domingo, 3 de setembro de 2017

Parque Eduardo VII e Eu

Defendo, acima de tudo, o prazer das pequenas coisas. Em primeiro lugar porque as grandes não me fazem parte do caminho. Em segundo, tenho em pouco apreço infelicidade e desamor sistemáticos. Claro que na viagem me surgem buracos negros, poços de ar, tempestades, o diabo a sete que, por vezes, me parece setenta.  E não, não julgo que sejam todos produto do acaso. Sei bem que muito contratempo vem de mim e por mim. Bom,  que é como quem diz, pior. Nesta linha, as minhas fantasias nada têm de extraordinário. Não são, infeliz e felizmente, de natureza erótico-sexual. Digo infelizmente porque a sua satisfação ia dar-me um prazer inédito e lupanar; e felizmente porque tal me exigia outra pessoa que, neste ambíguo, os prazeres solitários não são bem a minha praia; ora tudo que exige outros, acresce em dificuldade. E, portanto, nem sei se é pela razão de felizmente, se só porque sim, são fantasias  bem comezinhas. Mas não faço por menos: tomo-as por vitórias. Para que seja isto coisa entendível, conto  uma desde a origem.
Na casa dos vinte, eu não era nem um pouco inédita (ainda não sou). Como tanta gente apressada que enchia comboios e barcos, vivia na margem sul e estudava em Lisboa. À ida, os barcos atulhavam e sentia-se no ar um burburinho de vida retemperada pela noite; no sentido inverso, traziam conversas ciciadas e silêncios, bocejos, cansaço sem rédea e olhos baços sumidos em covas e papos. Os próprios pareciam extenuados, chiavam em queixa demorada e havia um desmazelo poluente que se espalhava pelos bancos adormentados e engolia o oxigénio do ar.  Por mais que arenguem os noctívagos, a noite existe, sobretudo, para o descanso do mundo. Não apenas das pessoas. De tudo que existe.
Nesse tempo, uma das minhas dilectas amigas estudava e vivia de empréstimo em casa de uma madrinha, em rua que não sei, muito perto do Parque Eduardo VII. Aos fins de semana, seguíamos ambas para a outra margem. O meu conhecimento com este parque de Lisboa remonta a essa época. Jantávamos na cantina da faculdade onde não se pediam cartões e rumávamos ao destino, com passagem por casa da madrinha para arrotearmos o saco de fim de semana. A atalhar caminho, atravessávamos pelo meio do Parque e estávamos no Marquês em três tempos. Suponho que, uma vez ou outra o tenha visto antes. Talvez por alturas de greve no metro, mas passei sem lhe ligar meia, toda afadigada com as horas, o meu tempo controladíssimo, a greve a arruinar-me o esquema. Ainda hoje não consigo saber as ruas que o percorrem, mas, pitosga e desorientada quanto baste, nocturnamente, deixava-me guiar pela amiga. Seguia ao sabor da sua sabedoria. Via umas sombras por lá e lembro-me de pensar que, com ruas tão iluminadas e bonitas logo ali abaixo, não se percebia para que andavam as pessoas a passear no escuro (não seguiam como nós, às pressas). Aquilo era mesmo um bocado sombrio, ouvia resmalhar atrás das moitas, mas pensava que fossem coelhos ou passarada. Passava o tempo a levantar os pés a temendo covas e cabeços que nem havia e ríamos ambas feitas tontas. Havia gente que seguia atrás de nós, mas sempre pensei que o caminho não era só nosso e portanto até me sentia acompanhada. Até que certa vez um senhor que se demorava por ali, nos interpelou ao escuro e eu como sempre a pensar que queria informações, atrapalhada, agora pergunta por uma rua e eu não sei qual é. Quis saber o que andávamos a fazer àquela hora no parque. E eu, ela mora ali num prédio daquele lado e o caminho fica mais perto assim. Ele, isto é muito perigoso para duas meninas como vocês. É melhor descerem a rua por ali ou por ali - o braço a apontar as duas ruas paralelas -, não passem mais por aqui. E nós agradecemos muito, eu para a minha amiga, tu achas que há aqui ladrões ou assim? Mas a gente não tem dinheiro, o que é que nos podiam roubar, de certeza não queriam o passe... Mas não voltámos a passar por lá.

