segunda-feira, 27 de março de 2017

Margarida Vale de Gato

Um destes dias, falaram-me na Feira do Livro de Leipzig (Leipziger Buchmesse),  cidade do leste alemão que organiza um festival da literatura jovem alemã. Ali se cruzam leitores de todas as gerações e escritores de várias nacionalidades com obra representativa das novidades literárias dos países de origem. Entretanto, soube que o festival Leipzig lê é o maior festival de leitura da Europa e, pelos vistos, bastante dinâmico, dado o número de eventos (ronda os 3.400) a ocorrer nos dias e no recinto da Feira (este ano entre 23 e 26 de Março), e disseminados pela cidade: livrarias, cafés, bibliotecas, bares, estações de comboio, lojas de lingerie. Ideia interessante. De seguida, investiguei quem nos representou este ano.
            Estava eu satisfazendo a curiosidade quando, de entre os oito escritores nacionais convidados, deparei com um nome que me arrebitou a orelha: Margarida Vale de Gato. É que, se Margarida é nome floral, bonito e comum, Vale de Gato é apelido pouco usual. Saltei a informar-me a preceito na milagrosa net. Vi-lhe o sorriso bonito e soube que sim, nasceu em Vendas Novas (1973) – pertence às famílias Vale de Gato e Oliveira. De seu nome, Margarida Isabel de Oliveira Vale de Gato. Pois esta senhora de riso aberto – nas fotos –, a avaliar pelo currículo, é mulher de muita actividade, daquelas que arregaçam mangas e vão à luta; e gosta de deixar obra asseada. 
Margarida gasta a vida à volta das palavras. É um amor que lhe entrou e não debota nas soalheiras da vida. Senão, repare-se: é professora de Tradução Literária na Faculdade de Letras de Lisboa, é poeta, contista e tradutora (traduziu, de inglês e francês para português, textos literários de diversos autores, como Lewis Carroll, Christina Rossetti, Oscar Wilde, W. B. Yeats, Edgar Allan Poe, Herman Melville, Henry James; e mais). E ainda tem dois livros de poesia publicados, Mulher ao Mar (2010) que foi reeditado com o nome Mulher ao Mar Retorna (2013); e Lançamento (2016).
Recapitulando: a poeta é vendasnovense por nascimento e família. Hélas, que a terra dá bons frutos e nem sempre se conhecem. Pois, muito prazer, Margarida. Saiba que fiquei até um bocadinho orgulhosa. Uma poeta nascida neste Alentejo de estios sufocantes  e transidas invernias,  convidada e publicitada na Feira do Livro de Leipzig. Cai bem no espírito de pertença do alentejo profundo. Amanteiga-nos o âmago. E acredito em si para dar boa imagem dos novos poetas portugueses. O nosso pequeno rectângulo extravasa de gente que escreve (certo, nem todos os que escrevem são escritores), mas ser um dos oito convidados em Leipzig,  é obra. Parabéns!

Avaliar – e também amar - o poeta é lê-lo. Relê-lo quanto se queira e precise. Em voz alta, que a poesia é oral como afirmava Sophia.  É na modulação balanceada das palavras que a poesia cresce e se conhece. E reconhece.

A IMAGEM ROMÂNTICA

Há outras coisas, Horácio
E a tua filosofia é barata
Na verdade não custa fixar
As coisas ideais à distância:
Terás vista panorâmica
Mas sempre a visão é polémica

Gostava que alguém me mostrasse,
 mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.

As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as *monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm. Pessoas morrem. A vida
é breve. Impávido o
real se esquiva a designar.
Comparar é colidir: o verbo
Talvez nos leve
a mais nenhum sinal

*monarca - borboleta

Mulher ao Mar (2010)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Dias de Assim


Há dias assim, a gente acorda e a baça vida não apetece. Passamos a limpo os compromissos e não há coisa para abraçar. Sabemos das flores, do sol, do mar, da música. Mas é tudo demasia. Distante. Lá. E nós aqui, na lassidão comprida de zeros cronométricos.
Erguemo-nos. Exactos de sorriso. Iguais. O alimento dos olhos falha na janela e nem o pequeno almoço nos agarra. No relógio, o dia corre a sua indiferença e o corpo multiplica-se em aventuras de autómato.

