sexta-feira, 21 de julho de 2017

Causalidade


Apetecia-me um lugar certo para deixar histórias. Me ir deixando. Não como outra qualquer, como eu. Que não se dá por um eu entre tantos. Isso contou. Conta. E criei o blogue.  Dei-lhe um nome simples e não chamativo, daqueles que não lembra a ninguém.  Usei pseudónimo bem longe do nome e próximo do tal eu que é mim.  E estou para aqui neste arrazoado porque li, algures, que todos os blogues nascem com prazo.  Acrescento que tudo que nasce ou começa tem prazo. Termina. Acaba. Fim. Este blogue, no meu horizonte, termina comigo. Na minha morte. Há coisas assim. Bom. Sei da possibilidade de mil factores que o farão sossobrar. Pois. Mas são alheios à minha vontade. Não ignoro interferências externas, espero apenas que nos poupem (a mim e a ele). Neste sentido, o blogue vai ser quase eterno e durar a minha vida toda. A que falta, quero dizer. E nada de risota, bem vejo a contradição, não tem uma eternidade  longa. Ainda que eu escreva nele apenas quando a vida consente. Sim, sim, que a vida – a minha – nem sempre se predispõe ao tempo da escrita. Eu para ela, apetecia-me escrever, dá-me um tempinho, vá lá... e ela a assobiar para o lado. Podem não acreditar, mas sinto que a minha vida nem sequer é minha, tal o pouco caso que me faz. Mas não tenho outra; portanto, faço por esta, acabido-a.
Quatro anos de blogue. Imagine-se o tempão. É que nem sabia disto (e nem me interessa muito). Outro dia, uma bloguer falava de seis anos completos  e afirmava que o seu era um blogue criança. E fui-nos investigar. E vi que o meu blogue é do mais adulto que há. Mas sem bolinha, que não sou muito dada às violências ou à chamada pornográfica que acho mesmo uma grosseria em forma de gente, elemento deturpante do que a vida  tem e pode ser originário e belo. Não consigo entender quem ajavarda, mas pronto, é problema meu e que nem acho resolúvel; o melhor é des-pensar.
E. Portanto. Dizia eu que o meu lugar de escrita tem quatro anos e é adulto. Calculo que seja canino e cada ano valha por sete. Ou mais.
Mas afinal para que escrevo? Ora, porque gosto de escrever mansamente e sem outra censura que a minha. Corrigir. Apagar. Eliminar. Deixar às moscas (a maioria dos posts fica, digitalmente, às moscas). Fazer das palavras o que apetece na hora em que apetece (isto da hora do apetite é puro desejo). Pronto, dominar. Alto lá, que é um domínio todo cheio de mesuras carinhosas, do estilo, queres ir para ali, pronto, vai lá. E a seguir, queres voltar para o lugar anterior, está bem, anda, dá cá a mão que eu levo-te. E vou-as encaminhando até nenhuma querer enfeitar-se, sair, fazer permuta. Estou ao serviço delas. As palavras.
Para quem escrevo? Para quem ler. E, caso desinteresse, posso ser solipsista: escrevo para mim.  Exigência e apetite estão de pedra e cal. Se acaso investigo navegantes de minhas águas, verifico que vivem nos EUA. São máquinas e não pessoas aqueles que por mim passam. E depois?!  Eu gosto é de escrever. As máquinas não me entendem? Ah, ah, ah...e sendo gente, entendia?! Hummm...permitam-me a dúvida.
A minha vida reclama, perdes tempo; só sabes perder tempo e não tiras lucro de nada. E não é que é verdade?! As tias velhas diziam que ia ser virtuosa por desgostar do dinheiro. Enganaram-se. E não se enganaram. Ora não fui virtuosa de profissão ou carácter.


