sábado, 27 de maio de 2017

No Tempo da Escola

Por vezes, o mundo parece testar-nos a paciência. Não nos oferece primazia, que essa pertence-lhe, mas é como se ela exista em função do que decidimos. Entediados da peregrinação diária e  saturados de não encontrar mudança na Casa do Cabeço, esmoreceu-nos o ânimo, amanhã já não vimos por aqui. Mas eis que, chegados a esta tardia decisão, deparámos com janelas abertas e, na rua que continuava o portão, sombreada por chapéu de palhinha fina e de regador pendurado na mão, uma figura miúda, encavalitada em altura de saltos. Começou a aproximar-se tic, tic, tic, e nós junto às grades, olhos em alvo.  Quando chegou perto, observei as gotas de suor que lhe  nasciam sob os olhos, o rubor de quem não tem hábito a soalheiras e torrinas, alguns fios de cabelo colados na testa. Estes pormenores e a forma desajeitada de andar, afastaram-nos a suspeita de alma penada ou fantasma.  Na nossa frente  estava uma mulher de carne e osso. Depois de nos mirar, deu um olá sorridente, abriu o portão e convidou-nos a entrar. Respondemos em coro um cumprimento arrastado e átono que engoliu a primeira sílaba e soou meio lúgubre, “taaaard”, e atravessámos o portão em vagares e lentidão de pernas, às voltas com resquícios de medo que nos tolhiam e dobravam pela cintura a veneta curiosa. Teremos sido os primeiros a pisar o chão de “As Três Marias”, nome a que ninguém fazia  caso, o edifício foi sempre a Casa do Cabeço.
Ladeámos a casa com ela a comandar a tropa e, depois de poisar chapéu e regador, deixou-nos sob a frescura de uma árvore farfalhuda e entrou pelas traseiras dizendo, está ainda muito calor,  vou fazer um refresco para todos. Empolgámos. Em nossa casas, refresco era uma mistura de vinagre, açúcar e água e só em dias especiais, as mães quase a suplicar, tu vê lá o que é que fazes, não me gastes o açúcar ou bebemos café amargo toda a semana. Mas ali, sobre a mesa,  um jarro grande e transparente, cheio de líquido vermelho com pedrinhas de gelo a boiar contentamentos. Arregalámos os olhos e as bocas distenderam cheias de dentes, enquanto ela trazia copos numa bandeja. E até à noitinha foi a conversa de quem era quem, em que ano estava cada um, onde se faziam compras, quem vendia o quê. Queria saber tudo. E porque ninguém se importava demais connosco, lançámo-nos a fazer pára-quedas de tal importância e, em algazarra,  colaborámos quanto pudemos.  Depois, a senhora olhou um minúsculo relógio de pulso, reconheceu que se fazia tarde e trouxe-nos até ao portão.  Deu um adeus apressado, correu fechos e sumiu no caminho.  E nós a rebentar de vaidade, tínhamos sido  os primeiros a entrar na Casa do Cabeço.  Quando virámos costas e nos pusemos a caminho, palrámos animados da sorte, orgulhosos por participarmos nas descobertas sobre a casa que movia toda a aldeia. Além disso, surpresa boa, tínhamos provado refresco de morango.  E só em casa, quando contava a minha mãe, reparei, nada sabíamos daquela mulher. E não houvera um convite para voltarmos. Quem era, como se chamava, que família tinha, ignorávamos.
Na tarde seguinte, antes do giro habitual, discutimos o assunto entre todos e acordámos que já era velha. Contudo, a discordância sobre a idade foi tão notável que suspendemos a ideia. Se para uns ombreava com os irmãos, para outros rondava os avós. Apurámos que seria casada ou viúva, um garoto a afiançar com juras de morra aqui ceguinho que usava  duas alianças.
Entretanto, fizemos algumas tentativas infrutíferas na casa.  Atardávamo-nos ao portão a espreitar às grades e dávamos palmadas na chapa na ânsia de mais descobrirmos, de outro refresco, de um átomo de novidade. Mas tudo permanecia na mudez de antes, sem bulir. Depois, parávamos o chinfrim e recolhíamos em silêncio prolongado, a esforçar-nos por aperceber barulhos de gente, quem sabe a senhora não nos queria ver, mas estava em casa. Enquanto estávamos suspensos, captávamos um leve de brisa que brincava na copa das árvores e uma folha ou outra, como se envolta em algodão, a pousar na terra. Sobrava ainda  o resmalhar inquieto da passarada que nos detectava  em trinado curto, a avisar, tem gente, e que alteava a  mudar de ramo. E a madeira das árvores estalava descomposta  de calor, elas numa timidez graciosa, desculpem. Logo atrás de nós, a pressa pisada dos pastos dizia de um coelho desavisado, vítima do nosso silêncio e que fugia com quantas pernas tinha. E mais nada.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

