terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Perecíveis e Contingentes

Há nos dias uma ordinária sequência que não comove mas nos vai movendo, que reacende a cada alvorada. Por vezes, vindos de um pesadelo dolorido,  acordar é alívio. Constatamos a ilusão e damos por nós a descomprimir, já meio alegres das lembranças macabras, aliviados no sem motivo da aflição que pesava. Fechado à manhã em botão, o quarto assiste-nos em silêncio escurecido, os números no relógio rebrilhando em vermelho digital, a fazer viva a mesa de cabeceira. Casulo. Protecção.
Num emaranhado de pontas soltas, em passinho de bebé, o pensamento evolve, caminha aos soluços,  desentorpece na leitura das horas sacudindo nuvens de sono. O olhar descongestiona o fogacho de algarismos franzidos, alisa-os, torna-os eles um a um, ainda assim não saiam baralhados o dois com o cinco, o três com o nove. No esforço de observação, sonolência a dissipar, surge a dúvida, será que uma hora adiantada ou atrasada, ou bastará conferir; deve-se este cálculo a não haver mudança horária automática nos relógios digitais e existir gente que lhes limita a pontualidade à alternância de seis meses.

Depois, quando enfim as horas se entranham e entrelaçam no dia que aguarda, parece que se há-de estender uma perna e ela a assomar por entre os lençóis com um pé todo esquisitices na ponta, desejoso  de voltar à sanduíche dos lençóis. Mas nem sempre. O facto é que há pés resfriados, despertos em desconforto. Haja quem saiba  de pesadelos, que por certo nascem de um défice de calor nos pés - há no mundo relações tão estranhas que esta nem me parece desconchavada. Pois bem, sentamo-nos de salto,  um pé desconsolado - o mesmo que ansiava lençolar mais um pouco - em palpação de chinelos, dedo grande esticado a acertar direito e esquerdo. De seguida, as manobras. Depois, de estacionados e metódicos, os pés ocupam-nos sem hesitação. 
Não é assisado movimentar-se uma pessoa no escuro; experimentar é dar azo, por exemplo, a rolar escada abaixo. Ou outros perigos. Que o breu confunde. Quem garante que no escuro os objectos não mudam de lugar. Quem pode afiançar que a escada, que era sempre em frente, não deu uma guinada para a esquerda ou para a direita. Quem jura a pés juntos que aquele passo em vão não era o buraco aberto de um degrau. Ninguém. Há uma perversidade latente nos objectos, manifesta na sua quietude quando queremos e tanto desejamos a sua intervenção; ou mesmo quando mudam de lugar, saem do hábito e se escondem sem aviso. Não há dúvida, vivemos à mercê da contingência. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Ler na Escola

