quarta-feira, 29 de maio de 2013

PAI

Aproxima-se a data em que o meu pai faz oitenta anos. O meu pai. Que enviuvou ainda não tinha trinta e nove. Que, apesar dos meus insistentes e juvenis case-se, pai, cristalizou num estado a que não posso chamar civil. Porque, se o pai de Mia Couto vive em Poesia, o meu vive em viuvez. E não vejo por que razão há-de a qualidade do estado diferir. Cada um deles assume o completo de si dentro de uma condição que não escolheu, mas lhe coube. O meu pai, contrariando mesmo um lado da sua natureza. O pai de Mia nasceu assim, poeta inteiro; ao meu a vida deu-lhe a condição, retirando-lhe a única mulher que teve e por dezoito anos amou mal, o exercício dos sentimentos em permanente conflito.  No pai de Mia, provavelmente, os sentimentos fluíam, eram navegáveis, Mia Couto é de uma ternura que foi bebida em alguém. Ao meu, embargavam, que nunca antes os sentira. O que pretendo dizer é que viver em viuvez me parece mais áspero que viver em Poesia. E menos bonito. O estado de viuvez planta-nos logo homens de bigodes pesarosos, a pendurar tétricos sobre a boca; diria mesmo que a nublá-la, não beijas, desexistes. Por isso, viúvo é estado transitório. Os viúvos não querem enviuvar por muito tempo, ainda que viúvos, dizem-se homens sozinhos. Mas o meu pai encarnou a viuvez. Com toda a força. Rijamente. Tão jovem!
Hoje, foi a primeira vez que pensei no meu pai como homem viúvo. Levei quarenta e um anos a encasquetar esta evidência. Vá lá, vá lá. E, se amanhã perguntar aos meus irmãos, já pensaram que o pai é viúvo? Três pares de olhos miram-me em estranheza, a achar que piorei. Mas depois, pensando melhor, concluem, pois é. E “pois é”, não significa apenas assentimento. “Pois é” tem dentro o redondo da admiração e a alegria sub-reptícia de uma descoberta.  As palavras nunca querem dizer apenas o que querem dizer; sobretudo se as enchemos de outros ingredientes, como é o caso. Por isso, não pode espantar-nos que alguém responda “sim” e quem perguntou inquira, “o que queres dizer com isso?”. Escrevendo isto, parece até que o mundo palavroso nos desentende uns dos outros. E não. Os meus irmãos e eu sabemos exactamente o que significa “pois é”. E isto é um dos bonitos da mediação pela palavra em quem se sabe com o coração.
Mas voltemos à viuvez que no meu pai nunca foi bigoduda nem triste. Ele vestiu-a e, com naturalidade, fez-se a ela.  Fez-lhe peito, afeiçoou-a de tal modo que deixou de notar-se. Não se diz dele que é viúvo, mas que é o seu nome.
 E, no entanto, meu querido pai, atravessaste sozinho, que não te conheço amigos. Sem uma queixa. Connosco a tiracolo.
E que hoje nos tenhamos uns aos outros sem nuvens é uma graça. Que em parte te devemos.

