terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Remendar a Vida

Vários meses a passear-te dentro de mim. E sempre a promessa de voltarmos as duas mais tarde, num dia claro, imaginando-te a inquietação dos olhos a um lado e a outro, em absorção total. Mas a tua realidade adversa levava-me a evitar olhares debruçados  e estranhos que tomava por indiscretos, espontâneos pesares que me rasgavam pele, lamentos de estupor laminado a esfacelar-me o ânimo. A curiosidade geral, acesa pelo diz que diz, fazia-nos parar o carrinho a cada passo. Mas, “ver a menina”, destilava um incómodo de silêncio estupefacto que, de um lado ou do outro, rompia por uma pressa de compras e almoço, um lugar onde ir, a batida em retirada. E teu pai retraíu, vai tu com ela, não aguento mais. No lar, insolventes gavetas de cómoda luziam nuvens  e laços que nunca usaste, nada te servia. Por vezes, o meu desgosto mergulhava as mãos no veludo dos chambres, descia à maciez dos casaquinhos, abstraía nas touquinhas breves e floridas. Depois, cegava enraivado, dedos em garra a torcer tudo, laços desmanchados, o redondo rigoroso das écharpes a pingar, sapatos e botinhas esventrados.
O desgosto é capsular, cria distância. Dentro dele, obscurecemos. No olho do furacão, o acontecer alheio desmaia, des-existe. Daí que a minha memória de teu pai seja escassa. Inteira a meu cuidado, cabia-lhe o caminho de médicos e hospitais. Perdíamo-nos um do outro gota a gota, bonecos sugados pela desgraça. Fustigados pelo temporal, éramos duas árvores resistentes no cimo do morro.   No entanto, vejo a sua mão precisa a encontrar a minha, um saco de boca aberta frente à cómoda, não podes continuar assim, esvazia o armário, dá tudo isso; compramos novas roupas, fazemos outro enxoval, oferece este a alguém precisado.
Revoltei-me. Chorei. Barafustei. E dei tudo, filha. Depois comprei máquina de costura, chamei a modista a casa e ela talhou e coseu, peça a peça, o que precisavas.  Os laços não te brilharam, mas usaste-os; as botas não eram miniaturas, mas calçaste-as; os chambres bordados não te assentavam, mas havia que vestir-te alguma coisa. Na rua, já ninguém me parava para te olhar. Mas, nas minhas costas, como bocas de mil dentes a  abocanhar-me, escapavam-se cicios mórbidos  lá vai o bebé-bicho, diz quem viu que tem focinho em vez de cara, coitadinha dela e mais de quem a tem. E benziam-se enquanto eu passava, olímpica, a fazer de conta que não tinha ouvido mas ainda a escutar, achas que ela ouviu.

E os médicos, parece que com a mente está tudo bem, mas convém deixar passar uns meses. A essa altura, juro-te, filha, tinha consciência que nos entendíamos e eras inteligente. Mas talvez essa certeza intuída fosse mais um fardo. Que não pensei. Umbiguista, julguei poder ensinar-te algumas coisas, conversar, brincar, passear.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Desconcerto

Sim, filha, desfiz-me em lágrimas. Lamentei, da forma mais banal, a má sorte que nos obscurecia o futuro. E também desejei que morresses, sentindo embora remorso por este pensamento e a assumir que era mãe desnaturada, sem sentimentos. Assaltava-me essa esperança  mórbida, insidiosa, quase uma obsessão. Esperava num acaso que trabalhasse a meu favor e te levasse. Porque cedo ouvimos o vaticínio. Os médicos que te observaram –  em desesperada luta de conta quilómetros, corremos país e sumidades – foram unânimes,  sofrias de doença rara que misturava gigantismo e um improvável  cruzamento genético que te percorria o organismo como praga, avolumava a malformação e podia causar-te a morte. A mistura dos dois factores condicionava-te a existência e retirava qualquer hipótese de normalidade externa ou interna. E eu em lágrimas, a antever o teu sofrimento, desconhecendo ainda como reagia a tua mente, os médicos reticentes, exames e mais exames. Tudo em ti assentava numa falibilidade incomum. O vaticínio de doente crónica foi corolário que intuímos. Cobarde, a cada má notícia ambicionava para mim esse eterno esquecimento, o nada onde toda a miséria se dissolve. Mas a coragem de chamar a morte não coaduna comigo. O caminho familiar que antevia era um breu, e o teu  surgia-me tão difícil que desejar-te o fim quase me parecia natural. E apostrofei Aquele que era ainda o meu Deus. Sentia-me ignorada e ultrajada por esse ser superior e ensurdecido que, sem motivo, teimava em me arremessar a cabeça contra a parede. Por amor dos homens, Cristo nascera marcado para a cruz, estava desde sempre condenado aos três dias de paixão e ao intenso sofrimento que  exauria na morte destinada aos seres mais ignóbeis. Mas tu, filha, nasceras para a dor física e psicológica em continuidade, dia atrás de dia. E, por não seres Deus, só o soubemos após o parto. Seria motivo bastante para te escorarmos em desvelo. 

