terça-feira, 28 de novembro de 2017

A Terceira Irmã

        E as mulheres bichanaram escândalos sobre o abuso e a possível paternidade. Desandei estupefacta, imersa em tal murchidão que minha mãe, então filha, gravidez não é doença, era pior se fosse doença grave. Mas nada me consolava. Que o processo da gravidez não me atazanava, pouco entendia do mistério de uma vida a crescer na barriga e nem me interessava tal assunto. Moía-me, isso sim, que houvesse homem ou rapaz tão tortuoso capaz de abusar um ser como ela. No meu íntimo crescia o vómito, não acreditava que rapaz, avaliava que o animal era homem casado e malvado. Homem feito só de corpo; que no resto, monstro. A rapariga não era uma oferecida, apenas não tinha juízo, pensava como criança e todos o sabiam. E, a cada domingo, à medida que o tempo passava, a tristura do pai mais me arraigava a má vontade contra um desconhecido que, se dependesse de mim, seria sovado em hasta pública. A descansar-me, imaginava-o a ser castigado com chicote, preso a um poste no meio do adro – que nem tinha poste nenhum – rodeado a toda a volta pela gente da aldeia. Suponho que a raiva me acordou imagens dos poucos filmes que tinha visto.  Mas nada disto aconteceu e o pai continuou incógnito. Ao invés, à medida que as visitas do médico a casa do Vicente se faziam menos espaçadas, começou a correr que havia problemas com a gravidez. Depois, disse-se quase a medo que a futura mãe, que jamais alguém viu grávida, ia morrer quando desse à luz por sofrer de epilepsia. Sabedora de exageros e cuscuvilhice de aldeia, ignorei. Os nove meses passados e a minha amiga voltava aos lugares de sempre. E íamos gostar de vê-la com um bebé. Era assim que eu pensava.
Mas quando os nove meses passaram e o parto se consumou, ela morreu. Deus revelou-se-me de uma injustiça terrível. Hoje demoro-me a pensar quanta coragem foi necessária àquela gente para aceitar a antecipação da morte, viver sabendo que a filha lhes morria no final. Nove meses de dor e inferno. A assisti-la. Não fomos feitos para saber quando morremos. Em que dia. A nossa amiga era criança, gerava um ser que a consumia e lhe diminuía o tempo de vida à medida que se formava dentro dela. Facto que, por fortuna, desconhecia.
Ora um dia observei na mercearia umas perninhas vermelhas que corriam atrás da mulher do Vicente. A bebé que ficara. Uma garotinha de nada, magrinha, que da mãe tinha apenas o azeviche do cabelo. E as mulheres umas para as outras num alívio, é espertinha...
Estranhos são os caminhos que a vida toma.
            Entretanto, saí da aldeia. Quando voltei, Vicente mudara de emprego e de lugar. Nas cidades e vilas que também eu percorri, não encontrei qualquer membro ou referência à família. Perdi-lhes o rasto. Esqueci-os. Quando enfim assentei arraiais, soube que Vicente se reformara e vivia na mesma terra com mulher e neta, as filhas casadas algures. Que a garota era luz nos seus dias e desejava vê-la casada antes de fechar os olhos. Nunca sequer os vi. Soube que a neta casou e alegrei-me por ele que devia a essa altura ser bem velho. Não muito tempo depois, morreu.

Decorreu um ano. Talvez dois. E comecei a cruzar-me com uma jovem desconhecida. Trazia um cão à trela. E os dois a passear estrada acima e abaixo. Desde o primeiro olhar soube que era ela, a garotinha de pernas de perdiz que corria atrás da avó. Hoje, passam-me à porta. Ela e o cãozito. O casamento falhou. É ainda jovem e bonitinha, nada semelhante a sua mãe. Se a vejo passar ou encostar no muro tenho vontade de chamá-la e trazê-la para dentro. Contar-lhe coisas boas que sei. Mas nada faço. Apalermada, deixo-me ficar ao vidro num desperdício de ternura. Podia quase ser minha filha. Está só. Nunca lhe vi sorriso, que nem isso a mãe lhe passou. Caminha átona ao mundo, atenta ao animal e ao saco das compras. Talvez afinal tenha herdado alguma coisa mais por via materna, alguma coisa que não lhe dá benefício. A identidade do pai permanece em mistério. E hoje que conheço um pouco mais da vida e das famílias,  sei que há podres demasiado podres só de pensá-los.  

sábado, 25 de novembro de 2017

De Pequenino....

                 Muito se fala sobre a igualdade entre os sexos e o fim da discriminação feminina. De, como quase toda a gente aceita  - ainda há quem viva na idade da pedra e faça gala na prepotência -, homens e mulheres serem iguais em direitos e deveres, embora diferentes na sua anatomia e particularidades de género. Mas afirmar a aceitação não é igual a proceder em conformidade. Quer isto dizer que muito há a fazer. De vez em quando, soa um gongo nos jornais: as actrizes de Hollywood queixam-se de que os homens recebem um cachet muito superior ao seu. E nós pasmamos, então até nos USA o costume se mantém?! Ou, como há pouco tempo, vêm queixar-se de produtores sem escrúpulos que as assediaram e exigiram favores sexuais em troca de papeis e pedacinhos de fama. E nós todos a condená-los, a julgá-los uns imorais. Congratulo-me por mulheres conhecidas em todo o mundo terem tido a coragem de os apontar e revelar a peçonha que escondem. Mas pergunto-me por que esperaram tanto ano. Têm razão, pois claro. Mas a queixa e a condenação perde força quando soa assim ao retardador. À época, eram jovens desconhecidas e sem tarimba, não o conseguiam fazer: por vergonha, por necessidade, porque ninguém as ouviria, por medo de represálias. Mas precisavam esperar tanto ano?! Além disso, sou forçada a reconhecer: escândalos deste teor não mudam mentalidades. Escandalizam. São notícia. Maldiz-se o indivíduo em causa. Ostraciza-se. Fazem-se cair do pedestal alguns homens. Concretizam-se vinganças. O mundo digital explode, somos todos pela moral e igualdade de género se não dá trabalho e é só dizer ámem. E tudo passa.
Acontece que a desigualdade começa na forma como somos educados. E, desculpem-me todos os ministros de Portugal e mais todos os secretários e secretárias da educação, mas nenhum fez a coisa como deveria. Supõe-se que a teoria leva à prática. O que não é verdade. Como atrás referi, há um fosso aberto entre dizer e fazer. Portanto, meus senhores, estes preconceitos só têm uma forma para desaparecer, agir sobre eles. É o que fazem as sociedades nórdicas, muito mais avançadas que nós na igualdade de género. Aprende-se em família? Sim, também. Mas está institucionalizada nas escolas, faz parte da educação dos jovens.
Na Suécia, por exemplo, em vez das teorias da batata que pululam por aí e não levam a lado nenhum, todos os jovens entre os onze e os dezassete anos têm aulas de, digamos, economia doméstica, que contam para avaliação e incluem trabalho de casa e tudo (os tais TPC com que muita gente não concorda, mas eles fazem). Aprendem a organizar-se em casa. Por exemplo, têm aulas práticas de culinária e confeccionam refeições, aprendem o valor calórico dos alimentos e a sua gestão económica – o que é mais caro e mais barato e os componentes nutricionais. E depois almoçam ou lancham o que confeccionam.  Mas não se pense que ficam por aqui. Nestas aulas, aprendem a funcionar com os electrodomésticos: máquinas de loiça, de roupa, aspiradores e o mais. Aprendem ainda a lavar a loiça manualmente e quais os detergentes e formas de lavar cada peça, das mais às menos sujas. Aprendem rudimentos de carpintaria, a coser botões e fazer bainhas, a passar a ferro e tricotar. E isto, meus senhores, não é o antigo Curso de Formação Feminina, é uma disciplina com avaliação e comum a todos os alunos, escalonada por graus de dificuldade em cada ano. Portanto, à beira dos dezoito, não há jovem que não saiba como fazer as tarefas domésticas. E a nenhum passa pela cabeça, suponho eu, dizer como é tão vezeiro em Portugal, isso é trabalho de mulheres.

Vendo bem, não há razão para tal desigualdade na distribuição de tarefas. Se no mundo exterior as mulheres trabalham como os homens, ganham o sustento como eles - algumas até mais que eles -, qual o motivo de, dentro de portas, ser ela a trabalhar, ou, em situação mais benévola, ele a “dar uma ajuda” como se lhe fizesse um favor?! Todos somos humanos, temos um corpo com dois braços e duas pernas, uma mente pensante e mais o que falta. Também não consta que as diferenças anatómicas entre os dois sexos tornem alguém menos apto para este tipo de tarefas (diria mesmo que elas nem contam). Haverá quem, devido a características pessoais, seja menos hábil a realizar uma ou outra, mas não podemos atribuir  “a culpa” ao género a que pertence. Conclusão: parece-me que, se os jovens forem institucionalmente educados no exercício prático das tarefas caseiras, não há como fugir à igualdade de género, pelo menos no campo da economia doméstica onde tanta mulher portuguesa vai morrendo à hora. Mas será que essa igualdade interessa?!

Da Memória...