Um dia, fomos as duas à Feira do Livro. Eu e ela. Diurnas, diáfanas e sem tostão. Gostei do Parque até mais não poder que livros só vê-los. E nasceu a minha fantasia: deitar-me naquela relva. Todos os anos a olhava a pensar, “é este ano”. Olhava e havia lá gente solitária e acompanhada, deitada, sentada, a descansar,  conversar, namorar, ler. Pensava, “é só ir para lá, ninguém me nota”. Mas não conseguia. Anos e anos disto. Muitos. Muitíssimos. Dezenas. Passava de autocarro ou de carro e um enlevo no relvado, tenho de me deitar ali, tenho de lá estar nem que seja só uns momentos. Chegava outra Feira do Livro, tanta gente a flanar, ambiente propício, era só aproveitar. E nada. Saía a constatar num desalento, “ainda não foi desta”, os jacarandás, “aselha! Que é que custa ires lá para dentro e deitares-te, hoje é que era”. Até que houve um dia em que, hélas!, consegui. Entrei, andei lá por dentro como quem caminha sobre nuvens, deitei-me na relva, o volume de poesia de Ruy Belo sob a cabeça. E nunca o céu me pareceu tão azul nem o cheiro de relva tão seráfico. Não se descreve a frescura da terra sob o corpo um friozinho agradável a entranhar roupa dentro, a chegar-me à pele antes desapercebida; e o cheiro, a sensação do azul sobre mim, a coragem de estar ali. Foi um momento supremo. Coisa irrepetível. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

História Esquisita com Beldroega

Bonito. Ali estava eu acocorada e de braço no ar. Eu e um homem que mal via contra o sol (ai os óculos, ai o chapéu). Baixei o braço. Levantei-me. Juro que ele não buliu, figura sólida e consistente. Confirmei, não era fantasma ou morto-vivo. Olhei franzidamente o rosto escurecido contra a claridade, traços sombrios e  indistintos. Usava óculos de sol, coisa que aos mortos não lembra se lhes dá para aparecer.  Puxei da minha tonalidade mais saturada, aquela que a minha avó apelidava de “desimpaciente” e respondi, não tenho lume, não fumo. Não se moveu. E eu, mau Maria, não querem lá ver que não me respeita a idade e nem o lugar? Acrescentei, procure noutro sítio. Então ele mudou de lugar e, à claridade alentejana vi-lhe o rosto. Em jeito afável, sorriso de olhos longínquos, invectivou quase doce, não me conheces, mas conheci-te mal te pus os olhos, carregavas um balde com água. E eu já a abraçá-lo numa alegria também temperada de antigo, cheia de gregas e colchetes pegadiços, Octávio!...que é feito de ti? Há quantos anos...Ele a explicar-se, vivo por aqui, se vou para o outro lado, atravesso pelo cemitério. É mais perto, não tem ninguém e despacho-me num instante. – e a escorrer troça bem humorada, aquilo do lume era a brincar, só para me reparares; há muito que não fumo.
