terça-feira, 15 de agosto de 2017

Senhor António

Nos primeiros tempos não dei por ele. Transpunha a cancela a adiantar hipóteses, fixo num futuro de papéis, rememorando urgências telefónicas e post-it, minutos em desconto para um café. Confesso, não o via. Passaram meses até lhe notar a atenção. Rasa. Fluida. Creio que foram os olhos funcionais.  Ou tínhamos, em verdade,  de nos cruzar.
Naquele dia,  pretendia chegar com algum avanço a um encontro importante. Queria rever os pontos fundamentais da negociação e relembrar estratégias e pormenores. As informações sobre a gestão e personalidade de quem me aguardava corriam-me a bold na mente e sabia que o acordo entre ambas as partes dependia da transição entre a  exigência flexível e amigável e a imposição em trompe d’oeuil que cerceia amizades. Tinha sido escolhido por isso mesmo. Sem falsa modéstia, dominava essa arte de dar e retirar sem mão, parecendo que dava mais do que subtraia quando sucedia o inverso.  Claro que vendia o produto apoiado em cálculos e dados reaise transparentes,  mas escamoteava especificidades que os tornavam pesados e menos lucrativos. Esse era o ingrediente secretíssimo. Na vida empresarial, a transparência conquista-se, iça-se do fundo de água turva onde nasce o lucro. Enredado neste conciliábulo, só reparei na avaria da cancela quando, imediatamente antes de embater, o homem avançou, abriu manualmente, e regressou à cabine envidraçada. Irritei-me. Baixei o vidro na intenção de um ralhete. E dei com os olhos dele sem expressão, meros botões atentos e já acesos para o veículo que transitava atrás. Levantou-se. Imaginei que iria proceder a idêntico conjunto de movimentos. E desisti. Afinal, eu vinha distraído e ele executara a função em tempo útil, de modo a evitar colisão. Acelerei até ao meu lugar no estacionamento e quando entrei no elevador, já o esquecera.
A vida tem caminhos por onde seguimos atarantados e em corrida insana. Na mira dos pontos de chegada, não os reparamos, estão sem estar. Contudo, nada é tão aberto e disponível. Teremos de palmilhá-los. Ou não. Pode a morte apanhar-nos a meio, ou a um quarto. Notá-los é a única forma de os viver e sermos gratos. Os caminhos que a vida – quiçá um deus – nos deu. Chão dos nossos passos. Mas isto era assunto que, então, não me ocorria. Caminhava como os jericos, a olhar em frente. Os objectivos como degraus, nem sequer metas ou zonas de verde respiração. O caminho existia-me em forma de subjecividade radical: dizia respeito à velocidade e tipo de passada, ao número de degraus transpostos. Competia comigo mesmo.
Nesse fim de tarde, saí a pensar numa bebida. Fora bem sucedido. No dia seguinte, iniciava outro desafio.  Apetecia-me fechar o dia. Adormecer no sucesso. Pensei vagamente que um brinde não ficaria mal, mas não havia com quem, o mundo de colegas laborais era pouco atreito a celebrar vitórias de outrém e a namorada estava longe e em trabalho. Tomaram-me de assalto as suas pernas a sairem da t-shirt, os pés descalços, mamilos a enrugar o algodão, e alaguei em ternura.  Concentrei-me na escolha do lugar, o sorriso meio irónico e cabelos de rapazinho maroto a persistirem.  Afastei-lhe a imagem e, enquanto atravessava a rua, fitei a mancha escura de árvores copadas. Gostava daquele lugar fora do bulício. Entrei.  Uma luz discreta iluminava o interior. Sentei-me nos fundos, alarguei o nó da gravata e pedi. A meio da garrafa requisitei outro cálice e chamei o empregado, importa-se de brindar comigo? Ele trouxe um copo, largou o tabuleiro sobre a mesa e encheu os dois. Quando o ergueu li-lhe o nome na chapinha de metal: António. Olhei-o vagamente, À nossa. Bebeu de um trago e, sem palavras, voltou à sua lida. Não agradeceu. Cumprido o desejo do cliente, retomou a actividade. Alguma coisa nele me parecera familiar, mas julguei tolice. A essa altura já o mundo me parecia risonho e eu era leve. E desliguei.
Passados dias, o funcionário da entrada pede para falar comigo. Tratamos do assunto, olho a chapinha do nome e, António. Era ele. Os mesmos olhos sem expressão, corpo de nem orgulho nem submissão, solicitude comprada. Quando à noitinha fui confirmar, encontrei-o no pub. Um desempenho perfeito e maquinal.
Intriguei com o homem. A empresa não pagava mal, o que o levaria a deter dois empregos?! Investiguei com o dono do pub, mas conheciam-no apenas dali. Usava pontualidade inglesa, calado e sem amigos. Satisfazia em absoluto no trabalho. Quando o investiguei na empresa verifiquei que estava indicado como trabalhador de continuidade, não faltava e não existia registo de queixas.

Entretanto, comecei a passar a cancela com um aceno de cabeça que só os olhos dele pareciam notar. Se voltava ao bar, a resposta ao meu cumprimento não diferia de nenhuma outra. Continuávamos estranhos. Certa noite, não aguentei a curiosidade e esperei-o no fim de turno. Apareceu com um cãozito pela trela. Silenciosos ambos. A sentir-me um estorvo inquiri, na sua idade, dois empregos são castigo, se precisar de dinheiro...Olhou-me sério. Andou uns passos comigo e o cão ao lado. Sentia-me um inútil, a chave do carro a bater-me nos dedos, sem saber que fazer. Parou e sem se voltar murmurou a olhar o alcatrão, há tristezas tão grandes que perdemos o tino, deixamos de mandar em nós. Mas ainda reagimos a ordens. É por isso que tenho dois empregos. Olhe, sou como este cão. Só que não tenho dono. E afastou-se.

Paralelo

Encontrei-a entre aviões, tão perdida quanto eu num grande aeroporto. Duas mulheres em trânsito, idades e destinos diferentes. Era Inverno e um manso nevão aconchegava-se pelos hangares e pousava no dorso metálico dos aviões. Nessa noite, o aeroporto regurgitava de gente. Enxameava.  Gente retida a meio do percurso, crianças de colo e birra, um embaraço de malas junto às pernas, ou em ruidoso e arrastado cirandar.
Viajava sozinha e tentei afastar-me do ruído na mira de um canto sossegado onde pudesse dormir um pouco. Reparei nela quando juntava as malas. Era jovem e estava sentada no corredor em frente do meu, semblante contrariado. Imaginei que o jeito contrariado se devia ao incumprimento de horas e afazeres no ponto de chegada. As previsões eram catastróficas em relação a compromissos: os voos nocturnos tinham sido cancelados e na manhã seguinte, já sem queda de neve, a seriação das rotas fazia-se pelo atraso que detinham. Com sorte, o meu voo saía pela tardinha. Os hoteis do aeroporto estavam superlotados, não havia onde albergar toda a gente.
É sabido que aeroportos e aviões aproximam desconhecidos. Habita-os uma tal precariedade que normais pruridos se dissolvem. Ao fim de uns minutos de mutismo, eu e ela conversávamos como colegas de trabalho. No vaivem de descobertas e alguma afinidade, e porque nos desagradava a noite branca de corpo sentado, resolvemos abandonar o aeroporto e procurar quarto na cidade. Guardámos a bagagem maior e um taxi levou-nos ao hotel. Outros viajantes tinham tido o mesmo pensamento e o único quarto disponível  era um quadrado mediano atravessado por uma cama larga. Olhámo-nos rindo e dei-lhe a escolher entre o lado esquerdo e o direito. Dormir acompanhada era-me difícil e estranho, mas não havia escolha e o cansaço da viagem pesava-me no corpo. Enquanto a minha companheira retirava a maquilhagem no espelho do quarto tomei um duche rápido e enfiei-me na cama. Depois, fiquei a ouvir o som abafado do chuveiro por entre apreensões, e se ressono, e se não consigo adormecer e dou muitas voltas na cama, e se. Mas, ao invés do que pensava,  caí num sono profundo.
Sonhei com mãos suaves a soletrarem-me o corpo; sílabas paradas e repetidas até à exactidão do som, espaços que o desejo preenchia. Temia o desfazer do sonho. Queria ficar, permanecer nesse mundo de calor e companhia, prolongar o bem quimérico de me sentir amada e indefinida. E as mãos que. E infinitamente me amavam em cada arco e grinalda de dedos, o corpo a fugir-me, a fugir-me. Algum animal me enrouquecia na garganta e me fechava as palavras, as escondia e eu apenas um som de liberdade sem nexo por onde enfim respirava. E quando recuperei braços e mãos, senti-os a serem mansamente levados e deslizavam já na suavidade cálida da pele. Subi-lhe a cintura a medo e dúvida, dedos incrédulos  na elevação do peito de mamilos erectos...afastei-me de rompante, agora bem acordada. No horror de ser verdade desviei-me dela num misto de nojo e estupefacção. Com o meu corpo. Com ela. Connosco. Na mente, em néon, um e agora gigante. Tentei levantar-me e as pernas prendiam-se nos lençóis, não conseguia erguer-me.

Acordei quase a cair do banco, salva pela trincheira da bagagem. A mulher continuava na minha frente e olhava-me como quem vê bicho raro, uma expressão curiosa a vestir-lhe o semblante. Posso ter corado. Posso.  Alheia aos meus íntimos motivos, ela levantou-se e rumou ao destino. O tempo que nos aproximou também nos deu distância.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Limites

Ganhei  hábito de janela e olhares matinais quando me mudei para o apartamento lisboeta. Contudo, continuo sintonizado com o ritmo aldeão e emito sinais de vida aos primeiros alvores. Apesar dos meus cuidados, minha mulher rabiava que não dormia uma manhã em descanso. Tudo lhe perturbava o ouvido de tísica, a cozinha de pequeno almoço, a água corrente na casa de banho,  tosse,  passos de chinelo, o alvoroço do cão na porta de entrada a farejar-me os movimentos. Nesse tempo, a rua não me chamava.  Bastavam-me os ingredientes in(ternos). Havia um jeito de lar nos cheiros de cada canto e em cada coisa no lugar; uma certeza de gavetas; certo aconchego de ninho previdente. Entreabria a porta do escritório e, na mesinha, longe de indiscrição visitante, os filhos sorriam-nos desde a juventude; logo ao lado, todo arte fotográfica, o primeiro neto.  Um mundo que foi eterno até à estranheza de  não me apareceres estremunhada, mãos a algemar cabelos num elástico, voz pastosa, bom dia, amor. Abri só um pouco a persiana do quarto. Dormias. Contornei a cama, apanhei-te as mechas sobre a cara e acamei-as atrás do recorte da tua orelha de porcelana fina; e tu em modo de olhos fechados. Sussurrei no teu ouvido, preguiçosa. Mas não consegui acordar-te. Meu amor. Meu tão longo amor de curta vida. Diz-me quando em exacta colher me deixaste, em que minuto partiste, qual o momento em que a tua alma voou do meu braço abandonado no teu corpo.