No Tempo da Escola

Quando a vida retomou o seu curso, minha mãe trouxe o resto dos livros da filha de madrinha Carmelita e, em nossa casa, improvisámos uma estante com tijolos e tábuas. Depois de uma limpeza sumária  na casa da velha, fechou-a a prometer, um dia vimos as duas e dás-me uma ajuda, temos muito que atirar fora. Foi nesse tempo que comecei a considerar a solidão materna. Com meu pai ausente, e sem madrinha Carmelita, só eu restava. Pensei que talvez fosse por isso que começou, aos fins de semana, a limpar a mercearia do Telha e alinhou na loucura que assolava a aldeia, que seroava diária, abrindo e descascando pinhas e pinhões, primeiro um fogacho de faúlhas que iam quase de um monte a outro e as pinhas a estalar ao desafio, depois um batuque infernal de cunha e martelo que repercutia e fazia saltar os pinhões do interior das pinhas que o fogo não arreganhara totalmente, e a que não conhecia fim por adormecer a ouvi-lo. Semanalmente, a camioneta passava a receber, pesar e pagar o pinhão descascado e deixava novo carrego de pinhas. Numa noite de cansaço árido, enquanto meia deslembrada dormitava no banquinho baixo, arrisquei, mãe, eu vou para a costura? E a sua voz retesada, só se eu morrer. E eu, então fico em casa?, ela, assertiva, nem pensar, filha; tu vais estudar.  Incrédula, revendo as palavras de Lídia, abracei-a, mas a gente não tem dinheiro.  Assentiu, é verdade, mas tu vais estudar. Num repente, os sacos de pinhas pesavam-me; inquiri, mãe, as pinhas dão para pagar os estudos?, e ela a mirar o encardido nos dedos castanhos e resinosos, não filha, a gente farta-se de trabalhar, mas eles pagam uma miséria. Para poderes estudar precisas de outras coisas, livros, roupa...vamos dormir que hoje não faço serão, estou muito cansada.
E como é bom dormir dentro de um sonho, esperar em algo que se deseja. Foi assim que adormeci, um mundo de esperança a cavalgar o cansaço materno entranhado em castanha poeira. Contudo, quando Setembro entrou, e apesar da veemência inscrita nas promessas de minha mãe, assumi que Lídia tinha razão e desliguei da ideia de estudos impossíveis. Foi então que a Casa do Cabeço foi arrendada, soava na aldeia que a uma senhora muito fina.  E todas as atenções confluíram.
O edifício era um solar campestre e isolado, propriedade de gente que ignorávamos. Havia nele um quê de aristocracia subtil, uma poalha de fidalguia natural e sem alarde. Talvez viesse da sua dinâmica térrea. Ou da alva simplicidade de paredes rectas e janelas altas. Ou do beirado angelical a cingir telhado, janelas e portas. E também do caminho comprido, guardado por uma altura de árvores copadas, que terminava no varandim térreo e florido que corria a casa a todo o comprimento. Sempre a encontrámos despovoada e, apesar da presteza de desconhecidas equipas de limpeza a mantê-la intacta e inconscientes agitadoras do diz-que-diz, jamais alguém se propusera habitá-la. Na aldeia, corriam várias versões: que o actual proprietário era rico ao desbarato e a construção dava cumprimento a uma aposta; que a renda era muito cara e não havia  locatários a chegarem-se à frente; que era poiso de almas penadas, os pastores que dormiam nos campos garantiam a pés juntos ter visto janelas abertas e com luz;  que o proprietário se tinha suicidado lá dentro e fora encontrado em decomposição o que dava mau agouro à casa, Deus nos livre de morar em sítio que acolhe uma desgraça destas, meus ricos filhos; e havia até quem garantisse que um lobo solitário a rondava  e, em noites de lua cheia, se chegava ao portão e por lá se quedava em uivos lamentosos de partir a alma, que aquilo só podia ser homem em corpo de bicho, quem sabe se do tempo de reis e rainhas, quando desta casa não havia sinal e o lugar pertencia a outras gentes.

