sábado, 28 de outubro de 2017

Educar

Setembro surge-me anualmente como um começo. Uma espécie de Ano Novo antes de tempo. Talvez seja porque me passam à porta as crianças da escola antes dita primária. Já não usam malas castanhas de rebordo redondo, feitas em cartão grosso, uma pega a meio. Hoje, transportam nas costas mochilas alegres ou puxam-nas como um carrinho de compras. Não vestem bata e poucos têm risca ao lado. Mas os principiantes trazem nos olhos o mesmo incerto temor, um receio  antigo sobre ler e escrever. E os sorrisos de nervos disfarçam a inépcia de mãos e mente.  A escola há-de moldá-los formando e instruindo. A escola. A quem hoje tudo se pede. Que informe e forme. Que guarde e proteja. Que substitua o que é insubstituível: a família, primeira célula a que cada um pertence e cujos princípios têm de ser firmes e bondosos. Porque só na família se educa com o amor a sobrepôr ao dever, a protecção sobrevoando – e quantas vezes empatando – os voos de autonomia.
Desde cedo a educação dos jovens preocupou os homens. Veja-se o exemplo de Platão, pensador que viveu três séculos antes de Cristo e se dedicou em pormenor ao tema: que valor tem a educação na vida de um jovem, quem devia ser educado, quais os saberes (disciplinas) com importância e quais os dispensáveis, como se aprende e se alguma coisa pode ser ensinada. Não vale a pena falar aqui sobre as respostas que este filósofo encontrou. Mas vale a pena pensar que, até há poucos anos, saber alguma coisa exigia trabalho, luta pessoal contra a preguiça, pensamento próprio a sobrepor-se ao comodismo. E que tudo isto já Platão disse. Mas hoje, não. Hoje somos modernos e o ideal de saber é lúdico. Ou seja, pretende-se que o aluno escolar aprenda com prazer, a manusear alguma coisa, a descobrir concretamente. Que construa saberes individuais, jogando. E há o recurso às novas tecnologias, o uso e abuso delas. E surgem projectos  empreendedores. A escola centra-se no aluno concreto e na sua envolvência para lhe possibilitar o crescimento. Individual. Isso mesmo: o que importa é o indivíduo e a sua adaptação ao mundo concreto. Portanto, saberes fora dessa esfera, são banidos. Tudo interessa para algum fim concreto. Disciplinas sem aplicação directa a alguma coisa perdem importância e encurtam-se as horas lectivas. Ou saem do currículo. Assim estão as línguas, a história, a filosofia. As humanidades em geral. E aí vem mais uma reforma no ensino (já houve muitas). Não entendo reformas educativas que não privilegiam a cultura como saber universal, o particular entende-se melhor se integrado no todo a que pertence. Não entendo a promoção de uma cultura de superfície, individualista e empreendedora, assente na ideia errada de que tudo se aprende com o mínimo esforço, como num jogo. Não entendo que por exemplo o latim não seja ensinado nas escolas, somos uma língua latina e nada sabemos da nossa origem. Não sou contra concretizações do saber, trabalhos de projecto, uso das novas tecnologias. Mas sei que existem matérias fundamentais que nos estruturam a mente e não se aprendem num mundo de facilidades.

Em rigor, o pensamento concreto também existe noutros animais. O que sempre nos distinguiu deles foi o uso da palavra (e logo o raciocínio e a reflexão); e a conquente acção que, nos homens, pode ser moral. Ora, reduzirmo-nos a aprender a utilizar e explorar o mundo que se oferece ou a criar instrumentos para facilitar o seu uso, é redutor. E, já foi provado que os animais, desde que estejam em presença do problema, também são criativos, encontram soluções. O que eles não sabem é de moralidade. Mas nós, sim. Somos sujeitos morais porque sabemos o que fazemos e se com isso causamos dano ou bem a nós e aos outros.  Somos morais porque distinguimos o que é bem do que é mal. E isto ensina-se com o exemplo. Nas escolas e em todo o lado. E com as tais disciplinas que não têm utilidade  imediata, mas são estruturantes de uma mente que se quer humana.