domingo, 16 de julho de 2017

Amizade

Tenho, como toda a gente, algumas amigas. Umas são companheiras de juventude; outra, de adultícia. Não me fecho a novas amizades, mas já pouco me interessam companhias esporádicas (nunca me interessaram). Não estou para isso. No entanto, só com uma discuto pormenores quotidianos. Também falamos da profissão mesmo se, sérias como num juramento,  prometemos antes não o fazer. Conto-lhe filmes e livros, desgraças com graça que sempre me acontecem e a fazem rir. Ela discorre sobre as questões da existência que na sua boca devêm assunto fácil e interessante.  Não sei que possa ensinar-lhe, mas sei o que, naturalmente, me ensina. É uma opinativa muito razoável, aquela menina.
São poucas, as minhas amigas. Deixam vazios nos dedos de uma mão. Contudo, depois de cerca de 25 anos perdida noutro planeta, achei uma. Melhor, re-encontrei-a. Assim. Do pé para a mão. Se a amizade é séria, a gente retoma como se fora ontem. Ou na semana passada. Quanta água passou sobre nós! Boa. E má. Rotineira, chuvinha de molha tolos. E diabruras climáticas de todo o feitio. Cada uma conheceu um mundo de gente outra, subiu na profissão, casou, teve filhos, arranjou e arranjaram-lhe alegrias e dissabores que desconhecia, sofreu desgostos dos grandes, daqueles que mudam corpo e alma e no impacto nos atarantam de tanto nos exigirem quem não somos. E nós a adaptarmo-nos como podemos, sou capaz, sou capaz, consigo, já consegui de outras vezes. Mas, depois disto tudo que não contámos uma à outra porque o tempo de estarmos juntas é pouco mas é hoje e o passado vem quando calhar se calhar, é um prazer tão grande rirmos juntas! Tal qual como dantes.  Não que sejamos felizes, mas rir a par sempre nos foi hábito e terapia, desoprime, torna-nos mais compatíveis com a estranheza de viver. Que nos exaure. A vida consegue ser mais caprichosa e birrenta que eu em criança.
Tenho apenas um remorso muito ligeiro acerca dela: era amiga da minha irmã e tornou-se minha amiga. Não houve troca, foi mais uma extensão. E até me parece que sintonizamos melhor passados 25 anos.
Foi nesta sintonia que ligou uma noite já pelo escuro, vamos amanhã à praia? E é claro que sendo eu a que fui, sem mais pensar, sim. E ela que saía cedo (a nossa praia é longe de mim e mais longe dela), e eu que a ia esperar porque desconhece onde páro e 25 anos depois a praia e os lugares, como dizia o filósofo, são outros sendo os mesmos. E claro que convidei a mana, havia um reencontro por fazer. Acordei com os galos. Ou antes. E deitei-me à roupa. Tudo preparado. Liguei e ela há dez minutos na paragem do autocarro, ainda tão longe. Comecei a ficar contente. Cada uma de seu lado, pusemo-nos a caminho.

 A minha amiga é sempre ela, a mesma. Gosta de andar, de ver, de explorar. Chegou antes. E não parou quieta. Como é parecida comigo em muita coisa e também nesta, nas encruzilhadas virou sempre para o lado errado. E vivam os telemóveis que nós chegadas e nada dela nem daquela menina adorável, com certo porte de deusa, que lhe chama ternamente mammy. Quando enfim descodificámos por onde andava, fui rolando devagar, olhos de  raio x. E vi-as assim, cheias de sol, marchando na ciclovia, do lado oposto. Apitei. Acenei. O traço contínuo a impedir outras proximidades. E as palermas, vai ali alguém a apitar, deve ser um homem; uma olha e, é um homem (não lhe perdoo, eu sei que estou a perder a feminilidade, mas escusavam o exagêro). De modos que, quando voltei atrás tinham sumido de novo. Parei numa aberta do stand de vendas e toda a gente que saía ou entrava do resort olhava para nós com a certeza de não podermos comprar uma garagem sequer. E nós olhávamos para eles na admiração de ver como é a gente que pode comprar tudo ou quase. E delas,  nada (ó raio de garotas). A mana, enganaste-te, não eram elas. Ligámos. Já estavam de novo a afastar-se, não nos tinham visto. E a mãe, que é tão como eu, qual é a marca do teu carro? Eu esquecida que o carro é velho mas não chega - ainda -  aos 25 anos, tu sabes a marca, tenho o mesmo carro. Dei referências do  irrefutável lugar e embrulhei a promessa, não saímos daqui. Pespegámo-nos as duas a mirar os magnatas que passavam em brutos carros, e, em boa verdade, me pareceram olhar de alto e com óculos de marca (sim, sim, mesmo por detrás dos óculos deles e meus, vi muito bem que era olhar de alto). À parte isso, a estirpe não difere assim tanto do vulgo. E diz a mana meio ansiosa, vou esperá-las. Fico a aguardar (até por estar mal estacionada) e vejo-as de longe. Desviam-se brevemente da mana, depois param e há aquele abraço de tanto ano. E beijos. E tal. A minha amiga não reconheceu a mana e desviou-se dizendo para o lado, esta gente está toda a passear logo de manhã, deixa passar esta senhora tão fina. De modo que chegaram as três numa galhofa. E lá seguimos para a nossa praia. Cantando e rindo. O resto conto amanhã. Logo. Ou. Há que encompridar os curtos bons momentos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