Li há tempos – no jornal Expresso do dia 8 de Dezembro de 2017 – que, em mais uma avaliação internacional em educação, os alunos portugueses do 4º ano de escolaridade desceram na capacidade de compreensão de leitura.  Ou seja, lêem mas não sabem bem o que lêem porque não o compreendem.  Mas, refere o mesmo estudo, as nossas crianças do 4º ano são as que mais gostam de ler. E em seguida o artigo do expresso expunha considerações e críticas de um a outro governo. Deste ao antigo porque o estudo data de 2016 e, sendo assim, os quatro anos de escolaridade a que se reporta dizem respeito à reforma do então ministro, Nuno Crato, que propunha  - ainda segundo o artigo – um sem número de conteúdos em lugar de definir competências e que privilegiava a leitura escorreita à compreensão. Do antigo governo e dos autores da dita reforma que se defendiam aduzindo que a obrigação de leitura corrente no quarto ano é fundamental e não pode nenhum programa prescindir dela, a bem do ensino democrático. E bla bla bla dos dois lados da barricada.
            Ora bem. A primeira coisa que me soe dizer sobre isto é que, ao contrário das expectativas elevadas dos inquiridos no artigo, que partem do princípio que as nossas crianças foram sinceras e gostam muito de ler, e portanto basta pegar-lhes no gosto e andar para a frente, eu desconfio amplamente da resposta das crianças do quarto ano que afirmaram gostar muito de ler (em cinquenta países inquiridos, estamos em primeiro lugar, gente. As nossas crianças são, a nível internacional, - 50 países! -  as que mais gostam de ler). Eu, se fosse esses senhores tão sábios e cheios de estudos, não faria muito caso de tais gostos infantis. Toda a gente sabe que as crianças – e até os adultos – mentem para agradar; basta-lhes pensar que fica bem dizer que gostam muito de ler e logo todos fazem ali a cruzinha. Ó gente, é que dizer que não gostam de ler é defeito, uma espécie de nódoa, fica mal, rara é a criança que o afirma num inquérito; isso é coisa dita lá em casa, se a obrigam a estudar a lição. Não sei mesmo por que razão os tais espíritos iluminados não desconfiaram de nada. É que fui reparar melhor e os países que estão em segundo e terceiro lugares – os que nos acompanham a ler mais - são o Cazaquistão e o Irão (calculem vocês). Portugal ocupa o trigésimo lugar na compreensão do que foi lido, não sei por onde andam o Cazaquistão e o Irão, mas dos dez primeiros não constam. Para mim é limpo, os garotos mentiram. Ou, como agora se diz, faltaram à verdade e assinalaram o que pensavam que lhes beneficiava a imagem. E os do Irão e Cazaquistão? Pois, não sei, mas devem ter tido um pensamento semelhante que as características do pensamento infantil não divergem assim tanto de cultura para cultura..
            Mas há outra incongruência. Porque, senhores pedagogos do “se o gosto existe, vamos trabalhar para que se transforme em resultados melhores” (Teresa Calçada do PNL).  Então as nossas crianças não compreendem bem o que lêem, mas ainda assim gostam muito de ler... gostarão de papaguear?! Não conheço uma única pessoa que sinta prazer  na leitura de algo que não entende completamente, a quem, quiçá, escapa o sentido do que leu. Mais me parece que seja isso razão para desgostar de ler. O que a experiência nos ensina é que quem gosta de ler compreende muito melhor qualquer assunto escrito e sabe, mesmo oralmente e por comparação com quem lê pouco, esclarecer melhor as suas opiniões.  Portanto, mais uma razão para duvidar do gosto deles. Mas quem será a alma que inventa inquéritos sobre gostos infantis desta natureza?! E as que os valorizam?!

Qual será o remédio para este mal de ler sem compreender?! A educação, no seu aspecto informal e formal não tem receita única. Mas sempre vou dizendo que escolher um livro para ser lido em aula, resulta. Instituir uma pausa para leitura que se continua dia a dia, resulta. Os alunos gostam de ouvir a professora ler uma história, esperam mesmo por esse bocadinho de tempo. Mas uma história longa, que os agarre e não seja da carochinha. Que eles já têm muita coisa a distraí-los, não precisam acrescentos. 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Conto de Natal

