domingo, 12 de novembro de 2017

A Terceira Irmã

Nesse tempo, morávamos isolados. Para chegarmos a casa havia  que atravessar um pequeno pinhal onde, apesar da estrada de terra que o ladeava, talháramos vereda serpentina e para nós mais agradável. Foi na peugada de minha mãe, por entre curva e contra curva, a perscrutar as copas altas dos pinheiros bravos, que assimilei a informação. Aprendi que a falta de juízo modifica o aspecto das pessoas. Compreendi a constância do sorriso, os pais e as irmãs a guardá-la de estranhos, a possível revolta materna contra Deus. E gostei dela assim inocente e crescida. Por outro lado, enquanto os meus irmãos corriam livres pinhal fora, no intuito de montarem cavalos imaginários em troncos flexíveis que eles mesmos tombavam em uníssono de forças, ela estaria em sua casa, saía pouco e sempre vigiada. Mas, como dizia minha mãe, por dentro era criança. E as crianças gostam de rir e brincar, de correr sem destino. Tinha um corpo desaustinado e descompadecido da mente, que enchia costuras afirmativas, facto que não nos incomodava. Depois da missa, a sua figura alta e enformada destacava rodeada de crianças. Em seguida, as irmãs tomavam-na pelo braço e conduziam-na ao automóvel onde um pai paciente e risonho as esperava ao volante. Ela entrava para um dos lugares traseiros e virava-se para nós a sorrir e acenar ao vidro até o carro desaparecer. As mulheres desandavam para casa comentando, coitadinha da rapariga, mas que desgraça que ali está; ela até é boazinha, mas coitadinha falta-lhe o tino. E rematavam a estugar o passo, Deus nos livre de uma desgraça assim, o que vai ser daquilo quando os pais morrerem. E eu tinha certeza que nos domingos ela era feliz e talvez também nos outros dias em que a não víamos; parecia-me que as mulheres agouravam demais. Falar na morte dos pais era chamar um facto longínquo, ainda havia muito tempo de bem viver.
Um certo domingo, as manas sozinhas. E nós num susto.  Era sobejamente conhecido o seu gosto pelos dias em que toda se enfeitava e saía de casa. E quando perguntámos, que estava doente e não era conveniente sair. E foi assim domingo atrás de domingo. Até que num dia mais impaciente as manas nos responderam lacónicas, ela não vem mais, parem de perguntar.
 Correu que sofria do coração e não se podia mexer, que estava tuberculosa e tinha contágio, que os pais eram afinal muito maus para ela e a tinham proibido por qualquer sua desfaçatez infantil. E logo houve quem tivesse passado de largo e ouvisse gritos; quem tivesse visto o médico a sair de casa e mais do que uma vez; quem soubesse de pés juntos que fora sova e enquanto durassem as negras não via a luz do dia. Na dúvida, as mulheres juntaram-se  e resolveram fazer queixa ao padre. O Cura recebeu-as na sacristia onde um Cristo todo de roxo vestido jazia ano inteiro num caixão de vidro, as mulheres a rodeá-lo com respeito bichanando, parece mesmo um morto de verdade, olha lá o sangue que corre da coroa de espinhos, quem é que diz que aquilo é tinta. E depois, fixas na alvura das mãos do padre emergindo do luto da batina e enlaçadas sobre a secretária. Ou de olhos a saltar para a pilha de papéis no canto esquerdo, matrimónios e baptizados em confraternização de acaso, e outros que não sabiam ler. As mãos em espera. Quietas. E a mais foita, senhor padre a gente vem por causa daquela rapariga que é poucochinha, a filha do senhor Vicente que ajuda na igreja, é que a mocinha tem alguma coisa séria que nunca mais veio à missa. E o padre, fica-vos bem o interesse, mas têm de perguntar ao pai. Só ele pode responder. E num frou-frou de saia comprida deixou-as na sacristia com o Cristo morto. Saíram temerosas do defunto de louça, a benzerem-se às recuas que não é bom virar costas a um Deus morto, mesmo de faz de conta.
No domingo seguinte, puxaram o pai Vicente de parte, serviram como entrada o goro na sacristia e perguntaram. Ele, chapéu de feltro na mão, para cá, para lá, triste de dar dó, respondeu: está grávida. Não sabemos quem é o pai e nem ela sabe dizer. E rematou de lágrima no olho, já vai para seis meses.

