segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sopro

Olívia

            Bem sei que hoje não tens tempo e és bebé. Que os mais próximos, pelo menos esses, te vão abraçar e dar parabéns. E nem sabes quanto desejo que assim seja.
            Quem me dera poder fazer-te um bolo com velas. Um bolo suave, a destoar daquele em que a mana se enganou na receita e ficou dulcíssimo, as senhoras todas finas e mundanas (outro mundo, outro mundo) elogiando por bem parecer, pires xpto na mão. E eu sabendo que não, mas fingindo também. Far-te-ia (ó estranheza de conjugação) um bolo comum, sem extraordinários. Só por gosto de fazê-lo. Contente de ti que gostarias ao menos da ideia. Porque és pré diabética e o fígado, e mais mil e um motivos que encontras para te furtares aos doces que nem aprecias; e também por teres um bocadinho a mania das doenças, sua hipocondríaca disfarçada:). Ainda bem que não te perdes a googlar a lista completa de maleitas com mais os adereços. Endoidavas de vez.
Mas repara, a ideia de haver em alguém uma alegria de que somos causa, é prazer semelhante a quando sobes com dificuldade uma rua e lá no cimo verificas que o resto do caminho é descendente. Suspiras de alívio e satisfação. Hoje, és a minha rua a descer.
Olha, também podia fazer-te uma diáfana massinha de peixe (mas tinha menos piada e deslocava). Ou, quem sabe, não preferias a sopa de peixe à alentejana, um caldo de peixe com tomate e sopas migadas no prato. Com o teu amor pelo pão eras bem capaz de preferir o último. E escusas de negar, bem sei que nos restaurantes usas de contenção para não o atacares com vigor. Há pormenores que fixo sem querer, queres o quê?!. Mas pronto, deixemos o cardápio em paz. Fica só o bolo sobre a mesa e pronto. E depois apagas as velas com as crianças. É um dever teres crianças por perto; não há bolo de anos que valha a pena sem crianças. Que é para acenderes as velas n vezes. E elas apagam à vez, agora sou eu, agora eu, tu já foste, chega-te para lá se faz favor, eu é que fico aqui em frente do bolo. Portanto, minha doce amiga, junta vizinhos, primitos pequenos de terceira ou quarta geração, não importa quem, mas crianças.  Porque a vista dos bolos de aniversário insufla-lhes as bochechas e cantam que se desunham. Nada a fazer, são exuberância necessária ao teu dia.  
E parabéns por mais um ano. Aproveito o momento e saio enquanto o coro deles entoa e só as velas brilham no escuro. Na verdade,  mercê das circunstâncias e de nós duas, não chego a fazer-te falta.  No entanto, como outros que te rodeiam, estou sem estar.

Um beijinho doce e algum génio para mais um ano difícil

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Teclas Sem Rumo Certo

O mundo não anda bem, evidência que se apercebe sem arte ou complexidade. Está. O mal do mundo implantou e vive um pouco como aqueles mamarrachos que estragam a paisagem e só vistos de longe causam menor dano; próximos, são puro mau gosto. Estão. Isto porque, em bom português, o que está nem sempre é. Pode ser. Ou não. Muito embora, em alguns idiomas, o verbo ser tenha dupla face e seja também verbo estar. Dois em um. Para nós, portugueses,  uma coisa é uma coisa e ela apenas. Ponto final. 
Contudo, será possível ser sem estar e estar sem ser?! Vamos por partes. Se eu for um sujeito dado à experiência e ligado ao que é físico e mensurável, se chamo ser ao que posso agarrar, puxar, empurrar de alguma sorte, direi que tudo que está, também é; e que é impossível estar e não ser (quem uniu os dois verbos linguísticamente, era decerto experimentalista).  Mas então para que foram os portugueses – e decerto outros povos – cindir o ser do estar. Seremos povo muito dado à meditação e filosofice. Pois, nem por isso. Percorra-se uma história da filosofia. Não há um único filósofo português (cuidado para não se inferir que não reflectimos e somos uns cabeças de vento; não é isso). É um bocadinho triste não termos um nome a soar na história do pensamento filosófico. Mas pronto, somos pobres, temos de trabalhar, damos uma no cravo e outra na ferradura e a reflexão é exigente e descompadece destas misérias. Que, não esquecer, a filosofia  nasceu do ócio. É isso mesmo que estão pensando, é filha do papo para o ar, do trabalho escravo, da subsistência assegurada. E, com o tanto que aquela gente escreveu e pensou, e de forma elaborada se propôs a entender o mundo – difícil e impenetrável a muita gente –, ainda por cima fazendo sentido, o que é deveras admirável e original, pois, dizia eu, não foi decerto a aplanar tábuas de navio ou a passar fome e a morrer embarcados a intervalos sem marcação, que filosofaram. Meus senhores, estes portugueses não tinham tempo nem requisitos para tal função. Se nem sabiam ler. Dir-me-ão que houve um filósofo que nada escreveu. Ora, não escreveu, mas sabia fazê-lo; além disso, tinha um secretário de qualidade visto que tanto sabemos do seu pensamento e da forma como discorria e ele mesmo nem uma letra redonda deixou. Podem redarguir, ah, e os letrados, a finura dos nossos gentis homens?! Desculpem, desculpem. Já sei, houve um rei poeta logo na primeira dinastia. Casado com uma santa. Tenho para mim que fez versos por isso, as santas podem ser maçadoras como esposas, uns madrigais sempre amenizam a aura de santidade e desvinculam da catequese; além disso, regaços de rosas, é ponto assente, avivam a poiésis. E cantigas de amigo, e isso. Ó meus amigos (sem cantiga), a poesia não é o espírito filosófico. São distintas formas de entender o mundo. E poetas, ó senhores, poetas nós somos quase desde o berço da nacionalidade como mostra a história do rei lavrador cujo, decerto, nunca pegou na enxada. E só não foi logo de berço porque não consta que D. Afonso Henriques tecesse madrigais à moirama ou a D. Mafalda que muitos dizem ser Matilde e até prefiro; aquilo era um mancebo que se enfurecia de tudo e nada e muito dado à matança de castelhanos e infiéis (se lhe batesse a bolha até os fiéis marchavam). É ponto assente, apesar dele, somos poetas sem evasiva. No mais humilde português saltitam versos e rimas (excepto no meu pai e noutros seres masculinos e femininos que saem ao primeiro Afonso da História). E portanto. Hoje há pretensões a filósofo de nome próprio, com carteira montada. Pois há. Mas, desculpem, José Gil, Eduardo Lourenço, Manuel Antunes e mais uns sábios que não recordo. Ainda não me convenceram que o século XX empurrou os portugueses para a congeminação filosófica. São pensadores, sim. Professores e estudiosos de filosofia, também. Filósofos, da mesma natureza dos alguns que conheço de outros tempos, isso não são. 
Pergunto-me se terá sido por materialismo puro que distinguimos os dois verbos, ser e estar. Ou se antes somos muito do talvez e da simultaneidade de ser e não ser. Ora, sei lá. Eu vim aqui para falar da República e do dia 5 de Outubro tão bem renascido que parece flor desabrochada (lá está a minha veia de poeta de meia tigela a fazer das suas). Vinha contar que estive a observar um panfleto daquele tempo em que a República-mulher aparece desnuda e forte, um autêntico colosso (diria que meia masculina apesar das  fêmeas evidências). Por estas razões, e por outras que não digo, se vê que só pode ter sido um homem a conceber tal figura.  Pois. Era mesmo sobre a República que vinha postar. Mas os meus dedos alienados por gorda pausa, agora fogem às ideias, encaracolam palavras acima e deitam o assunto às urtigas. Ébrios, é o que é. Escrevem sozinhos, pois.  Pobre de mim que não sou nem parente afastada de Lobo Antunes, aquele cuja mão escreve sozinha e de forma tão única dela, que para mim dava-lhe já a imortalidade (à mão) – consta que ele passeia enquanto ela trabalha; na volta, ainda se torna ocioso e põe-se para aí a filosofar. 
E portanto, olha, saem-me só parvidades.

Meus senhores, fica a imagem. Aquela. A da República sonhada: invencível e aguerrida. Por vezes, penso que se ausenta e não está. Mas sonho que é.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

À Descoberta

Não sei se as coisas mudam de acordo com os espaços que ocupam, mas talvez  a mudança nos dê a mão a nós e sejamos uns aqui e outros acoli. Nada de apôr ao mundo o poder que não tem. Coisas são coisas. Estão. E a beleza do quotidiano depende de um sujeito para existir, ele é a possível variação. Quase pueril, o belo vive-nos num raio de sol, na pena que a brisa levanta, na poeira nebulosa que o vento arrasta em remoinho, na pressa que agita braços e tranborda do corpo, evitando o passo dos velhos que hesita vagares e palpa chão.
            Contudo, há males que vêm por bem. São males convertidos ao outro lado, uma espécie de cristãos novos do nosso sentir. Foi assim no dia em que resolvi visitar o, para mim incógnito, Palácio da Ajuda. Que, com a minha pontaria e falta de tudo (não apenas falta de sorte), estava encerrado. E portanto. Visitei, quase em frente,  o Jardim Botânico, o mais antigo jardim de Lisboa. Data do tempo em que D. José, depois do terramoto, por ali mandou edificar, em madeira, a Real Tenda. E para lá se mudou, duvidoso de edifícios em alvenaria. É pois um jardim lindo e velho. Cheinho de artroses apesar da reabilitação. Onde os nossos reis e rainhas passearam devaneios e inquietações e olharam o Tejo sabe Deus com que olhos. Que acrescentaram de espécies exóticas e Junot saqueou sem dó. Que, provavelmente, os lisboetas olvidam, na febre de natas de Belém e Jerónimos e Torre de Descobrimentos e demais história de peso. E não apenas eles. Que o encontrei quase sozinho ainda que o curso de agronomia por ali faça das suas. Deambulei entre árvores centenárias de temíveis raízes egocêntricas, raízes fantásticas e denodadas que partem bancos de pedra e não se sabe se sustentam troncos e copa, se lutam contra eles. Em tudo, o mesmo se repete: com a idade, as raízes crescem, invadem, e o seu vigor ameaça a realidade aérea. Observei os efeitos do tempo em troncos esventrados, que sobrevivem com auxílio, bengalas de metal a endireitá-los, que a coluna vertebral das árvores também sofre. São árvores em fim de ciclo. E a gente passa com respeito por tão longa vida. Continuam como sempre: quietas, paradas, sujeitas às estações. A algumas o tempo esgarnou hastes e tronco, a outras encaneceu. Mas olham ainda a paisagem, contemplam de alto a beleza do Tejo, embebem nos barcos de brincar que ali vogam. Descanso num banco inundado por retalhos de luz que espreita em intervalos de folhedo. E creio que sou feliz. Sou feliz pelos braços soalhentos e olhos fixos no longínquo azul a colar no céu, pelo quase silêncio e por nada me ser exigido, imersa no consentimento de me deixar tomar pelo agora, levada por doce insinuação de sol e claridade. Flutuo. Olho por dentro as orquídeas das estufas que espreitei lá atrás. Lindas e únicas. Espécies vivazes, mas circunscritas. Vizinhas umas das outras.  Perguntei, achas que são felizes?, e ela, não sei. Pergunta retórica, sei a resposta. Nenhuma flor é feliz em cativeiro, sem o alimento dos olhos de outrém a catalogar. A indefinida existência de flor  é vaguidão.