Bati à porta e ouvi vozes e ruídos que me pareceram de mau agouro. Recuei indecisa, fujo, não fujo. Na entrada, meio morta, uma flor resistia. A visão incentivou-me. Aproximei-me e voltei a bater, desta vez com mais força. Lá dentro, o barulho cessou repentino. Ouvi passos. E quando a porta se abriu, quatro rostos curiosos. Procurei nos bolsos o cartão que os meus nervos já tinham encarquilhado. E foi milagroso, os sorrisos encompridaram. Sem hesitar, oito mãos puxaram-me para dentro. Os mais novos chegaram-se a mim. Em festa, levaram-me até à sala. E eu numa desorientação. Que família era aquela que parecia conhecer-me e eu nunca tinha visto, os garotos pareciam deveras contentes por me verem. Entretanto, a mãe, que só podia ser a mãe, fez-me sentar enquanto ia dizendo, deixem a senhora em paz. Olhe,  eu tenho uns bolinhos e faço um chá, é só um instantinho. E deixou-me com os três rapazes.
O mais velho aproximou-se e beijou-me. Depois, pegou-me pela mão, levou-me até à estante e apontou os livros orgulhoso
-  Estão todos ali, menos o que chegou ontem. Esse está na mesinha de cabeceira.
Fiquei boquiaberta. Não pela  estante que era barata. Mas os livros...eu conhecia aqueles títulos. Pensei na coincidência de gostos de leitura. Lembrei os teus cuidados nas nossas tardes de compras de Natal, os pedidos de opinião. Então, o garoto trouxe uma caixa, quer ver?, destapou-a e, lá dentro, muito arrumados, alguns cartões. Pegou-lhes quase com reverência e passou-me dois, são os que mais gosto. Eram os teus. Tinha-te visto a fazê-los. Li as frases bonitas que escreveste com a tua letra inconfundível. Estavam assinados com o meu nome: Sara. Disfarcei a surpresa como pude. Tirei um livro da estante. Abri-o. Li a dedicatória. E as tuas palavras brilharam nos meus olhos marejados. Com assinatura: Sara.
Passei a manhã naquela casa. A sentir a gratidão que te pertence e não tive coragem de rejeitar porque ia envergonhá-los e me soube bem tanto apreço e amizade. Algures, há uma consoada e família à nossa espera, prendas bonitas e caras, doces esmerados. E eu espero-te em casa. Mas o relógio faz pirraça e avança devagar.
Enfim, chegas. Sabes dos meus olhos em ponto de interrogação. Abraças-me com força.  Murmuro
-  Porquê? 
- Porque estás em tudo que faço e és eu, como eu sou tu - respondes convicto, e logo meio a rir -.  É tempo de saberes para quem são os livros que envias.
Remoínhas-me o cabelo. Digo a ajeitar-te o cachecol
 . Aquele garoto comoveu-me, como o descobriste?
- Hummm...ele devia ter uns seis anos. Estavam ele e a mãe na paragem do autocarro e todo se punha em bicos de pés no esforço de ler a folha dobrada do jornal do vizinho da frente. Como vês, só aproveitei a oportunidade. Depois de um pequeno trabalho de detective.
- Mas por que não enviaste apenas um livro? Podias escolher pessoas diversas...
- Porque, minha Sara, o amor da leitura é como um vício. Precisa de tempo e continuidade para enraizar. Estiveste lá, viste como estimam as nossas prendas. E eu queria que fossem desejadas. Deves ter visto também os livros dos outros dois.
- Vi tudo, amor. Estive uma manhã inteira imersa na tua filantropia anónima. Mas como é que eles nos descobriram?
- Porque ainda há coincidências. E esquecimentos. Uma tarde esqueci no escritório uns embrulhos de natal já endereçados. E a mãe do nosso herói é funcionária da empresa que faz a limpeza diária. Calhou de vê-los. Alguns destinavam-se a sua casa. Contou ao filho, ele fez o cartão que te entreguei e foi deixado na minha mesa. O resto, já tu sabes.
- Nunca me terias dito? Ficávamos incógnitos?!
E tu a olhares no fundo dos meus olhos.

- Nós dois interessamos um ao outro. A eles, o que interessa são os livros. E, sendo lido, nenhum livro é incógnito. 