De súbito, eles entram no olhar. A todo o pano. Sentados lado a lado, num tête-a-tête cúmplice. Semeiam à flor da pele entremeios de ternura desvalida, autenticidades carinhosas e originárias. Evolam um excesso de princípio tão antigo que comove. A intemporalidade poética transparece, dói nos olhos e dilata no coração. Depois saem. Imersos. Semiconscientes de mundo. E deixam na memória o raro odor de amor feliz. E a alma da gente feita girassol.

terça-feira, 14 de março de 2017

No Tempo da Escola

No temor de não encontrarmos o largo da paragem, regressámos pelas mesmas ruas, somando sinais e pormenores. Lá estava a taberna com a rede na porta e de janelico fechado, o toldo num badanal; a caixa de correio agora escura e sorumbática, sem a cor ridente de antes; as casas de galochas calçadas, a barra um escuro de bota.  Apercebíamos a vida familiar por detrás de portas riscadas por fendas luminosas e buracos de prego de onde escorregavam gritos, risos, descosidos de conversa que ficavam a esvanecer no passeio; o receio desviava-nos de um  ou outro bêbado que não nos lobrigava,  perna bamba e aos esses, enfronhado num conciliábulo de si consigo, porfiando em dobrar uma conversa de hieróglifos. Sem defesas, arrepiávamos na roupa minguada, Dezembro a fazer-se presente poro a poro, os cães vadios por certo abrigados do frio em algum lugar. Eu tremia entaramelada, doíam-me as pernas e os pés, esguedelhava sem memória de caracóis e penteados, sentia fome. E só criei ânimo quando, já na paragem, o autocarro se apresentou. Iluminado. Assentos vazios e descansados. Um abrigo aquecido a convidar-me. Entrei aos tropeções engadanhados, sentei-me, encostei ao vidro e apaguei. Acordei com a cabeça no regaço de minha mãe, um barulhinho de chuva a bater no tejadilho e o motor, rom-rom-rom...e adormeci de novo.  Revivi a um estertor mais profundo do motor  e atentei nela. Absorta, mergulhava em tristeza profunda, olhos vermelhos e inchados. Tinha na mão o lencinho de aparar as lágrimas mal elas a meio caminho do nariz.  Sem bulir, fechei os olhos de novo. Preocupada e atónita, deixei-a extravasar o desgosto, não tanto  por lhe encontrar direito como por não saber o que fazer.  E quando mais tarde me acordou com palmadinhas no rosto, tinha o sorriso de sempre. Num fundo de meio remorso, eu, que entretanto não dormira, alegrei-me, aquela era a mãe que eu conhecia.
Na volta, o caminho até ao barco pareceu-me extensíssimo, mas embasbaquei de novo nos candeeiros da rua. Muito mais bonitos que os de Peniche, derramavam uma quantidade de luz tão superior que impressionei, a rua via-se por inteiro. A poder de tanto luzir,  a cidade nocturna era uma festa. E havia o incomensurável das estátuas que dominavam descomunais, ao centro da lisura de praças maiores que o enorme bocado da aldeia que eu conhecia. Como tudo era grande em Lisboa! As estátuas, supremas e terríveis, à coca; tão altas que continuava a não conseguir vê-las por inteiro.
Entretanto, uma chuvinha miúda acabava o trabalho do frio. E eu desejava chegar à minha aldeia sem luz, entrar no conforto desconfortável de minha casa e dormir o sono que uma madrugada de rolos e excitação me tinha roubado. Precisava repousar as novidades do dia. Apesar de tanto desaire e cansaço, cá em baixo, no lugar que eu desconhecia ser o Terreiro do Paço, maravilhou-me o espelho negro do rio tremeluzindo aqui e ali, cruzado de tempos a tempos por barcos iluminados farreando sobre as águas. E que bonitas as luzes dos longes no outro lado, onde eu antevia um comboio a esperar-me. Indiferente a ser noite ou dia, Lisboa era cheia de gente sem descanso, para cá-para lá, para cá-para lá. Muito casaco ambulante, guarda-chuvas que à luz ganhavam beleza e desenhos nunca vistos, senhoras que traziam animais ao pescoço. Minha mãe para a minha instintiva agastura a fixar uns olhos de raposa sem fazer ideia que bicho fosse, é só a pele do animal, não precisas ter medo, os olhos são postiços; e eu a eriçar de má vontade à mulher, apiedada do bicho que àquela hora penava mais que eu, assim nuzinho; e passava gente refastelada em táxis lampeiros e sabedores de caminho, mas que não eram o do senhor Laurentino. Junto ao barco, o rangido da ponte levadiça, as águas que alargavam e encolhiam à medida dos balanços e que era necessário pular, a minha mão aferrada na mão de minha mãe, agoniada daquele pedaço de chão móvel. E o fascínio trémulo das pernas, "não somos capazes". E,  por fim, ela a içar-me em peso.
No comboio tardio e pouco concorrido, minha mãe deitou-me no banco, puxou-me o vestido para baixo e adormeci, cabeça no seu colo, largada no descanso  do braço que me rodeava.