Não sei o que pensaram D. José ou o senhor Marquês de Pombal ao construir este jardim. Mas sei, de certeza, o que sinto a passear dentro dele, a desvendá-lo em princípio de tarde clara, a inscrevê-lo e inscrever-me por surpresa e maravilha. Nas estufas reais e gradeadas, as orquídeas. Sem visitas. Flores lindas e máximas. Preferência de D. Luís. Fixas em retintas cores. Carnudas e arqueadas. Reunidas. Jamais vi flores de tal tristura.

domingo, 3 de setembro de 2017

Parque Eduardo VII e Eu

Defendo, acima de tudo, o prazer das pequenas coisas. Em primeiro lugar porque as grandes não me fazem parte do caminho. Em segundo, tenho em pouco apreço infelicidade e desamor sistemáticos. Claro que na viagem me surgem buracos negros, poços de ar, tempestades, o diabo a sete que, por vezes, me parece setenta.  E não, não julgo que sejam todos produto do acaso. Sei bem que muito contratempo vem de mim e por mim. Bom,  que é como quem diz, pior. Nesta linha, as minhas fantasias nada têm de extraordinário. Não são, infeliz e felizmente, de natureza erótico-sexual. Digo infelizmente porque a sua satisfação ia dar-me um prazer inédito e lupanar; e felizmente porque tal me exigia outra pessoa que, neste ambíguo, os prazeres solitários não são bem a minha praia; ora tudo que exige outros, acresce em dificuldade. E, portanto, nem sei se é pela razão de felizmente, se só porque sim, são fantasias  bem comezinhas. Mas não faço por menos: tomo-as por vitórias. Para que seja isto coisa entendível, conto  uma desde a origem.
Na casa dos vinte, eu não era nem um pouco inédita (ainda não sou). Como tanta gente apressada que enchia comboios e barcos, vivia na margem sul e estudava em Lisboa. À ida, os barcos atulhavam e sentia-se no ar um burburinho de vida retemperada pela noite; no sentido inverso, traziam conversas ciciadas e silêncios, bocejos, cansaço sem rédea e olhos baços sumidos em covas e papos. Os próprios pareciam extenuados, chiavam em queixa demorada e havia um desmazelo poluente que se espalhava pelos bancos adormentados e engolia o oxigénio do ar.  Por mais que arenguem os noctívagos, a noite existe, sobretudo, para o descanso do mundo. Não apenas das pessoas. De tudo que existe.
Nesse tempo, uma das minhas dilectas amigas estudava e vivia de empréstimo em casa de uma madrinha, em rua que não sei, muito perto do Parque Eduardo VII. Aos fins de semana, seguíamos ambas para a outra margem. O meu conhecimento com este parque de Lisboa remonta a essa época. Jantávamos na cantina da faculdade onde não se pediam cartões e rumávamos ao destino, com passagem por casa da madrinha para arrotearmos o saco de fim de semana. A atalhar caminho, atravessávamos pelo meio do Parque e estávamos no Marquês em três tempos. Suponho que, uma vez ou outra o tenha visto antes. Talvez por alturas de greve no metro, mas passei sem lhe ligar meia, toda afadigada com as horas, o meu tempo controladíssimo, a greve a arruinar-me o esquema. Ainda hoje não consigo saber as ruas que o percorrem, mas, pitosga e desorientada quanto baste, nocturnamente, deixava-me guiar pela amizade. Seguia ao sabor da sua sabedoria. Via umas sombras por lá e lembro-me de pensar que, com ruas tão iluminadas e bonitas logo ali abaixo, não se percebia para que andavam as pessoas a passear no escuro (não seguiam como nós, às pressas). Aquilo era mesmo um bocado sombrio, ouvia resmalhar atrás das moitas, mas pensava que fossem coelhos ou passarada. Passava o tempo a levantar os pés temerosa de covas e cabeços que nem havia e ríamos ambas feitas tontas. Havia gente que nos seguia, mas sempre pensei que o caminho não era só nosso e portanto até me sentia acompanhada. Até que certa vez um senhor que se demorava por ali, nos interpelou ao escuro e eu como sempre a pensar que queria informações, atrapalhada, agora pergunta por uma rua e eu não sei qual é. Quis saber o que andávamos a fazer àquela hora no parque. E eu, ela mora ali num prédio daquele lado e o caminho fica mais perto assim. Ele, isto é muito perigoso para duas meninas como vocês. É melhor descerem a rua por ali ou por ali - o braço a apontar as duas ruas paralelas -, não passem mais por aqui. E nós agradecemos muito, eu para a minha amiga, tu achas que há aqui ladrões ou assim? Mas a gente não tem dinheiro, o que é que nos podiam roubar, de certeza não queriam o passe... Mas não voltámos a passar por lá.

Um dia, fomos as duas à Feira do Livro. Eu e ela. Diurnas, diáfanas e sem tostão. Gostei do Parque até mais não poder que livros só vê-los. E nasceu a minha fantasia: deitar-me naquela relva. Todos os anos a olhava a pensar, “é este ano”. Olhava e havia lá gente solitária e acompanhada, deitada, sentada, a descansar,  conversar, namorar, ler. Pensava, “é só ir para lá, ninguém me nota”. Mas não conseguia. Anos e anos disto. Muitos. Muitíssimos. Dezenas. Passava de autocarro ou de carro e um enlevo no relvado, tenho de me deitar ali, tenho de lá estar nem que seja só uns momentos. Chegava outra Feira do Livro, tanta gente a flanar, ambiente propício, era só aproveitar. E nada. Saía a constatar num desalento, “ainda não foi desta”, os jacarandás, “aselha! Que é que custa ires lá para dentro e deitares-te, hoje é que era”. Até que houve um dia em que, hélas!, consegui. Entrei, andei lá por dentro como quem caminha sobre nuvens, deitei-me na relva, o volume de poesia de Ruy Belo sob a cabeça. E nunca o céu me pareceu tão azul nem o cheiro de relva tão seráfico. Não se descreve a frescura da terra sob o corpo um friozinho agradável a entranhar roupa dentro, a chegar-me à pele antes desapercebida; e o cheiro, a sensação do azul sobre mim, a coragem de estar ali. Foi um momento supremo. Coisa irrepetível. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

História Esquisita com Beldroega

Bonito. Ali estava eu acocorada e de braço no ar. Eu e um homem que mal via contra o sol (ai os óculos, ai o chapéu). Baixei o braço. Levantei-me. Juro que ele não buliu, figura sólida e consistente. Confirmei, não era fantasma ou morto-vivo. Olhei franzidamente o rosto escurecido contra a claridade, traços sombrios e  indistintos. Usava óculos de sol, coisa que aos mortos não lembra se lhes dá para aparecer.  Puxei da minha tonalidade mais saturada, aquela que a minha avó apelidava de “desimpaciente” e respondi, não tenho lume, não fumo. Não se moveu. E eu, mau Maria, não querem lá ver que não me respeita a idade e nem o lugar? Acrescentei, procure noutro sítio. Então ele mudou de lugar e, à claridade alentejana vi-lhe o rosto. Em jeito afável, sorriso de olhos longínquos, invectivou quase doce, não me conheces, mas conheci-te mal te pus os olhos, carregavas um balde com água. E eu já a abraçá-lo numa alegria também temperada de antigo, cheia de gregas e colchetes pegadiços, Octávio!...que é feito de ti? Há quantos anos...Ele a explicar-se, vivo por aqui, se vou para o outro lado, atravesso pelo cemitério. É mais perto, não tem ninguém e despacho-me num instante. – e a escorrer troça bem humorada, aquilo do lume era a brincar, só para me reparares; há muito que não fumo.
Esqueceu a pressa. Esqueci o sol na moleirinha e a beldroega. Esquecemos o lugar. Num cemitério cheio de sol, atardámos à conversa de muito ano, pergunta aqui, recorda ali, até ao toque da sineta. Era a hora de almoço. Despedimo-nos afogueados e suarentos, com promessas de reencontro, um café, um lanche em lugar fresco, só para desdobrar assunto. Meti-lhe no no bolso o meu número de telemóvel, enfiei os apetrechos no saco, a beldroega maneta a olhar-me intempestiva, tufada de rancores. E rumou cada um para seu lado. No regresso,  ainda imersa em novidade e agradada do acaso, notei o quanto nos tínhamos perdido em memórias sem assomo de presente. Contudo, ele levara o meu contacto e tinha-me parecido contente com o encontro; havia tempo para.
Mas a vida enrola-se-nos à cintura e exige. Entrei em casa e os chamados instantes da realidade mais a vizinha que uma ambulância levou já sem vida, varreram-me o encontro feliz. Só voltei a lembrá-lo quando, à tardinha, em regurgitação de cansaços, visitei minha irmã. Estávamos à mesa – é à volta de mesa posta e redondas conversas por entre a mastigação que esmiuçamos novidades – e contávamos as pequenas bagatelas que desoprimem as mulheres. Minha irmã é prazeirosa de ouvir, conta a cores e faz de tudo uma história. Tenho certeza que aquilo que tão bem encadeia, só é bonito e alegre por ser ela a contá-lo. Domina a suprema arte da oralidade. Esguia as palavras, prolonga uns sons, encurta outros, e dá, a cada, um novo fôlego.  Porém, a mente é sinuoso ruminante; descontraída, compraz-se a trazer à consciência o que antes esqueceu. Por entre o conversedo, trouxe-me o Octávio. E, pela primeira vez, reparei na impressão agradável que me deixara. Virei-me para ela, não adivinhas quem encontrei hoje....e ela toda olhos em ponto de interrogação, quem foi. E eu, o Octávio, aquele garoto que vivia na nossa rua quando começámos os estudos, lembras-te? Ela pasma, olhos em bico que é como quem diz redondos de admiração. E torno, grande surpresa, ham, nem perguntas como está. Ela a fixar-me de mão estendida e faca paralisada a meio de uma fatia de bolo, esse Octávio não foi de certeza, o rapaz morreu vai para mais de dez anos. Eu, não pode ser, pois se o vi, dei-lhe o meu número de telemóvel e tudo. Ela séria, deixa-te dessas coisas, o rapaz morreu, então não te recordas? E não me recordava. E também tinha certeza, era ele.  Mas a faca ainda estava parada a meio do corte e disfarcei, tens razão, deve ser confusão, ele disse Octávio e lembrei-me desse, mas deve ser um colega da secundária. Não faças caso. E a faca desceu suave até ao breve estalido de bater no prato de loiça e a fatia já separada, a querer tombar. E eu para dentro, atónita até ao mais fundo de mim, que grande imbróglio.
É noite fechada. Estou em casa. Penso no Octávio. Nele. O único que conheço ou conheci, que não é nome muito usual. Bem sei com quem conversei e sobre que assuntos. Era ele inteiro, o que estudou comigo, morou na minha rua e muito livro trocámos até à sua mudança de residência e de cidade. Não há engano possível, era ele. Mas confirmei com amigos, eles ao telefone, morreu mesmo, é verdade, sim. Soube que está enterrado naquele cemitério. O mais incrível é que não me assusta a certeza de ter estado à conversa com um morto.  Contudo, não sei se volte que os sardões já me afastavam qb, entrava a arrastar os pés só para lhes dar azo à fuga.