Sexta feira, vinte e quatro de Novembro do ano de dois mil e dezassete. Madruguei. Passava das cinco quando tudo que a seguir conto se me fez presente. Seria alguém  talvez ligado à memória vívida que me despertou. Anseio que seja um chamado, transmissão da força do pensamento, desejo puro de um tempo em que fomos “for ever young”. Que não um sinal de perigo, urgência a que não posso nem sei atender, apelo instante em situação limite. Porque claramente distingo o chamamento da simples lembrança. É outra intensidade e outra natureza. A segunda, é apenas memória afectiva e morna que sucede em consciência. O primeiro, acorda-me em clareza e precisão, numa supraconsciência inexplicável que se particulariza em qualidade e grau; supraconsciência que é portadora de natureza própria e para que não encontro palavras. Temo chamamentos. Se é verdade que os separo da lembrança, também é verdade que não sei destrinçar o desejo instante de presença, da necessidade que se expressa no apelo irredutível e último em urgência vital. Os chamamentos são gritos na noite. Gritos que só eu oiço, sem lhes conhecer proveniência. Mente que me chama com força inusitada e única e que, milagrosamente, chega até mim. Nem sei se de mortos, se de vivos. Que os mortos também nos chamam e falam e têm força.
Quem sabe não eram senão eles, os mortos,  a lembrar-me esse período difícil da vida em que fui bafejada pela sorte de um projecto comum tão salutar quanto contrariado pelo poder. O volume de trabalho e escolhos a ultrapassar. Primeiro, a escrita da peça de teatro (que já perdi); de seguida, a leitura para escolha de actores, todos a escolher todos; e logo, os ensaios. Sem sala, ensaiávamos nos átrios de corredores, no intervalo entre aulas diurnas e nocturnas, perturbados por aspiradores e vozes de empregadas. Ou em casa de um ou outro. No final, eu a carregá-los para os autocarros. Gente que se levantava às cinco e ainda assim entusiasmava com os extras; Do meu lado, nem verba, nem horas disponíveis. Era a nossa carolice sempre rechaçada. A pior turma em comportamento. Mas, no dia, enchemos a casa. O temor, tanta gente (era quarta à tarde, não havia aulas, o auditório à cunha, gente sentada pela coxia), e se não gostam, e se...E eles, mais de trinta, já metamorfoseados, o do acordeon a puxar-lhe as alças para o ombro, vai correr bem. Um lá em baixo, amarfanhado junto às casas de banho, mãos na barriga, não consigo, não consigo. Eu a levantá-lo do chão, consegue pois, entra e esquece-se de tudo, vai ver. E ele, tenho de ir vomitar, eu não devia ter vindo para isto, foi só por andar atrás daquela miúda loira que está a apresentar. E eu, deixe-se de paranóias, você é um actor, quando pisar o palco passa-lhe tudo. E ele a olhar-me em dúvida culposa, e se eu me fosse embora agora... Eu séria, olhos de ácido sulfúrico, deixe-se de parvoíces, vá lá vomitar que eu espero aqui e vamos os dois para cima, ouviu? E lá em cima o do pano de cena, tenho que ir a casa num instantinho, eu não me demoro; - e a dar-me palmadinhas no ombro - mas olhe que o bombeiro ainda não chegou, ligou-me e vem a caminho, teve que acompanhar um doente a setúbal. Eu aflita, e agora? Ele, agora começamos que entretanto chega, diz que já ligaram a sirene e vêm a toda a mecha, como não tem que se vestir...Eu, ai valha-me Deus, temos a casa cheia e falta-me uma pessoa. E daí a pouco o funcionário do auditório, temos de começar que eu não saio daqui depois da hora; ok, ok, onde é que está o nosso homem do pano de cena? Alguém a medo, ainda não voltou. Mas não voltou como? Então, foi a casa e ainda não veio. Com franqueza, mas o que é que aquele rapaz tem em casa de tão urgente? Ora,  então não sabe, é a namorada. Eu a desmoralizar, esta gente é toda maluca. Merecia era umas porradas, aquele irresponsável. E as garotas vampirescas, capa e lábios pretos, a estenderem um lençol de compreensão, é só mais um bocadinho, eles vêm todos. Na régie, o funcionário de braço no ar, um dedo todo nervos a apontar-me o relógio. E eu que não ouvia o barulho, a imaginar a unha a bater no vidro, tic, tic, tic. E entretanto o bombeiro-actor, acabadinho de chegar, agarra o namoradeiro logo na entrada, és maluco ó quê, pá. Desato a rir e empurro-o para a régie, se se engana nas aberturas do pano dou-lhe uma surra. E começamos.
Gostam. Temos de parar várias vezes porque riem e batem palmas a meio. E no bocadinho de jogo do benfica em que gravámos um golo, a plateia levanta-se em peso como se no estádio, a gritar gooolooo!!! E o goooolooo!!! do nosso actor fica elidido. Mas também nós gostamos.
À noite, na sessão para encarregados de educação, os filhos bisaram e a sala à cunha. Lembro-me da voz da Gisela numa canção da Ala dos Namorados e de toda a gente a bater palmas; de as danças serem um primor; do meu actor das dores de barriga se ter transformado em palco; e a Rita tão miúda e pacata, tímida, a crescer desmesurada declamando o Cântico Negro num lampejo de eternidade que electrizou a plateia e arrepiou gente. E de estarmos tão contentes e nos abraçarmos uns aos outros no fim de cada número. E lembro-me dela a declamar no ensaio geral e de um garoto que por ali andava ter mofado da ênfase. E logo o Carlos que tinha fama de ser (e era) arruaceiro, o levou para um canto a avisar, eu até nem gosto de poesia, mas aquilo é qualidade, ouviste. vê lá se respeitas o trabalho da miúda, porque se te ris outra vez levas um ensaio de murros. Chaparro!, chasquinou; e deu-lhe as costas displicente, andar desengonçado, o boné com a pala para trás, satisfeito consigo e sem ideia de que eu o ouvira. Apeteceu-me abraçá-lo. 
E depois as pessoas a saírem agradadas, imbuídas no espírito dos Alphaville, “Forever young”. Música tão bonita, alegre e jovem. Que eu desconhecia. Escolha do colega e ex aluno, também professor da turma, que nos ajudou  nos finalmente. Ensaiámos algumas vezes em sua casa, sugeriu a música e propôs fim mais realista e menos happy end. Há pessoas extraordinárias e extraordinariamente humanas. Insubstituíveis.
Fomos um grupo. Na memória, ainda somos. E seremos. E os Alphaville cantam-nos  a nós eternamente. 

domingo, 19 de novembro de 2017

Olívia

Estamos a um mês do Natal e vou, como sempre, comprar-te uma prendinha que tu agradeces com um telefonema que só fazes por essa mesma razão. Sem prenda, não te lembras de me ligar. Há gente escrava de causalidades necessárias. És como és, sou como sou.
Quando os achaques me percorrem o corpo e parece que tudo em mim sossobra, penso em ti. Também por seres mais velha. Como te darás com a velhice, que órgãos te ameaçam de dentes arreganhados, dores como cães de má fila. Quem te socorre. Talvez a prima te mime na doença. E chego mesmo a julgar-te mais acompanhada que eu, o que nem é difícil. Nas famílias há uma inadvertida distribuição de papéis e no meu a doença pouco conta. Na verdade nem tenho ideia do que conte. Será talvez a certeza da disponibilidade, coube-me aplanar o caminho de todos. Cada vez mais sou uma árvore. E olha, nem sei onde encontrar forças para mais um Natal. Não faças caso, é apenas a doença a falar. Quem sabe em Dezembro estou boa e tudo se faz e passa como sempre. Que não é bem.
Como sabes, a morte não é estado que tema por aí além (aquele momento da passagem, sim, deve ser difícil). Como Sócrates, julgo que seja um apagar definitivo. Um nítido nulo sem ponto de nitidez. Que me agrada, viver cansou-me demais. O eterno nada parece-me seguro. E não julgues por isso que o desejo. Não. Estou disponível para ele quando queira vir. É só.
Não tenho forças para mais mudanças na minha vida. Não que ela me seja fácil ou agradável, mas é a que me pertence. Já vivi a desejar um emprego, alguma coisa que me tirasse do buraco, me desse uma hipótese de pensar em mim de outra forma; a desejar uma casa em qualquer lugar do mundo. Mas hoje tudo que pretendo é continuar a sobreviver sem depender de ninguém. Não pesar. Se possível, ser leve até na morte.
Sei, não estou natalícia. Mas hei-de. E oxalá te sintas bem, que o bem estar dos que amamos ajuda a compor o mundo.

Um beijinho doce

sábado, 18 de novembro de 2017

Oh, a Insustentável Leveza

Tanta coisa de esguelha neste meu mundo pequeno. Tanta coisa onde a  humanidade se apouca. Não a humanidade deles. A nossa. Tanta coisa a deixar um lastro de baba gomosa, rasto de ranho escorregadio e excrementício que não era suposto, mas nos existe. Que se vê na mesa onde todos os conferencistas usam óculos de massa preta, ademane por certo muito in; ou no afã da palavra escrita, das actas que depois darão um livro, um volume de papel (mais um) sobre o futurismo. Ou, no como de se medir e saber o sucesso de um congresso quase sem assistência, eivado de comunicações que, na maioria dos casos, foram leitura apressada  feita em quinze minutos, sendo que, mais de um terço eram em língua estrangeira e sem tradução. Mas chega-se ao fim e a avaliação é de grande sucesso. E sem um senão. E não podia faltar a referência contínua à colaboração da nossa sumidade, Eduardo Lourenço. E a tristeza que é ver e ouvir a voz quase inaudível de um homem a deixar de ser ele, que se desculpa por não ter colaborado, por, ipsis verbis, “corpo e mente já não lhe obedecerem”; que se engana em alguns pontos - estará a perder a audição? - e ainda assim tem razão. Que eu vira-o na véspera, sentado na primeira fila. E o quadro diferia. Estava só. E só ficou quando, sem abraços ou palmadinhas, todos se deslocaram para o bar. Depois observei-o a subir os degraus da saída. Penosamente. Sem ninguém. A vontade que tive de ir ajudá-lo. Eu que me encolhia por ali, mais estrangeira que os conferencistas italianos que circulavam em bando. Julguei que talvez não apreciasse. Há pessoas que prezam muito a sua autonomia e se esforçam por mantê-la. Para mim, naquele momento, era apenas um velhinho a precisar ajuda. Talvez tenha feito mal em tolher o ímpeto. Não há dúvida, a utilidade comanda a vida. Se és uma inteligência brilhante e internacionalmente reconhecida, a tua presença é desejada, disputada, requerida. Mas quando o mundo percebe que passaste, que o embaraças e já não dás mais, fica-te o nome que ele usa e abusa; porque tu, pessoa x ou y, talvez nunca tenhas importado. É nesta baba que crescemos e somos. É nela que nos movemos e vamos escorregando.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Dever e Haver