Munidos destes saberes, meio argutos meio temerosos,  saíamos à aventura pela tardinha e rondávamos, também nós, a moradia.  Chegávamos cansados da subida, comichosos dos pastos que infiltravam nas sandálias e alpercatas, sedentos.  Pelo caminho entretinhamo-nos a desfiar os medos inventados no emaranhado de conversas que escutáramos, schiu, parece que vi o lobo escondido naquelas silvas; caluda que ouvi passos e se calhar é o fantasma do morto; olhem, parece que a janela do meio está um bocadinho aberta. Mas os passeios na zona do solar pouco adiantavam. Espreitávamos do portão e nada.  Janelas e portas visíveis continuavam inertes. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

No Tempo da Escola

Pouco me ocupava a pensar na morte. Sabia que existia, mas era ideia nebulosa, coisa que acontece aos outros que não são muito próximos, de preferência já velhinhos. Ora o meu círculo chegado era constituído por seres cheios de vitalidade que não imaginava poderem faltar-me. Conhecia histórias e canções em que a morte aparecia como solução desejada, facto que a fazia menos morte, quase amigável; morriam as fadas más, as madrastas pérfidas, gente imprestável ainda que bonita e jovem.   Contudo, eu tinha certeza: fora desse mundo inventado, a morte era má, retirava-nos as pessoas sem pedir licença e, uma vez mortas, desapareciam por detrás dos muros do cemitério que alvejavam da carreira; nunca mais as víamos. Siderava de curiosidade sobre o cemitério, casa de mortos. Mas a mãe agudizava o mistério a determinar omnipotente, não é lugar para uma criança, tens tempo quando cresceres. Ao passar na carreira, olhava-o mudamente, intrigada com o conteúdo por detrás daquela vastidão de cal, e admirava  o orgulho de soldado eterno plasmado no portão verde de lanças ao alto, um cadeado a encerrá-lo durante a noite. Entretanto, minha mãe persignava-se, olhos húmidos e lábios ciciantes, em jeito de terra que pede a Deus uma gota de água. Para mim, era como se os mortos todos ali de mãos nas lanças, em súplica, rezem por nós. Mal a oração terminava, eles, provavelmente aliviados, desvaneciam. Então, inundava-a de perguntas, para que os fechavam se já não podiam mexer-se, o que havia nos cemitérios, por que era o muro tão alto, como é que ali os levavam, se havia uma cama para cada um. Minha mãe tinha alguma dificuldade em entrar no mundo da infância e respondia-me coisas incompreensíveis, como se falasse um idioma desconhecido. Não desanuviava  a minha inquietação e acabávamos a mudar de assunto.
No caso de madrinha Carmelita, minha mãe perseverou no propósito e afastou-me do cenário de morte. Não fui ao cemitério como desejava a minha curiosidade, e nem sequer vi madrinha Carmelita defunta, quero que te lembres dela como a conheceste, filha. Chorei de frustração. Queria estar presente na cerimónia, no interior do cemitério, em tudo que desconhecia.   Mas fiquei em casa.