E logo a casa se transformou. Desencantou dos cheiros vitais, ampliou de recantos sombrios alongando pelo espaço onde os meus passos ecoavam. Quando a almofada perdeu a forma da tua cabeça e o perfume deixou de cheirar a ti, vendi a casa e dei o cão ao vizinho pequeno, aquele que o beijava entre as orelhas e fazia dele cavalo. Foi assim que criei tempo para o vento na copa das árvores, os lulus passeados na manhãzinha por donas descompostas, rolos na cabeça e roupão, uma sofreguidão de vício a subir-lhes pelos dedos de nicotina. Envelheci, Amor. Árvore de raiz podre, não me aguentei ao teu balanço.  Talvez tenha acontecido na vez em que parei a meio da escadaria, uma moínha leve a rondar a perna esquerda. Ou, quem sabe, foi anterior e começou no teu desafio, vamos ver quem chega primeiro. E ganhaste-me logo no segundo lance de escada. Não sei precisar. Durmo do teu lado da cama que nunca te teve (durmo é eufemismo para as horas de posição horizontal). Tu sabes. Deito-me e a dor mostra-se. Persiste. Não é severa, antes um sinal de erro, máquina com anomalia.  Talvez na cabeça do fémur, que qualquer escadaria me maltrata e o terceiro andar sem elevador, um martírio. Não demove com repouso e recusa abrandamentos nocturnos.  Tiveste a sabedoria de abandonar o corpo na idade certa, que logo, logo, ele se tornaria incerto. Não sabes o desfalecer de tudo, a desimportância de rugas, meros vincos que nos desfiguram; os brancos que encanecem e avelhantam; a pele do corpo que sobra e pendura a cada dia. Não, essa metamorfose é resíduo. A mágoa é  não ser capaz acompanhar quem nos cerca. Querer ir e ter de ficar;  ter alma de experimentador e ficar a olhando por janelas reais e virtuais. Ser velho exige, em permanência, um reajuste no agir. Sempre a minguar.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Os Primos

Viajo às vezes com meus primos. Minha mãe parece confiante na sua mestria de guardadores de jovens casadoiras e mobiliza-se a encontrar-me indumentária que ajuste ao suposto acerto matrimonial. Meus primos,  solitário casal de meia idade, nem velhos nem novos, vivem regaladamente para si mesmos. Ou é assim que os julga minha mãe no seu inglório afã de queixas acerca da minha pessoa e da falta de jeito para encontrar a metadinha. Habituei-me pois a esse acerto de férias que a deixa esperançosa e livre para amigas e passeios. E parte contente depois da visita ao seu coronel que dorme tapadinho com a colcha de renda antiga na prateleira do jazigo onde, diz ela, eu a hei-de levar um dia sem pena ou paixão. O que não é verdade. Minha mãe é senhora tão avessa a costumes maternais que a sua suculenta alforria por certo me deixará saudade. Mercê desta espontaneidade que não herdei, conquistou meu sisudo pai, sempre temeroso de repentes tão prazeirosos como inoportunos, e que tanto o derretiam como irritavam. Contava que o seu riso alto na parada, de costas insolentes para os graduados, o prendera sem remédio. Quando eu nasci após nove meses em que maldisse a maternidade e nos arriscou quanto pôde, sentiu-se livre de encargos e tratou-me como brinquedo favorito que passava à empregada mal me desconfiava pessoa.
Ora meus primos, aqueles a quem minha mãe me entrega nas férias por julgá-los empenhados no meu futuro, ou seja, num casamento decente, levam-me consigo na mira da sua prodigalidade. Mais novos que ela, limitam-se a carregar-me sem outra obrigação. Eu agradeço a liberdade e pouco saio sem eles. Assim conheci lugares e hotéis, sem experiência das amizades românticas para que ia talhada. Em compensação, sobra-me tempo e disposição para estudar os dois.
Há nos casais sem filhos uma união que minha mãe não supõe e eu experimento sem evasivas. Ela nomeia-os pais temporários. E eles não saem do casulo. O casulo de meus primos é circular, sem ângulos e acutângulos. Tudo gira em volta de prima Fininha, Josefina de seu nome. Ela marca a hora de sair, de ouvir música, de falar. Antes do seu pestanejar matinal, a casa é um sepulcro. Primo Gustavo, sempre tão quedo, todo se empertiga ao menor som, cuidado que Fininha dorme. E fica na sala contígua ao quarto, cão de guarda ao recato de Fininha.  Ora minha prima acorda tarde e o seu humor trabalha a horas de sono. Se incontornáveis acasos nos levam a madrugar, Fininha exaspera, irrita, grita, amua. E bom é quando a nossa menina decide num repente, vou dormir. Enquanto Fininha dorme, pára tudo. Que ela sim, é a menina. Uma menina pequena. Mimada. Mandona. Minha mãe supondo que passeio nas alamedas com meus vestidos de arrasar e eu a usar silêncios matinais  para ler, pensar, escrever. E faço orelha mouca aos vestidos que confrangem, não saímos do cabide, para que viemos.
Se acaso Gustavo se levanta primeiro, surge na sala em bicos de pés e comunicamos um com o outro em secretismo tão inaudível que mais parecemos conspiradores. Se pudesse, faria campânula vazia do mundo exterior só para não perturbar a amada. Fininha não cozinha, só come. E come voraz, numa pressa que minha mãe estranha, parece que tem medo que a comida fuja, mastiga como um furão. Desconfio de minha mãe que nunca viu um furão nem sabe dos seus hábitos alimentares. No entanto, concordo, a prima é senhora de invulgar mastigação e parece sofrer  insaciável fome de séculos.
Nas férias (e desconfio que em outros tempos), primo Gustavo orbita-lhe os gostos mínimos e também os máximos. Ela que, se eu ousar uma compra criteriosa, me afirma criança aborrecida (trata-me assim) que a faz perder tempo,  entra e atarda-se em experimentação do que bem entende. Cá fora, primo Gustavo espera paciente e sem recriminar, contente da compra mesmo antes de a ter visto.
Na hora do jantar, Fininha recreia a cortar no facebook. Nos utilizadores. Nas fotos que por lá deixam. Que há muito quem viva pendente desse mundo de faz de conta. Mas antes de sair, e também antes de deitar, ensaia poses e fotografa-se; se desanima por um assim ou assado, pede a Gustavo que a fotografe, exige um ângulo depois do outro, muda o penteado, vira-se do outro lado, sorri só com os olhos, põe mãos em evidência, esconde cabelos. E etecetera. Se fica um momento em avaliação e a foto agrada, corre ao face a divulgá-la.
E ora esta que não chego a vestir os vestidos de anzol. E nem tenho conta no facebook. Decerto me desencontro  do Gustavo que me cabe e nem sei bem para que o quereria.

Mamã, tenho certeza, certezinha absoluta, fico para tia. 

Auschwitz

Auschwitz não é um lugar. Podem dizer que sim, que são quilómetros de presídio em cilício e arame farpado; que bem se vê lá dentro a tristeza dolorida de pavilhões em asfixia; que tem um portão com o letreiro mais ironicamente contundente, “O trabalho dá saúde”. E não mudo de opinião, não é um lugar. Talvez a forma mais exacta seja referir que o conteúdo se sobrepõe. Em omnipotência. Também devido a sub reptícios de cinema. Ou apenas na emergência sombria do meu imaginário. Juro, não percorri um campo de concentração vazio, nem respirei livremente o ar da rua, não olhei com olhos meus o verde das ervas que crescem indiferentes ou as árvores lá em baixo, livres, livres, sem saírem do lugar. Eles impõem-se, emergem de ruas e barracos, enchem tudo. E ali se quedam sem expressão, presenças espoliadas e sub humanas, aterradoras na sua fixidez de animal maltratado e sem futuro.
Tenho quatro anos, vou não sei para onde, a minha mão na tua.  Seguimos como num sonho mau, em fila de gente a que não vejo fim. Dizem os soldados que há um lugar onde os judeus podem viver durante a guerra, é para lá que vamos; não entendo o caminho de tanta gente,  já temos a nossa casa. Antes de sair o portãozinho de grades que fecha no trinco e emperra, vi o cão com olhos de susto e rabo entre as pernas a espreitar-me por entre os arbustos do quintal; a esconder-se aos primeiros tiros. No reboliço impaciente das tropas, eu num susto sem lágrimas, escudado nas tuas saias, decerto uma máquina a mexer-me os pés que não me lembro de comandar as pernas. Depois, um comboio sem fim atulhado de gente e todos de pé ou não cabemos. Custa respirar em tanto aperto de pernas e braços.
 Dias e noites aqui. Tenho fome, tenho sede, queria o meu lugar de chichi e cocó, o canto do vagão fede. Pessoas que antes se queixavam e de repente muito quietas, dizes que mortas e passas-me o teu lenço perfumado que não derrota o cheiro. Quero a minha casa, o meu cão, o urso de peluche e tudo que não trouxeste. Não sei como aguentas isto sem lágrimas; de vez em quando, elevas-me e colas-me a boca à fenda do vagão, ali onde todos querem um espaço de respirar. Enquanto isso, acho que deixas o homem do lado pôr-te a mão no ombro a puxar-te para si enquanto sorvo o ar todo que posso, a tua cara de repente outra. Chegamos nocturnos a lugar desconhecido e o ar frio refresca-nos depois de tanto suor e calor de gente. Deixámos um monte na estação: malas, haveres, tudo. Que estranho não precisarmos do que meteste às pressas dentro da mala. É a vontade deles; e o medo de vozes que são  facas e da desfaçatez das armas; dos cães que, a um pequeno desvio, rosnam e ameaçam a exibir uma serra de dentes. Aterrorizo quanto sei, a minha mão a tremer na tua. Levam-nos para uma sala despida e ali dormimos uns sobre os outros no aperto do frio. No canto que o homem disputou para nós, adormeço de rosto enfiado no quente do teu pescoço, meio tapado na aba do teu casaco, sentindo o teu coração bater com mais força quando ele se mexe sob o teu corpo; e nós dentro de uma onda de calor que parece subir do chão e traz um cheiro que não sei. E eu, em quase sonho, imagino o conforto caseiro. Amanhã, segredas tu por entre o sono do homem, dão-nos um lugar para viver.
E não havia lugar, Mãe. Nem o banho quente prometido à criançada nua. Na separação, houve os nossos gritos de ultraje e ferida e as mãos das mães a crescerem até aos cotovelos, esvaziadas à bruta. E eu nu de ti. Antevendo o banho quente antes da escola.  Quanta criança! Entrar por meu pé e não mais sair. E, em menos de meia hora, mercê de forte pisadela, ficou de mim um sapato de atacador solto. E tu despias-te fechada no desgosto da separação,  alapada à quimera, vai à escola, está melhor que eu. A essa hora, Mãe, enquanto tapavas pudores com mãos de nada, eu já saía volátil por cano largo de chaminé. Meia hora mais e outros como tu violaram-te corpo fora, abriram-te a boca de dentes bonitos a pesquisar o ouro que não havia; e antes de te levarem ao destino final, escalpelizaram-te a trança. Só depois subiste no ar e reunimos em cinza.

