nessa altura não era ninguém por não ter um tempo a que pertencer, mas é claro que ele não sabia,  fiquei de boca aberta – calculo que de boca aberta – a dar rédea à memória, despacha-te, despacha-te. E podem ter sido os caracóis ainda loiros, ou o jeito dos olhos, ou mais a linha do queixo, Afonsinho!... e de repente eu não no mercado, na loja, saia aos canudos e cinto elástico, só porque foi isso que ele abraçou. E depois do abraço, não o Afonsinho mas um Afonso cheiroso, homem feito, barbado. E eu velha, a dar-lhe pelos sovacos. O meu saco no braço e ele um soslaio pesaroso, já não usa a balalaica… E quase me senti culpada de, estragou-se; passou de moda. E os olhos do Afonsinho regressados, em saudade de criança retomada, tão bonitas que vocês eram. Tão bonitas. Virou-me para a luz da rua e as portas de vaivém cumpriram,  nunca vi olhos como os seus, nem encontrei linha de pestanas mais perfeita. – e num carinho de admiração - Que bonitas são ainda. E não sei explicar, mas vieram-me as lágrimas e tudo. A mim. Que me aguento à bronca da bebida, que não chorei quando os netos nasceram, que no enxuto corri tanto mundo aos ziguezagues.
Ai Afonsinho, filho, como a vida era! Que a não saibas. Não sejas como os médicos que me leram os interiores. Que não desconfies como ganhei a saia dos canudos, não descubras nunca o desaperto do cinto elástico. Que tão cedo se é às vezes mulher, a repartir homem com quem não seria nunca de fazê-lo. 
Querias saber da Belmira. Mas a Belmira, meu anjo, conversamos depois, que tenho ainda de a ajeitar na memória. 
E a minha filha coitada, tão boa para mim, a estranhar-me o mutismo no sofá da sala, a televisão uma negrura de boca fechada, a mãe está bem? E eu com a Belmira na ideia, imagina tu bem como as coisas são, vi o Afonso da D. Aldegundes.
Pode que fosse do escuro da sala, mas tudo me pareceu que ela embatucou.  Nem um ai lhe ouvi. O tic-tac do relógio a matraquear segundos uns atrás dos outros que me davam fernicoques e a minha Lucinda parada que nem estátua de santo. E eu, ó filha diz alguma coisa, mas ela saiu sem palavra e fechou-se na cozinha.

(continua)