Se a vida da madrinha velha ainda hoje me é grata, foi na sua morte que aprendi novo cambiante da saudade. Não a saudade cristalina que me chegara na ausência de minha mãe quando passei férias em sua casa e que agora repetia com meu pai. Era uma saudade diversa, pungente, toda irrefutável. A princípio não a notei, veio pé ante pé, no regresso ao quotidiano. Levava-me a olhar a carreira e correr até à paragem nos dias certos em que chegava trôpega e risonha. Bastas vezes a carreira nem parava, alheia à esperança mágica do meu coração. Porém, se acontecia, eu fazia o de sempre, rodava o manípulo da porta da frente preparada para lhe aparar o saco, a antevê-la em descida temerosa, repetindo o ritual, um pé depois do outro, a bengala e o revisor a amparar sob a vigilância do chofer, enquanto o motor resfolegava ansiedades, ai se cai. Mas nunca ela obedeceu à força do meu desejo e se presentificou. Não apareceu a sorrir-me de olhos ampliados por detrás dos óculos. Não me envolveu mais no seu abraço de tomar conta de mim com o corpo todo. A falta de madrinha Carmelita fez nascer a saudade cristalizada a que o tempo tira peso sem roubar fundura. 

sábado, 20 de maio de 2017

No Tempo da Escola

O fecho do ciclo escolar deixou-me à mercê de largos dias que, expurgados de deveres  e de serem férias,  ameaçavam eternizar-se na duração.  Alheia a planos, empenhei-me na brincadeira que nos juntava às tardes, em magote. A essa hora, a taberna zoava a abarrotar de suor e conversedo; a água escorria ao comprido das hortas, frescura abençoada que entranhava na boca aberta da terra exaurida; e o cansaço das mulheres espargia na lida, a casa num contentamento egoísta, voltaste. Paralelos ao mundo adulto, flanávamos à descoberta, vigiados das hortas e pomares pela sofreguidão de velhos hortelões, a maior parte das vezes submissos a mando desconhecido que descurava a colheita, um chão de laranjas e pêssegos que fazia dó e cobiça a quem, como nós, não lhe punha dente. E eles descalços, arregaçados acima da canela e encostados na enxada, uma carranca de mázura hirsuta à espreita por entre redondos de folhedo, ou junto à correnteza invejada dos morangueiros que inclinavam em recorte de folha a suculência vibrante de corações vegetais. Se um de nós experimentava descer o valado, logo atiçavam a fúria dos cães, monstros que galgavam lá dos fundos numa vertigem de poeira e dentes, feras  desembestadas de que fugíamos a sete pés. Finda a missão, os velhos davam voz de travagem e inversão de marcha aos bichos que estacavam de mau modo, a rosnar fixas vinganças  ao caminho da estrada sem um nada de nós. Depois, guardavam o desalento dos dentes e trotavam ao ignoto fim do pomar.
Ocupados pelo medo e sua força de propulsão, nada disto sabíamos. Já distantes e a salvo, coração a saltar no peito, por entre pedidos de, põe lá aqui a tua mão a ver se o meu coração não bate mais que o teu, e uma mão-guia a levar a outra até àquele cavalo desabalado, nasciam os fanfarrões, não tive medo nenhum, eu corro mais que aqueles cães, não acreditas,  já experimentei e eles não me apanharam. E depois alguém se lembrava, vamos à estação espreitar os comboios. E eu que a sentia particular, lugar nosso, não; se vocês forem, eu não vou. Contudo, Luís galgava montanhas no seu cavalo de ferro e esquecera projectos de mudanças de agulha e linhas férreas. E Lídia obstaculizava-me e renovara o ar empertigado. Se acaso a cruzava, seguia em frente de nariz no ar. Para ela, eu era ninguém, um insecto, nódoa  indesejável.
Às noites, minha mãe sentava-se quieta, olhos embaciados em fundura de poço para que não há caldeiro, o papel e a caneta de aparo a vegetarem, entregues ao desprezo da inutilidade. Nada sabíamos de meu pai. Nos meus pesadelos aparecia morto, tal qual a criança de que a mulher nos falara. Via-o esfacelar contra as rochas, aqui perdia um braço, ali surgia uma mão desarticulada, dedos sem gesto que apareciam e desapareciam, bocados de carne aguada colados em agudos de rocha. E, quando eu me debruçava de braço estendido e quase a roçá-lo, o corpo recuava levado por nova onda. E meu pai um boneco careca e esfrangalhado,  atirado à danação daquele mar que rugia a toda a volta do Forte. Acordava a esforçar-me por um grito, em sobressalto de angústia suarenta. À cabeceira, camisa larga de minha mãe era vela de bonança. A mão nos meus cabelos ordenava-me as ideias e com pano fresco expulsava a rã que se alojara, húmida e fria, em pescoço e peito,  foi só um sonho mau, filha; já passou.