Fizemos o caminho até casa na maior escuridão e silêncio. Além dos nossos passos, só um cão ou outro a pressentir-nos em rosnadelas baixas como se com medo de acordar alguém, que os cães têm destas delicadezas inesperadas. Ao abrir da porta, minha mãe, espera que acendo o candeeiro e vou pô-lo no quarto. Entrou de candeeiro na mão e postou-se a olhar-me. Comecei a tirar o casaco de lã e foi ao virar-me que o vi. Sobre a minha almofada, armado e folhoso, estava um bibe branco rodado. Num friso  da saia, a toda a volta, tinha bordada a história da carochinha. E era tal qual o que eu vira na revista de minha prima que bordava para fora. Ficámos a olhar-nos sem palavras. Depois, minha mãe murmurou, o dia foi muito comprido, mas é Natal, filha, é o teu menino jesus. E eu, grata e contente até à medula, saltei a abraçá-la pela cintura, gosto tanto de si, mãe. Então ela pousou o candeeiro, levantou o bibe, pendurou-o sobre a cadeira e veio, como de hábito, ajudar-me a deitar. E quando me beijou e ajeitou a dobra do lençol, os meus olhos fecharam de peso  e bem estar.

segunda-feira, 13 de março de 2017

No Tempo da Escola

A tarde murchava em frio e vento e acendiam-se as primeiras luzes. Atordoei nos candeeiros eléctricos bastante espaçados, devolvendo claridades diurnas a bocados de rua. Na aldeia, ao cair da noite, uma escuridão terrível abatia-se sobre todas as coisas e encerrava o seu ser diurno. O breu trazia magia e mistério. Árvores que perdiam o ser e eram gigantes com braços que podiam descer e agarrar-nos pelos cabelos; caminhos lisos convertidos em pequenos precipícios para pés que os tenteassem; cães vadios e mansarrões que se aproximavam de rabo entre as pernas sem um latido, devinham mastodontes terríficos que nos podiam abocanhar uma perna, comer-nos um braço se lhes apetecesse; qualquer homem pacato, um zé ninguém de pequena estatura, crescia desmesurado e lobisomem de dentes afiados e grande passada. Mas agora, zonas muito nítidas alternavam com outras onde a sombra avançava em cinzento-pardo e de certeza ali passeavam ou se escondiam almas penadas. Mau grado os avisos das tias velhas, “agarram-te as pernas no escuro, foge delas”, passeava-me às vezes pela casa, candeeiro de petróleo na mão, a esclarecer-lhes o caminho. Condoía-me daquelas almas infelizes que se tinham enganado no caminho do céu e erravam na terra sem lugar fixo. Tinha certeza que entre nós não havia força maligna, mas a reciprocidade de bem querer secreto e inamovível. Peniche era lugar delas.
Estava eu neste solilóquio pensante quando reparei que a gorda ganhava terreno e inflava até nós  em  bojudo balanço de nau catrineta. Olhou o desalento de minha mãe e, ó mulher então que é isso, temos de ser valentes, não podemos ficar atrás deles. O seu homem está vivo e de saúde, há-de sair daqui se Deus queira. Mas aquela senhora ali – e apontava a de salto agulha encostada no muro e amparada ao homem de sobretudo -, olhe, dela é que tenho pena, nem sabe se o filho sai daqui vivo. Isso é que é desgosto. Não viu como ela vinha, que nem se tinha nas pernas. O garoto, dizem que apanhou a pneumónica. O que os filhos fazem à gente. Não queria estar na pele da desgraçada. Parece que o rapaz andava lá pelos estudos a falar contra os mandantes disto tudo, que isto é gente rica. Enfiaram-no aqui e um corpinho estimado não se aguenta aos desmandos  da prisão. Que aquilo, digo-lho eu que bem o ouvia, é tosse que não cura. Olhe, o meu é duro para aprender, nem à segunda chegou e nem a gente podia mais que fazia falta ao trabalho. E foi igual, engavetaram-no por ter língua comprida. Que é comunista, dizem. É verdade que está habituado à miséria, mas sabe Deus o que padece. Agora imagine lá o outro, criado em mil cuidados  - quedou-se um pouco a olhar-nos e adiantou -. Vou-me à vida que vim dos longes, até mais ver que a gente ainda aqui torna; antes não tornasse. E seguiu caminho sem esperar palavra, cabeça erguida, a gordura em ondas sob as saias compridas batidas de vento. E eu cá em baixo a ver afastar-se aquele muro protector, roída de compaixão por um desconhecido, a imaginá-lo lindo e doente, entrevendo motivo nos passos desalinhados da mãe. Entretanto, a minha companheira apertou-me a mão e a voz saiu-lhe na leveza pesadíssima de sem sacos, temos de ir ver da carreira. E eu senti nela o alento solfejado da gorda, a lição de uma má sorte que não era ainda a pior sorte. 