domingo, 14 de julho de 2013

As Raparigas

As crianças têm do mundo uma percepção que é só delas. Vêm os estudiosos e nomeiam-na:  sincretismo, realismo ingénuo, egocentrismo e outros ismos insignificantes. Juntos, não nos dão a forma como vêem a realidade. Nos olhos da infância, o supesar automático de todas as coisas mede-lhes a pulsação. Vêem sem esforço e, se as imagens desimportam, logo esvanecem. Des-existem. Velhice e juventude distinguem-nas por um todo de pormenores alinhados em prateleira breve que só elas observam,  desinteressadas das marcas tradicionais de cada idade, que não sabem avaliar. Buscam outros sinais. 
Era assim que ele sabia as duas raparigas que às sextas encontrava na mercearia. Atraía-o a ligeireza grácil dos seus movimentos e olhava-as a  imaginar-lhes os ossos leves e dançarinos ligados por elástico resistente como o da fisga que o tio lhe tinha feito. Eram novas no modo como viravam a cabeça para o chamado da taberna e dos homens; eram novas no jeito inconsciente de mãos a compor o decote e alargar os laços erguidos que o rematavam; mas, sobretudo, eram novas pelo brilho do olhar e a vida que lhes cabia nos sorrisos. Usavam uma delicadeza de dedos a rodar o cinto elástico na cintura, em contraste violento com o cansaço que alastrava das outras mulheres; e viravam-se num bailado de saia que vergastava o mundo átono das casadas, a morrer num cochicho de meia inveja, elas voltavam-se e as saias rodavam todas em canudinhos. Ele gostava delas e dos ademanes que traziam até à loja, o seu meio metro de altura perpendicular à inquietude das mãos que inauguravam gestos na asas da balalaica. Pacientes, aguardavam vez num aparte de sol e caracóis escuros. Tão bonitas as duas! Contudo, sem um perfume a antecipá-las, que o cheiro de sabão e lavagem era o que os tempos permitiam. Às vezes, em distracção, erguiam a balalaica vazia e punham-na debaixo do braço, as fitas do decote a prender no entrançado da palha. E ele, que lhes seguia gesto e passo, desejava estar dentro do cesto, escutar-lhes as conversas de risinhos curtos, sentir o cheiro do sabão a desprender da pele… quem sabe, ouvir-lhes o coração. Tão bonitas as duas! Mas uma delas, mais. Uma elegância animal e inconsciente a despedir, que ia dos olhos esverdeados ao vôo negro dos caracóis, privilégio da natureza a sobrevoar a condição. E, quando em casa, é mais bonita que a outra, não é mãe? A mãe num sorriso triste, é sim filho. Mesmo muito mais bonita. Tão bonita que uma vez um descapotável parou quando ela vinha estrada abaixo para o avio da semana. Saiu um senhor todo bem posto que pediu para falar com a mãe. Foram os dois lá a casa da senhora Maria Afonso e o senhor pediu-lhe se o deixava levá-la para o cinema. Queria filmá-la. Dizia que levava a velha e tudo. E ele entusiasmado, e ela foi? A mãe deixou? E o fatal da resposta, uma má vontade a empurrar o pacote de açúcar até à prateleira do fundo, não. E num desabafo minado de desânimo, não sei porquê. Até hoje, ser bonita só lhe valeu o pior. E ele, o pior é quê, mãe? Mas a mãe, tu não percebes, quando fores mais crescido a mãe explica-te. Mãe, ela não tem marido? E a voz da mãe veio vindo como se estivesse dando a mão à rapariga, tem sim filho; e tem uma filha pequena, quase do teu tamanho. E o pai que entrara entretanto, Nunca vi mulher mais bonita, mais trabalhadora nem mais maluca com os homens. E ele a imaginar que ela ficasse tonta como quando brincava de andar à roda até cair e ficava maluco de não se ter em pé, o que é maluca com os homens? O pai bem disposto, Olha o piolho…
Observou os gestos comedidos da mãe, o seu mundo expurgado de gargalhadas e risos, a pausa da voz a adormecê-lo…a mãe teria sido assim rapariga? Todas as mulheres que encontrava impunham-se-lhe com seus olhos de criança castigada; onde teriam deposto o vívido dos gestos, os olhos brilhantes, as mãos nervosas, o corpo de espiga a ondular...? E se os tivessem perdido?! Não entendia tamanha mudança. Mas sabia sem entender que aquela rapariga bonita era uma solteira por dentro. Que tudo nela era solteiro e juvenil. Tudo, menos a voz que, ao invés da pureza dos gestos, emergia meio rouca, num tom baixo e secreto, calma de lago quase inaudível.
Oh! Como desejava crescer e entender o tanto que todos deixavam por explicar.  Temia mesmo que a vida lhe fosse insuficiente.
(continua)