OBRIGADA

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Palermices


Quando crianças, somos crédulos superlativos. Tudo que nos contem, com pouca ou muita convicção, passa como água. Porém, com o correr dos anos, tornamo-nos menos confiantes: existe aquilo em que não acreditamos, mas quantas vezes gostaríamos de; o que se nos atravessa na garganta a travar-nos o respirar da vida e que decidimos engolir ou deitar fora; e o que aceitamos sem contestar. Em cada homem, a proporção destes três factores é arbitrária, no sentido de puramente pessoal, e decorre da convergência entre a natural apetência do indivíduo e um esforço da sua vontade.
A minha credulidade infantil raiava o absurdo. Basta lembrar as muitas vezes que envergonhei publicamente a minha mãe por me deitar a discorrer sobre assuntos dos mais velhos a que ela, perigosamente, respondia em casa com mentiras simples em que eu acreditava piamente. Talvez por terem rodas e se moverem, ou por qualquer outra obtusa razão, os comboios e os autocarros levavam-me o pensamento para esses temas. É que bastava pôr lá os pés. Ora, o pensamento infantil é de alto som, portanto, imagino que o embaraço de minha mãe fosse proporcional à diversão dos vizinhos próximos, enquanto eu confrontava a sua explicação com a realidade, ou o pouco que dela sabia.
Agora que os anos passaram, poderia afirmar que alguma coisa dessa crença inaudita nos outros me atravessa a vida a contragosto. No entanto, o que se me entranhou não pode chamar-se apenas confiança nos outros. É qualquer coisa mais infantil. E que me vem, quem sabe, daquela mãe envergonhada que não respondia às minhas invectivas públicas, de inadvertido descaro. Habituei o espírito a fazer as suas respostas. Sumariamente, é isto que não consigo perder.
Pode alguém acrescentar ser desejável essa construção do espírito. Seria desejável. Seria. Se o meu espírito tivesse crescido. Mas o palerma ainda hoje copia as respostas simples e asnientas da minha mãe. Resultado: sou uma mulher madura com a alma de trancinhas e laços na ponta. Convenhamos: fica mal.
Por exemplo, fui dar um passeio com uma colega. Quando passeio, se me cabe dirigi-lo, não sei porquê, mesmo que vá ao acaso, acabo sempre em cima de uma ponte a olhar uma linha de comboio. E também hoje. Enquanto eu hipnotizava no paralelismo dos carris, a minha colega tirava fotos. Eis senão quando surge um comboio e apita. A colega contente, apitou para nós. E eu convicta, como se tivesse tirado o curso de maquinista e soubesse tudo sobre comboios, não, não, os comboios apitam sempre que passam numa ponte. Ela suspeitosa, a olhar-me nos olhos, em inflexão prolongada, ai é?! - e de imediato -  Olha, além à frente há outra ponte, vamos ver se apita… Pusemo-nos à escuta. E só o marulhar profundo do vento nos pinheiros em seu manso jeito de búzio, um grilito histérico aos nossos pés e o som do comboio a esvanecer para lá da ponte, e já não ele mesmo, só uma tira cinzenta a rastejar na lonjura. Ela triunfante,  um  assomo de vaidade caseira, era para nós, vês, vês... E eu ainda sem atingir, a olhar o amarelo perplexo do  ramo de flores, mas quando vou de bicicleta até à outra ponte, o comboio apita sempre…

domingo, 5 de maio de 2013

Mães e Filhas


Hoje é Dia da Mãe e, supostamente crescida, sou isso também. Quotidiana, uso perto a foto em que uma ternura inomeada me abraça. Se a olho, – tanta vez a olho – sempre as palavras de Eugénio a corporizar desvelos de amor “como se tivesse medo que tropeçasses numa gota de água”; e agradeço a coincidência do sentir com o ser, naquele gesto fixado por feliz objetiva. Próximo, em fraterna amizade, um poema escrito na primária, que me é presença embevecida. Anjos a cuidar-me a existência. Que leio e contemplo se azedo com a vida, se ela me surpreende em negativos desinteressantes, se indeciso ou me engano a escolher, o mundo em escuridão no pleno do dia.
Contudo, mais me lembro hoje de ser filha. O coração dispõe-te mansamente ao alcance da saudade. Dentro dela. Não já a saudade ingente dos primeiros anos. Não aquela quase impossibilidade de vida. Não a mordaça de tristeza que desatava as lágrimas. O Tempo retirou espinhos; primeiro os mais agudos e depois, pouco a pouco, limpou a haste em que vicejas. E hoje, pego-te em confiança. Sem sangue. E retomo o hábito antigo de escrever-te. Não, mãe. Já não escondo as cartas na tua mala. A tua mala. Com o teu cheiro meio doce, os teus papéis, a marca dos teus dedos, pássaros aflitos a segurá-la. Que, imagino, estará ainda guardada no guarda-vestidos vazio do tudo que era teu. Onde continuam, fechadas, as minhas cartas. O pai conservou anos o teu vestido das cornucópias, eu a abrir a porta e mergulhar os dedos no macio. E imagino que lhe tenha sido companhia. Mas um dia abri o guarda-vestidos e só a mala. E não se descreve o desânimo incrédulo da minha mão no puxador, os dedos todos, e agora? Corri a perguntar à tia e ela, o teu pai não o queria, deu-mo, mas não fui capaz de o vestir. Dei-o a uma mulher que não era daqui, não aguento ver alguém com ele. Rodopiou e  foi à sua vida. Fiquei em silêncio. Ofendida. Sabia-me a traição e desamor que nem a pergunta, queres?
Tínhamos comprado o tecido juntas, ido as duas à primeira prova. Uma costureira jovem e solteira agachada a marcar-te a bainha com uma almofada de alfinetes no braço, um relógio que em vez de ponteiros um feixe de lanças enchapeladas, todas muito finas e senhoras do seu ângulo, os alfinetes a empertigar, olá como estão. Entretanto, as unhas ovaladas e compridas, gotas de sangue a rodar-te as pernas, num sorriso agradado, esta senhora tem um espírito tão jovem que me deixa admirada, é tão diferente das outras senhoras. E eu a inchar de orgulho. Mais tarde, na vila, escolhi e comprei os botões e fui entregá-los na costureira. E um dia fui de bicicleta buscar-te o vestido e pagar o feitio. E ficaste linda dentro dele.
Mas as gentes pensam apagar as pessoas fazendo desaparecer tudo delas. Queimam. Dão. Vendem.
Não ficou nada, Mãe. Só tu. Mesmo.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Primeiro de Maio