Há demasiadas coisas neste mundo que não entendo. É certo que a maior parte se deve a ignorância, mas há outras que me perplexam, não sei como as deixam acontecer.  Em rigor, não são coisas que aconteçam. O que acontece atinge-nos sem apelo, não está nas nossas mãos evitá-lo. Ora, o facto repetido com que me venho deparando é evitável. 
O ponto é que reparo cada dia mais que, colóquios, conferências, congressos, não têm público. Os congressistas e oradores são público uns dos outros. À vez, são oradores, público e perguntadores de serviço. Parece-me um trabalho viciado. A maioria lê a sua comunicação sem levantar os olhos do papel. Meus deuses, se um professor normal desse aulas assim, os alunos fugiam-lhe da sala. Será por isso que não têm público senão eles mesmos?! Já estive mais reticente quanto a esta hipótese.
Bom. O acaso fez-me assistir a um congresso todo entretecido de gente estrangeira. Pois meus amigos, vieram aquelas alminhas de tão longe, um discurso preparadíssimo. Para quase ninguém senão eles. E segundo ouvi enaltecer pela mesa, vai constar em acta (as actas devem ter passado a dar estatuto e por certo propiciam subidas de grau). Mas o que querem, sou antiga, acho triste tanta cadeira vazia, parece-me um desalento falar apenas para os pares. Lembra-me um certo cão que tive que mordia o rabo e gania para que eu o fosse salvar. Ao cão eu libertava da autotortura, a esta gente, confesso, não tenho maneira. Mas é verdade que eles não se queixam.
E no entanto continuo a julgar puro desperdício que muita gente não aproveite aqueles sábios ali tão à mão e o benefício de óptima logística (estive malzinha mas isento a cadeira). E tudo grátis. Até os lanches com bolinhos e café mais sumo e chá, (logo agora que não me apetece nem o cheiro de comida). Pergunto, o que é feito dos reformados santo Deus. Não foi há muito que estive num auditório cheio deles e todos muito interessados. Ali mesmo, na Gulbenkian. Mudaram-se para os concertos de música clássica, está visto.
Portanto, concluo que ter público é, hoje, supérfluo. Que vida estiolada têm os sábios. E no entanto, alguns são, em demasia, iguais à outra gente. Senão, reparem nesta flor. Um dos temas abordados foi a biblioteca de Pessoa. Influência de leituras, se sublinhava, anotava, onde, em que obras, o quê. Constatação de um personagem que na altura fazia de público, reparou que ele tinha o Kamasutra... - e em ar suspeitoso e meio malandro para a jovem oradora - ou não viu?! Perante o assentimento, viu o sublinhado, aquele sublinhado era diferente, muito mais suave... E tal e tal. E a oradora que nem tinha feito referência ao livro, pois, mas não tinha anotações, era um sublinhado curto num livro inteiro... E ele jubiloso, triunfante mesmo, pois eu dei três voltas ao livro a ver se descobria uma nota ou mais alguma coisa – e num aparte -. Que nem era um Kamasutra de jeito.

Meus senhores, eis um artista português.

domingo, 12 de novembro de 2017

A Terceira Irmã

Nesse tempo, morávamos isolados. Para chegarmos a casa havia  que atravessar um pequeno pinhal onde, apesar da estrada de terra que o ladeava, talháramos vereda serpentina e para nós mais agradável. Foi na peugada de minha mãe, por entre curva e contra curva, a perscrutar as copas altas dos pinheiros bravos, que assimilei a informação. Aprendi que a falta de juízo modifica o aspecto das pessoas. Compreendi a constância do sorriso, os pais e as irmãs a guardá-la de estranhos, a possível revolta materna contra Deus. E gostei dela assim inocente e crescida. Por outro lado, enquanto os meus irmãos corriam livres pinhal fora, no intuito de montarem cavalos imaginários em troncos flexíveis que eles mesmos tombavam em uníssono de forças, ela estaria em sua casa, saía pouco e sempre vigiada. Mas, como dizia minha mãe, por dentro era criança. E as crianças gostam de rir e brincar, de correr sem destino. Tinha um corpo desaustinado e descompadecido da mente, que enchia costuras afirmativas, facto que não nos incomodava. Depois da missa, a sua figura alta e enformada destacava rodeada de crianças. Em seguida, as irmãs tomavam-na pelo braço e conduziam-na ao automóvel onde um pai paciente e risonho as esperava ao volante. Ela entrava para um dos lugares traseiros e virava-se para nós a sorrir e acenar ao vidro até o carro desaparecer. As mulheres desandavam para casa comentando, coitadinha da rapariga, mas que desgraça que ali está; ela até é boazinha, mas coitadinha falta-lhe o tino. E rematavam a estugar o passo, Deus nos livre de uma desgraça assim, o que vai ser daquilo quando os pais morrerem. E eu tinha certeza que nos domingos ela era feliz e talvez também nos outros dias em que a não víamos; parecia-me que as mulheres agouravam demais. Falar na morte dos pais era chamar um facto longínquo, ainda havia muito tempo de bem viver.
Um certo domingo, as manas sozinhas. E nós num susto.  Era sobejamente conhecido o seu gosto pelos dias em que toda se enfeitava e saía de casa. E quando perguntámos, que estava doente e não era conveniente sair. E foi assim domingo atrás de domingo. Até que num dia mais impaciente as manas nos responderam lacónicas, ela não vem mais, parem de perguntar.
 Correu que sofria do coração e não se podia mexer, que estava tuberculosa e tinha contágio, que os pais eram afinal muito maus para ela e a tinham proibido por qualquer sua desfaçatez infantil. E logo houve quem tivesse passado de largo e ouvisse gritos; quem tivesse visto o médico a sair de casa e mais do que uma vez; quem soubesse de pés juntos que fora sova e enquanto durassem as negras não via a luz do dia. Na dúvida, as mulheres juntaram-se  e resolveram fazer queixa ao padre. O Cura recebeu-as na sacristia onde um Cristo todo de roxo vestido jazia ano inteiro num caixão de vidro, as mulheres a rodeá-lo com respeito bichanando, parece mesmo um morto de verdade, olha lá o sangue que corre da coroa de espinhos, quem é que diz que aquilo é tinta. E depois, fixas na alvura das mãos do padre emergindo do luto da batina e enlaçadas sobre a secretária. Ou de olhos a saltar para a pilha de papéis no canto esquerdo, matrimónios e baptizados em confraternização de acaso, e outros que não sabiam ler. As mãos em espera. Quietas. E a mais foita, senhor padre a gente vem por causa daquela rapariga que é poucochinha, a filha do senhor Vicente que ajuda na igreja, é que a mocinha tem alguma coisa séria que nunca mais veio à missa. E o padre, fica-vos bem o interesse, mas têm de perguntar ao pai. Só ele pode responder. E num frou-frou de saia comprida deixou-as na sacristia com o Cristo morto. Saíram temerosas do defunto de louça, a benzerem-se às recuas que não é bom virar costas a um Deus morto, mesmo de faz de conta.
No domingo seguinte, puxaram o pai Vicente de parte, serviram como entrada o goro na sacristia e perguntaram. Ele, chapéu de feltro na mão, para cá, para lá, triste de dar dó, respondeu: está grávida. Não sabemos quem é o pai e nem ela sabe dizer. E rematou de lágrima no olho, já vai para seis meses.

(continua)

A Terceira Irmã

O imaginário dos escritores é um mundo que hoje tem gosto pelo lado escuro do homem e se ergue muito cheio de não prestas e do que de mau temos dentro. Será por comungarem do sentimento dos actores e ser sensaborão criar personagens normais, razoávelmente bons e que, parece, desentusiasmam a leitura. Que também os leitores preferem ser triturados por mázura e canalhice. Contudo, a vida tem enredos que podem ser tomados por ficção. Hoje, no poiso solitário da minha janela, vi um. Já o encontrei de outras vezes. Variadas vezes. Para ser exacta, ao longo de anos. A rapariga de que vou falar, é ela o meu enredo, encostou nas grades de minha casa e, quase ao alcance da mão, ocupava-se a desenlear o cãozito que a acompanha. Não me fez caso, não sabe tanta coisa que me vem quase do berço, do tempo em que ela não existia. E juro que, se numa intuição sem préstimo lhe adivinhei a proveniência, jamais os meus verdes anos lhe sonhariam a existência. Julgo mesmo que ninguém sonhou o seu existir. Vou contar a história do princípio.
Aos doze anos eu era uma menina de boa índole que frequentava igrejas e catequeses, fazia novenas e tinha um terrível medo de ser santa. Por esse tempo, lembro-me de admirar na igreja um forasteiro que se mudara de armas e bagagens para a aldeia, com mulher e três filhas casadoiras. A minha admiração tinha raiz dupla. A primeira, devia-se ao anómalo facto de o homem não falhar uma missa e participar activamente, cantava com entusiasmo, oferecia-se para as leituras e não desanimava por ser o único varão na igreja. A segunda, era apenas intrigante. Se comparecia com pontualidade dominical na companhia de duas filhas, a mulher e a terceira filha continuavam incógnitas. Na mercearia, o mulherio falava à boca pequena do mistério na família do senhor Vicente, e por que é que a mulher não ia também à missa, e por que motivo as filhas não iam as três, e por onde andaria a incógnita terceira filha. E patati, e patatá. Mas ninguém sabia.
Quando o verão se apresentou em seus ardores e os braços arregaçaram a suar limpezas, o senhor Vicente, não querendo ficar atrás na febre da brancura pincelada, contratou duas mulheres para a caiação do monte. E o segredo desfez. Foi como o esvaziar de um balão a meio gás, um som manso, quase despercebido. O povo tem destas coisas, corrói na curiosidade que depois maldiz. Mas, se a mulher nunca pisou na igreja (dizia-se na mercearia que era contra os padres e quiçá seria mesmo comunista), o mesmo não sucedeu com a terceira filha, por sinal a mais velha; depois da caiança, a rapariga passou a frequentar o nosso lugar de culto. No primeiro domingo em que, ladeada pelas irmãs, marcou presença, concentrou as atenções. As mulheres esqueciam-se de responder ao padre, e, durante o sermão, voltaram-se repetidamente para trás e provocaram um ralhete do cura. Intrigou-me mais a presença da terceira filha que a sua ausência e também me virei para trás em ocasiões pouco próprias. Em geral, os mais novos foram tão incómodos que as duas irmãs se agastavam e faziam sinais para voltarem a olhar o altar. Quanto a mim, fiquei positivamente siderada pela expressão da moça. As duas irmãs que conhecia eram risonhas e superiores, troçavam de nós e dos nossos hábitos aldeões sem qualquer pejo. Além disso, eram amazonas de respeito, víamo-las passar ao longe, cavalgando muito direitas na Azinhaga do Valado até sumirem por entre o arvoredo. O pastor com que por vezes cruzavam, comentava posto em admiração, aquilo é que são umas mulheres, andam melhor a cavalo que eu a pé. Eram meninas finas. Não misturavam com a plebe, tinham lugar marcado na igreja e as únicas a usar mantilha. Nós de cabeça cingida por triângulos de tule sem graça; elas, virgens sem pedestal, a ajeitar a brancura florida das mantilhas. Mercê destas casualidades, a aldeia uniu-se em comum sentimento de inveja mal disfarçada e lembro-me de estar ao espelho a imaginar-me com mantilha, adereço tão bonito que julgava pecado confiná-lo à igreja.