Esqueceu a pressa. Esqueci o sol na moleirinha e a beldroega. Esquecemos o lugar. Num cemitério cheio de sol, atardámos à conversa de muito ano, pergunta aqui, recorda ali, até ao toque da sineta. Era a hora de almoço. Despedimo-nos afogueados e suarentos, com promessas de reencontro, um café, um lanche em lugar fresco, só para desdobrar assunto. Meti-lhe no no bolso o meu número de telemóvel, enfiei os apetrechos no saco, a beldroega maneta a olhar-me intempestiva, tufada de rancores. E rumou cada um para seu lado. No regresso,  ainda imersa em novidade e agradada do acaso, notei o quanto nos tínhamos perdido em memórias sem assomo de presente. Contudo, ele levara o meu contacto e tinha-me parecido contente com o encontro; havia tempo para.
Mas a vida enrola-se-nos à cintura e exige. Entrei em casa e os chamados instantes da realidade mais a vizinha que uma ambulância levou já sem vida, varreram-me o encontro feliz. Só voltei a lembrá-lo quando, à tardinha, em regurgitação de cansaços, visitei minha irmã. Estávamos à mesa – é à volta de mesa posta e redondas conversas por entre a mastigação que esmiuçamos novidades – e contávamos as pequenas bagatelas que desoprimem as mulheres. Minha irmã é prazeirosa de ouvir, conta a cores e faz de tudo uma história. Tenho certeza que aquilo que tão bem encadeia, só é bonito e alegre por ser ela a contá-lo. Domina a suprema arte da oralidade. Esguia as palavras, prolonga uns sons, encurta outros, e dá, a cada, um novo fôlego.  Porém, a mente é sinuoso ruminante; descontraída, compraz-se a trazer à consciência o que antes esqueceu. Por entre o conversedo, trouxe-me o Octávio. E, pela primeira vez, reparei na impressão agradável que me deixara. Virei-me para ela, não adivinhas quem encontrei hoje....e ela toda olhos em ponto de interrogação, quem foi. E eu, o Octávio, aquele garoto que vivia na nossa rua quando começámos os estudos, lembras-te? Ela pasma, olhos em bico que é como quem diz redondos de admiração. E torno, grande surpresa, ham, nem perguntas como está. Ela a fixar-me de mão estendida e faca paralisada a meio de uma fatia de bolo, esse Octávio não foi de certeza, o rapaz morreu vai para mais de dez anos. Eu, não pode ser, pois se o vi, dei-lhe o meu número de telemóvel e tudo. Ela séria, deixa-te dessas coisas, o rapaz morreu, então não te recordas? E não me recordava. E também tinha certeza, era ele.  Mas a faca ainda estava parada a meio do corte e disfarcei, tens razão, deve ser confusão, ele disse Octávio e lembrei-me desse, mas deve ser um colega da secundária. Não faças caso. E a faca desceu suave até ao breve estalido de bater no prato de loiça e a fatia já separada, a querer tombar. E eu para dentro, atónita até ao mais fundo de mim, que grande imbróglio.
É noite fechada. Estou em casa. Penso no Octávio. Nele. O único que conheço ou conheci, que não é nome muito usual. Bem sei com quem conversei e sobre que assuntos. Era ele inteiro, o que estudou comigo, morou na minha rua e muito livro trocámos até à sua mudança de residência e de cidade. Não há engano possível, era ele. Mas confirmei com amigos, eles ao telefone, morreu mesmo, é verdade, sim. Soube que está enterrado naquele cemitério. O mais incrível é que não me assusta a certeza de ter estado à conversa com um morto.  Contudo, não sei se volte que os sardões já me afastavam qb, entrava a arrastar os pés só para lhes dar azo à fuga.