Não pode ser, não apanhei sol a mais. Eu não o inventei. Ele levou mesmo o meu número de telemóvel, tenho meia folha da agenda rasgada a comprovar (e a beldroega maneta, que assistiu a tudo). Um dia destes, quem sabe, encontramo-nos com um refresco na frente. É um morto? Ora, a mim tanto se me dá. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

História Esquisita com Beldroega

O cemitério português é uma chatice cheia de pedras e jarras pesadíssimas onde nascem flores plásticas. Não aprecio cemitérios. Como diz um frade conhecido, não mora lá ninguém; ele não tem lá que fazer, eu, por acaso, tenho. E hoje calhou ir a um. Como os mais, sem vivalma. Era eu e o bem aventurado sol que, decerto por me ver só, quis acompanhar. E as minhas tarefas domésticas. Sim, aquelas mesmas de limpar pó, lavar, varrer, arrancar ervas daninhas que medram à velocidade da luz em lugares adubados. E não garanto, mas quase aposto que os sardões amarelos e verdes que se assustam comigo e eu com eles ainda lá passeiam pelos subterrâneos. Haja Deus que hoje nem havia calor em demasia e não se quedaram de olhinhos desconfiados a olhar-me de lado, que é só como sabem olhar, e o meu coração logo na garganta que nem sei como é que ainda consigo dizer ai e saltar para trás com pernas de mola enquanto eles somem numa repelência que me dispõe ao vómito. E posto que sózinha e avoada, esqueci o chapéu e tive de aguentar-me à soalheira (solinho não amofines que bem sabes a falta que me fazes e o agrado em que te envolvo). Eu lavando e lavando as moradias empedradas (coitadinhos dos mortos soterrados lá em baixo) e a pensar nos meus chapéus tão pipis, que me emprestam um certo quê e sou pata que fica menos pata. Pronto, é isso, o cenário é de valor negativo e penso em coisas positivas, como uso antes de adormecer. Entretanto, também esqueci o elástico de prender o cabelo e lá andei no meio do mato, pouco vendo de pedras e jarras. Quer dizer que o franjado me esbateu os rigores da compaixão. E quanto o meu chapéu de gordo laço preto e aba derrubada me faria outra! sombreava-me o olhar cujo me faz muita falta, mas  nada perde em não ser visto; e aposto que as maçãs do rosto iam parecer geradas no glamour da Paramount ou por aí, e em tudo opostas ao jeito de mexicana pobre e sem cintura  que me cabe (falando verdade, não há chapéu que renda na cintura). Pois estava eu nestes preparos e encandeada de quase tudo branco que os óculos de sol também em casa (cabeça, cabeça, o Variações tinha razão), dizia eu que me entretinha a esquartejar, braço a braço,  uma beldroega do tamanho de um naperon, a faca uma lástima no corte, quando oiço uma voz mesmo ao meu ladinho,
 - tem lume?
Palavra que nem liguei. Sou um bocado dada a falar sozinha e inventar coisas; por vezes oiço passos e não vem ninguém; sinto os assentos das cadeiras a ir abaixo por desporto; e outras bagatelas que não são portas a ranger nem móveis a resmalhar. E, convenhamos, ninguém vem para o cemitério pedir lume, há muito lugar para isso neste mundo de Deus. Portanto, dei pressa ao sadismo sobre a beldroega advertindo-me em pensamento, estás a alucinar, tu tem cuidado com o sol que te faz mal à moleirinha. A congratular-me, vá lá que a linfa é pouco vistosa. Mas a voz repetiu,
- tem lume?
E havia uma sombra na pedra. Alto lá que isto é a sério, pensei, a beldroega presa por um braço que nem garota mal comportada, o redondo do naperon de antes num breve triângulo de queijo  que sou desalmada a tripudiar intentos da natureza. Investiguei de cabeça ao alto e a voz tornou,

- só pedi lume, não precisa apontar-me a faca. 

domingo, 27 de agosto de 2017

Imagens e Percepções

No verão, as cidades tufam suas praças como roda de saia. Umas exibem-nas em plissado cetinoso, outras franzem singelas, e as mais estendem-se em metros e metros  de esplendor, projecto de alta arquitectura. As praças das cidades falam por elas. E são um Terreiro do Paço pequeno e airoso, com Tejo ao fundo; um franzido agradável que cai bem e tem história, a gente a imaginar a defenestração de um Miguel de mau presságio que se estatela no chão.
Na Polónia, como em países que lhe são próximos, edifícios e praças são outros, mais coloridos e demorados no pormenor. Semeados de flores que amiudam aqui e ali em ninhada de arco íris. Prendemo-nos ao triângulo das frontarias, à cor conjugada das paredes, à beleza inclinada e pródiga dos telhados. E a mente voa até às mãos de labor. As mãos que criaram a efeméride que perdura exposta aos elementos, aqui uma estátua, ali uma janela, além uma sugestão de onda. Nestes edifícios, os telhados excedem-se, não são apenas a tampa da casa. Existem por si e não se restringem à função de fechamento e parte da casa que recebe o que as nuvens deixam cair. Por cá, há quem meça o valor de uma casa pelo número de divisões; mas talvez nesta parte da Europa ele dependa da ornamentação e riqueza dos telhados. É ver o cuidado que põem nos frisos e ornamentos, ele são esculturas, janelas, torres e zimbórios, boleados em degrau. É como se as casas enlouqueçam pelo telhado. Erguem-se austeras e regulares, mas, chegadas lá acima, todas se envaidecem, perdem siso e contenção. Espanejam de lantejoulas, armam-se de importância e olham de alto (altura não lhes falta).
E há as praças vivíssimas, a regurgitar de gente: em fila, o negócio de carruagens e cobiçadas condutoras de rédea na mão e traje rigoroso, a sua delicadeza luzindo na elegância dos cavalos; os fazedores de bolas de sabão que manejam o arco e atraem a alegria de crianças saltadoras; os talentos de esquina que tentam a sorte, boné estendido; os vendedores de quiosque e suas matreirices de cordel; a estudante que, na sombra norte da praça, toca violino de olhos fechados, rabo de cavalo a acompanhar-lhe a paixão, o cetim do estojo clamando do solo, reparem-na, é uma artista. E ela empolgada e fora de órbita. Linda por todo o lado.

E à sombra das catedrais, no empedrado das ruas, nos caminhos dos parques, os turistas são mole em movimento, nariz no ar. Velhos e novos; herdeiros e deserdados; conhecedores ou simples curiosos. Enquanto isso, a finesse resguarda-se, abriga-se do sol e observa o espectáculo de outra esfera. Tem pose, sabe estar. Não sua em bica e despreza calores que enrubescem. Bebe sumos, talvez; refresca-se. Ou será um vodka gelado. A firmeza dos empregados desvia turistas de pé descalço e distraídos que assomem a recuar por uma foto. Não. Ali é chão sagrado. Tão perto da praça e da catedral. Tão junto ao Deus que amou todos por igual. E tão longe dos homens comuns e sua febre de vida. Passo e a atenção dos funcionários mede-me a pegada. Dali, miro a praça e apenas sinto o seu tumulto sonoro. Talvez, pela noitinha, haja uma orquestra vestida a preceito, afinada, famosa. Mas perderam para sempre aquele momento de magia poética, a vibração que serpenteava, desde os pés, pelo corpo jovem da violinista e se ouvia em repentes ternos e maviosos. Irreais.

domingo, 20 de agosto de 2017

Distintos e Plausíveis

Polónia. Florescente país de mulheres elásticas e serpentinas. Lugar de gente metida consigo e rodeada de amena vegetação de crianças, beleza eslava e diversa da latina onde mora um jeito cigano e palrador que estrebucha, resmunga, se rebela sem pejo. Polónia é terra de homens sem graça, rosto de bebé chorão que cresceu anómalo e não condiz. Os seus campos encompridam a lembrar a doçura da paisagem Toscana imbuída de verdes-veludo e fenos arrumados em cilindro. Falta o aprumo pretoriano dos ciprestes montado no redondo das colinas. Que, pelo chão, há idêntico amarelo campesino e simétrico. Ou não fosse a Polónia um país agrícola de campos rectos, lisos, com o viço da floresta em fundo. Expostos à luz, são beleza crua, expurgada  da suavidade poética que mão divina arredonda na Toscana, para se entreter de gosto a posicionar cada cipreste em seu lugar natural.

