sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Mágoa

Temos dificuldade em dizer as mágoas da vida. Mágoas são como pedras no rim, a mínima saliência arrepia, o sopro de um movimento dói. Por vezes, a escrita devém substância química e desfaz algumas. Outras desfazemos bebendo água - e cada um sabe do seu H2O - . Ainda não descobri a minha água para deitar fora esta tristeza de tanto fogo a queimar a terra a que dedico talvez mais amor que os papas. Não a beijo, como eles, de rabo para o ar (perdão, senhor papa) mas sofro-a na alma que não sei se tenho e no corpo que me é certo.  Imagino-a indefesa às chamas que, em ápices ventosos, a vão exaurindo de si e lhe calcinam a continuidade da vida.
E os telejornais apostados em que não esqueça, mostram-me olhos gastos de choro, rugas vincadas de desgosto, desalento de quem viu arder o esforço de muito ano.
Tudo que era nosso, perdido. Já imaginaram? É que não consigo.
E os bombeiros exaustos da luta insana onde vários já tombaram. É como se as chamas tenham endemoninhado e tudo arda em sofreguidão e voracidade, violando num repente todas portas. Matando sem destino. O fogo é ausência de interditos.
Certa vez em que passava a ferro, distraí-me e queimei meio centímetro das costas da mão. Primeiro, senti a violência da dor na cabeça, como um choque eléctrico; só depois a mão se tornou tão dolorosa que agigantou e foi como se só ela existisse, o resto do corpo elidido. Hoje é pele morta, em cinco milímetros da minha mão, sinto nada. Penso nos bombeiros que morreram. Lá. No meio do fogo. Ou que sofreram queimaduras de tal índole que o corpo não as aguentou e desistiu. E não me conformo.
 Nas condolências a familiares afirma-se, era voluntário/a, cumpria a missão mais nobre, morreu a defender os outros do flagelo mais atroz. Coisas assim. Mas se eu fosse mãe, mulher, marido, namorado, amiga/o, para além da perda ficava-me a certeza profunda de que o mais atroz é morrer queimado.
Ainda nunca entendi o critério das presidências para as condecorações no 10 de Junho.
Mas sei que os bombeiros são os heróis do povo. Os que morreram. E os que não.
Bem Hajam


PS: e também sei que nada disto aproveita à minha pedra ou a eles. É um zero à esquerda. O meu zero.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Aselhices ImperativaS

