Vários
meses a passear-te dentro de mim. E sempre a promessa de voltarmos as duas mais
tarde, num dia claro, imaginando-te a inquietação dos olhos a um lado e a
outro, em absorção total. Mas a tua realidade adversa levava-me a evitar
olhares debruçados e estranhos que tomava por indiscretos, espontâneos
pesares que me rasgavam pele, lamentos de estupor laminado a esfacelar-me o
ânimo. A curiosidade geral, acesa pelo diz que diz, fazia-nos parar o carrinho
a cada passo. Mas, “ver a menina”, destilava um incómodo de silêncio estupefacto que, de um
lado ou do outro, rompia por uma pressa de compras e almoço, um lugar onde ir,
a batida em retirada. E teu pai retraíu, vai tu com ela, não aguento mais. No
lar, insolventes gavetas de cómoda luziam nuvens e laços que nunca
usaste, nada te servia. Por vezes, o meu desgosto mergulhava as mãos no veludo
dos chambres, descia à maciez dos casaquinhos, abstraía nas touquinhas breves e
floridas. Depois, cegava enraivado, dedos em garra a torcer tudo, laços
desmanchados, o redondo rigoroso das écharpes a pingar, sapatos e botinhas
esventrados.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
Remendar a Vida
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Desconcerto
Sim,
filha, desfiz-me em lágrimas. Lamentei, da forma mais banal, a má sorte que nos
obscurecia o futuro. E também desejei que morresses, sentindo embora remorso por este
pensamento e a assumir que era mãe desnaturada, sem sentimentos. Assaltava-me essa esperança mórbida, insidiosa, quase uma obsessão. Esperava num acaso que
trabalhasse a meu favor e te levasse. Porque cedo ouvimos o vaticínio. Os
médicos que te observaram – em desesperada luta de conta
quilómetros, corremos país e sumidades – foram unânimes, sofrias de doença rara que misturava
gigantismo e um improvável
cruzamento genético que te percorria o organismo como praga, avolumava a
malformação e podia causar-te a morte. A mistura dos dois factores
condicionava-te a existência e retirava qualquer hipótese de normalidade externa ou interna. E eu em lágrimas, a antever o teu sofrimento, desconhecendo ainda como
reagia a tua mente, os médicos reticentes, exames e mais exames. Tudo em ti assentava numa falibilidade incomum. O vaticínio
de doente crónica foi corolário que intuímos. Cobarde, a cada má notícia ambicionava
para mim esse eterno esquecimento, o nada onde toda a miséria se dissolve. Mas a
coragem de chamar a morte não coaduna comigo. O caminho familiar
que antevia era um breu, e o teu surgia-me tão difícil que desejar-te o fim quase me parecia natural. E apostrofei
Aquele que era ainda o meu Deus. Sentia-me ignorada e ultrajada por esse ser
superior e ensurdecido que, sem motivo, teimava em me arremessar a cabeça
contra a parede. Por amor dos homens, Cristo nascera marcado para a cruz, estava
desde sempre condenado aos três dias de paixão e ao intenso sofrimento que exauria na morte destinada aos seres
mais ignóbeis. Mas tu, filha, nasceras para a dor física e psicológica em
continuidade, dia atrás de dia. E, por não seres Deus, só o soubemos após o parto.
Seria motivo bastante para te escorarmos em desvelo.
À
medida que dias e notícias tristes caíam uns sobre os outros, aprendias o teu espaço. Embora o berço te fosse
justo, parecias apreciar o quartinho airoso e o fundo de música clássica.
Adormecias a ouvi-la. Choravas pouco e quedavas a maior parte do tempo numa
espécie de admiração silente que também podia ser distracção, e me assustava
sobremaneira. Seguias-me a figura desde que entrava no teu raio de visão, facto
que te trazia ao rosto um simulacro de sorriso. O ser mais feio e indefeso que
conheci. Olhava-te e recriminava-me por constatações e desejos tão impróprios.
Para me penitenciar, cumulava-te de largos caudais amorosos a criar raiz. O
que eu temia conhecer-te a mente!