Inexorável, o dia descaía para a noite e o chamamento aflito das gaivotas retardatárias augurava no ar frio. Já com alguma distância, voltámo-nos para um último olhar ao forte, eu, tentando imaginar em que direcção se encontraria meu pai. Mas entre nós duas e a mole escura interpunha-se outro quadro,  a senhora subia descomandada para o automóvel, pés e pernas estranhos de si, interrogando fundos de tapete, embraiagem, travão, acelerador, quem somos, para que servimos. E o senhor  a ajeitá-los brandamente,  um depois do outro, a encostar ao tronco um braço desnorteado fechando a porta de seguida. Depois contornou o veículo e entrou. E breve perdemos de vista o desgosto encapsulado dos dois.
Meu pai fechado num lugar tão diverso do que imaginara. Tão afastado da defesa mental que eu construíra. E o meu único pensamento era regressar. Chegar a casa. Rodear-me de mundo conhecido.


domingo, 12 de março de 2017

Refugiados

Os refugiados afligem-me. Não apenas os que chegam diários e observamos na TV  à hora do jantar ou a outra, postos em espera carneirenta, enfileirados e intermináveis, aturdidos de kispos e gorros, mochila às costas. Vivemos na era dos media, há canais só de notícias e resumos a qualquer hora, podemos, se o desejem os canais e também  nós, percorrer-lhes a atribulação dos passos. Podemos, num sado-masoquismo sem nome, ficar à lareira a vê-los caminhar debaixo de neve. Ou apenas observar do nosso canto limpo e seco, a enxovia que vai por aquelas tendas de toda a gente ao molho e fé em Deus, que Alá não é menos grande que o Outro. Podemos deglutir calmamente a nossa sopa, segundo e sobremesa enquanto olhamos a fila de párias no ensejo de um prato quente. Podemos até, por entre a mastigação, emitir pareceres, que mundo este, ao que nós chegámos, olhem bem para esta miséria, nem casa, nem bens, andam ao Deus dará pela Europa. E mais coisas deste teor que nos deixam brevemente pensativos face à injustiça do mundo a que pertencemos. Mas é ele, mundo, que é injusto, não nós que até temos piedade deles todos e somos capazes de doar a nossa roupa sem uso e a que juntamos víveres para que, ao menos, caminhem quentes por essa frieza europeia e sejam alimentados. E até desejamos que encontrem uma casa e um povoado que os acolha, mas não perto de nós que não sabemos quem é esta gente e depois podem surgir complicações. E estamos nisto. De bem connosco.
Estou palrando, mas, como afirmei acima, a minha aflição maior é ainda outra. E anterior. A raiz da minha angústia vem de barco, atravessa o mar num estreito demasiado largo para tanta gente, cada metro a medir uma enormidade, “ficam léguas a nos separar...Tanto mar, tanto mar”. Chico Buarque  estava bem longe desta verdade atroz, quando escreveu a canção que era  de boas vindas e parabéns ao 25 de Abril, e me salta à mente mal surge a notícia de mais uma tragédia marítima e não sei quantas vítimas. Penso nesses homens e mulheres africanos desde que vendem tudo e amealham de mil maneiras a soma que os intermediários exigem, por cabeça, no transporte. Avalio a esperança a guiá-los para uma vida sem guerra onde os filhos possam crescer, embalados no sonho comum de uma casa, um emprego, sono descansado...imagino-os à partida no barquito, apertando-se uns contra os outros. Para quem os embarca, cabe sempre mais um. E eles a fazerem espaço no temor de, ai se isto vira, se vem uma onda e nos leva num repente, se afundamos de tanto peso. Mas com pena de quem não cabe, conheço-o, é boa pessoa, pagou como eu. E espremem-se uns de encontro aos outros iludindo a saudade de quem fica de mistura ao medo da travessia. Quem manda a garantir, não posso largar sem ter cá dentro o número de pessoas certo. E logo a sossegá-los, é perto, daqui a pouco estão lá, isto vai equilibrado de peso, não afunda, já fiz viagens com o dobro de gente.
Largam. E, em noites claras, os mesmos olhos que antes se despediam da única terra conhecida, buscam descortinar o vulto ainda escuro e nebuloso da Europa que encaram como  terra prometida. E muitos não chegam a vê-la. Outros apenas a apercebem. Outros são salvos pela polícia marítima espanhola,  italiana, grega, cipriota... Assistem-nos e juntam-nos em lugares próprios. E recambiam-nos. São devolvidos à procedência. Depois de tanta privação aflita e de alguma sorte que os acompanhou, entram na Europa com guia de marcha para o seu país em guerra, onde a maioria já não tem casa nem família. E quantos milhares estão sepultados no vasto mar. Vi-os em Itália, uma maioria masculina de olhos sem fundo, apartados em grupos e que os italianos estão proibidos de ajudar. Não pedem, não perseguem; e ninguém lhes dá trabalho. Há-de haver um barco que os remeta à pátria. Que eles já nada esperam.