Não pode ser, não apanhei sol a mais. Eu não o inventei. Ele levou mesmo o meu número de telemóvel, tenho meia folha da agenda rasgada a comprovar (e a beldroega maneta, que assistiu a tudo). Um dia destes, quem sabe, encontramo-nos com um refresco na frente. É um morto? Ora, a mim tanto se me dá. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

História Esquisita com Beldroega

O cemitério português é uma chatice cheia de pedras e jarras pesadíssimas onde nascem flores plásticas. Não aprecio cemitérios. Como diz um frade conhecido, não mora lá ninguém; ele não tem lá que fazer, eu, por acaso, tenho. E hoje calhou ir a um. Como os mais, sem vivalma. Era eu e o bem aventurado sol que, decerto por me ver só, quis acompanhar. E as minhas tarefas domésticas. Sim, aquelas mesmas de limpar pó, lavar, varrer, arrancar ervas daninhas que medram à velocidade da luz em lugares adubados. E não garanto, mas quase aposto que os sardões amarelos e verdes que se assustam comigo e eu com eles ainda lá passeiam pelos subterrâneos. Haja Deus que hoje nem havia calor em demasia e não se quedaram de olhinhos desconfiados a olhar-me de lado, que é só como sabem olhar, e o meu coração logo na garganta que nem sei como é que ainda consigo dizer ai e saltar para trás com pernas de mola enquanto eles somem numa repelência que me dispõe ao vómito. E posto que sózinha e avoada, esqueci o chapéu e tive de aguentar-me à soalheira (solinho não amofines que bem sabes a falta que me fazes e o agrado em que te envolvo). Eu lavando e lavando as moradias empedradas (coitadinhos dos mortos soterrados lá em baixo) e a pensar nos meus chapéus tão pipis, que me emprestam um certo quê e sou pata que fica menos pata. Pronto, é isso, o cenário é de valor negativo e penso em coisas positivas, como uso antes de adormecer. Entretanto, também esqueci o elástico de prender o cabelo e lá andei no meio do mato, pouco vendo de pedras e jarras. Quer dizer que o franjado me esbateu os rigores da compaixão. E quanto o meu chapéu de gordo laço preto e aba derrubada me faria outra! sombreava-me o olhar cujo me faz muita falta, mas  nada perde em não ser visto; e aposto que as maçãs do rosto iam parecer geradas no glamour da Paramount ou por aí, e em tudo opostas ao jeito de mexicana pobre e sem cintura  que me cabe (falando verdade, não há chapéu que renda na cintura). Pois estava eu nestes preparos e encandeada de quase tudo branco que os óculos de sol também em casa (cabeça, cabeça, o Variações tinha razão), dizia eu que me entretinha a esquartejar, braço a braço,  uma beldroega do tamanho de um naperon, a faca uma lástima no corte, quando oiço uma voz mesmo ao meu ladinho,
 - tem lume?
Palavra que nem liguei. Sou um bocado dada a falar sozinha e inventar coisas; por vezes oiço passos e não vem ninguém; sinto os assentos das cadeiras a ir abaixo por desporto; e outras bagatelas que não são portas a ranger nem móveis a resmalhar. E, convenhamos, ninguém vem para o cemitério pedir lume, há muito lugar para isso neste mundo de Deus. Portanto, dei pressa ao sadismo sobre a beldroega advertindo-me em pensamento, estás a alucinar, tu tem cuidado com o sol que te faz mal à moleirinha. A congratular-me, vá lá que a linfa é pouco vistosa. Mas a voz repetiu,
- tem lume?
E havia uma sombra na pedra. Alto lá que isto é a sério, pensei, a beldroega presa por um braço que nem garota mal comportada, o redondo do naperon de antes num breve triângulo de queijo  que sou desalmada a tripudiar intentos da natureza. Investiguei de cabeça ao alto e a voz tornou,

- só pedi lume, não precisa apontar-me a faca. 

domingo, 27 de agosto de 2017

Imagens e Percepções

No verão, as cidades tufam suas praças como roda de saia. Umas exibem-nas em plissado cetinoso, outras franzem singelas, e as mais estendem-se em metros e metros  de esplendor, projecto de alta arquitectura. As praças das cidades falam por elas. E são um Terreiro do Paço pequeno e airoso, com Tejo ao fundo; um franzido agradável que cai bem e tem história, a gente a imaginar a defenestração de um Miguel de mau presságio que se estatela no chão.
Na Polónia, como em países que lhe são próximos, edifícios e praças são outros, mais coloridos e demorados no pormenor. Semeados de flores que amiudam aqui e ali em ninhada de arco íris. Prendemo-nos ao triângulo das frontarias, à cor conjugada das paredes, à beleza inclinada e pródiga dos telhados. E a mente voa até às mãos de labor. As mãos que criaram a efeméride que perdura exposta aos elementos, aqui uma estátua, ali uma janela, além uma sugestão de onda. Nestes edifícios, os telhados excedem-se, não são apenas a tampa da casa. Existem por si e não se restringem à função de fechamento e parte da casa que recebe o que as nuvens deixam cair. Por cá, há quem meça o valor de uma casa pelo número de divisões; mas talvez nesta parte da Europa ele dependa da ornamentação e riqueza dos telhados. É ver o cuidado que põem nos frisos e ornamentos, ele são esculturas, janelas, torres e zimbórios, boleados em degrau. É como se as casas enlouqueçam pelo telhado. Erguem-se austeras e regulares, mas, chegadas lá acima, todas se envaidecem, perdem siso e contenção. Espanejam de lantejoulas, armam-se de importância e olham de alto (altura não lhes falta).
E há as praças vivíssimas, a regurgitar de gente: em fila, o negócio de carruagens e cobiçadas condutoras de rédea na mão e traje rigoroso, a sua delicadeza luzindo na elegância dos cavalos; os fazedores de bolas de sabão que manejam o arco e atraem a alegria de crianças saltadoras; os talentos de esquina que tentam a sorte, boné estendido; os vendedores de quiosque e suas matreirices de cordel; a estudante que, na sombra norte da praça, toca violino de olhos fechados, rabo de cavalo a acompanhar-lhe a paixão, o cetim do estojo clamando do solo, reparem-na, é uma artista. E ela empolgada e fora de órbita. Linda por todo o lado.