domingo, 7 de julho de 2013

O Luís

Dizemos e pensamos que a vida nos prende a ela por muito fio. Mas a verdade é que fomos feitos para viver. E gostá-la é uma inevitabilidade natural. Salvo excepções doentias ou mesmo insanas, compete-nos gostar de viver. E, quem sabe, a razão de nos ligarmos a umas pessoas e não a outras provém também da natureza, dado que se aceita existir uma química  a puxar-nos, em jeito de íman. Contudo, a relação que se constrói no tempo parece não encaixar nesses inevitáveis.
Conheci o Luís certa manhã de um Janeiro qualquer em que me calhou uma substituição no Sétimo A. Nesse tempo, não havia planos de aula; os professores substituíam-se uns aos outros e pronto. Eu tinha uma ideia vaga do currículo de sétimo. Entrei na sala e cerca de trinta alunos olhavam-me na expectativa de lhes permitir fazer o quisessem, olhos meio receosos, “deixa ver o que ela faz”. Então, lembrei-me que em Fevereiro havia o S. Valentim e comecei por contar a história do santo e do dia. Em seguida, expliquei – era o primeiro ano deles na nossa escola que antes não tinha terceiro ciclo – o que fazíamos na escola para o comemorar. Falei-lhes da importância de saber escrever e, sobretudo, de sabermos dizer às pessoas de quem gostamos, que gostamos delas. Por escrito. Como uma marca de vida de que nós e elas podemos precisar um dia; espécie de bóia salvadora. Conversámos um bocado sobre isso e todos reconheceram esquecimentos comuns: gostavam das mães mas esqueciam-se de lho dizer, tinham amigos preferidos sem nunca lhes terem dito que os preferiam, etc. Vimos também que é normal não andar a dizer que se gosta e que o gosto se nota em muito mais que nas palavras; todas as mães sabiam que eles as gostavam. Quando contei que no Dia de S. Valentim entregávamos as cartas que aparecessem na caixa do correio, exultaram. E logo se dispuseram à escrita. Certo foi que inauguraram uma liberdade que os mais velhos, a cabeça cheia de romance, raramente usavam. Escreveram à professora da primária, à catequista, a uma prima de outra escola, à madrinha, a um vizinho,… sei lá. Enquanto passeava entre as filas, notei-lhes o empenho entusiasmado. E, desde que entrei na sala, o Luís destacou-se. Atento, as minhas palavras a ganharem lugar dentro dele, o rosto a crepitar interesses até entender tudo. E então, vou escrever uma carta. E já sei para quem escrevo. Pediu uma folha de papel e apressou-se. Quando tocou, levei as cartas com a promessa de expor as mais bonitas na escola e de lhes dar uma cópia se fosse o caso. Mas os professores funcionam aos toques. E rapidamente mudam de uma coisa a outra. Nesse dia, não li as cartas; não soube sequer dos destinatários. 
Entretanto, o Luís passava por mim no corredor, “já viu a minha carta?” e eu, “ainda não”. E a cena repetiu-se dias e dias e dias. Passaram semanas. E as cartas continuaram no armário. Até que, a data de S. Valentim a aproximar, resolvi ver o resultado da minha aula improvisada. Havia cartas muito bonitas, mas a dele ainda hoje me deixa uma ternura nas mãos – fiz uma cópia para mim. Começa, “Meu querido ratinho”. E segue curta e comovente. No final,  a assinatura, “o teu padrinho”. Quando me abordou de novo e respondi, sim, parou e fez um sorriso de orelha a orelha, gostou? E eu que sim. E ele, é que a minha irmã foi sua aluna e já tem uma bebé. E com uma ponta de orgulho na voz, sou o padrinho. A carta é para ela. Então, combinámos que eu fotocopiava a carta e, no dia de S. Valentim, a daria à irmã. Expliquei-lhe que, quem sabe, a afilhada gostasse de a ter quando já soubesse ler. Talvez a fosse olhar quando se lembrasse dele. No dia seguinte, dei-lhe a fotocópia e fechei o assunto.
Já a Primavera ia em meio, o Luís veio ter comigo, professora, espere um bocadinho que quero-lhe dizer uma coisa. Treze anos altos e inocentes. Treze anos tão bonitos como não pode haver mais. E na pureza que o caracterizava, Olhe, é só para lhe dizer que a minha irmã gostou tanto que mandou fazer um quadro com a carta e pendurou-o no quarto da menina - e depois de um sorriso mútuo e silencioso - Ela até chorou. E separámo-nos porque um toque nos mandava em direcções opostas. 
A carta do Luís, que nesse ano foi exposta no átrio da escola, serviu-nos depois para ler ao terceiro ciclo; exemplificava o amor que não se dedica apenas a namoradas e afins. Quando chegava a vez da turma dele, os colegas batiam-lhe palmas e subia-lhe ao rosto uma timidez vermelha. O Luís, ao contrário da irmã, não era um bom aluno e frequentou um curso profissional. Vivia não muito longe de mim e, por vezes, enquanto a afilhada coube no carrinho de bebé, enveredava pela minha rua de propósito. A mostrar-ma. E ficávamos os dois a desfiar  pormenores até a garota se insurgir porque o  passeio parado.
Na escola, sempre nos juntámos uns bocadinhos de nada para um bom dia ou boa tarde. E muita vez o seu sorriso limpo me vestiu e deu lugar. O Luís era puro de coração e mente.
No último ano via-o amiúde, tinha-se empregado no talho do super. Atrás do balcão, o mesmo sorriso a fazer-me esquecer nuvens e contratempos. Era feliz, creio. Com a sabedoria dos puros de coração. Às vezes, abeirava-me  só por ele. Fazia-me bem olhá-lo, era um rio a correr mansamente, descansava-me o pensamento.
Na semana passada, foi ver a moto 4 de um amigo. Na garagem. E a morte pegou-o ali mesmo. Num repente de  experimentar. Foi uma semana atabalhoada para mim. Muito cheia de tudo. Mas talvez Deus haja, que ainda deu para me despedir. É só um corpo. Sei que é só um corpo. Mas era nele que eu encontrava o Luís. E era com ele que o sorriso existia. Um sorriso tão bonito como não há.
E, contudo, o que ficou a doer mais foi o pedido rouco de uma mulher loura, abraçada numa caixa de madeira, as mãos a desenharem afagos sobre o verniz, “só mais um bocadinho, por favor dêem-me só mais um bocadinho com ele”. E a este pedido desligado da torrina de sol e que engoliu tudo, que foi baixo mas soou como um grito, a multidão fez-se sôfrega, contraiu em proximidade, enquanto eu, ao invés, recuava involuntária, saía. Desnorteada do tanto que se sofre sem que a morte nos tome consigo. Nos queira.
A ausência dos puros de coração é um buraco grande demais.