Porém, a terceira irmã divergia das expectativas, tinha uma marca de diferença. Desconhecia alguém assim. Era mais alta e musculosa que as manas, tinha dentes grandes e brancos e sorria sempre. Sorria para o padre, para nós, para as mulheres que a miravam em alarme. Sorria. E faltava-lhe a beleza e garridice das duas. Era um tronco de árvore ladeado por flores. Quando saiu do templo, as irmãs davam-lhe o braço como se ela criança pequena. E no entanto, no adro, sorria e beijava todos. Indiscriminada. De boa mente. As manas puxavam-na em impaciência discreta, vamos, para a semana voltas. E ela feliz, que bem se via estar feliz tão rodeada de gente. Pensei que era esquisita. Reparei-lhe os olhos, a boca, o nariz. Cada um, isolado, era sem defeito. Mas a mistura resultava estranha. No caminho para casa falei a minha mãe dessa irregularidade e daquela satisfação sem nome que lhe latejava à vista das pessoas. E minha mãe em tristeza condoída, desflorando palavras-pétala, coitada, tem falta de juízo, parece uma criança. Que tristeza!
(continua)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O Fogo da Nossa Desgraça

No rescaldo dos fogos de 15 e 16 de Outubro, ainda movida a sentimentos e emoções, não consegui escrever. Talvez por me antever no papel dos desgraçados, entraram-me uma tristeza e revolta monstras. Pelos que morreram ceifados pela calamidade. Sozinhos contra o fogo. Impotentes. E por quem ficou, desamparado de tudo. Conheço esse desamparo de viver de empréstimo, sem que nada seja nosso, à mercê de bondades estranhas e boas vontades tanta  vez apenas iniciais, que ser bondoso durante muito tempo cansa, e, a breve trecho, familiares e amigos desejam voltar a lugares marcados e a sentir que a casa é apenas sua. Mas não sei o desespero de “Tudo perdido”. E não contabilizo a dor pelos mortos que é dor por faltarem e dor pelo horror que viveram e que ninguém, nem o ser mais vil, merece. Penso nos que ficaram porque o futuro se faz com eles. Nos pobres desalentados, mãos a abanar, incrédulos do infortúnio. Gravou-se-me o olhar sonâmbulo daquele homem pegado aos escombros da casa e dos barracos, tudo negro e informe em seu redor, mal acreditando no absurdo, como num pesadelo, nem um martelo, nem uma enxada, nem um trator; ardeu tudo, não tenho nada. E a gente a ouvir e a saber que estava a auto convencer-se da extensão de vazio.
À medida que os anos correm sobre nós e que a vida e os homens nos contrariam, vamos aprendendo que o pouco que temos nos é tudo: a cadeira de sentar, a cama que o corpo deseja para o repouso, a chávena do chá ou o café da manhã. E há a janela de espreitar os avanços do dia que se espreguiça ou corre em lufa lufa, as manias da porta das traseiras, o som dos passos que são distintos nas diferentes partes da casa. A história de cada um enleia na de todas as coisas que são suas e lhe fazem falta.  São os pequenos nadas que os olhos necessitam, objectos comezinhos que têm lugar de anos no cenário. E assim acontecia antes do fogo. Também eles tinham a sua casa, animais domésticos e de trabalho, alfaias agrícolas que compraram a juntar as notas umas atrás das outras, a guardá-las semana a semana, mês a mês, sacrificando sabe deus o quê, porque um trator faz falta, porque o reboque, porque a segadora mecânica, a tratorinha que baptizaram com um nome terno por ser maneirinha e caber onde os tratores não entram. E perderam família, a casa, os haveres.
Neste oceano de desgraça, o Estado fracassou humanamente. No vigor da calamidade imprevista, tratou todos com desrespeito. Quem fala assim do seu povo trai a sua confiança. Em situação de desgraça, não se atiram razões e culpas, oferece-se compreensão e ajuda. O que se ouviu foi indigno de representantes do povo, gente eleita por ele e que lhe deve protecção. São os portugueses quem lhes paga o ordenado, mereciam o seu apoio incondicional desde o início. Mais tarde, o governo emendou a mão, pediu desculpa, mexeu-se para trazer futuro a quem dele precisa. Mas é no ardor da provação que conhecemos as pessoas. 
E há as árvores. Hectares e hectares ardidos. Muitos milhares de hectares de floresta sacrificada (quinhentos mil). Uma razia que nos trará consequências nefastas e a vários níveis e de que nem é bom falar nesta hora que tem de ser de reconstrução.  O fogo quase extinguiu o pinhal do rei. Mandou plantá-lo o rei poeta e de vistas largas, para segurar areias marítimas, assim o estudámos nós. O pinhal de Leiria era de todos os portugueses e não apenas dos leirienses. Oitenta por cento, ardeu. Não veremos formado o novo pinhal. Mas que o plantem. Que o plantem! É incumbência nacional. Que a história se recrie. E os portugueses, senão estes outros serão, o olhem lembrando ainda esse D. Dinis de grande alcance e os versos dos poetas que o cantaram, imaginando no rumorejo dos pinheiros o som futuro das caravelas velejando.

 Não queremos ficar encalhados e ajudamos no que podemos. Essa gente martirizada há-de navegar. É dever nosso interessá-los, trazê-los de volta ao mar da vida.

sábado, 28 de outubro de 2017

Educar

Setembro surge-me anualmente como um começo. Uma espécie de Ano Novo antes de tempo. Talvez seja porque me passam à porta as crianças da escola antes dita primária. Já não usam malas castanhas de rebordo redondo, feitas em cartão grosso, uma pega a meio. Hoje, transportam nas costas mochilas alegres ou puxam-nas como um carrinho de compras. Não vestem bata e poucos têm risca ao lado. Mas os principiantes trazem nos olhos o mesmo incerto temor, um receio  antigo sobre ler e escrever. E os sorrisos de nervos disfarçam a inépcia de mãos e mente.  A escola há-de moldá-los formando e instruindo. A escola. A quem hoje tudo se pede. Que informe e forme. Que guarde e proteja. Que substitua o que é insubstituível: a família, primeira célula a que cada um pertence e cujos princípios têm de ser firmes e bondosos. Porque só na família se educa com o amor a sobrepôr ao dever, a protecção sobrevoando – e quantas vezes empatando – os voos de autonomia.
Desde cedo a educação dos jovens preocupou os homens. Veja-se o exemplo de Platão, pensador que viveu três séculos antes de Cristo e se dedicou em pormenor ao tema: que valor tem a educação na vida de um jovem, quem devia ser educado, quais os saberes (disciplinas) com importância e quais os dispensáveis, como se aprende e se alguma coisa pode ser ensinada. Não vale a pena falar aqui sobre as respostas que este filósofo encontrou. Mas vale a pena pensar que, até há poucos anos, saber alguma coisa exigia trabalho, luta pessoal contra a preguiça, pensamento próprio a sobrepor-se ao comodismo. E que tudo isto já Platão disse. Mas hoje, não. Hoje somos modernos e o ideal de saber é lúdico. Ou seja, pretende-se que o aluno escolar aprenda com prazer, a manusear alguma coisa, a descobrir concretamente. Que construa saberes individuais, jogando. E há o recurso às novas tecnologias, o uso e abuso delas. E surgem projectos  empreendedores. A escola centra-se no aluno concreto e na sua envolvência para lhe possibilitar o crescimento. Individual. Isso mesmo: o que importa é o indivíduo e a sua adaptação ao mundo concreto. Portanto, saberes fora dessa esfera, são banidos. Tudo interessa para algum fim concreto. Disciplinas sem aplicação directa a alguma coisa perdem importância e encurtam-se as horas lectivas. Ou saem do currículo. Assim estão as línguas, a história, a filosofia. As humanidades em geral. E aí vem mais uma reforma no ensino (já houve muitas). Não entendo reformas educativas que não privilegiam a cultura como saber universal, o particular entende-se melhor se integrado no todo a que pertence. Não entendo a promoção de uma cultura de superfície, individualista e empreendedora, assente na ideia errada de que tudo se aprende com o mínimo esforço, como num jogo. Não entendo que por exemplo o latim não seja ensinado nas escolas, somos uma língua latina e nada sabemos da nossa origem. Não sou contra concretizações do saber, trabalhos de projecto, uso das novas tecnologias. Mas sei que existem matérias fundamentais que nos estruturam a mente e não se aprendem num mundo de facilidades.