domingo, 22 de outubro de 2017

A Busca de Sentido

Desorienta-nos o sem sentido da vida. Que ela, por si mesma, garanto, não o possui. Somos nós, seres pensantes – nem sempre bem pensantes –, quem lho outorga. Exigimo-nos nela, é o que é. Bem sei que é lugar comum, mas tenho de sublinhar a humana vaidade, o egocentrismo, a necessidade da muleta racional, o indicador de caminho que subjaz a este pressuposto de sentido que requeremos e apomos a todo o existente.
No entanto, se escavamos no buraco a céu aberto da nossa insegurança vital, temos de reconhecer que tal exigência de sentido nos convém. Não é apenas um capricho de criança mimada, uma ascese religiosa e fanática - até por nem todo o sentido encontrado ser de índole religiosa  -  a procurar cómodos na facilidade dos passos. Não é apenas, mas também pode ser. Que a vida segue sem nós. Imperturbável. Mas, facto fundamental, nós não seguimos sem ela. Se nos falta, terminamos. Por isso, tentamos acomodá-la ao pensamento, à racionalidade que nos orienta e provou ser, até hoje, pelo menos no campo científico, o conjunto de medidas mais eficazes contra doenças e acasos naturais e humanos. Supostamente, a razão, porque compreende,  preserva-nos de moléstias maiores. Agita-se contra a gama de malefícios que, de forma irracional e incompreensível, causamos uns aos outros. Portanto, nesta linha de procura de sentido global, a vida, nosso bem mais precioso, não se exclui.
Quando, já tarde, me iniciaram nas linhas da filosofia, disseram-me que ela nos interpela pessoalmente e faz colocar perguntas gerais, como: por que razão existimos, o que cabe a cada homem fazer no mundo, o que nos espera depois do fim (o que é contrasenso, depois do fim não devia haver nada). Mas, e apesar de estar já na casa dos vinte, nenhuma das questões me preocupava. Devo ser uma avoada de marca maior porque continuo a desconhecer as respostas e não me preocupo grandemente com elas. Não as procurei. Mas agora, neste preciso momento, vou tentar.

Vejamos. Não posso responder pela humanidade. Logo, tenho, talvez egocentricamente, de pensar no meu caso.  abordemos a primeira questão, “por que existimos”. Cientificamente sabe-se que viemos de uma espécie de símios que se desenvolveu até mudar de categoria e se chamar ser humano. Não se sabe se foi dose de acaso, se tem sopro divino, mas demos no que demos. Também ainda não descobri porque existi eu e não outra pessoa, ou porque razão, sendo eu, não possuo outras singularidades, mas só estas; e pouco me interessa se a mistura genética foi casual ou envolve a divindade. Interessa-me que foi. E ainda é. Ao invés, sei que existo e que posso pensar (como Savater, subverto a evidência cartesiana), facto que agradeço em todas as horas e minutos da vida; sendo pessoa, ser pensante, reconheço: detestava encarnar em qualquer outro animal. Peço desculpa a Platão, pensador que admite a escolha entre ser homem ou bicho, mas para isso tinham vocês de ler, pelo menos, o livro décimo da República, obra que não prejudica ninguém apesar de ser antiquíssima. Portanto,  existir é a minha glória; e existir pensando, o maior bem. Todas as causas que estejam por detrás desta evidência me desinteressam. Sobejam. Não lhes faço caso.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sopro