terça-feira, 18 de junho de 2013

"Words"

Há uma série de filmes que abordam o mundo da escrita. Neles, fantasia-se demais acerca do que acontece com os escritores. Convenço-me que a imaginação trabalha sobre alguma coisa da realidade que marcou quem escreve. Sem dúvida. Lembro-me de Gabriel Garcia Marquez a referir numa entrevista que, durante anos, a memória vincou  em si a imagem de uma mulher vestida de negro com um garoto pela mão, que tinha visto numa tarde abrasadora e deserta a descer do autocarro em qualquer cidade ou vila que não recordo (ele recordava-se). Disse então o autor que sabia que iriam entrar num romance. E entraram. Tal qual a memória lhos preservou. Li esse romance quando desconhecia  estes factos – a impressão dos dois é apenas um pormenor alheio à trama -, e também em mim ficou gravada essa imagem inicial que se me presentificou ao ler a entrevista. Suponho que a criação exista sem a fluorescência que se lhe empresta, de noites e dias que não são porque as golfadas criativas impedem o escritor de lhes saber a sequência. A crer nas fitas, se lhes perguntamos na fúria da escrita, é dia ou noite? Não ouvem; se insistimos, são capazes de nos arremessar um chorrilho asneirento que nos magoa a audição, nos atinge o âmago e só não nos mata por um triz. É melhor não experimentar, que descem bastante na nossa consideração. Escusadamente. Mas o certo, certo, é que desconhecem às quantas andam. A criatividade é um demónio que age em completa posse. Não concordo nem discordo. Mas lembro Fernando Namora, sentado à sua secretária, num escritório que se via ser de trabalho, a afirmar que trabalhava com horário, que por vezes se obrigava a escrever, que a escrita por lampejos e inspiração não faz um livro. Acredito. Tanta folha de inspiração jactante matava uma pessoa. E os escritores só podem morrer velhinhos. Que nos fazem muita falta.
Words é um filme de 2012 que conta e conta e conta sobre escrever. E as histórias – três -  surgem umas dentro das outras. O filme inicia com um escritor a fazer o que em Portugal não é hábito: a ler capítulos do seu novo livro para uma plateia selecta, atenta. E o que conta vai sendo visto pelo espectador (nós). Basicamente, o próprio livro tem por tema a vida de um escritor jovem e mais ou menos falhado enquanto escritor que enquanto ser humano, bem ao jeito americano, é lindo, saudável, tem uma mulher espectacular e a vida do casal é, como diz o povo, um céu aberto. O cerne parece ser que enquanto escreve o seu livro que ninguém quer depois editar, descobre numa pasta de antiquário francês, que a mulher lhe oferecera aquando da lua de mel em Paris, um romance que é o protótipo do que ele mesmo gostaria de ter escrito. Mas, sabe-o bem, não tem talento. E copia-o. E compram-lho. Editam e é um rotundo êxito. Só que o verdadeiro escrevente, então já muito velho, reconhece-se nele (é autobiográfico), investiga e encontra “por acaso” o plagiador. Jeremy Irons é fascinante no papel de velho que já não espera nada. E conta também ele a sua história, ou seja, a história do romance-êxito publicado. E tudo nele é o inverso do rapaz. Nada lhe deu certo. Mas, talvez porque o tempo nos modifica, talvez porque não exista com quem compartilhar, não deseja dinheiro, fama ou outros bens. Não quer nada, não pretende alterações. Diz para que o outro saiba, para que compreenda que veio a público a sua vida. Porque, garante, deu mais importância às palavras que ao amor (quem queira, terá de verificar se é verdadeiro e ver o filme:). Os juízos morais deixo também para quem leia/veja).
E a fita termina com a réplica do primeiro escritor à audiência para que leiam o resto do livro, se querem saber mais. E com um tête-a-tête entre ele e uma garota insinuante que desde o início parece fascinada e o convenceu a levá-la ao lugar onde escreve – que é todo minimalista. Quer ela que ele lhe desvende o final. O que ele faz. Depois, garante-lhe que a realidade difere grandemente da ficção, cujo mundo ela tem de abandonar - aviso dele. Beijam-se. E depois nada. Rejeita-a. Pede-lhe que vá embora. Fim.
Gostei mais das duas histórias de dentro que são uma. Pareceram-me mais consistentes. Ou será que lhes achei consistência por gostar mais? Qualquer coisa.