Em rigor, o pensamento concreto também existe noutros animais. O que sempre nos distinguiu deles foi o uso da palavra (e logo o raciocínio e a reflexão); e a conquente acção que, nos homens, pode ser moral. Ora, reduzirmo-nos a aprender a utilizar e explorar o mundo que se oferece ou a criar instrumentos para facilitar o seu uso, é redutor. E, já foi provado que os animais, desde que estejam em presença do problema, também são criativos, encontram soluções. O que eles não sabem é de moralidade. Mas nós, sim. Somos sujeitos morais porque sabemos o que fazemos e se com isso causamos dano ou bem a nós e aos outros.  Somos morais porque distinguimos o que é bem do que é mal. E isto ensina-se com o exemplo. Nas escolas e em todo o lado. E com as tais disciplinas que não têm utilidade  imediata, mas são estruturantes de uma mente que se quer humana.

domingo, 22 de outubro de 2017

A Busca de Sentido

Desorienta-nos o sem sentido da vida. Que ela, por si mesma, garanto, não o possui. Somos nós, seres pensantes – nem sempre bem pensantes –, quem lho outorga. Exigimo-nos nela, é o que é. Bem sei que é lugar comum, mas tenho de sublinhar a humana vaidade, o egocentrismo, a necessidade da muleta racional, o indicador de caminho que subjaz a este pressuposto de sentido que requeremos e apomos a todo o existente.
No entanto, se escavamos no buraco a céu aberto da nossa insegurança vital, temos de reconhecer que tal exigência de sentido nos convém. Não é apenas um capricho de criança mimada, uma ascese religiosa e fanática - até por nem todo o sentido encontrado ser de índole religiosa  -  a procurar cómodos na facilidade dos passos. Não é apenas, mas também pode ser. Que a vida segue sem nós. Imperturbável. Mas, facto fundamental, nós não seguimos sem ela. Se nos falta, terminamos. Por isso, tentamos acomodá-la ao pensamento, à racionalidade que nos orienta e provou ser, até hoje, pelo menos no campo científico, o conjunto de medidas mais eficazes contra doenças e acasos naturais e humanos. Supostamente, a razão, porque compreende,  preserva-nos de moléstias maiores. Agita-se contra a gama de malefícios que, de forma irracional e incompreensível, causamos uns aos outros. Portanto, nesta linha de procura de sentido global, a vida, nosso bem mais precioso, não se exclui.
Quando, já tarde, me iniciaram nas linhas da filosofia, disseram-me que ela nos interpela pessoalmente e faz colocar perguntas gerais, como: por que razão existimos, o que cabe a cada homem fazer no mundo, o que nos espera depois do fim (o que é contrasenso, depois do fim não devia haver nada). Mas, e apesar de estar já na casa dos vinte, nenhuma das questões me preocupava. Devo ser uma avoada de marca maior porque continuo a desconhecer as respostas e não me preocupo grandemente com elas. Não as procurei. Mas agora, neste preciso momento, vou tentar.

Vejamos. Não posso responder pela humanidade. Logo, tenho, talvez egocentricamente, de pensar no meu caso.  abordemos a primeira questão, “por que existimos”. Cientificamente sabe-se que viemos de uma espécie de símios que se desenvolveu até mudar de categoria e se chamar ser humano. Não se sabe se foi dose de acaso, se tem sopro divino, mas demos no que demos. Também ainda não descobri porque existi eu e não outra pessoa, ou porque razão, sendo eu, não possuo outras singularidades, mas só estas; e pouco me interessa se a mistura genética foi casual ou envolve a divindade. Interessa-me que foi. E ainda é. Ao invés, sei que existo e que posso pensar (como Savater, subverto a evidência cartesiana), facto que agradeço em todas as horas e minutos da vida; sendo pessoa, ser pensante, reconheço: detestava encarnar em qualquer outro animal. Peço desculpa a Platão, pensador que admite a escolha entre ser homem ou bicho, mas para isso tinham vocês de ler, pelo menos, o livro décimo da República, obra que não prejudica ninguém apesar de ser antiquíssima. Portanto,  existir é a minha glória; e existir pensando, o maior bem. Todas as causas que estejam por detrás desta evidência me desinteressam. Sobejam. Não lhes faço caso.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sopro

Olívia

            Bem sei que hoje não tens tempo e és bebé. Que os mais próximos, pelo menos esses, te vão abraçar e dar parabéns. E nem sabes quanto desejo que assim seja.
            Quem me dera poder fazer-te um bolo com velas. Um bolo suave, a destoar daquele em que a mana se enganou na receita e ficou dulcíssimo, as senhoras todas finas e mundanas (outro mundo, outro mundo) elogiando por bem parecer, pires xpto na mão. E eu sabendo que não, mas fingindo também. Far-te-ia (ó estranheza de conjugação) um bolo comum, sem extraordinários. Só por gosto de fazê-lo. Contente de ti que gostarias ao menos da ideia. Porque és pré diabética e o fígado, e mais mil e um motivos que encontras para te furtares aos doces que nem aprecias; e também por teres um bocadinho a mania das doenças, sua hipocondríaca disfarçada:). Ainda bem que não te perdes a googlar a lista completa de maleitas com mais os adereços. Endoidavas de vez.
Mas repara, a ideia de haver em alguém uma alegria de que somos causa, é prazer semelhante a quando sobes com dificuldade uma rua e lá no cimo verificas que o resto do caminho é descendente. Suspiras de alívio e satisfação. Hoje, és a minha rua a descer.
Olha, também podia fazer-te uma diáfana massinha de peixe (mas tinha menos piada e deslocava). Ou, quem sabe, não preferias a sopa de peixe à alentejana, um caldo de peixe com tomate e sopas migadas no prato. Com o teu amor pelo pão eras bem capaz de preferir o último. E escusas de negar, bem sei que nos restaurantes usas de contenção para não o atacares com vigor. Há pormenores que fixo sem querer, queres o quê?!. Mas pronto, deixemos o cardápio em paz. Fica só o bolo sobre a mesa e pronto. E depois apagas as velas com as crianças. É um dever teres crianças por perto; não há bolo de anos que valha a pena sem crianças. Que é para acenderes as velas n vezes. E elas apagam à vez, agora sou eu, agora eu, tu já foste, chega-te para lá se faz favor, eu é que fico aqui em frente do bolo. Portanto, minha doce amiga, junta vizinhos, primitos pequenos de terceira ou quarta geração, não importa quem, mas crianças.  Porque a vista dos bolos de aniversário insufla-lhes as bochechas e cantam que se desunham. Nada a fazer, são exuberância necessária ao teu dia.  
E parabéns por mais um ano. Aproveito o momento e saio enquanto o coro deles entoa e só as velas brilham no escuro. Na verdade,  mercê das circunstâncias e de nós duas, não chego a fazer-te falta.  No entanto, como outros que te rodeiam, estou sem estar.

Um beijinho doce e algum génio para mais um ano difícil

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Teclas Sem Rumo Certo

O mundo não anda bem, evidência que se apercebe sem arte ou complexidade. Está. O mal do mundo implantou e vive um pouco como aqueles mamarrachos que estragam a paisagem e só vistos de longe causam menor dano; próximos, são puro mau gosto. Estão. Isto porque, em bom português, o que está nem sempre é. Pode ser. Ou não. Muito embora, em alguns idiomas, o verbo ser tenha dupla face e seja também verbo estar. Dois em um. Para nós, portugueses,  uma coisa é uma coisa e ela apenas. Ponto final. 
Contudo, será possível ser sem estar e estar sem ser?! Vamos por partes. Se eu for um sujeito dado à experiência e ligado ao que é físico e mensurável, se chamo ser ao que posso agarrar, puxar, empurrar de alguma sorte, direi que tudo que está, também é; e que é impossível estar e não ser (quem uniu os dois verbos linguísticamente, era decerto experimentalista).  Mas então para que foram os portugueses – e decerto outros povos – cindir o ser do estar. Seremos povo muito dado à meditação e filosofice. Pois, nem por isso. Percorra-se uma história da filosofia. Não há um único filósofo português (cuidado para não se inferir que não reflectimos e somos uns cabeças de vento; não é isso). É um bocadinho triste não termos um nome a soar na história do pensamento filosófico. Mas pronto, somos pobres, temos de trabalhar, damos uma no cravo e outra na ferradura e a reflexão é exigente e descompadece destas misérias. Que, não esquecer, a filosofia  nasceu do ócio. É isso mesmo que estão pensando, é filha do papo para o ar, do trabalho escravo, da subsistência assegurada. E, com o tanto que aquela gente escreveu e pensou, e de forma elaborada se propôs a entender o mundo – difícil e impenetrável a muita gente –, ainda por cima fazendo sentido, o que é deveras admirável e original, pois, dizia eu, não foi decerto a aplanar tábuas de navio ou a passar fome e a morrer embarcados a intervalos sem marcação, que filosofaram. Meus senhores, estes portugueses não tinham tempo nem requisitos para tal função. Se nem sabiam ler. Dir-me-ão que houve um filósofo que nada escreveu. Ora, não escreveu, mas sabia fazê-lo; além disso, tinha um secretário de qualidade visto que tanto sabemos do seu pensamento e da forma como discorria e ele mesmo nem uma letra redonda deixou. Podem redarguir, ah, e os letrados, a finura dos nossos gentis homens?! Desculpem, desculpem. Já sei, houve um rei poeta logo na primeira dinastia. Casado com uma santa. Tenho para mim que fez versos por isso, as santas podem ser maçadoras como esposas, uns madrigais sempre amenizam a aura de santidade e desvinculam da catequese; além disso, regaços de rosas, é ponto assente, avivam a poiésis. E cantigas de amigo, e isso. Ó meus amigos (sem cantiga), a poesia não é o espírito filosófico. São distintas formas de entender o mundo. E poetas, ó senhores, poetas nós somos quase desde o berço da nacionalidade como mostra a história do rei lavrador cujo, decerto, nunca pegou na enxada. E só não foi logo de berço porque não consta que D. Afonso Henriques tecesse madrigais à moirama ou a D. Mafalda que muitos dizem ser Matilde e até prefiro; aquilo era um mancebo que se enfurecia de tudo e nada e muito dado à matança de castelhanos e infiéis (se lhe batesse a bolha até os fiéis marchavam). É ponto assente, apesar dele, somos poetas sem evasiva. No mais humilde português saltitam versos e rimas (excepto no meu pai e noutros seres masculinos e femininos que saem ao primeiro Afonso da História). E portanto. Hoje há pretensões a filósofo de nome próprio, com carteira montada. Pois há. Mas, desculpem, José Gil, Eduardo Lourenço, Manuel Antunes e mais uns sábios que não recordo. Ainda não me convenceram que o século XX empurrou os portugueses para a congeminação filosófica. São pensadores, sim. Professores e estudiosos de filosofia, também. Filósofos, da mesma natureza dos alguns que conheço de outros tempos, isso não são. 
Pergunto-me se terá sido por materialismo puro que distinguimos os dois verbos, ser e estar. Ou se antes somos muito do talvez e da simultaneidade de ser e não ser. Ora, sei lá. Eu vim aqui para falar da República e do dia 5 de Outubro tão bem renascido que parece flor desabrochada (lá está a minha veia de poeta de meia tigela a fazer das suas). Vinha contar que estive a observar um panfleto daquele tempo em que a República-mulher aparece desnuda e forte, um autêntico colosso (diria que meia masculina apesar das  fêmeas evidências). Por estas razões, e por outras que não digo, se vê que só pode ter sido um homem a conceber tal figura.  Pois. Era mesmo sobre a República que vinha postar. Mas os meus dedos alienados por gorda pausa, agora fogem às ideias, encaracolam palavras acima e deitam o assunto às urtigas. Ébrios, é o que é. Escrevem sozinhos, pois.  Pobre de mim que não sou nem parente afastada de Lobo Antunes, aquele cuja mão escreve sozinha e de forma tão única dela, que para mim dava-lhe já a imortalidade (à mão) – consta que ele passeia enquanto ela trabalha; na volta, ainda se torna ocioso e põe-se para aí a filosofar. 
E portanto, olha, saem-me só parvidades.