(continua)

A Terceira Irmã

O imaginário dos escritores é um mundo que hoje tem gosto pelo lado escuro do homem e se ergue muito cheio de não prestas e do que de mau temos dentro. Será por comungarem do sentimento dos actores e ser sensaborão criar personagens normais, razoávelmente bons e que, parece, desentusiasmam a leitura. Que também os leitores preferem ser triturados por mázura e canalhice. Contudo, a vida tem enredos que podem ser tomados por ficção. Hoje, no poiso solitário da minha janela, vi um. Já o encontrei de outras vezes. Variadas vezes. Para ser exacta, ao longo de anos. A rapariga de que vou falar, é ela o meu enredo, encostou nas grades de minha casa e, quase ao alcance da mão, ocupava-se a desenlear o cãozito que a acompanha. Não me fez caso, não sabe tanta coisa que me vem quase do berço, do tempo em que ela não existia. E juro que, se numa intuição sem préstimo lhe adivinhei a proveniência, jamais os meus verdes anos lhe sonhariam a existência. Julgo mesmo que ninguém sonhou o seu existir. Vou contar a história do princípio.
Aos doze anos eu era uma menina de boa índole que frequentava igrejas e catequeses, fazia novenas e tinha um terrível medo de ser santa. Por esse tempo, lembro-me de admirar na igreja um forasteiro que se mudara de armas e bagagens para a aldeia, com mulher e três filhas casadoiras. A minha admiração tinha raiz dupla. A primeira, devia-se ao anómalo facto de o homem não falhar uma missa e participar activamente, cantava com entusiasmo, oferecia-se para as leituras e não desanimava por ser o único varão na igreja. A segunda, era apenas intrigante. Se comparecia com pontualidade dominical na companhia de duas filhas, a mulher e a terceira filha continuavam incógnitas. Na mercearia, o mulherio falava à boca pequena do mistério na família do senhor Vicente, e por que é que a mulher não ia também à missa, e por que motivo as filhas não iam as três, e por onde andaria a incógnita terceira filha. E patati, e patatá. Mas ninguém sabia.
Quando o verão se apresentou em seus ardores e os braços arregaçaram a suar limpezas, o senhor Vicente, não querendo ficar atrás na febre da brancura pincelada, contratou duas mulheres para a caiação do monte. E o segredo desfez. Foi como o esvaziar de um balão a meio gás, um som manso, quase despercebido. O povo tem destas coisas, corrói na curiosidade que depois maldiz. Mas, se a mulher nunca pisou na igreja (dizia-se na mercearia que era contra os padres e quiçá seria mesmo comunista), o mesmo não sucedeu com a terceira filha, por sinal a mais velha; depois da caiança, a rapariga passou a frequentar o nosso lugar de culto. No primeiro domingo em que, ladeada pelas irmãs, marcou presença, concentrou as atenções. As mulheres esqueciam-se de responder ao padre, e, durante o sermão, voltaram-se repetidamente para trás e provocaram um ralhete do cura. Intrigou-me mais a presença da terceira filha que a sua ausência e também me virei para trás em ocasiões pouco próprias. Em geral, os mais novos foram tão incómodos que as duas irmãs se agastavam e faziam sinais para voltarem a olhar o altar. Quanto a mim, fiquei positivamente siderada pela expressão da moça. As duas irmãs que conhecia eram risonhas e superiores, troçavam de nós e dos nossos hábitos aldeões sem qualquer pejo. Além disso, eram amazonas de respeito, víamo-las passar ao longe, cavalgando muito direitas na Azinhaga do Valado até sumirem por entre o arvoredo. O pastor com que por vezes cruzavam, comentava posto em admiração, aquilo é que são umas mulheres, andam melhor a cavalo que eu a pé. Eram meninas finas. Não misturavam com a plebe, tinham lugar marcado na igreja e as únicas a usar mantilha. Nós de cabeça cingida por triângulos de tule sem graça; elas, virgens sem pedestal, a ajeitar a brancura florida das mantilhas. Mercê destas casualidades, a aldeia uniu-se em comum sentimento de inveja mal disfarçada e lembro-me de estar ao espelho a imaginar-me com mantilha, adereço tão bonito que julgava pecado confiná-lo à igreja.