No Tempo da Escola

A frequência e novidade da escola nublou-me os amigos de tanta hora. Vivia em adaptação sistémica, cercada de horários e  desábito, e assoberbava de livros e matérias escolares. Inda o sol criança e já D. Amélia encarrapitava nos saltos altos e, toda pastas e dossiers no banco traseiro, me abria a porta lateral do automóvel. Vaidosa da boleia, sentava-me a aspirar os eflúvios perfumados que desprendia, sempre cuidando que os meus pés em eterno veraneio - sapatos de verão eram mais baratos que botas de inverno - não sujassem de pó o automóvel, avisos maternos às marteladas na minha atenção, vê lá onde pões os pés, não sujes o tapete. Seguíamos em silêncio. Eu, desinteressada de toda a ciência exacta, a desenvolver composições mentais ou rememorar verbos e regras de sintaxe e morfologia; ela, compenetrada, olhando em frente. Duas ruas antes do colégio, num lugar de muros bisbilhotados por copas de árvore, o carro imobilizava. Depois do obrigada da praxe, apressava-me a sair. Puxava o atilho do portão de zinco ondulado e, mal o empurrava, o carro desaparecia. Mala ao ombro, solas ecoando no deserto do quintal, abria uma porta de postigo vidrado e dava de caras com o ar morno da cozinha, um aroma de leite com chocolate a insinuar. A empregadita assomada à porta dos quartos espreitava-me do alto do avental e apontava Madalena num sorriso de troça habituada e dedo estendido. Sob o enleio de espargo que dava volta à cozinha,  a minha nova amiga emoldurava em begónias. Sentada à mesa, moía a má vontade dos maxilares no pão que eu avaliava de apetite e que ela, em aperreio de dedos fatigados, depositava mordiscado em meias luas no pratinho pequeno, um nico de queijo a descair. E a mãe a olhar-me como se eu uma autoridade na matéria e não da mesma idade, já viste que esta menina não come como deve ser – e depois virando-se, bebe ao menos o leite, filha.  E enquanto lhe vestia a bata, eu, sem hábito de interruptores e candeeiros eléctricos, corria às cegas o escuro do corredor, embrenhava no cheiro a cama e suor e adivinhava o trinco.  Cá fora, respirava fundo e relanceava a cega sentada no banquinho de parede, a bengala à mão direita, siamesa das pernas a florir, Bom Dia! E ela a compor a pose, sorriso debruçado, a visão na ponta dos  dedos que emparelhavam chinelos com pés. Depois endireitava-se a confirmar a tira da caixa das esmolas. Maravilhada, seguia-lhe a ternura táctil e comovente das falanges adesivadas à ranhura, como que a festejá-la. Em seguida, agitava a caixa vazia e pestanejando à velocidade dos cegos, ainda não passou ninguém, és a primeira;  olá, já sabia que vinhas, conheço-te os passos ainda dentro de casa. E a passar-me uma mão amiga no cabelo que seguia leve no deslavado da bata, estás bonita. Ríamos. E  até Madalena aparecer, contávamos notícias uma à outra. Havendo tempo, falava-lhe da viagem de carro, da tristeza de burros e cavalos trotando a estalo de chicote, dos ciclistas esforçados que impavam nas subidas, das camionetas ajoujadas de toros e cortiça, o excesso de carga em perigo danger e que entortava nas curvas; e a mestria de D. Amélia a ultrapassá-las.  Ela ensinava-me os cheiros e ruídos que lhe acompanhavam as horas, dizia-me que não existe apenas o cheiro de cada um; e pestanejava a garantir que os cheiros de lugares, trabalhos e tarefas é pegadiço, se mistura na pele e nas roupas, nos delacta. E eu em admiração ao poder do olfacto e do que ela sabia das pessoas só de ouvido nariz e pele. Mas o seu tema  era a figura de D. Amélia: o que vestia, a que cheirava, como se penteava e pintava, os seus humores...Enfim, Madalena surgia seguida da empregada que sobraçava os livros apertando sobre eles o elástico da capa de pele. Depois passava-os a  compor-lhe as tranças, dávamos um até logo  às duas e algaraviávamos rumo à escola.