E, a dar razão ao fatalismo popular, quando menos o esperávamos,  madrinha Carmelita deixou-nos.  A morte chegou-lhe durante o sono e foi a vizinha do lado que  estranhou o silêncio do rádio e ausência de mexida na cozinha.  Mal o alarme soou e a porta se abriu mercê da chave extra em casa da vizinha que insistia em entrar acompanhada, logo um conhecido se prontificou e correu na motorizada a avisar-nos da desgraça. E minha mãe viu-se obrigada a agir. Em França, a filha de madrinha Carmelita permanecia incontactável. Portanto, correu ela a ocupar-se das burocracias da morte.

sábado, 6 de maio de 2017

Mãe não tem Limite, é Tempo Sem Hora

O Dia da Mãe já foi a 8 de Dezembro,  no tempo em que as mães o partilhavam com a Imaculada  Conceição.  Na minha aldeia, como provavelmente no resto do país interior, o Dia da Mãe era pura irradiação da mente da professora primária e estava fora do impulso consumista que hoje nos derrota. Portanto, semi-existia destinado a mães com filhos em idade escolar. E nem sei se semi-existia.  É que, nem elas, as festejadas, davam importância a haver um Dia da Mãe que era cópia dos outros dias, apenas acrescentado da oferta escolar.
Minha mãe guardou um pedaço de cartolina em claro azul, com uma desajeitada imagem de Maria e um Jesus-bebé, rabisco de lápis escurecido de muita borracha sem pedigree, sobre vincos de força na mina de carvão.  Em sinal de santidade, usam  auréolas sem escala, mais parecendo dois astronautas, um ao colo do outro, que seres divinos. Em volta, semeei duas ou três estrelas inexactas e sem fulgor, o amarelo do lápis acinzentando nos restos de carvão.  Por baixo, escrevi frases  pontuadas de palavras como prece, auxílio, gratidão e que devo ter copiado do quadro. Os cartões apenas divergiam na ilustração, cada artista a espremer o seu talento. Ou a falta dele (o meu caso).
O mundo masculino - o dos pais, quero dizer - “nem se torcia, nem se amolgava”. Tanto se lhe dava. É que o dia era “coisa de mulheres” e estava confinado à escola primária, termo que, como toda a gente sabe, significa primeira e que hoje nem se aplica, que a primeira escola é agora – e muito bem - o jardim de infância.
Na generalidade, as nossas mães não apaixonavam pela lembrança recebida. Depois de vista e lida, abandonavam-na sobre a mesa da cozinha ou noutro lugar onde breve enodoava, franzia, rasgava, evadia. As mais atentas e agarradas a recordações punham o cartãozito sobre a chaminé e ali ficava a entontecer aos vapores de fumo e cozinhados, acabando por finar-se na época da caiança geral, quando, amarelecido e dessorado, era deitado  ao lixo sem pena ou paixão. Minha mãe guardou-os não sei onde, que sobre a chaminé não ficaram. Talvez dentro do saco que lhe servia de mala, lugar onde encontrei, entre outras recordações, o meu desenho estapafúrdio.