Porém, a terceira irmã divergia das expectativas, tinha uma marca de diferença. Desconhecia alguém assim. Era mais alta e musculosa que as manas, tinha dentes grandes e brancos e sorria sempre. Sorria para o padre, para nós, para as mulheres que a miravam em alarme. Sorria. E faltava-lhe a beleza e garridice das duas. Era um tronco de árvore ladeado por flores. Quando saiu do templo, as irmãs davam-lhe o braço como se ela criança pequena. E no entanto, no adro, sorria e beijava todos. Indiscriminada. De boa mente. As manas puxavam-na em impaciência discreta, vamos, para a semana voltas. E ela feliz, que bem se via estar feliz tão rodeada de gente. Pensei que era esquisita. Reparei-lhe os olhos, a boca, o nariz. Cada um, isolado, era sem defeito. Mas a mistura resultava estranha. No caminho para casa falei a minha mãe dessa irregularidade e daquela satisfação sem nome que lhe latejava à vista das pessoas. E minha mãe em tristeza condoída, desflorando palavras-pétala, coitada, tem falta de juízo, parece uma criança. Que tristeza!
(continua)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O Fogo da Nossa Desgraça

No rescaldo dos fogos de 15 e 16 de Outubro, ainda movida a sentimentos e emoções, não consegui escrever. Talvez por me antever no papel dos desgraçados, entraram-me uma tristeza e revolta monstras. Pelos que morreram ceifados pela calamidade. Sozinhos contra o fogo. Impotentes. E por quem ficou, desamparado de tudo. Conheço esse desamparo de viver de empréstimo, sem que nada seja nosso, à mercê de bondades estranhas e boas vontades tanta  vez apenas iniciais, que ser bondoso durante muito tempo cansa, e, a breve trecho, familiares e amigos desejam voltar a lugares marcados e a sentir que a casa é apenas sua. Mas não sei o desespero de “Tudo perdido”. E não contabilizo a dor pelos mortos que é dor por faltarem e dor pelo horror que viveram e que ninguém, nem o ser mais vil, merece. Penso nos que ficaram porque o futuro se faz com eles. Nos pobres desalentados, mãos a abanar, incrédulos do infortúnio. Gravou-se-me o olhar sonâmbulo daquele homem pegado aos escombros da casa e dos barracos, tudo negro e informe em seu redor, mal acreditando no absurdo, como num pesadelo, nem um martelo, nem uma enxada, nem um trator; ardeu tudo, não tenho nada. E a gente a ouvir e a saber que estava a auto convencer-se da extensão de vazio.
À medida que os anos correm sobre nós e que a vida e os homens nos contrariam, vamos aprendendo que o pouco que temos nos é tudo: a cadeira de sentar, a cama que o corpo deseja para o repouso, a chávena do chá ou o café da manhã. E há a janela de espreitar os avanços do dia que se espreguiça ou corre em lufa lufa, as manias da porta das traseiras, o som dos passos que são distintos nas diferentes partes da casa. A história de cada um enleia na de todas as coisas que são suas e lhe fazem falta.  São os pequenos nadas que os olhos necessitam, objectos comezinhos que têm lugar de anos no cenário. E assim acontecia antes do fogo. Também eles tinham a sua casa, animais domésticos e de trabalho, alfaias agrícolas que compraram a juntar as notas umas atrás das outras, a guardá-las semana a semana, mês a mês, sacrificando sabe deus o quê, porque um trator faz falta, porque o reboque, porque a segadora mecânica, a tratorinha que baptizaram com um nome terno por ser maneirinha e caber onde os tratores não entram. E perderam família, a casa, os haveres.
Neste oceano de desgraça, o Estado fracassou humanamente. No vigor da calamidade imprevista, tratou todos com desrespeito. Quem fala assim do seu povo trai a sua confiança. Em situação de desgraça, não se atiram razões e culpas, oferece-se compreensão e ajuda. O que se ouviu foi indigno de representantes do povo, gente eleita por ele e que lhe deve protecção. São os portugueses quem lhes paga o ordenado, mereciam o seu apoio incondicional desde o início. Mais tarde, o governo emendou a mão, pediu desculpa, mexeu-se para trazer futuro a quem dele precisa. Mas é no ardor da provação que conhecemos as pessoas. 
E há as árvores. Hectares e hectares ardidos. Muitos milhares de hectares de floresta sacrificada (quinhentos mil). Uma razia que nos trará consequências nefastas e a vários níveis e de que nem é bom falar nesta hora que tem de ser de reconstrução.  O fogo quase extinguiu o pinhal do rei. Mandou plantá-lo o rei poeta e de vistas largas, para segurar areias marítimas, assim o estudámos nós. O pinhal de Leiria era de todos os portugueses e não apenas dos leirienses. Oitenta por cento, ardeu. Não veremos formado o novo pinhal. Mas que o plantem. Que o plantem! É incumbência nacional. Que a história se recrie. E os portugueses, senão estes outros serão, o olhem lembrando ainda esse D. Dinis de grande alcance e os versos dos poetas que o cantaram, imaginando no rumorejo dos pinheiros o som futuro das caravelas velejando.