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Estranha Forma de Vida
Não
te pensei em criança e tampouco quando cresci. Também não sei precisar a data
em que te concebemos. Mas esperámos-te, ou pelo menos eu esperei-te, de
surpresa em surpresa, à semelhança de outras mães a estrear. Tecida
em vagares, mudaste-me o corpo por inteiro. Um dia, a roupa não apertava na
cinta; outro, os botões que me rodavam no peito caíam despedidos; agora,
agoniava-me a pasta de dentes; logo, não sofria o cheiro do peixe e da carne; hoje,
cheirava-me o bolor das casas velhas, o mofo de pó nos objectos escondidos, o
nauseabundo das carpetes; ontem, desfalecia nos lugares mais impróprios. Foi
assim que te anunciaste, filha. O teu início foi um estranho suceder de
incómodos sofrido na carne.
Nas
consultas, o médico ouvia-te as batidas do coração e descansava-nos. Entretanto,
comecei a sentir-te os movimentos. Nessa fase de gestação, o teu corpo criou
volume e o meu adensou. Pesadamente. Eras um redondo que me alargava os pés e inchava as pernas, uma ou outra cobra varicosa azulando saliências. Pressentia-te
o sexo, gavetas a extravasar de folhos e bordados, lacinhos e flores. Sem
palavras, teu pai observava a minha azáfama de engavetar nuvens, olhos delatores, “e se é menino”. Mas eu sabia-te por dentro da infalível certeza
materna. Comprazia-me dar-te os alimentos que requerias em apetite voraz,
passeei-te amorosamente pelas tardinhas da cidade e demorei-me nas manhãs
campestres, levei-te a ouvir música clássica e logo te recolhias mal te
sentindo boiar dentro de mim. Entretanto, alongavas-te e exigias espaços
peremptórios. Dia a dia, de hora em hora. No final dos nove meses nada me servia, o início da barriga um travão à paisagem do corpo e a
indumentária reduzida a um macacão muito do teu gosto. Fomos nele
para o hospital. Não sei como te sentias, eu apavorava com o desconhecido
para que não havia fuga, temia aquele modo de pertença à natureza e à dor, via-o
como cruz que se carrega.
Chegaste
embrulhada em problemas, quando o meu sofrimento era já intolerável e a mente em roda livre, desabalada pela dor, te obliterava e esquecia. Tirada a forceps, roxa, semeada de inchaços dolorosos, em dificuldade respiratória que te afastou algumas horas. Não te
tive viscosa e escorregadia, pele contra pele, antes do corte do cordão umbelical.
E tanto te gosto, filha.
No
momento em que o meu corpo conseguiu expulsar-te – querias ficar lá dentro, bem
o senti – desceu-me um bem estar de sonolência beatífica. Quando acordei, berço
ainda vazio, teu pai beijava-me a mão, foste uma valente. Foi nesse momento que
o meu amor por ti subiu avassalador, como se diz que sobe o leite materno. Sem
quê nem quê. Supus que alguma coisa não estava certa contigo, terias morrido
enquanto eu dormia?! Teu pai descansou-me, tratavam de te normalizar
a respiração. E preparou-me: é muito feinha a nossa filha. Depois, a enfermeira
entrou contigo, jeito de pesar culposo, como quem deseja entregar-me embrulho diferente. Estendi os braços. Afastei a mantinha, observei-te, lágrimas gordas e involuntárias em caminho descendente. Não eras feinha, eras um aleijão, um
bebé deformado, todo defeito. Estreitei-te,
embalei-te na lua negra do meu desgosto revoltado. Franqueara porta indesejada. Como num pesadelo, desaparecida a porta, acuei sem saída.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Perecíveis e Contingentes
Há
nos dias uma ordinária sequência que não comove mas nos vai movendo, que reacende
a cada alvorada. Por vezes, vindos de um pesadelo dolorido, acordar é alívio. Constatamos a ilusão e damos por nós a descomprimir, já meio alegres das lembranças macabras, aliviados no
sem motivo da aflição que pesava. Fechado à manhã em botão, o quarto assiste-nos
em silêncio escurecido, os números no relógio rebrilhando em vermelho digital, a fazer viva
a mesa de cabeceira. Casulo. Protecção.