PS: Há quem goste de saber pontuações. No IMDB tem 6.9

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Atordoar

Escrever cartas é mister que falsamente nos aproxima de alguém desconhecido. Foi assim que aconteceu connosco. Sabíamo-nos das palavras. Eu, de horas a dicionário e discurso de mau francês, que sempre fui de me distrair a escrever – palavrosa e ficando a pensar no que rodeia a escrita, no que não se diz por não vir a propósito, mas se pensa na mesma, no que se gostaria de contar mas sai mal ou não sai, coisas assim que me tomam ainda hoje em correio escrito, vulgo mails. Quando nos encontrámos frente a frente, todo esse tempo de epístola se fez inútil, retraídas de um primeiro encontro e tão sem palavras como duas completíssimas estranhas. Bernardette era uma tímida taciturna, a vozita a desaparecer na exuberância do corpo, peço desculpa. E não foi a língua o que nos separou, fui eu que não consegui entendê-la no seu ser diverso. Tinha-a como certeza dentro do meu pequeno círculo. Mas ninguém nos é certo, o meu círculo não era o mundo e as pessoas não são iguais ao que delas pensamos. A minha experiência de garotas palradoras fez-me supor que a norma fosse falar pelos cotovelos.  Conhecia uma que falava pouco, anomalia que prontamente atribuí  ao facto de não conseguir cantar; e logo a julguei exemplar único. As mãos da irmã directora a imobilizarem sobre as teclas, em amplidão de desconcerto, “filha, quem desafina canta, e não te sai uma nota”. A miúda a desfiar as canções num tom neutro e sempre igual. A irmã directora toda manobras de investigação, vamos à escala, e ela átona, a enunciar as notas com a indiferença de quem está farto de contar até dez. Hoje julgo que se mascarou de indiferente para aguentar o exame a que a turma assistiu; e que fui perversa tanta vez, canta lá “Minhas botas velhas cardadas”, para verificar sempre a mesma invariância. Porém, na altura, à vista do fenómeno, atonitei – o que é frequente, não me passa – é que não me ocorrera que houvesse alguém que fosse incapaz de cantar, que nem uma nota entoasse. No tal mundo em que vivia, toda a gente cantarolava, os tios os primos, a mãe… Selectivo, o meu pai só cantava na taberna. O balcão corrido, o cheiro a vinho barato no meio da vozearia e os copos de cinco e de dez davam-lhe uma alegria nunca vista; ainda eu vinha lá em cima à curva e já o ouvia cá em baixo, “ó Rita arredonda a saia…”. Portanto, não me tinha armado para fazer ricochete numa timidez silenciosa. Mas foi o que aconteceu.
No passeio pela aldeia, a escola primária, o adro da igreja, a estação dos comboios, eram irrisórios aos olhos viajantes. A rematar, conduzi-os por vereda estreita até à fonte, lugar ermo e sem outra luz que a do luar. Era o sítio preferido de todas as crianças da aldeia. Porém, os franceses não eram crianças e nem tinham a fonte na memória. Ali, nada os ligava a nada. Na bica, escorria um fio delgado que embalava a calma da cisterna com a sua cantiga e se perdia na terra empapada. Os franceses, vítimas da ingenuidade alentejana, tinham percorrido vários quilómetros a pé, estavam cansados e desiludidos (só hoje me apercebo). Mas cumpri: a lua já ia alta quando regressámos a casa.
Entrei a espreitar a sala. Estava pronta para a refeição. A minha mãe devia ter requisitado as cadeiras todas do monte e imaginei os vizinhos a jantar sentadinhos nos moxos, o queixo num desabafo, a aflorar o tampo da mesa, hoje pertenço a um anão.