Entretanto, a igreja festejava o dia da Padroeira. Mas, para nós, era apenas Dia da Mãe. Da nossa Mãe, aquela maravilha de pessoa que estava por detrás de tudo e que, perfeição máxima, nos amava. As mães eram o nosso mundo completo. Podia faltar qualquer coisa em casa, ou mesmo várias em simultâneo que elas eram necessidade pura, ar que se respira. Nada nos  existia sem a mãe.  
A padroeira pertencia a outras contas. Lá no céu, o Menino Jesus, garoto para aí da nossa idade, estaria também a oferecer o seu desenho-menino à mãe dEle. Portanto, não nos preocupávamos a pensar nEla. Tendo um Deus por filho e por morada o Céu, só podia estar bem servida. Mas as nossas mães, tão carregadas de trabalho e sacrifício, elas sim, importavam-nos. Elas sabiam o que significava prece, auxílio, gratidão, palavras finas  que tínhamos copiado de mão tremente e sem erros, mas não fazíamos ideia do que queriam dizer. Contudo, havia mães analfabetas; e outras que, sabendo ler, desconheciam tais palavras por não serem de uso. Mas nada disso nos acudia à mente e aplicávamo-nos todos com o mesmo enfâse.  Fazer um cartão para dar à mãe era um céu aberto de orgulho tamanho. Concentrados e de língua de fora, aprestávamos engenho e arte para fazer bonito. À saída da escola, aconchegávamos o cartão nos interiores do livro de leitura e a pernoita garantia-lhe aprumo militar na manhã seguinte. Porém, a proximidade do lar tornava a novidade irresistível e havia gente incapaz de suster o segredo. Na alegria impaciente da surpresa, mal a figura da mãe despontava, o desejo crescia irreprimível. Espontâneas, algumas mãos afundavam nos interstícios da mala,  pescavam o cartão e a oferta surgia embrulhada num sorriso de orelha a orelha.
            Não sei como procediam as outras mães. A minha quedava-se séria, concentrada na leitura. E eu nos baixios, cabeça entre a cinta e o peito dela, olhos a investigar sintomas nas linhas do rosto, temendo irresolutos de letra torta, ou desgoverno de erros. Mas, no momento em que se baixava para um beijo, obrigada, filha, está muito bonito, entrava-me um orgulho descansado, talvez um suspiro de alma contente.
Entretanto, os anos passaram e as Mães ganharam alento para um dia todo seu no calendário.  Que o primeiro domingo de Maio é Dia do Amor dos Filhos a esbarrondar.