Hesitei em escrever este post. Porque vou contar factos que não me pertencem apenas. Mas os imperativos são ordens que se erguem sozinhas, vozes imperiais a que não ouso desobedecer. Eis a minha desculpa para nunca me esquecer de rir de mim: ser imperativo. Cada um desculpa-se como pode. Mas não minto: tenho mesmo imperativos de escrita. Deve ser doença.
Por fatalidade, destino, acaso ou o que lhe queiram chamar, a viagem à Bélgica fugiu ao previsto ainda antes de eu entrar  – eu mesma, seguindo o meu estigma de nascimento, fui, nela,  imprevista. Tínhamos alugado um carro e combinado quem o guiava. Não eu. Despistada e desconhecendo pontos de embraiagem (o problema não é auditivo), excluo-me sempre da condução, facto que muito beneficia os meus acompanhantes e a mim própria. Mas este ano dei por mim sentada ao volante de um automóvel desconhecido. Novinho e cheio daqueles cheiros enjoativos de carro pouco usado. O primeiro que usei sem chave. Na posse do cartão, entrei nele na meia ilusão de quarto de hotel. Liguei-o, experimentei mudanças e pareceu-me óptimo. Mas o mistério aconteceu – acontecem-me muitas coisas misteriosas - ao querer sair com ele. Não encontrei a marcha atrás. Meti as mudanças como indicado e era sempre a primeira que entrava. Vi todo o painel de botões. Revi. Re-revi. Nenhum era o que eu pretendia. Raciocinei, um carro tão jeitoso sem marcha atrás? Mesmo que ele não tivesse jeito nenhum, era impossível (raciocínio assaz destro). Mas, por mais que procurasse, nem sinais. Ou seja, o carro só andava mesmo era para a frente. E, se não fora alguém a meu lado ter-se lembrado, parece que ontem ouvi falar numa patilha, eu teria descido até à estrada a pedir ao primeiro automobilista que me ensinasse onde era a mudança. Não foi preciso.
Aguardava-me a aventura do GPS. Que exige perícia. No GPS. Tudo me eram caixas dentro de caixas, dentro de caixas. Porém, desconhecia a Bélgica. Portanto, levei pendura à conta do GPS. Cujo tinha uma senhora muito expedita a orientar-me, mas que por vezes era acometida de mudez súbita que me fazia dar voltas sem fim às rotundas. Por exemplo. Imagino que enquanto eu andava no carrocel a senhora fosse beber um copo de água ou assim. E não. Não estejam já a pensar que recalculava o itinerário. Nunca tal aconteceu. Mas que, por vezes, eu esperava por ela…é verdade. E a memória que tinha? Dava-lhe o ponto de chegada e ela não mais o perdia de vista. Claro que não podia estacionar em frente dos locais onde me dirigia; se fosse em Portugal gastava mais gasóleo à procura do parque que na viagem, mas ali era fácil. Porém, a minha orientadora não esquecia o objectivo. Mesmo depois, quando eu reentrava e a instruía com outra direcção, a lady fazia questão de, primeiro, terminar o percurso anterior. Uma jóia, aquela senhora. Só não me ajudou nas duas vezes em que deixei o carro ir abaixo.