À medida  que dias e notícias tristes caíam uns sobre os outros, aprendias o teu espaço. Embora o berço te fosse justo, parecias apreciar o quartinho airoso e o fundo de música clássica. Adormecias a ouvi-la. Choravas pouco e quedavas a maior parte do tempo numa espécie de admiração silente que também podia ser distracção, e me assustava sobremaneira. Seguias-me a figura desde que entrava no teu raio de visão, facto que te trazia ao rosto um simulacro de sorriso. O ser mais feio e indefeso que conheci. Olhava-te e recriminava-me por constatações e desejos tão impróprios. Para me penitenciar, cumulava-te de largos caudais amorosos a criar raiz. O que eu temia conhecer-te a mente!

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Estranha Forma de Vida

Não te pensei em criança e tampouco quando cresci. Também não sei precisar a data em que te concebemos. Mas esperámos-te, ou pelo menos eu esperei-te, de surpresa em surpresa, à semelhança de outras mães a estrear. Tecida em vagares, mudaste-me o corpo por inteiro. Um dia, a roupa não apertava na cinta; outro, os botões que me rodavam no peito caíam despedidos; agora, agoniava-me a pasta de dentes; logo, não sofria o cheiro do peixe e da carne; hoje, cheirava-me o bolor das casas velhas, o mofo de pó nos objectos escondidos, o nauseabundo das carpetes; ontem, desfalecia nos lugares mais impróprios. Foi assim que te anunciaste, filha. O teu início foi um estranho suceder de incómodos sofrido na carne.
Nas consultas, o médico ouvia-te as batidas do coração e descansava-nos. Entretanto, comecei a sentir-te os movimentos. Nessa fase de gestação, o teu corpo criou volume e o meu adensou. Pesadamente. Eras um redondo que me alargava os pés e inchava as pernas, uma ou outra cobra varicosa azulando saliências. Pressentia-te o sexo, gavetas a extravasar de folhos e bordados, lacinhos e flores. Sem palavras, teu pai observava a minha azáfama de engavetar nuvens, olhos delatores, “e se é menino”. Mas eu sabia-te por dentro da infalível certeza materna. Comprazia-me dar-te os alimentos que requerias em apetite voraz, passeei-te amorosamente pelas tardinhas da cidade e demorei-me nas manhãs campestres, levei-te a ouvir música clássica e logo te recolhias mal te sentindo boiar dentro de mim. Entretanto, alongavas-te e exigias espaços peremptórios. Dia a dia, de hora em hora.  No final dos nove meses nada me servia, o início da barriga um travão à paisagem do corpo e a indumentária reduzida a um macacão muito do teu gosto. Fomos nele para o hospital. Não sei como te sentias, eu apavorava com o desconhecido para que não havia fuga, temia aquele modo de pertença à natureza e à dor, via-o como cruz que se carrega.
Chegaste embrulhada em problemas, quando o meu sofrimento era já intolerável e a mente em roda livre, desabalada pela dor, te obliterava e esquecia. Tirada a forceps, roxa, semeada de inchaços dolorosos, em dificuldade respiratória que te afastou algumas horas. Não te tive viscosa e escorregadia, pele contra pele, antes do corte do cordão umbelical. E tanto te gosto, filha.