Este garoto acompanhou-me a visita. Na presença deles (houve outra gente) o pessoal, as câmaras de video, máquinas fotográficas e outros apetrechos, dissolveram. Que eles permanecem exactos: doloridos e exaustos; conservados em sofrimento e injustiça. De Auschewitz, ninguém se liberta.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Geometria No Espaço

Sol inclemente. Deus Nosso Senhor não quer que nos falte nada e mantém-nos à temperatura alentejana, mas mergulhados em humidade.  Rodeados de sinos que, bracaramente,  tocam alvoradas pontuais e estremunham o sono de hora em hora. E nós endorminhados, baralhação do pensamento sacudido por instrumento de sopro, algures, deve haver um quartel. E não. Lemos mais tarde, na história  da Bazylika Mariacka w Krakowie que o despertar nasce ali, no rigor das trompetas marianas.  Só na Polónia as freirinhas passam naturais, sandália aberta, mochila nas costas. Ninguém as estranha e nem desenquadram apesar do hábito que lhes encerra o corpo. Só Em Cracóvia vi jovens, bonitos e bronzeados, enfiados numa batina que lhes dançava em volta do corpo de vime esguio. Terra de muito catolicismo e clima agreste. Na sombra quente dos parques, passeiam mulheres de pele branca, topázios e esmeraldas no olhar. Lindas e loiras, repelem  pobrezas e gente sofrida que também há. E os estrangeiros embasbacam nos machos polacos que ajoelham contritos a um altar, calções e mochila às costas,  mãos de orar, olhos em prece. E há mulheres em fila para o confessionário de um jesuíta. Não se sabe o que ali deixam ou recebem, mas alguma coisa será. Aguardam. Quem sabe, aliviam a contar o que as tolhe e a confissão as despe de peso. Talvez  terminem de alma nova, que o rosto lhes vem igual quando ajoelham penitências, mãos postas e lábios cumpridores. O que pensará Deus de faltas e erros que esvaem na borracha de arrependimento e oração. Que estranheza lhe franze a divina fronte se atenta nos homens e seus apetrechos de viver. Tudo são formas de aliviar a vida tornando-a, em cada vez, um recomeço. A catarse é condição de recomeço. Contudo, deuses e homens sabem que recomeçar não é possível. E não é a vida feita de pequenos impossíveis?!

Depois há a praça gigantesca e ruidosa. As arcadas e restaurantes floridos. A meio, impõe-se o edifício do mercado repleto de gente e lojas em comboio. E o calor a lembrar-nos o ar condicionado de casa, o descanso na redoma de paredes antigas. Lá fora, a hera não nos repara. Ocupada a subir paredes, ergue em passo certo de folhas, pequenas mãos de clorofila viçosa.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Partida, Largada, Fugida

Antes, eu julgava que preparar a casa para férias já eram férias. Hoje, por via do ininterrupto fio do tempo e sedimentada de horas extra-longas, reconheço, não sou a mesma. Divirjo. Emprestar à casa o espírito de sobrevivência cansa e exaure-me. Se pudesse, saltava esse patamar. Ele são flores em chamado urgente,  rega-me que tu é que sabes a quantidade exacta de água e nem calculas o que custa o atoleiro nas raízes, ir morrendo a partir do fundo da alma que não sabe nadar e se  afoga e apodrece nos dedos da terra em papa. E tu não falhas a circunstância. E depois segredam-me ternuras enquanto aplico o regador, coisas como, não te demores que precisamos de ti, se não voltas, esquecemo-nos de florescer; ou sussurram no fim de tarde, volta ou não aguentamos de saudade, morremos, definhamos aos poucos. E num aviso de cautela, vê lá se tens cuidado que somos inertes e prisioneiras, à mercê de quem vier. E depois há a casa, o lava loiças, as bancadas da cozinha, o fogão, as mesas de cada divisão em lamentos que me tolhem a cada passo, teimosia de esperança que me atrasa o espírito viajante. E finalmente saio e fecho a vida caseira na redoma. Vejo-a de longe, sem som que lhe valha, como se não fora minha, mas sendo. O ar do aeroporto saturado sabe a oxigénio e empurra-nos para o pássaro de aço e sua arrebatada força de propulsão. Subir. Sentir o continuum de aceleração e as rodas da frente a soltarem-se do asfalto, e logo após, num ápice, as de trás. Estamos no ar. A paisagem agiganta na proporção em que o conteúdo diminui. Tudo a encolher, casas que ainda são casas, arcos breves em ponte, estradas em cobra , rios que são fitas azuis como nos mapas da nossa infância, Tejo, Douro e Guadiana. E eu no exame da quarta classe, qual é o maior rio de Portugal?, a falta de investimento na geografia somada à desorientação congénita, Guadiana. O examinador a faiscar, todo olhos a saltarem detrás dos óculos, um repente de rosto  afivelado em zanga e escândalo. E eu a diminuir como a paisagem, bicho de conta a sumir de susto e falta de sorte, não era este.
Sobrevoamos as nuvens, há sol, as hospedeiras afadigam-se sobre um chão falso a preparar uma refeição de faz de conta e esvaem-me a infância de bata branca. Embarcamos em uníssono no trivial que não é de uso: mastigar em voo, a mais de 2000 metros de altitude. Convictos de que não se cai a mexer o café ou dar dentadas num muffin. Mas cai. Confiados em pilotos de porte garboso. Esclarecidos de que o rei pilotou estes aviões. E um rei, não é por nada, mas infunde respeito. Diz uma colega convicta, repare na tinta que gastaram a pintar os aviões, aquilo é a sério. Olho e confirmo,  navegamos num golfinho azul e coroado, gastaram muita tinta. E torna ela, sapiente, isto não é qualquer tinta, que se esbarrondava toda na alturas se fosse barata; não, não, é tinta da boa. E muita, esta companhia é como deve ser. Válidos argumentos. Convenceu-me.

Em Cracóvia noite fechada, aeroporto sonolento e a adormecer por sectores. Um bólide xpto em espera. No interior, música polaca de mistura a Roy Orbinson, Gipsy Kings e Gene Kelly (e nós) a cantar singing in the rain em lugar de bom tempo. A caminho de uma casa que nos espera e já é nossa. Do século XIX. Fresca. Airosa. Portas em silêncio codificado. Entramos no cofre. E assim permanecemos, guardadinhos para amanhã.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Contornos de Maresia

A minha praia tem um recorte de serra a namorá-la.  Sei-a plantada por detrás da neblina quando há, a revelar-se num conta-gotas de horas, afogueada de sol, em redondos de ombros e calcanhares. Ao longe, emerge um reclinado e  lânguido corpo de rocha,  uma curva de anca vagarosa que a mão desenha e logo descai à cintura em debrum de sépia contra o azul. Nos pés, dança-nos um areal de finas partículas, causa de cócegas e afundamento, colchão de maciez natural que, por tonteria, não agradecemos. E há dunas breves, arremedos de colinas, leveza de paisagem a arredondar. Ali medram flores de sal e maresia, plantas de chão móvel e secura que se seguram e crescem milagrosas em rocha dispersa: cardos verde-violeta na sua beleza rasa e picotada a requebrar; pequenos tufos de flores roxas, azuis, amarelas, rosa, brancas; a leveza de vestes das flores brancas que noivam como açucenas e nos surpreendem  a florescer de planta sem arte ao rés da areia. E elas um véu a esvoaçar, tão lindas. E, lá na frente, a majestade serena da água. O mar feito mansidão e ondas batidas em castelo suave. A água viva e fresca onde renasço. Que tudo gosto nela e é em mim sem defeito. A minha praia é o mais perfeito refrigério, a mais suave massagem, o alisamento mais cabal da minha alma enrugada. E eu que sei do sol e da areia, das dunas e dos nudistas lá à frente de mama ao léu e pendurezas a céu aberto, que sei de conchas e búzios, tesouros vindos do deus dará e largados na areia depois das marés vivas, sei também que só a sua água me devolve. Alijo mágoas e desalentos e sou eu de novo. E é como se os banhos de mar me dispam de toda a opressão e haja de novo em mim a pessoa que sempre fui e tanto enroupo, disfarço, maltrato.