Olívia

            Bem sei que hoje não tens tempo e és bebé. Que os mais próximos, pelo menos esses, te vão abraçar e dar parabéns. E nem sabes quanto desejo que assim seja.
            Quem me dera poder fazer-te um bolo com velas. Um bolo suave, a destoar daquele em que a mana se enganou na receita e ficou dulcíssimo, as senhoras todas finas e mundanas (outro mundo, outro mundo) elogiando por bem parecer, pires xpto na mão. E eu sabendo que não, mas fingindo também. Far-te-ia (ó estranheza de conjugação) um bolo comum, sem extraordinários. Só por gosto de fazê-lo. Contente de ti que gostarias ao menos da ideia. Porque és pré diabética e o fígado, e mais mil e um motivos que encontras para te furtares aos doces que nem aprecias; e também por teres um bocadinho a mania das doenças, sua hipocondríaca disfarçada:). Ainda bem que não te perdes a googlar a lista completa de maleitas com mais os adereços. Endoidavas de vez.
Mas repara, a ideia de haver em alguém uma alegria de que somos causa, é prazer semelhante a quando sobes com dificuldade uma rua e lá no cimo verificas que o resto do caminho é descendente. Suspiras de alívio e satisfação. Hoje, és a minha rua a descer.
Olha, também podia fazer-te uma diáfana massinha de peixe (mas tinha menos piada e deslocava). Ou, quem sabe, não preferias a sopa de peixe à alentejana, um caldo de peixe com tomate e sopas migadas no prato. Com o teu amor pelo pão eras bem capaz de preferir o último. E escusas de negar, bem sei que nos restaurantes usas de contenção para não o atacares com vigor. Há pormenores que fixo sem querer, queres o quê?!. Mas pronto, deixemos o cardápio em paz. Fica só o bolo sobre a mesa e pronto. E depois apagas as velas com as crianças. É um dever teres crianças por perto; não há bolo de anos que valha a pena sem crianças. Que é para acenderes as velas n vezes. E elas apagam à vez, agora sou eu, agora eu, tu já foste, chega-te para lá se faz favor, eu é que fico aqui em frente do bolo. Portanto, minha doce amiga, junta vizinhos, primitos pequenos de terceira ou quarta geração, não importa quem, mas crianças.  Porque a vista dos bolos de aniversário insufla-lhes as bochechas e cantam que se desunham. Nada a fazer, são exuberância necessária ao teu dia.  
E parabéns por mais um ano. Aproveito o momento e saio enquanto o coro deles entoa e só as velas brilham no escuro. Na verdade,  mercê das circunstâncias e de nós duas, não chego a fazer-te falta.  No entanto, como outros que te rodeiam, estou sem estar.