No momento em que o meu corpo conseguiu expulsar-te – querias ficar lá dentro, bem o senti – desceu-me um bem estar de sonolência beatífica. Quando acordei, berço ainda vazio, teu pai beijava-me a mão, foste uma valente. Foi nesse momento que o meu amor por ti subiu avassalador, como se diz que sobe o leite materno. Sem quê nem quê. Supus que alguma coisa não estava certa contigo, terias morrido enquanto eu dormia?! Teu pai descansou-me, tratavam de te normalizar a respiração. E preparou-me: é muito feinha a nossa filha. Depois, a enfermeira entrou contigo, jeito de pesar culposo, como quem deseja entregar-me embrulho diferente. Estendi os braços. Afastei a mantinha, observei-te, lágrimas gordas e involuntárias em caminho descendente. Não eras feinha, eras um aleijão, um bebé deformado, todo defeito. Estreitei-te, embalei-te na lua negra do meu desgosto revoltado. Franqueara porta indesejada. Como num pesadelo, desaparecida a porta, acuei sem saída. 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Perecíveis e Contingentes

Há nos dias uma ordinária sequência que não comove mas nos vai movendo, que reacende a cada alvorada. Por vezes, vindos de um pesadelo dolorido,  acordar é alívio. Constatamos a ilusão e damos por nós a descomprimir, já meio alegres das lembranças macabras, aliviados no sem motivo da aflição que pesava. Fechado à manhã em botão, o quarto assiste-nos em silêncio escurecido, os números no relógio rebrilhando em vermelho digital, a fazer viva a mesa de cabeceira. Casulo. Protecção.
Num emaranhado de pontas soltas, em passinho de bebé, o pensamento evolve, caminha aos soluços,  desentorpece na leitura das horas sacudindo nuvens de sono. O olhar descongestiona o fogacho de algarismos franzidos, alisa-os, torna-os eles um a um, ainda assim não saiam baralhados o dois com o cinco, o três com o nove. No esforço de observação, sonolência a dissipar, surge a dúvida, será que uma hora adiantada ou atrasada, ou bastará conferir; deve-se este cálculo a não haver mudança horária automática nos relógios digitais e existir gente que lhes limita a pontualidade à alternância de seis meses.

Depois, quando enfim as horas se entranham e entrelaçam no dia que aguarda, parece que se há-de estender uma perna e ela a assomar por entre os lençóis com um pé todo esquisitices na ponta, desejoso  de voltar à sanduíche dos lençóis. Mas nem sempre. O facto é que há pés resfriados, despertos em desconforto. Haja quem saiba  de pesadelos, que por certo nascem de um défice de calor nos pés - há no mundo relações tão estranhas que esta nem me parece desconchavada. Pois bem, sentamo-nos de salto,  um pé desconsolado - o mesmo que ansiava lençolar mais um pouco - em palpação de chinelos, dedo grande esticado a acertar direito e esquerdo. De seguida, as manobras. Depois, de estacionados e metódicos, os pés ocupam-nos sem hesitação. 
Não é assisado movimentar-se uma pessoa no escuro; experimentar é dar azo, por exemplo, a rolar escada abaixo. Ou outros perigos. Que o breu confunde. Quem garante que no escuro os objectos não mudam de lugar. Quem pode afiançar que a escada, que era sempre em frente, não deu uma guinada para a esquerda ou para a direita. Quem jura a pés juntos que aquele passo em vão não era o buraco aberto de um degrau. Ninguém. Há uma perversidade latente nos objectos, manifesta na sua quietude quando queremos e tanto desejamos a sua intervenção; ou mesmo quando mudam de lugar, saem do hábito e se escondem sem aviso. Não há dúvida, vivemos à mercê da contingência. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Ler na Escola