A poder de euros, o país acordou para a febre de estradas e evolve num rodopio de obras e filas de trânsito. E enquanto o meu pobre Portugal se consome e imola pelo fogo, as florestas polacas vestem-se de penumbra e refulgem no fresco mistério de gotas a desprender. Desde a raiz, cada árvore desafia o infinito. Nos caminhos sinuosos, um aconchego de folhas a sobrepôr cria um mundo de segredos e arreda o firmamento, o solo em teia de raízes. Ciosa, a floresta encerra o passante dentro de si e recebe-o no seu interior de clorofila e humidade. Isola-o. E prevalece.  Vibra nos pequenos sons, nas gotas que caem sobre o solo, na agitação ciciada dos ramos mais altos, no restolhar de animais que passam a escapulir-se dos pés. É a eclosão exudada da natureza sem projecto. Fertilidade de silêncio. Húmus que se respira. Transpiração odorífica que entontece. Peculiar, íntima. Ali, a nudez do homem ajoelha à liturgia de força sagrada e vegetal. Cede à voz da terra. E diminui ao seu tamanho. Sem basófia.  Ele e a terra originária. Ele, no imenso templo natural. Em clausura e liberdade.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Senhor António

Nos primeiros tempos não dei por ele. Transpunha a cancela a adiantar hipóteses, fixo num futuro de papéis, rememorando urgências telefónicas e post-it, minutos em desconto para um café. Confesso, não o via. Passaram meses até lhe notar a atenção. Rasa. Fluida. Creio que foram os olhos funcionais.  Ou tínhamos, em verdade,  de nos cruzar.
Naquele dia,  pretendia chegar com algum avanço a um encontro importante. Queria rever os pontos fundamentais da negociação e relembrar estratégias e pormenores. As informações sobre a gestão e personalidade de quem me aguardava corriam-me a bold na mente e sabia que o acordo entre ambas as partes dependia da transição entre a  exigência flexível e amigável e a imposição em trompe d’oeuil que cerceia amizades. Tinha sido escolhido por isso mesmo. Sem falsa modéstia, dominava essa arte de dar e retirar sem mão, parecendo que dava mais do que subtraia quando sucedia o inverso.  Claro que vendia o produto apoiado em cálculos e dados reaise transparentes,  mas escamoteava especificidades que os tornavam pesados e menos lucrativos. Esse era o ingrediente secretíssimo. Na vida empresarial, a transparência conquista-se, iça-se do fundo de água turva onde nasce o lucro. Enredado neste conciliábulo, só reparei na avaria da cancela quando, imediatamente antes de embater, o homem avançou, abriu manualmente, e regressou à cabine envidraçada. Irritei-me. Baixei o vidro na intenção de um ralhete. E dei com os olhos dele sem expressão, meros botões atentos e já acesos para o veículo que transitava atrás. Levantou-se. Imaginei que iria proceder a idêntico conjunto de movimentos. E desisti. Afinal, eu vinha distraído e ele executara a função em tempo útil, de modo a evitar colisão. Acelerei até ao meu lugar no estacionamento e quando entrei no elevador, já o esquecera.
A vida tem caminhos por onde seguimos atarantados e em corrida insana. Na mira dos pontos de chegada, não os reparamos, estão sem estar. Contudo, nada é tão aberto e disponível. Teremos de palmilhá-los. Ou não. Pode a morte apanhar-nos a meio, ou a um quarto. Notá-los é a única forma de os viver e sermos gratos. Os caminhos que a vida – quiçá um deus – nos deu. Chão dos nossos passos. Mas isto era assunto que, então, não me ocorria. Caminhava como os jericos, a olhar em frente. Os objectivos como degraus, nem sequer metas ou zonas de verde respiração. O caminho existia-me em forma de subjecividade radical: dizia respeito à velocidade e tipo de passada, ao número de degraus transpostos. Competia comigo mesmo.
Nesse fim de tarde, saí a pensar numa bebida. Fora bem sucedido. No dia seguinte, iniciava outro desafio.  Apetecia-me fechar o dia. Adormecer no sucesso. Pensei vagamente que um brinde não ficaria mal, mas não havia com quem, o mundo de colegas laborais era pouco atreito a celebrar vitórias de outrém e a namorada estava longe e em trabalho. Tomaram-me de assalto as suas pernas a sairem da t-shirt, os pés descalços, mamilos a enrugar o algodão, e alaguei em ternura.  Concentrei-me na escolha do lugar, o sorriso meio irónico e cabelos de rapazinho maroto a persistirem.  Afastei-lhe a imagem e, enquanto atravessava a rua, fitei a mancha escura de árvores copadas. Gostava daquele lugar fora do bulício. Entrei.  Uma luz discreta iluminava o interior. Sentei-me nos fundos, alarguei o nó da gravata e pedi. A meio da garrafa requisitei outro cálice e chamei o empregado, importa-se de brindar comigo? Ele trouxe um copo, largou o tabuleiro sobre a mesa e encheu os dois. Quando o ergueu li-lhe o nome na chapinha de metal: António. Olhei-o vagamente, À nossa. Bebeu de um trago e, sem palavras, voltou à sua lida. Não agradeceu. Cumprido o desejo do cliente, retomou a actividade. Alguma coisa nele me parecera familiar, mas julguei tolice. A essa altura já o mundo me parecia risonho e eu era leve. E desliguei.
Passados dias, o funcionário da entrada pede para falar comigo. Tratamos do assunto, olho a chapinha do nome e, António. Era ele. Os mesmos olhos sem expressão, corpo de nem orgulho nem submissão, solicitude comprada. Quando à noitinha fui confirmar, encontrei-o no pub. Um desempenho perfeito e maquinal.
Intriguei com o homem. A empresa não pagava mal, o que o levaria a deter dois empregos?! Investiguei com o dono do pub, mas conheciam-no apenas dali. Usava pontualidade inglesa, calado e sem amigos. Satisfazia em absoluto no trabalho. Quando o investiguei na empresa verifiquei que estava indicado como trabalhador de continuidade, não faltava e não existia registo de queixas.

Entretanto, comecei a passar a cancela com um aceno de cabeça que só os olhos dele pareciam notar. Se voltava ao bar, a resposta ao meu cumprimento não diferia de nenhuma outra. Continuávamos estranhos. Certa noite, não aguentei a curiosidade e esperei-o no fim de turno. Apareceu com um cãozito pela trela. Silenciosos ambos. A sentir-me um estorvo inquiri, na sua idade, dois empregos são castigo, se precisar de dinheiro...Olhou-me sério. Andou uns passos comigo e o cão ao lado. Sentia-me um inútil, a chave do carro a bater-me nos dedos, sem saber que fazer. Parou e sem se voltar murmurou a olhar o alcatrão, há tristezas tão grandes que perdemos o tino, deixamos de mandar em nós. Mas ainda reagimos a ordens. É por isso que tenho dois empregos. Olhe, sou como este cão. Só que não tenho dono. E afastou-se.

Paralelo

Encontrei-a entre aviões, tão perdida quanto eu num grande aeroporto. Duas mulheres em trânsito, idades e destinos diferentes. Era Inverno e um manso nevão aconchegava-se pelos hangares e pousava no dorso metálico dos aviões. Nessa noite, o aeroporto regurgitava de gente. Enxameava.  Gente retida a meio do percurso, crianças de colo e birra, um embaraço de malas junto às pernas, ou em ruidoso e arrastado cirandar.
Viajava sozinha e tentei afastar-me do ruído na mira de um canto sossegado onde pudesse dormir um pouco. Reparei nela quando juntava as malas. Era jovem e estava sentada no corredor em frente do meu, semblante contrariado. Imaginei que o jeito contrariado se devia ao incumprimento de horas e afazeres no ponto de chegada. As previsões eram catastróficas em relação a compromissos: os voos nocturnos tinham sido cancelados e na manhã seguinte, já sem queda de neve, a seriação das rotas fazia-se pelo atraso que detinham. Com sorte, o meu voo saía pela tardinha. Os hoteis do aeroporto estavam superlotados, não havia onde albergar toda a gente.
É sabido que aeroportos e aviões aproximam desconhecidos. Habita-os uma tal precariedade que normais pruridos se dissolvem. Ao fim de uns minutos de mutismo, eu e ela conversávamos como colegas de trabalho. No vaivem de descobertas e alguma afinidade, e porque nos desagradava a noite branca de corpo sentado, resolvemos abandonar o aeroporto e procurar quarto na cidade. Guardámos a bagagem maior e um taxi levou-nos ao hotel. Outros viajantes tinham tido o mesmo pensamento e o único quarto disponível  era um quadrado mediano atravessado por uma cama larga. Olhámo-nos rindo e dei-lhe a escolher entre o lado esquerdo e o direito. Dormir acompanhada era-me difícil e estranho, mas não havia escolha e o cansaço da viagem pesava-me no corpo. Enquanto a minha companheira retirava a maquilhagem no espelho do quarto tomei um duche rápido e enfiei-me na cama. Depois, fiquei a ouvir o som abafado do chuveiro por entre apreensões, e se ressono, e se não consigo adormecer e dou muitas voltas na cama, e se. Mas, ao invés do que pensava,  caí num sono profundo.
Sonhei com mãos suaves a soletrarem-me o corpo; sílabas paradas e repetidas até à exactidão do som, espaços que o desejo preenchia. Temia o desfazer do sonho. Queria ficar, permanecer nesse mundo de calor e companhia, prolongar o bem quimérico de me sentir amada e indefinida. E as mãos que. E infinitamente me amavam em cada arco e grinalda de dedos, o corpo a fugir-me, a fugir-me. Algum animal me enrouquecia na garganta e me fechava as palavras, as escondia e eu apenas um som de liberdade sem nexo por onde enfim respirava. E quando recuperei braços e mãos, senti-os a serem mansamente levados e deslizavam já na suavidade cálida da pele. Subi-lhe a cintura a medo e dúvida, dedos incrédulos  na elevação do peito de mamilos erectos...afastei-me de rompante, agora bem acordada. No horror de ser verdade desviei-me dela num misto de nojo e estupefacção. Com o meu corpo. Com ela. Connosco. Na mente, em néon, um e agora gigante. Tentei levantar-me e as pernas prendiam-se nos lençóis, não conseguia erguer-me.