Meus senhores, fica a imagem. Aquela. A da República sonhada: invencível e aguerrida. Por vezes, penso que se ausenta e não está. Mas sonho que é.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

À Descoberta

Não sei se as coisas mudam de acordo com os espaços que ocupam, mas talvez  a mudança nos dê a mão a nós e sejamos uns aqui e outros acoli. Nada de apôr ao mundo o poder que não tem. Coisas são coisas. Estão. E a beleza do quotidiano depende de um sujeito para existir, ele é a possível variação. Quase pueril, o belo vive-nos num raio de sol, na pena que a brisa levanta, na poeira nebulosa que o vento arrasta em remoinho, na pressa que agita braços e tranborda do corpo, evitando o passo dos velhos que hesita vagares e palpa chão.
            Contudo, há males que vêm por bem. São males convertidos ao outro lado, uma espécie de cristãos novos do nosso sentir. Foi assim no dia em que resolvi visitar o, para mim incógnito, Palácio da Ajuda. Que, com a minha pontaria e falta de tudo (não apenas falta de sorte), estava encerrado. E portanto. Visitei, quase em frente,  o Jardim Botânico, o mais antigo jardim de Lisboa. Data do tempo em que D. José, depois do terramoto, por ali mandou edificar, em madeira, a Real Tenda. E para lá se mudou, duvidoso de edifícios em alvenaria. É pois um jardim lindo e velho. Cheinho de artroses apesar da reabilitação. Onde os nossos reis e rainhas passearam devaneios e inquietações e olharam o Tejo sabe Deus com que olhos. Que acrescentaram de espécies exóticas e Junot saqueou sem dó. Que, provavelmente, os lisboetas olvidam, na febre de natas de Belém e Jerónimos e Torre de Descobrimentos e demais história de peso. E não apenas eles. Que o encontrei quase sozinho ainda que o curso de agronomia por ali faça das suas. Deambulei entre árvores centenárias de temíveis raízes egocêntricas, raízes fantásticas e denodadas que partem bancos de pedra e não se sabe se sustentam troncos e copa, se lutam contra eles. Em tudo, o mesmo se repete: com a idade, as raízes crescem, invadem, e o seu vigor ameaça a realidade aérea. Observei os efeitos do tempo em troncos esventrados, que sobrevivem com auxílio, bengalas de metal a endireitá-los, que a coluna vertebral das árvores também sofre. São árvores em fim de ciclo. E a gente passa com respeito por tão longa vida. Continuam como sempre: quietas, paradas, sujeitas às estações. A algumas o tempo esgarnou hastes e tronco, a outras encaneceu. Mas olham ainda a paisagem, contemplam de alto a beleza do Tejo, embebem nos barcos de brincar que ali vogam. Descanso num banco inundado por retalhos de luz que espreita em intervalos de folhedo. E creio que sou feliz. Sou feliz pelos braços soalhentos e olhos fixos no longínquo azul a colar no céu, pelo quase silêncio e por nada me ser exigido, imersa no consentimento de me deixar tomar pelo agora, levada por doce insinuação de sol e claridade. Flutuo. Olho por dentro as orquídeas das estufas que espreitei lá atrás. Lindas e únicas. Espécies vivazes, mas circunscritas. Vizinhas umas das outras.  Perguntei, achas que são felizes?, e ela, não sei. Pergunta retórica, sei a resposta. Nenhuma flor é feliz em cativeiro, sem o alimento dos olhos de outrém a catalogar. A indefinida existência de flor  é vaguidão.

Não sei o que pensaram D. José ou o senhor Marquês de Pombal ao construir este jardim. Mas sei, de certeza, o que sinto a passear dentro dele, a desvendá-lo em princípio de tarde clara, a inscrevê-lo e inscrever-me por surpresa e maravilha. Nas estufas reais e gradeadas, as orquídeas. Sem visitas. Flores lindas e máximas. Preferência de D. Luís. Fixas em retintas cores. Carnudas e arqueadas. Reunidas. Jamais vi flores de tal tristura.

domingo, 3 de setembro de 2017

Parque Eduardo VII e Eu

Defendo, acima de tudo, o prazer das pequenas coisas. Em primeiro lugar porque as grandes não me fazem parte do caminho. Em segundo, tenho em pouco apreço infelicidade e desamor sistemáticos. Claro que na viagem me surgem buracos negros, poços de ar, tempestades, o diabo a sete que, por vezes, me parece setenta.  E não, não julgo que sejam todos produto do acaso. Sei bem que muito contratempo vem de mim e por mim. Bom,  que é como quem diz, pior. Nesta linha, as minhas fantasias nada têm de extraordinário. Não são, infeliz e felizmente, de natureza erótico-sexual. Digo infelizmente porque a sua satisfação ia dar-me um prazer inédito e lupanar; e felizmente porque tal me exigia outra pessoa que, neste ambíguo, os prazeres solitários não são bem a minha praia; ora tudo que exige outros, acresce em dificuldade. E, portanto, nem sei se é pela razão de felizmente, se só porque sim, são fantasias  bem comezinhas. Mas não faço por menos: tomo-as por vitórias. Para que seja isto coisa entendível, conto  uma desde a origem.
Na casa dos vinte, eu não era nem um pouco inédita (ainda não sou). Como tanta gente apressada que enchia comboios e barcos, vivia na margem sul e estudava em Lisboa. À ida, os barcos atulhavam e sentia-se no ar um burburinho de vida retemperada pela noite; no sentido inverso, traziam conversas ciciadas e silêncios, bocejos, cansaço sem rédea e olhos baços sumidos em covas e papos. Os próprios pareciam extenuados, chiavam em queixa demorada e havia um desmazelo poluente que se espalhava pelos bancos adormentados e engolia o oxigénio do ar.  Por mais que arenguem os noctívagos, a noite existe, sobretudo, para o descanso do mundo. Não apenas das pessoas. De tudo que existe.
Nesse tempo, uma das minhas dilectas amigas estudava e vivia de empréstimo em casa de uma madrinha, em rua que não sei, muito perto do Parque Eduardo VII. Aos fins de semana, seguíamos ambas para a outra margem. O meu conhecimento com este parque de Lisboa remonta a essa época. Jantávamos na cantina da faculdade onde não se pediam cartões e rumávamos ao destino, com passagem por casa da madrinha para arrotearmos o saco de fim de semana. A atalhar caminho, atravessávamos pelo meio do Parque e estávamos no Marquês em três tempos. Suponho que, uma vez ou outra o tenha visto antes. Talvez por alturas de greve no metro, mas passei sem lhe ligar meia, toda afadigada com as horas, o meu tempo controladíssimo, a greve a arruinar-me o esquema. Ainda hoje não consigo saber as ruas que o percorrem, mas, pitosga e desorientada quanto baste, nocturnamente, deixava-me guiar pela amizade. Seguia ao sabor da sua sabedoria. Via umas sombras por lá e lembro-me de pensar que, com ruas tão iluminadas e bonitas logo ali abaixo, não se percebia para que andavam as pessoas a passear no escuro (não seguiam como nós, às pressas). Aquilo era mesmo um bocado sombrio, ouvia resmalhar atrás das moitas, mas pensava que fossem coelhos ou passarada. Passava o tempo a levantar os pés temerosa de covas e cabeços que nem havia e ríamos ambas feitas tontas. Havia gente que nos seguia, mas sempre pensei que o caminho não era só nosso e portanto até me sentia acompanhada. Até que certa vez um senhor que se demorava por ali, nos interpelou ao escuro e eu como sempre a pensar que queria informações, atrapalhada, agora pergunta por uma rua e eu não sei qual é. Quis saber o que andávamos a fazer àquela hora no parque. E eu, ela mora ali num prédio daquele lado e o caminho fica mais perto assim. Ele, isto é muito perigoso para duas meninas como vocês. É melhor descerem a rua por ali ou por ali - o braço a apontar as duas ruas paralelas -, não passem mais por aqui. E nós agradecemos muito, eu para a minha amiga, tu achas que há aqui ladrões ou assim? Mas a gente não tem dinheiro, o que é que nos podiam roubar, de certeza não queriam o passe... Mas não voltámos a passar por lá.