Li há tempos – no jornal Expresso do dia 8 de Dezembro de 2017 – que, em mais uma avaliação internacional em educação, os alunos portugueses do 4º ano de escolaridade desceram na capacidade de compreensão de leitura.  Ou seja, lêem mas não sabem bem o que lêem porque não o compreendem.  Mas, refere o mesmo estudo, as nossas crianças do 4º ano são as que mais gostam de ler. E em seguida o artigo do expresso expunha considerações e críticas de um a outro governo. Deste ao antigo porque o estudo data de 2016 e, sendo assim, os quatro anos de escolaridade a que se reporta dizem respeito à reforma do então ministro, Nuno Crato, que propunha  - ainda segundo o artigo – um sem número de conteúdos em lugar de definir competências e que privilegiava a leitura escorreita à compreensão. Do antigo governo e dos autores da dita reforma que se defendiam aduzindo que a obrigação de leitura corrente no quarto ano é fundamental e não pode nenhum programa prescindir dela, a bem do ensino democrático. E bla bla bla dos dois lados da barricada.
            Ora bem. A primeira coisa que me soe dizer sobre isto é que, ao contrário das expectativas elevadas dos inquiridos no artigo, que partem do princípio que as nossas crianças foram sinceras e gostam muito de ler, e portanto basta pegar-lhes no gosto e andar para a frente, eu desconfio amplamente da resposta das crianças do quarto ano que afirmaram gostar muito de ler (em cinquenta países inquiridos, estamos em primeiro lugar, gente. As nossas crianças são, a nível internacional, - 50 países! -  as que mais gostam de ler). Eu, se fosse esses senhores tão sábios e cheios de estudos, não faria muito caso de tais gostos infantis. Toda a gente sabe que as crianças – e até os adultos – mentem para agradar; basta-lhes pensar que fica bem dizer que gostam muito de ler e logo todos fazem ali a cruzinha. Ó gente, é que dizer que não gostam de ler é defeito, uma espécie de nódoa, fica mal, rara é a criança que o afirma num inquérito; isso é coisa dita lá em casa, se a obrigam a estudar a lição. Não sei mesmo por que razão os tais espíritos iluminados não desconfiaram de nada. É que fui reparar melhor e os países que estão em segundo e terceiro lugares – os que nos acompanham a ler mais - são o Cazaquistão e o Irão (calculem vocês). Portugal ocupa o trigésimo lugar na compreensão do que foi lido, não sei por onde andam o Cazaquistão e o Irão, mas dos dez primeiros não constam. Para mim é limpo, os garotos mentiram. Ou, como agora se diz, faltaram à verdade e assinalaram o que pensavam que lhes beneficiava a imagem. E os do Irão e Cazaquistão? Pois, não sei, mas devem ter tido um pensamento semelhante que as características do pensamento infantil não divergem assim tanto de cultura para cultura..
            Mas há outra incongruência. Porque, senhores pedagogos do “se o gosto existe, vamos trabalhar para que se transforme em resultados melhores” (Teresa Calçada do PNL).  Então as nossas crianças não compreendem bem o que lêem, mas ainda assim gostam muito de ler... gostarão de papaguear?! Não conheço uma única pessoa que sinta prazer  na leitura de algo que não entende completamente, a quem, quiçá, escapa o sentido do que leu. Mais me parece que seja isso razão para desgostar de ler. O que a experiência nos ensina é que quem gosta de ler compreende muito melhor qualquer assunto escrito e sabe, mesmo oralmente e por comparação com quem lê pouco, esclarecer melhor as suas opiniões.  Portanto, mais uma razão para duvidar do gosto deles. Mas quem será a alma que inventa inquéritos sobre gostos infantis desta natureza?! E as que os valorizam?!

Qual será o remédio para este mal de ler sem compreender?! A educação, no seu aspecto informal e formal não tem receita única. Mas sempre vou dizendo que escolher um livro para ser lido em aula, resulta. Instituir uma pausa para leitura que se continua dia a dia, resulta. Os alunos gostam de ouvir a professora ler uma história, esperam mesmo por esse bocadinho de tempo. Mas uma história longa, que os agarre e não seja da carochinha. Que eles já têm muita coisa a distraí-los, não precisam acrescentos. 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Conto de Natal

