quarta-feira, 26 de abril de 2017

No Tempo da Escola

No entrementes de meu pai preso, das classes uma atrás da outra e das fúrias crescidas da mestra que desmediam sem porquês, eu, Luís e mais dois ou três garotos, despedíamo-nos da escola primária; Lídia seguia-nos na classe atrás. Vivia  empenhada em caracóis rebeldes que penteava contínua, o corpo arredondando em lugares súbitos que me evidenciava sem rebuço e a ferver de orgulho, a baixar e levantar peças de roupa. As precocidades de crescer obrigavam a mãe a milagres com as velharias da irmã, que ela passeava em displicência de olhar e passo, namorando o pátio dos rapazes, qual rainha  entre plebeus. As mudanças assentavam-lhe e ficava ainda mais linda.
Nos intervalos caseiros, entretinha-me a ler os livros da emigrada filha de Madrinha Carmelita, a pares no fundo do saco das maravilhas e que eu recolhia prestes, mal a velhota despontava nos degraus da carreira. Despida de verdadeiro interesse, olhava o início de curvas da minha amiga com alguma curiosidade. Sentia-me plena no meu corpo de criança e, por mais que os exemplos me entrassem olhos dentro, descria, em mim,  da afecção de mudança tão traiçoeira. Despontava-me o traço de “não te rales e deixa andar” nas banidas preocupações com o corpo. Antes me afligia  haver uma prova oral no exame obrigatório que ocorria numa escola da vila, nós avaliados por ignotos professores e em ambiente estranho. A importância do primeiro exame era gancho preso na mente, acicatava. Na volta para casa, eu e Luís discutíamos com alma  a malfadada prova de aritmética e as soluções esquemáticas dos problemas que adivinhávamos, dando prioridade a torneiras abertas para tanques que, em simultâneo, enchiam e vazavam, facto que observávamos com frequência na Quinta dos Sargaços. Enquanto deslindávamos contas e mais contas, eu revia as tardes acaloradas em que nós de mãos dentro do tanque e o hortelão de olho, ainda assim não sujássemos a água, colhêssemos as desejadas cerejas, nos escapulíssemos ao pomar onde as laranjas do tarde convidavam o pálato. Mas nós ocupados a sentir a frescura líquida a correr-nos as mãos, a seguir com os olhos as libelinhas às cores feitas avionetas sobre o espelho de água, a observar os pequenos insectos caídos, aflição a estrebuchar no tanque, e a salvá-los ao despique, palhinha estendida às suas patitas gratas, já salvei mais que tu. E o vulto escuro dele em gestos de enxada maquinal, a encaminhar a água pelos regos, aqui abrindo comportas e fechando ali. E nós cá em cima, um desejo de éden a perseguir-nos o espírito, as  proibidas cerejas oscilando nos ramos a um metro ou dois das nossas cabeças, qual suplício de tântalo; e aquela vontade nunca satisfeita de subir à cerejeira. Ou só com inveja dos pés dele, assim descalços e molhados, frescos. E, à medida que o número de contas aumentava  nos problemas, este tinha cinco contas vamos inventar um de seis, eu atentava no claro som da água junto ao poço, entrelaçado no chiar da nora e revia a concavidade em circunferência de ferraduras a toda a volta, produto esforçado de  silencioso pisoteio  da mula vendada. Parava os olhos na água transparente dos alcatruzes que despejavam a respingar para a calha, glu, glu, glu. E logo ali à frente,  o jorro manso e ininterrupto caía em alegre murmúrio do tabique para o tanque. Do outro lado, sobre o bordo, a grossura de uma rolha de cortiça envolta em trapagem que escorria a espaços, dava sinal de vazamento para a regueira delatora, chão escuro e molhado, dois murinhos esquinados a fundo de enxada. Matutava que o hortelão desconhecia os litros de água dentro do tanque, os que corriam por minuto para a rega, e tampouco lhe importava a quantidade de água que a mula puxava  lá do fundo escuro do poço onde havia um líquido como breu que, à superfície, se mudava em água; assim, numa espécie de milagre de que nenhuma conta tirava a prova. E, lá dos interiores do eco, uma avenca ou outra a verdejar alegrias,  acenando falsidades de aqui é que se está bem, quando aquela parede lismosa e íntima só a elas agradava.