Da primeira, atrapalhei-me um bocadinho apesar de ter visto que, para o bem comum, estava sozinha na estrada. É claro que levei logo a mão à chave que não havia, fiquei meia parva a olhar o retrovisor ainda sem automóveis, até que me lembrei do botão. Mas afinal o que tinha de fazer era só meter a primeira (estes carros modernos são muito melhores). Levei um bocadinho de nada a descobrir isto tudo, o que afligiu sobremaneira a minha pendura que andava a passar uns tempos aflitos de si mesmos. E vai ela, na sua candura de boia salvadora, enquanto eu procurava a chave que não havia, liga-me os quatro piscas. Nessa altura do campeonato, era a primeira viagem, ainda não tínhamos descoberto onde se ligava o ar condicionado, ou seja, eu desconfiava que um carro tão novo, mesmo na Bélgica incógnita, não podia ter o ar condicionado assim quente e dizia convicta enquanto mantinha a velocidade extrema de 40 km hora, isto é a ventoinha de certeza, o ar condicionado tem um botão qualquer específico. Mas, para quem estava já atrasado por ter perdido tempo à procura de uma reles marcha atrás, arranquei com a ventoinha no máximo – ainda hoje não entendo porquê, mas deve ter sido automático mesmo – o que me impedia de ouvir o que fosse e me fazia quase gritar para ser ouvida na lateral. E o inverso. Portanto, não só não vi os quatro piscas ligados, como não ouvi o tic-tac que faziam. O barulho da ventoinha ensudecia-nos. Continuámos viagem e estava eu muito serena num semáforo, quando a doce pendura, a senhora daquela carrinha está a dizer-te qualquer coisa. E eu incrédula, a mim???! Tens a certeza? Em vez de olhar. Mas, depois de confirmar que estava dentro dos riscos da estrada e isso, arrisquei. A senhora estava a sorrir-me e fez-me um sinal com os dedos das duas mãos a abrir e a fechar. Sou mesmo um bocadinho tapada e gritei para o lado, ela está a brincar ou é a sério? Não sei o que é aquele sinal. E a minha doce pendura em alarme, ai, ela está a dizer que temos as luzes acesas. E eu convicta, não pode ser. Não temos nada; eu ainda nem aprendi a ligá-las. Virei-me de novo para a senhora e embrulhado em linguagem gestual atirei como se ela pudesse ouvir-me e, mais que isso, entender-me, não sei o que é isso das luzes, não percebo nada deste carro. Devem ter sido elucidados gestos porque arrancou num riso aberto que só visto. Outro mistério. Para evitar estragos, arranquei também, com a promessa para a direita, ali à frente há uma faixa onde param os camiões, vamos parar e descobrir se isso das luzes é verdade.
Quando parámos, verifiquei no tablier que as luzes estavam mesmo acesas. E na procura de botões, de repente, saído do nada, zombeteiro e mesmo à frente dos olhos, aparece o do ar condicionado. Hélas! Ligámos e de imediato se fez silêncio. Silêncio, é como quem diz, ficaram os piscas tic-tac, tic-tac. E o repentino da pendura, ai, eu tinha-te ligado os quatro piscas quando deixaste o carro ir abaixo e esqueci-me de os desligar. Ai como eu tenho a cabeça, olha bem a minha cabeça, não desliguei os piscas. E eu de olhos arremelgados à novidade, numa admiração de deuses a descer à terra, Tinhas????!!! Não dei por nada. – e caindo em mim e no ridículo dos semáforos, É pá, a mulher deve-se ter farto de rir com a gente. Então fizemos a viagem até aqui com os piscas ligados…deixa, pronto. Agora já vamos bem. Só já falta saber o que é este sinal verde que nos aparece.
E lá seguimos para casa. Chegadas, fomos ler o manual de instruções. As duas. Ali. A confirmar botões e assim. Para nossa infelicidade, o que queríamos saber estava na penúltima página. Ficámos bem uma meia hora dentro do carro a estudar. Mas aprendemos.
E. Porém. No dia seguinte, queríamos contar uma à outra o que tínhamos aprendido acerca daquele sinal. Mas nenhuma sabia.