Um beijinho doce e algum génio para mais um ano difícil

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Teclas Sem Rumo Certo

O mundo não anda bem, evidência que se apercebe sem arte ou complexidade. Está. O mal do mundo implantou e vive um pouco como aqueles mamarrachos que estragam a paisagem e só vistos de longe causam menor dano; próximos, são puro mau gosto. Estão. Isto porque, em bom português, o que está nem sempre é. Pode ser. Ou não. Muito embora, em alguns idiomas, o verbo ser tenha dupla face e seja também verbo estar. Dois em um. Para nós, portugueses,  uma coisa é uma coisa e ela apenas. Ponto final. 
Contudo, será possível ser sem estar e estar sem ser?! Vamos por partes. Se eu for um sujeito dado à experiência e ligado ao que é físico e mensurável, se chamo ser ao que posso agarrar, puxar, empurrar de alguma sorte, direi que tudo que está, também é; e que é impossível estar e não ser (quem uniu os dois verbos linguísticamente, era decerto experimentalista).  Mas então para que foram os portugueses – e decerto outros povos – cindir o ser do estar. Seremos povo muito dado à meditação e filosofice. Pois, nem por isso. Percorra-se uma história da filosofia. Não há um único filósofo português (cuidado para não se inferir que não reflectimos e somos uns cabeças de vento; não é isso). É um bocadinho triste não termos um nome a soar na história do pensamento filosófico. Mas pronto, somos pobres, temos de trabalhar, damos uma no cravo e outra na ferradura e a reflexão é exigente e descompadece destas misérias. Que, não esquecer, a filosofia  nasceu do ócio. É isso mesmo que estão pensando, é filha do papo para o ar, do trabalho escravo, da subsistência assegurada. E, com o tanto que aquela gente escreveu e pensou, e de forma elaborada se propôs a entender o mundo – difícil e impenetrável a muita gente –, ainda por cima fazendo sentido, o que é deveras admirável e original, pois, dizia eu, não foi decerto a aplanar tábuas de navio ou a passar fome e a morrer embarcados a intervalos sem marcação, que filosofaram. Meus senhores, estes portugueses não tinham tempo nem requisitos para tal função. Se nem sabiam ler. Dir-me-ão que houve um filósofo que nada escreveu. Ora, não escreveu, mas sabia fazê-lo; além disso, tinha um secretário de qualidade visto que tanto sabemos do seu pensamento e da forma como discorria e ele mesmo nem uma letra redonda deixou. Podem redarguir, ah, e os letrados, a finura dos nossos gentis homens?! Desculpem, desculpem. Já sei, houve um rei poeta logo na primeira dinastia. Casado com uma santa. Tenho para mim que fez versos por isso, as santas podem ser maçadoras como esposas, uns madrigais sempre amenizam a aura de santidade e desvinculam da catequese; além disso, regaços de rosas, é ponto assente, avivam a poiésis. E cantigas de amigo, e isso. Ó meus amigos (sem cantiga), a poesia não é o espírito filosófico. São distintas formas de entender o mundo. E poetas, ó senhores, poetas nós somos quase desde o berço da nacionalidade como mostra a história do rei lavrador cujo, decerto, nunca pegou na enxada. E só não foi logo de berço porque não consta que D. Afonso Henriques tecesse madrigais à moirama ou a D. Mafalda que muitos dizem ser Matilde e até prefiro; aquilo era um mancebo que se enfurecia de tudo e nada e muito dado à matança de castelhanos e infiéis (se lhe batesse a bolha até os fiéis marchavam). É ponto assente, apesar dele, somos poetas sem evasiva. No mais humilde português saltitam versos e rimas (excepto no meu pai e noutros seres masculinos e femininos que saem ao primeiro Afonso da História). E portanto. Hoje há pretensões a filósofo de nome próprio, com carteira montada. Pois há. Mas, desculpem, José Gil, Eduardo Lourenço, Manuel Antunes e mais uns sábios que não recordo. Ainda não me convenceram que o século XX empurrou os portugueses para a congeminação filosófica. São pensadores, sim. Professores e estudiosos de filosofia, também. Filósofos, da mesma natureza dos alguns que conheço de outros tempos, isso não são. 
Pergunto-me se terá sido por materialismo puro que distinguimos os dois verbos, ser e estar. Ou se antes somos muito do talvez e da simultaneidade de ser e não ser. Ora, sei lá. Eu vim aqui para falar da República e do dia 5 de Outubro tão bem renascido que parece flor desabrochada (lá está a minha veia de poeta de meia tigela a fazer das suas). Vinha contar que estive a observar um panfleto daquele tempo em que a República-mulher aparece desnuda e forte, um autêntico colosso (diria que meia masculina apesar das  fêmeas evidências). Por estas razões, e por outras que não digo, se vê que só pode ter sido um homem a conceber tal figura.  Pois. Era mesmo sobre a República que vinha postar. Mas os meus dedos alienados por gorda pausa, agora fogem às ideias, encaracolam palavras acima e deitam o assunto às urtigas. Ébrios, é o que é. Escrevem sozinhos, pois.  Pobre de mim que não sou nem parente afastada de Lobo Antunes, aquele cuja mão escreve sozinha e de forma tão única dela, que para mim dava-lhe já a imortalidade (à mão) – consta que ele passeia enquanto ela trabalha; na volta, ainda se torna ocioso e põe-se para aí a filosofar. 
E portanto, olha, saem-me só parvidades.