Em 1975 tive o privilégio de gozar o meu Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador, sabendo o concreto do seu significado. Houvera já um, imediatamente a seguir ao Dia Um da Nossa Liberdade, o  25 de Abril de 1974. Nesse tempo, interna numa instituição religiosa – não, não era um colégio –, pouco soube do que se passou nas ruas. A instituição funcionava num antigo convento, paredes com mais de meio metro de espessura que o ruído não atravessava, janelas muito altas e com grades. E a vida lá dentro era desligada de exterioridades políticas, sociais ou de outra natureza. Suponho que a origem do edifício e as ressonâncias do desprendido de mundo a que se votavam as monjas de outrora, inspirassem o nosso lidar intramuros. Então, eu frequentava o Magistério Primário. Mas, ao passar o descomunal pesadíssimo da porta – se, de serviço à portaria, custava-me empurrá-la -, enquanto atravessava a largueza da portaria, o meu eu atrofiava em frio e silêncio. E breve fenecia. No primeiro claustro, já eu replantada, o relógio certo com o novo meridiano. Outra. Ali, existiam “as meninas”, a que pertencia; e “as irmãs”, uma delas minha colega na turma e meu algoz em casa. Não se pense que era uma sofredora. Não. Desapercebida daquela espécie de inveja que me votava, convivemos normalmente e só há alguns anos soube das suas infundadas represálias.
Regra maestra da instituição: As meninas obedeciam; as irmãs ordenavam. E todas as horas eram cheias de tarefas, o ócio grego banido. A minha memória desse Primeiro de Maio é uma foto.
 As meninas só viam TV às tardes de fim-de-semana; ainda assim, se nos filmes acontecia um beijo, logo a irmã directora se apressava a levantar, atravessada na imagem, as garotas todas, oh!!! Pelo que, deixei de ir à sala da televisão. Como boa trabalhadora, terei passado esse provável dia em estudo e preparação do estágio.
Ora, no dia seguinte, fui à papelaria a compras e fiquei uns dez minutos embasbacada frente à montra lateral, numa foto do melhor fotógrafo da cidade. Havia uma profusão delas. Cirandei os olhos, mas aquela, em tamanho natural, era um extraordinário retrato a preto e branco. Representava um soldado com a farda de honra, completamente descomposto pela bebedeira. Estava todo entornado no papel, a arma de lado, também torta. Um cravo, enfiado no cano da arma, baloiçava na haste partida, cabeça para baixo,  súplica vermelha, quase afónica, tirem-me daqui que o sangue me sobe à cabeça. O rosto do soldado, imune a pedidos de cravos, fitava-nos desconjuntado, expressão de boçalidade etílica, a camisa fora das calças, botas sujas, um atacador a arrastar. Enchia a montra. Fiquei ali. A olhá-lo. Coração apertado. Em espanto e pena. A cogitar se ele saberia que o momento tinha sido fixado por uma objectiva e se encontrava exposto ao juízo da cidade. Intimamente, a avaliar se teria o fotógrafo o direito de fazer o que fez. Depois, um casal que parou também a olhar, viu-a de outro ângulo, o da liberdade de expressão, do aligeirar das normas, “se fosse antes do dia 25 de Abril este fulano já estava preso de certeza, ou nem teria tal atitude”. A foto tinha a data de 1 de Maio de 1974. Admito, a minha alma de clausura ficou indecisa sobre os efeitos da liberdade.
                Mas, em 75 eu gozava já de um estatuto diferente. Tacteava uma amizade que até hoje conservo, ainda que não com o mesmo ardor e intimidade, e com ela percorria ruas e praças. Na cidade, que se espreguiçava ao sol, todo o comércio encerrado. E as pessoas enchiam as ruas, a transbordar o calor que tinham dentro. Cumprimentavam-se. Desconhecidos, davam-se pequenos nadas. Em todas as praças, as canções, ditas “de intervenção”, sobrevoavam conversas de grupo e esgueiravam-se por ruas estreitas a entrar nas casas de janelas abertas e mesas postas para quem.
Muitos jovens, sentados em cacho nas escadas, rescendiam alegria e liberdade. Eles, barba e guitarra; elas, saias ciganas e longos cabelos. Todos com ar marítimo. Como se fossem búzios, conchas, cavalos-marinhos deixados em montículo na areia. Passeei a cidade inteira contente do ambiente, a invejar os rapazes e raparigas que nos degraus das igrejas estavam à conversa, como se mais nada houvera; pensei no que lhes daria essa aura descontraída de serem si mesmos e no dia livre que vivíamos todos. Ou se só a meus olhos eram assim. E ainda, se eu própria teria em quem passava o mesmo jeito de regato a ser tempo apaziguado. E nunca soube. Desconhecemos quem os outros vêem,  não sabemos quem parecemos. Com algum esforço, saberemos um pouco de quem somos. Tenho a certeza que, se me encontrasse na rua, desconhecia-me.
                E hoje, o Primeiro de Maio é nada do que foi. Que é triste o meu povo e tristes são as ruas do nosso desvelo. Desistimos do coração de Abril, deixámos talvez de treiná-lo. E está exangue. Que vândalos vilipendiaram Abril? Em que corpo de mentira ajustámos as dobras da verdade e a amarrámos?!
É urgente re-habitar Abril.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