Enquanto vivia esta duplicidade, e a par de Luís amontoava contas sobre contas, cheias de horas e minutos e mais uma data de litros de água que mudávamos para decilitros ou quilolitros apenas para complicar, Lídia cansava-se de nós e pavoneava na frente, a mala a dar a dar. Luís, também ele atento a dois assuntos, seguia-lhe o balanço.  Junto a minha casa, avançava até ela e encontrava recados e motivos para lhe fazer companhia. Se acaso o via regressar, puxava da bicicleta e desaparecia num arrepio, os pedais em vendaval. E eu enfronhava no quotidiano e esquecia-os até ao dia seguinte. A meu modo, era feliz e não pensava na forçosa separação da trempe. O écran gigante do exame absorvia-me a realidade. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Abril, Sempre

Desde cedo tive simpatia por revoluções. Em garota, o facto histórico que mais me movia era a Revolução de 1640. Mas, em história como na vida, os factos sucedem-se.  E, por muito que o destino possa vir ainda a castigar-me, nada me agrada tanto como viver nesta era e ter assistido, já com algum tento e juízo, à Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. Que, logo ali, na sua imperativa factualidade,  eclipsou a de 1640 e mais todos os conjurados e traidores.  Não que eu soubesse em profundidade o que era uma revolução ou fosse uma democrata. Nada disso. A palavra democracia só a tinha estudado na antiga Grécia, por ser o regime da cidade-de-estado de Atenas e pensava eu que estava fora de uso, e fosse apenas uma boa experiência exclusiva dos gregos de antanho (era assim, a minha ignorância).
Como à maioria dos portugueses, no dia 25 de Abril de 1974, a  revolução e seus adereços apanharam-me desprevenida.  Não entendia as marchas militares que a rádio passava sem cessar enquanto as ruas de Lisboa estavam em polvorosa: blindados a passearem pela Baixa, militares despidos de rispidez que acamaradavam com o povo;  civis como formigas, incontíveis e inúmeros, pendurados em todo o lugar do largo do Carmo, empoleirados em árvores e fontes, a esgueirarem-se pelos meandros do cordão militar, querendo espreitar a história em directo. No ar, uma alegria expectante. E breves relâmpagos de Salgueiro Maia.  Eu, mais tarde, a olhá-lo incauta, deve ser algum sargento que manda nos soldados (lamento, Maia, mas o meu mundo só tinha sargentos e soldados). Mas afinal era o capitão de Abril a quem devemos tanto. Que, apesar da conjuntura favorável, uma revolução sem sangue e que empunha flores, só num país de poetas e à beira-mar plantado. E o gesto de alegria das vendedoras do Rossio e Terreiro do Paço virou senha. E o primeiro cravo branco virou rubro. E toda a gente usava um cravo. Por ser bonito. E porque as flores dizem melhor que nós o contentamento. E porque, noutros lugares do mundo, outras revoluções as tinham usado. E depois os tiranos, bem à portuguesa, foram exilados e seguiram para Brasil e Madeira que mais pareciam destinos de férias.
Nesse período, viveu-se um irrepetível tempo de acreditar. A força de Abril abriu no coração dos portugueses uma esperança de dias melhores. E assim nos irmanou. É dessa crença conjunta que tenho saudade. Dessa irrupção da crença a dinamizar a vontade de mudança de um povo ainda sem divisão. Porque  o povo, a grande massa anónima a que pertenço, pouco sabia de formas de governo. Mas a vida era tão arrastada que agarrou a mudança e fez dela bandeira. Acreditou. Nesse hiato inaugural, os portugueses  juntaram-se em aspiração e desejo. E era ver actores e actrizes em euforia, desfilando pelas ruas de mão dada a gente anónima; ou, à porta do Forte, Sophia Andresen, a Poeta, que aguardava com outra gente, florinha na mão, delicada como ela só, a saída dos presos políticos em Caxias; e Mário Soares, e depois Álvaro Cunhal, em regresso apoteótico, saudados não apenas por socialistas e comunistas, mas por tanta gente que os não conhecia e assim homenageava quem por ela lutara e sofrera na sombra; e Manuel Alegre, o trovador da voz profunda, exilado na Argélia, a escrever poemas de saudade incomensurável a Portugal, como a Trova do Vento que Passa, “Pergunto ao vento que passa/ notícias do meu país/ e o vento cala a desgraça/ o vento, nada me diz”, versos que devieram canção na voz única de Adriano Correia de Oliveira; e a alegria solta nas ruas com o regresso dos presos políticos, gente sofrida mas vitoriosa e cheia de vontade de viver em paz e liberdade; e a liberdade de expressão de que os jornais faziam alarde e antes desconhecíamos; e os cafés cheios de gente e discussões sobre tudo, sem tabus. Empolgava-nos o entusiasmo de estarmos a escrever a história e viver a novidade chamada DEMOCRACIA, termo de origem grega – nasceu mesmo em Atenas -  e que significa um regime político onde o poder cabe ao povo. Em democracia, o povo elege os seus representantes através do voto.
Depois, contra ventos e marés, um novo governo e a vida do povo a melhorar. As manifestações, os sindicatos, a militância política, o conhecimento. E tanta palavra nova, tanto mundo que desconhecíamos e ninguém nos contava. Quanta luz Abril nos trouxe! Lembro sem exaustão o Serviço Nacional de Saúde, gozo de férias, optimização de horários de trabalho, ordenado mínimo, subsídios a quem mais deles precisa e a protecção do Estado aos mais desfavorecidos, a generalização da educação gratuita...e a Liberdade para pensar e decidir como estar na vida,  a liberdade crítica do pensamento, essa possibilidade infinita que os mais novos usam sem saber que crescemos em parte privados dela, num mundo de autoridade temerosa e em que “não se podia falar”. E quanto não se pensava por nem sequer sabermos que existia! Porque o respeito só em democracia existe. No mundo do déspota reina o medo e a ignorância, não o respeito.
O reino do medo passou. Cabe-nos o dever ético e cívico de ensinar aos novos o respeito que conquistámos no dia 25 de Abril de 1974. Ou nada aprendemos com a História.
Abril, sempre!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Em Nome da Gata