Estranho…

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Hiato


A música mora num canto da Praça de Espanha em Bruxelas.  E também noutras ruas, é certo. Mas é ali que se juntam dois ou três músicos de orquestra a tocar os clássicos. E tão bonita a harmonia do som a vogar surpresas na multidão, qual brisa que a atravessa e abranda,  apazigua rostos e alisa expressões, o olhar grato a compassos que estendem mãos à chave da memória. Se uns páram a gosto, noutros, os passos abrandam involuntários. E há quem deslembre, a alma a evadir do corpo posto em admiração. Foi assim com aquela criança que rompeu o círculo involuntário e avançou para o som até ficar frente a frente com os músicos. Quieta, a chupeta a murchar num canto da boca, olhos muito abertos.
E ninguém desfez aquele supremo.

Olhei. E uma compreensão toda nova dominava a praça. No ar, de mistura com as notas, uma exalação rendida e infantil.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A casa da Bélgica


A casa no Inverno. Com frio, talvez chuva carregada. O ar escuro. E depois da porta um calor que lhe vem das paredes, primavera de muito tempo que expõe o amor habitado. Um lar. É assim que a verei sempre, porta aberta no meio do verde, a florir algures num lugar belga. E, contudo, conheci-a num verão em que as petúnias enlanguesciam de calor, o verde assarapantado a amarelecer, mas o que é isto, as árvores a encompridar raízes, falta-nos frescura, sufocamos, por favor acudam aqui onde ninguém nos ouve e tudo começa.
Sorrindo para quem passa, floreiras de petúnias montam-lhe guarda pretoriana. Imóveis. Alegres. Corpo vegetal que se enlaça.  E desmaia levemente no desábito de sol tão insistente. Tenso. Irradiante. Suspiram breves por folhinhas miúdas em queixas rasantes à terra, ai, se nos não trazem umas gotas de água desaguentamos este riso colorido. E se a água um alívio, distendem-se na sua caminha de terra, desenrugam a testa – quem conhece as flores sabe que as petúnias têm o hábito de franzir o sobrolho - vou florir, abrir mais uns botões de que já me estava a arrepender. E as pombas do telhado em arrulhos de aplauso, agradadas da decisão.
Dentro da casa é tudo alegre e fácil; a lembrar o refúgio da floresta onde habitavam os sete pequeninos mais conhecidos no mundo. Em ponto grande. Porque é uma casa de e para crianças. Exceptuando a escada em que cada degrau grita, perigo! Quanto preenchem os filhos o coração dos pais! Não caberíamos no mundo se o sentimento fosse medível. E nesta casa ocupa lugar, as crianças estão por todo o lado: na sala, nos corredores, nas casas de banho, no quintal verde e bonito que nos chama e insiste na pausa.
Os tons da casa são em claridade e alegria. Das flores aos brinquedos, passando pelos acessórios como cortinados, toalhas, bibelots.  Foi projectada e é vivida para gostarmos de viver nela e desejarmos regressar. Um for ever and ever. O amor é assim : chama, insiste suave e veemente. Um lar. Mesmo.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Coisas

“(…) entrarmos no mar às seis horas da manhã. Por quê? Porque é a hora da grande solidão do mar. Como explicar que o mar é o nosso berço materno mas que seu cheiro seja todo masculino; no entanto berço materno? Talvez se trate da fusão perfeita do masculino com o feminino. Às seis da manhã as espumas são mais brancas. (…) Depois voltarei ao mar, sempre volto.”
                                                                   Clarice Lispector