Bendita seja a minha praia. Para sempre, bendita seja.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Monólogo Encalorado

Cai sobre nós a torrina e os telhados enxameiam em ondas de calor. Lá fora, cães espojados ofegam, língua de fora; nos tanques de rega há águas doentes e amolentadas que não refrescam e chamam apetites de praia, frescuras de montanha, árvores ramosas e nós cá em baixo num friozinho agradável sob o céu de folhas. Ou inebriamos no cheiro da maresia, uma avidez de pés ao rés das ondas. E eu que não estou onde queria (raro estou). Os planos, se implicam vontades além da nossa, rareiam na execução.  A força do indivíduo leva de vencida as sintonias de grupo. E eu que sim. Que pode ser. Pode sempre ser. Tudo pode ser.
Por vezes, derrota-me este desenlace.  Contudo, não é inesperado, as pessoas são muito as mesmas. Cada vez mais si mesmas. Bem sei que sintonizar me cai sobre o corpo, o consome e exaure de tanto ser eu para tanta gente. E talvez nem valha a pena. Que nunca sabemos o que somos nos outros, o que de nós lhes fica,  a lembrança que permanece. De cada um resta um laço. Ou um nó.  Ou apenas uma aselha que deslaça ao menor encontrão. Sinais. Para muita gente não existimos e nem ela nos existe; para outros, somos necessidade maquinal e sem rosto. Só o afecto aproxima alguns do nosso eu exterior na legítima pretensão de sermos, uns nos outros, internos; de percorrermos neles, como eles em nós, alguns corredores transitáveis. Poucos. Que mesmo nessas ruelas periféricas eles se perdem, nós nos perdemos. Estacam, voltam atrás, desorientam, andam em círculo. Então, escancaramos a porta e eles enxergam luz de saída. E vão à sua vida. Talvez não procurem mais. Talvez encontrem sem procurar. Talvez haja um mapa para os caminhos da alma e o próximo percurso lhes seja fácil porque o nosso lhes foi difícil. Tudo que é, não é em vão.

Mas há os que resistem. Permanecem íntegros na sua força de ser,  fundeados no nosso coração.  São medida de sentido. 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Causalidade


Apetecia-me um lugar certo para deixar histórias. Me ir deixando. Não como outra qualquer, como eu. Que não se dá por um eu entre tantos. Isso contou. Conta. E criei o blogue.  Dei-lhe um nome simples e não chamativo, daqueles que não lembra a ninguém.  Usei pseudónimo bem longe do nome e próximo do tal eu que é mim.  E estou para aqui neste arrazoado porque li, algures, que todos os blogues nascem com prazo.  Acrescento que tudo que nasce ou começa tem prazo. Termina. Acaba. Fim. Este blogue, no meu horizonte, termina comigo. Na minha morte. Há coisas assim. Bom. Sei da possibilidade de mil factores que o farão sossobrar. Pois. Mas são alheios à minha vontade. Não ignoro interferências externas, espero apenas que nos poupem (a mim e a ele). Neste sentido, o blogue vai ser quase eterno e durar a minha vida toda. A que falta, quero dizer. E nada de risota, bem vejo a contradição, não tem uma eternidade  longa. Ainda que eu escreva nele apenas quando a vida consente. Sim, sim, que a vida – a minha – nem sempre se predispõe ao tempo da escrita. Eu para ela, apetecia-me escrever, dá-me um tempinho, vá lá... e ela a assobiar para o lado. Podem não acreditar, mas sinto que a minha vida nem sequer é minha, tal o pouco caso que me faz. Mas não tenho outra; portanto, faço por esta, acabido-a.
Quatro anos de blogue. Imagine-se o tempão. É que nem sabia disto (e nem me interessa muito). Outro dia, uma bloguer falava de seis anos completos  e afirmava que o seu era um blogue criança. E fui-nos investigar. E vi que o meu blogue é do mais adulto que há. Mas sem bolinha, que não sou muito dada às violências ou à chamada pornográfica que acho mesmo uma grosseria em forma de gente, elemento deturpante do que a vida  tem e pode ser originário e belo. Não consigo entender quem ajavarda, mas pronto, é problema meu e que nem acho resolúvel; o melhor é des-pensar.
E. Portanto. Dizia eu que o meu lugar de escrita tem quatro anos e é adulto. Calculo que seja canino e cada ano valha por sete. Ou mais.
Mas afinal para que escrevo? Ora, porque gosto de escrever mansamente e sem outra censura que a minha. Corrigir. Apagar. Eliminar. Deixar às moscas (a maioria dos posts fica, digitalmente, às moscas). Fazer das palavras o que apetece na hora em que apetece (isto da hora do apetite é puro desejo). Pronto, dominar. Alto lá, que é um domínio todo cheio de mesuras carinhosas, do estilo, queres ir para ali, pronto, vai lá. E a seguir, queres voltar para o lugar anterior, está bem, anda, dá cá a mão que eu levo-te. E vou-as encaminhando até nenhuma querer enfeitar-se, sair, fazer permuta. Estou ao serviço delas. As palavras.
Para quem escrevo? Para quem ler. E, caso desinteresse, posso ser solipsista: escrevo para mim.  Exigência e apetite estão de pedra e cal. Se acaso investigo navegantes de minhas águas, verifico que vivem nos EUA. São máquinas e não pessoas aqueles que por mim passam. E depois?!  Eu gosto é de escrever. As máquinas não me entendem? Ah, ah, ah...e sendo gente, entendia?! Hummm...permitam-me a dúvida.
A minha vida reclama, perdes tempo; só sabes perder tempo e não tiras lucro de nada. E não é que é verdade?! As tias velhas diziam que ia ser virtuosa por desgostar do dinheiro. Enganaram-se. E não se enganaram. Ora não fui virtuosa de profissão ou carácter.


domingo, 16 de julho de 2017

Amizade

Tenho, como toda a gente, algumas amigas. Umas são companheiras de juventude; outra, de adultícia. Não me fecho a novas amizades, mas já pouco me interessam companhias esporádicas (nunca me interessaram). Não estou para isso. No entanto, só com uma discuto pormenores quotidianos. Também falamos da profissão mesmo se, sérias como num juramento,  prometemos antes não o fazer. Conto-lhe filmes e livros, desgraças com graça que sempre me acontecem e a fazem rir. Ela discorre sobre as questões da existência que na sua boca devêm assunto fácil e interessante.  Não sei que possa ensinar-lhe, mas sei o que, naturalmente, me ensina. É uma opinativa muito razoável, aquela menina.
São poucas, as minhas amigas. Deixam vazios nos dedos de uma mão. Contudo, depois de cerca de 25 anos perdida noutro planeta, achei uma. Melhor, re-encontrei-a. Assim. Do pé para a mão. Se a amizade é séria, a gente retoma como se fora ontem. Ou na semana passada. Quanta água passou sobre nós! Boa. E má. Rotineira, chuvinha de molha tolos. E diabruras climáticas de todo o feitio. Cada uma conheceu um mundo de gente outra, subiu na profissão, casou, teve filhos, arranjou e arranjaram-lhe alegrias e dissabores que desconhecia, sofreu desgostos dos grandes, daqueles que mudam corpo e alma e no impacto nos atarantam de tanto nos exigirem quem não somos. E nós a adaptarmo-nos como podemos, sou capaz, sou capaz, consigo, já consegui de outras vezes. Mas, depois disto tudo que não contámos uma à outra porque o tempo de estarmos juntas é pouco mas é hoje e o passado vem quando calhar se calhar, é um prazer tão grande rirmos juntas! Tal qual como dantes.  Não que sejamos felizes, mas rir a par sempre nos foi hábito e terapia, desoprime, torna-nos mais compatíveis com a estranheza de viver. Que nos exaure. A vida consegue ser mais caprichosa e birrenta que eu em criança.
Tenho apenas um remorso muito ligeiro acerca dela: era amiga da minha irmã e tornou-se minha amiga. Não houve troca, foi mais uma extensão. E até me parece que sintonizamos melhor passados 25 anos.
Foi nesta sintonia que ligou uma noite já pelo escuro, vamos amanhã à praia? E é claro que sendo eu a que fui, sem mais pensar, sim. E ela que saía cedo (a nossa praia é longe de mim e mais longe dela), e eu que a ia esperar porque desconhece onde páro e 25 anos depois a praia e os lugares, como dizia o filósofo, são outros sendo os mesmos. E claro que convidei a mana, havia um reencontro por fazer. Acordei com os galos. Ou antes. E deitei-me à roupa. Tudo preparado. Liguei e ela há dez minutos na paragem do autocarro, ainda tão longe. Comecei a ficar contente. Cada uma de seu lado, pusemo-nos a caminho.

 A minha amiga é sempre ela, a mesma. Gosta de andar, de ver, de explorar. Chegou antes. E não parou quieta. Como é parecida comigo em muita coisa e também nesta, nas encruzilhadas virou sempre para o lado errado. E vivam os telemóveis que nós chegadas e nada dela nem daquela menina adorável, com certo porte de deusa, que lhe chama ternamente mammy. Quando enfim descodificámos por onde andava, fui rolando devagar, olhos de  raio x. E vi-as assim, cheias de sol, marchando na ciclovia, do lado oposto. Apitei. Acenei. O traço contínuo a impedir outras proximidades. E as palermas, vai ali alguém a apitar, deve ser um homem; uma olha e, é um homem (não lhe perdoo, eu sei que estou a perder a feminilidade, mas escusavam o exagêro). De modos que, quando voltei atrás tinham sumido de novo. Parei numa aberta do stand de vendas e toda a gente que saía ou entrava do resort olhava para nós com a certeza de não podermos comprar uma garagem sequer. E nós olhávamos para eles na admiração de ver como é a gente que pode comprar tudo ou quase. E delas,  nada (ó raio de garotas). A mana, enganaste-te, não eram elas. Ligámos. Já estavam de novo a afastar-se, não nos tinham visto. E a mãe, que é tão como eu, qual é a marca do teu carro? Eu esquecida que o carro é velho mas não chega - ainda -  aos 25 anos, tu sabes a marca, tenho o mesmo carro. Dei referências do  irrefutável lugar e embrulhei a promessa, não saímos daqui. Pespegámo-nos as duas a mirar os magnatas que passavam em brutos carros, e, em boa verdade, me pareceram olhar de alto e com óculos de marca (sim, sim, mesmo por detrás dos óculos deles e meus, vi muito bem que era olhar de alto). À parte isso, a estirpe não difere assim tanto do vulgo. E diz a mana meio ansiosa, vou esperá-las. Fico a aguardar (até por estar mal estacionada) e vejo-as de longe. Desviam-se brevemente da mana, depois param e há aquele abraço de tanto ano. E beijos. E tal. A minha amiga não reconheceu a mana e desviou-se dizendo para o lado, esta gente está toda a passear logo de manhã, deixa passar esta senhora tão fina. De modo que chegaram as três numa galhofa. E lá seguimos para a nossa praia. Cantando e rindo. O resto conto amanhã. Logo. Ou. Há que encompridar os curtos bons momentos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