 Não queremos ficar encalhados e ajudamos no que podemos. Essa gente martirizada há-de navegar. É dever nosso interessá-los, trazê-los de volta ao mar da vida.

sábado, 28 de outubro de 2017

Educar

Setembro surge-me anualmente como um começo. Uma espécie de Ano Novo antes de tempo. Talvez seja porque me passam à porta as crianças da escola antes dita primária. Já não usam malas castanhas de rebordo redondo, feitas em cartão grosso, uma pega a meio. Hoje, transportam nas costas mochilas alegres ou puxam-nas como um carrinho de compras. Não vestem bata e poucos têm risca ao lado. Mas os principiantes trazem nos olhos o mesmo incerto temor, um receio  antigo sobre ler e escrever. E os sorrisos de nervos disfarçam a inépcia de mãos e mente.  A escola há-de moldá-los formando e instruindo. A escola. A quem hoje tudo se pede. Que informe e forme. Que guarde e proteja. Que substitua o que é insubstituível: a família, primeira célula a que cada um pertence e cujos princípios têm de ser firmes e bondosos. Porque só na família se educa com o amor a sobrepôr ao dever, a protecção sobrevoando – e quantas vezes empatando – os voos de autonomia.
Desde cedo a educação dos jovens preocupou os homens. Veja-se o exemplo de Platão, pensador que viveu três séculos antes de Cristo e se dedicou em pormenor ao tema: que valor tem a educação na vida de um jovem, quem devia ser educado, quais os saberes (disciplinas) com importância e quais os dispensáveis, como se aprende e se alguma coisa pode ser ensinada. Não vale a pena falar aqui sobre as respostas que este filósofo encontrou. Mas vale a pena pensar que, até há poucos anos, saber alguma coisa exigia trabalho, luta pessoal contra a preguiça, pensamento próprio a sobrepor-se ao comodismo. E que tudo isto já Platão disse. Mas hoje, não. Hoje somos modernos e o ideal de saber é lúdico. Ou seja, pretende-se que o aluno escolar aprenda com prazer, a manusear alguma coisa, a descobrir concretamente. Que construa saberes individuais, jogando. E há o recurso às novas tecnologias, o uso e abuso delas. E surgem projectos  empreendedores. A escola centra-se no aluno concreto e na sua envolvência para lhe possibilitar o crescimento. Individual. Isso mesmo: o que importa é o indivíduo e a sua adaptação ao mundo concreto. Portanto, saberes fora dessa esfera, são banidos. Tudo interessa para algum fim concreto. Disciplinas sem aplicação directa a alguma coisa perdem importância e encurtam-se as horas lectivas. Ou saem do currículo. Assim estão as línguas, a história, a filosofia. As humanidades em geral. E aí vem mais uma reforma no ensino (já houve muitas). Não entendo reformas educativas que não privilegiam a cultura como saber universal, o particular entende-se melhor se integrado no todo a que pertence. Não entendo a promoção de uma cultura de superfície, individualista e empreendedora, assente na ideia errada de que tudo se aprende com o mínimo esforço, como num jogo. Não entendo que por exemplo o latim não seja ensinado nas escolas, somos uma língua latina e nada sabemos da nossa origem. Não sou contra concretizações do saber, trabalhos de projecto, uso das novas tecnologias. Mas sei que existem matérias fundamentais que nos estruturam a mente e não se aprendem num mundo de facilidades.