E à sombra das catedrais, no empedrado das ruas, nos caminhos dos parques, os turistas são mole em movimento, nariz no ar. Velhos e novos; herdeiros e deserdados; conhecedores ou simples curiosos. Enquanto isso, a finesse resguarda-se, abriga-se do sol e observa o espectáculo de outra esfera. Tem pose, sabe estar. Não sua em bica e despreza calores que enrubescem. Bebe sumos, talvez; refresca-se. Ou será um vodka gelado. A firmeza dos empregados desvia turistas de pé descalço e distraídos que assomem a recuar por uma foto. Não. Ali é chão sagrado. Tão perto da praça e da catedral. Tão junto ao Deus que amou todos por igual. E tão longe dos homens comuns e sua febre de vida. Passo e a atenção dos funcionários mede-me a pegada. Dali, miro a praça e apenas sinto o seu tumulto sonoro. Talvez, pela noitinha, haja uma orquestra vestida a preceito, afinada, famosa. Mas perderam para sempre aquele momento de magia poética, a vibração que serpenteava, desde os pés, pelo corpo jovem da violinista e se ouvia em repentes ternos e maviosos. Irreais.

domingo, 20 de agosto de 2017

Distintos e Plausíveis

Polónia. Florescente país de mulheres elásticas e serpentinas. Lugar de gente metida consigo e rodeada de amena vegetação de crianças, beleza eslava e diversa da latina onde mora um jeito cigano e palrador que estrebucha, resmunga, se rebela sem pejo. Polónia é terra de homens sem graça, rosto de bebé chorão que cresceu anómalo e não condiz. Os seus campos encompridam a lembrar a doçura da paisagem Toscana imbuída de verdes-veludo e fenos arrumados em cilindro. Falta o aprumo pretoriano dos ciprestes montado no redondo das colinas. Que, pelo chão, há idêntico amarelo campesino e simétrico. Ou não fosse a Polónia um país agrícola de campos rectos, lisos, com o viço da floresta em fundo. Expostos à luz, são beleza crua, expurgada  da suavidade poética que mão divina arredonda na Toscana, para se entreter de gosto a posicionar cada cipreste em seu lugar natural.

A poder de euros, o país acordou para a febre de estradas e evolve num rodopio de obras e filas de trânsito. E enquanto o meu pobre Portugal se consome e imola pelo fogo, as florestas polacas vestem-se de penumbra e refulgem no fresco mistério de gotas a desprender. Desde a raiz, cada árvore desafia o infinito. Nos caminhos sinuosos, um aconchego de folhas a sobrepôr cria um mundo de segredos e arreda o firmamento, o solo em teia de raízes. Ciosa, a floresta encerra o passante dentro de si e recebe-o no seu interior de clorofila e humidade. Isola-o. E prevalece.  Vibra nos pequenos sons, nas gotas que caem sobre o solo, na agitação ciciada dos ramos mais altos, no restolhar de animais que passam a escapulir-se dos pés. É a eclosão exudada da natureza sem projecto. Fertilidade de silêncio. Húmus que se respira. Transpiração odorífica que entontece. Peculiar, íntima. Ali, a nudez do homem ajoelha à liturgia de força sagrada e vegetal. Cede à voz da terra. E diminui ao seu tamanho. Sem basófia.  Ele e a terra originária. Ele, no imenso templo natural. Em clausura e liberdade.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Senhor António