Encanta-me a naturalidade com que toda a gente posta sobre temas que, pensando bem, podiam ser os meus. Só que não me ocorrem. O certo é que, marginais ao grau de interesse, mal penso num, as palavras me saem inóquas e sem graça, uma espécie de perna de boneca esquecida na dobra do sofá, que se retira para não incomodar. O meu respeito por elas tem a humildade dos intocáveis, a casta indiana mais baixa, considerada tão indigna que recua varrendo o chão que pisou a fim de apagar as pegadas e por não poder virar costas a quem é de casta diversa; mas, como não posso dar-lhes as costas ou recuar – ninguém nesta vida pode recuar, o tempo não nos dá esse gosto – apago, sacudo o rasto de borracha no papel, e vou à minha vida. ‘A minha vida’ é um modo de dizer, não há nenhuma vida que seja minha. O que há é eu a fazer de conta que é meu o que talvez nem tenha dono. Os determinantes de posse nunca foram saúde; a posse é uma espécie de bactéria alojada que não encontrou a sua penicilina.
 Por outro lado, o tempo gasto na blogosfera maravilha-me: são centenas de afirmações e negações convictas, e até nos pequenos desabafos, perpassam as certezas que me fogem. Se houvesse uma osmose mental, colava o nariz ao écran do portátil e, quem sabe, as certezas encanavam e subiam por inalação. De modo que, se por acaso alguém me fixa, sou um certo poema de António Ferro, “Não sei viver/ nunca soube viver/ sou um relógio que pára de quando em quando/ falta-me o ritmo, a continuidade…” e interrogo-me, será que deu por isso, que me viu o ponteiro dos minutos parado? Ou, por sorte, fixou-se no das horas? Nessas alturas, disfarço como posso, sem a âncora de um assobio que me salve.
É por estas e por outras que resolvi falar também da minha gata. Tal e qualzinho. Ao invés de mim, a gata sabe o que quer e tem um querer donairoso. Não tem raça, estirpe ou pedigree. É inteira e sozinha, e dá pelo nome de Gata. E, como em amor acontece, tudo nela me é um gosto. A paciência caseira, aspirante saudosa de ração; o olhar de enigma, rasgado em contas de transparente azul; a fundura abandonada do sono; o seguidismo lânguido, todo atenção e silêncio, olhos em vincos de ternura semicerrada; o jeitinho macio de, sem palavras, focinhito espreitando no postigo, me informar que regressou e quer entrar. Mas, o que mais me quebra, é a exuberância de alegria rebolada com que me acolhe se saio à rua, as corridas na frente das minhas pernas, a subida travessa aos arbustos e árvores mais próximos numa exibição de festa retumbante. E, como disse Pessoa acerca de um humano Menino Jesus, por que razão não há-de a minha gata chamar-se Gata?!