Acordei quase a cair do banco, salva pela trincheira da bagagem. A mulher continuava na minha frente e olhava-me como quem vê bicho raro, uma expressão curiosa a vestir-lhe o semblante. Posso ter corado. Posso.  Alheia aos meus íntimos motivos, ela levantou-se e rumou ao destino. O tempo que nos aproximou também nos deu distância.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Limites

Ganhei  hábito de janela e olhares matinais quando me mudei para o apartamento lisboeta. Contudo, continuo sintonizado com o ritmo aldeão e emito sinais de vida aos primeiros alvores. Apesar dos meus cuidados, minha mulher rabiava que não dormia uma manhã em descanso. Tudo lhe perturbava o ouvido de tísica, a cozinha de pequeno almoço, a água corrente na casa de banho,  tosse,  passos de chinelo, o alvoroço do cão na porta de entrada a farejar-me os movimentos. Nesse tempo, a rua não me chamava.  Bastavam-me os ingredientes in(ternos). Havia um jeito de lar nos cheiros de cada canto e em cada coisa no lugar; uma certeza de gavetas; certo aconchego de ninho previdente. Entreabria a porta do escritório e, na mesinha, longe de indiscrição visitante, os filhos sorriam-nos desde a juventude; logo ao lado, todo arte fotográfica, o primeiro neto.  Um mundo que foi eterno até à estranheza de  não me apareceres estremunhada, mãos a algemar cabelos num elástico, voz pastosa, bom dia, amor. Abri só um pouco a persiana do quarto. Dormias. Contornei a cama, apanhei-te as mechas sobre a cara e acamei-as atrás do recorte da tua orelha de porcelana fina; e tu em modo de olhos fechados. Sussurrei no teu ouvido, preguiçosa. Mas não consegui acordar-te. Meu amor. Meu tão longo amor de curta vida. Diz-me quando em exacta colher me deixaste, em que minuto partiste, qual o momento em que a tua alma voou do meu braço abandonado no teu corpo.

E logo a casa se transformou. Desencantou dos cheiros vitais, ampliou de recantos sombrios alongando pelo espaço onde os meus passos ecoavam. Quando a almofada perdeu a forma da tua cabeça e o perfume deixou de cheirar a ti, vendi a casa e dei o cão ao vizinho pequeno, aquele que o beijava entre as orelhas e fazia dele cavalo. Foi assim que criei tempo para o vento na copa das árvores, os lulus passeados na manhãzinha por donas descompostas, rolos na cabeça e roupão, uma sofreguidão de vício a subir-lhes pelos dedos de nicotina. Envelheci, Amor. Árvore de raiz podre, não me aguentei ao teu balanço.  Talvez tenha acontecido na vez em que parei a meio da escadaria, uma moínha leve a rondar a perna esquerda. Ou, quem sabe, foi anterior e começou no teu desafio, vamos ver quem chega primeiro. E ganhaste-me logo no segundo lance de escada. Não sei precisar. Durmo do teu lado da cama que nunca te teve (durmo é eufemismo para as horas de posição horizontal). Tu sabes. Deito-me e a dor mostra-se. Persiste. Não é severa, antes um sinal de erro, máquina com anomalia.  Talvez na cabeça do fémur, que qualquer escadaria me maltrata e o terceiro andar sem elevador, um martírio. Não demove com repouso e recusa abrandamentos nocturnos.  Tiveste a sabedoria de abandonar o corpo na idade certa, que logo, logo, ele se tornaria incerto. Não sabes o desfalecer de tudo, a desimportância de rugas, meros vincos que nos desfiguram; os brancos que encanecem e avelhantam; a pele do corpo que sobra e pendura a cada dia. Não, essa metamorfose é resíduo. A mágoa é  não ser capaz acompanhar quem nos cerca. Querer ir e ter de ficar;  ter alma de experimentador e ficar a olhando por janelas reais e virtuais. Ser velho exige, em permanência, um reajuste no agir. Sempre a minguar.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Os Primos

Viajo às vezes com meus primos. Minha mãe parece confiante na sua mestria de guardadores de jovens casadoiras e mobiliza-se a encontrar-me indumentária que ajuste ao suposto acerto matrimonial. Meus primos,  solitário casal de meia idade, nem velhos nem novos, vivem regaladamente para si mesmos. Ou é assim que os julga minha mãe no seu inglório afã de queixas acerca da minha pessoa e da falta de jeito para encontrar a metadinha. Habituei-me pois a esse acerto de férias que a deixa esperançosa e livre para amigas e passeios. E parte contente depois da visita ao seu coronel que dorme tapadinho com a colcha de renda antiga na prateleira do jazigo onde, diz ela, eu a hei-de levar um dia sem pena ou paixão. O que não é verdade. Minha mãe é senhora tão avessa a costumes maternais que a sua suculenta alforria por certo me deixará saudade. Mercê desta espontaneidade que não herdei, conquistou meu sisudo pai, sempre temeroso de repentes tão prazeirosos como inoportunos, e que tanto o derretiam como irritavam. Contava que o seu riso alto na parada, de costas insolentes para os graduados, o prendera sem remédio. Quando eu nasci após nove meses em que maldisse a maternidade e nos arriscou quanto pôde, sentiu-se livre de encargos e tratou-me como brinquedo favorito que passava à empregada mal me desconfiava pessoa.
Ora meus primos, aqueles a quem minha mãe me entrega nas férias por julgá-los empenhados no meu futuro, ou seja, num casamento decente, levam-me consigo na mira da sua prodigalidade. Mais novos que ela, limitam-se a carregar-me sem outra obrigação. Eu agradeço a liberdade e pouco saio sem eles. Assim conheci lugares e hotéis, sem experiência das amizades românticas para que ia talhada. Em compensação, sobra-me tempo e disposição para estudar os dois.
Há nos casais sem filhos uma união que minha mãe não supõe e eu experimento sem evasivas. Ela nomeia-os pais temporários. E eles não saem do casulo. O casulo de meus primos é circular, sem ângulos e acutângulos. Tudo gira em volta de prima Fininha, Josefina de seu nome. Ela marca a hora de sair, de ouvir música, de falar. Antes do seu pestanejar matinal, a casa é um sepulcro. Primo Gustavo, sempre tão quedo, todo se empertiga ao menor som, cuidado que Fininha dorme. E fica na sala contígua ao quarto, cão de guarda ao recato de Fininha.  Ora minha prima acorda tarde e o seu humor trabalha a horas de sono. Se incontornáveis acasos nos levam a madrugar, Fininha exaspera, irrita, grita, amua. E bom é quando a nossa menina decide num repente, vou dormir. Enquanto Fininha dorme, pára tudo. Que ela sim, é a menina. Uma menina pequena. Mimada. Mandona. Minha mãe supondo que passeio nas alamedas com meus vestidos de arrasar e eu a usar silêncios matinais  para ler, pensar, escrever. E faço orelha mouca aos vestidos que confrangem, não saímos do cabide, para que viemos.
Se acaso Gustavo se levanta primeiro, surge na sala em bicos de pés e comunicamos um com o outro em secretismo tão inaudível que mais parecemos conspiradores. Se pudesse, faria campânula vazia do mundo exterior só para não perturbar a amada. Fininha não cozinha, só come. E come voraz, numa pressa que minha mãe estranha, parece que tem medo que a comida fuja, mastiga como um furão. Desconfio de minha mãe que nunca viu um furão nem sabe dos seus hábitos alimentares. No entanto, concordo, a prima é senhora de invulgar mastigação e parece sofrer  insaciável fome de séculos.
Nas férias (e desconfio que em outros tempos), primo Gustavo orbita-lhe os gostos mínimos e também os máximos. Ela que, se eu ousar uma compra criteriosa, me afirma criança aborrecida (trata-me assim) que a faz perder tempo,  entra e atarda-se em experimentação do que bem entende. Cá fora, primo Gustavo espera paciente e sem recriminar, contente da compra mesmo antes de a ter visto.
Na hora do jantar, Fininha recreia a cortar no facebook. Nos utilizadores. Nas fotos que por lá deixam. Que há muito quem viva pendente desse mundo de faz de conta. Mas antes de sair, e também antes de deitar, ensaia poses e fotografa-se; se desanima por um assim ou assado, pede a Gustavo que a fotografe, exige um ângulo depois do outro, muda o penteado, vira-se do outro lado, sorri só com os olhos, põe mãos em evidência, esconde cabelos. E etecetera. Se fica um momento em avaliação e a foto agrada, corre ao face a divulgá-la.
E ora esta que não chego a vestir os vestidos de anzol. E nem tenho conta no facebook. Decerto me desencontro  do Gustavo que me cabe e nem sei bem para que o quereria.

Mamã, tenho certeza, certezinha absoluta, fico para tia. 