Nos primeiros tempos não dei por ele. Transpunha a cancela a adiantar hipóteses, fixo num futuro de papéis, rememorando urgências telefónicas e post-it, minutos em desconto para um café. Confesso, não o via. Passaram meses até lhe notar a atenção. Rasa. Fluida. Creio que foram os olhos funcionais.  Ou tínhamos, em verdade,  de nos cruzar.
Naquele dia,  pretendia chegar com algum avanço a um encontro importante. Queria rever os pontos fundamentais da negociação e relembrar estratégias e pormenores. As informações sobre a gestão e personalidade de quem me aguardava corriam-me a bold na mente e sabia que o acordo entre ambas as partes dependia da transição entre a  exigência flexível e amigável e a imposição em trompe d’oeuil que cerceia amizades. Tinha sido escolhido por isso mesmo. Sem falsa modéstia, dominava essa arte de dar e retirar sem mão, parecendo que dava mais do que subtraia quando sucedia o inverso.  Claro que vendia o produto apoiado em cálculos e dados reaise transparentes,  mas escamoteava especificidades que os tornavam pesados e menos lucrativos. Esse era o ingrediente secretíssimo. Na vida empresarial, a transparência conquista-se, iça-se do fundo de água turva onde nasce o lucro. Enredado neste conciliábulo, só reparei na avaria da cancela quando, imediatamente antes de embater, o homem avançou, abriu manualmente, e regressou à cabine envidraçada. Irritei-me. Baixei o vidro na intenção de um ralhete. E dei com os olhos dele sem expressão, meros botões atentos e já acesos para o veículo que transitava atrás. Levantou-se. Imaginei que iria proceder a idêntico conjunto de movimentos. E desisti. Afinal, eu vinha distraído e ele executara a função em tempo útil, de modo a evitar colisão. Acelerei até ao meu lugar no estacionamento e quando entrei no elevador, já o esquecera.
A vida tem caminhos por onde seguimos atarantados e em corrida insana. Na mira dos pontos de chegada, não os reparamos, estão sem estar. Contudo, nada é tão aberto e disponível. Teremos de palmilhá-los. Ou não. Pode a morte apanhar-nos a meio, ou a um quarto. Notá-los é a única forma de os viver e sermos gratos. Os caminhos que a vida – quiçá um deus – nos deu. Chão dos nossos passos. Mas isto era assunto que, então, não me ocorria. Caminhava como os jericos, a olhar em frente. Os objectivos como degraus, nem sequer metas ou zonas de verde respiração. O caminho existia-me em forma de subjecividade radical: dizia respeito à velocidade e tipo de passada, ao número de degraus transpostos. Competia comigo mesmo.
Nesse fim de tarde, saí a pensar numa bebida. Fora bem sucedido. No dia seguinte, iniciava outro desafio.  Apetecia-me fechar o dia. Adormecer no sucesso. Pensei vagamente que um brinde não ficaria mal, mas não havia com quem, o mundo de colegas laborais era pouco atreito a celebrar vitórias de outrém e a namorada estava longe e em trabalho. Tomaram-me de assalto as suas pernas a sairem da t-shirt, os pés descalços, mamilos a enrugar o algodão, e alaguei em ternura.  Concentrei-me na escolha do lugar, o sorriso meio irónico e cabelos de rapazinho maroto a persistirem.  Afastei-lhe a imagem e, enquanto atravessava a rua, fitei a mancha escura de árvores copadas. Gostava daquele lugar fora do bulício. Entrei.  Uma luz discreta iluminava o interior. Sentei-me nos fundos, alarguei o nó da gravata e pedi. A meio da garrafa requisitei outro cálice e chamei o empregado, importa-se de brindar comigo? Ele trouxe um copo, largou o tabuleiro sobre a mesa e encheu os dois. Quando o ergueu li-lhe o nome na chapinha de metal: António. Olhei-o vagamente, À nossa. Bebeu de um trago e, sem palavras, voltou à sua lida. Não agradeceu. Cumprido o desejo do cliente, retomou a actividade. Alguma coisa nele me parecera familiar, mas julguei tolice. A essa altura já o mundo me parecia risonho e eu era leve. E desliguei.
Passados dias, o funcionário da entrada pede para falar comigo. Tratamos do assunto, olho a chapinha do nome e, António. Era ele. Os mesmos olhos sem expressão, corpo de nem orgulho nem submissão, solicitude comprada. Quando à noitinha fui confirmar, encontrei-o no pub. Um desempenho perfeito e maquinal.
Intriguei com o homem. A empresa não pagava mal, o que o levaria a deter dois empregos?! Investiguei com o dono do pub, mas conheciam-no apenas dali. Usava pontualidade inglesa, calado e sem amigos. Satisfazia em absoluto no trabalho. Quando o investiguei na empresa verifiquei que estava indicado como trabalhador de continuidade, não faltava e não existia registo de queixas.