            Vês, Mãe, o tempo não muda nada.  É ainda o mesmo amor. Forte e humilde. Imortal. Dá cá a mão, hoje sou eu a tomar conta.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

No Tempo da Escola

A professora despontou em mancha numa esquina de prédios e abrimos um écran de susto.  Ora à sombra, ora ao sol, a figura dela crescia e pormenorizava. E nós patos mudos, apertados uns contra os outros. Quando chegou perto e estava completa, das unhas ao cabelo, do cinto passado no cós da saia aos sapatos com sola de corda, fixou-nos séria e nem precisou perguntar que logo alguém, minha senhora, foram eles que andaram à briga por cima da mesa. E o duo fixando o empedrado, a vergonha a enxameá-los  até às orelhas. A mestra determinante, agora pedem desculpa. E levou os dois por uma orelha. E nós ao vidro da montra, mão em pála,  apreciando o regresso de boa disposição no empregado, pendentes do movimento de lábios dos colegas, a decifrar-lhes as palavras num abanar de cabeça convicto, estão a pedir desculpa; e depois o alívio e eles quase correndo até nós, a professora atardada ao balcão, junto do laço preto.
Só mais tarde, já sentados no carro azul, ela nos situou, é a última vez que vou pô-los na porta da escola. Parabéns a todos, a escola primária ficou para trás. Olhámos uns para os outros mal podendo crer que não voltávamos a juntar-nos à roda de livros, problemas, tabuadas. Mirei a garota sentada a meu lado. Era loira, tinha doces olhos azuis e não morava na aldeia, mas  partilhara connosco quatro anos. Apertou-me a mão e disse baixinho, pode ser que a minha mãe venha aviar-se nesta loja e depois brincamos as duas. Separámo-nos como sempre que começavam as férias, até qualquer dia. Eu e Luís fomos os últimos a abandonar o edifício e deixámo-nos ficar a olhar a loirinha a minguar na vereda até ser engolida pela altura dos pinheiros.  No caminho para casa, Luís de jacto, nunca mais carrego a tua mala quando estiver pesada. E eu, somos vizinhos, eu vejo-te sempre. Ele seguindo um pássaro no ar da tardinha, eu também te vejo sempre. E de seguida, queres correr até ao meu monte a ver quem chega primeiro? E lançámo-nos ao desafio. Ainda eu a meio e já ele virava na ladeira do portão, o rosto para trás, perdeste outra vez. E nem precisava olhar de perto, sabia que ofegava a sorrir, a mala a bater-lhe mansamente nas pernas.
Depois, dei uma carreira até casa na satisfação da novidade, “passei”, e minha mãe alegre a abraçar-me, o seu cheiro doce e morno a repassar. Mas ao meu grito, “mãe, passei”, ela abriu um sorriso breve e tão estranho que me saltou, o que é que foi, mãe. E ela, é o pai.  Avisaram-me que foi outra vez parar ao segredo e tão depressa não tem visitas.E deu-me as costas. Insisti, o segredo é o quê, mãe. Ela, ó filha é um lugar de sofrimento para os fazer dizer nomes de pessoas que não estão presas e lutam como eles pela liberdade. Parece que houve alguém que queria fugir e estão desconfiados que houve ajudas fora e dentro. Ai valha-me Deus. Pelo Natal já ele estava pele e osso e dizem que os deixam a pão e água. Virgem Santíssima mo guarde que eu não sou capaz. E, em jeito de quem reza, sentou o desgosto e permaneceu quieta de não bulir,  cotovelos na mesa, indicadores sobre os olhos fechados.  
No caminho, ensejara o orgulho e satisfação de minha mãe. E em vez disso, Peniche e meu pai fechado no segredo. E a tristeza dela a cortar na minha ventura.  Nessa hora, pensei que a notícia podia ter chegado um dia depois, que meu pai escusava de lutar pela liberdade, podia ser um homem igual aos outros, a embebedar-se na taberna aos domingos e dias santos.   Cheia de pena de mim, a sentir-me injustiçada, pedi permissão para visitar Lídia. Minha mãe retirou os dedos e fixou-me de olhos vermelhos. Depois de um esforço para entender, anuiu com um sinal de cabeça. Zarpei até casa da minha amiga. Mas quando lhe atirei a vitória, “passei”, ela não impressionou. Estacou na minha frente, sem parabéns ou sorrisos. Ouvi apenas, eu sabia que passavas, tu és boa aluna. Depois enfrentou-me de mau modo, quase zangada, e agora Bia, vais fazer o quê. Pensas que vais estudar. Pensas, mas ninguém na aldeia tem posses para estudos. E rematou sentenciosa, e menos a tua mãe que é sozinha a ganhar para ti.

Amuada,  virei costas e, cheia de vagares, encetei o regresso. Dava-lhe tempo para me impedir. Mas antes a ouvi, parva, pensas que és mais que as outras, mas não és. Corri desabalada para  casa. Lídia era assim, sabia fazer-me uma ligação directa. Lá em baixo, cada vez mais perto, o candeeiro bruxuleava na cozinha e o vulto de minha mãe cirandava de um lado a outro.  Um cheiro agradável a refogado deu-me as boas vindas. Como se nada houvesse, comentei natural, hoje, a professora pagou-nos um bolo de arroz.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