domingo, 24 de dezembro de 2017

Conto de Natal

Todos os Natais são semelhantes. Ou parecem. No início da tarde de consoada, começa o pandemónio. Os telemóveis não param e as mensagens de última hora entopem o ar e precipitam-se no aparelho em piscadelas de luz, pim, pim, pim. Na bancada da cozinha, o almoço de natal  jaz de costas a descansar no tempero, patas ao alto como compete; e nós ao passar, ai se não cabe no forno, ai se demora a assar. Ai. Entretanto, calculamos volume de bacalhau e couves na panela, que, à noite, a tradição ordena sem evasivas. E damos uma olhadela aos sms recebidos a ponderar, “depois da confusão, quando  a calma se instale, respondo”. E sabemos que hão-de chegar sms retardatários, horas e horas no caminho, ninguém sabe se perdidos. Adormeceram na fila de espera e, no dia de Natal, caem resolutos no aparelho. E nós pasmos, olhando a hora, que é isto, foi enviado ontem à noite.
Mas eu e tu não vivemos apenas neste mundo tecnológico todo destreza de dedos. Não aprecias sms de natal. À moda antiga, envias cartões, presépios pequenos desenhados com amor e cuidado na ponta do lápis. Aqui uma estrela brilhante, ali um pastor a ofertar um cordeiro, além uma Virgem toda ternuras com o Menino. O que eu gosto de te ver desenhar. Tornas-te outro enquanto crias. E desvaneço na tua atenção em redoma, os meus olhos acompanhando o movimento dos dedos, ocupada a ver nascer as coisas. E penso, vaidade a minha, que ninguém te conhece como eu. Tardes completas neste labor. Depois,  inventas vagar e tempo para a estação de correios e compras envelopes e caixas de vários formatos e tamanhos. E carregas tudo para casa sem pejo, num contentamento que não entendo mas também me faz feliz. Então, lanças-te a escrever. Nos cartões. Nos livros. Jamais li o que envias a outra gente. Mas sigo-te, penduro-me nos teus gestos. Vejo-te hesitar e escrever; parar e continuar; sorrir ou esconder a ternura numa tosse de ocasião. E tenho certeza de que todas as palavras que usas são lindas e vão directas ao coração. Até ontem, juro que não entendi o teu fincapé em escolher e enviar livros. Anual e meio acéfala, repetia-me incrédula.
- Livros, amor?! Livros?! Já ninguém quer ler.
No teu rosto, o assomo de um sorriso.
- Hão-de ler estes. Alguém vai lê-los. E um dia, verás, dão fruto. Os livros lidos, princesa, dão sempre fruto.
Era tal a segurança da tua voz que não ousava contrariar-te. Pensava que enviavas dentro deles a tua magia, o teu jeitinho de ser feliz e que só por isso – só por tua causa – alguém, ao recebê-los, era compelido à leitura. Investia em ti todo o poder. Não pensava nos livros. Até ontem.
E ontem foi um dia normal. Ou eu o pensava assim à boca da manhã. Para lá da janela, espreitava-me um céu de tédio que escurecia o bairro. Na rua quase deserta as árvores sobressaltavam, despidas e suplicantes, cruzando dedos em arabesco de troncos finos. O frio, intrometido e agudo, chegara de sopetão, a fazer-nos desbravar gavetas à cata de protecções e abafos que respiravam aliviados da pressão nas dobras, ufa, já cá estou fora outra vez. E era ver pelas ruas a amálgama de cachecóis e gorros, botas e grossuras de lã que o corpo abençoava.
Chinelei sem rumo fixo. A casa de banho cheirava à pressa das manhãs de trabalho, uma mistura húmida de gel de banho e after shave que não era apenas gel de banho e after shave. No espelho, uma mulher esguedelhada mirou-me meio zonza. Sombria. Sorri-lhe a desanuviar e retribuiu. Demos um adeus apressado e entrei na cozinha. Tinhas deixado a máquina ligada e um odor de café e torradas espreguiçava-se langoroso sobre a cama suave da tua colónia. No hábito das tuas surpresas procurei um recado, um dito xistoso e terno, um raminho a florir. Percorri bancadas, mesa, electrodomésticos. Espreitei na despensa, olhei segunda vez o friso da chaminé. Nada. Desisti. Por certo, a pressa  engolira a surpresa. Foi ao sentar-me, pequeno almoço a fumegar, que o notei  pousado no colo discreto da minha cadeira. Um embrulhito, coisa mínima. E os meus dedos atarefados, mais contentes de ti que dele. Dentro, em cartão tosco e manual, um endereço. Nas costas, tinhas escrito, “Vai até lá e mostra-o”. E fui.
No táxi, indiquei o destino e recostei-me a apertar o casaco enquanto o mundo fugia na janela. Mentalmente, revia as tuas surpresas caseiras. Nenhuma saíra fora de portas. Mas o táxi continuava a rolar. Reparei que abandonávamos o centro  e rodávamos já pelos subúrbios. Havia gente dentro das lojas ou caminhando de rosto franzido, apressada por vento e frio,  sacos deformando ao peso dos víveres. Era um mundo diferente, mais sujo e escuro, todo mais pequeno e encolhido. Casinhotos sem jardim guardados por automóveis sebentos de uso, bicicletas enferrujadas no cubículo dos quintais.