No Tempo da Escola

A frequência e novidade da escola nublou-me os amigos de tanta hora. Vivia em adaptação sistémica, cercada de horários e  desábito, e assoberbava de livros e matérias escolares. Inda o sol criança e já D. Amélia encarrapitava nos saltos altos e, toda pastas e dossiers no banco traseiro, me abria a porta lateral do automóvel. Vaidosa da boleia, sentava-me a aspirar os eflúvios perfumados que desprendia, sempre cuidando que os meus pés em eterno veraneio - sapatos de verão eram mais baratos que botas de inverno - não sujassem de pó o automóvel, avisos maternos às marteladas na minha atenção, vê lá onde pões os pés, não sujes o tapete. Seguíamos em silêncio. Eu, desinteressada de toda a ciência exacta, a desenvolver composições mentais ou rememorar verbos e regras de sintaxe e morfologia; ela, compenetrada, olhando em frente. Duas ruas antes do colégio, num lugar de muros bisbilhotados por copas de árvore, o carro imobilizava. Depois do obrigada da praxe, apressava-me a sair. Puxava o atilho do portão de zinco ondulado e, mal o empurrava, o carro desaparecia. Mala ao ombro, solas ecoando no deserto do quintal, abria uma porta de postigo vidrado e dava de caras com o ar morno da cozinha, um aroma de leite com chocolate a insinuar. A empregadita assomada à porta dos quartos espreitava-me do alto do avental e apontava Madalena num sorriso de troça habituada e dedo estendido. Sob o enleio de espargo que dava volta à cozinha,  a minha nova amiga emoldurava em begónias. Sentada à mesa, moía a má vontade dos maxilares no pão que eu avaliava de apetite e que ela, em aperreio de dedos fatigados, depositava mordiscado em meias luas no pratinho pequeno, um nico de queijo a descair. E a mãe a olhar-me como se eu uma autoridade na matéria e não da mesma idade, já viste que esta menina não come como deve ser – e depois virando-se, bebe ao menos o leite, filha.  E enquanto lhe vestia a bata, eu, sem hábito de interruptores e candeeiros eléctricos, corria às cegas o escuro do corredor, embrenhava no cheiro a cama e suor e adivinhava o trinco.  Cá fora, respirava fundo e relanceava a cega sentada no banquinho de parede, a bengala à mão direita, siamesa das pernas a florir, Bom Dia! E ela a compor a pose, sorriso debruçado, a visão na ponta dos  dedos que emparelhavam chinelos com pés. Depois endireitava-se a confirmar a tira da caixa das esmolas. Maravilhada, seguia-lhe a ternura táctil e comovente das falanges adesivadas à ranhura, como que a festejá-la. Em seguida, agitava a caixa vazia e pestanejando à velocidade dos cegos, ainda não passou ninguém, és a primeira;  olá, já sabia que vinhas, conheço-te os passos ainda dentro de casa. E a passar-me uma mão amiga no cabelo que seguia leve no deslavado da bata, estás bonita. Ríamos. E  até Madalena aparecer, contávamos notícias uma à outra. Havendo tempo, falava-lhe da viagem de carro, da tristeza de burros e cavalos trotando a estalo de chicote, dos ciclistas esforçados que impavam nas subidas, das camionetas ajoujadas de toros e cortiça, o excesso de carga em perigo danger e que entortava nas curvas; e a mestria de D. Amélia a ultrapassá-las.  Ela ensinava-me os cheiros e ruídos que lhe acompanhavam as horas, dizia-me que não existe apenas o cheiro de cada um; e pestanejava a garantir que os cheiros de lugares, trabalhos e tarefas é pegadiço, se mistura na pele e nas roupas, nos delacta. E eu em admiração ao poder do olfacto e do que ela sabia das pessoas só de ouvido nariz e pele. Mas o seu tema  era a figura de D. Amélia: o que vestia, a que cheirava, como se penteava e pintava, os seus humores...Enfim, Madalena surgia seguida da empregada que sobraçava os livros apertando sobre eles o elástico da capa de pele. Depois passava-os a  compor-lhe as tranças, dávamos um até logo  às duas e algaraviávamos rumo à escola.

No agrado deste quotidiano, breve se fez Dezembro. Ruas de pó varridas de vento, os olhos vagos das crianças acompanhando um arbusto receptáculo de lixo, às cabeçadas aqui e ali, rebolando até uma esquina onde pausava momentâneo para continuar viagem em voo baixo, rente ao chão. A garotagem, leve de roupas e agasalho, arrepiava no rijo da nortada.  Em todas as casas se queimava o que havia e à boca da noite as ruas cheiravam a lume e, com ou sem chaminé, o fumo escapava-se dos telhados de telha vã. Depois da escola, a criançada catava os pinhais e trazia tudo que encontrava, sacos de caruma, pinhas esquecidas e doentes, pequenos galhos caídos enfeixados e carregados à cabeça, uma mão a amparar o feixe, a outra arrastando o saco de caruma. De regresso a casa, via-os pelo vidro. Peregrinavam na beira da via férrea, cabeças a oscilar de esforço, os irmãos mais novos correndo atrás ou na frente. E tudo me parecia longe e diverso. Uma tarde, por entre a fila de garotos,  vi Lídia.  Disse-lhe um adeus efusivo mas, lançando mãos à cabeça a equilibrar a carga, virou-me a cara. Por certo invejava o meu conforto automóvel. Que tonta. Em Luís, antes meu vizinho de todas as horas e que agora nunca via, deixei de pensar. 

domingo, 9 de julho de 2017

Deolinda

Tenho um relógio antigo, de tic-tac esfolado e teimoso.  Cumpre os imutáveis círculos da vida em cabo verdiano e,  sempre atado às minhas andanças, dá voltas que não acabam. Num ritual de manhãs, acerto-o e alimento-o de corda, mãe a compor a roupa ao filho depois do desjejum, limpar boca, lavar mãos, sacudir migalhas. E, no imediato de dormir, deito-lhe olhos de confiança. E ele que sim, que durma descansada,  a patilha de despertar está de serviço. Adormeço. E vela-me em passo certo. Inalterado.
Se acordo antes da hora porque um bêbado mais espalhafatoso, um grupo desvairado a asnear, ou só uma sede, uma angústia que atravessou o mar e me agarrou num sonho, sorri-me da mesinha de cabeceira, diz-me no azulão já manchado de sol e longa história de arestas, descansa, está tudo bem. Mas levanto-me e espreito a sala. As crianças dormem em abandono, num enleio de pés e mãos, o edredon a descair do sofá feito cama. Tapo-os.  A uma ponta, a minha menina ocupa pouco espaço e tem o elástico a soltar-se da pasta de cabelo; eles, ao contrário, apropriaram-se e dormem quase crucificados. Atravessa-me o pensamento, preciso mudar de casa, dar um canto à filha e aos rapazes. Antes que os impossíveis me caiam em cima deito-me de novo, a compreensão do relógio a sorrir do mostrador, tic-tac, tic-tac, tic-tac. Bem sei que é mecanismo metálico ou, quem sabe, plástico, umas rodinhas que engrenam a intervalos certos e fazem mexer os ponteiros. Mas é que o tic-tac me traz o pé descalço das mulheres de Cabo Verde. Vejo-as na praia, o peixe ainda a contorcer-se na canastra em agonias de falta de ar, brisa colante na capulana garrida atada em nó de engenho e erotismo salutar. E elas chamando freguesia, filas de dentes sem dentista, a desmarcar. E deixo-me ir na sua voz cantada sobraçando marejos de oceano, mistura de dialecto e português, um ensaio de inglês aqui e ali. Que os mares têm todos voz diversa, mas foi na linguagem deste que aprendi ondas e marés.

Acordo num pulo estridente, são as cinco. Noite escura. Atardo as crianças quanto posso. E nasce a roda viva de rabugem, pequeno almoço, vestir, pentear, aviar lancheiras, aprestar mochilas, arrumar o que possa. Levá-los à vizinha que mos põe na escola. Depois é a fila na paragem, um monte de gente estropiada de sono, olhos inchados, cabeça a ganhar ideias e a caber no dia que começa, hoje que dia é, que recados não posso adiar. Já sentada no autocarro, sou duas. A primeira de mim pensa ainda nos filhos, relembra deveres e esquecimentos, rememora a casa que ficou, fogão apagado, camas feitas, pão na mesa. Depois, a segunda entra na casa de D. Natália e pensa no jantar do dia anterior, no volume de loiça, nas mercearias que faltam, nos meninos que dormem. Entro mãe e saio empregada. Dou bons dias ao motorista ainda com olhos meigos, a despedir-me dos meus meninos que deixei na vizinha; e saio direita e átona, toda cheia de quem vou ser, a empregada de D. Natália. Boa senhora, ela. Parece que escreve e escrever lhe dá sustento. D. Natália vive num mundo de faz de conta e não sabe. Já nasceu ali, naquele mundo almofadado, silencioso, onde às vezes estalam discussões violentas que bem ouvi os gritos antes da separação. Há alturas em que somos todos iguais e quem vive na casa dos outros assiste-lhes o filme da vida. Nesta casa,  sou as preguetas que mantêm as almofadas de D. Natália. Faço girar o mundo quotidiano, varro-lhes o caminho, afasto ramos caídos, colho  flores e enfeito as jarras. Sou paga para isso. Existo por via da função. Não sabem onde vivo ou com quem, se tenho filhos, mãe, marido. Ninguém se interessa pelos meus domingos e dias santos; ninguém pergunta quando faço anos; a tristeza é mal vista e pertence a tempo só meu. A alegria, ao contrário, é bem vinda. Sou alegre para eles, alegre de olhos e boca. Sempre alegre e pronta para o trabalho. Preferem-me, se cumpro de boa cara. E preciso de cumprir. São assim as Deolindas do mundo.