No agrado deste quotidiano, breve se fez Dezembro. Ruas de pó varridas de vento, os olhos vagos das crianças acompanhando um arbusto receptáculo de lixo, às cabeçadas aqui e ali, rebolando até uma esquina onde pausava momentâneo para continuar viagem em voo baixo, rente ao chão. A garotagem, leve de roupas e agasalho, arrepiava no rijo da nortada.  Em todas as casas se queimava o que havia e à boca da noite as ruas cheiravam a lume e, com ou sem chaminé, o fumo escapava-se dos telhados de telha vã. Depois da escola, a criançada catava os pinhais e trazia tudo que encontrava, sacos de caruma, pinhas esquecidas e doentes, pequenos galhos caídos enfeixados e carregados à cabeça, uma mão a amparar o feixe, a outra arrastando o saco de caruma. De regresso a casa, via-os pelo vidro. Peregrinavam na beira da via férrea, cabeças a oscilar de esforço, os irmãos mais novos correndo atrás ou na frente. E tudo me parecia longe e diverso. Uma tarde, por entre a fila de garotos,  vi Lídia.  Disse-lhe um adeus efusivo mas, lançando mãos à cabeça a equilibrar a carga, virou-me a cara. Por certo invejava o meu conforto automóvel. Que tonta. Em Luís, antes meu vizinho de todas as horas e que agora nunca via, deixei de pensar. 

domingo, 9 de julho de 2017

Deolinda

Tenho um relógio antigo, de tic-tac esfolado e teimoso.  Cumpre os imutáveis círculos da vida em cabo verdiano e,  sempre atado às minhas andanças, dá voltas que não acabam. Num ritual de manhãs, acerto-o e alimento-o de corda, mãe a compor a roupa ao filho depois do desjejum, limpar boca, lavar mãos, sacudir migalhas. E, no imediato de dormir, deito-lhe olhos de confiança. E ele que sim, que durma descansada,  a patilha de despertar está de serviço. Adormeço. E vela-me em passo certo. Inalterado.
Se acordo antes da hora porque um bêbado mais espalhafatoso, um grupo desvairado a asnear, ou só uma sede, uma angústia que atravessou o mar e me agarrou num sonho, sorri-me da mesinha de cabeceira, diz-me no azulão já manchado de sol e longa história de arestas, descansa, está tudo bem. Mas levanto-me e espreito a sala. As crianças dormem em abandono, num enleio de pés e mãos, o edredon a descair do sofá feito cama. Tapo-os.  A uma ponta, a minha menina ocupa pouco espaço e tem o elástico a soltar-se da pasta de cabelo; eles, ao contrário, apropriaram-se e dormem quase crucificados. Atravessa-me o pensamento, preciso mudar de casa, dar um canto à filha e aos rapazes. Antes que os impossíveis me caiam em cima deito-me de novo, a compreensão do relógio a sorrir do mostrador, tic-tac, tic-tac, tic-tac. Bem sei que é mecanismo metálico ou, quem sabe, plástico, umas rodinhas que engrenam a intervalos certos e fazem mexer os ponteiros. Mas é que o tic-tac me traz o pé descalço das mulheres de Cabo Verde. Vejo-as na praia, o peixe ainda a contorcer-se na canastra em agonias de falta de ar, brisa colante na capulana garrida atada em nó de engenho e erotismo salutar. E elas chamando freguesia, filas de dentes sem dentista, a desmarcar. E deixo-me ir na sua voz cantada sobraçando marejos de oceano, mistura de dialecto e português, um ensaio de inglês aqui e ali. Que os mares têm todos voz diversa, mas foi na linguagem deste que aprendi ondas e marés.