Meus senhores, fica a imagem. Aquela. A da República sonhada: invencível e aguerrida. Por vezes, penso que se ausenta e não está. Mas sonho que é.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

À Descoberta

Não sei se as coisas mudam de acordo com os espaços que ocupam, mas talvez  a mudança nos dê a mão a nós e sejamos uns aqui e outros acoli. Nada de apôr ao mundo o poder que não tem. Coisas são coisas. Estão. E a beleza do quotidiano depende de um sujeito para existir, ele é a possível variação. Quase pueril, o belo vive-nos num raio de sol, na pena que a brisa levanta, na poeira nebulosa que o vento arrasta em remoinho, na pressa que agita braços e tranborda do corpo, evitando o passo dos velhos que hesita vagares e palpa chão.
            Contudo, há males que vêm por bem. São males convertidos ao outro lado, uma espécie de cristãos novos do nosso sentir. Foi assim no dia em que resolvi visitar o, para mim incógnito, Palácio da Ajuda. Que, com a minha pontaria e falta de tudo (não apenas falta de sorte), estava encerrado. E portanto. Visitei, quase em frente,  o Jardim Botânico, o mais antigo jardim de Lisboa. Data do tempo em que D. José, depois do terramoto, por ali mandou edificar, em madeira, a Real Tenda. E para lá se mudou, duvidoso de edifícios em alvenaria. É pois um jardim lindo e velho. Cheinho de artroses apesar da reabilitação. Onde os nossos reis e rainhas passearam devaneios e inquietações e olharam o Tejo sabe Deus com que olhos. Que acrescentaram de espécies exóticas e Junot saqueou sem dó. Que, provavelmente, os lisboetas olvidam, na febre de natas de Belém e Jerónimos e Torre de Descobrimentos e demais história de peso. E não apenas eles. Que o encontrei quase sozinho ainda que o curso de agronomia por ali faça das suas. Deambulei entre árvores centenárias de temíveis raízes egocêntricas, raízes fantásticas e denodadas que partem bancos de pedra e não se sabe se sustentam troncos e copa, se lutam contra eles. Em tudo, o mesmo se repete: com a idade, as raízes crescem, invadem, e o seu vigor ameaça a realidade aérea. Observei os efeitos do tempo em troncos esventrados, que sobrevivem com auxílio, bengalas de metal a endireitá-los, que a coluna vertebral das árvores também sofre. São árvores em fim de ciclo. E a gente passa com respeito por tão longa vida. Continuam como sempre: quietas, paradas, sujeitas às estações. A algumas o tempo esgarnou hastes e tronco, a outras encaneceu. Mas olham ainda a paisagem, contemplam de alto a beleza do Tejo, embebem nos barcos de brincar que ali vogam. Descanso num banco inundado por retalhos de luz que espreita em intervalos de folhedo. E creio que sou feliz. Sou feliz pelos braços soalhentos e olhos fixos no longínquo azul a colar no céu, pelo quase silêncio e por nada me ser exigido, imersa no consentimento de me deixar tomar pelo agora, levada por doce insinuação de sol e claridade. Flutuo. Olho por dentro as orquídeas das estufas que espreitei lá atrás. Lindas e únicas. Espécies vivazes, mas circunscritas. Vizinhas umas das outras.  Perguntei, achas que são felizes?, e ela, não sei. Pergunta retórica, sei a resposta. Nenhuma flor é feliz em cativeiro, sem o alimento dos olhos de outrém a catalogar. A indefinida existência de flor  é vaguidão.