(texto adaptado de outro que escrevi em tempos)  

quinta-feira, 6 de abril de 2017

No Tempo da Escola

No  Alentejo, os dias andam ao pé coxinho e é mais lento o grão a grão no estrangulamento da ampulheta. Contudo, alheio ao vagar do espartilho temporal, o trajecto dos fenómenos humanos é semelhante em todo o lugar. Por exemplo, a coscuvilhice que grassa em tempo embatucado e indigesto, faz-se necessidade social. E é injusto reduzi-la ao mundo feminino, cusquice não tem género e aprende-se de uns a outros, num agitar vivaz das águas comunitárias. Numa aldeia, provoca estremeções, faltas de ar e de coragem, compaixões e simpatias ímpares, lágrimas em corda. E outros desvarios.  Mercê deste exercício contumaz do conversedo, surgem mudanças insuspeitas. Todos os homens são devedores da cusquice. Como sujeito ou como objecto, a demarcar-se ou a embarcar em aceitação acrítica, ela molda-o. Corre-o sem originalidade. Primeiro, as novidades são comentadas, escarrapatadas como osso atirado à fome, em perseverante atenção de língua que faz caminho até à última lasca de fêvera.  É nesse período que toda a gente ajuíza miudamente e forceja por acrescentar. Depois, é como se a fome de conversa sofra desgaste à medida do aumento de rotações da Terra. E, por ausência de acrescentos e de gente que o receba em embrulho de novidade, o assunto deixa de apetecer. Aborrece. Cede lugar.
Mesmo nesses que a língua sovou, ensaboou, esfregou, torceu, a vida desenvolve mecanismos de compensação que amortizam desgostos, aconchegam consciências e aplacam paixões e amores. As iras viram ódios mansos ou apenas más vontades e resolvem-se, quase sempre, com tréguas que se tornam paz definitiva, ou vêm a terminar  em simples torção de pescoço odiento a impedir-se de ver o odiado; ondas de tempo limam arestas aos desgostos insolúveis que pousaram no banho-maria das lembranças; os sonhos, mudados em soberanos impossíveis, giram na estratosfera e a alma guarda-os etiquetados e quiméricos,  “O que não pode ser”.  Contudo, foram alguma coisa: sonhos.