De repente, o taxista parou e apontou a casa do outro lado da rua: é aqui. Semelhante a todas as outras. A mesma pequenez apagada, idêntico ar desvalido a precisar reparação. Paguei a corrida e, mal saí do carro, assustou-me o coro de cães desafiando-se de dentro dos quintais. Atravessei e, no temor de um mastim a espreitar-me do interior ou surgindo desengalgado, empurrei a cancela.  Duvidava do endereço, apostava que o taxista se enganara, supunha que te enganaras.
(cont.) 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A Terceira Irmã

        E as mulheres bichanaram escândalos sobre o abuso e a possível paternidade. Desandei estupefacta, imersa em tal murchidão que minha mãe, então filha, gravidez não é doença, era pior se fosse doença grave. Mas nada me consolava. Que o processo da gravidez não me atazanava, pouco entendia do mistério de uma vida a crescer na barriga e nem me interessava tal assunto. Moía-me, isso sim, que houvesse homem ou rapaz tão tortuoso capaz de abusar um ser como ela. No meu íntimo crescia o vómito, não acreditava que rapaz, avaliava que o animal era homem casado e malvado. Homem feito só de corpo; que no resto, monstro. A rapariga não era uma oferecida, apenas não tinha juízo, pensava como criança e todos o sabiam. E, a cada domingo, à medida que o tempo passava, a tristura do pai mais me arraigava a má vontade contra um desconhecido que, se dependesse de mim, seria sovado em hasta pública. A descansar-me, imaginava-o a ser castigado com chicote, preso a um poste no meio do adro – que nem tinha poste nenhum – rodeado a toda a volta pela gente da aldeia. Suponho que a raiva me acordou imagens dos poucos filmes que tinha visto.  Mas nada disto aconteceu e o pai continuou incógnito. Ao invés, à medida que as visitas do médico a casa do Vicente se faziam menos espaçadas, começou a correr que havia problemas com a gravidez. Depois, disse-se quase a medo que a futura mãe, que jamais alguém viu grávida, ia morrer quando desse à luz por sofrer de epilepsia. Sabedora de exageros e cuscuvilhice de aldeia, ignorei. Os nove meses passados e a minha amiga voltava aos lugares de sempre. E íamos gostar de vê-la com um bebé. Era assim que eu pensava.
Mas quando os nove meses passaram e o parto se consumou, ela morreu. Deus revelou-se-me de uma injustiça terrível. Hoje demoro-me a pensar quanta coragem foi necessária àquela gente para aceitar a antecipação da morte, viver sabendo que a filha lhes morria no final. Nove meses de dor e inferno. A assisti-la. Não fomos feitos para saber quando morremos. Em que dia. A nossa amiga era criança, gerava um ser que a consumia e lhe diminuía o tempo de vida à medida que se formava dentro dela. Facto que, por fortuna, desconhecia.
Ora um dia observei na mercearia umas perninhas vermelhas que corriam atrás da mulher do Vicente. A bebé que ficara. Uma garotinha de nada, magrinha, que da mãe tinha apenas o azeviche do cabelo. E as mulheres umas para as outras num alívio, é espertinha...
Estranhos são os caminhos que a vida toma.
            Entretanto, saí da aldeia. Quando voltei, Vicente mudara de emprego e de lugar. Nas cidades e vilas que também eu percorri, não encontrei qualquer membro ou referência à família. Perdi-lhes o rasto. Esqueci-os. Quando enfim assentei arraiais, soube que Vicente se reformara e vivia na mesma terra com mulher e neta, as filhas casadas algures. Que a garota era luz nos seus dias e desejava vê-la casada antes de fechar os olhos. Nunca sequer os vi. Soube que a neta casou e alegrei-me por ele que devia a essa altura ser bem velho. Não muito tempo depois, morreu.