Bati à porta e ouvi vozes e ruídos que me pareceram de mau agouro. Recuei indecisa, fujo, não fujo. Na entrada, meio morta, uma flor resistia. A visão incentivou-me. Aproximei-me e voltei a bater, desta vez com mais força. Lá dentro, o barulho cessou repentino. Ouvi passos. E quando a porta se abriu, quatro rostos curiosos. Procurei nos bolsos o cartão que os meus nervos já tinham encarquilhado. E foi milagroso, os sorrisos encompridaram. Sem hesitar, oito mãos puxaram-me para dentro. Os mais novos chegaram-se a mim. Em festa, levaram-me até à sala. E eu numa desorientação. Que família era aquela que parecia conhecer-me e eu nunca tinha visto, os garotos pareciam deveras contentes por me verem. Entretanto, a mãe, que só podia ser a mãe, fez-me sentar enquanto ia dizendo, deixem a senhora em paz. Olhe,  eu tenho uns bolinhos e faço um chá, é só um instantinho. E deixou-me com os três rapazes.
O mais velho aproximou-se e beijou-me. Depois, pegou-me pela mão, levou-me até à estante e apontou os livros orgulhoso
-  Estão todos ali, menos o que chegou ontem. Esse está na mesinha de cabeceira.
Fiquei boquiaberta. Não pela  estante que era barata. Mas os livros...eu conhecia aqueles títulos. Pensei na coincidência de gostos de leitura. Lembrei os teus cuidados nas nossas tardes de compras de Natal, os pedidos de opinião. Então, o garoto trouxe uma caixa, quer ver?, destapou-a e, lá dentro, muito arrumados, alguns cartões. Pegou-lhes quase com reverência e passou-me dois, são os que mais gosto. Eram os teus. Tinha-te visto a fazê-los. Li as frases bonitas que escreveste com a tua letra inconfundível. Estavam assinados com o meu nome: Sara. Disfarcei a surpresa como pude. Tirei um livro da estante. Abri-o. Li a dedicatória. E as tuas palavras brilharam nos meus olhos marejados. Com assinatura: Sara.
Passei a manhã naquela casa. A sentir a gratidão que te pertence e não tive coragem de rejeitar porque ia envergonhá-los e me soube bem tanto apreço e amizade. Algures, há uma consoada e família à nossa espera, prendas bonitas e caras, doces esmerados. E eu espero-te em casa. Mas o relógio faz pirraça e avança devagar.
Enfim, chegas. Sabes dos meus olhos em ponto de interrogação. Abraças-me com força.  Murmuro
-  Porquê? 
- Porque estás em tudo que faço e és eu, como eu sou tu - respondes convicto, e logo meio a rir -.  É tempo de saberes para quem são os livros que envias.
Remoínhas-me o cabelo. Digo a ajeitar-te o cachecol
 . Aquele garoto comoveu-me, como o descobriste?
- Hummm...ele devia ter uns seis anos. Estavam ele e a mãe na paragem do autocarro e todo se punha em bicos de pés no esforço de ler a folha dobrada do jornal do vizinho da frente. Como vês, só aproveitei a oportunidade. Depois de um pequeno trabalho de detective.
- Mas por que não enviaste apenas um livro? Podias escolher pessoas diversas...
- Porque, minha Sara, o amor da leitura é como um vício. Precisa de tempo e continuidade para enraizar. Estiveste lá, viste como estimam as nossas prendas. E eu queria que fossem desejadas. Deves ter visto também os livros dos outros dois.
- Vi tudo, amor. Estive uma manhã inteira imersa na tua filantropia anónima. Mas como é que eles nos descobriram?
- Porque ainda há coincidências. E esquecimentos. Uma tarde esqueci no escritório uns embrulhos de natal já endereçados. E a mãe do nosso herói é funcionária da empresa que faz a limpeza diária. Calhou de vê-los. Alguns destinavam-se a sua casa. Contou ao filho, ele fez o cartão que te entreguei e foi deixado na minha mesa. O resto, já tu sabes.
- Nunca me terias dito? Ficávamos incógnitos?!
E tu a olhares no fundo dos meus olhos.

- Nós dois interessamos um ao outro. A eles, o que interessa são os livros. E, sendo lido, nenhum livro é incógnito. 