domingo, 25 de junho de 2017

Olívia 

Pensei que este ano ia ver-te e correr aquela estrada de planície sem fim. A esmo, desde a berma, flores e pastos arrepiando um bom dia na deslocação do ar, montados do sem fim a arregalar para o carro, aqui e ali, uma vara de focinho no chão a catar bolota. De outras vezes, bovinos pachorrentos, sem pressa de nenhum lugar, alguns apenas um vulto semi deitado, que nem se sabe de que descansa gado tão pouco dado a pressas. E a terra plana, a desenrolar em cada linha de horizonte, vizinha de céu tão baixo.  Lá ao fundo, sem escadote, azinheiras tocam o azul ao alcance da mão. Depois, sempre a fazer-me próxima de ti, contornar a igreja de barras certas que guarda a largura de árvores em quadrado seguro e chão escaldado a soalheiras. Ali, pesa a desocupação dos homens, olhos piscos em fresta, a seguir o movimento à revessa de bonés e chapéus. E seguir em frente, em frente. Passar o sítio onde os namoros se deslocam e atiram pedras a adivinhar longevidades. Como se uma pedrinha no cimo de um esfíngico pedregulho faça diferença ao sentimento. Mas o chão solado. Serão bastantes, os amores passageiros. Ou o par segue consolado da sua perenidade e logo o vento atira um punhado de pedrisco ao chão.  E fica a gente sem saber onde a razão, se no vento que as tomba, se na pontaria que as equilibra. Que, na vida, como em tudo, a pontaria faz muita falta. Pergunto-me se algum dia, tu. Se uma hora, tu. Se o teu coração ansiou ou quis experimentar. Mas falta-me coragem para te desvendar os votos lançados acima daquela enormidade de rocha que guarda a suposta eternidade amorosa. Ou talvez seja apenas bom senso, o teu passado vem ter comigo.  Ou não. Para nós duas, é de pouco interesse.  
No ano transacto, decidira, finalmente, que não me valias o caminho. Por qualquer ninharia me preterias; o peso que tínhamos uma na outra não se equivalia, éramos(somos) dois pratos desiguais na mesma balança. Um desgosto, Olívia. Coisa de memória a repensar.
Porém, inesperada, voltaste por teu pé, isenta das minhas aguilhoadas. E fiquei tão contente como o pai do filho pródigo. Festejei. De imediato, pensei na visita deste ano. Que parece não acontecer. Porque te repetes. Ligo-te e impedes-me a visita porque obras, pinturas, catequeses em términus de festa, ninharias palermas a que o meu coração não dá bola. Foi nefasto, acredita. Afinal, continuamos dois pratos em demasia desigual. Ficaste de ligar. Depois. Quando. E nem sei se.  Neste repensar do que somos e que a ti não incomoda, talvez eu tenha de alinhar contigo, alijar peso, tornar-me leveza de superfície. Viver uma amizade de raiz à flor da terra, se é que tal coisa exista e eu a consiga. Digerir, definitivamente, o facto de não seres quem te pensei.

Um dia hás-de ligar-me. Ou não. E fica a memória de Évora, as ruas de pedras a subir e a descer, os arcos da Praça do Giraldo, O café Arcada onde só estivemos uma vez submersas na vozearia de gente em rigor de capotes e chapéus alentejanos, a rua do Convento Novo agora fechado, a Porta na muralha de que já nem lembro o nome, os moinhos de S. Bento onde nunca fomos. Então,  havia os testes, as notas, o estágio que tanto nos preocupava. É lá que estamos e somos incólumes.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Deolinda

Deolinda tem horário galinácio e trabalha a poder de sol. Madrugada alta que é ainda noite escura e já ela se levanta para entrar, discreta senhora, num autocarro que a traz até mim. Sinto-lhe os passos na pressa da casa. Acorda os miúdos, alimenta-os, trata dos lanches, vê se nada falta  nas mochilas e leva-os ao autocarro da escola. Então, a casa cai  num silêncio que lembra a noite, sem um som. Até que a porta se abre e fecha de novo. Descanso e adormeço com os sons abafados da cozinha a voltar a si. Mais tarde, ainda eu me arrasto ensonada e já a roupa flutua no estendal a cumprimentar-me à inveja, faz tempo que cá estamos. Atenta, Deolinda ciranda pela casa. Olha-me num sorriso de bons dias, e interna-se na cozinha a informar bem disposta, o  pequeno almoço sai já. E mal desdobro o jornal, planta-se por cima das letras o cheiro bom a torradas e café.  Deixa-me um bandeja composta e acode ao quintal. Perde-se ali um tempo e quando sai a compras o mundo lá de fora está amanhadinho. De enfiada, faz  tudo que é recado  e é mulher de pouca demora. Não aproveita para beber café, sentar-se numa esplanada virada ao mundo, desfrutar de uma conversa com gente amiga ou conhecida.  Quando volto a vê-la – ainda leio as notícias – sobraça  o alguidar da roupa já seca. Levo o jornal para o escritório e oiço-a a abrir janelas. Areja quartos, faz camas, arruma. Entretanto, abro o portátil e espreito novidades, tento escrever alguma coisa. A essa altura já as caçarolas dão sinal na cozinha. Chega-se a mim a limpar mãos no avental e põe-me as ementas à consideração. Como se eu saiba que espécimes me    habitam o frigorífico e o que fazer com eles. À minha recusa em decidir refeições, acrescenta em voz baixa e firme, é patroa, quem é patrão tem de mandar. Reafirmo, no meu frigorífico mandas tu, és a patroa; eu sei abri-lo e fechá-lo. Mas não a satisfaço. Olha-me duvidosa a incentivar, não lhe apetece outra coisa, eu cozinho prá senhora. Deolinda tem treino de obediência e agrado e penso até que seria mais grata a uma patroa caprichosa e pueril. Na hora de almoço, recusa comer comigo, fica mal, não pega bem patroa comer com empregado, a senhora não leve a peito, mas eu sei o meu lugar.  Durante a tarde, haja o que houver, Deolinda passa a ferro, dá uns pontos na roupa das crianças, ajeita a roupa do dia seguinte e deixa-nos o jantar preparado. Depois vai buscar os garotos, dá-lhes lanche e banho. Quando fazem os deveres escolares, despe a bata, enfia o vestido de florinhas, humedece as mãos e alisa  o cabelo, agarra a malinha e chega ao escritório, vou embora, senhora, témanhã. E desaparece no portão em corridinhas pequenas. Enquanto a espreito, olho as minhas três páginas escritas. Como é que ela consegue?! Como consegue sustentar uma família e, vinda dos fundos da noite, trabalhar o dia todo para, já noitinha, voltar para casa num sorriso.

Deolinda é o abençoado mistério da minha vida. Sem ela, o quotidiano  seria outra coisa.

domingo, 18 de junho de 2017

O Sentido da Vida

No Alentejo, o verão é treino de inferno. Sofre-se com calma, no anseio de noites frescas que um sopro de brisa aligeire, olhos a adivinhar no astro mudanças moleculares. À noitinha, os homens sentam à porta a moíção de trabalho e calor, dedos de pés esticando prazenteiros livres do aperreio de sapato e meia, o suor a refrescar nas reentrâncias; e há qualquer coisa de terno na timidez indefesa da carne a  branquejar  sob o  arregaço de calça que o regadio ensejou. Os homens esperam o dia novo. Que surge, benza-o Deus, muito igual ao anterior. Em calor, luz e sofrimento. Os alentejanos que se cobrem como mouros, a defender-se da torrina e dos mil insectos que o verão importa.
Um alentejano na praia não é qualquer pessoa. É ele. E  mais todo o calor que já viveu e o vincou em braços e pescoço. E mais o suor que destilou na terra que é sua e ama de paixão. E mais a imensa saudade da água e que lhe mora na alma. Que não pode este sentimento dizer-se apenas saudade; é funda necessidade, míngua exacta, falta que não evapora na beira de um rio. O mar sim. O mar tem a vastidão da sua necessidade e alberga toda a frescura das brisas. Ali, não precisa poupar na pródiga liberdade da água que lhe eleva o corpo e o pega ao colo. E descansa sem remorso na inutilidade da areia onde nenhuma enxada tem préstimo. A praia é breve recreio onde despe calores e angústias, alija males de viver e se transfigura empenhado em respirar, cheirar, tocar o ritmo das ondas. Extasia  no perfeito milagre de saber como matar o calor que sente.
Mas ontem, enquanto muitos vogavam de corpo e espírito, tu fugias do fogo traiçoeiro. Enquanto uns tinham sol e água fresca em céu sem nuvens, tu corrias com a família para o carro. Tu apressavas-te para a morte, depressa, depressa, é preciso sair ou morremos queimados. Enquanto nas praias a água abraçava os corpos e os apaziguava, o fogo devorava mata, devastava caminho, corria às cegas destruindo a esmo. Na praia, os alentejanos olhavam o dia claro e a rir, ainda bem que viemos. E tu num repentino beco sem saída, cercado, o fogo e o vento contra ti, e agora. Os gritos, a aflição, a dor mais incomensurável e veemente que existe. A Dor de te saberes dentro da pior morte e ninguém para salvar-te. A tua dor penetrante de impotência a varar-te, vamos morrer. E o fogo máquina terrífica e ignóbil, sem pensamento, apanhou-te e andou. Na mesma hora em que tanto português cabeceava de sono e calor, pasmava para a TV, tomava banho de mar, partiste dilacerado em dor que não se descreve, ardias por junto. E tu já não eras tu, sobrou  de ti um resto calcinado de ossos; nada se sabe das tuas carnes, dos desejos que tiveste, do que pensaste, do que foste. Recuso acreditar que não há despojos. Acho, vê tu, que ficaste na brisa que a chuva traz e que jamais te afastarás dela que, ontem, tanto te faltou. Agora que sabes mais que nós, diz-nos, o que fazia o Deus justo e amoroso nesse momento.
À noitinha, inconscientes da desgraça, ignorantes deste luto nacional, os alentejanos viajavam para casa, vidro aberto e braço fora das carrinhas e automóveis, agradados da chuva e do cheiro a terra molhada, a contornar as árvores caídas pelas estradas. Pacientes. Felizes. E tu já liberto de todo o mal a ouvi-los e a pensar, também gosto do cheiro a terra molhada. E eu garanto-te que não sei como és capaz de esquecer o terrível cheiro a carne viva queimada. A dor. O lamento profundo e insondável de haver tal morte.