Decorreu um ano. Talvez dois. E comecei a cruzar-me com uma jovem desconhecida. Trazia um cão à trela. E os dois a passear estrada acima e abaixo. Desde o primeiro olhar soube que era ela, a garotinha de pernas de perdiz que corria atrás da avó. Hoje, passam-me à porta. Ela e o cãozito. O casamento falhou. É ainda jovem e bonitinha, nada semelhante a sua mãe. Se a vejo passar ou encostar no muro tenho vontade de chamá-la e trazê-la para dentro. Contar-lhe coisas boas que sei. Mas nada faço. Apalermada, deixo-me ficar ao vidro num desperdício de ternura. Podia quase ser minha filha. Está só. Nunca lhe vi sorriso, que nem isso a mãe lhe passou. Caminha átona ao mundo, atenta ao animal e ao saco das compras. Talvez afinal tenha herdado alguma coisa mais por via materna, alguma coisa que não lhe dá benefício. A identidade do pai permanece em mistério. E hoje que conheço um pouco mais da vida e das famílias,  sei que há podres demasiado podres só de pensá-los.  

sábado, 25 de novembro de 2017

De Pequenino....

                 Muito se fala sobre a igualdade entre os sexos e o fim da discriminação feminina. De, como quase toda a gente aceita  - ainda há quem viva na idade da pedra e faça gala na prepotência -, homens e mulheres serem iguais em direitos e deveres, embora diferentes na sua anatomia e particularidades de género. Mas afirmar a aceitação não é igual a proceder em conformidade. Quer isto dizer que muito há a fazer. De vez em quando, soa um gongo nos jornais: as actrizes de Hollywood queixam-se de que os homens recebem um cachet muito superior ao seu. E nós pasmamos, então até nos USA o costume se mantém?! Ou, como há pouco tempo, vêm queixar-se de produtores sem escrúpulos que as assediaram e exigiram favores sexuais em troca de papeis e pedacinhos de fama. E nós todos a condená-los, a julgá-los uns imorais. Congratulo-me por mulheres conhecidas em todo o mundo terem tido a coragem de os apontar e revelar a peçonha que escondem. Mas pergunto-me por que esperaram tanto ano. Têm razão, pois claro. Mas a queixa e a condenação perde força quando soa assim ao retardador. À época, eram jovens desconhecidas e sem tarimba, não o conseguiam fazer: por vergonha, por necessidade, porque ninguém as ouviria, por medo de represálias. Mas precisavam esperar tanto ano?! Além disso, sou forçada a reconhecer: escândalos deste teor não mudam mentalidades. Escandalizam. São notícia. Maldiz-se o indivíduo em causa. Ostraciza-se. Fazem-se cair do pedestal alguns homens. Concretizam-se vinganças. O mundo digital explode, somos todos pela moral e igualdade de género se não dá trabalho e é só dizer ámem. E tudo passa.
Acontece que a desigualdade começa na forma como somos educados. E, desculpem-me todos os ministros de Portugal e mais todos os secretários e secretárias da educação, mas nenhum fez a coisa como deveria. Supõe-se que a teoria leva à prática. O que não é verdade. Como atrás referi, há um fosso aberto entre dizer e fazer. Portanto, meus senhores, estes preconceitos só têm uma forma para desaparecer, agir sobre eles. É o que fazem as sociedades nórdicas, muito mais avançadas que nós na igualdade de género. Aprende-se em família? Sim, também. Mas está institucionalizada nas escolas, faz parte da educação dos jovens.
Na Suécia, por exemplo, em vez das teorias da batata que pululam por aí e não levam a lado nenhum, todos os jovens entre os onze e os dezassete anos têm aulas de, digamos, economia doméstica, que contam para avaliação e incluem trabalho de casa e tudo (os tais TPC com que muita gente não concorda, mas eles fazem). Aprendem a organizar-se em casa. Por exemplo, têm aulas práticas de culinária e confeccionam refeições, aprendem o valor calórico dos alimentos e a sua gestão económica – o que é mais caro e mais barato e os componentes nutricionais. E depois almoçam ou lancham o que confeccionam.  Mas não se pense que ficam por aqui. Nestas aulas, aprendem a funcionar com os electrodomésticos: máquinas de loiça, de roupa, aspiradores e o mais. Aprendem ainda a lavar a loiça manualmente e quais os detergentes e formas de lavar cada peça, das mais às menos sujas. Aprendem rudimentos de carpintaria, a coser botões e fazer bainhas, a passar a ferro e tricotar. E isto, meus senhores, não é o antigo Curso de Formação Feminina, é uma disciplina com avaliação e comum a todos os alunos, escalonada por graus de dificuldade em cada ano. Portanto, à beira dos dezoito, não há jovem que não saiba como fazer as tarefas domésticas. E a nenhum passa pela cabeça, suponho eu, dizer como é tão vezeiro em Portugal, isso é trabalho de mulheres.