Na aldeia, as folhas de jornal serviam a embrulho de sabão azul  e outros artigos de lavagem. As notícias, em regra, eram locais.  Corriam de boca em boca baseadas  no diz que diz colhido na mercearia, na taberna, na igreja. E era rastilho que chegava a todos os fogos, acrescentado de uns lados, rasurado de outros. Havia quem se aproveitasse do corre corre das novidades e, à sombra do quase anonimato, desse voz a ódios antigos e invejas malsãs. Se a difamação era de peso e encontrava gente honrada e de princípios, morria no posto da guarda nacional republicana onde os guardas não se coíbiam de uns sopapos em caso feminino e duras sovas se masculino. Além disso, multavam os provocadores e, em casos mais graves, provavam o calabouço. Difamar, era sistema de linguarudos mentirosos que viviam galhofeiros  e destravados de boca e consciência. Mas o balanço das novidades fazia-se na oralidade, cada um no seu papel, passando o testemunho. Depois da visita a meu pai foi um nunca acabar de perguntas. A reabilitação  da nossa família começou, como era de regra, numa salutar cusquice. O  mérito coube a minha mãe e sua tristeza desalentada, por via das condições em que o achámos.  Depois de muito preocupar e inquirir, a aldeia transmutou. Meu pai virou história aceite e condoída e reapossou do nome; eu, deixei de ser “a filha do comunista”; minha mãe regressou à sua condição de mulher casada com marido ausente. O grupo envolveu-nos num abraço compreensivo e a cusquice amorteceu, mudada em lamento e apoio.  Adaptei-me com veemência a vivermos as duas e gozei quanto pude o papel  de vítima, deliciada por ser objecto de tanta atenção e olhar penalizado – extensivos à escola e até à professora -, e propus-me, sem a arte de Lídia, esticar a situação quanto possível, sem reparar que era simples beneficiária dos eflúvios acarretados pelas parcas conversas maternais.  Entretanto, presa do crânio descabelado e ossudo e da magreza de meu pai sob a roupa, temerosa do ar bovino dos guardas prisionais e daquele mar que não me descansava, neguei-me a voltar a Peniche. Decisão sem préstimo, que nem a minha mãe foi permitida nova visita.  

segunda-feira, 27 de março de 2017

Margarida Vale de Gato

Um destes dias, falaram-me na Feira do Livro de Leipzig (Leipziger Buchmesse),  cidade do leste alemão que organiza um festival da literatura jovem alemã. Ali se cruzam leitores de todas as gerações e escritores de várias nacionalidades com obra representativa das novidades literárias dos países de origem. Entretanto, soube que o festival Leipzig lê é o maior festival de leitura da Europa e, pelos vistos, bastante dinâmico, dado o número de eventos (ronda os 3.400) a ocorrer nos dias e no recinto da Feira (este ano entre 23 e 26 de Março), e disseminados pela cidade: livrarias, cafés, bibliotecas, bares, estações de comboio, lojas de lingerie. Ideia interessante. De seguida, investiguei quem nos representou este ano.
            Estava eu satisfazendo a curiosidade quando, de entre os oito escritores nacionais convidados, deparei com um nome que me arrebitou a orelha: Margarida Vale de Gato. É que, se Margarida é nome floral, bonito e comum, Vale de Gato é apelido pouco usual. Saltei a informar-me a preceito na milagrosa net. Vi-lhe o sorriso bonito e soube que sim, nasceu em Vendas Novas (1973) – pertence às famílias Vale de Gato e Oliveira. De seu nome, Margarida Isabel de Oliveira Vale de Gato. Pois esta senhora de riso aberto – nas fotos –, a avaliar pelo currículo, é mulher de muita actividade, daquelas que arregaçam mangas e vão à luta; e gosta de deixar obra asseada. 
Margarida gasta a vida à volta das palavras. É um amor que lhe entrou e não debota nas soalheiras da vida. Senão, repare-se: é professora de Tradução Literária na Faculdade de Letras de Lisboa, é poeta, contista e tradutora (traduziu, de inglês e francês para português, textos literários de diversos autores, como Lewis Carroll, Christina Rossetti, Oscar Wilde, W. B. Yeats, Edgar Allan Poe, Herman Melville, Henry James; e mais). E ainda tem dois livros de poesia publicados, Mulher ao Mar (2010) que foi reeditado com o nome Mulher ao Mar Retorna (2013); e Lançamento (2016).
Recapitulando: a poeta é vendasnovense por nascimento e família. Hélas, que a terra dá bons frutos e nem sempre se conhecem. Pois, muito prazer, Margarida. Saiba que fiquei até um bocadinho orgulhosa. Uma poeta nascida neste Alentejo de estios sufocantes  e transidas invernias,  convidada e publicitada na Feira do Livro de Leipzig. Cai bem no espírito de pertença do alentejo profundo. Amanteiga-nos o âmago. E acredito em si para dar boa imagem dos novos poetas portugueses. O nosso pequeno rectângulo extravasa de gente que escreve (certo, nem todos os que escrevem são escritores), mas ser um dos oito convidados em Leipzig,  é obra. Parabéns!