Não sei o que pensaram D. José ou o senhor Marquês de Pombal ao construir este jardim. Mas sei, de certeza, o que sinto a passear dentro dele, a desvendá-lo em princípio de tarde clara, a inscrevê-lo e inscrever-me por surpresa e maravilha. Nas estufas reais e gradeadas, as orquídeas. Sem visitas. Flores lindas e máximas. Preferência de D. Luís. Fixas em retintas cores. Carnudas e arqueadas. Reunidas. Jamais vi flores de tal tristura.

domingo, 3 de setembro de 2017

Parque Eduardo VII e Eu

Defendo, acima de tudo, o prazer das pequenas coisas. Em primeiro lugar porque as grandes não me fazem parte do caminho. Em segundo, tenho em pouco apreço infelicidade e desamor sistemáticos. Claro que na viagem me surgem buracos negros, poços de ar, tempestades, o diabo a sete que, por vezes, me parece setenta.  E não, não julgo que sejam todos produto do acaso. Sei bem que muito contratempo vem de mim e por mim. Bom,  que é como quem diz, pior. Nesta linha, as minhas fantasias nada têm de extraordinário. Não são, infeliz e felizmente, de natureza erótico-sexual. Digo infelizmente porque a sua satisfação ia dar-me um prazer inédito e lupanar; e felizmente porque tal me exigia outra pessoa que, neste ambíguo, os prazeres solitários não são bem a minha praia; ora tudo que exige outros, acresce em dificuldade. E, portanto, nem sei se é pela razão de felizmente, se só porque sim, são fantasias  bem comezinhas. Mas não faço por menos: tomo-as por vitórias. Para que seja isto coisa entendível, conto  uma desde a origem.
Na casa dos vinte, eu não era nem um pouco inédita (ainda não sou). Como tanta gente apressada que enchia comboios e barcos, vivia na margem sul e estudava em Lisboa. À ida, os barcos atulhavam e sentia-se no ar um burburinho de vida retemperada pela noite; no sentido inverso, traziam conversas ciciadas e silêncios, bocejos, cansaço sem rédea e olhos baços sumidos em covas e papos. Os próprios pareciam extenuados, chiavam em queixa demorada e havia um desmazelo poluente que se espalhava pelos bancos adormentados e engolia o oxigénio do ar.  Por mais que arenguem os noctívagos, a noite existe, sobretudo, para o descanso do mundo. Não apenas das pessoas. De tudo que existe.
Nesse tempo, uma das minhas dilectas amigas estudava e vivia de empréstimo em casa de uma madrinha, em rua que não sei, muito perto do Parque Eduardo VII. Aos fins de semana, seguíamos ambas para a outra margem. O meu conhecimento com este parque de Lisboa remonta a essa época. Jantávamos na cantina da faculdade onde não se pediam cartões e rumávamos ao destino, com passagem por casa da madrinha para arrotearmos o saco de fim de semana. A atalhar caminho, atravessávamos pelo meio do Parque e estávamos no Marquês em três tempos. Suponho que, uma vez ou outra o tenha visto antes. Talvez por alturas de greve no metro, mas passei sem lhe ligar meia, toda afadigada com as horas, o meu tempo controladíssimo, a greve a arruinar-me o esquema. Ainda hoje não consigo saber as ruas que o percorrem, mas, pitosga e desorientada quanto baste, nocturnamente, deixava-me guiar pela amizade. Seguia ao sabor da sua sabedoria. Via umas sombras por lá e lembro-me de pensar que, com ruas tão iluminadas e bonitas logo ali abaixo, não se percebia para que andavam as pessoas a passear no escuro (não seguiam como nós, às pressas). Aquilo era mesmo um bocado sombrio, ouvia resmalhar atrás das moitas, mas pensava que fossem coelhos ou passarada. Passava o tempo a levantar os pés temerosa de covas e cabeços que nem havia e ríamos ambas feitas tontas. Havia gente que nos seguia, mas sempre pensei que o caminho não era só nosso e portanto até me sentia acompanhada. Até que certa vez um senhor que se demorava por ali, nos interpelou ao escuro e eu como sempre a pensar que queria informações, atrapalhada, agora pergunta por uma rua e eu não sei qual é. Quis saber o que andávamos a fazer àquela hora no parque. E eu, ela mora ali num prédio daquele lado e o caminho fica mais perto assim. Ele, isto é muito perigoso para duas meninas como vocês. É melhor descerem a rua por ali ou por ali - o braço a apontar as duas ruas paralelas -, não passem mais por aqui. E nós agradecemos muito, eu para a minha amiga, tu achas que há aqui ladrões ou assim? Mas a gente não tem dinheiro, o que é que nos podiam roubar, de certeza não queriam o passe... Mas não voltámos a passar por lá.