Descansa em Paz.

domingo, 11 de junho de 2017

Regressar de Gosto

A primeira ida à praia é, em cada ano, memorável. Sei, repito-me anualmente, post atrás de post, na tentativa de erguê-la das origens mais fundas do que em mim permanece de seu. Não que a procure cá dentro como um resíduo. Nada. Fica-me a pulsar nos sentidos e palpita na mente, é aroma disseminado no meu cheiro natural de velhice em combustões lentíssimas, células e sangue avulso. Em excesso. A escrita é a rasoira que esbarronda sobras, que não se pode viver entornando restos de maré pelos dias, salgada ao minuto, com búzios hipnóticos em sugestão de líquidas viagens multiriscos. Ninguém aguenta. E portanto. Resta-me verter esta paixão em palavras. Que há pior (ou será melhor). Lembro um amigo a contar de um amor que o arrasava; nascia-lhe à presença amada uma inquietação do corpo todo, o suor a nascer-lhe em gotas sobre o nariz, coração desengalgado. E era coisa que o preocupava, olhava-nos a inquirir, acho que morro, não sobrevivo à sua presença constante, os nossos encontros exaurem-me, aquela mulher espapaça-me a vontade. E nós, vida de amores comuns, invejávamos e falávamos em novidade e no hábito que aplaca corpo e espírito. Mas ele que não,  era exagero subtraído ao tempo e já abarbatava anos de constância; sentia-se insolvente, temeroso de futuro tão amorosamente desmedido. Não sabemos o que terá acontecido a esse amor invejado. Para nós, seu pequeno círculo de confidências, mora intacto na bainha interna do tempo, não desfaz. Mas o meu amor pela água salgada é outro,  não se diz em cataclismo. É bem-estar em crescendo desbordado e que conto, segura de que qualquer sensação tem com o sinal que a representa, a relação da foto com o original: são ordens qualitativamente diversas.
Amo a praia dos dias primeiros, a areia enrugada aos altinhoslavrada de vento como deserto, sem peso de genteaqui e ali, sinais da última maré. Traço-lhe uma vereda de passos e estamos quase a sós, sem ruído humano, gargalhadas, telemóveis, gasóleos de motor que abandalham  riscando ondas e ouvidos. E assim a apercebo melhor no seu natural de água que desmaia na areia e grácil se repete em risos pequeninos.Ondas são abraços espremidos de violência impactada por emoção e sentimento. Apenas abraços que não fartam, toma um, toma dois, toma três. E mais um,  e outro e outro. Não têm futuro? Têm sim, o porvir mora no abraço seguinte em tudo novo e semelhante ao anterior. E eu, corpo a adormentar na areia banhada de sol, atendo a esta voz sonora de ondas que nascem sabe Deus onde. Embalo em venturosas horas. Recarrego. 
Ao fundo, recorte de escura nitidez,  a serra deleita preguiçosa, estou aqui, moro nos cheiros agrestes e nas veredas, nas subidas a esfalfar, no esboroado em carne viva que os homens abriram. E dou flor e reverdeço em cada primavera. Ainda sobe por mim gente interessada. Ainda espero na reflorestação. Ainda sou eu à beira mar de pés na água. Não deixem perder as minhas espécies num fogo qualquer ou por alguma ninharia empreendedora. Acudam a quem, ano atrás de ano, vos guarda e protege.

E de repente, uma gaivota tão perto. E outra. Olho o dia a deslembrar. É hora. Levanta-se uma brisa. A água em espelho de sol encrespa de leve, as ondas deslaçam mais devagar e a serra postou-se em guarda sombria. Se eu tivesse uma casa nas dunas ficava até ao cansaço do sol a desaparecer talvez em raios rosados; ficava até que a brisa me derrotasse; ficava até que a noitinha estendesse o manto a empurrar-me, vai, queremos ouvir-nos uns aos outros sem testemunhas. Mas não vivo nas dunas. Dou-lhe as costas devagar. Despeço-me em promessas a que é já indiferente. Concentra-se. Começa-lhe a hora de ser para si mesma.

sábado, 10 de junho de 2017

Uma Obscura Árvore em Claro Sol

Há um prenúncio de calor na frescura da manhã que amarela soalhenta. Lá fora, o contentamento solto dos pássaros anda a esvoaçar na brisa bebé e infiltra pela janela semiaberta.  Sem gente, a minha árvore desinibe e entretém-se a sugerir,  ramos estendidos em insidioso convite de verdes, aqui e ali um eriçado de tronos barrocos que amarelam e, a seu tempo, tombam e morrem a golpes de vassoura, devêm lixo. Mas hoje são garridice vegetal, chamariz de células, laço de fita em pele arbórea. Que chama a algaraviada dos pássaros. Esta árvore, piano de sala que não tenho, é deus de zelo, sinaliza e guarda a casa em amplexo mavioso. Alberga melros, rolas, pardais e um  sem fim de ignotas espécies. Mansamente, centímetro a centímetro, tem-se aproximado e quase se debruça na minha janela onde a cloaca dos pássaros deixa restos que somem em  higiénica sacudidela. Perfilada, o corpo denuncia-lhe o esmero no lado campestre e a saudade de estar entre iguais. A minha árvore é um pequeno deus que não quer ser deus. Mas continua a crescer e elevar-se acima das outras, alegria sinfónica  dos habitantes alados. E minha. Se penso nela, logo a alma se enternece e me traz, vá-se lá saber porquê, o mar estival que sei de cor. O mar feito praia lisa e  que toda se oferece em movimentos suaves e lisonjeiros. Que beija os artelhos a convidar o resto do corpo, que vai subindo em frescura, mais acima, mais acima, mais um pouco. Até à plenitude liberta e inteira da osmose, a dissolução navegante de quem sobrevoa os males de viver e se dissolve no elemento aquoso. Que é  isto nadar: a profunda comunhão com a água, um enlevo suprarracional. A gente caminha pela estrada da razão, mas enleva no que dela  transcende. E que essa transcendência se firme e afirme por via também dos sentidos é a contradição mais bendita e benquista do ser humano. E nisto estou na Feira do Livro bordejada de lilás, os jacarandás num sorriso a escurecer, vieste. E eu perdida na sinuosa contorção dos ramos, anos e anos a ganharem a forma que me abisma em cada olhar, perplexa do mistério imerso na miríade florida e encaixada em nuvem, presa ao violeta intenso de um mais afoito, corpo de poesia declarada, vejam-me. E depois arranco-me e deambulo naquele jardim da alma que gosto de percorrer com vagar, a ler títulos, antevendo o que possa tornar meu. E nenhum momento é tão grande como esse em que desejo sem ainda ter (ah, o poeta, como ele sabe dizer isto). Por vezes, surgem-me pessoas da capa dos livros. Inexplicáveis. Porque sim. Agudamente. São sinais.  Livros que pedem, compra-me. Ou gente que quer ser vista. A relembrar-se. Porque não vejo o que lá está, escritores a olhar-nos do fundo da sua  seriedade, queixo apoiado na mão. Vejo sorrisos rasgados que troçam brandamente da minha pessoa. Comovem-me estas visões, querem o quê?!  

terça-feira, 6 de junho de 2017

No Tempo da Escola

Amélia chegara à aldeia sem passado e soubera rodear-se da aura de superioridade natural: tinha empregada dentro de casa, um gerador que resfolegava na rua e iluminava, arrefecia e aquecia os interiores do monte; e um automóvel que conduzia a resvalar no pasmo das gentes. Ninguém ousava levantar cabeça a interrogá-la. E ela, qual recém nascido de banho tomado e estômago sem queixa,  apreciava a fita dos dias em satisfação virginal. A tudo atendia a sua curiosidade. Pela noite, apreciava o ruído dos ralos na terra, o canto alado dos grilos femeeiros, a extremidade brilhante dos pirilampos a que o povo oportuno chamava  luzecus. No passo certo das horas noctívagas, rodeada de papeis, sentava-se a trabalhar. Acompanhava-a o ruído dos ramos que estalavam nas árvores em volta, a madeira dos móveis a espreguiçar no centro do silêncio, um gato elegante e periférico de olhos em desassossego.   Pela tardinha, era vê-la descer em passeio no seu passo miúdo, primeiro à descoberta, mais tarde em exercício de convivência. Nos caminhos, os homens tiravam-lhe o chapéu e cumprimentavam sérios,  rugas franzindo o rosto escurecido de pó sem data e sóis arraigados. E quedavam-se densos, olhos incomodados de assim sozinha por todo o lugar, amiudada em sapato rasteiro e raso de poeira, desinquieta de olhos e mãos. Amélia não se incomodava, tinha-os num limbo de acenos e sorrisos sem palavras que não lhe descomandava o passo. Havia de passar tempo até chegarem à conversa, que a confiança nasce e cresce como qualquer legume:  a poder de tempo, rega e paciência.   
Depois que minha mãe aceitara a oferta de emprego no Monte do Cabeço, a aldeia inteira a empurrá-la, vai, não sejas parva, foges ao trabalho do campo, ficas estimada e crias a gaiata que com ele não podes contar, eu vivia de empréstimo e suspense. Passava os dias enjoada de nada para fazer e, sem a companhia dos meus amigos dilectos, as horas desmaiavam  em semi-morte. Estava proíbida de passear com o grupo de garotos que cirandava por todo o lugar, por via de um pessegueiro carregadinho que, de uma hora para a outra, aparecera aliviado de pêssegos. Apesar da minha aplicada veemência, nunca tirámos nada, perdurou o não implacável. Em compensação, minha mãe entendia o cativeiro e deixava que a esperasse a meio caminho. À hora marcada, depois de muita ânsia aos ponteiros, saía de casa em corrida de fogo à vista sem bombeiro para acudir e, num relâmpago, estava sentada no marco combinado. E aguardava. Meias horas a enfiarem umas nas outras.  Na volta, por vezes dentro do breu, perguntava tudo sobre a casa, D. Amélia, as refeições, o trabalho, quem a frequentava...mas minha mãe era pouco loquaz e apresentava-se num cansaço só. Ou seria D. Amélia que não desejava alimentar a calhandrice de comadres e lhe fechava boca e ouvidos. Uma tarde, a surpresa, este ano vais estudar para o colégio. Eu a meio da vereda, espeque mudo, as tarantas das pernas, acudam que perdemos o andar. Na vila, observara uma aluna do colégio e o uniforme embiocava qualquer dos  meus vestidos. Minha mãe a validar a decisão, D. Amélia veio dirigir o colégio, foi por isso que alugou a Casa do Cabeço.  E a antecipar dúvidas sobre finanças, vai arranjar-te uma bolsa de estudo e não pagamos; do resto trato eu, filha. E enquanto eu puxava dos reflexos e as pernas desenxovalhavam do estupor, virou-me o sorriso de tempos felizes, todo subido aos olhos, vês, vais estudar e hás-de ter uma roupa como gostas, igual à da menina que vimos na vila.