"Os Olhos de Tirésias"


Há muito que não lia tão rapidamente um livro. Esclareço: rapidamente, são quatro a cinco dias. Os anos retiraram-me a pressa de terminar leituras e puseram-me no regaço pequenos prazeres que antes desconhecia. O fim de um livro, que antes me era meta, deveio até pequeno desânimo. Hoje, curto a leitura no mesmo sentido em que a pele curtida é cheia de sinais de tempo que a protegem de maiores danos: experimento-a em vagares de cerimonioso silêncio.
A obra surgiu-me no horizonte através de um blogue, lugar onde os livros surgem à velocidade da luz. E, vá-se lá saber porquê, atraiu-me. Este. Apesar de críticas potentíssimas e assisadas a n livros, uns de estreantes, outros de majestades sonoras, outros de gente que escreverá muito bem e que, talvez burramente, ignoro. E tudo isto entre escrita nacional e internacional. Comprei-o a sentir que tinha de. Uma espécie de dever intuitivo, difícil de palavrar. Acrescente-se que não fazia qualquer ideia acerca da autora, Cristina Drios. Sabia apenas que era o seu primeiro romance. E só agora, já terminado, vi a foto bem humorada da contracapa.
Sei que gostei do romance por me sentir capaz de comprar outro da mesma autora. Não parece uma primeira obra, é uma escrita rica, não linear e com muita pulsação. Ensina-nos um pouco o ambiente dos soldados portugueses na 1ª Guerra, a de 1914/18 em terras de França; e, nessa medida, exigiu pesquisa para além da dose maciça de imaginação que se nos oferece aos olhos e à mente. O livro gira em volta de algumas personagens todas muito fait divers, que se tornam importantes umas às outras com o desenrolar do enredo. Os principais intervenientes são um avô que foi soldado e uma neta que o não conheceu e lhe escreve a história (do avô, ou seja, o livro). E anda a neta um pouco palermamente, a oscilar entre um marido que a não encanta sem que entendamos porquê, mas pode ser só porque sim; e um fulano que conhece em França durante o tempo de pesquisa e logo um élan porque um beijo de despedida na gare. Depois, regressada a Portugal, já parece que não, sentimos que o francês perde espessura à luz da memória. Porém, no finzinho do livro está já com a obra acabada e seus achaques de dúvidas quanto a capas e títulos; sozinhita e a achar muita piada. Mas, por outro lado, espera a chegada do segundo homem que agora já lhe parece que sim. Os encontros amorosos são referência e mantêm-se no indescrito, talvez na fuga ao cliché. Ou, propositadamente, não, não. Procuro outra coisa.
É provável que eu tenha achado o que ninguém acha. Mas é que existo também para estes despautérios.