Em rigor, o pensamento concreto também existe noutros animais. O que sempre nos distinguiu deles foi o uso da palavra (e logo o raciocínio e a reflexão); e a conquente acção que, nos homens, pode ser moral. Ora, reduzirmo-nos a aprender a utilizar e explorar o mundo que se oferece ou a criar instrumentos para facilitar o seu uso, é redutor. E, já foi provado que os animais, desde que estejam em presença do problema, também são criativos, encontram soluções. O que eles não sabem é de moralidade. Mas nós, sim. Somos sujeitos morais porque sabemos o que fazemos e se com isso causamos dano ou bem a nós e aos outros.  Somos morais porque distinguimos o que é bem do que é mal. E isto ensina-se com o exemplo. Nas escolas e em todo o lado. E com as tais disciplinas que não têm utilidade  imediata, mas são estruturantes de uma mente que se quer humana.

domingo, 22 de outubro de 2017

A Busca de Sentido

Desorienta-nos o sem sentido da vida. Que ela, por si mesma, garanto, não o possui. Somos nós, seres pensantes – nem sempre bem pensantes –, quem lho outorga. Exigimo-nos nela, é o que é. Bem sei que é lugar comum, mas tenho de sublinhar a humana vaidade, o egocentrismo, a necessidade da muleta racional, o indicador de caminho que subjaz a este pressuposto de sentido que requeremos e apomos a todo o existente.
No entanto, se escavamos no buraco a céu aberto da nossa insegurança vital, temos de reconhecer que tal exigência de sentido nos convém. Não é apenas um capricho de criança mimada, uma ascese religiosa e fanática - até por nem todo o sentido encontrado ser de índole religiosa  -  a procurar cómodos na facilidade dos passos. Não é apenas, mas também pode ser. Que a vida segue sem nós. Imperturbável. Mas, facto fundamental, nós não seguimos sem ela. Se nos falta, terminamos. Por isso, tentamos acomodá-la ao pensamento, à racionalidade que nos orienta e provou ser, até hoje, pelo menos no campo científico, o conjunto de medidas mais eficazes contra doenças e acasos naturais e humanos. Supostamente, a razão, porque compreende,  preserva-nos de moléstias maiores. Agita-se contra a gama de malefícios que, de forma irracional e incompreensível, causamos uns aos outros. Portanto, nesta linha de procura de sentido global, a vida, nosso bem mais precioso, não se exclui.
Quando, já tarde, me iniciaram nas linhas da filosofia, disseram-me que ela nos interpela pessoalmente e faz colocar perguntas gerais, como: por que razão existimos, o que cabe a cada homem fazer no mundo, o que nos espera depois do fim (o que é contrasenso, depois do fim não devia haver nada). Mas, e apesar de estar já na casa dos vinte, nenhuma das questões me preocupava. Devo ser uma avoada de marca maior porque continuo a desconhecer as respostas e não me preocupo grandemente com elas. Não as procurei. Mas agora, neste preciso momento, vou tentar.

Vejamos. Não posso responder pela humanidade. Logo, tenho, talvez egocentricamente, de pensar no meu caso.  abordemos a primeira questão, “por que existimos”. Cientificamente sabe-se que viemos de uma espécie de símios que se desenvolveu até mudar de categoria e se chamar ser humano. Não se sabe se foi dose de acaso, se tem sopro divino, mas demos no que demos. Também ainda não descobri porque existi eu e não outra pessoa, ou porque razão, sendo eu, não possuo outras singularidades, mas só estas; e pouco me interessa se a mistura genética foi casual ou envolve a divindade. Interessa-me que foi. E ainda é. Ao invés, sei que existo e que posso pensar (como Savater, subverto a evidência cartesiana), facto que agradeço em todas as horas e minutos da vida; sendo pessoa, ser pensante, reconheço: detestava encarnar em qualquer outro animal. Peço desculpa a Platão, pensador que admite a escolha entre ser homem ou bicho, mas para isso tinham vocês de ler, pelo menos, o livro décimo da República, obra que não prejudica ninguém apesar de ser antiquíssima. Portanto,  existir é a minha glória; e existir pensando, o maior bem. Todas as causas que estejam por detrás desta evidência me desinteressam. Sobejam. Não lhes faço caso.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sopro