Vendo bem, não há razão para tal desigualdade na distribuição de tarefas. Se no mundo exterior as mulheres trabalham como os homens, ganham o sustento como eles - algumas até mais que eles -, qual o motivo de, dentro de portas, ser ela a trabalhar, ou, em situação mais benévola, ele a “dar uma ajuda” como se lhe fizesse um favor?! Todos somos humanos, temos um corpo com dois braços e duas pernas, uma mente pensante e mais o que falta. Também não consta que as diferenças anatómicas entre os dois sexos tornem alguém menos apto para este tipo de tarefas (diria mesmo que elas nem contam). Haverá quem, devido a características pessoais, seja menos hábil a realizar uma ou outra, mas não podemos atribuir  “a culpa” ao género a que pertence. Conclusão: parece-me que, se os jovens forem institucionalmente educados no exercício prático das tarefas caseiras, não há como fugir à igualdade de género, pelo menos no campo da economia doméstica onde tanta mulher portuguesa vai morrendo à hora. Mas será que essa igualdade interessa?!

Da Memória...

Sexta feira, vinte e quatro de Novembro do ano de dois mil e dezassete. Madruguei. Passava das cinco quando tudo que a seguir conto se me fez presente. Seria alguém  talvez ligado à memória vívida que me despertou. Anseio que seja um chamado, transmissão da força do pensamento, desejo puro de um tempo em que fomos “for ever young”. Que não um sinal de perigo, urgência a que não posso nem sei atender, apelo instante em situação limite. Porque claramente distingo o chamamento da simples lembrança. É outra intensidade e outra natureza. A segunda, é apenas memória afectiva e morna que sucede em consciência. O primeiro, acorda-me em clareza e precisão, numa supraconsciência inexplicável que se particulariza em qualidade e grau; supraconsciência que é portadora de natureza própria e para que não encontro palavras. Temo chamamentos. Se é verdade que os separo da lembrança, também é verdade que não sei destrinçar o desejo instante de presença, da necessidade que se expressa no apelo irredutível e último em urgência vital. Os chamamentos são gritos na noite. Gritos que só eu oiço, sem lhes conhecer proveniência. Mente que me chama com força inusitada e única e que, milagrosamente, chega até mim. Nem sei se de mortos, se de vivos. Que os mortos também nos chamam e falam e têm força.
Quem sabe não eram senão eles, os mortos,  a lembrar-me esse período difícil da vida em que fui bafejada pela sorte de um projecto comum tão salutar quanto contrariado pelo poder. O volume de trabalho e escolhos a ultrapassar. Primeiro, a escrita da peça de teatro (que já perdi); de seguida, a leitura para escolha de actores, todos a escolher todos; e logo, os ensaios. Sem sala, ensaiávamos nos átrios de corredores, no intervalo entre aulas diurnas e nocturnas, perturbados por aspiradores e vozes de empregadas. Ou em casa de um ou outro. No final, eu a carregá-los para os autocarros. Gente que se levantava às cinco e ainda assim entusiasmava com os extras; Do meu lado, nem verba, nem horas disponíveis. Era a nossa carolice sempre rechaçada. A pior turma em comportamento. Mas, no dia, enchemos a casa. O temor, tanta gente (era quarta à tarde, não havia aulas, o auditório à cunha, gente sentada pela coxia), e se não gostam, e se...E eles, mais de trinta, já metamorfoseados, o do acordeon a puxar-lhe as alças para o ombro, vai correr bem. Um lá em baixo, amarfanhado junto às casas de banho, mãos na barriga, não consigo, não consigo. Eu a levantá-lo do chão, consegue pois, entra e esquece-se de tudo, vai ver. E ele, tenho de ir