PS: Quando pedi o livro na FNAC, as meninas uns olhos arregalados ao desconhecido; disse-lhes que era recém nascido. Procuraram-no. Que já tinham vendido dois não sei onde. E ficaram numa hesitação sem palavras, que traduzi por, vale a pena continuar? E eu convicta, veja se o pode encontrar. Uma delas, cheia de profissão, olhos no écran...temos vinte em qualquer lugar; tem capa branquinha. E logo a outra, corpo de ânfora grega e olhos de atenção, a deslizar por prateleiras como se em vez de pés, patins; eles contentes, escondidos sob as calças, dançamos. E, pelo visto, venderam-me o terceiro exemplar. Senti-me a atirar uma lança para África. Eu. Que nunca fui à guerra. E desoriento até nas prateleiras das livrarias

                Um dia a Cristina ganha um prémio Saramago ou assim e esborracha-as com o êxito.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Reencontro


Dizer adeus é triste desolação. Por isso, as pessoas de quem me despeço não me despeço; arrasto-as na viagem da vida, puxo-as de cabeça, se for preciso. Que, na indiferença da memória, se indistanciam mortos e vivos. Mas alisam-me os reencontros. Buracos e saliências obliterados, devenho terra rasa. Súbito solo arável.
Assim te espero na vaga das estações. Em prece feita de tempo, atenta aos teus sinais percutidos nos búzios. Neles vive uma perdida lembrança do teu rumor. E depois da espera onde a saudade se sentou, percorro uma estrada comprida de regresso, irrompe-me a alegria do teu abraço e extasio de ti, ó Mar.
Avanças a beijar-me os pés uma vez e outra na fresca certeza de sermos os dois. Respiro-te. E logo a pituitária se liberta em euforia profunda. Eu sei as nuances do teu cheiro nas horas completas que o dia tem e inebrio em cada aspiração, os sentidos a escancarar janelas. E sou pés, olhos, ouvidos, nariz e pele. A absorver-te. Emudeço até que me abraças de brisa e me empurras de manso para a areia. E ali fico, em escuta. De ti.
Então, as ondas despem-me dos dias. E logo sobre essa que nasceu voam as horas, desatendidas do doce enleio. O tempo! Que sempre nos esfaqueia. Sigo o relógio na orla das ondas e afaga-me os pés o refrigério dos teus dedos de espuma. Que tanto me prendes sem me prender. Volto para ti uma e outra vez e logo, num pedido terno, me rodeia o teu jeito molhado. E um pensamento de ficar me avassala. Pousar tudo. Ficar. E vou deixando recados concêntricos, esperanças molhadas em cada passo que nos afasta.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Clarice Lispector