Auschwitz

Auschwitz não é um lugar. Podem dizer que sim, que são quilómetros de presídio em cilício e arame farpado; que bem se vê lá dentro a tristeza dolorida de pavilhões em asfixia; que tem um portão com o letreiro mais ironicamente contundente, “O trabalho dá saúde”. E não mudo de opinião, não é um lugar. Talvez a forma mais exacta seja referir que o conteúdo se sobrepõe. Em omnipotência. Também devido a sub reptícios de cinema. Ou apenas na emergência sombria do meu imaginário. Juro, não percorri um campo de concentração vazio, nem respirei livremente o ar da rua, não olhei com olhos meus o verde das ervas que crescem indiferentes ou as árvores lá em baixo, livres, livres, sem saírem do lugar. Eles impõem-se, emergem de ruas e barracos, enchem tudo. E ali se quedam sem expressão, presenças espoliadas e sub humanas, aterradoras na sua fixidez de animal maltratado e sem futuro.
Tenho quatro anos, vou não sei para onde, a minha mão na tua.  Seguimos como num sonho mau, em fila de gente a que não vejo fim. Dizem os soldados que há um lugar onde os judeus podem viver durante a guerra, é para lá que vamos; não entendo o caminho de tanta gente,  já temos a nossa casa. Antes de sair o portãozinho de grades que fecha no trinco e emperra, vi o cão com olhos de susto e rabo entre as pernas a espreitar-me por entre os arbustos do quintal; a esconder-se aos primeiros tiros. No reboliço impaciente das tropas, eu num susto sem lágrimas, escudado nas tuas saias, decerto uma máquina a mexer-me os pés que não me lembro de comandar as pernas. Depois, um comboio sem fim atulhado de gente e todos de pé ou não cabemos. Custa respirar em tanto aperto de pernas e braços.
 Dias e noites aqui. Tenho fome, tenho sede, queria o meu lugar de chichi e cocó, o canto do vagão fede. Pessoas que antes se queixavam e de repente muito quietas, dizes que mortas e passas-me o teu lenço perfumado que não derrota o cheiro. Quero a minha casa, o meu cão, o urso de peluche e tudo que não trouxeste. Não sei como aguentas isto sem lágrimas; de vez em quando, elevas-me e colas-me a boca à fenda do vagão, ali onde todos querem um espaço de respirar. Enquanto isso, acho que deixas o homem do lado pôr-te a mão no ombro a puxar-te para si enquanto sorvo o ar todo que posso, a tua cara de repente outra. Chegamos nocturnos a lugar desconhecido e o ar frio refresca-nos depois de tanto suor e calor de gente. Deixámos um monte na estação: malas, haveres, tudo. Que estranho não precisarmos do que meteste às pressas dentro da mala. É a vontade deles; e o medo de vozes que são  facas e da desfaçatez das armas; dos cães que, a um pequeno desvio, rosnam e ameaçam a exibir uma serra de dentes. Aterrorizo quanto sei, a minha mão a tremer na tua. Levam-nos para uma sala despida e ali dormimos uns sobre os outros no aperto do frio. No canto que o homem disputou para nós, adormeço de rosto enfiado no quente do teu pescoço, meio tapado na aba do teu casaco, sentindo o teu coração bater com mais força quando ele se mexe sob o teu corpo; e nós dentro de uma onda de calor que parece subir do chão e traz um cheiro que não sei. E eu, em quase sonho, imagino o conforto caseiro. Amanhã, segredas tu por entre o sono do homem, dão-nos um lugar para viver.
E não havia lugar, Mãe. Nem o banho quente prometido à criançada nua. Na separação, houve os nossos gritos de ultraje e ferida e as mãos das mães a crescerem até aos cotovelos, esvaziadas à bruta. E eu nu de ti. Antevendo o banho quente antes da escola.  Quanta criança! Entrar por meu pé e não mais sair. E, em menos de meia hora, mercê de forte pisadela, ficou de mim um sapato de atacador solto. E tu despias-te fechada no desgosto da separação,  alapada à quimera, vai à escola, está melhor que eu. A essa hora, Mãe, enquanto tapavas pudores com mãos de nada, eu já saía volátil por cano largo de chaminé. Meia hora mais e outros como tu violaram-te corpo fora, abriram-te a boca de dentes bonitos a pesquisar o ouro que não havia; e antes de te levarem ao destino final, escalpelizaram-te a trança. Só depois subiste no ar e reunimos em cinza.

Este garoto acompanhou-me a visita. Na presença deles (houve outra gente) o pessoal, as câmaras de video, máquinas fotográficas e outros apetrechos, dissolveram. Que eles permanecem exactos: doloridos e exaustos; conservados em sofrimento e injustiça. De Auschewitz, ninguém se liberta.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Geometria No Espaço

Sol inclemente. Deus Nosso Senhor não quer que nos falte nada e mantém-nos à temperatura alentejana, mas mergulhados em humidade.  Rodeados de sinos que, bracaramente,  tocam alvoradas pontuais e estremunham o sono de hora em hora. E nós endorminhados, baralhação do pensamento sacudido por instrumento de sopro, algures, deve haver um quartel. E não. Lemos mais tarde, na história  da Bazylika Mariacka w Krakowie que o despertar nasce ali, no rigor das trompetas marianas.  Só na Polónia as freirinhas passam naturais, sandália aberta, mochila nas costas. Ninguém as estranha e nem desenquadram apesar do hábito que lhes encerra o corpo. Só Em Cracóvia vi jovens, bonitos e bronzeados, enfiados numa batina que lhes dançava em volta do corpo de vime esguio. Terra de muito catolicismo e clima agreste. Na sombra quente dos parques, passeiam mulheres de pele branca, topázios e esmeraldas no olhar. Lindas e loiras, repelem  pobrezas e gente sofrida que também há. E os estrangeiros embasbacam nos machos polacos que ajoelham contritos a um altar, calções e mochila às costas,  mãos de orar, olhos em prece. E há mulheres em fila para o confessionário de um jesuíta. Não se sabe o que ali deixam ou recebem, mas alguma coisa será. Aguardam. Quem sabe, aliviam a contar o que as tolhe e a confissão as despe de peso. Talvez  terminem de alma nova, que o rosto lhes vem igual quando ajoelham penitências, mãos postas e lábios cumpridores. O que pensará Deus de faltas e erros que esvaem na borracha de arrependimento e oração. Que estranheza lhe franze a divina fronte se atenta nos homens e seus apetrechos de viver. Tudo são formas de aliviar a vida tornando-a, em cada vez, um recomeço. A catarse é condição de recomeço. Contudo, deuses e homens sabem que recomeçar não é possível. E não é a vida feita de pequenos impossíveis?!

Depois há a praça gigantesca e ruidosa. As arcadas e restaurantes floridos. A meio, impõe-se o edifício do mercado repleto de gente e lojas em comboio. E o calor a lembrar-nos o ar condicionado de casa, o descanso na redoma de paredes antigas. Lá fora, a hera não nos repara. Ocupada a subir paredes, ergue em passo certo de folhas, pequenas mãos de clorofila viçosa.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Partida, Largada, Fugida

Antes, eu julgava que preparar a casa para férias já eram férias. Hoje, por via do ininterrupto fio do tempo e sedimentada de horas extra-longas, reconheço, não sou a mesma. Divirjo. Emprestar à casa o espírito de sobrevivência cansa e exaure-me. Se pudesse, saltava esse patamar. Ele são flores em chamado urgente,  rega-me que tu é que sabes a quantidade exacta de água e nem calculas o que custa o atoleiro nas raízes, ir morrendo a partir do fundo da alma que não sabe nadar e se  afoga e apodrece nos dedos da terra em papa. E tu não falhas a circunstância. E depois segredam-me ternuras enquanto aplico o regador, coisas como, não te demores que precisamos de ti, se não voltas, esquecemo-nos de florescer; ou sussurram no fim de tarde, volta ou não aguentamos de saudade, morremos, definhamos aos poucos. E num aviso de cautela, vê lá se tens cuidado que somos inertes e prisioneiras, à mercê de quem vier. E depois há a casa, o lava loiças, as bancadas da cozinha, o fogão, as mesas de cada divisão em lamentos que me tolhem a cada passo, teimosia de esperança que me atrasa o espírito viajante. E finalmente saio e fecho a vida caseira na redoma. Vejo-a de longe, sem som que lhe valha, como se não fora minha, mas sendo. O ar do aeroporto saturado sabe a oxigénio e empurra-nos para o pássaro de aço e sua arrebatada força de propulsão. Subir. Sentir o continuum de aceleração e as rodas da frente a soltarem-se do asfalto, e logo após, num ápice, as de trás. Estamos no ar. A paisagem agiganta na proporção em que o conteúdo diminui. Tudo a encolher, casas que ainda são casas, arcos breves em ponte, estradas em cobra , rios que são fitas azuis como nos mapas da nossa infância, Tejo, Douro e Guadiana. E eu no exame da quarta classe, qual é o maior rio de Portugal?, a falta de investimento na geografia somada à desorientação congénita, Guadiana. O examinador a faiscar, todo olhos a saltarem detrás dos óculos, um repente de rosto  afivelado em zanga e escândalo. E eu a diminuir como a paisagem, bicho de conta a sumir de susto e falta de sorte, não era este.
Sobrevoamos as nuvens, há sol, as hospedeiras afadigam-se sobre um chão falso a preparar uma refeição de faz de conta e esvaem-me a infância de bata branca. Embarcamos em uníssono no trivial que não é de uso: mastigar em voo, a mais de 2000 metros de altitude. Convictos de que não se cai a mexer o café ou dar dentadas num muffin. Mas cai. Confiados em pilotos de porte garboso. Esclarecidos de que o rei pilotou estes aviões. E um rei, não é por nada, mas infunde respeito. Diz uma colega convicta, repare na tinta que gastaram a pintar os aviões, aquilo é a sério. Olho e confirmo,  navegamos num golfinho azul e coroado, gastaram muita tinta. E torna ela, sapiente, isto não é qualquer tinta, que se esbarrondava toda na alturas se fosse barata; não, não, é tinta da boa. E muita, esta companhia é como deve ser. Válidos argumentos. Convenceu-me.

Em Cracóvia noite fechada, aeroporto sonolento e a adormecer por sectores. Um bólide xpto em espera. No interior, música polaca de mistura a Roy Orbinson, Gipsy Kings e Gene Kelly (e nós) a cantar singing in the rain em lugar de bom tempo. A caminho de uma casa que nos espera e já é nossa. Do século XIX. Fresca. Airosa. Portas em silêncio codificado. Entramos no cofre. E assim permanecemos, guardadinhos para amanhã.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Contornos de Maresia

A minha praia tem um recorte de serra a namorá-la.  Sei-a plantada por detrás da neblina quando há, a revelar-se num conta-gotas de horas, afogueada de sol, em redondos de ombros e calcanhares. Ao longe, emerge um reclinado e  lânguido corpo de rocha,  uma curva de anca vagarosa que a mão desenha e logo descai à cintura em debrum de sépia contra o azul. Nos pés, dança-nos um areal de finas partículas, causa de cócegas e afundamento, colchão de maciez natural que, por tonteria, não agradecemos. E há dunas breves, arremedos de colinas, leveza de paisagem a arredondar. Ali medram flores de sal e maresia, plantas de chão móvel e secura que se seguram e crescem milagrosas em rocha dispersa: cardos verde-violeta na sua beleza rasa e picotada a requebrar; pequenos tufos de flores roxas, azuis, amarelas, rosa, brancas; a leveza de vestes das flores brancas que noivam como açucenas e nos surpreendem  a florescer de planta sem arte ao rés da areia. E elas um véu a esvoaçar, tão lindas. E, lá na frente, a majestade serena da água. O mar feito mansidão e ondas batidas em castelo suave. A água viva e fresca onde renasço. Que tudo gosto nela e é em mim sem defeito. A minha praia é o mais perfeito refrigério, a mais suave massagem, o alisamento mais cabal da minha alma enrugada. E eu que sei do sol e da areia, das dunas e dos nudistas lá à frente de mama ao léu e pendurezas a céu aberto, que sei de conchas e búzios, tesouros vindos do deus dará e largados na areia depois das marés vivas, sei também que só a sua água me devolve. Alijo mágoas e desalentos e sou eu de novo. E é como se os banhos de mar me dispam de toda a opressão e haja de novo em mim a pessoa que sempre fui e tanto enroupo, disfarço, maltrato.