Acordo num pulo estridente, são as cinco. Noite escura. Atardo as crianças quanto posso. E nasce a roda viva de rabugem, pequeno almoço, vestir, pentear, aviar lancheiras, aprestar mochilas, arrumar o que possa. Levá-los à vizinha que mos põe na escola. Depois é a fila na paragem, um monte de gente estropiada de sono, olhos inchados, cabeça a ganhar ideias e a caber no dia que começa, hoje que dia é, que recados não posso adiar. Já sentada no autocarro, sou duas. A primeira de mim pensa ainda nos filhos, relembra deveres e esquecimentos, rememora a casa que ficou, fogão apagado, camas feitas, pão na mesa. Depois, a segunda entra na casa de D. Natália e pensa no jantar do dia anterior, no volume de loiça, nas mercearias que faltam, nos meninos que dormem. Entro mãe e saio empregada. Dou bons dias ao motorista ainda com olhos meigos, a despedir-me dos meus meninos que deixei na vizinha; e saio direita e átona, toda cheia de quem vou ser, a empregada de D. Natália. Boa senhora, ela. Parece que escreve e escrever lhe dá sustento. D. Natália vive num mundo de faz de conta e não sabe. Já nasceu ali, naquele mundo almofadado, silencioso, onde às vezes estalam discussões violentas que bem ouvi os gritos antes da separação. Há alturas em que somos todos iguais e quem vive na casa dos outros assiste-lhes o filme da vida. Nesta casa,  sou as preguetas que mantêm as almofadas de D. Natália. Faço girar o mundo quotidiano, varro-lhes o caminho, afasto ramos caídos, colho  flores e enfeito as jarras. Sou paga para isso. Existo por via da função. Não sabem onde vivo ou com quem, se tenho filhos, mãe, marido. Ninguém se interessa pelos meus domingos e dias santos; ninguém pergunta quando faço anos; a tristeza é mal vista e pertence a tempo só meu. A alegria, ao contrário, é bem vinda. Sou alegre para eles, alegre de olhos e boca. Sempre alegre e pronta para o trabalho. Preferem-me, se cumpro de boa cara. E preciso de cumprir. São assim as Deolindas do mundo.

domingo, 25 de junho de 2017

Olívia 

Pensei que este ano ia ver-te e correr aquela estrada de planície sem fim. A esmo, desde a berma, flores e pastos arrepiando um bom dia na deslocação do ar, montados do sem fim a arregalar para o carro, aqui e ali, uma vara de focinho no chão a catar bolota. De outras vezes, bovinos pachorrentos, sem pressa de nenhum lugar, alguns apenas um vulto semi deitado, que nem se sabe de que descansa gado tão pouco dado a pressas. E a terra plana, a desenrolar em cada linha de horizonte, vizinha de céu tão baixo.  Lá ao fundo, sem escadote, azinheiras tocam o azul ao alcance da mão. Depois, sempre a fazer-me próxima de ti, contornar a igreja de barras certas que guarda a largura de árvores em quadrado seguro e chão escaldado a soalheiras. Ali, pesa a desocupação dos homens, olhos piscos em fresta, a seguir o movimento à revessa de bonés e chapéus. E seguir em frente, em frente. Passar o sítio onde os namoros se deslocam e atiram pedras a adivinhar longevidades. Como se uma pedrinha no cimo de um esfíngico pedregulho faça diferença ao sentimento. Mas o chão solado. Serão bastantes, os amores passageiros. Ou o par segue consolado da sua perenidade e logo o vento atira um punhado de pedrisco ao chão.  E fica a gente sem saber onde a razão, se no vento que as tomba, se na pontaria que as equilibra. Que, na vida, como em tudo, a pontaria faz muita falta. Pergunto-me se algum dia, tu. Se uma hora, tu. Se o teu coração ansiou ou quis experimentar. Mas falta-me coragem para te desvendar os votos lançados acima daquela enormidade de rocha que guarda a suposta eternidade amorosa. Ou talvez seja apenas bom senso, o teu passado vem ter comigo.  Ou não. Para nós duas, é de pouco interesse.  
No ano transacto, decidira, finalmente, que não me valias o caminho. Por qualquer ninharia me preterias; o peso que tínhamos uma na outra não se equivalia, éramos(somos) dois pratos desiguais na mesma balança. Um desgosto, Olívia. Coisa de memória a repensar.
Porém, inesperada, voltaste por teu pé, isenta das minhas aguilhoadas. E fiquei tão contente como o pai do filho pródigo. Festejei. De imediato, pensei na visita deste ano. Que parece não acontecer. Porque te repetes. Ligo-te e impedes-me a visita porque obras, pinturas, catequeses em términus de festa, ninharias palermas a que o meu coração não dá bola. Foi nefasto, acredita. Afinal, continuamos dois pratos em demasia desigual. Ficaste de ligar. Depois. Quando. E nem sei se.  Neste repensar do que somos e que a ti não incomoda, talvez eu tenha de alinhar contigo, alijar peso, tornar-me leveza de superfície. Viver uma amizade de raiz à flor da terra, se é que tal coisa exista e eu a consiga. Digerir, definitivamente, o facto de não seres quem te pensei.