Um dia, fomos as duas à Feira do Livro. Eu e ela. Diurnas, diáfanas e sem tostão. Gostei do Parque até mais não poder que livros só vê-los. E nasceu a minha fantasia: deitar-me naquela relva. Todos os anos a olhava a pensar, “é este ano”. Olhava e havia lá gente solitária e acompanhada, deitada, sentada, a descansar,  conversar, namorar, ler. Pensava, “é só ir para lá, ninguém me nota”. Mas não conseguia. Anos e anos disto. Muitos. Muitíssimos. Dezenas. Passava de autocarro ou de carro e um enlevo no relvado, tenho de me deitar ali, tenho de lá estar nem que seja só uns momentos. Chegava outra Feira do Livro, tanta gente a flanar, ambiente propício, era só aproveitar. E nada. Saía a constatar num desalento, “ainda não foi desta”, os jacarandás, “aselha! Que é que custa ires lá para dentro e deitares-te, hoje é que era”. Até que houve um dia em que, hélas!, consegui. Entrei, andei lá por dentro como quem caminha sobre nuvens, deitei-me na relva, o volume de poesia de Ruy Belo sob a cabeça. E nunca o céu me pareceu tão azul nem o cheiro de relva tão seráfico. Não se descreve a frescura da terra sob o corpo um friozinho agradável a entranhar roupa dentro, a chegar-me à pele antes desapercebida; e o cheiro, a sensação do azul sobre mim, a coragem de estar ali. Foi um momento supremo. Coisa irrepetível. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