No Tempo da Escola

Nas vésperas do exame, as mães entraram em acção. Primeiro retiraram pó e desencardiram-nos armadas de um nico de sabão  colado à mão direita e siamês do trapo da esfrega. E nós paxás vaidosos, um sentimento de descabida realeza a insinuar dentro dos alguidares de água aquecida a lume de chão, uma ou outra folha de azinho que boiava e pescávamos de mão em concha, a entortar o trabalho. E logo as mães perdiam a sequência da limpeza e impacientavam na falta de ângulo, está quieto  ou ainda te chego a roupa ao pêlo; o que era descaso da boca, que nós como Deus veio ao mundo, a pele desencasquiada  e a avermelhar numa nuvem de fumo. E elas guerreiras e surdas a queixas.
A manhã seguinte apanhou-nos de pequeno almoço tomado em solavancos de nervos e roupa de festa, patente registada de pobreza esgarçante. As garotas passeavam o mato dos cabelos sem corte ou carregavam a amarra de linhas nas tranças repuxadas, ignorando o despropósito entre a saia e o corpo dos vestidos, um alarde nos vincos de bainha deitada abaixo. Os soquetes envergonhavam de fraqueza junto à fivela dos sapatos quase todos cortados na biqueira.  O mundo dos rapazes semelhante: inchados de novidade e brilhantina, cegavam a tudo o mais. Casacos desombrados escorriam-lhes braços abaixo, mangas arregaçadas nos punhos; e atenção que se virasse aos calções, reparava que, junto aos bolsos, delia um poímento de pontos sobre pontos enquanto um remendo ou outro alastrava nos fundilhos, dedos de pés aguçando a unha na lona dos sapatos. No precoce mundo feminino, a puberdade assomava por algumas costuras, pele aperreada e medalhinha da virgem bem à vista, a meio do fio de oiro palpado amiúde, na lembrança de avisos caseiros. E todos sofrendo desarranjo de vísceras, tremedeira de mãos e pernas, e varrimentos súbitos de memória.
Porém, mau grado o suadouro insano que nos acometeu e de que Luís mofava sem  conseguir eximir-se, atravessámos o exame sem dificuldades de monta. Os problemas de torneiras não apareceram e caprichei na redacção sentindo algum alento no olhar das professoras presentes. No último dia, contente de nós, a professora levou-nos ao café mais fino da vila e, ufanos da primeira vez no lugar, estacionámos na mesa dos fundos, enquanto ela ia “num instantinho” a casa.  Sabia-nos a delícia mastigar um bolo de arroz no café onde os nossos pais não entravam. Pardais zelosos, depenicávamos a proliferação de migalhas pela mesa, numa algazarra onde cada um erguia as peripécias da sua prova oral ao cume das dificuldades. Imaginávamos inveja na curiosidade dos habitués, quase todos do género masculino, uma senhora ou outra empoada e de casaquinho pelas costas, boquinha em rosa vivo e cabelo de boneca. Apesar da reserva cada vez mais notória dos empregados, antes tão camaradas, reinávamos contentes.
Findo o lanche, encetámos um jogo de palavras que só começou bem. Em menos de um ai, já dois garotos se atiravam sobre a mesa  a esmurrar-se perante a nossa surpresa aflita. Parou tudo:  os copos de cerveja interrogavam a meio caminho, estarei sem gás; as chávenas de café num escândalo, que é isto, burburinho assim nunca se viu; os galões das damas abespinhados do vitupério, abanando dentro dos copos em meneios de ruptura, ponham-nos na rua, onde é que pensam que estão. E um empregado de lacinho preto, passada ríspida e impaciente alvura de mangas, um indicador a aguçar para a porta, já para a rua! Esperem lá fora se quiserem.

Saímos cabisbaixos, a apostrofar-nos em surdina uns aos outros, foi por causa de ti, de mim, de mim é que não foi que nem falei, tu é que tens a culpa que só sabes é dar porrada. No silêncio das mesas, copos e canecas retomavam vida e desempatavam serviço; e, como se nós insectos incómodos mas já mortos,  os senhores bem vestidos voltavam costas e enfronhavam no jornal. Atravessámos a sala sem o incentivo de um soslaio. Envergonhados e temerosos da mestra, petreficámos junto da porta. E logo a gravidade gestual do laço preto, desandem daí, xô, xô, xô...esperem ali naquele canto do passeio e nada de avarias.