Entretanto, comecei a passar a cancela com um aceno de cabeça que só os olhos dele pareciam notar. Se voltava ao bar, a resposta ao meu cumprimento não diferia de nenhuma outra. Continuávamos estranhos. Certa noite, não aguentei a curiosidade e esperei-o no fim de turno. Apareceu com um cãozito pela trela. Silenciosos ambos. A sentir-me um estorvo inquiri, na sua idade, dois empregos são castigo, se precisar de dinheiro...Olhou-me sério. Andou uns passos comigo e o cão ao lado. Sentia-me um inútil, a chave do carro a bater-me nos dedos, sem saber que fazer. Parou e sem se voltar murmurou a olhar o alcatrão, há tristezas tão grandes que perdemos o tino, deixamos de mandar em nós. Mas ainda reagimos a ordens. É por isso que tenho dois empregos. Olhe, sou como este cão. Só que não tenho dono. E afastou-se.

Paralelo

Encontrei-a entre aviões, tão perdida quanto eu num grande aeroporto. Duas mulheres em trânsito, idades e destinos diferentes. Era Inverno e um manso nevão aconchegava-se pelos hangares e pousava no dorso metálico dos aviões. Nessa noite, o aeroporto regurgitava de gente. Enxameava.  Gente retida a meio do percurso, crianças de colo e birra, um embaraço de malas junto às pernas, ou em ruidoso e arrastado cirandar.
Viajava sozinha e tentei afastar-me do ruído na mira de um canto sossegado onde pudesse dormir um pouco. Reparei nela quando juntava as malas. Era jovem e estava sentada no corredor em frente do meu, semblante contrariado. Imaginei que o jeito contrariado se devia ao incumprimento de horas e afazeres no ponto de chegada. As previsões eram catastróficas em relação a compromissos: os voos nocturnos tinham sido cancelados e na manhã seguinte, já sem queda de neve, a seriação das rotas fazia-se pelo atraso que detinham. Com sorte, o meu voo saía pela tardinha. Os hoteis do aeroporto estavam superlotados, não havia onde albergar toda a gente.
É sabido que aeroportos e aviões aproximam desconhecidos. Habita-os uma tal precariedade que normais pruridos se dissolvem. Ao fim de uns minutos de mutismo, eu e ela conversávamos como colegas de trabalho. No vaivem de descobertas e alguma afinidade, e porque nos desagradava a noite branca de corpo sentado, resolvemos abandonar o aeroporto e procurar quarto na cidade. Guardámos a bagagem maior e um taxi levou-nos ao hotel. Outros viajantes tinham tido o mesmo pensamento e o único quarto disponível  era um quadrado mediano atravessado por uma cama larga. Olhámo-nos rindo e dei-lhe a escolher entre o lado esquerdo e o direito. Dormir acompanhada era-me difícil e estranho, mas não havia escolha e o cansaço da viagem pesava-me no corpo. Enquanto a minha companheira retirava a maquilhagem no espelho do quarto tomei um duche rápido e enfiei-me na cama. Depois, fiquei a ouvir o som abafado do chuveiro por entre apreensões, e se ressono, e se não consigo adormecer e dou muitas voltas na cama, e se. Mas, ao invés do que pensava,  caí num sono profundo.
Sonhei com mãos suaves a soletrarem-me o corpo; sílabas paradas e repetidas até à exactidão do som, espaços que o desejo preenchia. Temia o desfazer do sonho. Queria ficar, permanecer nesse mundo de calor e companhia, prolongar o bem quimérico de me sentir amada e indefinida. E as mãos que. E infinitamente me amavam em cada arco e grinalda de dedos, o corpo a fugir-me, a fugir-me. Algum animal me enrouquecia na garganta e me fechava as palavras, as escondia e eu apenas um som de liberdade sem nexo por onde enfim respirava. E quando recuperei braços e mãos, senti-os a serem mansamente levados e deslizavam já na suavidade cálida da pele. Subi-lhe a cintura a medo e dúvida, dedos incrédulos  na elevação do peito de mamilos erectos...afastei-me de rompante, agora bem acordada. No horror de ser verdade desviei-me dela num misto de nojo e estupefacção. Com o meu corpo. Com ela. Connosco. Na mente, em néon, um e agora gigante. Tentei levantar-me e as pernas prendiam-se nos lençóis, não conseguia erguer-me.

Acordei quase a cair do banco, salva pela trincheira da bagagem. A mulher continuava na minha frente e olhava-me como quem vê bicho raro, uma expressão curiosa a vestir-lhe o semblante. Posso ter corado. Posso.  Alheia aos meus íntimos motivos, ela levantou-se e rumou ao destino. O tempo que nos aproximou também nos deu distância.