Um dia, fomos as duas à Feira do Livro. Eu e ela. Diurnas, diáfanas e sem tostão. Gostei do Parque até mais não poder que livros só vê-los. E nasceu a minha fantasia: deitar-me naquela relva. Todos os anos a olhava a pensar, “é este ano”. Olhava e havia lá gente solitária e acompanhada, deitada, sentada, a descansar,  conversar, namorar, ler. Pensava, “é só ir para lá, ninguém me nota”. Mas não conseguia. Anos e anos disto. Muitos. Muitíssimos. Dezenas. Passava de autocarro ou de carro e um enlevo no relvado, tenho de me deitar ali, tenho de lá estar nem que seja só uns momentos. Chegava outra Feira do Livro, tanta gente a flanar, ambiente propício, era só aproveitar. E nada. Saía a constatar num desalento, “ainda não foi desta”, os jacarandás, “aselha! Que é que custa ires lá para dentro e deitares-te, hoje é que era”. Até que houve um dia em que, hélas!, consegui. Entrei, andei lá por dentro como quem caminha sobre nuvens, deitei-me na relva, o volume de poesia de Ruy Belo sob a cabeça. E nunca o céu me pareceu tão azul nem o cheiro de relva tão seráfico. Não se descreve a frescura da terra sob o corpo um friozinho agradável a entranhar roupa dentro, a chegar-me à pele antes desapercebida; e o cheiro, a sensação do azul sobre mim, a coragem de estar ali. Foi um momento supremo. Coisa irrepetível. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

História Esquisita com Beldroega

Bonito. Ali estava eu acocorada e de braço no ar. Eu e um homem que mal via contra o sol (ai os óculos, ai o chapéu). Baixei o braço. Levantei-me. Juro que ele não buliu, figura sólida e consistente. Confirmei, não era fantasma ou morto-vivo. Olhei franzidamente o rosto escurecido contra a claridade, traços sombrios e  indistintos. Usava óculos de sol, coisa que aos mortos não lembra se lhes dá para aparecer.  Puxei da minha tonalidade mais saturada, aquela que a minha avó apelidava de “desimpaciente” e respondi, não tenho lume, não fumo. Não se moveu. E eu, mau Maria, não querem lá ver que não me respeita a idade e nem o lugar? Acrescentei, procure noutro sítio. Então ele mudou de lugar e, à claridade alentejana vi-lhe o rosto. Em jeito afável, sorriso de olhos longínquos, invectivou quase doce, não me conheces, mas conheci-te mal te pus os olhos, carregavas um balde com água. E eu já a abraçá-lo numa alegria também temperada de antigo, cheia de gregas e colchetes pegadiços, Octávio!...que é feito de ti? Há quantos anos...Ele a explicar-se, vivo por aqui, se vou para o outro lado, atravesso pelo cemitério. É mais perto, não tem ninguém e despacho-me num instante. – e a escorrer troça bem humorada, aquilo do lume era a brincar, só para me reparares; há muito que não fumo.
Esqueceu a pressa. Esqueci o sol na moleirinha e a beldroega. Esquecemos o lugar. Num cemitério cheio de sol, atardámos à conversa de muito ano, pergunta aqui, recorda ali, até ao toque da sineta. Era a hora de almoço. Despedimo-nos afogueados e suarentos, com promessas de reencontro, um café, um lanche em lugar fresco, só para desdobrar assunto. Meti-lhe no no bolso o meu número de telemóvel, enfiei os apetrechos no saco, a beldroega maneta a olhar-me intempestiva, tufada de rancores. E rumou cada um para seu lado. No regresso,  ainda imersa em novidade e agradada do acaso, notei o quanto nos tínhamos perdido em memórias sem assomo de presente. Contudo, ele levara o meu contacto e tinha-me parecido contente com o encontro; havia tempo para.
Mas a vida enrola-se-nos à cintura e exige. Entrei em casa e os chamados instantes da realidade mais a vizinha que uma ambulância levou já sem vida, varreram-me o encontro feliz. Só voltei a lembrá-lo quando, à tardinha, em regurgitação de cansaços, visitei minha irmã. Estávamos à mesa – é à volta de mesa posta e redondas conversas por entre a mastigação que esmiuçamos novidades – e contávamos as pequenas bagatelas que desoprimem as mulheres. Minha irmã é prazeirosa de ouvir, conta a cores e faz de tudo uma história. Tenho certeza que aquilo que tão bem encadeia, só é bonito e alegre por ser ela a contá-lo. Domina a suprema arte da oralidade. Esguia as palavras, prolonga uns sons, encurta outros, e dá, a cada, um novo fôlego.  Porém, a mente é sinuoso ruminante; descontraída, compraz-se a trazer à consciência o que antes esqueceu. Por entre o conversedo, trouxe-me o Octávio. E, pela primeira vez, reparei na impressão agradável que me deixara. Virei-me para ela, não adivinhas quem encontrei hoje....e ela toda olhos em ponto de interrogação, quem foi. E eu, o Octávio, aquele garoto que vivia na nossa rua quando começámos os estudos, lembras-te? Ela pasma, olhos em bico que é como quem diz redondos de admiração. E torno, grande surpresa, ham, nem perguntas como está. Ela a fixar-me de mão estendida e faca paralisada a meio de uma fatia de bolo, esse Octávio não foi de certeza, o rapaz morreu vai para mais de dez anos. Eu, não pode ser, pois se o vi, dei-lhe o meu número de telemóvel e tudo. Ela séria, deixa-te dessas coisas, o rapaz morreu, então não te recordas? E não me recordava. E também tinha certeza, era ele.  Mas a faca ainda estava parada a meio do corte e disfarcei, tens razão, deve ser confusão, ele disse Octávio e lembrei-me desse, mas deve ser um colega da secundária. Não faças caso. E a faca desceu suave até ao breve estalido de bater no prato de loiça e a fatia já separada, a querer tombar. E eu para dentro, atónita até ao mais fundo de mim, que grande imbróglio.
É noite fechada. Estou em casa. Penso no Octávio. Nele. O único que conheço ou conheci, que não é nome muito usual. Bem sei com quem conversei e sobre que assuntos. Era ele inteiro, o que estudou comigo, morou na minha rua e muito livro trocámos até à sua mudança de residência e de cidade. Não há engano possível, era ele. Mas confirmei com amigos, eles ao telefone, morreu mesmo, é verdade, sim. Soube que está enterrado naquele cemitério. O mais incrível é que não me assusta a certeza de ter estado à conversa com um morto.  Contudo, não sei se volte que os sardões já me afastavam qb, entrava a arrastar os pés só para lhes dar azo à fuga.

Não pode ser, não apanhei sol a mais. Eu não o inventei. Ele levou mesmo o meu número de telemóvel, tenho meia folha da agenda rasgada a comprovar (e a beldroega maneta, que assistiu a tudo). Um dia destes, quem sabe, encontramo-nos com um refresco na frente. É um morto? Ora, a mim tanto se me dá. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

História Esquisita com Beldroega

O cemitério português é uma chatice cheia de pedras e jarras pesadíssimas onde nascem flores plásticas. Não aprecio cemitérios. Como diz um frade conhecido, não mora lá ninguém; ele não tem lá que fazer, eu, por acaso, tenho. E hoje calhou ir a um. Como os mais, sem vivalma. Era eu e o bem aventurado sol que, decerto por me ver só, quis acompanhar. E as minhas tarefas domésticas. Sim, aquelas mesmas de limpar pó, lavar, varrer, arrancar ervas daninhas que medram à velocidade da luz em lugares adubados. E não garanto, mas quase aposto que os sardões amarelos e verdes que se assustam comigo e eu com eles ainda lá passeiam pelos subterrâneos. Haja Deus que hoje nem havia calor em demasia e não se quedaram de olhinhos desconfiados a olhar-me de lado, que é só como sabem olhar, e o meu coração logo na garganta que nem sei como é que ainda consigo dizer ai e saltar para trás com pernas de mola enquanto eles somem numa repelência que me dispõe ao vómito. E posto que sózinha e avoada, esqueci o chapéu e tive de aguentar-me à soalheira (solinho não amofines que bem sabes a falta que me fazes e o agrado em que te envolvo). Eu lavando e lavando as moradias empedradas (coitadinhos dos mortos soterrados lá em baixo) e a pensar nos meus chapéus tão pipis, que me emprestam um certo quê e sou pata que fica menos pata. Pronto, é isso, o cenário é de valor negativo e penso em coisas positivas, como uso antes de adormecer. Entretanto, também esqueci o elástico de prender o cabelo e lá andei no meio do mato, pouco vendo de pedras e jarras. Quer dizer que o franjado me esbateu os rigores da compaixão. E quanto o meu chapéu de gordo laço preto e aba derrubada me faria outra! sombreava-me o olhar cujo me faz muita falta, mas  nada perde em não ser visto; e aposto que as maçãs do rosto iam parecer geradas no glamour da Paramount ou por aí, e em tudo opostas ao jeito de mexicana pobre e sem cintura  que me cabe (falando verdade, não há chapéu que renda na cintura). Pois estava eu nestes preparos e encandeada de quase tudo branco que os óculos de sol também em casa (cabeça, cabeça, o Variações tinha razão), dizia eu que me entretinha a esquartejar, braço a braço,  uma beldroega do tamanho de um naperon, a faca uma lástima no corte, quando oiço uma voz mesmo ao meu ladinho,
 - tem lume?
Palavra que nem liguei. Sou um bocado dada a falar sozinha e inventar coisas; por vezes oiço passos e não vem ninguém; sinto os assentos das cadeiras a ir abaixo por desporto; e outras bagatelas que não são portas a ranger nem móveis a resmalhar. E, convenhamos, ninguém vem para o cemitério pedir lume, há muito lugar para isso neste mundo de Deus. Portanto, dei pressa ao sadismo sobre a beldroega advertindo-me em pensamento, estás a alucinar, tu tem cuidado com o sol que te faz mal à moleirinha. A congratular-me, vá lá que a linfa é pouco vistosa. Mas a voz repetiu,
- tem lume?
E havia uma sombra na pedra. Alto lá que isto é a sério, pensei, a beldroega presa por um braço que nem garota mal comportada, o redondo do naperon de antes num breve triângulo de queijo  que sou desalmada a tripudiar intentos da natureza. Investiguei de cabeça ao alto e a voz tornou,

- só pedi lume, não precisa apontar-me a faca. 

domingo, 27 de agosto de 2017

Imagens e Percepções

No verão, as cidades tufam suas praças como roda de saia. Umas exibem-nas em plissado cetinoso, outras franzem singelas, e as mais estendem-se em metros e metros  de esplendor, projecto de alta arquitectura. As praças das cidades falam por elas. E são um Terreiro do Paço pequeno e airoso, com Tejo ao fundo; um franzido agradável que cai bem e tem história, a gente a imaginar a defenestração de um Miguel de mau presságio que se estatela no chão.
Na Polónia, como em países que lhe são próximos, edifícios e praças são outros, mais coloridos e demorados no pormenor. Semeados de flores que amiudam aqui e ali em ninhada de arco íris. Prendemo-nos ao triângulo das frontarias, à cor conjugada das paredes, à beleza inclinada e pródiga dos telhados. E a mente voa até às mãos de labor. As mãos que criaram a efeméride que perdura exposta aos elementos, aqui uma estátua, ali uma janela, além uma sugestão de onda. Nestes edifícios, os telhados excedem-se, não são apenas a tampa da casa. Existem por si e não se restringem à função de fechamento e parte da casa que recebe o que as nuvens deixam cair. Por cá, há quem meça o valor de uma casa pelo número de divisões; mas talvez nesta parte da Europa ele dependa da ornamentação e riqueza dos telhados. É ver o cuidado que põem nos frisos e ornamentos, ele são esculturas, janelas, torres e zimbórios, boleados em degrau. É como se as casas enlouqueçam pelo telhado. Erguem-se austeras e regulares, mas, chegadas lá acima, todas se envaidecem, perdem siso e contenção. Espanejam de lantejoulas, armam-se de importância e olham de alto (altura não lhes falta).
E há as praças vivíssimas, a regurgitar de gente: em fila, o negócio de carruagens e cobiçadas condutoras de rédea na mão e traje rigoroso, a sua delicadeza luzindo na elegância dos cavalos; os fazedores de bolas de sabão que manejam o arco e atraem a alegria de crianças saltadoras; os talentos de esquina que tentam a sorte, boné estendido; os vendedores de quiosque e suas matreirices de cordel; a estudante que, na sombra norte da praça, toca violino de olhos fechados, rabo de cavalo a acompanhar-lhe a paixão, o cetim do estojo clamando do solo, reparem-na, é uma artista. E ela empolgada e fora de órbita. Linda por todo o lado.