vomitar, eu não devia ter vindo para isto, foi só por andar atrás daquela miúda loira que está a apresentar. E eu, deixe-se de paranóias, você é um actor, quando pisar o palco passa-lhe tudo. E ele a olhar-me em dúvida culposa, e se eu me fosse embora agora... Eu séria, olhos de ácido sulfúrico, deixe-se de parvoíces, vá lá vomitar que eu espero aqui e vamos os dois para cima, ouviu? E lá em cima o do pano de cena, tenho que ir a casa num instantinho, eu não me demoro; - e a dar-me palmadinhas no ombro - mas olhe que o bombeiro ainda não chegou, ligou-me e vem a caminho, teve que acompanhar um doente a setúbal. Eu aflita, e agora? Ele, agora começamos que entretanto chega, diz que já ligaram a sirene e vêm a toda a mecha, como não tem que se vestir...Eu, ai valha-me Deus, temos a casa cheia e falta-me uma pessoa. E daí a pouco o funcionário do auditório, temos de começar que eu não saio daqui depois da hora; ok, ok, onde é que está o nosso homem do pano de cena? Alguém a medo, ainda não voltou. Mas não voltou como? Então, foi a casa e ainda não veio. Com franqueza, mas o que é que aquele rapaz tem em casa de tão urgente? Ora,  então não sabe, é a namorada. Eu a desmoralizar, esta gente é toda maluca. Merecia era umas porradas, aquele irresponsável. E as garotas vampirescas, capa e lábios pretos, a estenderem um lençol de compreensão, é só mais um bocadinho, eles vêm todos. Na régie, o funcionário de braço no ar, um dedo todo nervos a apontar-me o relógio. E eu que não ouvia o barulho, a imaginar a unha a bater no vidro, tic, tic, tic. E entretanto o bombeiro-actor, acabadinho de chegar, agarra o namoradeiro logo na entrada, és maluco ó quê, pá. Desato a rir e empurro-o para a régie, se se engana nas aberturas do pano dou-lhe uma surra. E começamos.
Gostam. Temos de parar várias vezes porque riem e batem palmas a meio. E no bocadinho de jogo do benfica em que gravámos um golo, a plateia levanta-se em peso como se no estádio, a gritar gooolooo!!! E o goooolooo!!! do nosso actor fica elidido. Mas também nós gostamos.
À noite, na sessão para encarregados de educação, os filhos bisaram e a sala à cunha. Lembro-me da voz da Gisela numa canção da Ala dos Namorados e de toda a gente a bater palmas; de as danças serem um primor; do meu actor das dores de barriga se ter transformado em palco; e a Rita tão miúda e pacata, tímida, a crescer desmesurada declamando o Cântico Negro num lampejo de eternidade que electrizou a plateia e arrepiou gente. E de estarmos tão contentes e nos abraçarmos uns aos outros no fim de cada número. E lembro-me dela a declamar no ensaio geral e de um garoto que por ali andava ter mofado da ênfase. E logo o Carlos que tinha fama de ser (e era) arruaceiro, o levou para um canto a avisar, eu até nem gosto de poesia, mas aquilo é qualidade, ouviste. vê lá se respeitas o trabalho da miúda, porque se te ris outra vez levas um ensaio de murros. Chaparro!, chasquinou; e deu-lhe as costas displicente, andar desengonçado, o boné com a pala para trás, satisfeito consigo e sem ideia de que eu o ouvira. Apeteceu-me abraçá-lo. 
E depois as pessoas a saírem agradadas, imbuídas no espírito dos Alphaville, “Forever young”. Música tão bonita, alegre e jovem. Que eu desconhecia. Escolha do colega e ex aluno, também professor da turma, que nos ajudou  nos finalmente. Ensaiámos algumas vezes em sua casa, sugeriu a música e propôs fim mais realista e menos happy end. Há pessoas extraordinárias e extraordinariamente humanas. Insubstituíveis.
Fomos um grupo. Na memória, ainda somos. E seremos. E os Alphaville cantam-nos  a nós eternamente.