Num
emaranhado de pontas soltas, em passinho de bebé, o pensamento evolve, caminha
aos soluços, desentorpece na leitura das horas sacudindo
nuvens de sono. O olhar descongestiona o fogacho de
algarismos franzidos, alisa-os, torna-os eles um a um, ainda assim não saiam baralhados o dois com o
cinco, o três com o nove. No esforço de observação, sonolência a dissipar, surge
a dúvida, será que uma hora adiantada ou atrasada, ou bastará conferir; deve-se
este cálculo a não haver mudança horária automática nos relógios digitais e
existir gente que lhes limita a pontualidade à alternância de seis meses.
Depois,
quando enfim as horas se entranham e entrelaçam no dia que aguarda, parece que
se há-de estender uma perna e ela a assomar por entre os lençóis com um pé todo
esquisitices na ponta, desejoso de
voltar à sanduíche dos lençóis. Mas nem sempre. O facto é que há pés
resfriados, despertos em desconforto. Haja quem saiba de pesadelos, que por certo nascem de um
défice de calor nos pés - há no mundo relações tão estranhas que esta nem me
parece desconchavada. Pois bem, sentamo-nos de salto, um pé desconsolado - o mesmo que ansiava lençolar mais um pouco - em palpação de chinelos, dedo grande esticado a acertar
direito e esquerdo. De seguida, as manobras. Depois, de estacionados e metódicos, os pés ocupam-nos
sem hesitação.
Não é assisado movimentar-se uma pessoa no escuro; experimentar
é dar azo, por exemplo, a rolar escada abaixo. Ou outros perigos. Que o
breu confunde. Quem garante que no escuro os objectos não mudam de lugar. Quem
pode afiançar que a escada, que era sempre em frente, não deu uma guinada para
a esquerda ou para a direita. Quem jura a pés juntos que aquele passo em vão
não era o buraco aberto de um degrau. Ninguém. Há uma perversidade latente nos
objectos, manifesta na sua quietude quando queremos e tanto desejamos a sua
intervenção; ou mesmo quando mudam de lugar, saem do hábito e se escondem sem
aviso. Não há dúvida, vivemos à mercê da contingência.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Ler na Escola
Li
há tempos – no jornal Expresso do dia 8 de Dezembro de 2017 – que, em mais uma
avaliação internacional em educação, os alunos portugueses do 4º ano de
escolaridade desceram na capacidade de compreensão de leitura. Ou seja, lêem mas não sabem bem o que lêem
porque não o compreendem. Mas, refere o
mesmo estudo, as nossas crianças do 4º ano são as que mais gostam de ler. E em
seguida o artigo do expresso expunha considerações e críticas de um a outro
governo. Deste ao antigo porque o estudo data de 2016 e, sendo assim, os quatro
anos de escolaridade a que se reporta dizem respeito à reforma do então
ministro, Nuno Crato, que propunha -
ainda segundo o artigo – um sem número de conteúdos em lugar de definir
competências e que privilegiava a leitura escorreita à compreensão. Do antigo governo
e dos autores da dita reforma que se defendiam aduzindo que a obrigação de
leitura corrente no quarto ano é fundamental e não pode nenhum programa
prescindir dela, a bem do ensino democrático. E bla bla bla dos dois lados da
barricada.
Ora bem. A primeira coisa que me soe
dizer sobre isto é que, ao contrário das expectativas elevadas dos inquiridos
no artigo, que partem do princípio que as nossas crianças foram sinceras e
gostam muito de ler, e portanto basta pegar-lhes no gosto e andar para a
frente, eu desconfio amplamente da resposta das crianças do quarto ano que
afirmaram gostar muito de ler (em cinquenta países inquiridos, estamos em
primeiro lugar, gente. As nossas crianças são, a nível internacional, - 50
países! - as que mais gostam de ler).