Enquanto as visitas assentavam ideias e descansavam um nadinha, fui à cozinha. Uma miscelânea convidativa pairava no ar. Estava tudo diferente. Depois de várias corridas à loja a compôr faltas e acrescentos, de aturarem o mau humor do merceeiro, mas vocês hoje tiraram a noite para me moer a cabeça? A loja já fechou. Depois de tudo isso, que foram muitas vezes, os meus irmãos e primos tinham tomado banho e sido postos na rua sem ordem de entrada. A cozinha estava em polvorosa e a minha tia era um ser divino que se movia nela como peixe no aquário, absolutamente à vontade. Acudia a todo o lugar: as quatro bocas do fogão estavam ligadas e de todos os tachos se escapavam aromas apelativos. De vez em quando, os garotos entreabriam a porta da cozinha e quatro rostitos alegres e esperançosos assomavam a cheirar o ar de olhos semicerrados e sorriso desvanecido. Mas logo a minha tia dizia uma graça e fechava a porta com firmeza. Junto ao fogão, a minha mãe mexia calmamente um tacho de que se desprendia o odor de açúcar em ponto de caramelo. A minha tia girava entre a mesa e o fogão com uma segurança assombrosa e garantia-me que estava tudo bem. Ao ver-me disse, senta lá os franceses que agora é que eles vão ver como se come no Alentejo. Os de Braga  não sabem como é. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Términus

Impressionam-me vidas que se resolvem num tiro ou numa corda. Vi morrer acidentados, doentes, velhos...Estes no hospital, aqueles em casa. A morte é solitária transferência. Mesmo que  haja quem nos goste sobre todas as miudezas que inventamos  em fuga aberta ao sofrimento. Se  haja um alguém que atrase a memória e prefira sofrer-nos a passagem. Alguém que nos dê a mão até à fronteira onde, de obrigação e necessidade, viajamos sós. 
Conheço às vezes certos sinais de morte e doença grave que vem vindo: a palidez de sepulcro que se faz transparente nas orelhas; o olhar  que não se agarra às coisas, desinteressado de haver; o corpo a desligar das tomadas num frio que progride. Mas o que me aflige é o drama escondido do suicida inesperado. Que o suicida nada tem de inesperado, só a notícia dele cai como um raio a a roubar-nos o chão.
Vivem os últimos dias a planear o fim e a aplanar o futuro de quem fica, a fingir a alegria ausente, no quotidiano, um tudo igual insuspeito. Mas tudo neles é esforço. Que agonia nocturna os consome a contar horas digitais. Qual seja o seu Monte das Oliveiras, suam sangue nessa entrega. Sobem o gólgota que se impuseram, arrebatados por tormenta ilegível.
E nenhum padre lhes acompanha o corpo. Porque mataram.
Mas  não o necessitam, senhor cura. Que um corpo morto não tem necessidades nem solicita.


E fica em mim uma ternura por essa paixão incógnita. Que ninguém reparou. Mas existiu.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

sonhar azul

Se me perguntasse alguém onde gostaria de viver, respondia, na praia. Talvez na casa branca da falésia de que fala o conto de Sophya. Mas a verdade é que a praia me esgota. Vou umas horas e chego arrasada.  Derreia-me. Esfalfa-me.  Nem a desejar sou realista.
Por volta dos vinte, mal chegava e já as minhas glândulas sudoríparas pareciam uma torneira mal fechada. Se estava de bruços, o suor fazia rega gota a gota na toalha, facto que me afligia sobremaneira por me parecer que não acontecia aos outros.  É como se a praia esteja a cobrar-me o lugar. Amor exigente, este. Consome-me, suga-me parte da vitalidade. Contudo, não acredito que alguém possa gostar mais do cheiro da maresia; apesar das dores de cabeça de às vezes. E a água do mar é-me terapia, lava-me males internos, dá-me até a ilusão de os dissolver. Portanto, não se imagine que algum banho de mar me é normal. Cada um é baptismo eficaz de onde saio de cabeça leve, um arcanjo.
Vou muitas vezes à praia acompanhada. Mas é indubitável que prefiro os nossos tête-à-tête: eu e ela; nesses dias em que não me visita a saudade de conversa e estamos uma para a outra. E mais a aprecio em pormenores, do céu azul aos peixes que esgueiram das nossas pernas em corpo de radiografia. Temo-nos uma atenção de amor, de tomar conta. E ali existo separada. Completa.

Mas Chego a casa e sou um infindo monte de cansaço.