Um dia hás-de ligar-me. Ou não. E fica a memória de Évora, as ruas de pedras a subir e a descer, os arcos da Praça do Giraldo, O café Arcada onde só estivemos uma vez submersas na vozearia de gente em rigor de capotes e chapéus alentejanos, a rua do Convento Novo agora fechado, a Porta na muralha de que já nem lembro o nome, os moinhos de S. Bento onde nunca fomos. Então,  havia os testes, as notas, o estágio que tanto nos preocupava. É lá que estamos e somos incólumes.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Deolinda

Deolinda tem horário galinácio e trabalha a poder de sol. Madrugada alta que é ainda noite escura e já ela se levanta para entrar, discreta senhora, num autocarro que a traz até mim. Sinto-lhe os passos na pressa da casa. Acorda os miúdos, alimenta-os, trata dos lanches, vê se nada falta  nas mochilas e leva-os ao autocarro da escola. Então, a casa cai  num silêncio que lembra a noite, sem um som. Até que a porta se abre e fecha de novo. Descanso e adormeço com os sons abafados da cozinha a voltar a si. Mais tarde, ainda eu me arrasto ensonada e já a roupa flutua no estendal a cumprimentar-me à inveja, faz tempo que cá estamos. Atenta, Deolinda ciranda pela casa. Olha-me num sorriso de bons dias, e interna-se na cozinha a informar bem disposta, o  pequeno almoço sai já. E mal desdobro o jornal, planta-se por cima das letras o cheiro bom a torradas e café.  Deixa-me um bandeja composta e acode ao quintal. Perde-se ali um tempo e quando sai a compras o mundo lá de fora está amanhadinho. De enfiada, faz  tudo que é recado  e é mulher de pouca demora. Não aproveita para beber café, sentar-se numa esplanada virada ao mundo, desfrutar de uma conversa com gente amiga ou conhecida.  Quando volto a vê-la – ainda leio as notícias – sobraça  o alguidar da roupa já seca. Levo o jornal para o escritório e oiço-a a abrir janelas. Areja quartos, faz camas, arruma. Entretanto, abro o portátil e espreito novidades, tento escrever alguma coisa. A essa altura já as caçarolas dão sinal na cozinha. Chega-se a mim a limpar mãos no avental e põe-me as ementas à consideração. Como se eu saiba que espécimes me    habitam o frigorífico e o que fazer com eles. À minha recusa em decidir refeições, acrescenta em voz baixa e firme, é patroa, quem é patrão tem de mandar. Reafirmo, no meu frigorífico mandas tu, és a patroa; eu sei abri-lo e fechá-lo. Mas não a satisfaço. Olha-me duvidosa a incentivar, não lhe apetece outra coisa, eu cozinho prá senhora. Deolinda tem treino de obediência e agrado e penso até que seria mais grata a uma patroa caprichosa e pueril. Na hora de almoço, recusa comer comigo, fica mal, não pega bem patroa comer com empregado, a senhora não leve a peito, mas eu sei o meu lugar.  Durante a tarde, haja o que houver, Deolinda passa a ferro, dá uns pontos na roupa das crianças, ajeita a roupa do dia seguinte e deixa-nos o jantar preparado. Depois vai buscar os garotos, dá-lhes lanche e banho. Quando fazem os deveres escolares, despe a bata, enfia o vestido de florinhas, humedece as mãos e alisa  o cabelo, agarra a malinha e chega ao escritório, vou embora, senhora, témanhã. E desaparece no portão em corridinhas pequenas. Enquanto a espreito, olho as minhas três páginas escritas. Como é que ela consegue?! Como consegue sustentar uma família e, vinda dos fundos da noite, trabalhar o dia todo para, já noitinha, voltar para casa num sorriso.