Bendita seja a minha praia. Para sempre, bendita seja.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Monólogo Encalorado

Cai sobre nós a torrina e os telhados enxameiam em ondas de calor. Lá fora, cães espojados ofegam, língua de fora; nos tanques de rega há águas doentes e amolentadas que não refrescam e chamam apetites de praia, frescuras de montanha, árvores ramosas e nós cá em baixo num friozinho agradável sob o céu de folhas. Ou inebriamos no cheiro da maresia, uma avidez de pés ao rés das ondas. E eu que não estou onde queria (raro estou). Os planos, se implicam vontades além da nossa, rareiam na execução.  A força do indivíduo leva de vencida as sintonias de grupo. E eu que sim. Que pode ser. Pode sempre ser. Tudo pode ser.
Por vezes, derrota-me este desenlace.  Contudo, não é inesperado, as pessoas são muito as mesmas. Cada vez mais si mesmas. Bem sei que sintonizar me cai sobre o corpo, o consome e exaure de tanto ser eu para tanta gente. E talvez nem valha a pena. Que nunca sabemos o que somos nos outros, o que de nós lhes fica,  a lembrança que permanece. De cada um resta um laço. Ou um nó.  Ou apenas uma aselha que deslaça ao menor encontrão. Sinais. Para muita gente não existimos e nem ela nos existe; para outros, somos necessidade maquinal e sem rosto. Só o afecto aproxima alguns do nosso eu exterior na legítima pretensão de sermos, uns nos outros, internos; de percorrermos neles, como eles em nós, alguns corredores transitáveis. Poucos. Que mesmo nessas ruelas periféricas eles se perdem, nós nos perdemos. Estacam, voltam atrás, desorientam, andam em círculo. Então, escancaramos a porta e eles enxergam luz de saída. E vão à sua vida. Talvez não procurem mais. Talvez encontrem sem procurar. Talvez haja um mapa para os caminhos da alma e o próximo percurso lhes seja fácil porque o nosso lhes foi difícil. Tudo que é, não é em vão.

Mas há os que resistem. Permanecem íntegros na sua força de ser,  fundeados no nosso coração.  São medida de sentido. 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Causalidade


Apetecia-me um lugar certo para deixar histórias. Me ir deixando. Não como outra qualquer, como eu. Que não se dá por um eu entre tantos. Isso contou. Conta. E criei o blogue.  Dei-lhe um nome simples e não chamativo, daqueles que não lembra a ninguém.  Usei pseudónimo bem longe do nome e próximo do tal eu que é mim.  E estou para aqui neste arrazoado porque li, algures, que todos os blogues nascem com prazo.  Acrescento que tudo que nasce ou começa tem prazo. Termina. Acaba. Fim. Este blogue, no meu horizonte, termina comigo. Na minha morte. Há coisas assim. Bom. Sei da possibilidade de mil factores que o farão sossobrar. Pois. Mas são alheios à minha vontade. Não ignoro interferências externas, espero apenas que nos poupem (a mim e a ele). Neste sentido, o blogue vai ser quase eterno e durar a minha vida toda. A que falta, quero dizer. E nada de risota, bem vejo a contradição, não tem uma eternidade  longa. Ainda que eu escreva nele apenas quando a vida consente. Sim, sim, que a vida – a minha – nem sempre se predispõe ao tempo da escrita. Eu para ela, apetecia-me escrever, dá-me um tempinho, vá lá... e ela a assobiar para o lado. Podem não acreditar, mas sinto que a minha vida nem sequer é minha, tal o pouco caso que me faz. Mas não tenho outra; portanto, faço por esta, acabido-a.
Quatro anos de blogue. Imagine-se o tempão. É que nem sabia disto (e nem me interessa muito). Outro dia, uma bloguer falava de seis anos completos  e afirmava que o seu era um blogue criança. E fui-nos investigar. E vi que o meu blogue é do mais adulto que há. Mas sem bolinha, que não sou muito dada às violências ou à chamada pornográfica que acho mesmo uma grosseria em forma de gente, elemento deturpante do que a vida  tem e pode ser originário e belo. Não consigo entender quem ajavarda, mas pronto, é problema meu e que nem acho resolúvel; o melhor é des-pensar.
E. Portanto. Dizia eu que o meu lugar de escrita tem quatro anos e é adulto. Calculo que seja canino e cada ano valha por sete. Ou mais.
Mas afinal para que escrevo? Ora, porque gosto de escrever mansamente e sem outra censura que a minha. Corrigir. Apagar. Eliminar. Deixar às moscas (a maioria dos posts fica, digitalmente, às moscas). Fazer das palavras o que apetece na hora em que apetece (isto da hora do apetite é puro desejo). Pronto, dominar. Alto lá, que é um domínio todo cheio de mesuras carinhosas, do estilo, queres ir para ali, pronto, vai lá. E a seguir, queres voltar para o lugar anterior, está bem, anda, dá cá a mão que eu levo-te. E vou-as encaminhando até nenhuma querer enfeitar-se, sair, fazer permuta. Estou ao serviço delas. As palavras.
Para quem escrevo? Para quem ler. E, caso desinteresse, posso ser solipsista: escrevo para mim.  Exigência e apetite estão de pedra e cal. Se acaso investigo navegantes de minhas águas, verifico que vivem nos EUA. São máquinas e não pessoas aqueles que por mim passam. E depois?!  Eu gosto é de escrever. As máquinas não me entendem? Ah, ah, ah...e sendo gente, entendia?! Hummm...permitam-me a dúvida.
A minha vida reclama, perdes tempo; só sabes perder tempo e não tiras lucro de nada. E não é que é verdade?! As tias velhas diziam que ia ser virtuosa por desgostar do dinheiro. Enganaram-se. E não se enganaram. Ora não fui virtuosa de profissão ou carácter.


domingo, 16 de julho de 2017

Amizade

Tenho, como toda a gente, algumas amigas. Umas são companheiras de juventude; outra, de adultícia. Não me fecho a novas amizades, mas já pouco me interessam companhias esporádicas (nunca me interessaram). Não estou para isso. No entanto, só com uma discuto pormenores quotidianos. Também falamos da profissão mesmo se, sérias como num juramento,  prometemos antes não o fazer. Conto-lhe filmes e livros, desgraças com graça que sempre me acontecem e a fazem rir. Ela discorre sobre as questões da existência que na sua boca devêm assunto fácil e interessante.  Não sei que possa ensinar-lhe, mas sei o que, naturalmente, me ensina. É uma opinativa muito razoável, aquela menina.
São poucas, as minhas amigas. Deixam vazios nos dedos de uma mão. Contudo, depois de cerca de 25 anos perdida noutro planeta, achei uma. Melhor, re-encontrei-a. Assim. Do pé para a mão. Se a amizade é séria, a gente retoma como se fora ontem. Ou na semana passada. Quanta água passou sobre nós! Boa. E má. Rotineira, chuvinha de molha tolos. E diabruras climáticas de todo o feitio. Cada uma conheceu um mundo de gente outra, subiu na profissão, casou, teve filhos, arranjou e arranjaram-lhe alegrias e dissabores que desconhecia, sofreu desgostos dos grandes, daqueles que mudam corpo e alma e no impacto nos atarantam de tanto nos exigirem quem não somos. E nós a adaptarmo-nos como podemos, sou capaz, sou capaz, consigo, já consegui de outras vezes. Mas, depois disto tudo que não contámos uma à outra porque o tempo de estarmos juntas é pouco mas é hoje e o passado vem quando calhar se calhar, é um prazer tão grande rirmos juntas! Tal qual como dantes.  Não que sejamos felizes, mas rir a par sempre nos foi hábito e terapia, desoprime, torna-nos mais compatíveis com a estranheza de viver. Que nos exaure. A vida consegue ser mais caprichosa e birrenta que eu em criança.
Tenho apenas um remorso muito ligeiro acerca dela: era amiga da minha irmã e tornou-se minha amiga. Não houve troca, foi mais uma extensão. E até me parece que sintonizamos melhor passados 25 anos.
Foi nesta sintonia que ligou uma noite já pelo escuro, vamos amanhã à praia? E é claro que sendo eu a que fui, sem mais pensar, sim. E ela que saía cedo (a nossa praia é longe de mim e mais longe dela), e eu que a ia esperar porque desconhece onde páro e 25 anos depois a praia e os lugares, como dizia o filósofo, são outros sendo os mesmos. E claro que convidei a mana, havia um reencontro por fazer. Acordei com os galos. Ou antes. E deitei-me à roupa. Tudo preparado. Liguei e ela há dez minutos na paragem do autocarro, ainda tão longe. Comecei a ficar contente. Cada uma de seu lado, pusemo-nos a caminho.

 A minha amiga é sempre ela, a mesma. Gosta de andar, de ver, de explorar. Chegou antes. E não parou quieta. Como é parecida comigo em muita coisa e também nesta, nas encruzilhadas virou sempre para o lado errado. E vivam os telemóveis que nós chegadas e nada dela nem daquela menina adorável, com certo porte de deusa, que lhe chama ternamente mammy. Quando enfim descodificámos por onde andava, fui rolando devagar, olhos de  raio x. E vi-as assim, cheias de sol, marchando na ciclovia, do lado oposto. Apitei. Acenei. O traço contínuo a impedir outras proximidades. E as palermas, vai ali alguém a apitar, deve ser um homem; uma olha e, é um homem (não lhe perdoo, eu sei que estou a perder a feminilidade, mas escusavam o exagêro). De modos que, quando voltei atrás tinham sumido de novo. Parei numa aberta do stand de vendas e toda a gente que saía ou entrava do resort olhava para nós com a certeza de não podermos comprar uma garagem sequer. E nós olhávamos para eles na admiração de ver como é a gente que pode comprar tudo ou quase. E delas,  nada (ó raio de garotas). A mana, enganaste-te, não eram elas. Ligámos. Já estavam de novo a afastar-se, não nos tinham visto. E a mãe, que é tão como eu, qual é a marca do teu carro? Eu esquecida que o carro é velho mas não chega - ainda -  aos 25 anos, tu sabes a marca, tenho o mesmo carro. Dei referências do  irrefutável lugar e embrulhei a promessa, não saímos daqui. Pespegámo-nos as duas a mirar os magnatas que passavam em brutos carros, e, em boa verdade, me pareceram olhar de alto e com óculos de marca (sim, sim, mesmo por detrás dos óculos deles e meus, vi muito bem que era olhar de alto). À parte isso, a estirpe não difere assim tanto do vulgo. E diz a mana meio ansiosa, vou esperá-las. Fico a aguardar (até por estar mal estacionada) e vejo-as de longe. Desviam-se brevemente da mana, depois param e há aquele abraço de tanto ano. E beijos. E tal. A minha amiga não reconheceu a mana e desviou-se dizendo para o lado, esta gente está toda a passear logo de manhã, deixa passar esta senhora tão fina. De modo que chegaram as três numa galhofa. E lá seguimos para a nossa praia. Cantando e rindo. O resto conto amanhã. Logo. Ou. Há que encompridar os curtos bons momentos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