Eu, se fosse esses senhores tão sábios e cheios de estudos, não faria muito
caso de tais gostos infantis. Toda a gente sabe que as crianças – e até os
adultos – mentem para agradar; basta-lhes pensar que fica bem dizer que gostam
muito de ler e logo todos fazem ali a cruzinha. Ó gente, é que dizer que não
gostam de ler é defeito, uma espécie de nódoa, fica mal, rara é a criança que o
afirma num inquérito; isso é coisa dita lá em casa, se a obrigam a estudar a
lição. Não sei mesmo por que razão os tais espíritos iluminados não
desconfiaram de nada. É que fui reparar melhor e os países que estão em segundo
e terceiro lugares – os que nos acompanham a ler mais - são o Cazaquistão e o
Irão (calculem vocês). Portugal ocupa o trigésimo lugar na compreensão do que
foi lido, não sei por onde andam o Cazaquistão e o Irão, mas dos dez primeiros
não constam. Para mim é limpo, os garotos mentiram. Ou, como agora se diz,
faltaram à verdade e assinalaram o que pensavam que lhes beneficiava a imagem. E
os do Irão e Cazaquistão? Pois, não sei, mas devem ter tido um pensamento
semelhante que as características do pensamento infantil não divergem assim
tanto de cultura para cultura..
Mas há outra incongruência. Porque,
senhores pedagogos do “se o gosto existe, vamos trabalhar para que se
transforme em resultados melhores” (Teresa Calçada do PNL). Então as nossas crianças não compreendem bem
o que lêem, mas ainda assim gostam muito de ler... gostarão de papaguear?! Não
conheço uma única pessoa que sinta prazer
na leitura de algo que não entende completamente, a quem, quiçá, escapa
o sentido do que leu. Mais me parece que seja isso razão para desgostar de ler.
O que a experiência nos ensina é que quem gosta de ler compreende muito melhor
qualquer assunto escrito e sabe, mesmo oralmente e por comparação com quem lê
pouco, esclarecer melhor as suas opiniões. Portanto, mais uma razão para duvidar do gosto
deles. Mas quem será a alma que inventa inquéritos sobre gostos infantis desta
natureza?! E as que os valorizam?!
Qual
será o remédio para este mal de ler sem compreender?! A educação, no seu
aspecto informal e formal não tem receita única. Mas sempre vou dizendo que
escolher um livro para ser lido em aula, resulta. Instituir uma pausa para
leitura que se continua dia a dia, resulta. Os alunos gostam de ouvir a
professora ler uma história, esperam mesmo por esse bocadinho de tempo. Mas uma
história longa, que os agarre e não seja da carochinha. Que eles já têm muita
coisa a distraí-los, não precisam acrescentos.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
Conto de Natal
Bati
à porta e ouvi vozes e ruídos que me pareceram de mau agouro. Recuei indecisa,
fujo, não fujo. Na entrada, meio morta, uma flor resistia. A visão
incentivou-me. Aproximei-me e voltei a bater, desta vez com mais força. Lá
dentro, o barulho cessou repentino. Ouvi passos. E quando a porta se abriu,
quatro rostos curiosos. Procurei nos bolsos o cartão que os meus nervos já
tinham encarquilhado. E foi milagroso, os sorrisos encompridaram. Sem hesitar, oito
mãos puxaram-me para dentro. Os mais novos chegaram-se a mim. Em festa,
levaram-me até à sala. E eu numa desorientação. Que família era aquela que
parecia conhecer-me e eu nunca tinha visto, os garotos pareciam deveras contentes
por me verem. Entretanto, a mãe, que só podia ser a mãe, fez-me sentar enquanto
ia dizendo, deixem a senhora em paz. Olhe, eu tenho uns bolinhos e faço um chá, é só um
instantinho. E deixou-me com os três rapazes.
O
mais velho aproximou-se e beijou-me. Depois, pegou-me pela mão, levou-me até à
estante e apontou os livros orgulhoso
- Estão todos ali, menos o que chegou ontem. Esse está na mesinha de cabeceira.
Fiquei
boquiaberta. Não pela estante que era
barata. Mas os livros...eu conhecia aqueles títulos. Pensei na coincidência de
gostos de leitura. Lembrei os teus cuidados nas nossas tardes de compras de
Natal, os pedidos de opinião. Então, o garoto trouxe uma caixa, quer ver?, destapou-a
e, lá dentro, muito arrumados, alguns cartões. Pegou-lhes quase com reverência
e passou-me dois, são os que mais gosto. Eram os teus. Tinha-te visto a
fazê-los. Li as frases bonitas que escreveste com a tua letra inconfundível. Estavam
assinados com o meu nome: Sara. Disfarcei a surpresa como pude. Tirei um livro
da estante. Abri-o. Li a dedicatória. E as tuas palavras brilharam nos meus
olhos marejados. Com assinatura: Sara.