História Esquisita com Beldroega

Bonito. Ali estava eu acocorada e de braço no ar. Eu e um homem que mal via contra o sol (ai os óculos, ai o chapéu). Baixei o braço. Levantei-me. Juro que ele não buliu, figura sólida e consistente. Confirmei, não era fantasma ou morto-vivo. Olhei franzidamente o rosto escurecido contra a claridade, traços sombrios e  indistintos. Usava óculos de sol, coisa que aos mortos não lembra se lhes dá para aparecer.  Puxei da minha tonalidade mais saturada, aquela que a minha avó apelidava de “desimpaciente” e respondi, não tenho lume, não fumo. Não se moveu. E eu, mau Maria, não querem lá ver que não me respeita a idade e nem o lugar? Acrescentei, procure noutro sítio. Então ele mudou de lugar e, à claridade alentejana vi-lhe o rosto. Em jeito afável, sorriso de olhos longínquos, invectivou quase doce, não me conheces, mas conheci-te mal te pus os olhos, carregavas um balde com água. E eu já a abraçá-lo numa alegria também temperada de antigo, cheia de gregas e colchetes pegadiços, Octávio!...que é feito de ti? Há quantos anos...Ele a explicar-se, vivo por aqui, se vou para o outro lado, atravesso pelo cemitério. É mais perto, não tem ninguém e despacho-me num instante. – e a escorrer troça bem humorada, aquilo do lume era a brincar, só para me reparares; há muito que não fumo.
Esqueceu a pressa. Esqueci o sol na moleirinha e a beldroega. Esquecemos o lugar. Num cemitério cheio de sol, atardámos à conversa de muito ano, pergunta aqui, recorda ali, até ao toque da sineta. Era a hora de almoço. Despedimo-nos afogueados e suarentos, com promessas de reencontro, um café, um lanche em lugar fresco, só para desdobrar assunto. Meti-lhe no no bolso o meu número de telemóvel, enfiei os apetrechos no saco, a beldroega maneta a olhar-me intempestiva, tufada de rancores. E rumou cada um para seu lado. No regresso,  ainda imersa em novidade e agradada do acaso, notei o quanto nos tínhamos perdido em memórias sem assomo de presente. Contudo, ele levara o meu contacto e tinha-me parecido contente com o encontro; havia tempo para.
Mas a vida enrola-se-nos à cintura e exige. Entrei em casa e os chamados instantes da realidade mais a vizinha que uma ambulância levou já sem vida, varreram-me o encontro feliz. Só voltei a lembrá-lo quando, à tardinha, em regurgitação de cansaços, visitei minha irmã. Estávamos à mesa – é à volta de mesa posta e redondas conversas por entre a mastigação que esmiuçamos novidades – e contávamos as pequenas bagatelas que desoprimem as mulheres. Minha irmã é prazeirosa de ouvir, conta a cores e faz de tudo uma história. Tenho certeza que aquilo que tão bem encadeia, só é bonito e alegre por ser ela a contá-lo. Domina a suprema arte da oralidade. Esguia as palavras, prolonga uns sons, encurta outros, e dá, a cada, um novo fôlego.  Porém, a mente é sinuoso ruminante; descontraída, compraz-se a trazer à consciência o que antes esqueceu. Por entre o conversedo, trouxe-me o Octávio. E, pela primeira vez, reparei na impressão agradável que me deixara. Virei-me para ela, não adivinhas quem encontrei hoje....e ela toda olhos em ponto de interrogação, quem foi. E eu, o Octávio, aquele garoto que vivia na nossa rua quando começámos os estudos, lembras-te? Ela pasma, olhos em bico que é como quem diz redondos de admiração. E torno, grande surpresa, ham, nem perguntas como está. Ela a fixar-me de mão estendida e faca paralisada a meio de uma fatia de bolo, esse Octávio não foi de certeza, o rapaz morreu vai para mais de dez anos. Eu, não pode ser, pois se o vi, dei-lhe o meu número de telemóvel e tudo. Ela séria, deixa-te dessas coisas, o rapaz morreu, então não te recordas? E não me recordava. E também tinha certeza, era ele.  Mas a faca ainda estava parada a meio do corte e disfarcei, tens razão, deve ser confusão, ele disse Octávio e lembrei-me desse, mas deve ser um colega da secundária. Não faças caso. E a faca desceu suave até ao breve estalido de bater no prato de loiça e a fatia já separada, a querer tombar. E eu para dentro, atónita até ao mais fundo de mim, que grande imbróglio.
É noite fechada. Estou em casa. Penso no Octávio. Nele. O único que conheço ou conheci, que não é nome muito usual. Bem sei com quem conversei e sobre que assuntos. Era ele inteiro, o que estudou comigo, morou na minha rua e muito livro trocámos até à sua mudança de residência e de cidade. Não há engano possível, era ele. Mas confirmei com amigos, eles ao telefone, morreu mesmo, é verdade, sim. Soube que está enterrado naquele cemitério. O mais incrível é que não me assusta a certeza de ter estado à conversa com um morto.  Contudo, não sei se volte que os sardões já me afastavam qb, entrava a arrastar os pés só para lhes dar azo à fuga.

Não pode ser, não apanhei sol a mais. Eu não o inventei. Ele levou mesmo o meu número de telemóvel, tenho meia folha da agenda rasgada a comprovar (e a beldroega maneta, que assistiu a tudo). Um dia destes, quem sabe, encontramo-nos com um refresco na frente. É um morto? Ora, a mim tanto se me dá.