Avaliar – e também amar - o poeta é lê-lo. Relê-lo quanto se queira e precise. Em voz alta, que a poesia é oral como afirmava Sophia.  É na modulação balanceada das palavras que a poesia cresce e se conhece. E reconhece.

A IMAGEM ROMÂNTICA

Há outras coisas, Horácio
E a tua filosofia é barata
Na verdade não custa fixar
As coisas ideais à distância:
Terás vista panorâmica
Mas sempre a visão é polémica

Gostava que alguém me mostrasse,
 mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.

As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as *monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm. Pessoas morrem. A vida
é breve. Impávido o
real se esquiva a designar.
Comparar é colidir: o verbo
Talvez nos leve
a mais nenhum sinal

*monarca - borboleta

Mulher ao Mar (2010)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Dias de Assim


Há dias assim, a gente acorda e a baça vida não apetece. Passamos a limpo os compromissos e não há coisa para abraçar. Sabemos das flores, do sol, do mar, da música. Mas é tudo demasia. Distante. Lá. E nós aqui, na lassidão comprida de zeros cronométricos.
Erguemo-nos. Exactos de sorriso. Iguais. O alimento dos olhos falha na janela e nem o pequeno almoço nos agarra. No relógio, o dia corre a sua indiferença e o corpo multiplica-se em aventuras de autómato.

De súbito, eles entram no olhar. A todo o pano. Sentados lado a lado, num tête-a-tête cúmplice. Semeiam à flor da pele entremeios de ternura desvalida, autenticidades carinhosas e originárias. Evolam um excesso de princípio tão antigo que comove. A intemporalidade poética transparece, dói nos olhos e dilata no coração. Depois saem. Imersos. Semiconscientes de mundo. E deixam na memória o raro odor de amor feliz. E a alma da gente feita girassol.