Porém, ao invés de largo contentamento, atemorizei a pensar nos colégios que só conhecia de um ou outro livro, no terror das meninas e professoras novas que ia encontrar, na catástrofe de uma bolsa de estudo que nem arrisquei perguntar o que seria. Fixei-me em D. Amélia, nos seus olhos inquisitivos e grandes como amoras terríficas, na altura de saltos em que se passeava, tic, tic, tic. E assustou-me o comando daquele  palmo de mulher. Apesar do sorriso retornado a antes, nem minha mãe parecia contente por inteiro. Talvez canseira. Ou por meu pai já fora do segredo, mas sem visitas. O certo é que a novidade desprendia uma sensação estranha, espécie de azedume e travo desconhecido.

domingo, 4 de junho de 2017

Olívia

Há quanto tempo não nos encontramos? Já nem sei. Primeiro, aborreceu-me de morte a estranheza da tua torre solipsista que teimo em escalar: a constância do teu silêncio  feito de tempo, que interrompes em raros telefonemas; depois, chateou-me que não me atendas se ligo, tenhas sempre  telemóvel desligado (não sei porque o compraste), possuas  um computador  virgem ( e este, para que o queres?). Pasmo da tua solidão de sobro alentejano,  cortiça, musgo e líquenes a toda a volta; da tua orfandade sem palavras e que te marca os gestos; dos teus passos em eco pela casa, sempre mais que eles, o andar leve dos mortos que trazes contigo numa afeição que é demasia e grita do teu rosto para o meu, estamos aqui, não fomos a enterrar, acode-nos. Da tua expressão macerada que enfeitas de religião e companhia que não é. Da tua displicência alentejana que me preteriu por uma prima de Lisboa quando nenhuma de nós impedia a outra e mais me pareceu evitação propositada. E tudo isso, amiga, me afastou.  
Mas, à vista do meu silêncio definido e firmado em propósito de caminho encerrado, ligaste. Apresentaste desculpas. Desfizeste nós. Terás amigas comunitárias, gente boa e que só arreda pé de S. Pedro para ir ao médico, em excursão a Espanha, ou peregrinar  a Fátima. Mas nenhuma é eu. Nenhuma. Sou o teu lado perdido, um elo à vida que foste, alguém que - supões tu – vive no mundo que, em tempos, quiseste teu. E talvez por isso me aproximas e repeles. Quero fazer-te bem, mas quem sabe se também te deixo um travo no presente, se cravo um espinho pequeno que fica a incomodar quando te deixo. Num ai, a tua saudade afirmativa caiu sobre mim e desfiz o muro erguido entre nós. O definitivo passou a transitório. Um dia destes, o meu carro reaprende caminho e rola por esse Alentejo fora, sempre em frente, Évora, Reguengos de Monsaraz, S. Pedro. Aqui e ali, a claridade da cal a pontilhar a planície ainda enlaivada de verdes. Redondos suaves pegam uns nos outros, aqui uma anca, além o torneado de um braço, acolá um seio que se entrega. Alentejo é esta terra que o sol aclara  e martiriza, desmedida entrega a exalar num silêncio de mundo; é este pedido de mãos e dedos aflitos, a erguer-se de cada sobreiro desgrenhado; esta sublime resignação na humildade que consagra a pacatez de cada azinheira. E eu sou eles; e corro sentada na hipnótica fita negra que me seduz, escada em caracol a desembocar na tua rua murada de cal. Eu, que te tenho uma saudade feita de horas ensacadas, vou derramando bem querença por esta terra alentejana. Prescindo de procurar-lhe belezas ímpares, maravilhas, recantos, jardins de respiração florida. Gosto-a assim, em cheiros suados, carcomidos de calor; sinto a aspereza dos cardos nas pastagens, os pontiagudos do restolho nos pés, a comichão dos fenos por todo o corpo, a repelência disfarçada da vara no montado. Estremeço-a tanto na canícula que treme nos olhos, corpo a alagar, como nos invernos que paralisam o viço nos caules e chamam as artroses pelo nome.  O meu amor não obscurece às agruras estivais ou invernosas; não esmorece no confronto com a altura das serras e amenidade dos rios; não menoriza à vista de baías e enseadas, de praias vestidas de areia clara ou mares em fúria no encrespado da rocha. E nada é mais natural. O resto do mundo vejo-o sendo-lhe exterior; no Alentejo, a identidade é intrínseca e em alta voz. Grito-me.

E quando chego em tua casa vou assim, alentejanamente repleta. E o nosso amplexo é o abraço da terra que a si mesma se devolve. Um compasso de descanso. 

sábado, 3 de junho de 2017

Almada Negreiros (1893-1970) – uma maneira de ser Moderno

Até 5 de Junho, o museu Gulbenkian expõe a obra de Almada Negreiros, dos primeiros aos últimos trabalhos de pintura e desenho, percorrendo todas as fases da sua criatividade. E é exposição que não envergonha ninguém e pode mesmo emparceirar com outras que andam pelo mundo ou se visitam em museus estrangeiros.  A Gulbenkian está, mais uma vez, de parabéns.
Convém saber que Almada Negreiros era cheio de nervosismo criativo e não foi apenas um pintor modernista. Este homem de sete ofícios foi poeta, dramaturgo, escritor de boa prosa, conferencista e até bailarino (pelo menos durante um ano integrou o grupo de bailado  de Helena de Castelo Melhor). Um Artista enorme e  polifacetado. Há quem o considere genial.
É na qualidade de pintor-vitralista que  o Alentejo dele tem obra. Falamos do vitral da Capela de S. Gabriel no lugar de Marconi em Vendas Novas. Foi em 1951 que concebeu e desenhou, no seu traço inconfundível, o vitral que representa a Anunciação, encontro da Virgem com o arcanjo S. Gabriel - que deu nome à capela - a anunciar-lhe que ia ser mãe. E o vitral é lindo em todas as horas, mas o amanhecer e a tardinha arredondam-lhe a beleza  por efeito dos raios solares que, segundo consta, Almada veio estudar in loco. Uma formusura, o nosso vitral. E é como se um pedacinho de Almada nos pertença, que somos os únicos alentejanos a ter o vôo breve das suas mãos, um soslaio da sua mente.
Mas não é apenas por razões deste calibre que se  deve visitar a exposição da Gulbenkian ( e, se possível, a capela alentejana tão ao abandono). Mas também porque é preciso cultivar os olhos, atentar nas coisas belas que o homem cria e tanto desconhecemos. Um povo sem arte é um povo menor, falta-lhe dimensão. Apreciemos os artistas, a sua obra mostra o melhor do espírito português.
Podem começar pelo exterior, que a Gulbenkian é uma fundação envolta em jardins que são cetim a rodear a bela. E tudo isto no meio de Lisboa.  Vá, digam lá que não apetece tirar um par de horas e dar um passeio nos jardins da Gulbenkian, encanto natural projectado por Gonçalo Ribeiro Telles. Há por lá tanta árvore abençoada, tanto recanto acolhedor, e um tal cheiro a natureza viva que deambulamos prazenteiros... e o mais descobre cada um, que o efeito surpresa tem muita força. E eu vinha falar da exposição do Almada. Ah, pois. Há que voltar ao Almada.
Almada Negreiros é muito conhecido no mundo das letras pelo Manifesto anti Dantas (morra o Dantas, morra! Pim!), mas hoje não há tempo para falar da mordacidade ímpar do Almada e da quezília com Júlio Dantas. Hoje, brilha o pintor. Deixem-se ir, entrem no Museu da Gulbenkian, comprem o bilhete que nem é caro e disponham de mais uma hora ou duas só para apreciar o Almada, a alma dele (e a nossa) no papel, ali à mão, no que desenhou e pintou. Vão. Vale a pena percorrer espaços iluminados por tanto quadro e desenho. Aquele homem tinha asas nos dedos e a sua obra põe-nos a nós de bem com os artistas. É certo, era um protegido do regime. Mas não é com olhos políticos que se olha a obra de um pintor. Usam-se os olhos de gostar de arte e ser português, os  olhos de ver a eternidade que mora em cada homem. Que essa, podem crer, está em toda a mostra da exposição. Ali brilham quadros soberbos a par de cartazes de revista, desenhos que fez para alfaiatarias de renome, murais destinados a hotéis. E, em tudo que pôs a mão, a beleza irradia.
Lá está, ocupando toda uma parede, o extraordinário “retrato” que Almada pintou de Fernando Pessoa. Aquela enorme e hipnótica geometria de tons quentes a alternar com os sombrios e negros. E, no centro, o Pessoa tímido, o Pessoa anguloso e recatado e como que surpreendido a meio da escrita, olhos míopes por detrás das lentes, pássaros medrosos prontos à fuga. A um canto da mesa, a revista Orpheu. E juro que a alma fraqueja e ajoelha perante aquele quadro que é Grande e não apenas em centímetros. E, calculem vocês, Almada Negreiros veio a morrer no hospital e no quarto onde Fernando Pessoa se finou. E depois ainda dizem que não há coincidências!

Vá, vão ver  o Almada. Façam esse favor aos olhos e ao espírito (se quiserem, alimentam também o corpo que têm lá por onde). O Almada, assim posto na Gulbenkian, faz bem a tudo.