Clarice. Que só na morte atravessa livremente continentes e mares, toda fora da saudade que a perseguia quando assim. Metamorfoseada de livro, a desfraldar seu encanto sinuoso páginas afora, um longe de dedos a acenar assentimentos, sim ela é um mistério. D. Clarice. Arde em zonas penumbrosas que lhe dobram o incógnito, lhe acertam o côncavo das maçãs do rosto, lhe sublinham a curva da boca e descem devagar à figura. Que nenhum destes encantos chega perto de se pensar a si e ao mundo de tão próprio jeito. E mulher mais próxima de Pessoa no amor à língua portuguesa talvez des-exista. Des-encontre.
Eu lhe respeito, D. Clarice.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

As Raparigas

Era frequente acordar com um chamado insistente como nas madrugadas em que precisava estudar e a mãe quase no seu ouvido, filho. Uma voz desconhecida e, contudo, sabia-lhe o nome, Afonso. E ficava a repeti-lo, perto do rosto, até que acordasse. Uma voz de chamá-lo. Como de alguém por incumbência. Um sinal de despertar, Afonso. Abriu os olhos e no meio da escuridão voltou-se para o som. Palpou o ar. E no escuro, no meio do escuro, nada. Voz nenhuma. Ninguém. Estendeu o outro braço e a presença da mulher retirou-o do sonho. Adormecida no seu jeito arrumado, quase a pedir desculpa à cama pelo uso. Tempos houvera em que se levantava de imediato, calçava os chinelos e desatava a escrever. E logo o cão se soerguia em estremunhada surpresa, uma interrogação cabisbaixa dentro dos papos dos olhos, a esfregar-lhe a mansidão no pijama. Mas uma manhã Mariana queixosa, parte-se-me o sono se andas pela casa a desoras, como um fantasma. Imaginou-lhe o sono a estilhaçar pelo chão do quarto, nas paredes, nos vidros da janela. E passou a entreter-se quietamente com o silêncio. Tomava-o nas mãos e ficava a rodá-lo por todos os lados dos minutos. Conhecia-lhe as horas pela qualidade. Se acordava e nem um som de automóvel, seriam as três; se um rodado retardatário ou vespertino, as duas ou as quatro; se um piado de pássaro solitário, as cinco; se os pássaros já repontavam contínuos, as seis.
Para que voltaste. Escrevê-las porquê - perguntou-se. Olhou outra vez o vulto da mulher, a respiração a levantar e a baixar levemente o lençol. Lembrou a voz baixa de Mariana, um nada de alteração, abomino aldeias. Cheias de velhas, desertas de pessoas interessantes. Não podes ir sozinho? Que te falta aqui para escreveres um artigo sobre essa gente? Não tens lá ninguém, os teus amigos estão em Lisboa.
Mas viera. Notou que dormia de lado, a linha da anca a demarcar-se. Passou a mão a descair-lhe para o fino da cinta e a subi-la depois até ao redondo do ombro. E nasceu-lhe uma ternura de tê-la assim abandonada, o cabelo atravessado sobre o rosto, a descobrir a linha do pescoço. Beijar-te. Tão quieta e inocente que sempre foste. E a dúvida um espigão que dói quando pisamos, para que voltaste. Não sabes. Mas tinhas de vir em urgências de tem de ser.
Os pais tinham fechado a casa da aldeia mal lhe chegou a idade de estudar. Na escola nova os rapazes de soslaio, “patêgo”. A mãe em casa, tu és bom de bola, vais ver, marcas golos e logo esquecem. E foi mais ou menos o que aconteceu, os amigos recentes a chamá-lo da entrada do prédio, Afonso. A princípio, voltavam os três, em férias pontuais. A mãe, olhos de pássaro, a alargar sorrisos para a vizinhança em gorjeios de, só aqui respiro, enquanto o pai e ele amontoavam um nunca de bagagens no hall de entrada, mil olhos de criança a espreitar-lhes os movimentos. E depois que crescera, as intermitências de, não vou, preciso estudar; ou, tenho umas coisas para fazer, agora não posso. E as coisas por fazer às vezes eras já tu Mariana. E outras, o meu receio de. E não vinha. Adiava. Mas não. Não te comparei com a saia de canudos. As pessoas não se comparam. É certo, procurei em ti um olhar que não sei dizer. Que procuro ainda. E quem sabe onde mora. Se mora. O que podes temer de raparigas que hoje são velhas, Mariana. Sou eu a procurar-me ainda. Como fui. Um homem leva vida a entender-se com a infância. Que quando ali, apenas vive.
Pensou no encontro do dia anterior. A menina Cidália, os agudos da juventude reclinados em chaise longue, mantinha ainda uma certa aristocracia juvenil nos gestos pesados. E na devastação do rosto, os olhos verdes despediam as mesmas centelhas douradas, restos da rapariga que conhecera, toda frescura. Ouviu o primeiro piado. Breve. Medroso. Cinco horas, anotou.
Escrever-te, Lu. Trazer-te para fora de mim. A apareceres na tua vez de ser. Inteira e intensa, ao sol da memória que me escorraça. Tu. A nasceres de arabescos numa folha. A seiva das palavras a insuflar-te o ar e o sangue, gestos, respirações pelos ângulos de ti, uma alma que te não cabe nos olhos, se alonga pelo corpo e, meu deus, se mistura nos teus tornozelos finos a encaminhar-te os passos. A Mariana, em que pensas? E eu presa tua, atado na parte da alma que trazes nos tornozelos; a disfarçar sorrisos, no artigo de amanhã, tenho uma pesquisa em meio e falta-me muito trabalho. E tu ajoelhada, a levantares o rosto no teu sorriso triste de atar as sandálias – tens um sorriso para cada momento – Não existo.
Certa noite divagante, a impertinência do João, olhos de fixidez bêbeda, a Mariana é o teu sonho realidade? Ou há um sonho-sonho? E a mentira pronta, a afugentar-te de manso, mão esquerda que atira longe o incómodo de uma mosca, não sonho; a Mariana é a minha realidade. E a ver-te de novo, pendurada no inóquo rebordo de um copo, o sorriso amargo, não existo.