terça-feira, 14 de março de 2017

No Tempo da Escola

No temor de não encontrarmos o largo da paragem, regressámos pelas mesmas ruas, somando sinais e pormenores. Lá estava a taberna com a rede na porta e de janelico fechado, o toldo num badanal; a caixa de correio agora escura e sorumbática, sem a cor ridente de antes; as casas de galochas calçadas, a barra um escuro de bota.  Apercebíamos a vida familiar por detrás de portas riscadas por fendas luminosas e buracos de prego de onde escorregavam gritos, risos, descosidos de conversa que ficavam a esvanecer no passeio; o receio desviava-nos de um  ou outro bêbado que não nos lobrigava,  perna bamba e aos esses, enfronhado num conciliábulo de si consigo, porfiando em dobrar uma conversa de hieróglifos. Sem defesas, arrepiávamos na roupa minguada, Dezembro a fazer-se presente poro a poro, os cães vadios por certo abrigados do frio em algum lugar. Eu tremia entaramelada, doíam-me as pernas e os pés, esguedelhava sem memória de caracóis e penteados, sentia fome. E só criei ânimo quando, já na paragem, o autocarro se apresentou. Iluminado. Assentos vazios e descansados. Um abrigo aquecido a convidar-me. Entrei aos tropeções engadanhados, sentei-me, encostei ao vidro e apaguei. Acordei com a cabeça no regaço de minha mãe, um barulhinho de chuva a bater no tejadilho e o motor, rom-rom-rom...e adormeci de novo.  Revivi a um estertor mais profundo do motor  e atentei nela. Absorta, mergulhava em tristeza profunda, olhos vermelhos e inchados. Tinha na mão o lencinho de aparar as lágrimas mal elas a meio caminho do nariz.  Sem bulir, fechei os olhos de novo. Preocupada e atónita, deixei-a extravasar o desgosto, não tanto  por lhe encontrar direito como por não saber o que fazer.  E quando mais tarde me acordou com palmadinhas no rosto, tinha o sorriso de sempre. Num fundo de meio remorso, eu, que entretanto não dormira, alegrei-me, aquela era a mãe que eu conhecia.
Na volta, o caminho até ao barco pareceu-me extensíssimo, mas embasbaquei de novo nos candeeiros da rua. Muito mais bonitos que os de Peniche, derramavam uma quantidade de luz tão superior que impressionei, a rua via-se por inteiro. A poder de tanto luzir,  a cidade nocturna era uma festa. E havia o incomensurável das estátuas que dominavam descomunais, ao centro da lisura de praças maiores que o enorme bocado da aldeia que eu conhecia. Como tudo era grande em Lisboa! As estátuas, supremas e terríveis, à coca; tão altas que continuava a não conseguir vê-las por inteiro.
Entretanto, uma chuvinha miúda acabava o trabalho do frio. E eu desejava chegar à minha aldeia sem luz, entrar no conforto desconfortável de minha casa e dormir o sono que uma madrugada de rolos e excitação me tinha roubado. Precisava repousar as novidades do dia. Apesar de tanto desaire e cansaço, cá em baixo, no lugar que eu desconhecia ser o Terreiro do Paço, maravilhou-me o espelho negro do rio tremeluzindo aqui e ali, cruzado de tempos a tempos por barcos iluminados farreando sobre as águas. E que bonitas as luzes dos longes no outro lado, onde eu antevia um comboio a esperar-me. Indiferente a ser noite ou dia, Lisboa era cheia de gente sem descanso, para cá-para lá, para cá-para lá. Muito casaco ambulante, guarda-chuvas que à luz ganhavam beleza e desenhos nunca vistos, senhoras que traziam animais ao pescoço. Minha mãe para a minha instintiva agastura a fixar uns olhos de raposa sem fazer ideia que bicho fosse, é só a pele do animal, não precisas ter medo, os olhos são postiços; e eu a eriçar de má vontade à mulher, apiedada do bicho que àquela hora penava mais que eu, assim nuzinho; e passava gente refastelada em táxis lampeiros e sabedores de caminho, mas que não eram o do senhor Laurentino. Junto ao barco, o rangido da ponte levadiça, as águas que alargavam e encolhiam à medida dos balanços e que era necessário pular, a minha mão aferrada na mão de minha mãe, agoniada daquele pedaço de chão móvel. E o fascínio trémulo das pernas, "não somos capazes". E,  por fim, ela a içar-me em peso.
No comboio tardio e pouco concorrido, minha mãe deitou-me no banco, puxou-me o vestido para baixo e adormeci, cabeça no seu colo, largada no descanso  do braço que me rodeava.

Fizemos o caminho até casa na maior escuridão e silêncio. Além dos nossos passos, só um cão ou outro a pressentir-nos em rosnadelas baixas como se com medo de acordar alguém, que os cães têm destas delicadezas inesperadas. Ao abrir da porta, minha mãe, espera que acendo o candeeiro e vou pô-lo no quarto. Entrou de candeeiro na mão e postou-se a olhar-me. Comecei a tirar o casaco de lã e foi ao virar-me que o vi. Sobre a minha almofada, armado e folhoso, estava um bibe branco rodado. Num friso  da saia, a toda a volta, tinha bordada a história da carochinha. E era tal qual o que eu vira na revista de minha prima que bordava para fora. Ficámos a olhar-nos sem palavras. Depois, minha mãe murmurou, o dia foi muito comprido, mas é Natal, filha, é o teu menino jesus. E eu, grata e contente até à medula, saltei a abraçá-la pela cintura, gosto tanto de si, mãe. Então ela pousou o candeeiro, levantou o bibe, pendurou-o sobre a cadeira e veio, como de hábito, ajudar-me a deitar. E quando me beijou e ajeitou a dobra do lençol, os meus olhos fecharam de peso  e bem estar.