Olívia

            Bem sei que hoje não tens tempo e és bebé. Que os mais próximos, pelo menos esses, te vão abraçar e dar parabéns. E nem sabes quanto desejo que assim seja.
            Quem me dera poder fazer-te um bolo com velas. Um bolo suave, a destoar daquele em que a mana se enganou na receita e ficou dulcíssimo, as senhoras todas finas e mundanas (outro mundo, outro mundo) elogiando por bem parecer, pires xpto na mão. E eu sabendo que não, mas fingindo também. Far-te-ia (ó estranheza de conjugação) um bolo comum, sem extraordinários. Só por gosto de fazê-lo. Contente de ti que gostarias ao menos da ideia. Porque és pré diabética e o fígado, e mais mil e um motivos que encontras para te furtares aos doces que nem aprecias; e também por teres um bocadinho a mania das doenças, sua hipocondríaca disfarçada:). Ainda bem que não te perdes a googlar a lista completa de maleitas com mais os adereços. Endoidavas de vez.
Mas repara, a ideia de haver em alguém uma alegria de que somos causa, é prazer semelhante a quando sobes com dificuldade uma rua e lá no cimo verificas que o resto do caminho é descendente. Suspiras de alívio e satisfação. Hoje, és a minha rua a descer.
Olha, também podia fazer-te uma diáfana massinha de peixe (mas tinha menos piada e deslocava). Ou, quem sabe, não preferias a sopa de peixe à alentejana, um caldo de peixe com tomate e sopas migadas no prato. Com o teu amor pelo pão eras bem capaz de preferir o último. E escusas de negar, bem sei que nos restaurantes usas de contenção para não o atacares com vigor. Há pormenores que fixo sem querer, queres o quê?!. Mas pronto, deixemos o cardápio em paz. Fica só o bolo sobre a mesa e pronto. E depois apagas as velas com as crianças. É um dever teres crianças por perto; não há bolo de anos que valha a pena sem crianças. Que é para acenderes as velas n vezes. E elas apagam à vez, agora sou eu, agora eu, tu já foste, chega-te para lá se faz favor, eu é que fico aqui em frente do bolo. Portanto, minha doce amiga, junta vizinhos, primitos pequenos de terceira ou quarta geração, não importa quem, mas crianças.  Porque a vista dos bolos de aniversário insufla-lhes as bochechas e cantam que se desunham. Nada a fazer, são exuberância necessária ao teu dia.  
E parabéns por mais um ano. Aproveito o momento e saio enquanto o coro deles entoa e só as velas brilham no escuro. Na verdade,  mercê das circunstâncias e de nós duas, não chego a fazer-te falta.  No entanto, como outros que te rodeiam, estou sem estar.