(continua)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

As Raparigas

Tanto que a velhice se esforça para viver. Tanto. Quem sabe se não paga a pena. Dei por mim nesta cegarrega do pensamento depois de ter vindo da rua, que eu não sou nada destas coisas. Cheguei das compras e o saco pesava-me a vida. O Afonsinho! O Afonsinho da dona Aldegundes! Um garoto miúdo, morenito, que eu e a Belmira víamos na loja, se encostava quase a nós e enchíamos de beijos de azougue. Que nos mirava calado, corpo de acólito em missa, a transbordar atenção.
A idade já me deslembra. A idade e o resto. O meu genro matreiro, está com a ti osguinha, não é? Vamos lá para a cama. E, em calhando, ontem, a ti osguinha visitou-me. Não. Eu é que a visito. Eu é que não sou capaz de passar sem ela.  
Quando, de exames na mão, a filha me renovou no médico, eu a lembrar os olhos dos doutores que mexiam nas máquinas; não sei o que tanto diziam a bichanar uns com os outros, mas davam-se ares de quem espreitava por aquelas traquitanas e me descobria a vida toda. Eu, olhos no chão, a contar quadradinhos pretos e brancos que me faziam doer a vista e o doutor da consulta a olhar os exames num quadrado com luz que os fazia clarinhos e o meu lado de dentro à mostra para quem quisesse, sem um trapinho a escondê-lo que nem a pele se enxerga. E ainda estou para saber como não escorregavam parede abaixo, que até parecia bruxedo segurarem-se sozinhitos. E quando já ia para aí no quadradinho trezentos preto, os brancos todos contados, fora os que estão debaixo dos móveis está bem de ver, que os das cadeiras não se safaram, ele para a filha, alheio de mim, a pensar que era surda ou estrangeira, ou sei lá, ela mata-se se continua assim. Tem que deixar de beber, o fígado aumentou-lhe para o dobro. E ando a matar-me. Não é que me queira matar, o que eu mato são os dias e as noites, que não os aguento a seco. A minha mãe já os matava. Um a um. E agora eu. Primeiro, a filha esvaziava-me as garrafas, mas com o tempo – o tempo que ensina muito e muito pesa -  desistiu. E vou adormecendo as horas e os minutos todos, até que se me acabem dentro do quarto. E fora o fígado que cresce e me dá que fazer e as garrafas que me estão na lembrança como um ar que se respire, sou normal. Como a minha mãe que Deus haja. Iguaizinhas, nós. Levanto-me morta de sede que não é de água. Depois de matá-la sou normal, faço a minha vidinha, ajudo em casa, vou à praça no cedinho,  todos ainda no sono.
 Hoje, entrei no mercado e tudo no lugar, ninguém diria que o passado me apanhasse assim à sorrelfa, pela fresca. Na entrada, empurrei as portas de vaivém, que nem sei porque lá estão, e um cheiro de fruta misturado com verduras deu-me logo volta ao estômago. As mesmas vendedoras com os mesmos jogos de sorte para venderem o de ontem e outros dias, como se de hoje. Dei um giro de reconhecimento e elas ainda na fase do um, dois, três experiência. Estremunhadas de pele, penas de almofada a ensarilhar pestanas, sorrisos mortos de sono em lábios de desábito a repuxar nos cantos. Esticavam um bocadinho o pescoço e  o pregão parecia um chiar de roldana com falta de óleo, dona Cidália olhe as verduras fresquinhas. E uma mão a passear fracamente pelo que julgo ser a cabeça das hortaliças mas não garanto, a experimentar gestos, deixa cá ver se este ainda funciona, ganhando confiança à medida do acerto, afinal está cá o jeito todo, não perdi nada de noite.  Numa ponta da banca, termos a fumegar café com leite e, na outra mão, bocados de pão embrulhados em guardanapos de papel; desligada da parceira que passeia sobre o verde, esta mão conduz-se sozinha e, sintonizada com a oferta, é servida, aponta-me, desconvencida, a pistola do pão dentado. Um dia aceito e quero ver com que cara ficam. 
 Decidi-me pela banca da Henriqueta. Por nada. Ou talvez porque ela, de boca cheia, dispensava fios de conversa. Enquanto apreçava um molho de espinafres a olhar-lhes a verdura, que isto de verdes engana tudo e às vezes são de há três quinze dias, com muita água benta. Dizia eu, que enquanto assim, se me abeirou um interesse antigo, a pedir recuos no tempo, a minha memória aos saltos para trás que nem um canguru, pim, pam, pum…. e antes que chegasse a algum lugar, é a menina Cidália, não é? E eu nessa altura não era ninguém por não ter um tempo a que pertencer, mas é claro que ele não sabia,  fiquei de boca aberta – calculo que de boca aberta – a dar rédea à memória, despacha-te, despacha-te. E podem ter sido os caracóis ainda loiros, ou o jeito dos olhos, ou mais a linha do queixo, Afonsinho!... e de repente eu não no mercado, na loja, saia aos canudos e cinto elástico, só porque foi isso que ele abraçou. E depois do abraço, não o Afonsinho mas um Afonso cheiroso, homem feito, barbado. E eu velha, a dar-lhe pelos sovacos. O meu saco no braço e ele um soslaio pesaroso, já não usa a balalaica… E quase me senti culpada de, estragou-se; passou de moda. E os olhos do Afonsinho regressados, em saudade de criança retomada, tão bonitas que vocês eram. Tão bonitas. Virou-me para a luz da rua e as portas de vaivém cumpriram,  nunca vi olhos como os seus, nem encontrei linha de pestanas mais perfeita. – e num carinho de admiração - Que bonitas são ainda. E não sei explicar, mas vieram-me as lágrimas e tudo. A mim. Que me aguento à bronca da bebida, que não chorei quando os netos nasceram, que no enxuto corri tanto mundo aos ziguezagues.
Ai Afonsinho, filho, como a vida era! Que a não saibas. Não sejas como os médicos que me leram os interiores. Que não desconfies como ganhei a saia dos canudos, não descubras nunca o desaperto do cinto elástico. Que tão cedo se é às vezes mulher, a repartir homem com quem não seria nunca de fazê-lo. 
Querias saber da Belmira. Mas a Belmira, meu anjo, conversamos depois, que tenho ainda de a ajeitar na memória. 
E a minha filha coitada, tão boa para mim, a estranhar-me o mutismo no sofá da sala, a televisão uma negrura de boca fechada, a mãe está bem? E eu com a Belmira na ideia, imagina tu bem como as coisas são, vi o Afonso da D. Aldegundes.
Pode que fosse do escuro da sala, mas tudo me pareceu que ela embatucou.  Nem um ai lhe ouvi. O tic-tac do relógio a matraquear segundos uns atrás dos outros que me davam fernicoques e a minha Lucinda parada que nem estátua de santo. E eu, ó filha diz alguma coisa, mas ela saiu sem palavra e fechou-se na cozinha.

(continua)