Compreendo os problemas de quem os recebe. Entendo as queixas dos países que se envolvem nos salvamentos e guarda de salvados. Mas não serão os governos europeus capazes de se juntar para dar fim a tal martírio?!

sábado, 11 de março de 2017

Eu e o Dia da Mulher

Quando nasci ainda não existia um dia da mulher. Nesse tempo, os dias eram todos delas. Para trabalho, entenda-se. Porém, Abril de setenta e quatro trouxe muita novidade. E uma delas foi a celebração de festividades desconhecidas: o Dia do Trabalhador, o Dia da Mulher. E outros que não recordo.
A primeira vez que ouvi falar no Dia do Trabalhador, logo o associei ao género masculino. Hoje não penso assim. Vejamos. É certo que os homens são aquela força de trabalho. Fortes de músculo e, pelo menos nos campos, a dar conta do trabalho pesado. Porém, na sociedade portuguesa, os homens que conheci e conheço, na sua grande maioria, trabalham onde seja, mas pouco mexem nas lides domésticas. Pertencem ao género masculino que tem sempre tempo para uma conversa, um café, uma saída. Em casa, “ajudam”. Ora “ajudar”, como a palavra indica, é dar uma mãozinha a alguém, não é repartir tarefas. Quem “ajuda” fá-lo de livre vontade e enquanto lhe aprouver, não tem obrigação. Mas afinal como é?! As mulheres têm, como eles, uma vida profissional, casam ou vivem juntos, pagam a meias uma data de coisas que a meias têm, e elas ganham em casa um ajudante em vez de um par.  Ora bolas. E esta é só uma das razões porque julgo que o Dia do Trabalhador pertence mais às mulheres que aos homens. Antes assim não fosse. São elas que exercem mais trabalho diário não remunerado (sem férias ou  feriados), quotidianices palermas mas necessárias e cansativas, que gastam tempo e aplanam o caminho dos outros: em casa, na família, com amigos, parentes e etc. Encontro-as no princípio de todos os laços e lá estão para a tristeza dos desenlaces, que a vida não é cheia de rosas. É nisto, fundamentalmente, que elas se gastam e desgastam. E o tempo livre evapora. 
E posto que acima já descriminei uma ou outra razão para o Dia do Trabalhador ser, em meu entender, sobretudo dedicado à mulher, passemos ao oito de Março. A data honra o género maioritário no planeta e que, mau grado todas as leis e protecções já instituídas,  continua a ser tratado por segundo sexo, como escreveu e bem ousou, Simone de Beauvoir. Escolheu-se uma data histórica: a 8 de Março de 1927  ocorreu a revolta “Pão e Paz” que mobilizou noventa mil operárias russas contra o czar, justamente indignadas contra as más condições de trabalho, a fome e a participação da Rússia na guerra de 1914-1918. No entanto, o Dia Internacional da Mulher apenas foi instituído a partir de 1921. E só em 1945 a ONU assinou o primeiro acordo internacional a consagrar princípios de igualdade entre os dois sexos. Como é difícil ao homem descer do podium!
Contudo, discordo da existência de um dia para as mulheres. Se os dois sexos, salvaguardadas as suas diferenças específicas, são iguais em direitos e deveres, qual a razão para haver um Dia da Mulher? Que eu saiba, não existe um Dia do Homem (e não me digam que são todos os outros porque essa é a palermice de quem não quer pensar no assunto). As mulheres são sem dia ou hora. Como as mães. E os homens. E os pais.  E não quero que as respeitem num dia, que façam simpósios e conferências pontuais, que se lembrem dos seus direitos numa semana específica. Quero que esses direitos estejam implícitos na sociedade, façam parte do nosso quotidiano, que as respeitem com a dignidade que é devida a qualquer ser humano.
Sobretudo, quero que termine esse aleijão social que é a violência doméstica, de que ainda hoje se morre em Portugal. Ou seja, há homens que não têm vergonha de agredir um ser de constituição física mais frágil, tanta vez uma pessoa de quem gostaram, de quem muitas vezes têm filhos, com quem privaram o mais intimamente possível.  É prática  contra os Direitos Humanos e, digo eu, uma indignidade. As palavras existem para serem usadas; por alguma razão falamos e nos compreendemos uns aos outros. Somos seres racionais e viver em sociedade implica aceitar cumprir leis e regras que nós mesmos fizemos.  Se, em 2017, ainda não reconhecemos, com prática efectiva, que todo o ser humano beneficia dos mesmos direitos e deveres...há caminho a fazer.
Simone de Beauvoir afirmou que não se nasce mulher, tornamo-nos mulheres,  “On ne nait pas femme. On le devient”. A pensadora admite que a natureza humana iguala homens e mulheres e que  a desigualdade foi construída por quem sempre deteve o poder: os homens. Temos de convir, faz algum sentido.