E à sombra das catedrais, no empedrado das ruas, nos caminhos dos parques, os turistas são mole em movimento, nariz no ar. Velhos e novos; herdeiros e deserdados; conhecedores ou simples curiosos. Enquanto isso, a finesse resguarda-se, abriga-se do sol e observa o espectáculo de outra esfera. Tem pose, sabe estar. Não sua em bica e despreza calores que enrubescem. Bebe sumos, talvez; refresca-se. Ou será um vodka gelado. A firmeza dos empregados desvia turistas de pé descalço e distraídos que assomem a recuar por uma foto. Não. Ali é chão sagrado. Tão perto da praça e da catedral. Tão junto ao Deus que amou todos por igual. E tão longe dos homens comuns e sua febre de vida. Passo e a atenção dos funcionários mede-me a pegada. Dali, miro a praça e apenas sinto o seu tumulto sonoro. Talvez, pela noitinha, haja uma orquestra vestida a preceito, afinada, famosa. Mas perderam para sempre aquele momento de magia poética, a vibração que serpenteava, desde os pés, pelo corpo jovem da violinista e se ouvia em repentes ternos e maviosos. Irreais.

domingo, 20 de agosto de 2017

Distintos e Plausíveis

Polónia. Florescente país de mulheres elásticas e serpentinas. Lugar de gente metida consigo e rodeada de amena vegetação de crianças, beleza eslava e diversa da latina onde mora um jeito cigano e palrador que estrebucha, resmunga, se rebela sem pejo. Polónia é terra de homens sem graça, rosto de bebé chorão que cresceu anómalo e não condiz. Os seus campos encompridam a lembrar a doçura da paisagem Toscana imbuída de verdes-veludo e fenos arrumados em cilindro. Falta o aprumo pretoriano dos ciprestes montado no redondo das colinas. Que, pelo chão, há idêntico amarelo campesino e simétrico. Ou não fosse a Polónia um país agrícola de campos rectos, lisos, com o viço da floresta em fundo. Expostos à luz, são beleza crua, expurgada  da suavidade poética que mão divina arredonda na Toscana, para se entreter de gosto a posicionar cada cipreste em seu lugar natural.

A poder de euros, o país acordou para a febre de estradas e evolve num rodopio de obras e filas de trânsito. E enquanto o meu pobre Portugal se consome e imola pelo fogo, as florestas polacas vestem-se de penumbra e refulgem no fresco mistério de gotas a desprender. Desde a raiz, cada árvore desafia o infinito. Nos caminhos sinuosos, um aconchego de folhas a sobrepôr cria um mundo de segredos e arreda o firmamento, o solo em teia de raízes. Ciosa, a floresta encerra o passante dentro de si e recebe-o no seu interior de clorofila e humidade. Isola-o. E prevalece.  Vibra nos pequenos sons, nas gotas que caem sobre o solo, na agitação ciciada dos ramos mais altos, no restolhar de animais que passam a escapulir-se dos pés. É a eclosão exudada da natureza sem projecto. Fertilidade de silêncio. Húmus que se respira. Transpiração odorífica que entontece. Peculiar, íntima. Ali, a nudez do homem ajoelha à liturgia de força sagrada e vegetal. Cede à voz da terra. E diminui ao seu tamanho. Sem basófia.  Ele e a terra originária. Ele, no imenso templo natural. Em clausura e liberdade.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Senhor António

Nos primeiros tempos não dei por ele. Transpunha a cancela a adiantar hipóteses, fixo num futuro de papéis, rememorando urgências telefónicas e post-it, minutos em desconto para um café. Confesso, não o via. Passaram meses até lhe notar a atenção. Rasa. Fluida. Creio que foram os olhos funcionais.  Ou tínhamos, em verdade,  de nos cruzar.
Naquele dia,  pretendia chegar com algum avanço a um encontro importante. Queria rever os pontos fundamentais da negociação e relembrar estratégias e pormenores. As informações sobre a gestão e personalidade de quem me aguardava corriam-me a bold na mente e sabia que o acordo entre ambas as partes dependia da transição entre a  exigência flexível e amigável e a imposição em trompe d’oeuil que cerceia amizades. Tinha sido escolhido por isso mesmo. Sem falsa modéstia, dominava essa arte de dar e retirar sem mão, parecendo que dava mais do que subtraia quando sucedia o inverso.  Claro que vendia o produto apoiado em cálculos e dados reaise transparentes,  mas escamoteava especificidades que os tornavam pesados e menos lucrativos. Esse era o ingrediente secretíssimo. Na vida empresarial, a transparência conquista-se, iça-se do fundo de água turva onde nasce o lucro. Enredado neste conciliábulo, só reparei na avaria da cancela quando, imediatamente antes de embater, o homem avançou, abriu manualmente, e regressou à cabine envidraçada. Irritei-me. Baixei o vidro na intenção de um ralhete. E dei com os olhos dele sem expressão, meros botões atentos e já acesos para o veículo que transitava atrás. Levantou-se. Imaginei que iria proceder a idêntico conjunto de movimentos. E desisti. Afinal, eu vinha distraído e ele executara a função em tempo útil, de modo a evitar colisão. Acelerei até ao meu lugar no estacionamento e quando entrei no elevador, já o esquecera.
A vida tem caminhos por onde seguimos atarantados e em corrida insana. Na mira dos pontos de chegada, não os reparamos, estão sem estar. Contudo, nada é tão aberto e disponível. Teremos de palmilhá-los. Ou não. Pode a morte apanhar-nos a meio, ou a um quarto. Notá-los é a única forma de os viver e sermos gratos. Os caminhos que a vida – quiçá um deus – nos deu. Chão dos nossos passos. Mas isto era assunto que, então, não me ocorria. Caminhava como os jericos, a olhar em frente. Os objectivos como degraus, nem sequer metas ou zonas de verde respiração. O caminho existia-me em forma de subjecividade radical: dizia respeito à velocidade e tipo de passada, ao número de degraus transpostos. Competia comigo mesmo.
Nesse fim de tarde, saí a pensar numa bebida. Fora bem sucedido. No dia seguinte, iniciava outro desafio.  Apetecia-me fechar o dia. Adormecer no sucesso. Pensei vagamente que um brinde não ficaria mal, mas não havia com quem, o mundo de colegas laborais era pouco atreito a celebrar vitórias de outrém e a namorada estava longe e em trabalho. Tomaram-me de assalto as suas pernas a sairem da t-shirt, os pés descalços, mamilos a enrugar o algodão, e alaguei em ternura.  Concentrei-me na escolha do lugar, o sorriso meio irónico e cabelos de rapazinho maroto a persistirem.  Afastei-lhe a imagem e, enquanto atravessava a rua, fitei a mancha escura de árvores copadas. Gostava daquele lugar fora do bulício. Entrei.  Uma luz discreta iluminava o interior. Sentei-me nos fundos, alarguei o nó da gravata e pedi. A meio da garrafa requisitei outro cálice e chamei o empregado, importa-se de brindar comigo? Ele trouxe um copo, largou o tabuleiro sobre a mesa e encheu os dois. Quando o ergueu li-lhe o nome na chapinha de metal: António. Olhei-o vagamente, À nossa. Bebeu de um trago e, sem palavras, voltou à sua lida. Não agradeceu. Cumprido o desejo do cliente, retomou a actividade. Alguma coisa nele me parecera familiar, mas julguei tolice. A essa altura já o mundo me parecia risonho e eu era leve. E desliguei.
Passados dias, o funcionário da entrada pede para falar comigo. Tratamos do assunto, olho a chapinha do nome e, António. Era ele. Os mesmos olhos sem expressão, corpo de nem orgulho nem submissão, solicitude comprada. Quando à noitinha fui confirmar, encontrei-o no pub. Um desempenho perfeito e maquinal.
Intriguei com o homem. A empresa não pagava mal, o que o levaria a deter dois empregos?! Investiguei com o dono do pub, mas conheciam-no apenas dali. Usava pontualidade inglesa, calado e sem amigos. Satisfazia em absoluto no trabalho. Quando o investiguei na empresa verifiquei que estava indicado como trabalhador de continuidade, não faltava e não existia registo de queixas.

Entretanto, comecei a passar a cancela com um aceno de cabeça que só os olhos dele pareciam notar. Se voltava ao bar, a resposta ao meu cumprimento não diferia de nenhuma outra. Continuávamos estranhos. Certa noite, não aguentei a curiosidade e esperei-o no fim de turno. Apareceu com um cãozito pela trela. Silenciosos ambos. A sentir-me um estorvo inquiri, na sua idade, dois empregos são castigo, se precisar de dinheiro...Olhou-me sério. Andou uns passos comigo e o cão ao lado. Sentia-me um inútil, a chave do carro a bater-me nos dedos, sem saber que fazer. Parou e sem se voltar murmurou a olhar o alcatrão, há tristezas tão grandes que perdemos o tino, deixamos de mandar em nós. Mas ainda reagimos a ordens. É por isso que tenho dois empregos. Olhe, sou como este cão. Só que não tenho dono. E afastou-se.