O que sei desta escritora que recusava sê-lo é quase nada. Li-lhe o nome pela primeira vez na FNAC. E admirei-lhe o exótico do rosto, a estranheza do olhar, a perfeita linha da boca. E mais me disse o nome que o resto. Porém, sou avessa a novidades. E tudo nela me pareceu misterioso. Deixei para quando.
Mas as ideias seguem, felizmente, uma linha indómita. Nós distraídos e elas a trabalhar-nos a vontade. Minam-nos. E nós em solilóquio, qual escritora? Já não me lembro, esqueci, não tem importância. E seguimos. Compramos outros livros. Vivemos…
 Uma tarde, um título a acenar-me da estante, um dedo de letras em riste, lê-me. Obedeci. Tem vezes que sou obediente; e não gosto de contrariar livros, acredito neles a pés juntos. Era “A maçã no escuro”. Imaginei uma maçã listada e vermelhinha e logo desfiz o imaginado; no escuro, nenhuma dessas características existe. No escuro, a maçã é maçã pelo cheiro, pelo gosto e pelo tacto. E o título passou a intrigar-me. Não era já a vulgar linguagem do desejo, mas o peso da escuridão no fruto. Li uma ou duas páginas e notei-lhe uma pureza e cuidado invulgares, espécie de amor respeitoso pelas palavras. Que me Convenceu.
Comprei aquele bocadinho de Clarice e andei com ele por vários lugares. A lê-la. E confirmei, é uma mulher enigmática, aforística, com uma realidade interna tão furacão que o mundo a que chamamos real desimporta, esvanece. O mundo dela é pouco igual ao de toda a gente e a sua hiper-realidade entra em osmose com ele e domina-o. Escreve em loucura mansa que me lembra a poesia. E também por isso a comprei. Nada sei dos estados de alma que a levavam à escrita. Mas, do que li, me parece possuída, embrenhada numa teia que tudo envolve. Entendo que os franceses não gostem de lê-la - há-de haver mais gente -, não creio que seja escritora de massas. Ainda hoje não terminei “A maçã no escuro”, cujo já supus chamar-se “O sabor da maçã”. Quando arrumei o livro pensei “que mulher com uma escrita tão boa e tão difícil”. E fui correndo no tempo. Que somos nós quem nele corre, a gastar-nos sempre; des-pensamos disso, mas vamo-nos rasgando pedaços, que não podemos retomar. Dizem os cientistas que a velhice é efeito da força da gravidade no nosso corpo perecível. Mas envelhecer é o cansaço vital. Pouco importa se fazemos bem ou mal, pouco ou muito, depressa ou devagar. É preciso compreender: não deixamos as marcas dos pés, deixamo-nos. E esta verdade é tão irrevogável como bela. De uma beleza irrestrita, comovente. Viva.
E um dia a minha irmã a olhar o rosto de Clarice, “Esta sou eu” e eu logo, toda óbvia, não não, é a Clarice Lispector. E ela no peremptório de si, quero lá saber, esta mulher é igual a mim, eu olho assim e tudo; portanto, sou eu. E Isabel Allende acendeu-se-me na memória, A minha família, depois de “A Casa dos Espíritos” ter passado a filme, substituiu o retrato do meu avô pelo de Jeremy Irons. Ele é muito mais bonito, fica melhor em cima do piano da sala. Olho melhor e noto. A minha irmã tem razão, são parecidas, têm o mesmo olhar estranho, em tristeza e desafio, as maçãs do rosto altas, um delineado semelhante dos lábios. Também por isso, comprei outro livro, “Laços de Família”, que bisa as primeiras impressões. E fui visita na exposição da Gulbenkian Clarice Lispector, A Hora Da Estrela.
Decepção. Não é admissível que haja uma exposição sobre um escritor – ela não queria, mas era escritora, sim –, sem livros. Livros verdadeiros. Capas. Folhas. Letra de forma. Lugares onde passemos os dedos e demoremos a mente. Está certo, a senhora era meio misteriosa, o nome de estrela quadra-lhe, mas é demasiada escuridão e tristeza pespegar apenas umas frases.
 Na exposição sobre Pessoa havia uma mesa enorme com livros que escreveu ou revistas em que participou e  uma sala com pormenores biográficos. Como é que se organiza uma exposição sobre Clarice e nem um artigo seu para os jornais? Os jornais onde estão que os não vi. Deveriam estar todos ou a maioria. Que é dos contos que publicava quando jovem? Quando é que esta gente se lembra que a música pode ser  hipótese… Onde as fotos familiares, os dados biográficos…A exposição vive do seu rosto de ucraniana jovem a lembrar uma actriz de Hollywood. E da repetição de algumas frases. Insinuantes. Escolhidas. E, na última sala, o vídeo da sua entrevista.
A ENTREVISTA, a única a que anuiu - não gostava de ser pública. E VALE. É de 1977 e tinha 57 anos. Lamento que lhe tenham retirado as perguntas. Mas de todo o modo, aprende-se nela. E conquista.
Poderei eu não ter visto a exposição toda?! Comigo, também isso é possível. E preferível.
Deu-me grande prazer aquele bocadinho em que estive a sós com Clarice Lispector ela mesma. É uma senhora.
“Quando não escrevo, estou morta, mas precisa um esvaziamento da cabeça para renascer.(…) Agora estou morta, não sei se vou renascer.” (um pedacinho da entrevista:)
Oh! D. Clarice! A senhora renasce de cada vez que alguém a Lê. Com o inteiro da alma.