Passei
a manhã naquela casa. A sentir a gratidão que te pertence e não tive coragem de
rejeitar porque ia envergonhá-los e me soube bem tanto apreço e amizade.
Algures, há uma consoada e família à nossa espera, prendas bonitas e caras,
doces esmerados. E eu espero-te em casa. Mas o relógio faz pirraça e avança
devagar.
Enfim,
chegas. Sabes dos meus olhos em ponto de interrogação. Abraças-me com força. Murmuro
- Porquê?
- Porque
estás em tudo que faço e és eu, como eu sou tu - respondes convicto, e logo meio
a rir -. É tempo de saberes para quem
são os livros que envias.
Remoínhas-me
o cabelo. Digo a ajeitar-te o cachecol
. Aquele garoto comoveu-me, como o
descobriste?
- Hummm...ele
devia ter uns seis anos. Estavam ele e a mãe na paragem do autocarro e todo se
punha em bicos de pés no esforço de ler a folha dobrada do jornal do vizinho da
frente. Como vês, só aproveitei a oportunidade. Depois de um pequeno trabalho
de detective.
- Mas
por que não enviaste apenas um livro? Podias escolher pessoas diversas...
-
Porque, minha Sara, o amor da leitura é como um vício. Precisa de tempo e
continuidade para enraizar. Estiveste lá, viste como estimam as nossas prendas.
E eu queria que fossem desejadas. Deves ter visto também os livros dos outros
dois.
- Vi
tudo, amor. Estive uma manhã inteira imersa na tua filantropia anónima. Mas
como é que eles nos descobriram?
-
Porque ainda há coincidências. E esquecimentos. Uma tarde esqueci no escritório
uns embrulhos de natal já endereçados. E a mãe do nosso herói é funcionária da
empresa que faz a limpeza diária. Calhou de vê-los. Alguns destinavam-se a sua
casa. Contou ao filho, ele fez o cartão que te entreguei e foi deixado na minha
mesa. O resto, já tu sabes.
-
Nunca me terias dito? Ficávamos incógnitos?!
E tu
a olhares no fundo dos meus olhos.
-
Nós dois interessamos um ao outro. A eles, o que interessa são os livros. E,
sendo lido, nenhum livro é incógnito.
domingo, 24 de dezembro de 2017
Conto de Natal
Todos
os Natais são semelhantes. Ou parecem. No início da tarde de consoada, começa o
pandemónio. Os telemóveis não param e as mensagens de última hora entopem o ar
e precipitam-se no aparelho em piscadelas de luz, pim, pim, pim. Na bancada da
cozinha, o almoço de natal jaz de costas
a descansar no tempero, patas ao alto como compete; e nós ao passar, ai se não
cabe no forno, ai se demora a assar. Ai. Entretanto, calculamos volume de
bacalhau e couves na panela, que, à noite, a tradição ordena sem evasivas. E damos
uma olhadela aos sms recebidos a ponderar, “depois da confusão, quando a calma se instale, respondo”. E sabemos que hão-de
chegar sms retardatários, horas e horas no caminho, ninguém sabe se perdidos.
Adormeceram na fila de espera e, no dia de Natal, caem resolutos no aparelho. E
nós pasmos, olhando a hora, que é isto, foi enviado ontem à noite.
Mas
eu e tu não vivemos apenas neste mundo tecnológico todo destreza de dedos. Não
aprecias sms de natal. À moda antiga, envias cartões, presépios pequenos
desenhados com amor e cuidado na ponta do lápis. Aqui uma estrela brilhante,
ali um pastor a ofertar um cordeiro, além uma Virgem toda ternuras com o Menino.