Um beijinho doce e algum génio para mais um ano difícil

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Teclas Sem Rumo Certo

O mundo não anda bem, evidência que se apercebe sem arte ou complexidade. Está. O mal do mundo implantou e vive um pouco como aqueles mamarrachos que estragam a paisagem e só vistos de longe causam menor dano; próximos, são puro mau gosto. Estão. Isto porque, em bom português, o que está nem sempre é. Pode ser. Ou não. Muito embora, em alguns idiomas, o verbo ser tenha dupla face e seja também verbo estar. Dois em um. Para nós, portugueses,  uma coisa é uma coisa e ela apenas. Ponto final. 
Contudo, será possível ser sem estar e estar sem ser?! Vamos por partes. Se eu for um sujeito dado à experiência e ligado ao que é físico e mensurável, se chamo ser ao que posso agarrar, puxar, empurrar de alguma sorte, direi que tudo que está, também é; e que é impossível estar e não ser (quem uniu os dois verbos linguísticamente, era decerto experimentalista).  Mas então para que foram os portugueses – e decerto outros povos – cindir o ser do estar. Seremos povo muito dado à meditação e filosofice. Pois, nem por isso. Percorra-se uma história da filosofia. Não há um único filósofo português (cuidado para não se inferir que não reflectimos e somos uns cabeças de vento; não é isso). É um bocadinho triste não termos um nome a soar na história do pensamento filosófico. Mas pronto, somos pobres, temos de trabalhar, damos uma no cravo e outra na ferradura e a reflexão é exigente e descompadece destas misérias. Que, não esquecer, a filosofia  nasceu do ócio. É isso mesmo que estão pensando, é filha do papo para o ar, do trabalho escravo, da subsistência assegurada. E, com o tanto que aquela gente escreveu e pensou, e de forma elaborada se propôs a entender o mundo – difícil e impenetrável a muita gente –, ainda por cima fazendo sentido, o que é deveras admirável e original, pois, dizia eu, não foi decerto a aplanar tábuas de navio ou a passar fome e a morrer embarcados a intervalos sem marcação, que filosofaram. Meus senhores, estes portugueses não tinham tempo nem requisitos para tal função. Se nem sabiam ler. Dir-me-ão que houve um filósofo que nada escreveu. Ora, não escreveu, mas sabia fazê-lo; além disso, tinha um secretário de qualidade visto que tanto sabemos do seu pensamento e da forma como discorria e ele mesmo nem uma letra redonda deixou. Podem redarguir, ah, e os letrados, a finura dos nossos gentis homens?! Desculpem, desculpem. Já sei, houve um rei poeta logo na primeira dinastia. Casado com uma santa. Tenho para mim que fez versos por isso, as santas podem ser maçadoras como esposas, uns madrigais sempre amenizam a aura de santidade e desvinculam da catequese; além disso, regaços de rosas, é ponto assente, avivam a poiésis. E cantigas de amigo, e isso. Ó meus amigos (sem cantiga), a poesia não é o espírito filosófico. São distintas formas de entender o mundo. E poetas, ó senhores, poetas nós somos quase desde o berço da nacionalidade como mostra a história do rei lavrador cujo, decerto, nunca pegou na enxada. E só não foi logo de berço porque não consta que D. Afonso Henriques tecesse madrigais à moirama ou a D. Mafalda que muitos dizem ser Matilde e até prefiro; aquilo era um mancebo que se enfurecia de tudo e nada e muito dado à matança de castelhanos e infiéis (se lhe batesse a bolha até os fiéis marchavam). É ponto assente, apesar dele, somos poetas sem evasiva. No mais humilde português saltitam versos e rimas (excepto no meu pai e noutros seres masculinos e femininos que saem ao primeiro Afonso da História). E portanto. Hoje há pretensões a filósofo de nome próprio, com carteira montada. Pois há. Mas, desculpem, José Gil, Eduardo Lourenço, Manuel Antunes e mais uns sábios que não recordo. Ainda não me convenceram que o século XX empurrou os portugueses para a congeminação filosófica. São pensadores, sim. Professores e estudiosos de filosofia, também. Filósofos, da mesma natureza dos alguns que conheço de outros tempos, isso não são. 
Pergunto-me se terá sido por materialismo puro que distinguimos os dois verbos, ser e estar. Ou se antes somos muito do talvez e da simultaneidade de ser e não ser. Ora, sei lá. Eu vim aqui para falar da República e do dia 5 de Outubro tão bem renascido que parece flor desabrochada (lá está a minha veia de poeta de meia tigela a fazer das suas). Vinha contar que estive a observar um panfleto daquele tempo em que a República-mulher aparece desnuda e forte, um autêntico colosso (diria que meia masculina apesar das  fêmeas evidências). Por estas razões, e por outras que não digo, se vê que só pode ter sido um homem a conceber tal figura.  Pois. Era mesmo sobre a República que vinha postar. Mas os meus dedos alienados por gorda pausa, agora fogem às ideias, encaracolam palavras acima e deitam o assunto às urtigas. Ébrios, é o que é. Escrevem sozinhos, pois.  Pobre de mim que não sou nem parente afastada de Lobo Antunes, aquele cuja mão escreve sozinha e de forma tão única dela, que para mim dava-lhe já a imortalidade (à mão) – consta que ele passeia enquanto ela trabalha; na volta, ainda se torna ocioso e põe-se para aí a filosofar. 
E portanto, olha, saem-me só parvidades.

Meus senhores, fica a imagem. Aquela. A da República sonhada: invencível e aguerrida. Por vezes, penso que se ausenta e não está. Mas sonho que é.