No Tempo da Escola

A frequência e novidade da escola nublou-me os amigos de tanta hora. Vivia em adaptação sistémica, cercada de horários e  desábito, e assoberbava de livros e matérias escolares. Inda o sol criança e já D. Amélia encarrapitava nos saltos altos e, toda pastas e dossiers no banco traseiro, me abria a porta lateral do automóvel. Vaidosa da boleia, sentava-me a aspirar os eflúvios perfumados que desprendia, sempre cuidando que os meus pés em eterno veraneio - sapatos de verão eram mais baratos que botas de inverno - não sujassem de pó o automóvel, avisos maternos às marteladas na minha atenção, vê lá onde pões os pés, não sujes o tapete. Seguíamos em silêncio. Eu, desinteressada de toda a ciência exacta, a desenvolver composições mentais ou rememorar verbos e regras de sintaxe e morfologia; ela, compenetrada, olhando em frente. Duas ruas antes do colégio, num lugar de muros bisbilhotados por copas de árvore, o carro imobilizava. Depois do obrigada da praxe, apressava-me a sair. Puxava o atilho do portão de zinco ondulado e, mal o empurrava, o carro desaparecia. Mala ao ombro, solas ecoando no deserto do quintal, abria uma porta de postigo vidrado e dava de caras com o ar morno da cozinha, um aroma de leite com chocolate a insinuar. A empregadita assomada à porta dos quartos espreitava-me do alto do avental e apontava Madalena num sorriso de troça habituada e dedo estendido. Sob o enleio de espargo que dava volta à cozinha,  a minha nova amiga emoldurava em begónias. Sentada à mesa, moía a má vontade dos maxilares no pão que eu avaliava de apetite e que ela, em aperreio de dedos fatigados, depositava mordiscado em meias luas no pratinho pequeno, um nico de queijo a descair. E a mãe a olhar-me como se eu uma autoridade na matéria e não da mesma idade, já viste que esta menina não come como deve ser – e depois virando-se, bebe ao menos o leite, filha.  E enquanto lhe vestia a bata, eu, sem hábito de interruptores e candeeiros eléctricos, corria às cegas o escuro do corredor, embrenhava no cheiro a cama e suor e adivinhava o trinco.  Cá fora, respirava fundo e relanceava a cega sentada no banquinho de parede, a bengala à mão direita, siamesa das pernas a florir, Bom Dia! E ela a compor a pose, sorriso debruçado, a visão na ponta dos  dedos que emparelhavam chinelos com pés. Depois endireitava-se a confirmar a tira da caixa das esmolas. Maravilhada, seguia-lhe a ternura táctil e comovente das falanges adesivadas à ranhura, como que a festejá-la. Em seguida, agitava a caixa vazia e pestanejando à velocidade dos cegos, ainda não passou ninguém, és a primeira;  olá, já sabia que vinhas, conheço-te os passos ainda dentro de casa. E a passar-me uma mão amiga no cabelo que seguia leve no deslavado da bata, estás bonita. Ríamos. E  até Madalena aparecer, contávamos notícias uma à outra. Havendo tempo, falava-lhe da viagem de carro, da tristeza de burros e cavalos trotando a estalo de chicote, dos ciclistas esforçados que impavam nas subidas, das camionetas ajoujadas de toros e cortiça, o excesso de carga em perigo danger e que entortava nas curvas; e a mestria de D. Amélia a ultrapassá-las.  Ela ensinava-me os cheiros e ruídos que lhe acompanhavam as horas, dizia-me que não existe apenas o cheiro de cada um; e pestanejava a garantir que os cheiros de lugares, trabalhos e tarefas é pegadiço, se mistura na pele e nas roupas, nos delacta. E eu em admiração ao poder do olfacto e do que ela sabia das pessoas só de ouvido nariz e pele. Mas o seu tema  era a figura de D. Amélia: o que vestia, a que cheirava, como se penteava e pintava, os seus humores...Enfim, Madalena surgia seguida da empregada que sobraçava os livros apertando sobre eles o elástico da capa de pele. Depois passava-os a  compor-lhe as tranças, dávamos um até logo  às duas e algaraviávamos rumo à escola.

No agrado deste quotidiano, breve se fez Dezembro. Ruas de pó varridas de vento, os olhos vagos das crianças acompanhando um arbusto receptáculo de lixo, às cabeçadas aqui e ali, rebolando até uma esquina onde pausava momentâneo para continuar viagem em voo baixo, rente ao chão. A garotagem, leve de roupas e agasalho, arrepiava no rijo da nortada.  Em todas as casas se queimava o que havia e à boca da noite as ruas cheiravam a lume e, com ou sem chaminé, o fumo escapava-se dos telhados de telha vã. Depois da escola, a criançada catava os pinhais e trazia tudo que encontrava, sacos de caruma, pinhas esquecidas e doentes, pequenos galhos caídos enfeixados e carregados à cabeça, uma mão a amparar o feixe, a outra arrastando o saco de caruma. De regresso a casa, via-os pelo vidro. Peregrinavam na beira da via férrea, cabeças a oscilar de esforço, os irmãos mais novos correndo atrás ou na frente. E tudo me parecia longe e diverso. Uma tarde, por entre a fila de garotos,  vi Lídia.  Disse-lhe um adeus efusivo mas, lançando mãos à cabeça a equilibrar a carga, virou-me a cara. Por certo invejava o meu conforto automóvel. Que tonta. Em Luís, antes meu vizinho de todas as horas e que agora nunca via, deixei de pensar. 

domingo, 9 de julho de 2017

Deolinda

Tenho um relógio antigo, de tic-tac esfolado e teimoso.  Cumpre os imutáveis círculos da vida em cabo verdiano e,  sempre atado às minhas andanças, dá voltas que não acabam. Num ritual de manhãs, acerto-o e alimento-o de corda, mãe a compor a roupa ao filho depois do desjejum, limpar boca, lavar mãos, sacudir migalhas. E, no imediato de dormir, deito-lhe olhos de confiança. E ele que sim, que durma descansada,  a patilha de despertar está de serviço. Adormeço. E vela-me em passo certo. Inalterado.
Se acordo antes da hora porque um bêbado mais espalhafatoso, um grupo desvairado a asnear, ou só uma sede, uma angústia que atravessou o mar e me agarrou num sonho, sorri-me da mesinha de cabeceira, diz-me no azulão já manchado de sol e longa história de arestas, descansa, está tudo bem. Mas levanto-me e espreito a sala. As crianças dormem em abandono, num enleio de pés e mãos, o edredon a descair do sofá feito cama. Tapo-os.  A uma ponta, a minha menina ocupa pouco espaço e tem o elástico a soltar-se da pasta de cabelo; eles, ao contrário, apropriaram-se e dormem quase crucificados. Atravessa-me o pensamento, preciso mudar de casa, dar um canto à filha e aos rapazes. Antes que os impossíveis me caiam em cima deito-me de novo, a compreensão do relógio a sorrir do mostrador, tic-tac, tic-tac, tic-tac. Bem sei que é mecanismo metálico ou, quem sabe, plástico, umas rodinhas que engrenam a intervalos certos e fazem mexer os ponteiros. Mas é que o tic-tac me traz o pé descalço das mulheres de Cabo Verde. Vejo-as na praia, o peixe ainda a contorcer-se na canastra em agonias de falta de ar, brisa colante na capulana garrida atada em nó de engenho e erotismo salutar. E elas chamando freguesia, filas de dentes sem dentista, a desmarcar. E deixo-me ir na sua voz cantada sobraçando marejos de oceano, mistura de dialecto e português, um ensaio de inglês aqui e ali. Que os mares têm todos voz diversa, mas foi na linguagem deste que aprendi ondas e marés.

Acordo num pulo estridente, são as cinco. Noite escura. Atardo as crianças quanto posso. E nasce a roda viva de rabugem, pequeno almoço, vestir, pentear, aviar lancheiras, aprestar mochilas, arrumar o que possa. Levá-los à vizinha que mos põe na escola. Depois é a fila na paragem, um monte de gente estropiada de sono, olhos inchados, cabeça a ganhar ideias e a caber no dia que começa, hoje que dia é, que recados não posso adiar. Já sentada no autocarro, sou duas. A primeira de mim pensa ainda nos filhos, relembra deveres e esquecimentos, rememora a casa que ficou, fogão apagado, camas feitas, pão na mesa. Depois, a segunda entra na casa de D. Natália e pensa no jantar do dia anterior, no volume de loiça, nas mercearias que faltam, nos meninos que dormem. Entro mãe e saio empregada. Dou bons dias ao motorista ainda com olhos meigos, a despedir-me dos meus meninos que deixei na vizinha; e saio direita e átona, toda cheia de quem vou ser, a empregada de D. Natália. Boa senhora, ela. Parece que escreve e escrever lhe dá sustento. D. Natália vive num mundo de faz de conta e não sabe. Já nasceu ali, naquele mundo almofadado, silencioso, onde às vezes estalam discussões violentas que bem ouvi os gritos antes da separação. Há alturas em que somos todos iguais e quem vive na casa dos outros assiste-lhes o filme da vida. Nesta casa,  sou as preguetas que mantêm as almofadas de D. Natália. Faço girar o mundo quotidiano, varro-lhes o caminho, afasto ramos caídos, colho  flores e enfeito as jarras. Sou paga para isso. Existo por via da função. Não sabem onde vivo ou com quem, se tenho filhos, mãe, marido. Ninguém se interessa pelos meus domingos e dias santos; ninguém pergunta quando faço anos; a tristeza é mal vista e pertence a tempo só meu. A alegria, ao contrário, é bem vinda. Sou alegre para eles, alegre de olhos e boca. Sempre alegre e pronta para o trabalho. Preferem-me, se cumpro de boa cara. E preciso de cumprir. São assim as Deolindas do mundo.