O que eu gosto de te ver desenhar. Tornas-te outro enquanto crias. E desvaneço
na tua atenção em redoma, os meus olhos acompanhando o movimento dos dedos,
ocupada a ver nascer as coisas. E penso, vaidade a minha, que ninguém te
conhece como eu. Tardes completas neste labor. Depois, inventas vagar e tempo para a estação de
correios e compras envelopes e caixas de vários formatos e tamanhos. E carregas
tudo para casa sem pejo, num contentamento que não entendo mas também me faz
feliz. Então, lanças-te a escrever. Nos cartões. Nos livros. Jamais li o que envias
a outra gente. Mas sigo-te, penduro-me nos teus gestos. Vejo-te hesitar e
escrever; parar e continuar; sorrir ou esconder a ternura numa tosse de ocasião.
E tenho certeza de que todas as palavras que usas são lindas e vão directas ao
coração. Até ontem, juro que não entendi o teu fincapé em escolher e enviar
livros. Anual e meio acéfala, repetia-me incrédula.
- Livros,
amor?! Livros?! Já ninguém quer ler.
No
teu rosto, o assomo de um sorriso.
- Hão-de
ler estes. Alguém vai lê-los. E um dia, verás, dão fruto. Os livros lidos,
princesa, dão sempre fruto.
Era
tal a segurança da tua voz que não ousava contrariar-te. Pensava que enviavas dentro
deles a tua magia, o teu jeitinho de ser feliz e que só por isso – só por tua
causa – alguém, ao recebê-los, era compelido à leitura. Investia em ti todo o
poder. Não pensava nos livros. Até ontem.
E
ontem foi um dia normal. Ou eu o pensava assim à boca da manhã. Para lá da
janela, espreitava-me um céu de tédio que escurecia o bairro. Na rua quase
deserta as árvores sobressaltavam, despidas e suplicantes, cruzando dedos em
arabesco de troncos finos. O frio, intrometido e agudo, chegara de sopetão, a fazer-nos
desbravar gavetas à cata de protecções e abafos que respiravam aliviados da
pressão nas dobras, ufa, já cá estou fora outra vez. E era ver pelas ruas a
amálgama de cachecóis e gorros, botas e grossuras de lã que o corpo abençoava.
Chinelei
sem rumo fixo. A casa de banho cheirava à pressa das manhãs de trabalho, uma
mistura húmida de gel de banho e after shave que não era apenas gel de banho e after
shave. No espelho, uma mulher esguedelhada mirou-me meio zonza. Sombria. Sorri-lhe
a desanuviar e retribuiu. Demos um adeus apressado e entrei na cozinha. Tinhas
deixado a máquina ligada e um odor de café e torradas espreguiçava-se langoroso
sobre a cama suave da tua colónia. No hábito das tuas surpresas procurei um
recado, um dito xistoso e terno, um raminho a florir. Percorri bancadas, mesa,
electrodomésticos. Espreitei na despensa, olhei segunda vez o friso da chaminé.
Nada. Desisti. Por certo, a pressa engolira a surpresa. Foi ao
sentar-me, pequeno almoço a fumegar, que o notei pousado no colo discreto da minha cadeira. Um
embrulhito, coisa mínima. E os meus dedos atarefados, mais contentes de ti que dele.
Dentro, em cartão tosco e manual, um endereço. Nas costas, tinhas escrito, “Vai
até lá e mostra-o”. E fui.
No
táxi, indiquei o destino e recostei-me a apertar o casaco enquanto o mundo fugia
na janela. Mentalmente, revia as tuas surpresas caseiras. Nenhuma saíra fora de
portas. Mas o táxi continuava a rolar. Reparei que abandonávamos o centro e rodávamos já pelos subúrbios. Havia gente
dentro das lojas ou caminhando de rosto franzido, apressada por vento e frio, sacos deformando ao peso dos víveres. Era um
mundo diferente, mais sujo e escuro, todo mais pequeno e encolhido. Casinhotos
sem jardim guardados por automóveis sebentos de uso, bicicletas enferrujadas no cubículo dos quintais.
De
repente, o taxista parou e apontou a casa do outro lado da rua: é aqui. Semelhante
a todas as outras. A mesma pequenez apagada, idêntico ar desvalido a precisar
reparação. Paguei a corrida e, mal saí do carro, assustou-me o coro de cães
desafiando-se de dentro dos quintais. Atravessei e, no temor de um mastim a
espreitar-me do interior ou surgindo desengalgado, empurrei a cancela. Duvidava do endereço, apostava que o taxista
se enganara, supunha que te enganaras.
(cont.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)