domingo, 24 de dezembro de 2017

Conto de Natal

Todos os Natais são semelhantes. Ou parecem. No início da tarde de consoada, começa o pandemónio. Os telemóveis não param e as mensagens de última hora entopem o ar e precipitam-se no aparelho em piscadelas de luz, pim, pim, pim. Na bancada da cozinha, o almoço de natal  jaz de costas a descansar no tempero, patas ao alto como compete; e nós ao passar, ai se não cabe no forno, ai se demora a assar. Ai. Entretanto, calculamos volume de bacalhau e couves na panela, que, à noite, a tradição ordena sem evasivas. E damos uma olhadela aos sms recebidos a ponderar, “depois da confusão, quando  a calma se instale, respondo”. E sabemos que hão-de chegar sms retardatários, horas e horas no caminho, ninguém sabe se perdidos. Adormeceram na fila de espera e, no dia de Natal, caem resolutos no aparelho. E nós pasmos, olhando a hora, que é isto, foi enviado ontem à noite.
Mas eu e tu não vivemos apenas neste mundo tecnológico todo destreza de dedos. Não aprecias sms de natal. À moda antiga, envias cartões, presépios pequenos desenhados com amor e cuidado na ponta do lápis. Aqui uma estrela brilhante, ali um pastor a ofertar um cordeiro, além uma Virgem toda ternuras com o Menino. O que eu gosto de te ver desenhar. Tornas-te outro enquanto crias. E desvaneço na tua atenção em redoma, os meus olhos acompanhando o movimento dos dedos, ocupada a ver nascer as coisas. E penso, vaidade a minha, que ninguém te conhece como eu. Tardes completas neste labor. Depois,  inventas vagar e tempo para a estação de correios e compras envelopes e caixas de vários formatos e tamanhos. E carregas tudo para casa sem pejo, num contentamento que não entendo mas também me faz feliz. Então, lanças-te a escrever. Nos cartões. Nos livros. Jamais li o que envias a outra gente. Mas sigo-te, penduro-me nos teus gestos. Vejo-te hesitar e escrever; parar e continuar; sorrir ou esconder a ternura numa tosse de ocasião. E tenho certeza de que todas as palavras que usas são lindas e vão directas ao coração. Até ontem, juro que não entendi o teu fincapé em escolher e enviar livros. Anual e meio acéfala, repetia-me incrédula.
- Livros, amor?! Livros?! Já ninguém quer ler.
No teu rosto, o assomo de um sorriso.
- Hão-de ler estes. Alguém vai lê-los. E um dia, verás, dão fruto. Os livros lidos, princesa, dão sempre fruto.
Era tal a segurança da tua voz que não ousava contrariar-te. Pensava que enviavas dentro deles a tua magia, o teu jeitinho de ser feliz e que só por isso – só por tua causa – alguém, ao recebê-los, era compelido à leitura. Investia em ti todo o poder. Não pensava nos livros. Até ontem.
E ontem foi um dia normal. Ou eu o pensava assim à boca da manhã. Para lá da janela, espreitava-me um céu de tédio que escurecia o bairro. Na rua quase deserta as árvores sobressaltavam, despidas e suplicantes, cruzando dedos em arabesco de troncos finos. O frio, intrometido e agudo, chegara de sopetão, a fazer-nos desbravar gavetas à cata de protecções e abafos que respiravam aliviados da pressão nas dobras, ufa, já cá estou fora outra vez. E era ver pelas ruas a amálgama de cachecóis e gorros, botas e grossuras de lã que o corpo abençoava.
Chinelei sem rumo fixo. A casa de banho cheirava à pressa das manhãs de trabalho, uma mistura húmida de gel de banho e after shave que não era apenas gel de banho e after shave. No espelho, uma mulher esguedelhada mirou-me meio zonza. Sombria. Sorri-lhe a desanuviar e retribuiu. Demos um adeus apressado e entrei na cozinha. Tinhas deixado a máquina ligada e um odor de café e torradas espreguiçava-se langoroso sobre a cama suave da tua colónia. No hábito das tuas surpresas procurei um recado, um dito xistoso e terno, um raminho a florir. Percorri bancadas, mesa, electrodomésticos. Espreitei na despensa, olhei segunda vez o friso da chaminé. Nada. Desisti. Por certo, a pressa  engolira a surpresa. Foi ao sentar-me, pequeno almoço a fumegar, que o notei  pousado no colo discreto da minha cadeira. Um embrulhito, coisa mínima. E os meus dedos atarefados, mais contentes de ti que dele. Dentro, em cartão tosco e manual, um endereço. Nas costas, tinhas escrito, “Vai até lá e mostra-o”. E fui.
No táxi, indiquei o destino e recostei-me a apertar o casaco enquanto o mundo fugia na janela. Mentalmente, revia as tuas surpresas caseiras. Nenhuma saíra fora de portas. Mas o táxi continuava a rolar. Reparei que abandonávamos o centro  e rodávamos já pelos subúrbios. Havia gente dentro das lojas ou caminhando de rosto franzido, apressada por vento e frio,  sacos deformando ao peso dos víveres. Era um mundo diferente, mais sujo e escuro, todo mais pequeno e encolhido. Casinhotos sem jardim guardados por automóveis sebentos de uso, bicicletas enferrujadas no cubículo dos quintais.

De repente, o taxista parou e apontou a casa do outro lado da rua: é aqui. Semelhante a todas as outras. A mesma pequenez apagada, idêntico ar desvalido a precisar reparação. Paguei a corrida e, mal saí do carro, assustou-me o coro de cães desafiando-se de dentro dos quintais. Atravessei e, no temor de um mastim a espreitar-me do interior ou surgindo desengalgado, empurrei a cancela.  Duvidava do endereço, apostava que o taxista se enganara, supunha que te enganaras.
(cont.)