É fora de dúvida que a vida democrática aproximou  os portugueses do patamar igualitário pelo qual tantas mulheres lutaram e lutam; que a legislação mudou muita coisa na sociedade; que as mentalidades evoluíram um pouco. Mas ainda não estamos lá. Simone tem razão, “on le devient”. E quanto há ainda por fazer!

quarta-feira, 1 de março de 2017

No Tempo da Escola

Enquanto meus pais minoravam saudade à sombra vigilante de um guarda, tentei espreitar outros presos, saber quem se sentava em cada cubículo.  Mas fui dissuadida pelo impaciente  de serviço ao parlatório.  Sem complacência, levou-me por um braço até minha mãe, “tome conta dela ou tem a visita acabada”. Amuei encostada às cornucópias escuras, o aviso maternofica aqui sossegada,  a prender-me mais que amarra de navio. Do meu ponto de observação,  depois  de uma mulher que alargava pelo assento em grossura de tronco de árvore, lobriguei, no último banco, a senhora fina,  um tudo nada chegada à frente, desalinhada do enfiamento. Permanecia de joelhos  juntos,  um acutângulo de pernas, pés apoiados de bico, a agulha dos saltos no ar. À tristeza serena de meus  pais, contrapunha certa urgência nervosa, perfil atirado ao vidro e que  as mãos agora sem luvas coadjuvavam em  inércia deslembrada no rebordo fino do balcão, tão esvaídas como pássaros moribundos. Ainda eu as olhava intrigada quando soou o remate da visita relâmpago. Ao sinal do guarda,  meu pai ergueu o corpo num sorriso só de boca e a mão fingiu um até mais ver desprendido. Depois,  deu-nos as costas e saiu. Ficámos frente ao lugar vazio, olhos esparvecidos na porta fechada. Parecíamos repetir o início. Mas, se antes trazíamos esperança, agora convivíamos com impotência dolorida. O corredor siberiano esperava-nos. Deserto. Silencioso. Os passos ecoavam mais lúgubres, arrastavam-se na dor de deixar família em lugar tão funesto. A senhora de salto agulha, antes quase despercebida, dava passinhos desencontrados e de agudo desequilíbrio, em nada semelhantes ao peremptório de saltos da minha professora.  Atenta, a mulher gorda deitou-lhe um braço pelos ombros e ajudou-a a caminhar até ao magote de gente que nos aguardava. Era chegado o tempo de mais uma leva de saudade soletrar corredor fora.
Minha mãe, que antes encabeçara o cortejo, arrastava-se em sapatos de ferro e torpeza de pernas, a mente circunvagando sabe-se lá por onde.  Contente de por uma vez a orientar, fui-a puxando em direcção ao exterior.  Buscámos os pertences que deixáramos e, depois de uma distância triplicada, passámos a porta grande. Cá fora, a agrura de vento e os humores marinhos derramavam-se sem dó mas devolveram-nos cidadania e identidade.