Deolinda é o abençoado mistério da minha vida. Sem ela, o quotidiano  seria outra coisa.

domingo, 18 de junho de 2017

O Sentido da Vida

No Alentejo, o verão é treino de inferno. Sofre-se com calma, no anseio de noites frescas que um sopro de brisa aligeire, olhos a adivinhar no astro mudanças moleculares. À noitinha, os homens sentam à porta a moíção de trabalho e calor, dedos de pés esticando prazenteiros livres do aperreio de sapato e meia, o suor a refrescar nas reentrâncias; e há qualquer coisa de terno na timidez indefesa da carne a  branquejar  sob o  arregaço de calça que o regadio ensejou. Os homens esperam o dia novo. Que surge, benza-o Deus, muito igual ao anterior. Em calor, luz e sofrimento. Os alentejanos que se cobrem como mouros, a defender-se da torrina e dos mil insectos que o verão importa.
Um alentejano na praia não é qualquer pessoa. É ele. E  mais todo o calor que já viveu e o vincou em braços e pescoço. E mais o suor que destilou na terra que é sua e ama de paixão. E mais a imensa saudade da água e que lhe mora na alma. Que não pode este sentimento dizer-se apenas saudade; é funda necessidade, míngua exacta, falta que não evapora na beira de um rio. O mar sim. O mar tem a vastidão da sua necessidade e alberga toda a frescura das brisas. Ali, não precisa poupar na pródiga liberdade da água que lhe eleva o corpo e o pega ao colo. E descansa sem remorso na inutilidade da areia onde nenhuma enxada tem préstimo. A praia é breve recreio onde despe calores e angústias, alija males de viver e se transfigura empenhado em respirar, cheirar, tocar o ritmo das ondas. Extasia  no perfeito milagre de saber como matar o calor que sente.
Mas ontem, enquanto muitos vogavam de corpo e espírito, tu fugias do fogo traiçoeiro. Enquanto uns tinham sol e água fresca em céu sem nuvens, tu corrias com a família para o carro. Tu apressavas-te para a morte, depressa, depressa, é preciso sair ou morremos queimados. Enquanto nas praias a água abraçava os corpos e os apaziguava, o fogo devorava mata, devastava caminho, corria às cegas destruindo a esmo. Na praia, os alentejanos olhavam o dia claro e a rir, ainda bem que viemos. E tu num repentino beco sem saída, cercado, o fogo e o vento contra ti, e agora. Os gritos, a aflição, a dor mais incomensurável e veemente que existe. A Dor de te saberes dentro da pior morte e ninguém para salvar-te. A tua dor penetrante de impotência a varar-te, vamos morrer. E o fogo máquina terrífica e ignóbil, sem pensamento, apanhou-te e andou. Na mesma hora em que tanto português cabeceava de sono e calor, pasmava para a TV, tomava banho de mar, partiste dilacerado em dor que não se descreve, ardias por junto. E tu já não eras tu, sobrou  de ti um resto calcinado de ossos; nada se sabe das tuas carnes, dos desejos que tiveste, do que pensaste, do que foste. Recuso acreditar que não há despojos. Acho, vê tu, que ficaste na brisa que a chuva traz e que jamais te afastarás dela que, ontem, tanto te faltou. Agora que sabes mais que nós, diz-nos, o que fazia o Deus justo e amoroso nesse momento.
À noitinha, inconscientes da desgraça, ignorantes deste luto nacional, os alentejanos viajavam para casa, vidro aberto e braço fora das carrinhas e automóveis, agradados da chuva e do cheiro a terra molhada, a contornar as árvores caídas pelas estradas. Pacientes. Felizes. E tu já liberto de todo o mal a ouvi-los e a pensar, também gosto do cheiro a terra molhada. E eu garanto-te que não sei como és capaz de esquecer o terrível cheiro a carne viva queimada. A dor. O lamento profundo e insondável de haver tal morte.

Descansa em Paz.